Desespero

Vladimir Nabokov · Capítulo 5 de 13

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Desespero

Capítulo 4

“Caro Felix: Consegui trabalho para você. Em primeiro lugar, devemos ter um encontro frente a frente, um monólogo para acertar os ponteiros. Como tenho de ir a negócios à Saxônia, sugiro que se vá encontrar comigo em Tarnitz, que, segundo espero, não deve ser muito longe do lugar onde está atualmente. Mande dizer-me, sem demora, se meu plano lhe convém. Em caso afirmativo, eu lhe direi o dia, a hora e o lugar exato, além de mandar-lhe o dinheiro que possa custar a sua viagem. As muitas viagens que costumo fazer me impedem de ter uma residência fixa, de modo que será melhor mandar a sua resposta para a posta-restante de... (segue-se o endereço de uma agência postal de Berlim), com o nome “Ardalion” no envelope. Por enquanto, adeus. Espero as suas notícias”. (Não havia assinatura.)

Aqui está diante de mim a carta que finalmente escrevi naquele 9 de setembro de 1930. Não posso mais saber se empreguei “monólogo” por lapso ou pilhéria. A carta está batida num papel azul muito bom que tem como filigrana o desenho de uma fragata. Mas está agora lamentavelmente dobrada e com as dobras e cantos sujos, havendo ainda talvez vagas marcas dos dedos dele. Parece, portanto, que eu fui o destinatário e não o remetente. Ora, isso bem podia acontecer com o tempo, pois não mudamos de lugar, ele e eu?

Tenho em meu poder mais duas cartas escritas em papel semelhante, mas todas as respostas foram destruidas. Se eu ainda as tivesse — se tivesse, por exemplo, aquela resposta idiota que, com uma displicência lindamente oportuna, mostrei a Orlovius (e depois destruí com o resto), seria possível agora adotar uma forma de narração epistolar. Trata-se de uma forma consagrada pelo tempo e com muitos êxitos no passado. De X a Y: “Meu caro Y” e antes disso encontra-se a data com toda a certeza. As cartas vão e vêm — exatamente como o vôo pam-pum de bolas por sobre uma rede. O leitor dentro em pouco deixa de dar qualquer atenção às datas. E, na verdade, que importância tem para ele que uma carta tenha sido escrita a 9 ou a 16 de setembro? As datas são, porém, necessárias para manter a ilusão.

E assim prosseguem as coisas, X escreve para Y e Y escreve para X em páginas e mais páginas. Às vezes, aparece uma pessoa de fora, digamos Z, que intervém no caso e faz sua pequena contribuição à correspondência, mas só procede assim com o intuito de esclarecer o leitor (sem olhar para ele durante todo o tempo a não ser fortuitamente) sobre algum fato que, por motivos de plausibilidade, etc., nem X, nem Y poderiam ter explicado satisfatoriamente.

Por outro lado, escrevem com muita circunspeção. Todos os períodos que começam com a frase: “lembra-se daquela ocasião em que” (a que se seguem recordações minuciosas) figuram no livro, não com a finalidade de refrescar a memória de Y, mas com a de dar ao leitor a referência necessária — de modo que, em conjunto, o efeito produzido é um pouco estranho, sendo aquelas datas cuidadosamente inscritas e perfeitamente desnecessárias, particularmente engraçadas, como já disse. E quando afinal Z irrompe subitamente com uma carta para o seu correspondente pessoal (desde que tais romances fazem supor um mundo formado de correspondentes) falando da morte de X ou de Y ou, então, da feliz união dos dois, o leitor se vê na contingência de preferir a tudo isso a mais ordinária carta de uma notificação de impostos. Em regra, eu me destaco pelo meu excepcional senso de humor, que acompanha em geral uma boa imaginação; infeliz da fantasia desacompanhada de espírito.

Um momento. Eu estava copiando aquela carta e eis que ela desapareceu não sei onde.

Posso continuar. A carta havia escorregado para baixo da mesa.

Uma semana depois, a resposta chegou. Já tinha ido à agência do correio cinco vezes e meus nervos estavam à flor da pele. Felix me informava que aceitava gratamente a minha sugestão. Como acontece comumente com as pessoas sem instrução, o tom da carta dele estava em completo desacordo com o de sua conversação habitual. A voz epistolar de Felix tinha um trêmulo falsete com lapsos de eloqüente rouquidão ao passo que, na vida real, ele tinha uma voz de barítono satisfeito a descambar para um baixo didático.

Tornei a escrever-lhe, juntando dessa vez uma nota de dez marcos e pedindo que ele se encontrasse comigo às cinco horas da tarde do dia 1. de outubro perto da estátua eqüestre de bronze ao fim do bulevar que começa à esquerda da praça da estação da estrada de ferro em Tarnitz. Não me lembro nem da identidade daquele cavalheiro de bronze (algum vulgar e medíocre Herzog, segundo creio), nem do nome do bulevar, mas um dia, atravessando a Saxônia no carro de um conhecido comercial, tive de passar duas horas em Tarnitz, enquanto meu companheiro tentava dar um complicado telefonema. Como sempre possuí uma memória de tipo fotográfico, focalizei e fixei aquela rua, aquela estátua e outros detalhes. Era, na verdade, uma foto bem pequena, embora, se eu soubesse algum meio de ampliá-la, seria possível distinguir até as tabuletas das lojas, pois essa minha objetiva é de admirável qualidade.

Minha carta de 16 de setembro é escrita a mão. Redigi-a na agência do correio, tão emocionado de ter recebido uma resposta à minha carta de “9 do corrente” que não tive paciência de esperar até chegar a uma máquina de escrever. Além disso, não tinha qualquer motivo especial para sentir timidez diante de qualquer de minhas várias mãos, pois sabia que acabaria sendo o destinatário. Depois de botar a carta no correio, senti o que deve sentir uma folha roxa de borda grossa e com veias vermelhas no seu longo esvoaçar do galho até ao regato.

Alguns dias antes do 1° de outubro, aconteceu-me dar um passeio com minha mulher pelo Tiergarten. Paramos ali numa ponte para pedestres, com os cotovelos no peito. Embaixo, na superfície tranqüila da água admiramos a cópia exata (deixando de lado evidentemente o modelo) da tapeçaria outonal da folhagem de muitos matizes do parque, o azul de vidro do céu e os contornos escuros do parapeito e dos nossos rostos inclinados. Quando uma folha caía lentamente, esvoaçava para o alto ao encontro dela, subindo das profundezas sombrias da água, a sua inevitável imagem. O encontro das duas folhas era silencioso. A folha caía rodopiando e, rodopiando, subia para ela pressurosamente o seu reflexo, exato, belo e letal. Não conseguia afastar os olhos daqueles inevitáveis encontros.

— Vamos — disse Lydia e deu um suspiro. — Outono, outono. — disse ela, ao fim de algum tempo. — Outono. Sim, já é outono.

Ele já estava usando o seu casaco de pele malhada de leopardo. Fiquei um pouco para trás e espetei folhas caídas com a ponta da bengala.

— Que beleza deve estar a Rússia agora. — disse ela. (Declarações semelhantes partiam dela no começo da primavera e nos belos dias de inverno: só o verão nenhuma influência exercia sobre a imaginação dela).

— Não há felicidade na terra... Há, porém, paz e liberdade. Um destino invejável por que há muito anseio. Escravo exausto.

— Vamos, escravo exausto. Temos de jantar mais cedo hoje.

— ... penso há muito em fugir... Você certamente se iria aborrecer, Lydia... sem Berlim, sem as tolices de Ardalion, não era mesmo?

— Muito ao contrário. Estou ansiosa também para ir para algum lugar... Sol, mar... Uma boa vida confortável. Não posso compreender por que você o critica assim.

— ... É tempo, querida, é tempo. O coração reclama repouso... Oh, não, não o estou criticando. Por falar nisso, que é que vamos fazer com aquele monstruoso retrato?... Os dias passam e.

— Veja, Hermann, um grupo a cavalo. Sou capaz de apostar que aquela mulher se julga uma beleza. Vamos, mais depressa. Você está arrastando os pés como um menino amuado. Se quer saber da verdade, eu gosto muito dele. Há muito quero dar a Ardalion um bom dinheiro para uma viagem à Itália.

— ... Um destino invejável ... por que há muito anseio. .. Hoje em dia, a Itália não vale nada para um mau pintor. Isso poderia ter acontecido outrora, há muito tempo... Penso há muito em fugir...

— Parece que está dormindo, Hermann. Vamos mais depressa.

Vou ser agora muito franco. Eu não experimentava qualquer desejo especial de repouso. Mas isso vinha sendo o assunto principal entre minha mulher e eu. Sempre que estávamos sozinhos, eu encaminhava a conversa com insensível obstinação para “a mansão de puro prazer” do poema de Puchkine.

Enquanto isso, contava com impaciência os dias. Tinha adiado o encontro para 19 de outubro, porque desejava assegurar-me uma chance de mudar de idéia. Não posso deixar de pensar que se tivesse mudado de idéia e não fosse a Tarnitz, Felix ainda estaria por lá rondando em torno do duque de bronze ou descansando num banco próximo a desenhar com o seu bastão da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, os arco-íris terrestres desenhados por todo o homem que tem um bastão e tempo de folga (nossa eterna sujeição ao círculo em que estamos todos aprisionados!). Assim, ele estaria sentado até hoje e eu continuaria a lembrar-me dele com selvagem angústia e paixão; um dente que dói e não se pode arrancar; uma mulher que não se pode possuir; um lugar que, em vista da topografia peculiar dos pesadelos, se mantém angustiosamente fora do nosso alcance.

Na véspera de minha partida, Ardalion e Lydia estavam jogando paciência enquanto eu caminhava pelo apartamento e me inspecionava em todos os espelhos. Naquela época, eu ainda estava em muito boas relações com os espelhos. Na quinzena anterior, tinha deixado crescer o bigode. Isso alterava a minha cara para pior. Acima da boca descorada, eriçava-se a mancha castanho-avermelhada com uma pequena falha obscena no meio. Eu tinha a sensação de que o bigode estava grudado e às vezes me parecia que um animaizinho cheio de cerdas tinha pousado em meu lábio superior. À noite, quase dormindo, levava as mãos ao rosto e os dedos não reconheciam o bigode. Como estava dizendo, eu passeava pela casa e fumava. De todos os espelhos da casa me contemplava, com olhos apreensivos e graves, um homem artificial e feito às pressas. Ardalion, de camisa azul e com uma falsa gravata escocesa, batia cartas na mesa uma por uma, como um jogador de taverna. Lydia estava sentada à mesa de lado, de pernas cruzadas, com a saia acima da linha das meias e soltava para cima a fumaça de seu cigarro, com o lábio inferior esticado e os olhos fixos nas cartas em cima da mesa. A noite era escura e agitada. De cinco em cinco segundos, aflorava a superfície dos telhados o clarão pálido da Torre de Rádio, uma contração luminosa, a loucura mansa de um holofote giratório. Pela estreita janela aberta do banheiro, entrava a voz pastosa de um locutor de rádio. Na sala de jantar, as lâmpadas iluminavam o meu horrível retrato. Ardalion de camisa azul batia as cartas. Lydia estava sentada com os cotovelos na mesa. Do cinzeiro a fumaça subia. Fui para a varanda.

— Feche a porta, senão vai haver gritou Lydia da sala de jantar. Um vento forte fazia as estrelas piscarem e lucilarem.

— Para onde vai o nosso belo? — perguntou Ardalion sem se dirigir a nenhum de nós.

— A Dresde — respondeu Lydia.

Tinham passado a jogar durachki, os idiotas.

— Lembranças minhas à Sistina — disse Ardalion. — Não, acho que isso eu não posso jogar. Vamos ver. Tem de ser assim.

— Seria bom que ele fosse logo para a cama, cansado como está — disse Lydia. — Escute aqui, você não tem o direito de olhar as cartas do baralho. É desonesto.

— Não tive intenção — disse Ardalion. — Não se zangue, gatinha. E ele vai demorar muito?

— Outra vez, Ardy? Assim, não pode ser.

Continuaram assim durante muito tempo, ora falando das cartas, ora falando de mim, como se eu não estivesse na sala, como se eu fosse uma sombra, um fantasma, uma pessoa muda. Esse hábito deles de fazer pilhérias, que até então sempre me deixara indiferente, parecia-me nesse momento repleto de sentido, como se de fato o meu reflexo é que estivesse presente, com meu verdadeiro corpo bem longe dali.

Desembarquei em Tarnitz no dia seguinte à tarde. Levava uma maleta que me dificultava os movimentos, pois pertenço a essa espécie de homens que detestam carregar alguma coisa. O que me agrada é exibir luvas caras, abrindo os dedos e balançando livremente os braços, enquanto caminho vivamente e viro para fora as pontas rebrilhantes dos pés belamente calçados, que são pequenos para o meu tamanho e são muito elegantes com as polainas cinzentas porque, do mesmo modo que as luvas, as polainas dão a um homem uma elegância madura semelhante ao cachet especial dos artigos de viagem de classe.

Gosto das lojas onde se vendem malas que cheiram bem e estalam, com a virgindade do couro sob o invólucro protetor. Mas estou divagando, divagando. . . talvez eu queira mesmo divagar. .. Mas deixemos isso para lá e vamos continuar. Onde estava eu? Sim, resolvi deixar minha mala no hotel. Que hotel? Atravessei a praça, correndo os olhos em torno, não só a procura de um hotel, mas também num esforço para lembrar-me do lugar, pois já havia passado por ali uma vez e me lembrava daquele bulevar e da agência do correio. Mas não tive tempo de pôr em ação a memória. De repente, a minha visão foi tomada pela tabuleta de um hotel, que tinha à porta dois loureiros em vasos verdes mas essa sugestão de luxo se revelou uma decepção. Logo que se entrava, o mau cheiro que vinha da cozinha estupidificava a gente. Dois idiotas hirsutos tomavam cerveja no bar e um velho garçom, agachado e balançando a ponta do guardanapo debaixo do braço, fazia rolar no chão um cachorro gordo e de barriga branca, que também balançava o rabo.

Pedi um quarto (acrescentando que meu irmão poderia passar a noite comigo) e fui levado a um quarto de bom tamanho com duas camas e um jarro de água choca numa mesa redonda, como numa farmácia. Depois que o garçom saiu, fiquei ali mais ou menos sozinho com um zumbido nos ouvidos e tomado por uma sensação de estranha surpresa. Meu sósia já devia estar na mesma cidade que eu; talvez até já estivesse esperando; por conseguinte, eu era representado por duas pessoas. Se não fosse o meu bigode e as minhas roupas, o pessoal do hotel poderia... Mas talvez (continuei a saltitar de pensamento em pensamento) as feições dele se tivessem alterado e não fossem mais como as minhas, tendo eu, portanto, vindo em vão. “Oh, sim Deus!” disse eu com energia, mas sem compreender ao certo por que falava assim, pois todo o sentido de minha vida passara a consistir no fato de que eu possuía um reflexo vivo de mim mesmo. Por que, então, mencionava eu o nome de um Deus inexistente e me passava um instante pelo espírito a louca esperança de que esse reflexo estivesse desfigurado?

Fui até à janela e olhei para fora: vi lá embaixo um pátio sombrio e um tártaro de costas arredondadas e com um pequeno gorro bordado à cabeça que mostrava um tapete azul a uma mulher rechonchuda e descalça. Ora, eu conhecia aquela mulher e reconheci também o tártaro e o trecho de mato num canto do pátio, aquele redemoinho de poeira, a branda pressão do vento do Cáspio e o céu pálido de tanto olhar fábricas de conserva de peixe.

Nesse momento, bateram na porta e uma camareira entrou com o travesseiro a mais e o vaso noturno mais limpo que eu tinha pedido. Quando voltei para a janela, não foi mais um tártaro que vi ali mas um mascate local que vendia suspensórios, ao mesmo tempo que a mulher desaparecera. Mas, enquanto eu estava ali, recomeçou o processo de fusão, de construção, de formação de uma recordação definida. Voltaram a aparecer, crescendo e aglomerando-se, os matos do canto do pátio e de novo a ruiva Christina Forsmann, a quem eu conhecera carnalmente em 1915, tocou no tapete e a areia voltou a subir no ar. Não pude descobrir qual era o núcleo em torno de que todas essas coisas se formavam, nem qual era o germe, a fonte — de repente, olhei para o jarro de água e disse “quente” — como no jogo em que se procuram objetos escondidos. É muito possível que eu tivesse afinal encontrado a insignificância que, inconscientemente notada por mim, teria posto imediatamente em funcionamento o mecanismo da memória (ou, então, não encontraria coisa alguma e a explicação simples e nada literária seria o fato de que tudo num quarto de hotel provinciano na Alemanha, até a vista, lembra de uma maneira vaga e feia alguma coisa vista na Rússia eras antes) se não me tivesse lembrado do encontro que tinha marcado. Isso me fez calçar as luvas e sair às pressas.

Desci o bulevar e passei pela agência do correio. Um vento brutal estava soprando e perseguindo folhas — corram, aleijadas! — de um lado da rua para outro. Apesar de minha impaciência, eu era tão observador como sempre, notando as caras e as calças dos transeuntes, os bondes que pareciam de brinquedo comparados com os de Berlim, as lojas, uma enorme cartola pintada numa parede cuja pintura se descascava, as tabuletas das lojas, o nome de um vendedor de peixe, Carl Spiess, que me lembrou um Carl Spiess que eu havia conhecido naquela aldeia do Volga de meu passado e que também vendia peixes grelhados.

Por fim, chegando ao fim da rua, vi o cavalo de bronze que empinava as patas dianteiras e usava a cauda como um ponto de apoio, como um pica-pau. Se o duque montado nele tivesse estendido o braço com mais energia, o monumento à luz mortiça da tarde poderia passar pelo de Pedro, o Grande, na cidade por ele fundada. Num dos bancos, um velho estava comendo uvas de um saco de papel; em outro banco, estavam sentadas duas senhoras idosas; uma velha inválida e enorme reclinada numa cadeira de rodas ouvia a conversa das duas com os olhos ansiosos. Duas ou três vezes dei a volta à estátua, observando ao passar a cobra a contorcer-se sob o casco traseiro do cavalo, a inscrição em latim e a bota de montaria com a estrela escura de uma espora. Desculpem, mas não havia cobra de espécie alguma; era apenas minha fantasia que transferia características do Czar Pedro, cuja estátua, aliás, está com botas de cano baixo.

Sentei-me então num banco vazio (havia meia dúzia ao todo) e olhei para o meu relógio. Passavam três minutos das cinco. Pardais saltitavam na grama. Num canteiro ridiculamente curvo, cresciam as flores mais sórdidas do mundo, as margaridas de S. Miguel. Passaram dez minutos. Não, minha agitação se recusava a ficar sentada. Além disso, eu estava sem cigarros e ansioso para fumar.

Entrei numa rua transversal, passando por uma igreja protestante que afetava um ar de antiguidade, e empurrei a porta de um varejo de cigarros. A campainha automática continuou a tocar depois de minha entrada pois eu não havia fechado bem a porta.

— Quer fazer o favor? — disse a mulher de óculos que estava do outro lado do balcão. Recuei mais que depressa e fechei a porta. Logo acima dela estava um dos quadros de natureza morta de Ardalion: um cachimbo sobre um pano verde e duas rosas.

— Como conseguiu isso? — perguntei rindo.

Ela a princípio não compreendeu, mas por fim respondeu:

— Foi minha sobrinha que pintou... Minha sobrinha que morreu há pouco tempo.

Com os diabos! (pensei eu). Já não tinha visto alguma coisa muito semelhante, talvez idêntica, entre os quadros de Ardalion? Bem, com todos os diabos!

— Ah, compreeendo — disse eu em voz alta. — A senhora tem aí...

Disse o nome da marca que costumo fumar, paguei os cigarros e saí.

Cinco e vinte.

Sem coragem de voltar ao lugar do encontro (dando, portanto, ao destino uma chance de alterar o seu programa) e ainda sem sentir nada, nem aborrecimento, nem satisfação, caminhei por muito tempo pela rua transversal que me afastava da estátua e quase a cada passo parava a fim de acender o cigarro, mas o vento teimava em me apagar o isqueiro até que me refugiei num portal e botei o pé-de-vento para correr (que expressão!), depois do que, fiquei vendo duas meninas que jogavam gude. Cada uma delas rolava por sua vez as bolas iridescentes, ora curvando-se para impulsioná-las com o polegar, ora prendendo-as entre os pés para soltá-las com um salto, tudo isso a fim de fazer as bolas caírem num pequeno buraco cavado no chão sob uma bétula de tronco duplo. Enquanto estava ali olhando aquele jogo concentrado, silencioso e insignificante, comecei a pensar que Felix não podia aparecer pela simples razão de que era um produto de minha imaginação que ansiava por máscaras, reflexos e repetições e, portanto, a minha presença naquela cidadezinha remota era absurda e até monstruosa.

Lembro-me bem daquela cidadezinha e sinto-me estranhamente perplexo. Devo continuar a dar exemplos dos aspectos da mesma que me faziam lembrar de uma forma horrivelmente desagradável coisas que eu tinha visto em algum lugar havia muito tempo? Chega até a parecer-me que aquela cidade era construída de certas partículas refugadas de meu passado, porque descobri ali coisas que me eram notável e fantasticamente conhecidas: uma casa baixa azul-clara, que era a cópia exata de uma que eu tinha visto num subúrbio de S. Petersburgo; uma loja de roupas usadas, onde havia ternos que tinham sido de conhecidos meus mortos; um lampião de rua que tinha o mesmo número (gosto sempre de reparar os números dos postes de iluminação) do que havia diante da casa em Moscou em que fui inquilino; e quase a mesma bétula sem folhas com o mesmo tronco em forquilha num espartilho de ferro (ah, foi isso o que me fez olhar para o número do poste). Poderia, se quisesse, dar muitos outros exemplos dessa espécie, alguns dos quais são tão sutis, tão — como direi? — abstratamente pessoais que se tornam ininteligíveis para o leitor, a quem mimo e faço a vontade como uma babá dedicada. Por outro lado, não tenho absoluta certeza da excepcionalidade dos fenômenos mencionados acima. Qualquer homem de olhos vivos conhece bem essas passagens contadas de novo da sua vida passada: combinações de detalhes falsamente inocentes, que sabem revoltantemente a plágio. Vamos deixá-las com a consciência do destino e voltar, com o coração pequeno e uma torva relutância, ao monumento do fim da rua.

O velho tinha acabado as suas uvas e se fora embora. A mulher, gravemente atacada de hidropisia, fora levada na sua cadeira de rodas. Não havia ninguém por ali, salvo um homem, que estava sentado no mesmo banco em que eu me sentara pouco antes. Curvado um pouco para a frente e com os joelhos abertos, estava jogando migalhas de pão para os pardais. O bastão dele, que estava descuidadamente encostado ao banco perto do seu quadril esquerdo, entrou lentamente em movimento no momento em que lhe notei a presença. Começou a escorregar e caiu com um baque no saibro. Os pardais levantaram vôo, descreveram uma curva e pousaram nos arbustos circundantes. Percebi que o homem se havia voltado para mim.

Tem razão, meu inteligente leitor.