Desespero

Vladimir Nabokov · Capítulo 11 de 13

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Desespero

Capítulo 10

Desde a infância, gosto de violetas e de música. Nasci em Zwickau. Meu pai era sapateiro e minha mãe lavadeira. Quando ela se aborrecia, me gritava nomes em tcheco. Minha infância foi escura e sem alegria. Logo que cresci, larguei-me pelo mundo. Tocava violino. Sou canhoto. Rosto: oval. Sou solteiro; apontem-me uma só mulher que não seja mentirosa. Achei a guerra terrivelmente chata. Mas passou como tudo passa. Todo o rato tem sua toca... Gosto de esquilos e pardais. A cerveja tcheca é mais barata. Se a gente pudesse mandar fazer os sapatos no ferreiro como seria econômico! Todos os ministros de estado são subornados e toda a poesia é besteira. Vi um dia dois gêmeos numa feira; prometia-se um prêmio a quem descobrisse alguma diferença entre eles; Fritz, dos cabelos cor de cenoura, deu um tapa num deles que lhe inchou a orelha.. . e olhe aí a diferença! Que boas risadas nós demos! Surras, roubos, crimes de morte, tudo é bom ou ruim conforme as circunstâncias.

Tenho passado a mão em dinheiro, sempre que ele chega ao meu alcance. O que se pega nos pertence e não há dinheiro que seja deste ou daquele. Nunca vi uma moeda em que estivesse escrito: Propriedade de Fulano. Gosto de dinheiro. Sempre quis encontrar um amigo fiel; teríamos feito música juntos e ele me legaria sua casa e seu pomar. Dinheiro, dinheiro querido. Querido dinheirinho. Dinheirama querida. Andei pelo mundo e encontrei trabalho aqui e ali. Topei um dia um camarada bem posto que se dizia parecido comigo. Tolice a dele, não se parecia comigo nem um pouco. Mas não discuti com ele porque era um homem rico e quem faz amizade com gente rica pode virar rico também. Queria que eu dirigisse um carro no lugar dele, enquanto ele tratava de fazer as suas trapalhadas. Matei o malandro e roubei-o. Está agora estendido na floresta, onde há neve no chão, corvos que crocitam e esquilos que pulam. Gosto de esquilos. Aquele pobre cavalheiro no seu belo sobretudo está morto perto do seu carro. Sei dirigir um carro. Gosto de violetas e de música. Nasci em Zwickau. Meu pai era um sapateiro careca e de óculos e minha mãe era uma lavadeira de mãos verinelhas. Quando ela se aborrecia...

E outra vez do princípio, com muitos detalhes absurdos... Assim, uma imagem refletida se afirmava e proclamava os seus direitos. Não fui eu que procurei um refúgio em terra estrangeira; não fui eu que deixei crescer a barba, mas Felix, meu matador. Se eu o tivesse conhecido bem, durante anos de intimidade, poderia até ter achado divertido assentar novo acampamento na alma que havia herdado. Teria conhecido todos os recantos dela e todos os corredores do seu passado. Poderia ter desfrutado o uso de todas as suas acomodações. Mas eu havia estudado a alma de Felix muito pela rama, de modo que não sabia dela mais que os simples contornos de sua personalidade, com dois ou três traços fortuitos. Poderia aprender a fazer coisas com a mão esquerda?

E essas sensações, por mais desagradáveis que sejam, é sempre possível mais ou menos aceitá-las. Era, porém, um pouco difícil esquecer como ele se entregara por completo a mim, como uma criatura absolutamente mansa, quando eu o estava preparando para a execução. Como eram obedientes aquelas suas mãos frias! Aturdia-me por completo lembrar como ele tinha sido dócil. As unhas dos seus pés eram tão duras que a tesoura não podia nem fazer mossa da primeira vez; a unha se enrolava em torno da lâmina como a tira de uma lata de conserva em volta da chave. O homem pode ter realmente uma vontade tão forte que transforme outro homem num boneco? Fiz-lhe de fato a barba? Espantoso! Mas o que mais me atormentava, ao recordar essas coisas, era a submissão de Felix, a qualidade ridícula, insensata, maquinal de sua submissão. Mas, como já disse, superei tudo isso. Muito pior foi o meu insucesso em acomodar-me com os espelhos. Na verdade, a barba que comecei a deixar crescer se destinava não tanto a ocultar-me dos outros quanto de mim mesmo. Terrível coisa é uma imaginação hipertrofiada. Assim, é muito fácil de compreender que um homem dotado de uma sensibilidade aguda como a minha fique num estado verdadeiramente delirante a respeito de coisas insignificantes como o seu reflexo num espelho às escuras ou a sua sombra caindo morta a seus pés und so weiter (e assim por diante). Vamos parar, gente! Levanto a grande mão de luva branca como um guarda do trânsito alemão. Vamos parar! Nada de suspiros de compaixão, nada mesmo! Pare, simpatia! Não aceito a solidariedade de vocês, pois entre vocês há de haver algumas almas que se compadeçam de mim, de mim, um pobre poeta incompreendido. “Névoa, vapor.., e na névoa uma corda que vibra”. Não, isso não é verso, é uma frase do grande livro do velho Dosty, Crime e Castigo. Desculpem: Schuld und Sühne (edição alemã). Qualquer remorso de minha parte é absolutamente impossível: um artista não sente remorso, ainda quando a sua obra não é compreendida, nem aceita. Quanto ao prêmio...

Bem sei que é um grande erro do ponto de vista do romancista que em todo o decurso de minha história — tanto quanto me lembro — se dedique tão pouca atenção ao que parece ser meu principal motivo, a cobiça do lucro. Como é possível que eu seja tão reticente e vago a respeito do objetivo que eu tinha em mente ao tomar providências para ter um sósia morto? Mas nesse ponto sou assaltado por estranhas dúvidas. Estava eu realmente tão empenhado em ter lucro e me parecia realmente tão desejável aquela quantia equívoca (o valor de um homem em termos de dinheiro e uma remuneração razoável pelo seu desaparecimento) ou era justamente o contrário e a memória, escrevendo por mim, não poderia (sendo verdadeira até o fim) agir de outra maneira e atribuir qualquer importância especial a uma conversa no escritório de Orlovius (já descrevi esse escritório?).

E há outra coisa que eu gostaria de dizer sobre minhas tendências póstumas. Embora no fundo da alma eu não tivesse quaisquer apreensões a respeito da perfeição de minha obra, acreditando que na floresta preta e branca jazia um morto perfeitamente parecido comigo, entretanto, como um noviço genial, ainda desabituado do gosto da fama, mas estuante do orgulho que acompanha o vigor próprio, eu desejava dobrosamente que aquela minha obra-prima (concluída e assinada a 9 de março numa floresta sombria) fosse apreciada pelos homens ou, por outras palavras, que a impostura — e toda a obra de arte é uma impostura — tivesse êxito; quanto aos direitos autorais, por assim dizer, pagos pela companhia de seguros, isso era para mim um assunto de importância secundária. Sim, eu era o puro artista romântico.

As coisas que passam são guardadas como um tesouro depois, conforme disse o poeta. Um belo dia, Lydia afinal juntar-se-ia a mim no estrangeiro. Iria vê-la no seu hotel.

— Calma — diria numa grave advertência quando ela já se ia lançar nos meus braços. — Lembre-se de que meu nome é Felix e de que eu não passo de um conhecido seu.

Ela pareceria muito bonita no seu luto de viúva, do mesmo modo que eu ficaria muito bem com a minha artística gravata borboleta preta e minha barba bem aparada. Ela começaria a falar... Tudo tinha acontecido realmente como eu havia esperado, sem um só tropeço. Ela havia chorado com muita sinceridade durante a cerimônia de cremação, quando o pastor com uma emoção profissional na voz havia falado a meu respeito“ ... e este homem de coração nobre...“ Comuniquei-lhe os meus planos e logo depois comecei a namorá-la.

Estamos casados agora, eu e minha viuvinha. Moramos em nossa casinha num lugar bem pitoresco. Passamos longas horas indolentes no nosso jardinzinho de murtas com a vista do golfo azul bem lá embaixo e falamos com muita freqüência de meu pobre irmão morto. Vivo contando a Lydia novos episódios da vida dele.

— É o destino, a fatalidade — diria Lydia com um suspiro. — Ao menos agora, no céu, a alma dele se conforta ao ver a nossa felicidade.

Lydia seria de fato feliz comigo e não precisaria de mais ninguém.

— Como estou contente — diria ela às vezes — de que nos tivéssemos desembaraçado de Ardalion. Eu dantes tinha muita pena dele e lhe dedicava uma boa parte de meu tempo, mas, na realidade, nunca pude suportá-lo. Por onde andará ele? Com certeza, está-se matando de tanto beber, coitado! Isso também é destino!

Eu passaria as manhãs lendo e escrevendo. Talvez dentro em breve publicasse duas ou três coisas ligeiras com o meu novo nome. Um escritor russo que mora aqui por perto elogia muito meu estilo e a força de minha imaginação.

De vez em quando, Lydia recebe algumas linhas de Orlovius, por exemplo, cumprimentos de Ano Novo. Nunca se esquece de mandar recomendações para o marido dela a quem não tem o prazer de conhecer e provavelmente pensa nesses momentos. “Como se consolou depressa essa viúva! Pobre Hermann Karlovich!”

Sentem o sabor picante desse epílogo? Preparei-o ficticiamente de acordo om uma receita clássica. Para encerrar a história, diz-se alguma coisa de cada um dos personagens. Com isso, o fio da existência de todos se conserva correto embora sumariamente relacionado com o que se mostrou anteriormente das suas respectivas tendências. Ao mesmo tempo, introduz-se uma nota jocosa para zombar um pouco do conservantismo da vida.

Lydia continuaria tão esquecida e tão desleixada como sempre...

E para o finzinho do epílogo ficou, rlour la bonne bouche, um prato de resistência especial, possivelmente relacionado com algum objeto insignificante que foi visto de passagem numa parte anterior do romance.

Pode ainda ver-se numa parede do quarto do casal o mesmo retrato a pastel e, como de costume, sempre que olha para ele Hermann ri e diz um nome feio.

Finis. Adeus, Turgue! Passe bem, Dosty!

Sonhos, sonhos.., e para dizer a verdade um pouco triviais. De qualquer maneira, quem se importa?

Voltemos à nossa história. Vamos tentar controlar-nos mais. Omitiremos assim certos detalhes da viagem. Lembro--me de que, quando cheguei a Pignan, quase na fronteira espanhola, a primeira coisa que fiz foi procurar jornais alemães. Encontrei alguns mas nada havia neles ainda.

Hospedei-me num quarto num hotel de segunda classe. O quarto era grande, com um chão de pedra e paredes que pareciam de papelão e nas quais se tinha a impressão de ser pintada a terra de Siena, a porta para o quarto seguinte e com um espelho que tinha apenas um reflexo. O quarto era horrivelmente frio. Mas o fogão aberto da lareira ridícula era tão próprio a dar calor quanto uma lareira pintada de cenário de teatro. Quando as aparas de madeira levadas pela empregada acabavam de arder, o quarto parecia mais frio ainda. A noite que ali passei foi cheia das visões mais extravagantes e cansativas. Quando amanheceu e eu senti o corpo todo pegajoso e irritado, saindo então para a rua estreita, inalando os cheiros enjoativos e fortes e sendo triturado pela multidão meridional que se comprimia na praça da feira, compreendi claramente que não me era possível ficar mais naquele lugar. Com calafrios constantes na espinha e uma cabeça a ponto de estourar, encaminhei-me para o syndicat d’initiatieve, onde um indivíduo loquaz me sugeriu uma porção de lugares nos arredores. Eu queria um lugar bem retirado e quando à tardinha um ônibus vagaroso me deixou no ponto que eu havia escolhido, percebi que era aquilo exatamente que eu queria.

Afastado e isolado, cercado por sobreiros, havia um hotel de bom aspecto com as janelas quase todas fechadas pois a temporada só começava no verão. Um vento forte vindo da Espanha encrespava a penugem de pinto das mimosas. Num pavilhão que lembrava uma capela, uma fonte de água medicinal corria, mostrando teias de aranha nos cantos de suas janelas vermelho-escuras.

Havia pouca gente hospedada ali. Em primeiro lugar, o médico, alma do hotel e rei da rabie d’hôte. Sentava-se à cabeceira da mesa e falava sem descanso. Vinha depois o velho de nariz de papagaio e paletó de alpaca preto que, com um sortimento de fungadelas e resmungos, acolhia o momento em que com um passo leve a criada lépida servia a truta que ele mesmo pescara no rio próximo. Havia um jovem casal que viera de Madagáscar para se meter ali. Havia a velhinha com a gorgerette de musselina, que era professora. Havia um joalheiro com uma vasta família. Havia uma jovem criatura cheia de luxos, que foi a princípio tratada como viscondessa, depois passou a condessa e finalmente a marquesa (no tempo em que estou escrevendo isso), graças aos esforços do médico que não perdia oportunidade de exaltar a reputação do estabelecimento. Não esqueçamos ainda o melancólico viajante comercial de Paris, que representava uma espécie patenteada de presunto, nem o rude e gordo abbé que não se cansava de proclamar a beleza de um claustro dos arredores e que, para melhor exprimi-la, arrancava um beijo dos lábios carnudos que se franziam como um pequeno coração. Creio que com isso está completa a coleção. O gerente de sobrancelhas espetadas ficava perto da porta com as mãos para trás e seguia com um olhar melancólico o jantar cerimonial. Lá fora, um vento destrambelhado pinoteava.

Essas novas impressões tiveram sobre mim um efeito benéfico. A comida era boa. Eu tinha um quarto batido de sol e era interessante ver da janela o vento levantar as várias saias das oliveiras que levava aos tombos. Ao longe, contra um céu implacavelmente azul, destacava-se o cone de açúcar de matiz malva de uma montanha que parecia o Fujiyama. Não saía muito do hotel. O trovejar em minha cabeça, o incessante vento de março cujo impacto cegava e a montanha assassina me amedrontavam. Apesar disso, no segundo dia, fui até à cidade à procura de jornais. Mais uma vez, nada havia neles e, como a curiosidade me exaltava além da conta, resolvi levar alguns dias sem pensar em jornais alemães.

A impressão que causei à mesa do hotel foi infelizmente de um homem rudemente insociável, embora eu me esforçasse ao máximo para responder a todas as perguntas que me eram feitas. Mas era em vão que o médico estava comigo depois do jantar para ir para o salon, uma salinha abafada com um pequeno piano desafinado, cadeiras de pelúcia e uma mesa redonda atulhada de material de propaganda turística. O médico tinha cavanhaque, olhos azuis claros e uma barriguinha redonda. Alimentava-se de maneira muito determinada e repulsiva. O seu processo de liquidar ovos pochés era pegar a gema por baixo com um pedaço de pão e ir depositá-la intacta, com o acompanhamento de uma generosa porção de saliva, na boca úmida e rosada. Costumava recolher, com os dedos manchados de molho, os ossos deixados depois de servida a carne nos pratos dos hóspedes, embrulhar de algum modo os seus despojos que guardava no bolso do amplo sobretudo. Com isso, desejava evidentemente ser considerado um tipo excêntrico. “C’est pour les pauvres chiens”, (É para os pobres cachorros), costumava ele dizer (e ainda diz), acrescentando que “os animais são quase sempre melhores que os seres humanos”, afirmação essa que provocava (e ainda provoca) apaixonadas discussões, que faziam o abbé ficar especialmente exaltado. Ao saber que eu era alemão e músico, mostrou-se verdadeiramente fascinado. E dos olhos que me eram dirigidos cheguei à conclusão de que não era tanto o meu rosto (em fase de transição da lisura para a barbudice) que atraía a atenção mas, sim, minha nacionalidade e a minha profissão nas quais o médico percebia decididamente alguma coisa claramente favorável ao prestígio do hotel. Ele me fazia parar nas escadas ou num dos longos corredores brancos e se entregava a intermináveis conversas, ora discutindo as falhas sociais do representante dos presuntos, ora deplorando a intolerância do abbé. Já me estava atacando um pouco os nervos, embora fosse até certo ponto divertido.

Logo que a noite caía e as sombras dos galhos, que uma lâmpada solitária no pátio captava e dispersava, se estendiam através do meu quarto, uma estéril e medonha confusão me enchia a vasta alma vazia. Não pensem que eu temia os mortos; do mesmo modo que os brinquedos quebrados, eles nunca me atemorizaram. O que eu receava apenas, num traiçoeiro mundo de reflexões, era sofrer um colapso em vez de resistir até que certo momento extraordinário, loucamente feliz e capaz de tudo resolver e que era imperioso que eu atingisse viesse a produzir-se. Era o momento da vitória do artista, do orgulho, da liberação da felicidade. Era a minha obra um sensacional sucesso ou um melancólico fracasso?

No sexto dia de minha estada, o vento se tornou tão violento que o hotel podia ser comparado a um navio que singrasse o mar acossado por uma tempestade. As vidraças ressoavam, as paredes estalavam e a pesada folhagem das coníferas caía com um sussurro declinante e tratava em seguida de assaltar o hotel. Tentei sair para o jardim, mas tive de dobrar o corpo, conservei o chapéu na cabeça por milagre e voltei para o quarto. Depois de ali chegar, mergulhado à janela, em meus pensamentos, em meio a toda aquela agitação e barulheira, deixei de ouvir o gongo e quando afinal desci para o almoço e tomei o meu lugar à mesa, já se servia o terceiro prato — cabidela, macia para o paladar com molho de tomate, que era o prato favorito do médico. A princípio, não dei atenção à conversa geral, habilmente dirigida pelo médico, mas de repente notei que todos estavam olhando para mim

— Et vous. (E o senhor) — dizia-me o médico — qual é sua opinião sobre o caso?

— Que caso?

— Estávamos falando do crime que houve chez vaus, na Alemanha. Que monstro deve ser um homem — continuou o médico, prevendo uma animada discussão — para fazer um seguro de vida e então pegar outro homem e...

Não sei o que me deu de repente mas levantei a mão e disse:

— Escute, pare com isso! — exclamei, descendo a mão fechada na mesa com tal violência que a argola do guardanapo saltou no ar. Gritei então numa voz que não reconheci como minha. — Pare com isso! Como se atreve, que direito tem de falar assim? É um insulto que não posso tolerar! Falar assim de minha terra e de meu povo! Cale-se! — Gritei ainda mais alto: — Tem coragem de me dizer cara a cara que na Alemanha... Cale-se!

Na verdade, todos estavam calados já havia algum tempo... Tinham-se calado desde o momento em que, com o meu soco na mesa, a argola do guardanapo pulou longe, rolou pela mesa e teria caído se o filho do joalheiro não a fizesse cuidadosamente parar. O silêncio era de qualidade excepcionalmente fina. Creio que até o vento cessara de ressoar. O médico, empunhando o garfo e a faca, ficou imóvel; uma mosca ficou imóvel em sua testa. Senti um espasmo na garganta. Joguei meu guardanapo em cima da mesa e saí da sala de jantar, enquanto todos voltavam automaticamente o rosto para me ver passar.

Sem parar, peguei o jornal que estava estendido na mesa do hall e, chegando ao meu quarto, deixei-me cair na cama. Tremia da cabeça aos pés, estrangulado pelos soluços que me subiam da garganta, convulsionado de fúria, com os nós dos dedos sujos de salpicos de molho de tomate. Quando comecei a passar os olhos pelo jornal, ainda tive tempo de pensar que tudo aquilo era absurdo, simplesmente coincidência.. . Dificilmente poder-se-ia esperar que os franceses soubessem do assunto, mas de repente meu nome, meu antigo nome, surgiu dançando diante dos meus olhos...

Não me lembro exatamente do que fiquei sabendo por intermédio daquele jornal. Desde então, tenho folheado montões de jornais e as coisas se têm mais ou menos baralhado em meu espírito. Os jornais estão jogados em algum canto e eu não tenho tempo agora de arrumá-los. Lembro-me, porém de que fiquei imediatamente ciente de duas coisas: em primeiro lugar, a identidade do assassino era conhecida e, em segundo, a da vítima não era. A comunicação não provinha de um correspondente especial e era apenas um breve sumário do que presumivelmente diziam os jornais alemães. Mas era decerto displicente e insolente a maneira pela qual haviam paginado a notícia entre uma divergência política e um caso de psicose. Sentime também indizivelmente chocado com o tom em que a coisa estava escrita. Na verdade, esse tom era tão impróprio, tão inadmissível em relação a mim que cheguei a pensar que se estivessem referindo a outra pessoa com o mesmo nome, desde que esse tom só é usado quando se quer falar de um débil mental que reduziu a migalhas uma família inteira. Creio que era um truque da polícia internacional, uma tola tentativa de amedrontar-me e abalar-me. Mas, antes de compreender isso, fui tomado de verdadeiro frenesi e vi manchas negras diante dos olhos que turvaram esta ou aquela linha da coluna impressa. De repente, bateram com força na porta. Joguei o jornal embaixo da cama e disse:

— Entre.

Era o médico e estava acabando de mastigar alguma coisa.

— Écoutez, — disse ele depois de transpor a porta — houve um lamentável engano. Interpretou mal a minha intenção. Gostaria muito de...

— Fora! — gritei. — Fora daqui!

O homem ficou carrancudo e saiu sem fechar a porta. Dei um pulo e bati-a estrondosamente. Depois disso, tirei o jornal de baixo da cama. Mas não pude encontrar o que pouco antes lia. Examinei-o do princípio ao fim. Nada! Seria possível que eu tivesse sonhado que lia aquilo? Comecei de novo a esquadrinhar página por página. Era como um pesadelo quando alguma coisa se perde e não só não pode ser encontrada mas também não há qualquer das leis naturais que dariam à procura uma certa lógica e sem as quais tudo é absolutamente informe e arbitrário. Não, nada havia a meu respeito no jornal. Nada mesmo. Eu devia estar de fato num estado de cega exaltação porque notei, alguns segundos depois, que se tratava de um velho jornal alemão e não do jornal francês que eu estivera lendo. Baixando a mão de novo, apanhei-o embaixo da cama e reli o comunicado redigido em termos banais e caluniosos. Descobri então o que mais me havia indignado, pois era quase um insulto. Não havia urna só palavra acerca de nossa semelhança. Não só não havia a menor crítica em torno do fato (poderiam ter dito, por exemplo, o seguinte: “A semelhança é impressionante, mas tais e tais marcas mostram que não se trata do corpo dele.”), mas também ela não era sequer mencionada, o que dava a impressão de que o morto era um desgraçado cuja aparência era totalmente diversa da minha. Ora, uma só noite não poderia ter operado tal decomposição no homem. Ao contrário, a sua fisionomia deveria ter adquirido uma aparência marmórea, que cinzelaria mais fundamente a nossa semelhança. Mas ainda que o corpo tivesse sido encontrado alguns dias depois, dando tempo à morte caprichosa de adulterá-la, as diversas fases de decomposição não poderiam deixar de corresponder à minha — reconheço que essa maneira de dizer as coisas é um tanto apressada, mas não estou com disposição a fazer floreios. Essa ignorância fingida do que para mim era o mais precioso e importante me pareceu um truque extremamente covarde pois implicava que desde o início todo o mundo sabia perfeitamente bem que aquele corpo não era o meu e que não poderia entrar na cabeça de ninguém confundir o morto comigo. E a maneira negligente pela qual se narrava, tudo parecia, por si mesma, acentuar um solecismo que eu nunca, nunca poderia ter cometido. Mas ali estavam eles, escondendo a boca e com os focinhos virados para o lado, silenciosos, mas trêmulos, como verdadeiros celerados, a delirar de alegria, de uma malvada alegria vingativa, zombando insuportavelmente de mim...

Bateram de novo na porta e eu me levantei, ofegante. O médico e o gerente apareceram.

— Voilá — disse o médico numa voz profundamente magoada, olhando para o gerente e apontando para mim. — Esse cavalheiro, além de ofender-se com uma coisa que eu nunca disse, insultou-me ainda há pouco, recusou-se a ouvir-me e foi extremamente grosseiro. Faça o favor de falar com ele. Não estou habituado a ser tratado assim.

— Ii jaut s’expliquer (Tem de dar explicações) — disse o gerente, olhando para mim de cara fechada. — Tenho certeza de que Monsieur.

— Saiam daqui! — gritei, batendo os pés. — O que estão fazendo comigo... passa de todos os limites! Querem me humilhar e negar-me vingança. .. Exijo, está ouvindo? Exijo...

O médico e o gerente, com os braços abertos e pulando nas pernas rígidas da esquerda para a direita, começaram a falar aceleradamente e a aproximar-se. Não pude mais suportar aquilo. O meu acesso de raiva passou mas deixou em seu lugar a pressão das lágrimas e de repente (deixando a vitória para quem a quisesse) joguei-me na cama e comecei a soluçar violentamente.

— Nervos, apenas nervos — disse o médico acalmando-se como por encanto.

O gerente sorriu e saiu do quarto, fechando a porta com todo o cuidado. O médico me serviu um copo de água, propôs ir buscar um calmante e me bateu amistosamente no ombro. Continuei a solução perfeitamente consciente do meu estado. Via até com fria lucidez zombeteira a vergonha que aquilo era, ao mesmo tempo que sentia o encanto agradável e equívoco do nervosismo, compreendendo vagamente como me poderia ser vantajoso. Por isso, continuei com o corpo abalado pelos soluços e cheguei a enxugar o rosto no lenço grande, sujo e com cheiro de carne que o médico me deu ao mesmo tempo que me batia no ombro dizia com voz apaziguadora:

— Foi apenas um mal-entendido. Moi, qui dis toujours... Costumo dizer que estamos fartos de guerras. . . Os alemães têm os seus defeitos e nós temos os nossos. A política deve ser esquecida. Acontece que não compreendeu o que eu estava dizendo. Perguntei apenas o que pensava do crime...

— Que crime? — perguntei entre os meus soluços.

— Oh, une sale affaire, um caso horrível. Um camarada trocou de roupa com um homem e matou-o. Mas não se aborreça, meu amigo, não é apenas na Alemanha que existem assassinos. Temos também nossos Landrus, graças aos céus, de modo que não está sozinho. Calmez-vous, tudo isso é nervosismo e a água daqui é uma maravilha para os nervos ou, mais exatamente, para o estômago, cequi reviente au même d’ailleurs (o que vem dar no mesmo).

Falou ainda durante algum tempo e afinal se levantou.

Devolvi-lhe o lenço, agradecendo.

— Sabe de uma coisa? — disse ele já da porta. — A condessinha está muito interessada na sua pessoa. Deve tocar piano esta noite — correu os dedos por um teclado imaginário e creio que poderá levá-la para a cama.

Estava já no corredor, mas de repente mudou de idéia e voltou.

— Nos meus tempos de mocidade e loucura — disse ele — quando me divertia com os estudantes meus colegas e o mais blasfemo de todos nós bebia além da conta, logo que ele perdia a consciência, nós lhe vestíamos uma batina, fazíamos a navalha uma coroa na cabeça dele e íamos bater tarde da noite à porta de um convento de freiras. Quando uma delas aparecia, um de nós dizia: “Ah, ma soeur, voyez dans quel triste état s’est mis ce pauvre abbé. (veja em que estado está este pobre padre!) Leve-o e deixe-o dormir numa dc suas celas”. E imagine que as freiras o recebiam. Como nos divertíamos!

O médico baixou um pouco os quadris e deu uma palmada neles. Ocorreu-me de súbito a idéia de que ele talvez estivesse dizendo tudo aquilo (disfarçar o estudante... fazê-lo passar por outra pessoa...) com alguma intenção secreta e que podiam tê-lo mandado espionar-me... Fui de novo tomado de cólera, mas, olhando para as suas rugas imbecilmente radiantes, dominei-me e fingi que estava rindo. Deu-me adeus com muita satisfação e afinal, afinal me deixou em paz.

Apesar de uma grotesca semelhança com Rascalnikov... Não, isso não está bem. Cancelado. E agora? Decidi que a primera coisa a fazer era obter tantos jornais quanto pudesse. Corri para baixo. Num dos patamares da escada, encontrei-me com o padre gordo, que me olhou com comiseração. Deduzi do seu sorriso oleoso que o médico já espalhara pelo mundo a notícia de nossa reconciliação.

Quando saí para o pátio, sentime de repente atordoado pelo vento. Não desisti, entretanto. Escorei-me vigorosamente no portão e, quando o ônibus apareceu, fiz sinal. Embarquei e lá nos fomos rolando ladeira abaixo com uma nuvem branca de poeira a dançar loucamente atrás de nós. Na aldeia, comprei vários jornais alemães e aproveitei a ocasião para saber se havia carta para mim na agência do correio. Não havia carta para mim mas, em compensação, os jornais estavam infelizmente muito cheios de notícias, demais até. . . Hoje, depois de toda uma semana de absorvente trabalho literário, estou curado e sinto apenas desprezo, mas no princípio o frio tom zombeteiro da imprensa quase me fez perder o juízo.

Aqui está o quadro geral que consegui afinal armar: ao meio-dia do domingo, 10 de março, numa floresta, um cabeleireiro de Kenigsdorf encontrou um homem morto. O que foi ele fazer naquela floresta que, mesmo no verão, permanece deserta e por que só deu parte do que encontrara à tardinha são enigmas que ainda estão sem solução para mim. Segue-se então aquela história extremamente engraçada que, se não me engano, já mencionei: o carro que eu já deixara de propósito na orla da floresta havia desaparecido. As marcas do carro, uma série de TT, determinaram a marca dos pneus, ao mesmo tempo que certos habitantes de Koenigsdorf de memória fenomenal se lembraram de ter visto um Icarus azul passar, um modelo pequeno com rodas de raios de arame, ao que os inteligentes e simpáticos sujeitos que trabalham na garagem de minha rua acrescentaram informações a respeito do número de cavalos e cilindros e deram não só o número da placa do carro, mas também o número de fábrica do motor e do chassi.

A presunção geral é de que eu estou neste momento rolando com o Icarus por algum lugar, o que não deixa de ser deliciosamente cômico. É agora evidente para mim que alguém viu o meu carro da estrada, apropriou-se ato contínuo dele e deixou de ver, na pressa com que estava, o corpo estendido ali bem perto.

Ao contrário, o cabeleireiro que encontrou o corpo afirma que não havia carro algum nas mediações. Que tipo suspeito é esse homem! Parece que a coisa mais natural do mundo para a polícia era passar a mão nele. Muitas pessoas já tiveram a cabeça cortada por menos, mas podem ter certeza de que nada disso aconteceu. A polícia nem sonha em ver nele o possível assassino. Não, a culpa foi lançada sobre mim diretamente e sem reservas, com fria e insensível presteza, como se houvesse uma ansiedade jovial por condenar-me, como com sede de vingança, como se eu de há muito os viesse ofendendo e eles de há muito tivessem sede de punir-me. Não se limitaram a dar de barato, num estranho pré-julgamento, que o morto não podia ser eu. Não se contentando em deixar de observar a nossa semelhança, chegaram ao cúmulo de excluir a priori essa possibilidade (não se vê aquilo que não se quer a viva força ver), a polícia deu um brilhante exemplo de lógica ao exprimir a surpresa de que eu tivesse esperado enganar o mundo mediante o artifício simples de vestir com minhas roupas um indivíduo que não e parecia no mínimo comigo. A imbecilidade e a injustiça gritante desse raciocínio são altamente cômicas. A providência seguinte era logicamente transformar-me num débil mental. Chegaram até a supor que eu não fosse psiquicamente são e certas pessoas que me conheciam confirmaram isso, inclusive o cretino do Orlovius (quem teriam sido os outros?) — que disse que eu costumava escrever cartas a mim mesmo (o que é um pouco inesperado).

O que intrigava absolutamente a polícia era saber como a minha vítima (era muito do agrado da imprensa a palavra “vítima”) acabara por vestir as minhas roupas ou, melhor, como eu conseguira forçar um homem vivo a usar não só meu terno, mas também minhas meias e meus sapatos, os quais, sendo pequenos demais para ele, deviam ter-lhe apertado os pés... (ora, eu podia ter-lhe calçado os sapatos depois, não podia, sabichões?)

Depois de meterem na cabeça que o cadáver não era o meu, os homens da polícia agiram como age um crítico literário. Este, ao deparar com um livro de um autor que não lhe agrada, decide que o livro não tem valor e trata de construir o que lhe dá na vontade construir, sobre a base dessa primeira presunção gratuita. Assim, diante do milagre da semelhança entre Felix e mim, apegaram-se a pequenas e impalpáveis imperfeições que passariam despercebidos se fosse tomada uma atitude mais profunda e mais fina para com a minha obra-prima, do mesmo modo que um bom livro não é absolutamente prejudicado por um erro de revisão ou um descuido do autor. Mencionaram a aspereza das mãos, procuraram até alguma excrescência córnea da mais grave significação, mas notaram as unhas bem tratadas nas quatro extremidades e alguém — segundo acredito firmemente, o cabeleireiro que encontrou o corpo — chamou a atenção dos detetives para o fato de que em face de certos detalhes visíveis a um profissional (lindo isso!) era claro que as unhas tinham sido feitas por um técnico — e isso devia ter apontado como culpado a ele e não a mim!

Por mais que faça, não consigo imaginar qual foi o procedimento de Lydia durante o inquérito. Desde que ninguém duvidava de que o morto não fosse eu, ela devia estar sob suspeita de cumplicidade. A culpa era dela sem dúvida. Cabia-lhe compreender que o dinheiro do seguro estava perdido e que não adiantava insistir nos seus lamentos de viúva. Ela fraquejará um dia destes e sem perder a certeza de minha inocência procurará salvar minha cabeça, contando a história trágica de meu irmão. Isso de nada adiantará pois poderá ser apurado sem muita dificuldade que eu nunca tive irmão. Quanto à hipótese do suicídio, é extremamente difícil que a imaginação oficial aceite aquele truque do gatilho amarrado a um cordão.

É da maior importância para a minha segurança atual o fato de que a identidade do homem assassinado seja desconhecida e não possa ser conhecida. Enquanto isso, tenho vivido com o nome dele e já deixei traços do mesmo aqui e ali, de modo que eu seria facilmente apanhado se descobrissem a quem foi que baleei. Mas não há meio de que descubram e isso é muito bom para mim, já que estou cansado demais para arquitetar novos planos e começar tudo de novo. Pensando bem, como poderia despojar-me de um nome de que com tanta arte me apossei? Na verdade, senhores, gosto de meu nome e acho que ele me convém tanto quanto convinha a ele. Serão uns imbecis se não compreenderem isso.

Quanto ao carro, sei que será encontrado mais cedo ou mais tarde, ainda que isso não ajude muito os detetives. Mas eu quero que seja encontrado. Será muito divertido! Pensam que vão deparar comigo mansamente sentado ao voltante, mas só vão achar um ladrão muito ordinário e espavorido.

No quero mencionar aqui os monstruosos epítetos com que esses escrevinhadores irresponsáveis, esses fabricantes de sensacionalismo barato, esses abjetos charlatães da imprensa que armam as suas barracas onde houver sangue derramado têm considerado necessário outorgar-me. Não falarei também dos solenes argumentos psicanalíticos em que se refocilam os comentaristas. Todo ésse lixo e toda essa sujeira a princípio me indignavam, especialmênte quando associavam o meu caso ao daquele paspalhão com tendências vampirescas que, durante algum tempo, ajudou a aumentar a circulação dos jornais. Falou-se também no camarada que tocou fogo em seu carro com o corpo da vítima dentro, depois de ter serrado parte dos pés, uma vez que o assassinado era bem mais alto que o dono do carro.Mas o diabo que os carregue a todos eles! Nada têm de comum comigo.

Outra coisa que me enfureceu foi que os jornais publicaram a fotografia de meu passaporte (na qual pareço efetivamente um criminoso e estou muito diferente do que sou em conseqüência dos retoques maliciosos que fizeram) em lugar de outra, aquela em que estou lendo um livro, por exemplo, de tom de chocolate de leite e que me custou bem caro. O mesmo fotógrafo fez outra pose comigo, com um dedo nas têmporas e os olhos graves e mirar da testa inclinada, na pose predileta dos romancistas alemães. O fato é que tinham muito o que escolher, inclusive numa porção de instantâneos, como aquele em que apareço de calções de banho no terreno de Ardalion.

Ah, já me ia esquecendo de dizer que a polícia, depois de minuciosas buscas, nada encontrara a não ser um objeto notável, a saber, uma garrafa, a garrafa de vodca. Estava ali desde junho e, se bem me lembro, já descrevi como foi que Lydia a escondeu... É uma pena que eu não tivesse também enterrado por ali uma balalaica, a fim de dar-lhes o prazer de imaginar um assassinato eslavo perpetrado ao tilintar dos cálices de vodca e aos acordes de Pazhaláy zhemen-áh, daragúy-ah... Tenha pena de mim, querida...

Mas basta, basta. Toda essa revoltante confusão resulta da inércia, da teimosia e dos preconceitos de seres humanos que não me reconhecem no cadáver do meu perfeito sósia. Aceito, com um sentimento de amargura e desdém, o simples fato dessa falta de reconhecimento (qual foi o mestre que não passou por essa tristeza?) mas continuo a acreditar firmemente na exatidão de meu duplo. Foram-me impostos retrospectivamente pelos meus críticos erros e pseudo-erro querendo chegar à conclusão infundada de que minha idéia era em si mesma radicalmente errada, indo buscar discrepâncias insignificantes que sou o primeiro a admitir e que não têm a menor importância na soma do sucesso de um artista. Reafirmo que no planejamento e execução de todo o caso o máximo da técnica foi atingido, que o seu acabamento perfeito foi de certo modo inevitável e que tudo se encadeou independentemente de minha vontade, graças à intuição criadora. E por isso, a fim de obter reconhecimento, a fim de justificar e proteger o produto de meu cérebro, a fim de explicar ao mundo a profundidade de minha obra-prima, foi que concebi a idéia de escrever a presente história.

Quando amassei e joguei fora o último jornal, depois de lê-lo até ao fim, fiquei compreendendo tudo. Experimentei no corpo todo uma sensação de ardor e comichão, acompanhada do desejo intenso de adotar imediatamente certas medidas que só eu estava em condições de apreciar. Foi então nesse estado que me sentei à mesa e comecei a escrever. Se eu não estivesse absolutamente certo de minha capacidade literária, de meu notável dom... A princípio, o trabalho foi penoso como o de quem sobe uma ladeira. Eu arquejava, parava para descansar e continuava. Ainda que me cansasse terrivelmente, a tarefa me dava um estranho deleite. Era um remédio drástico, uma inumana purga medieval, mas se mostrou eficiente.

Desde o dia em que comecei, já transcorreu bem uma semana. Agora, minha obra se aproxima do fim. Estou calmo. Todos no hotel me tratam muito bem e me cobrem do melado da amabilidade. Faço agora as refeições separadamente, numa mesinha ao lado da janela. O médico aprova a minha separação e, sem se incomodar com a possibilidade de que eu o ouça, explica aos outros que um nervoso precisa de paz e que os músicos são em geral nervosos. Durante as refeições, fala freqüentemente comigo do outro lado da sala e de sua cabeceira de mesa para recomendar-me um prato ou para perguntar-me de brincadeira se eu não me sentia tentado a participar do repasto geral sentando-me ao menos naquele dia à mesa. Os outros me olham então cheios de simpatia.

Mas como estou cansado, mortalmente cansado. Tem havido dias, o de anteontem por exemplo, em que, salvo por duas breves interrupções, escrevi durante dezenove horas de uma assentada. Julgam que dormi depois disso? Não, não pude dormir e senti todo o corpo esticado e quebrado como se eu fosse submetido ao suplício da roda. Agora, porém, que já acabei e quase nada mais tenho a acrescentar à minha história, é bem doloroso ter de separar-me de todo esse papel que gastei. Mas não posso deixar de separar-me. Depois de reler o que escrevi, de fazer as correções necessárias, de embalar tudo e de levar o volume corajosamente para o correio, creio que terei de seguir adiante, para a África, para a Ásia — não importa muito para onde — embora eu esteja infenso a sair daqui, tão grande é o meu desejo de sossego. De fato, o leitor que imagine a posição de um homem que vive com um certo nome, não que não lhe seja possível conseguir outro passap...