Desespero

Vladimir Nabokov · Capítulo 6 de 13

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Desespero

Capítulo 5

Com os olhos fixos no chão, apertei a mão direita dele com a minha mão esquerda. Ao mesmo tempo, apanhei o bastão caído e me sentei no banco ao lado dele.

— Chegou atrasado — disse eu sem olhar para ele.

O homem riu. Ainda sem olhá-lo, desabotoei o sobretudo, tirei o chapéu e passei a mão pela cabeça. Sentia o corpo todo quente. O vento havia morrido no hospício.

— Reconheci-o imediatamente — disse Felix com um ar lisonjeiro e tolamente conspirador.

Olhei então para o bastão que tinha nas mãos. Era forte e velho, com a madeira de tília talhada num lugar onde se via cuidadosamente gravado o nome do dono: “Felix de tal.” Abaixo do nome, vinha a data e por fim o nome da aldeia dele. Deixei o bastão em cima do banco e passou-me por um instante pela cabeça a idéia de que o sujeito fizera a viagem apé.

Afinal, criando coragem, voltei-me para ela. Apesar disso, não foi imediatamente que lhe olhei o rosto. Comecei pelos pés e fui subindo lentamente, como acontece no cinema quando o cameraman quer tantalizar o público. Primeiro, vi os sapatões empoeirados, as meias grossas sujas à altura dos tornozelos, depois as calças azuis lustrosas (as de veludo deviam estar imprestáveis), depois a mão que segurava um pedaço de pão seco e o paletó azul sobre um suéter cinza-escuro. Ainda mais acima, o colarinho mole que eu já conhecia, embora relativamente limpo. Parei aí. Devia deixá-lo sem cabeça ou continuar o reconhecimento? Protegi-me com a mão à minha frente e olhei-lhe o rosto por entre os dedos.

Por um momento, tive a impressão de que tudo tinha sido uma ilusão ou, melhor, uma alucinação. Aquele idiota nunca poderia ser meu sósia, com aquelas sobrancelhas arqueadas, aquele olhar de soslaio e cheio de expectativa, aquela cara que não sabia a expressão que devia mostrar e, por isso, arqueava as sobrancelhas para não errar. Como disse, ele me apareceu por um momento como qualquer outro homem. Mas nesse momento, refeitos do susto, os pardais voltaram. Um deles saltitou muito perto e isso desviou a atenção do homem. As suas feições voltaram à posição exata e eu vi mais uma vez a maravilha que me havia empolgado cinco meses antes.

O homem jogou um punhado de migalhas para os pardais. O que estava mais perto deu uma bicada atarantada e a migalha lhe caiu do bico, sendo imediatamente colhida por outro pardal, que saiu voando imediatamente. Felix tornou a voltar-se para mim com o seu servilismo cheio de expectativa e bajulação.

— Este aqui não teve nada — disse eu apontando um pardalzinho que estava um pouco afastado e batia o bico desesperadamente.

— É muito novinho — disse Felix. — Veja, quase não tem rabo ainda. Gosto muito de passarinhos — acrescentou ele com um riso nauseante.

— Esteve na guerra? — perguntei e tive de tossir várias vezes para limpar a garganta pois minha voz estava rouca.

— Estive — respondeu ele. — Dois anos. Por quê?

— Por nada. Teve muito medo de morrer?

Ele piscou o olho e respondeu com evasiva obscuridade:

— Todo o rato tem um buraco, mas não é todo o rato que sai para fora.

Em alemão, a frase rimava e eu já havia percebido a tendência dele a dizer provérbios insípidos. Era completamente inútil dar tratos à bola para saber qual era realmente a idéia que ele queria exprimir.

— Acabou. Nada mais para vocês — disse ele aos pardais. — Gosto também de esquilos (piscou de novo os olhos). — É bom quando uma floresta está cheia de esquilos. Gosto deles porque são contra os proprietários de terras. E as toupeiras também.

— E os pardais? — perguntei com muita delicadeza.

— São também “contra”, como diz?

— O pardal é um mendigo entre os pássaros, um verdadeiro mendigo de rua. Um mendigo — repetiu algumas vezes, apoiado no bastão com as duas mãos e balançando um pouco o corpo.

Era evidente que ele se considerava um argumentador extraordinariamente astuto. Não, ele não era apenas um idiota, mas um idiota do tipo melancólico. Até o sorriso dele era triste e enjoava só de se olhar. Não obstante, eu o olhava avidamente. Estava muito interessado em observar como nossa notável semelhança era desfeita pelos seus movimentos faciais. Se ele chegasse à velhice, pensei, os risos e as caretas acabariam por fazer uma erosão completa em nossa semelhança que se mostrava tão perfeita com a cara dele em repouso.

Hermann (em tom de pilhéria):

— Estou vendo que é um filósofo...

Isso pareceu ofendê-lo um pouco.

— A filosofia é uma invenção dos ricos — objetou com profunda convicção. — E tudo mais foi inventado também:

religião, poesia... O donzela! Como sofre por ti meu pobre peito... Não acredito no amor. Agora, a amizade é coisa muito diferente. A amizade e a música.

— Vou-lhe dizer uma coisa — continuou ele, deixando o bastão de lado e falando comigo com algum calor. — Eu gostaria de ter um amigo que estivesse pronto sempre a dividir o seu pão comigo e que me legasse um pedaço de terra e uma casinha. Sim, eu gostaria de ter um amigo de verdade. Trabalharia para ele como jardineiro e, depois, o jardim passaria a ser meu e eu sempre recordaria meu camarada morto com lágrimas de gratidão. Tocaríamos violino juntos ou, então, ele tocaria flauta e eu, bandolim. Quanto a mulheres... pode dizer o nome de uma só que não tenha enganado o marido?

— Tem toda a razão! Toda a razão! É um prazer ouvi-lo falar. Escute, passou pela escola?

— Muito pouco tempo. Que é que se pode aprender na escola? Nada. Se o sujeito é inteligente, que adiantam as lições? O que é importante é a natureza. A política, por exemplo, não me atrai. E, de modo geral, o mundo, como bem sabe, é sujeira só!

— Uma conclusão perfeitamente lógica — disse eu. — Sim, a sua lógica é inatacável. Surpreendente mesmo.

Agora, já que é tão inteligente, devolva minha lapiseira e ande depressa.

Isso fez o homem levantar o corpo e colocou-o no estado de espírito que eu queria.

— Esqueceu-a no chão — murmurou ele, atônito. — E como eu não sabia se voltaria a vê-lo...

— Você roubou e vendeu a lapiseira — exclamei, chegando a bater os pés no chão.

A reação dele foi notável. Em primeiro lugar, sacudiu a cabeça negando o furto. Mas logo depois, fez um gesto de assentimento, confessando a transação. Creio que levava, colhido dentro dele, todo o buquê da imbecilidade humana.

— Com os diabos! — exclamei. — Seja mais circunspecto da próxima vez. Bem, o que passou, passou. Fume um cigarro, vamos!

Ele se descontraiu e ficou radiante quando viu que minha raiva tinha passado. Começou então a manifestar gratidão.

— Oh, obrigado, muito obrigado! Agora é que eu vejo mesmo como somos parecidos! Não chega até a parecer que meu pai prevaricou com sua mãe?

E riu lisonjeiramente, muito contente com a sua pilhéria.

— Vamos tratar de negócios — disse eu, afetando de repente uma rude seriedade. — Não o chamei até aqui para os prazeres etéreos da conversa inconseqüente. Falei na minha carta da ajuda que lhe vou dar, do trabalho que arranjei para você. Em primeiro lugar, porém, quero fazer-lhe uma pergunta. A sua resposta deve ser sincera e exata. Quem você acha que eu sou?

Felix me examinou. Depois, afastou-se um pouco para o lado e deu de ombros.

— Não é um enigma que lhe estou apresentando — continuei pacientemente. — Compreendo perfeitamente que você não pode saber a minha identidade. De qualquer maneira, vamos afastar categoricamente a hipótese que você espirituosamente aventou. Nosso sangue não é o mesmo, Felix. Não, meu caro, não é o mesmo. Nasci a mais de mil quilômetros do lugar onde você nasceu e a honra de meus pais, e, como espero, a de seus pais, está ilibada. Você é filho único. Eu também sou. Não pode haver, portanto, nem para mim, nem para você aquela misteriosa criatura: um irmão há muito perdido, roubado pelos ciganos. Não há laços que nos unam.

Não tenho obrigações para com você, note bem isso, não tenho obrigações de espécie alguma. Se pretendo ajudá-lo, assim procedo por livre e espontânea vontade. Ponha isso na cabeça. Agora, pergunto-lhe de novo: quem é que você supõe que eu seja? Que opinião faz de mim? Não pode deixar de ter formado alguma espécie de opinião, não é mesmo?

— Talvez seja um ator — disse Felix sem muita certeza.

— Se o compreendo bem, meu amigo, isso quer dizer que em nosso primeiro encontro você pensou: “Ë provavelmente um desses camaradas de teatro, o tipo extrovertido, cheio de idéias engraçadas e de boas roupas. Talvez seja uma celebridade.” Estou certo?

Felix olhou para o bico do sapato com que estava alisando o saibro e seu rosto assumiu uma expressão de alguma tensão.

— Não pensei coisa alguma — disse Felix com alguma impertinência.— Vi apenas que estava com alguma curiosidade a meu respeito, etc. Os atores ganham bem?

Uma nota rápida: A idéia que ele me deu pareceu sutil; a direção que tomava encontrava lugar na parte principal do meu plano.

— Adivinhou! — exclamei. — Claro que adivinhou! Sou de fato um ator, um ator de cinema, para sermos exatos. É isso mesmo! Você falou bem, esplendidamente mesmo! Que mais pode você dizer sobre mim?

Notei que a essa altura a animação do homem caíra. Minha profissão parecia tê-lo desapontado. Ficou sentado pensativamente e de testa franzida com o cigarro fumado pela metade entre o polegar e o indicador. De repente, levantou a cabeça e piscou os olhos.

— E que espécie de trabalho quer oferecer-me? — perguntou sem a sua insinuante suavidade anterior.

— Calma, calma. Tudo no seu devido tempo. Perguntei-lhe o que era mais que pensava de mim. Faça o favor de responder.

— Ora... Sei que gosta de viajar. Nada mais...

Nesse meio tempo, a noite se aproximava; os pardais havia muito tinham desaparecido; o monumento se mostrava mais escuro e parecia ter aumentado de tamanho. De trás de uma árvore negra surgiu em silêncio uma lua triste e gorda. Uma nuvem lançou uma máscara sobre ela ao passar, só deixando visível o queixo redondo.

— Bem, Felix, isto aqui está ficando escuro e triste. Aposto que está com fome. Vamos procurar algum lugar onde se possa comer e continuar a conversa tomando uma cerveja. Está de acordo?

— Claro que estou — disse Felix com uma voz um pouco mais animada e então acrescentou sentenciosamente:

— Barriga vazia não tem ouvidos.

(Estou traduzindo os adágios de Felix; em alemão, todos eles rimavam).

Levantamo-nos e nos dirigimos para as luzes amarelas do bulevar. Com o cair da noite, eu mal tinha consciência de nossa semelhança. Felix se arrastava a meu lado, parecendo absorto nos seus pensamentos e o seu andar era tão apático quanto ele.

— É a primeira vez que vem a Tarnitz? — perguntei.

— É, sim — respondeu ele. — As cidades não me interessam muito. Eu e os que são como eu achamos as cidades cansativas.

A tabuleta de uma taverna. Via-se na vitrina um barril sob a guarda de duas figuras barbadas de terracota. Tanto fazia ali como qualquer outro lugar. Entramos e escolhemos uma mesa num canto nos fundos. Enquanto tirava as luvas, corri pela sala os olhos atentos. Havia apenas três pessoas e estas não nos davam a menor atenção. O garçom apareceu. Era um homenzinho pálido e de pince-nez. Não era a primeira vez que eu via um garçom de pince-nez, mas não me lembrava de quando e onde isso acontecera. Enquanto esperava os nossos pedidos, olhou para mim e depois para Fe lix Naturalmente, graças ao meu bigode, a nossa semelhança não saltava aos olhos. De fato, eu deixara o bigode crescer com o objetivo especial de não chamar demais a atenção quando estivesse em companhia de Felix. Se não me engano, há em Pascal um sábio pensamento: duas pessoas que se parecem não despertam o menor interesse quando são vistas separadamente, mas criam um verdadeiro rebuliço quando aparecem juntas. Nunca li Pascal e não me lembro de onde fui arrancar essa citação. Bem, na minha mocidade, eu me dava muito bem com esses truques! Infelizmente, não era eu o único a fazer uso desta ou daquela máxima de algibeira. Em S. Petersburgo, uma vez, numa reunião, eu declarei: “Turguenev diz que há sentimentos que só se podem exprimir por intermédio da música.” Alguns minutos depois, apareceu outro convidado que, no meio da conversa, proferiu a mesma frase, tirada do programa de um concerto durante o qual eu o tinha visto dirigir-se para a caixa do teatro. É claro que foi ele que ficou em má situação e não eu. Apesar disso,. o fato me produziu tremendo mal-estar (embora eu o tivesse atenuado um pouco perguntando maliciosamente ao homem se gostara da grande Viabranova) e o resultado foi que eu resolvi cortar toda e qualquer exibição de cultura. Tudo isso é uma digressão e não uma evasão. Insisto em afirmar que não é uma evasão, porque nada temo e vou contar tudo. Deve-se reconhecer que exerço admirável controle não só sobre a minha pessoa mas também sobre a minha maneira de escrever. Não sei mais quantos romances escrevi na minha mocidade — tranqüila e casualmente, sem a menor intenção de publicá-los. Cabe aqui outra declaração: diz Swift que um manuscrito publicado pode ser comparado a uma prostituta. Aconteceu um dia (na Rússia) que eu dei a Lydia um original meu para ler, dizendo que se tratava da obra de um amigo. Ela o achou horrível e não chegou ao fim. Até hoje, minha caligrafia é quase desconhecida dela. Tenho exatamente vinte e cinco espécies de caligrafia, sendo a melhor (isto é a que eu uso com mais facilidade) a seguinte: uma letra ronde e miúda com uma simpática rotundidade nas suas curvas, de modo que cada palavra dá a impressão de um bolo de fantasia recém-saído do forno; depois, há um rápido cursivo, agressivo e rude, que parece as garatujas de um corcunda apressado, sem escassez de abreviaturas; depois, uma caligrafia de suicida em que cada palavra é um laço de corda e cada vírgula um gatilho; vem então a que eu aprecio mais: grande, legível, firme e absolutamente impessoal; assim poderia escrever a mão impessoal no punho sobre-humano que a gente vê desenhada em cartazes e em compêndios de Física. Foi nessa caligrafia que comecei a escrever o livro agora oferecido ao leitor. Em breve, porém, minha pena perdeu o juízo: este livro é escrito nas minhas vinte e cinco caligrafias misturadas, de tal modo que o linotipista ou a datilógrafa, que desconheço, ou então a pessoa definida que escolhi, o escritor russo a quem será mandado o meu original quando chegar a ocasião, poderão pensar que várias pessoas participaram da feitura de meu livro. E também extremamente provável que algum malicioso e pequeno perito de cara de rato descubra nessa orgia cacográfica um sinal indiscutível de anormalidade física. Tanto melhor.

Pronto... Agora, já o mencionei, a você, meu primeiro leitor, a você, o conhecido autor de romances psicológicos. Tenho-os lido e os achei muito artificiais embora bem construídos. Que sentirá você, escritor-leitor, quando atacar minha história? Prazer? Inveja? Ou mesmo... quem sabe? você pode aproveitar o meu indefinido afastamento para usar como seu o que eu escrevi... como o fruto de sua hábil... sim, posso conceder-lhe isso... de sua hábil e experimentada imaginação, deixando-me fora de tudo. Não seria difícil para mim tomar providências antecipadas contra tal imprudência. Se chegarei a tomá-las é outra questão. Não é bem possível que eu ache um tanto lisonjeiro que você roube o que é de minha propriedade? O roubo é o melhor elogio que se pode talvez fazer a alguma coisa. E sabe qual é a parte mais divertida? Presumo que, depois de ter decidido efetuar o agradável roubo, você suprimirá as linhas comprometedoras, exatamente as linhas que escrevo agora, e, além disso, alterará alguns trechos para que fiquem mais ao seu gosto (o que é um pensamento menos agradável), do mesmo modo que um ladrão de automóveis dá nova pintura ao carro que roubou. A esse respeito, vou permitir-me contar um pequeno caso, que é decerto o mais engraçado que eu conheço.

Há cerca de dez anos, isto é, mais ou menos a 10 de março de 1931 — meio ano passara, como uma queda em sonho ou como um fio corrido nas meias do tempo — uma pessoa ou algumas pessoas que passavam pela estrada ou através da floresta — creio que isso será estabelecido no seu devido lugar — correram os olhos para o lado e tomaram ilegalmente posse de um carrinho azul de tal marca e tantos cavalos — deixo de lado os detalhes técnicos. E, com isso, na verdade, acabou a história.

Não pretendo afirmar que esse caso tenha um interesse universal. A sua intenção não é absolutamente evidente. Eu mesmo quase morri de riso apenas porque sabia de tudo. Posso acrescentar que ninguém me contou o caso, nem o li nos jornais. O que fiz realmente foi deduzi-lo por meio de um raciocínio cerrado a partir do simples fato do desaparecimento do carro, um fato interpretado pelos jornais de maneira inteiramente errada. Marcha à ré de novo, tempo!

— Sabe dirigir?

Foi essa, lembro-me bem, a pergunta que primeiro fiz a Felix quando o garçom, deixando de notar alguma coisa de especial a respeito de nós dois, colocou diante de mim uma limonada e diante de Felix uma caneca de chope, em cuja abundante espuma meu vago sósia mergulhou ansiosamente o lábio superior.

— Como? — perguntou ele com um beatífico resmungo.

— Perguntei se você sabe dirigir um carro.

— Como é que não sei? Fiz uma vez camaradagem com um chofer que trabalhava num quartel perto de minha aldeia. Um belo dia, passamos por cima de uma porca no meio da estrada. Ih! Como a bicha guinchou!

O garçom nos levou uma espécie de picadinho nadando no molho e um purê de batatas, também com muito molho. Onde era que eu já tinha visto um pince-nez no nariz de um garçom? Ah... agora me lembro (só agora quando estou escrevendo isto) num restaurante russo bem ruinzinho em Berlim. E o outro garçom era bem parecido com este — com a mesma espécie de cabelos de palha suja, mas mais bem-nascido.

— E isso então, Felix. Já comemos e bebemos; agora, vamos conversar. Você fez certas suposições a meu respeito e todas foram corretas. Agora, antes de entrarmos a fundo no negócio que nos interessa, quero esboçar para seu governo um quadro geral de minha personalidade e de minha vida. Não tardará que você compreenda por que isso é urgente. Para começar...

Tomei um gole e continuei:

— Para começar, nasci numa família rica. Tínhamos uma casa e um jardim... Ah, que jardim, Felix! Imagine não apenas roseiras, mas verdadeiros roseirais, rosas de todas as espécies e cada variedade com o seu nome num quadrinho. Talvez você não saiba, mas as rosas recebem nomes tão retumbantes quanto os cavalos de corridas. Além das rosas, viçavam em nosso jardim muitas outras flores e quando, de manhã, tudo ficava salpicado de orvalho, o espetáculo, Felix, era um verdadeiro sonho. Nos meus tempos de criança, gostava de cuidar do jardim e sabia bem cumprir a minha tarefa. Tinha um pequeno regador e um enxadão, Felix, e enquanto meus pais me olhavam com terna emoção sentados à sombra de uma velha cerejeira plantada por meu avô, eu não descansava (imagine esse quadro, imagine só), me empenhava em tirar das roseiras e esmagar as lagartas que pareciam gravetos. Tínhamos muitos animais no sítio, como, por exemplo, coelhos, o mais oval de todos os animais, se entende o que eu quero dizer, e perus coléricos com carúnculas carbunculadas (eu fazia um som gorgolej ante), cabritinhos lindos e muitos outros.

“Depois, meus pais perderam todo o seu dinheiro e morreram. O belo jardim desapareceu. Só agora a felicidade parece ter vindo outra vez ao meu encontro. Consegui ultimamente adquirir um terreno à beira de um lago e vai haver ali um novo jardim ainda mais belo que o primeiro. Minha infância viçosa foi inteiramente impregnada desses frutos e dessas flores, ao mesmo tempo que a floresta vizinha, enorme e densa, lançava sobre minha alma a sombra da melancolia romântica.

“Sempre fui um solitário, Felix, e ainda sou. Mulheres... Não é preciso falar dessas criaturas inconstantes e lascivas. Tenho viajado muito. Com você, gosto de sair pelo mundo com uma mochila pendurada dos ombros, embora, sem dúvida, haja algumas razões (que de um modo geral condeno) que tornam minhas viagens mais agradáveis que as suas. É realmente uma coisa impressionante... Já pensou na situação seguinte? — Por que dois homens igualmente pobres não vivem da mesma maneira? Por exemplo, um como você leva franca e desesperançadamente uma existência de mendigo, enquanto outro, ainda que pobre do mesmo jeito, tem um estilo de-vida inteiramente diferente, sendo um camarada despreocupado que come bem e vive entre os ricos satisfeitos...

“Por que acontece isso? Porque os dois pertencem a classes diferentes, Felix. E, por falar em classes, vamos imaginar um homem que viaja em segunda classe sem passagem e outro que viaja em primeira, também sem passagem. X senta-se num banco duro e o Sr. Y ocupa uma poltrona acolchoada. Ambos, porém, têm as carteiras vazias ou, para falar com mais exatidão, o Sr. Y tem uma carteira para mostrar embora vazia ao passo que X nem isso tem e nada pode mostrar senão os forros vazios dos bolsos.

“Falando dessa maneira, procuro apenas fazer você compreender a diferença entre nós. Eu sou um ator e vivo quase sempre no ar, mas tenho sempre esperanças elasticamente projetadas para o futuro; essas esperanças podem ser esticadas indefinidamente sem perigo de que estourem. Você não tem nem direito à esperança e ficaria para sempre um pobre se não tivesse ocorrido um milagre. Esse milagre foi o meu encontro com você.

“Não há nada no mundo que não se possa explorar, Felix Digo-lhe mais: não há nada no mundo que não se possa explorar por muito tempo e com muito êxito. Talvez nos seus sonhos mais ambiciosos você tenha visto uma quantia com dois algarismos como a meta de suas ambições. Agora, porém, esse sonho não só se torna realidade, mas também é valorizado a ponto de ganhar três algarismos. Não é muito fácil para a sua imaginação apreender isso, como não o seria para um homem que só contasse até dez sentir que se aproximava de um infinito quase inimaginável, não é mesmo? Mas estamos dobrando agora a esquina desse infinito e uma centena lança a sua luz sobre você. E atrás dela, outra. Quem sabe, Felix, talvez outro algarismo esteja amadurecendo. Bem sei que isso faz tontear a cabeça, bater o coração e vibrarem os nervos mas, apesar de tudo, pode ser verdade. Escute aqui, você está tão habituado ao seu miserável destino que tenho minhas dúvidas de que me esteja entendendo. O que eu digo pode parecer-lhe confuso e estranho. O que vem depois parecerá ainda mais confuso e estranho.

Falei durante muito tempo nesse tom. Felix continuava a olhar-me com desconfiança. Era bem provável que se tivesse convencido pouco a pouco de que eu me estava divertindo à custa dele. Os indivíduos de seu tipo só mostram boa vontade até certo ponto. Quando lhes surge na cabeça a hipótese de que estão sendo embrulhados, toda a boa vontade deles se dissipa, os olhos se vidram e eles entram profundamente num estado de sólida paixão.

Eu falava obscuramente, mas minha intenção não era enfurecê-lo. Ao contrário, eu desejava ganhar-lhe a boa vontade; queria causar-lhe perplexidade mas, ao mesmo tempo, atraí-lo; numa palavra, queria transmitir-lhe vaga mas convincentemente a imagem de um homem da natureza dele e com as suas inclinações. Minha fantasia se desgarrou, porém, e de maneira bem desagradável, com o pesado espírito brincalhão de uma senhora idosa mas sorridente que tivesse bebido um pouco demais.

Quando notei a impressão que estava fazendo, parei durante um minuto, um pouco pesaroso de tê-lo amedrontado, mas, logo no mesmo instante, senti como era doce fazer um ouvinte nosso sentir-se inteiramente desassossegado. Sorri, portanto, e continuei assim:

Você tem de me perdoar toda essa conversa, Felix, mas acontece que raramente tenho oportunidade de levar a alma assim de passeio comigo. Por outro lado, tenho muita pressa em apresentar-me em todos os aspectos porque desejo dar-lhe uma exaustiva descrição do homem com quem você terá de trabalhar, tanto mais quanto o trabalho em questão será diretamente relacionado com a semelhança existente entre nós. Diga-me uma coisa, sabe por acaso o que seja um ator substituto?

Felix abanou a cabeça, com o lábio inferior caído. Eu tinha observado havia muito que ele respirava de preferência pela boca por ter o nariz entupido ou fosse lá por que fosse.

— Desde que não sabe vou-lhe explicar. Imagine que o gerente de uma companhia de cinema. . . Você já foi ao cinema, não é mesmo?

— Bem, já...

— Ótimo. Imagine então que um gerente ou diretor... Mas, perdão, parece que você quer dizer alguma coisa..

— Bem, não vou muito ao cinema. Quando quero gastar dinheiro, tenho sempre coisas mais agradáveis para fazer do que ver filmes.

— Concordo plenamente com você, mas há pessoas que pensam de outro modo. Do contrário, não haveria uma profissão como a minha, não acha? Como eu estava dizendo, um diretor me ofereceu, mediante uma pequena remuneração... uma coisa assim da ordem de dez mil dólares, uma bagatela sem dúvida, mas os preços estão atualmente baixos, é preciso reconhecer... para atuar num filme que tem como herói um músico. Isso me convém muito desde que na vida real eu também gosto de música e posso tocar vários instrumentos. Às vezes, nas noites de verão, leva o meu violino para o bosque mais próximo.. . Mas, voltando ao assunto, Felix, um ator substituto é uma pessoa que pode, num caso de emergência, tomar o lugar de um ator determinado.

“O ator representa o seu papel e a câmara o fotografa. Mas resta uma cena insignificante a ser filmada. Por exemplo, o ator tem de passar num certo lugar com o seu carro. Mas não pode fazer isso porque está de cama com um resfriado fortíssimo. Não se pode perder tempo e então o seu sósia toma o lugar dele e passa calmamente no carro (é uma coisa esplêndida que você saiba lidar com carros) e, quando o filme é afinal exibido, nenhum dos espectadores nota a substituição. Quanto maior é a semelhança, mais alto é o preço. Há até companhias especiais que se dedicam a fornecer atores-fantasmas aos astros do cinema. A vida de um desses fantasmas é muito boa, porque ele ganha um ordenado fixo e só tem de trabalhar de vez em quando e, ainda assim, o trabalho nada tem de pesado. Ë só vestir exatamente as mesmas roupas do herói e passar num belo carro, em vez do herói, nada mais que isso! Naturalmente, um ator substituto não deve andar falando do seu emprego. Seria grande o escândalo se algum jornalista soubesse do truque e o público tomasse conhecimento de que parte do papel do herói foi uma farsa. Compreende agora por que fiquei satisfeito quando descobri que você era uma cópia exata de mim mesmo? Foi sempre esse um dos meus maiores sonhos. Basta você pensar no que isso representa para mim, especialmente agora que a filmagem já começou e eu, um homem de saúde frágil, fui escolhido para o papel principal. Se me acontecer alguma coisa, você será chamado e irá...”

— Ninguém vai-me chamar e eu não irei para lugar nenhum — disse Felix, interrompendo-me.

— Por que está dizendo isso? — perguntei com uma nota de delicada censura.

— Porque — disse Felix — faz muito mal em enganar um homem pobre. A princípio, acreditei em você. Pensei que me fosse oferecer algum trabalho honesto. Fiz uma caminhada longa e dura para chegar até aqui. Veja só como estão as solas de meus sapatos. . . e agora em vez de trabalho, isso. . . Não, é coisa que não me serve.

— Creio que há um pequeno mal-entendido — disse eu, em voz suave. — O que lhe estou oferecendo nada tem de degradante, nem de complicado. Podemos assinar um acordo. Você receberá de mim cem marcos por mês. Insisto em dizer que o trabalho é ridiculamente fácil, simples brincadeira de criança... você sabe como as crianças gostam de se vestir para fingir que são soldados, fantasmas ou aviadores. Pense apenas no seguinte: você receberá um salário mensal de cem marcos só para vestir muito raramente, talvez uma vez por ano apenas, exatamente as mesmas roupas que eu estiver usando no momento. Sabe agora o que você tem de fazer? Vamos marcar uma data para nos encontrarmos e ensaiar uma cena rápida, só para você ver como é...

— Não entendo nada dessas coisas e não quero entender — replicou Felix com alguma rudeza. — Mas vou-lhe dizer uma coisa. Minha tia tinha um filho que trabalhava nas feiras como artista. Bebia e gostava muito de mulheres. Minha tia muito se amargurou com ele até o dia em que ele quebrou a cabeça, graças a Deus, quando errou o trapézio que se balançava e as mãos de sua mulher. Todos esses cinemas e circos...

Continuou ele realmente a dizer tais coisas? Estou seguindo fielmente o caminho que me aponta a memória ou talvez minha pena tenha misturado tudo, trocando os pés e af astando-se numa dança perversa? Há um toque acentuadamente literário nessa nossa conversa, que lembra aquelas conversas atormentadas nas tavernas em que Dostoievski era mestre. Um pouco mais desse toque e ouviríamos aquele sussurro sibilante da falsa humildade, aquela respiração presa, aquelas repetições de advérbios mágicos e então tudo mais se seguiria, o acompanhamento místico tão caro àquele famoso autor de romances russos sensacionais.

Tudo isso de certo modo me atormenta; isto é, não apenas me atormenta mas me perturba completamente o espírito e posso até dizer que me é fatal — o pensamento de que eu tenho sido por demais convencido do poder de minha pena — estão reconhecendo as modulações dessa frase? Quanto a mim, parece que me lembro admiravelmente daquela conversa, com todas as suas insinuações, e vsyu podnogotnuyu, “toda a subunguealidade”, o segredo debaixo das unhas (para usar o jargão da câmara de tortura onde as unhas são arrancadas e um termo favorito — marcado pelo grifo — de nosso técnico nacional em febre psíquica e nas aberrações do respeito próprio do homem). Lembro-me na verdade daquela conversa, mas sou incapaz de reproduzi-la exatamente. Alguma coisa me estorva, quente, abominável e inteiramente intolerável, da qual não me posso livrar porque é tão viscosa como uma folha de papel de pegar moscas em que se pisou nu dentro de um quarto escuro. O pior ainda é que não se pode encontrar a luz.

Não, a nossa conversa não foi como está reproduzida aqui; quer dizer, as palavras talvez fossem exatamente essas (de novo a breve pausa), mas não consegui ou não tive coragem de reproduzir os ruídos especiais que as acompanharam; ocorreram desvanecimentos ou coágulos de som; depois, de novo, o sussurro, o murmúrio e, de repente, uma voz rígida que dizia claramente: “Vamos, Felix, outro copo”.

A pintura marrom e floral das paredes, uma inscrição que dizia com impertinência que a casa não era responsável pelos objetos perdidos; os cartões redondos onde eram colocadas as canecas de chope (um deles com uma conta escrita às pressas a lápis) e o bar distante a cujo balcão um homem bebia, com as pernas torcidas numa espiral escura e cercado de fumaça — todas essas coisas eram notas de comentários ao que dizíamos, tão sem sentido, porém, quanto as que se encontravam nas margens dos livros sem valor de Lydia.

Se os três homens que estavam sentados ao lado da janela com a cortina vermelha longe de nós se voltassem e nos olhassem, aqueles três beberrões calados e casmurros teriam visto: o irmão afortunado e o irmão sem sorte, um com o bigodinho e os cabelos bem penteados, o outro, de barba feita mas de cabelos grandes (unia pequena juba fantasmal lhe caía pelo cangote magro); um diante do outro, mas sentados da mesma maneira, com os cotovelos na mesa e os punhos nas maçãs do rosto. Assim é que éramos refletidos pelo espelho enevoado e, segundo todas as aparências, doente, com uma obliquidade aberrante e um toque de loucura. Era um espelho que decerto se quebraria imediatamente se por acaso refletisse uma só cara humana genuína.

Assim estávamos sentados enquanto eu prosseguia com a minha persuasiva lengalenga. Falo mal e a oração que pareço reproduzir palavra por palavra não fluía com o ágil deslizar que tem no papel. De fato, não é realmente possível transcrever a minha fala incoerente, aquele atropelo e emaranhamento de palavras, o abandono das cláusulas subordinadas que perderam as principais e se desgarraram e toda a tagarelice supérflua que dá às palavras um ponto de apoio e um esconderijo. Mas meu espírito agia tão ritmicamente que seguia a sua caça com passo tão firme que a impressão que agora me deixa o rumo de minhas palavras não é absolutamente emaranhada ou confusa. Entretanto, meu objetivo ainda estava fora do meu alcance. A resistência do homem, natural numa pessoa de limitada inteligência e humor timorato, tinha de ser quebrada fosse como fosse. A límpida naturalidade do tempo me seduzia tanto que eu desprezei a probabilidade de que o mesmo fosse desagradável para ele ou até o amedrontasse tão naturalmente como tinha encantado a minha fantasia.

Não quero dizer com isso que eu jamais tenha tido a menor ligação com a tela ou com o palco; na realidade, a única vez que eu representei foi há cerca de vinte anos, numa pequena festa de amadores na fazenda do nosso proprietário (de que meu pai era administrador). Eu tinha de dizer apenas algumas palavras: “O príncipe me mandou dizer que chegaria aqui dentro em pouco. Ah! Aí vem ele.” Mas em vez disso, cheio de estranho prazer e todo trêmulo de alegria, eu disse o seguinte: “O príncipe não pode vir; cortou o pescoço com uma navalha.” Enquanto eu falava, o homem que fazia o papel de príncipe já estava chegando, com um sorriso radiante no rosto muito bem pintado, e houve um momento de emoção geral. O mundo inteiro ficou em suspenso — e até hoje me lembro de como aspirei profundamente o divino ozônio de monstruosas tempestades e catástrofes. Mas, embora eu nunca tenha sido um ator no sentido exato da palavra, sempre levei comigo na vida real um pequeno teatro desmontável e já apareci em mais de um papel com uma atuação sempre magnífica; e se acham que o nome do meu ponto era Gain — com G maiúsculo e não C — estão tremendamente enganados. Nem tudo é tão simples assim, meus caros senhores.

No caso da minha conversa com Felix, porém, meu desempenho acabou sendo apenas uma perda de tempo, porque compreendi que se continuasse naquele monólogo a respeito de cinema, ele se levantaria e sairia, devolvendo os dez marcos que eu lhe tinha mandado (não, pensando bem creio que ele não os teria devolvido — não, nunca!). A pesada palavra em alemão que significa “dinheiro” (dinheiro em alemão é ouro, em francês, prata, em russo, cobre) era pronunciada por ele com extraordinária reverência a qual, curiosamente, poderia transformar-se em brutal cupidez. Mas ele teria certamente saído, com um ar de quem foi insultado!

Para ser perfeitamente franco, não compreendo por que tudo relacionado com o teatro ou o cinema lhe parecia tão completamente atroz; estranho, alheio — sim, mas... atroz? Tentemos explicar o fato com o atraso do plebeu alemão. O camponês alemão é antiquado e pudico; tentem apenas um dia atravessar uma aldeia apenas com calções de banho. Já tentei e sei o que acontece; os homens ficam imóveis de choque, as mulheres dão risadas, escondendo os rostos, como as criadas nas comédias antigas.

Fiquei calado. Felix estava também calado, traçando linhas na mesa com o dedo. Ele tinha provavelmente esperado que eu lhe oferecesse um lugar de jardineiro ou de motorista e se mostrava decepcionado e aborrecido. Chamei o garçom e paguei. Mais uma vez andamos pelas ruas. Era uma noite fria e desolada. Entre nuvenzinhas enroladas como astracã, uma lua brilhante e plana aparecia e sumia.

— Escute, Felix. Nossa conversa ainda não acabou. Não podemos deixá-la assim. Tomei um quarto num hotel; venha, você passará a noite comigo.

Ele aceitou como uma coisa que lhe era devida. Por mais lenta que fosse a sua inteligência, compreendia que eu precisava dele e que não seria conveniente cortar as nossas relações sem ter chegado a alguma coisa definida. Tornamos a passar pela duplicata do Cavaleiro de Bronze. Não vimos ninguém no bulevar. Não havia uma só luz nas casas; se tivesse notado uma única janela acesa, eu teria imaginado que alguém se enforcara ali e deixara a lâmpada ligada — tão excepcional e inesperada teria parecido uma luz. Chegamos ao hotel em silêncio. Um sonâmbulo sem colarinho nos abriu a porta. Depois de entrar no quarto, tive de novo a sensação de coisa muito conhecida; mas outros assuntos me empenhavam a cabeça.

— Sente-se.

Ele se sentou com os punhos nos joelhos e a boca entreaberta. Tirei o casaco e, metendo as mãos nos bolsos das calças e fazendo tilintar o troco que havia neles, comecei a caminhar de um lado para outro. Eu usava, por falar nisso, uma gravata lilás com pintas pretas, cujas pontas voavam sempre que eu rodava nos calcanhares. Durante algum tempo, tudo continuou assim: silêncio, meus passos, o vento do meu movimento.

De repente, Felix, como se tivesse sido morto com um tiro, deixou cair a cabeça e começou a desamarrar os sapatos. Olhei para o pescoço desprotegido dele, para a expressão ansiosa de sua primeira vértebra e tive uma sensação estranha ao pensar que ia dormir com meu sósia no mesmo quarto, quase sob o mesmo cobertor, porque as duas camas estavam ao lado uma da outra, bem perto. Veio-me então também com um choque a terrível idéia de que a carne dele podia estar manchada pelas pintas escarlates de uma doença de pele ou por alguma grosseira tatuagem. Eu exigia do corpo dele um mínimo de semelhança com o meu; quanto ao seu rosto, não havia problemas.

— Isso mesmo, tire a roupa — disse eu caminhando e mudando de direção.

Ele levantou a cabeça com um sapato informe na mão.

— Faz muito tempo que eu nãó durmo numa cama — disse ele com um sorriso (não mostre as gengivas, idiota). — Numa cama de verdade.

— Tire tudo — disse eu com impaciência. — Você com certeza está sujo e empoeirado. Vou-lhe dar uma camisa para dormir. Mas primeiro se lave.

Rindo e resmungando, talvez um pouco tímido diante de mim, tirou toda a roupa e tratou de lavar os sovacos na pia do lavatório que parecia um armário. Lancei-lhe olhares, examinando ansiosamente aquele homem inteiramente nu. As costas eram quase tão musculosas quanto as minhas, com um cóccix mais rosado e nádegas mais feias. Quando ele se virou, não pude deixar de franzir a cara diante do grande botão do seu umbigo — mas a verdade é que o meu também não é uma beleza. Duvido muito de que ele tenha algum dia na vida lavado as suas partes: pareciam bem plausíveis em relação ao comum dessas coisas mas não eram convite a uma inspeção mais detida. As unhas dos pés eram muito menos abomináveis do que eu tinha esperado. Ele era magro e branco, muito mais branco no corpo do que no rosto, dando assim a impressão de que era o meu rosto, ainda conservando o queimado do verão, que estava ligado ao seu tronco pálido. Podia-se até ver a linha em volta do pescoço à qual a cabeça tinha aderido. Tive um agudo prazer com essa inspeção, que me deixou tranqüilo. Não havia marcas especiais que o estigmatizassem.

Quando, depois de vestir a camisa limpa que eu tirara de minha maleta, ele se estendeu na cama. sentei-me aos seus pés e encarei-o com um sorriso francamente zombeteiro. Não sei o que ele estava pensando, mas aquela limpeza fora normal o havia amolecido e numa vergonhosa efusão de alguma coisa que, apesar de toda a sua repulsiva sentimentalidade, não deixava de ser um gesto de ternura, ele me bateu na mão e disse — traduzo literalmente: “Você é um bom sujeito.”

Sem descerrar os dentes, tive arrepios de frio. Creio oue depois a minha expressão lhe pareceu estranha, pois suas sobrancelhas se arquearam e ele levantou a cabeca. Sem poder mais coiter minha alegria, meti-lhe um cigarro na boca. O homem quase se engasgou.

— Você é um idiota! — exclamei. — Não compreendeu mesmo que se eu o fiz vir até aqui foi para tratar de um assunto importante, terrivelmente importante?

Tirando do bolso uma nota de mil marcos e ainda a tremer de riso, exibi-a diante do imbecil.

— Para mim isso? — perguntou ele, deixando cair o cigarro aceso. Era como se os seus dedos se tivessem involuntariamente aberto para arrebatar-me a nota.

Você vai queimar o lençol — disse eu, rindo cada vez mais. — Ou então queimar seu precioso couro. Estou vendo que parece emocionado. Sim, esse dinheiro será seu e poderá até recebê-lo adiantado se concordar com o que eu vou sugerir. Não sei como foi que você não percebeu que só falei sobre cinema para experimentá-lo e que eu não sou ator coisa nenhuma, mas um homem de negócios esperto e duro. Em resumo, a coisa é a seguinte: Pretendo efetuar uma pequena operação e há uma leve possibilidade de que me agarrem depois. Acontece, porém, que todas as suspeitas serão dissipadas quando houver a prova decisiva de que na hora exata em que a dita operação se realizou, eu estava bem longe do local.

— Roubo? — Perguntou Felix com uma estranha satisfação a aparecer-lhe no rosto.

— Estou vendo que não é tão tolo quanto eu pensava — continuei, baixando a voz até um quase imperceptível murmúrio. — E evidente que você desde o princípio desconfiou de que se tratava de alguma coisa suspeita e agora está todo contente de que não se tivesse enganado, como é natural a qualquer pessoa que vê as suas previsões confirmadas. Nós ambos temos um fraco por objetos de prata... Foi isso o que você pensou, não foi? Ou talvez o que realmente lhe tenha dado satisfação seja o fato de que eu não sou afinal de contas um homem que quer enganá-lo, um sonhador não muito certo da cabeça, mas um homem que está falando a sério, não é mesmo?

— Roubo? Assalto? — perguntou Felix com os olhos rebrilhantes.

— De qualquer maneira, vai ser um ato ilegal. Será no devido tempo inteirado dos detalhes. Antes disso, vou-lhe explicar o que eu quero que você faça. Eu tenho um carro. Vestido com roupas minhas, você tomará esse carro e o guiará por uma certa estrada. Apenas isso. Receberá mil marcos. ou, se prefere, duzentos e cinqüenta dólares... por esse simples passeio.

— Mil marcos? — repetiu ele, desprezando o valor da moeda estrangeira. — E quando é que me vai dar esse dinheiro?

— Tudo vai acontecer naturalmente, meu amigo. Quando vestir meu sobretudo, encontrará nele a carteira e, dentro da carteira, o dinheiro.

— Que terei de fazer depois disso?

— Já lhe disse. Sair para um passeio, enquanto eu desaparecerei. Você será Visto e confundido comigo. Voltará então.., e eu estarei de volta também depois de ter cumprido o meu objetivo. Quer que eu seja mais exato? Muito bem. A uma certa hora, você atravessará no carro uma aldeia, onde minha cara é bem conhecida. Não falará com ninguém, pois tudo isso não vai durar mais que alguns minutos. Mas eu lhe pagarei muito bem esses minutos, pois eles me darão a maravilhosa Oportunidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo.

— Você será preso com o produto do roubo e então a polícia sairá atrás de mim. Tudo será apurado no julgamento e você dará com a língua nos dentes.

Ri de novo e disse:

— Sabe de uma coisa, parceiro? Até que gostei da facilidade com que você aceitou a idéia de que eu sou um marginal.

Ele replicou dizendo que não gostava de cadeia, O xadrez minava a mocidade das pessoas e que nada havia no mundo que se comparasse à liberdade e ao canto dos passarinhos. Falava com voz um pouco pastosa mas sem a menor sombra de má vontade. Ao fim de algum tempo, pôs-se a pensar, com o cotovelo apoiado no travesseiro. O quarto estava impregnado de cheiros e de silêncio. A cama dele era separada da minha apenas dois passos ou um pulo. Bocejei e, sem tirar a roupa, estendi-me à maneira russa por cima (não por baixo) do edredom. Sentia-me arranhado por uma pequena idéia estranha: durante a noite, Felix poderia matar-me e roubar-me. Esticando o pé para fora e para o lado, arranhando depois a parede com os sapatos, consegui alcançar o interruptor. O pé escorregou. Fiz força de novo e com o calcanhar apaguei a luz.

— E se tudo isso for mentira? — perguntou ele na sua voz monótona. — Posso não acreditar em você, não posso?

Não me movi.

— Tudo mentira — repetiu ele um momento depois.

Continuei imóvel e, nesse momento, comecei a respirar com o ritmo desapaixonado do sono.

Ele escutou, disso eu tive certeza. Escutei a escuta dele. Escutei-o escutar que eu escutava. Alguma coisa se partiu. Notei que não estava absolutamente pensando no que eu pensava que estava pensando. Tentei surpreender a minha consciência a tropeçar, mas me perdi num labirinto.

Sonhei um sonho horrível, um tríplice Efialtes. Primeiro, havia um cachorrinho, que não era simplesmente um cachorrinho; era um falso cachorrinho, minúsculo e com os olhos miúdos de uma larva de besouro. Era todo branco e frio. Carne? Não, não havia carne mas alguma coisa parecida com graxa ou geléia ou talvez com a gordura de um verme branco, mostrando ainda uma espécie de superfície sulcada que lembrava um cordeiro pascoal russo de manteiga, numa imitação revoltante. Era uma criatura de sangue frio que a natureza havia moldado na imagem de um cachorrinho, com rabo e patas, tudo como devia ser. Se a coisa continuasse à minha frente, eu não poderia evitá-la. E quando aquilo tocou em mim, senti como que um choque elétrico.

Acordei. No lençol da cama ao lado da minha, estava todo encolhido como uma larva desmaiada o mesmo temível pseudocachorinho... Gemi de desgosto e abri os olhos. Em torno de mim, flutuavam as sombras. A cama ao lado estava vazia salvo pelas largas folhas de bardanha que a umidade faz nascer nas camas. Podiam ver-se nessas folhas manchas reveladoras de natureza viscosa. Olhei de mais perto e ali estava, grudado a um tronco gordo, pequeno e de uma brancura de sebo, com os olhinhos pretos... mas aí, afinal, acordei de vez.

Nós tínhamos esquecido de baixar as cortinas. Meu relógio de pulso tinha parado. Podiam ser cinco horas ou cinco e meia. Felix dormia embrulhado no edredom, virado de costas para mim. Só a coroa escura da cabeça dele era visível. Tinha sido um despertar fantástico numa manhã fantástica. Pensando na conversa que tínhamos tido, lembrei-me de que não conseguira convencê-lo e uma nova idéia bem mais interessante começou a empolgar-me.

Oh, leitor amigo, sentia-me novo como uma criança depois do meu cochilo; tinha a alma lavada; eu estava de fato no meu trigésimo sexto ano e o que me restava generosamente de vida podia ser dedicado a coisa melhor do que a um vil desconhecido... Era realmente uma idéia fascinante: seguir o conselho do destino e naquele mesmo instante deixar aquele quarto, desaparecer para sempre, esquecer e poupar meu pobre sósia... E talvez ele não fosse absolutamente parecido comigo. Eu podia ver-lhe apenas o alto da cabeça e ele estava ferrado no sono, de costas para mim. Como um adolescente, depois de ceder mais uma vez a um vício solitário e vergonhoso, diz a si mesmo com energia e clareza excepcionais: “Isso acabou de vez; de agora em diante, minha vida será pura e eu conhecerei o encantamento da pureza”, eu, depois de dizer tudo, de ter vivido com antecipação e de ter tido sofrimento e prazer de sobra, estava naquele momento vivamente ansioso por afastar-me da tentação para sempre.

Tudo parecia muito simples. Naquela outra cama, dormia um vagabundo a quem eu por acaso acolhera; os seus pobres sapatos empoeirados estavam no chão com as pontas voltadas para dentro. O seu fiel bastão tinha sido colocado atravessado no assento da cadeira onde estavam as roupas dele dobradas com um cuidado bem proletário. Que diabo estava eu fazendo naquele quarto de hotel de província? Que motivo havia para ali ficar? E aquele seco e pesado cheiro de um estranho, aquele céu coalhado que se via pela janela, a grande mosca negra pousada no jarro de água... tudo me dizia: levanta-te e sai.

Uma escura mancha de lama pedregosa perto do interruptor lembrou-me um dia de primavera em Praga. Ora, eu podia limpar aquilo sem deixar o menor vestígio, nenhum mesmo! Estava ansioso pelo banho quente que tomaria em minha bela casa, embora corrigisse de má vontade a antecipaçãc com o pensamento de que Ardalion usara provavelmente a banheira, como a bondosa prima dele já o deixara fazer, segundo eu suspeitava, uma ou duas vezes em minha ausência.

Baixei os pés para um canto levantado do tapête: penteei os cabelos para trás a partir das têmporas com um pente portátil de tartaruga genuína, não a suja imitação que eu vira aquele vagabundo usar; sem fazer o menor barulho, atravessei o quarto para pegar o sobretudo e o chapéu; apanhei minha maleta e saí, fechando a porta em silêncio. Creio até que, por acaso, relanceei o olhar para o rosto do meu sósia que dormia. Eu teria saído de qualquer maneira, mas não tive a menor vontade de não fazer isso, do mesmo modo que o adolescente mencionado acima não se digna, ao amanhecer, de olhar para a fotografia que adorou na cama.

Dentro de uma leve névoa de torpor, desci as escadas, limpei os sapatos com uma toalha no lavatório, tornei a pentear os cabelos, paguei o quarto e, seguido pelo olhar sonolento do porteiro da noite, saí pela rua. Meia hora depois, estava sentado numa classe de estrada de ferro. Gases com gosto de conhaque viajavam comigo e nos cantos de minha boca persistiam os vestígios salgados de uma omelete simples mas deliciosa que eu havia comido às pressas no restaurante da estação. Assim, numa baixa nota esofágica, termina este capítulo vago.