Desespero

Vladimir Nabokov · Capítulo 8 de 13

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Desespero

Capítulo 7

De saída, vamos adotar a seguinte divisa (não especialmente para este capítulo, mas de um modo geral): Literatura é Amor. Dito isso, podemos continuar.

A agência do correio estava um pouco escura. Havia diante de cada guichê duas ou três pessoas, principalmente mulheres. Atrás de cada guichê, emoldurado na janelinha como um retrato embaciado, estava o rosto de um funcionário. Procurei o número Nove... Vacilei um pouco antes de chegar lá... Havia no meio do caminho uma série de mesas para uso do público e eu parei diante de uma delas, fingindo para o meu próprio eu que tinha alguma coisa para escrever. Tirei do bolso uma velha conta e comecei a rabiscar as primeiras palavras que me vieram à cabeça.

A pena fornecida pelo Estado arranhava o papel e rangia. Molhava-a constantemente no tinteiro e no pouco de tinta que havia nele. O mata-borrão claro no qual eu apoiava o cotovelo estava entrecruzado de impressões de linhas ilegíveis. Aquelas letras irracionais, que pareciam precedidas de um sinal menos, sempre me faziam pensar em espelhos: menos x menos = mais. Ocorreu-me que talvez Felix fosse um eu com sinal menos. Tratava-se de um ponto da mais alta importância que eu fiz mal, fiz muito mal mesmo, em não investigar completamente.

Enquanto isso, a pena tísica em minha mão continuava a vomitar palavras: não posso parar, pote, parada, pancada, inverno, inferno. Amassei o papel na mão. Uma dona gorda e impaciente passou por mim a fim de pegar a pena que eu abandonara e, com isso, me empurrou para o lado com uma rabanada do traseiro de couro de foca.

Vi-me de repente diante do guichê Nove. Um rosto largo com um bigode ruivo me olhou para saber o que eu queria. Balbuciei a palavra da senha combinada. A mão com uma dedeira preta no indicador entregou-me não uma mas três cartas. Parece-me agora que tudo isso aconteceu num instante e que, no momento seguinte, eu ia pela rua com uma das mãos a apertar o coração. Logo que cheguei a um banco, sentei-me e abri as cartas.

Levante-se ali algum monumento como, por exemplo, um poste amarelo. Cumpre que aquela partícula de tempo deixe também uma marca no espaço. Ali fiquei sentado e a ler. Depois, fui sufocado por um riso inesperado e incoercível. A verdade, gentil leitor, é que se tratava de cartas de chantagem! Uma carta de chantagem, que talvez nunca seja aberta por alguém, uma carta de chantagem mandada para a posta-restante para ali ficar até ser procurada, sob um nome combinado, ainda mais com a ingênua confissão de que o remetente não sabe nem o nome, nem o - endereço da pessoa a quem escreve, é, na verdade, um paradoxo muitíssimo engraçado!

Na primeira das três cartas (escrita em meados de novembro), a chantagem era apenas esboçada. Estava muito ofendida comigo aquela carta e pedia explicações, parecia pronta a arquear as sobrancelhas de espanto como devia ter feito quem a escrevera ou a fazer desabrochar a qualquer instante o seu amplo sorriso. Na verdade, dizia ele, não compreendia e tinha muita vontade de compreender por que eu havia procedido de maneira tão misteriosa, por que, sem razões imperiosas, eu havia fugido na calada da noite. Ele tinha certas suspeitas, claro que tinha, mas não queria ainda mostrar as suas cartas. Estava pronto a esconder do mundo essas suspeitas, caso eu agisse como devia. Externava as suas hesitações com dignidade e com dignidade esperava uma resposta. Tudo isso era escrito com muitos erros de gramática e muita pretensão, mistura essa que constituía o seu estilo natural.

Na carta seguinte, escrita em fins de dezembro (que paciência!) o tema especifico já era bem mais evidente. Era claro por que ele insistia em me escrever. A lembrança daquela nota de mil marcos, aquela visão cinza-azul que lhe passara por diante do nariz e se desvanecera, lhe corroía as entranhas. A sua cupidez fora vivamente ferida. Passava a língua pelos lábios ressequidos e não podia perdoar-se que me tivesse deixado ir e assim perdesse o adorável farfalhar daquela nota que lhe dera cócegas nas pontas dos dedos. Assim sendo, escrevia-me para dizer que estava disposto a conceder-me um novo encontro. Tinha pensado muito nas coisas ultimamente. Se eu me negasse a vê-lo ou simplesmente não lhe respondesse, ele se veria forçado... nesse ponto, aparecia um enorme borrão que o patife fizera de propósito com o intuito de me intrigar, desde que não tinha a menor idéia da espécie de ameaça que poderia formular.

Por fim, a terceira carta, a de janeiro, era da parte dele uma verdadeira obra-prima. Lembro-me dela com mais detalhes do que as outras, porque a guardei mais tempo em meu poder. Dizia:

“Não tendo obtido resposta às minhas duas primeiras cartas, creio que é chegado para mim o momento de tomar certas medidas mesmo assim eu lhe concedo um mês para refletir depois do que irei diretamente a um lugar onde todos os seus atos serão julgados pelo seu justo valor e se ali também não encontrar boa vontade para quem é incorruptível hoje em dia recorrerei a uma providência cuja natureza exata deixo a cargo de sua imaginação pois acho que quando o governo não tem interesse em punir os malfeitores, o dever de todo o cidadão honesto é fazer tamanha algazarra que afinal o governo se sinta na obrigação de agir quer queira quer não queira contudo em vista de sua situação pessoal e de outras considerações de bondade e gentileza estou pronto a desistir de minha intenção e não tomar qualquer iniciativa com a condição de que durante o corrente mês me remeta uma quantia considerável para compensar todas as minhas preocupações deixo a soma exata inteiramente a seu critério.”

A assinatura era “Pardal” e logo depois vinha o endereço de uma agência postal provinciana.

Deliciei-me por muito tempo com essa carta, cujo encanto gótico é impossível de ser reproduzido pela minha tradução medrosa. Tudo nela me encantava: a sua majestosa torrente de palavras, que não eram travadas por qualquer pontuação, a ostentação imbecil de ridícula rigidez partindo de indivíduo de aspecto tão inofensivo e aquele consentimento implícito à aceitação de qualquer proposta por mais revoltante que fosse, contanto que ele pegasse o dinheiro. Mas o que me enchia principalmente de prazer, um prazer tão forte e amplo que era difícil de suportar, consistia no fato de que Felix, por sua livre e espontânea vontade, sem qualquer incitamento de minha parte, tinha reaparecido e me oferecia os seus serviços. E não apenas isso. Ordenava-me que utilizasse os seus serviços e, assim fazendo tudo o que eu desejava, eximia-me de qualquer responsabilidade que pudesse decorrer da sucessão fatal dos acontecimentos.

Dobrei o corpo de tanto rir sentado naquele banco. Oh! Era preciso levantar ali um monumento de qualquer jeito, um poste amarelo! Como concebia tudo aquele simplório? Julgaria que as cartas dele, por uma espécie de telepatia, me informariam de que tinham chegado e que, depois de tomar conhecimento magicamente do conteúdo delas, eu teria uma crença mágica no poder de suas ameaças de fantasma? Como era curioso, entretanto, que eu tivesse sentido que as cartas estavam à minha espera no guichê Nove, e que eu pretendesse mesmo respondê-las. Por outras palavras, o que ele, na sua arrogante imbecilidade, havia conjeturado, realmente acontecera!

Sentado ali no banco a agarrar febrilmente as cartas, percebi de repente que meu plano recebera os traços finais e que tudo ou quase tudo estava já assentado. Faltavam ainda alguns detalhes mas não seria problema acertá-los. Na verdade, que problema pode haver em tais assuntos? Tudo marcha por si mesmo, tudo flui e se funde, tomando sem esforço formas inevitáveis. Tudo isso vinha acontecendo desde o momento em que eu vira Felix pela primeira vez.

Por que então falar em problemas, quando é a harmonia dos símbolos matemáticos, o movimento dos planetas, o livre jogo das leis naturais que têm verdadeira relação com o caso? Minha admirável construção cresceu sem a minha assistência. Desde o início, tudo tinha corrido à medida dos meus desejos. E, ainda naquele momento, quando pensei no que devia escrever a Felix, quase não me espantou encontrar a carta já pronta em minha cabeça, tão pronta quanto esses telegramas de boas festas que já vêm com os dizeres impressos. Só me restava assinalar a data no espaço reservado para isso no formulário.

Vamos discutir crimes, a arte do crime, e os truques de cartas. Estou treinadíssimo neste momento. Oh, Conan Doyle! Como você poderia ter dado um remate maravilhoso à sua criação quando seus dois heróis começaram a cansá-lo! poderia, por exemplo, ter escrito um último conto encerrando toda a epopéia de Sherlock Holmes. Que oportunidade, que assunto perdeu! Seria um episódio final para dar realce a todos os anteriores. Nessa história, o assassino não seria o guarda-livros perneta, nem o chinês Ching, nem a mulher de escarlate, mas o cronista das histórias de crimes, o próprio Dr. Watson... que, por assim dizer, sabia quem era Watson. Uma verdadeira surpresa para o leitor!

Mas quem são eles — Conan Doyle, Dostoievski, Maurice Leblanc, Edgar Wallace — quem são todos os grandes romancistas que escreveram sobre os sagazes criminosos, quem são todos os grandes criminosos que nunca leram os sagazes romancistas, quem são todos eles em comparação comigo? Insensatos e errados! Como acontece com os gênios inventivos, fui certamente ajudado pela sorte (no meu encontro com Felix), mas esse fragmento de sorte ajustou-se perfeitamente ao lugar que eu lhe havia reservado. Tratei de agarrá-lo e de usá-lo, o que outro em minha posição não teria feito.

O meu sucesso parece um jogo de paciência arrumado de antemão. Primeiro, disponho as cartas abertas de tal maneira que o resultado seja infalivelmente certo. Depois, coloco as cartas em ordem inversa e entrego o baralho assim preparado aos outros com a perfeita certeza do que vai sair dele.

O erro de meus inúmeros precursores consistiu no fato de terem dado especial ênfase ao próprio ato e de atribuírem mais importância à remoção posterior de todos os vestígios, em lugar de seguirem o meio mais natural de chegar ao mesmo ato, na realidade como um elo numa corrente, como um detalhe ou uma linha num livro que deve derivar-se logicamente de todos os antecedentes, pois tal é a natureza de toda arte. Se tudo for planejado e executado corretamente, a força da arte criadora é tamanha, que se o criminoso fosse entregar-se na manhã seguinte, ninguém acreditaria nele, desde que há na invenção da arte uma verdade muito mais intrínseca do que a realidade da vida.

Lembro-me de que tudo isso me passou pelo espírito naquela ocasião em que eu estava sentado no banco com as cartas na mão, mas naquele tempo a coisa era uma e agora é outra. Agora, eu corrigiria um pouco essa afirmação, acrescentando que (como acontece com admiráveis obras de arte que a multidão se nega, por muito tempo, a compreender e reconhecer, mas cujo encantamento resiste) o gênio de um crime perfeito não é percebido pelo povo e não faz ninguém sonhar e maravilhar-se. Ao contrário, todos fazem o possível para descobrir alguma coisa que possa ser atacada e despedaçada, alguma coisa com que espicaçar o autor, a fim de feri-lo o mais possível. E quando julgam ter encontrado o lapso que procuram, é preciso ouvir-lhes as gargalhadas e as vaias! Mas eles é que estão errados e não o autor; carecem da sua lucidez e nada vêem de fora do comum onde o autor percebeu uma maravilha.

Depois de fartar-me de rir, pensei calma e claramente nos meus lances seguintes. Guardei a terceira carta que era a mais venenosa no bolso, rasguei as outras duas, jogando os fragmentos entre as moitas vizinhas, o que sem demora atraiu os pardais que julgaram tratar-se de migalhas de pão. Dirigi-me então para o meu escritório, onde bati a máquina uma carta para Felix, na qual dava instruções precisas sobre a época e o destino de sua viagem. Incluí vinte marcos para as despesas e tornei a sair.

Sempre me foi difícil largar uma carta suspensa acima da abertura abissal de uma caixa do correio. Parece um mergulho num mar gelado ou um salto de uma sacada em chamas para o que se figura o coração de uma alcachofra. E aquela carta era particularmente difícil de largar. Contive a respiração, senti um frio na boca do estômago e, ainda segurando a carta, continuei pela rua e parei diante da caixa do correio seguinte, onde a mesma coisa voltou a acontecer. Prossegui, sobrecarregado com a carta que me fazia verdadeiramente dobrar o corpo e, de novo diante de um grande edifício de apartamentos, encontrei outra caixa. Minha indecisão se estava tornando incômoda, pois era desprovida de causa e de sentido em vista da firmeza das minhas intenções. Talvez se pudesse considerá-la uma indecisão física, mecânica, uma relutância muscular à descontração. Melhor ainda, talvez fosse como diria um observador marxista (desde que o marxismo, como eu sempre digo, é o que mais se aproxima da Verdade Absoluta) a indecisãO de um proprietário que sempre tem horror (o que constitui a sua verdadeira essência) a abrir mão daquilo que possui. É digno de nota que, no meu caso, a idéia da propriedade não se limitava simplesmente ao dinheiro que eu estava remetendo, mas correspondia à parcela de minha alma que eu pusera na carta. Fosse como fosse, eu já havia vencido a minha hesitação quando cheguei à quarta ou quinta caixa. Eu sabia tão certamente quanto sei que vou chegar ao fim deste período, sabia que nada me poderia impedir de colocar a carta na caixa e previa até o gesto que faria imediatamente depois — esfregar uma na outra as palmas das mãos como se a carta tivesse deixado em minhas luvas partículas de pó. Depois de expedida, a carta não era mais minha como também não o era o seu pó. Pronto, tudo está acabado — tal seria o significado de meu gesto.

Apesar disso, não deixei cair a carta. Fiquei ali parado, vergado sob a minha carga como dantes. Olhei então para duas meninas que brincavam perto de mim na calçada, fazendo rolar, cada uma por sua vez, uma bola de gude iridescente.

Escolhi a mais moça das duas. Era uma criaturinha delicada, de cabelos pretos, com um vestidinho de xadrez. Era uma maravilha que não estivesse sentindo frio naquele áspero dia de fevereiro. Afaguei-lhe a cabeça e disse:

— Escute, meu bem. Tenho a vista tão ruim que não sei se vou conseguir botar esta carta na caixa. Quer fazer isso para mim?

Ela voltou os olhos para mim, levantou-se da posição agachada em que estava (o rostinho era de uma palidez translúcida e de rara beleza), pegou a carta, deu-me um sorriso divino acompanhado de um bater de seus longos cílios e correu para a caixa do correio. Não esperei para ver o resto. Atravessei a rua apertando os olhos (notem bem o fato), como se realmente eu não enxergasse bem. Era a arte pela arte, pois não havia ninguém por perto.

Na primeira esquina, entrei pela porta de vidro de um telefone público e liguei para Ardalion. Era preciso fazer alguma coisa a respeito dele pois havia desde muito tempo chegado à conclusão de que o pintor de retratos intrometido era a única pessoa com quem eu devia tomar cuidado. Os psicólogos é que podem esclarecer se foi a simulação de miopia que por associação me levou a agir em relação a Ardalion como havia muito eu tencionava ou se, ao contrário, foi o fato de pensar constantemente nos olhos perigosos do homem que me deu a idéia de fingir miopia.

Por falar nisso, antes que eu me esqueça, aquela menina vai crescer e provavelmente ficar bonita e ser feliz sem jamais saber do caso fantástico no qual serviu de intermediária.

E há também a probabilidade de que o destino, não tolerando essa bondosa e ingênua corretagem, o invejoso destino com a sua vasta experiência, o seu arsenal de truques e a sua aversão à competição, castigue cruelmente aquela mocinha por por ter sido intrusa e a faça perguntar: “Mas que foi que eu fiz para ser tão infeliz?” E nunca, nunca poderá compreender. Mas estou com a consciência tranqüila. Não escrevi para Felix, ele é que me escreveu; não fui eu que lhe mandei a resposta e, sim, uma menina desconhecida.

Quando cheguei ao ponto de destino seguinte, um café bastante simpático, à frente do qual, num jardinzinho, costumava ostentar-se nas noites de verão uma fonte de cores cambiantes, habilmente iluminada de baixo por alguns refletores polícromos (mas naquela ocasião o jardim estava despojado e triste, a fonte não cintilava e as cortinas grossas do café tinham vencido a sua luta de classe com as ventanias cortantes... como eu escrevo bem e como estou frio e perfeitamente controlado); bem, como eu estava dizendo, quando eu cheguei, Ardalion já estava lá e, ao ver-me, ergueu o braço à romana. Tirei as luvas, o chapéu, o cachecol de seda branca, sentei-me ao lado dele e joguei em cima da mesa um maço de cigarros caros.

— Quais são as boas notícias de que é mensageiro? — perguntou Ardalion que sempre me falava de maneira especialmente fátua.

Pedi café e comecei a falar mais ou menos assim:

— Ora... tenho notícias para você. Tenho vivido ultimamente muito preocupado com a idéia de que você estava decaindo, meu amigo. Um artista não pode viver sem amantes, nem ciprestes, disse Puchkine ou devia ter dito. . . Em razão dos apertos em que você vive e da insipidez geral do seu jeito de existir, o seu talento está morrendo, agonizando por assim dizer; não corre mais do mesmo modo que aquela fonte luminosa ali fica seca no inverno.

— Muito obrigado pela comparação — disse Ardalion com o ar de quem se sentisse magoado. — Aquela abominação. . . aquela fonte em estilo de caramelo! Prefiro não discutir meu talento, fique sabendo, desde que o conceito que você faz da ars pictori equivale a... (Aqui saiu um trocadilho que não pode ser reproduzido).

— Lydia e eu temos conversado muitas vezes sobre a sua situação — continuei sem ligar ao latim macarrônico e à vulgaridade dele. — Acho que você deve mudar de meio, renovar o espírito, impregnar-se de novas impressões.

Ardalion estremeceu dos pés à cabeça.

— Que é que o meio tem a ver com a arte?

— De qualquer maneira, o meio em que está vivendo é desastroso para você e, portanto, não pode deixar de ter alguma importância. As rosas e os pêssegos com que você adorna a sala de jantar da dona da pensão, os retratos dos cidadãos respeitáveis em cuja casa você arranja o jantar...

— Arranja...? Francamente!

— Tudo isso pode ser admirável, genial mesmo, mas, falando com toda a franqueza, tudo isso não lhe parece um pouco monótono e forçado? Você deve ir viver em outro clima com muito sol, pois o sol é o grande amigo dos pintores. Mas estou vendo que esse assunto não lhe interessa. Vamos falar de outra coisa. Por exemplo, qual é a situação atual daquele terreno seu?

— Sei lá! Continuam a me mandar cartas em alemão. Devia pedir a você que traduzisse para mim, mas acho tudo isso tremendamente chato. . . Por isso, perco as cartas ou rasgo-as logo que chegam. Com certeza, querem que eu faça novos pagamentos. No verão que vem, vou construir uma casa ali, é o que eu vou fazer. Quero ver me tirarem o terreno debaixo da casa. Mas você estava falando de uma mudança de clima. Pode continuar que eu estou escutando, caro amigo.

— Não, não adianta. Você não está interessado. Digo coisas sensatas e você fica logo todo irritado.

— Quem é que fica irritado? Ao contrário...

— Não, não adianta...

— Você mencionou a Itália, amigo velho. Pode continuar. O assunto me agrada.

— Ainda não falei em Itália — disse eu, rindo. — Mas já que você pronunciou essa palavra.., não está bem e satisfeito aqui? Há rumores de que você parou de... — E com uma série de piparotes no queixo, imitei o gorgolejar de uma garrafa. — Faz muito bem. Corte a bebida de vez. Entretanto, não lhe recusaria um copinho agora. Beber em companhia de um amigo é diferente, não sei se me entende. Está bem, eu estava apenas brincando...

— É melhor assim porque não tiraria nenhum proveito disso. É impossível embriagar-me. É isso mesmo! Ahmmm.... Como dormi mal esta noite! Ahmmm... Que coisa horrível é a insônia — continuei, olhando-o através das lágrimas que me escorriam dos olhos. — Ahmm... Perdão por estar bocejando assim.

Ardalion, que sorria maliciosamente, brincava com a colher do café. O rosto gordo, com o nariz leonino, estava inclinado e as pálpebras, com verrugas avermelhadas no lugar dos cílios, velavam-lhe a meio os olhos revoltantemente brilhantes. De repente, ele me dardejou um olhar e disse:

— Se eu fizesse uma viagem à Itália, seria mesmo capaz de pintar coisas maravilhosas. O que apurasse na venda dos quadros serviria imediatamente para saldar as minhas dívidas.

— Suas dívidas? Você tem dívidas? — perguntei zombeteiramente.

— Ora, pare com isso, Hermann Karlovich — disse ele, usando pela primeira vez, se não me engano, meu nome e patronímico. — Você compreende muito bem o que eu estou querendo dizer. Empreste-me duzentos e cinqüenta marcos ou, melhor, duzentos e cinqüenta dólares e eu rezarei pela sua alma em todas as igrejas de Florença.

— Por enquanto, fique com isto para pagar o visto em seu passaporte — disse eu, abrindo a carteira. — Você deve ter um passaporte Nansen e não um bom passaporte alemão como todo mundo tem. Trate desse visto imediatamente para não gastar em bebida o dinheiro todo.

— Aqui está minha mão, velho amigo.

Depois, ficamos ambos calados, ele porque transbordava de um júbilo que não tinha significação alguma para mim, e eu porque o assunto estava encerrado e não havia mais nada para dizer.

— Tive uma idéia brilhante — exclamou Ardalion de repente. — Por que não deixa Lydia ir comigo, meu velho? Isto por aqui anda terrivelmente monótono e ela precisa de alguma coisa para se divertir. Se eu for sozinho... Compreenda que ela é muito ciumenta... e ficará pensando que eu estou bebendo em algum lugar. Sinceramente, deixe-a ir passar um mês comigo. Está bem?

— Pode ser que ela vá depois. Talvez vamos os dois. Há muito pretendo, escravo exausto, fugir para a longínqua terra da arte e das uvas translúcidas. Bem, agora tenho de sair daqui. Dois cafés. Foi só isso, não foi?