Desespero

Vladimir Nabokov · Capítulo 4 de 13

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Desespero

Capítulo 3

Como vamos começar este capítulo? Proponho diversas variantes a escolher. A mmero um é a facilmente adotada nos romances em que a narrativa é desenvolvida na primeira pessoa pelo autor verdadeiro ou substituto. Ei-la:

Hoje, o tempo está firme, mas frio e a violência do vento prossegue implacavelmente. Sob a minha janela, a folhagem das coníferas se balança e sacode. O carteiro na estrada de Pignan anda de banda, segurando o boné na cabeça. Minha inquietação aumenta.

Os aspectos distintivos dessa variante são um pouco óbvios. Em primeiro lugar, é claro que o homem a escrever está situado num lugar determinado; não é simplesmente uma espécie de espírito que paira sobre o papel. Enquanto ele escreve e medita, há uma coisa e outra acontecendo em volta dele. Há, por exemplo, o vento, aquele redemoinho de pó na estrada que eu vejo de minha janela (o carteiro conseguiu afinal virar o corpo e, todo encurvado e ainda lutando, segue em frente). Essa variante número um é agradável e reconfortante. Dá um tempo de descanso e ajuda a introduzir a nota pessoal. Com isso, dá vida à história, especialmente quando a primeira pessoa é tão fictícia quanto o resto. Ora, a questão é justamente essa: um truque da profissão, um pobre artifício gasto até o osso pelos literatos que fazem ficção, não me convém porque me tornei rigorosamente autêntico. Podemos então passar à segunda variante que consiste em deixar imediatamente à solta um novo personagem, começando o capítulo assim:

Orlovius estava descontente.

Quando lhe sucedia ficar descontente, preocupado ou apenas ignorante da solução certa, ele costumava puxar o longo lóbulo da orelha esquerda, com a sua franja de penugem cinzenta; em seguida, para evitar ciúmes, puxava também o longo lóbulo da orelha direita, levantava a vista por trás dos seus óculos simples e honestos e demorava muito para afinal responder: “É pesado de dizer, mas...”

“Pesado” para ele significava “difícil” como em alemão e havia de fato uma grossura teutônica no solene russo que ele falava.

Ora, essa segunda variante do começo de um capítulo representa um método popular e seguro... mas há alguma coisa por demais polida nela. Por outro lado, não julgo conveniente que o tímido e melancólico Orlovius abra com essa desenvoltura as portas de um novo capítulo. Chamo a vossa atenção para a terceira variante.

Nesse meio tempo... (o toque convidativo das reticências).

Antigamente, esse subterfúgio era predileto do Kinematógrafo, aliás, cinematógrafo, aliás cinema. Via-se o herói a fazer isto ou aquilo e nesse meio tempo... — Reticências — e a ação se transportava para o campo. Nesse meio tempo... um novo parágrafo, sim?

... Caminhando pela estrada batida de sol e procurando ficar à sombra das macieiras, sempre que os troncos retorcidos e caiados marchavam ao lado dele...

Não, isso é uma noção tola: ele não vivia sempre a caminhar. Algum imundo kulak poderia precisar de um braço a mais. Outra mão seria necessária a algum moleiro estúpido. Desde que nunca fui pessoalmente um vagabundo, não tinha êxito — e ainda não tenho — em reproduzir a vida dele na minha tela particular. O que mais desejava imaginar era a impressão deixada nele de uma certa manhã de maio passada sobre um retalho de grama raquítica nos arredores de Praga. Acordava. Ao lado dele, um homem bem vestido estava sentado e o contemplava. Boa idéia: poderia dar-me um cigarro? Aconteceu que era alemão. Com muita insistência (talvez não fosse muito certo da cabeça) começou a mostrar-me o seu espelho de bolso; chegou mesmo a abusar. Compreendi que estava falando de semelhanças. Ora, pensei, vamos deixar as semelhanças para lá. Não me interessam. Talvez ele tivesse chance de me dar algum bom emprego. Pediu meu endereço. Bem, nunca se sabe, talvez isso dê algum resultado.

Mais tarde, conversa num galpão numa noite quente e escura: “Bem, como eu estava dizendo, encontrei um dia um camarada muito esquisito. Insistia em dizer que éramos duplos.”

Um riso na escuridão: “Vá ver que era você que estava vendo tudo em dobro, velho beberrão.”

Aqui, outro artifício literário apareceu: a imitação de romances estrangeiros, por sua vez também imitações, que retratam os costumes dos vagabundos alegres, dos camaradas joviais. (Creio que os meus artifícios se misturaram um pouco.)

Por falar em literatura, devo dizer que nada há sobre ela que eu não conheça. Sempre foi a minha mania. Já em criança, eu compunha versos e contos complexos. Nunca roubei pêssegos da estufa do rico proprietário do Norte da Rússia de quem meu pai era administrador. Nunca enterrei gatos vivos. Nunca torci os braços de companheiros de brinquedos mais fracos do que eu. Mas, como disse, compunha versos abstrusos e contos complexos, com terrível finalidade e satirizando sem qualquer motivo conhecidos de minha família. Mas eu não escrevia esses contos, nem falava deles. Não se passava um dia sem que eu contasse alguma mentira. Mentia como o rouxinol canta, em êxtase e esquecido de mim mesmo, deleitando-me na nova harmonia de vida que eu estava criando. Por esse doce mentir, minha mãe me dava um tapa nas orelhas e meu pai me sovava com um chicote de montaria que tinha sido um nervo de boi. Isso não me desanimava de maneira alguma; muito ao contrário, estimulava o vôo de minhas fantasias. Com o ouvido zonzo e o assento em fogo, deitava-me de bruços entre as altas plantas do pomar e ali assobiava e sonhava.

Na escola, conseguia invariavelmente as notas mais baixas em composição russa porque tinha uma maneira toda minha de tratar os clássicos russos e estrangeiros. Por exemplo, quando reproduzia “com minhas próprias palavras” o enredo de Otelo (que, entendam bem, eu conhecia perfeitamente), tornava o Mouro céptico e Desdêmona, infiel.

Uma aposta sórdida que eu ganhei de um colega mais adiantado e dado a freqüentar mulheres resultou para mim na posse de um revólver. Eu desenhava então a giz nos troncos dos choupos da floresta caras horríveis que berravam e tratava de atirar nos miseráveis, um por um.

Gostava, como ainda gosto, de fazer as palavras parecerem desconfiadas e ridículas, de juntá-las no falso casamento de um trocadilho, de virá-las pelo avesso e de cair sobre elas inadvertidamente. Que é essa pilhéria em majestade? E esse asno em paixão? Como Deus e o diabo se combinam para formar um cão vivo?

Durante vários anos, fui atormentado por um sonho muito estranho e muito desagradável. Sonhava que estava no meio de um longo corredor que tinha uma porta no fundo e queria desesperadamente abri-la, sem coragem para tanto. Afinal, decidia avançar e abrir a porta, mas logo acordava com um gemido porque o que via ali era inimaginavelmente terrível. Era uma sala inteiramente vazia e recém-caiada. Não passava disso, mas era tão terrível que eu não podia suportar. Então, uma noite, uma cadeira e a sua sombra esguia apareceram no meio da sala vazia — não como uma primeira peça de mobilia, mas como se alguém a tivesse levado para subir nela e consertar um pedaço de cortina e desde que eu sabia a quem eu iria encontrar ali da próxima vez esticando o corpo com um martelo na mão e a boca cheia de pregos, cuspi-os todos e nunca mais abri aquela porta.

Aos dezesseis anos, ainda na escola, comecei a freqüentar com mais regularidade do que dantes uma casa de tolerância agradavelmente livre de cerimônias. Depois de conhecer as sete pequenas que ali havia, concentrei minha afeição numa gorducha de nome Polymnia, com quem eu costumava beber muita cerveja espumante sobre uma mesa molhada num pomar — eu adoro pomares.

Durante a Guerra, como pode ser que eu já tenha mencionado, vivi entediado numa aldeia de pescadores perto de Astracã e, se não fossem os livros, duvido muito de que tivesse conseguido atravessar aqueles anos sombrios.

Conheci Lydia em Moscou (para onde eu conseguira ir por milagre, esgueirando-me através do tremendo tumulto da guerra civil) num apartamento que pertencia a um conhecido fortuito meu e onde eu estava morando. Era um letão, um homem calado e pálido, de crânio cubóide, cabelos rentes e olhos de peixe morto. Tinha a profissão de professor de Latim, mas conseguiu depois tornar-se uma proeminente autoridade soviética. Naquele alojamento, o destino tinha reunido pessoas que mal se conheciam. Entre elas, estava outro primo de Lydia e irmão de Ardalion, Inocêncio, que, por este ou aquele motivo, foi executado por um pelotão de fuzilamento logo depois de nossa partida. (Falando com franqueza, tudo isso ficaria muito mais bem colocado no início do primeiro capítulo do que no início do terceiro.)

“Audaz e zombeteira, mas intimamente torturada / (Ó, minha alma, o teu archote nunca se acenderá?)!, Do pórtico do vosso Deus e de Seu pomar / para que partir para a Terra e para a noite?”

Meus, muito meus! Minhas experiências juvenis nos sons sem sentido que eu amava, hinos inspirados por minha amante tonta de cerveja e “Shvinburne”, como Shvinburne era chamado nas províncias bálticas. . . Agora, uma coisa eu gostaria de saber: seria eu dotado naquele tempo de qualquer das chamadas tendências criminosas? Poderia minha adolescência, tão descorada e sem relevo em todas as aparências, ter segregado a possibilidade de produzir um delinqüente de gênio? Ou quem sabe se eu não estava apenas caminhando por aquele corredor comum de meus sonhos, gritando sempre de horror ao encontrar a sala vazia até que num dia inesquecível não a vi mais vazia? Na verdade, foi então que tudo se explicou e justificou — meu anseio de abrir aquela porta, os estranhos jogos a que me entregava, aquela sede de falsidade, aquele vício de laboriosa mentira que me tinha parecido sem finalidade até então. Hermann descobriu o seu alter ego. Isso aconteceu, como já tive a honra de informar-lhes, a nove de maio. Em julho, fui visitar Orlovius.

A decisão que eu havia tomado e que foi rapidamente executada, teve plena aprovação da parte dele, tanto mais que eu estava seguindo um velho conselho que ele me dera.

Uma semana depois, convidei-o para jantar. Prendeu a ponta do guardanapo de lado no colarinho. Enquanto lutava com a sopa, externou o seu desprazer com o rumo que tomavam os acontecimentos políticos. Lydia indagou com vivacidade se ia haver guerra e com quem. Ele olhou para ela por cima dos óculos (mais ou menos como o relance que o leitor teve dele no começo deste capítulo) e finalmente respondeu:

— É pesado de dizer, mas penso que a guerra está excluída. Quando eu era moço, imbuí-me da idéia de só esperar

o bom (quase transformava “bom” em “pum”, tão engroladas eram as suas consoantes labiais). — Ainda tenho essa idéia. O essencial para mim é o otimismo.

— O que é muito conveniente na sua profissão — disse eu com um sorriso.

Ele baixou os olhos para mim e replicou cheio de seriedade:

— Mas é o pessimismo que nos dá clientes.

O fim do jantar foi inesperadamente coroado com o chá servido em copos. Por algum motivo inexplicável, Lydia julgava essa conclusão requintada e agradável. De qualquer maneira, Orlovius se mostrou satisfeito. Falando pesada e lugubremente de sua velha mãe, que morava em Dorpat, levantou o copo para mexer o resto do chá à maneira alemã — isto é, não com uma colher, mas por meio de um movimento circular do pulso — de modo a não desperdiçar o açúcar que ficara no fundo.

O acordo que eu assinei com a firma dele foi, da minha parte, uma ação curiosamente vaga e insignificante. Foi mais ou menos nessa época que me tornei tão deprimido, calado e distraído. Até minha mulher tão pouco observadora notou que havia alguma mudança em mim —a especialmente quanto à minha maneira de amar que se tornara uma morna rotina depois de toda aquela furiosa dissociação. Uma vez, no meio da noite, quando estávamos acordados na cama e o quarto parecia intoleravelmente abafado apesar da janela escancarada, ela disse:

Você parece cansado de tanto trabalho, Herrnanu. Em agosto, iremos para uma praia.

— Ora, não é só o trabalho. É a vida na cidade que está ficando mortalmente intolerável para mim.

Ela não me podia ver o rosto no escuro. Um minuto depois, continuou:

— Veja, por exemplo, o caso de Tia Elisa... aquela tia minha que morava na França, em Pignan. Existe mesmo essa cidade, Pignan?

— Existe.

— Bem, ela não está mais lá! Mudou-se para Nice com o francês velho com que se casou. Eles têm uma granja por lá.

Ela bocejou.

— Meu chocolate está indo para o inferno, minha velhota. — disse eu e bocejei também.

— Ora, tudo vai acabar bem. — murmurou Lydia — Você só precisa é de um descanso.

— Preciso é de uma mudança de vida e não de um descanso. — disse eu com a aparência de um suspiro.

— Mudança de vida? — disse Lydia.

— Escute, você não gostaria de que fôssemos viver num cantinho quieto e cheio de sol? Não seria uma maravilha para você eu abandonar os negócios? Viver respeitavelmente de rendas. Que tal?

— Eu iria viver com você em qualquer lugar, Hermann. Ardalion poderia ir morar conosco e nós compraríamos um cachorro bem grande.

Uma pausa.

— Infelizmente, não podemos ir para lugar algum. Estou a bem dizer arruinado. Acho que a firma do chocolate vai ter de entrar em liquidação.

Um pedestre retardatário passou. Pam! De novo: pam! Estava com certeza batendo nos postes com a bengala.

— Uma adivinhação: minha primeira é esse som, minha segunda é uma exclamação, minha terceira será anteposta a mim quando eu não existir mais e meu conjunto é minha ruína.

A crepitação macia de um carro que passava.

— Não pode então adivinhar?

Mas a tola de minha mulher já estava dormindo. Fechei os olhos, virei-me para o meu lado e tentei dormir também. Não tive jeito. Do meio da escuridão, diretamente para mim, com o queixo esticado para a frente e os olhos fitos nos meus, Felix apareceu. Ao chegar perto, dissolveu-se e o que vi diante de mim foi apenas a longa estrada deserta pela qual ele viera. Em seguida, muito longe, apareceu uma forma, que era de homem e batia com um bastão em todos os troncos de árvores à beira da estrada. Aproximava-se cada vez mais e eu tentei divisar-lhe o rosto... E eis que com o queixo esticado para a frente e os olhos fitos nos meus... Mas tornou a se desvanecer no momento em que me alcançou ou, melhor, pareceu entrar em mim e passar, como se eu fosse uma sombra. Depois disso, só restou a estrada outra vez a estender-se cheia de expectativa. Um vulto reapareceu e era ele de novo.

Virei-me para o outro lado e durante algum tempo tudo pareceu escuro e tranqüilo, em trevas impenetráveis. Mas, pouco a pouco, uma estrada se tornou perceptível. Era a mesma estrada, mas virada ao contrário. De repente, apareceu diante do meu rosto, como se tivesse saído de dentro de mim, a cabeça de um homem de costas, com uma mochila amarrada aos ombros. O seu vulto foi diminuindo lentamente, afastava-se, afastava-se e dentro em pouco iria desaparecer... mas de súbito parou, olhou para trás e voltou pela estrada, de tal modo que seu rosto se tornou cada vez mis claro; e aquele rosto era o meu.

Virei-me de novo, dessa vez deitado de costas e então, como através de um vidro escuro, estendeu-se acima de mim um céu de um azul escuro muito liso, uma faixa de céu entre as silhuetas das árvores que dos dois lados iam ficando lentamente para trás. Mas quando eu ficava com o rosto voltado para baixo, via correrem abaixo de mim os seixos e a lama de uma estrada rural, fiapos de feno caídos, um sulco aberto pelas rodas de um carro e no qual sê empoçara a água da chuva e nessa poça cuja superfície o vento encrespava, vi a imitação trêmula de meu rosto que, como notei com um choque, não tinha olhos.

— Sempre deixo os olhos para o fim. — disse Ardalion satisfeito.

Estendeu o braço segurando o retrato que com carvão começara a fazer de mim e inclinou a cabeça para um lado e para o outro. Aparecia com freqüência e era em geral na pequena varanda que fazíamos as sessões de pose. Eu tinha tempo de sobra: tinha-me ocorrido conceder a mim mesmo breves férias.

Lydia ficava também presente, com o corpo enroscado numa cadeira de vime e um livro nas mãos; uma ponta de cigarro meio apagada (ela nunca as esmagava até à morte) deixava escapar do cinzeiro com a impávida tenacidade da vida um filete vertical de fumaça. De vez em quando, uma leve aragem fazia-o cair e vacilar, mas em breve se recuperava e ficava tão reto e fino quanto dantes.

— Não acho nada parecido. — disse Lydia sem, entretanto, levantar os olhos do livro.

— Isso virá a seu tempo. — replicou Ardalion. — Vou desbastar um pouco o nariz e, então, ficará melhor. A luz está um pouco ruim esta tarde.

— Quem é que está ruim? — perguntou Lydia, levantando a cabeça e marcando com o dedo o trecho interrompido.

Vou interromper também essa passagem, porque ainda há outro pedaço de minha vida naquele verão digno dé sua atenção, leitor. Ao mesmo tempo que peço desculpas pela confusão e pelas variações de minha história, devo repetir que não sou eu que estou escrevendo mas minha memória que tem caprichos e regras próprias. Vejam-me então vagando de novo pela floresta que fica perto do lago de Ardalion. Dessa vez, vim sozinho e não de carro, mas de trem (até Koenigsdorf) e de ônibus (até o poste amarelo).

No mapa dos subúrbios que Ardalion deixou um dia em nossa varanda, são mostrados com muita clareza todos os aspectos da localidade. Vamos supor que eu esteja segurando esse mapa diante de mim; neste caso, a cidade de Berlim, que está fora do mapa, pode ser imaginada mais ou menos nas imediações de meu cotovelo esquerdo. No canto do sudoeste do mapa propriamente dito, estende-se para o norte, como um pedaço preto e branco de fita métrica, a linha ferroviária que, metafisicamente ao menos, corre de Berlim ao lado do punho da minha manga. Meu relógio-pulseira é a pequena vila de Koenigsdorf, além da qual a fita preta e branca muda de direção e segue para leste, onde há outro círculo (o último botão de meu colete): Eichenberg.

Não há, porém, necessidade ainda de ir tão longe: descemos em Koenigsdorf. Enquanto a estrada de ferro se volta para leste, a sua companheira, a estrada de rodagem, separa-se dela e continua no rumo norte sozinha, diretamente até a aldeia de Waldau (a unha de meu polegar esquerdo). Três vezes por dia, um ônibus faz a ligação entre Koenigsdorf e Waldau (dezessete quilômetros). É em Waldau, diga-se de passagem, que está a sede da empresa que vende os terrenos. Há um pavilhão pintado com cores alegres, uma bandeira de fantasia desfraldada ao vento e vários cartazes amarelos com setas. Um deles, por exemplo, aponta o balneário, mas balneário é coisa que não existe; vê-se apenas um remanso na margem do lago de Waldau. Outro cartaz aponta para o cassino, também inexistente, embora representado por alguma coisa que parece um tabernáculo e onde há um incipiente balcão de café. Pode ver-se outro cartaz que convida a pessoa para o “campo de esportes” e sem dúvida ali se encontra, recém-levantada, uma complicada armação para ginástica, que lembra uma forca e nunca é usada por ninguém, salvo algum garoto da aldeia que se balança de cabeça para baixo, mostrando os fundilhos remendados das calças. E em volta, para todos os lados, estão os lotes. Alguns estão quase vendidos e, aos domingos, vêem-se ali homens gordos de roupa de banho e óculos de aros grossos, atentamente empenhados em construir bangalôs rudimentares. Aqui e ali, avistam-se rosas recém-plantadas ou, então, uma privada cor-de-rosa cercada de roseiras trepadeiras.

Não iremos, entretanto, até Waldau. Desceremos do ônibus no décimo quilômetro a partir de Koenigsdorf num ponto onde há um poste amarelo isolado do lado direito da estrada. No lado leste da estrada, o mapa mostra um vasto espaço todo pontilhado. Ë a floresta. Ali, bem no centro, fica o pequeno lago onde tomamos banho e em cuja margem oeste estão, estendidos em leque como cartas, doze lotes, dos quais só um foi vendido — o de Ardalion — se se pode realmente dizer que foi vendido.

Agora é que estamos chegando à parte interessante. Já mencionamos a estação de Eichenberg que vem depois de Koenigsdorf quando se viaja para leste. Chegou o momento de apresentar uma questão técnica: É possível a uma pessoa, partindo das proximidades do lago de Ardalion, chegar a Eichenberg a pé? A resposta é afirmativa. Deve-se ir até à margem sul do lago e então seguir na direção leste através da floresta. Depois de uma caminhada de quatro quilômetros sempre por dentro da floresta, chegamos a um caminho rústico que leva de um lado não importa aonde, a povoados que não interessam, ao passo que do outro nos conduz a Eichenberg.

Minha vida está toda estropiada e confusa, mas lá me vou eu fazendo palhaçadas, jogando com pequenas descrições de lugares, empregando às vezes o confortável pronome “nós”, piscando os olhos para o turista, para o dono de bangaló, para o amante da natureza, para a pitoresca mistura de verdes e azuis. Mas tenha paciência comigo, caro leitor. O passeio que vamos dar agora será um bom prêmio. Essas conversas com o leitor são sem dúvida muito bobas. Apartes de teatro. A vaia eloqüente: “Mais baixo! Vem gente aí...”

Aquele passeio. O ônibus me deixou diante do poste amarelo e continuou o seu caminho, livrando-me de três velhas com vestidos pretos de bolinhas, de um camarada com colete de veludo que levava uma foice dentro de um saco, de uma mocinha que carregava um enorme embrulho e de uni homem vestido de sobretudo apesar do calor e com uma grande bolsa de viagem que parecia bem pesada nos joelhos. Devia ser um veterinário.

Entre os eufórbios e a grama do campo, encontrei marcas de pneus. Eram dos pneus de meu carro que tinham batido e saltado ali várias vezes, durante os nossos passeios. Eu usava calções de golfe ou como os alemães lhes chamam, knickerbackers (com o “k” soando). Entrei na floresta. Parei no mesmo lugar onde eu e minha mulher tínhamos esperado Ardalion. Fumei ali um cigarro. Olhei para o pequeno novelo de fumaça que se estendia lentamente a meia altura, era dobrado por dedos fantasmais e se dissolvia. Senti um espasmo na garganta. Fui até ao lago e vi na areia os restos alaranjados e pretos do papel de um rolo de filmes (Lydia tinha tirado instantâneos nossos). Contornei o lago e, ao chegar ao lado sul, segui diretamente para leste através da cerrada floresta de pinheiros.

Ao fim de uma hora de caminhada, cheguei ao caminho rural. Entrei por ele e daí a mais uma hora cheguei a Eichenberg. Embarquei num trem vagaroso. Voltei para Berlim.

Várias vezes fiz esse passeio sem jamais encontrar vivalma na floresta. Penumbra e um profundo silêncio. A terra à beira do lago não se estava de modo algum vendendo. Aliás, todo o loteamento ia de mal a pior. Quando nós três costumávamos ir tomar banho no lago, a nossa solidão durante o dia inteiro era tão perfeita que se poderia, se quisesse, tomar banho em pêlo. Isso me recorda que uma vez, por ordem minha, a apavorada Lydia tirou o maiô de banho e, com muitos rubores lindos e risinhos nervosos, posou em amarelo claro e castanho (com as coxas roliças tão apertadas que mal podia ficar de pé) para o seu retrato diante de Ardalion, que de repente se aborreceu com alguma coisa, talvez com a sua falta de talento, parou de desenhar e saiu por ali à procura de cogumelos comestíveis.

Quanto ao meu retrato, trabalhou obstinadamente nele até agosto quando, tendo falhado com a honesta dureza do carvão, mudou para a mesquinha falta de caráter do pastel. Marquei por mim mesmo um certo limite de tempo: a data em que ele devia terminar o trabalho. Afinal, sentiu-se o aroma de suco de pêra do verniz, o retrato foi emoldurado e Lydia deu a Ardalion vinte marcos alemães, metidos por delicadeza num envelope. Tivemos visitas naquela noite, entre as quais Orlovius e todos nós ali ficamos a olhar... o quê? O horror rosado de meu rosto. Não sei por que ele tinha dado às minhas faces, mortalmente pálidas, aquele tom de fruta. Por mais que se olhasse, não se podia ver nem sombra de semelhança! Como era profundamente ridículo, por exemplo, aquele ponto vermelho no canto do olho ou aquele relance de um canino sob o lábio franzido e ríspido! Tudo isso diante de um fundo ambicioso que sugeria árvores que poderiam ter sido figuras geométricas ou forcas...

Orlovius, em quem a miopia era uma forma de burrice, aproximou-se do retrato o mais possível, depois de haver levantado os óculos para a testa (por que os usava? Eram apenas um estorvo) e ficou ali parado com a boca entreaberta, arquejando levemente diante do quadro como se o quisesse devorar. “Estilo moderno”, murmurou afinal com desgosto e passou ao quadro vizinho, que começou a examinar com a mesma atenção conscienciosa, embora não passasse de uma gravura comum encontrada em todas as casas de Berlim, A Ilha dos Mortos.

E agora, caro leitor, imaginemos um pequeno escritório no sexto andar de um edifício impessoal. A datilógrafa já tinha saído; eu estava sozinho. Na janela, aparecia um céu cheio de nuvens. Na parede, uma folhinha mostrava um grande nove preto que lembrava a língua de um touro: o nove de setembro. Na mesa, jaziam as preocupações do dia (sob a forma de cartas dos credores) e entre elas uma caixa de chocolate simbolicamente vazia com a mulher de lilás que não me fora fiel. Ninguém mais. Tirei a capa da máquina de escrever. Silêncio completo. Em certa página do meu caderninho de bolso (posteriormente destruído) havia um endereço escrito por alguém quase analfabeto. Olhando por aquele prisma trmulo, eu podia ver uma testa pálida curvada, um ouvido sujo, uma cabeça inclinada, uma violeta pendente de uma lapela e um dedo de unha negra comprimido sobre a minha lapiseira de prata.

Lembro-me de que saí desse torpor, tornei a guardar o caderninho no bolso, tirei as chaves e já ia fechar tudo e sair... Cheguei mesmo a sair mas parei no corredor com o coração a bater mais depressa... Não, era impossível sair... Voltei ao escritório e fiquei durante algum tempo à janela olhando para o edifício do outro lado. As lâmpadas defronte de mim já estavam acesas e brilhavam sobre livros de escrituração e um homem de preto que, com a mão nas costas, andava de um lado para outro, presumivelmente ditando alguma coisa para uma secretária que eu não podia ver. Aparecia de vez em quando e, em dado momento, parou diante da janela para pensar um pouco. Em seguida, virou-se e continuou ditando, ditando, ditando!

Inexorável! Acendi a luz, sentei-me e apertei as têmporas com as mãos. De repente, com uma fúria alucinada, o telefone se pôs a tocar; mas não passava de um engano.

Houve então mais uma vez silêncio, quebrado apenas pela batida leve da chuva que apressava o cair da noite.