Desespero
Capítulo 11
Mudei-me para uma altitude um pouco maior. Um contratempo me fez mudar de pouso.
Pensei que ia escrever no máximo dez capítulos, mas estava muito enganado! É curioso lembrar com que firmeza, com que serenidade, a despeito de tudo, eu ia concluindo o décimo capítulo. Mas não o consegui e aconteci interromper o meu último parágrafo numa rima para “desgraça”. A empregada apareceu para arrumar meu quarto e eu, não tendo nada de melhor para fazer, desci para o jardim e ali fui envolvido numa tranqüilidade celestial e inefável. A princípio, não compreendi o que estava acontecendo mas de repente sacudi o corpo e percebi que o furacão que vinha açoitando a região havia passado.
Era divino o ar que vinha por sobre a sedosa folhagem fluida dos salgueiros, até a verdura das folhas não-caducas tentava parecer renovada e os troncos seminus e atléticos dos sobreiros mostravam um vermelho muito rico.
Saí a passear pela estrada. À direita, os vinhedos escros se estendiam obliquamente. Os seus rebentos ainda nus apareciam num padrão uniforme e lembravam cruzes de cemitério baixas e tortas. Por fim, sentei-me na relva e, ao olhar além dos vinhedos para o alto de um morro coberto de tojo dourado e com as encostas cheias de espessa folhagem dos carvalhos e para o profundo-profundo céu azul-azul. Refleti com uma espécie de lânguida ternura (pois talvez a característica essencial embora oculta de minha alma seja a ternura) refleti que uma vida nova e simples tinha começado, deixando para trás o fardo das laboriosas fantasias. Então, ao longe, do lado de meu hotel, o ônibus apareceu e eu resolvi divertir-me pela última vez com a leitura dos jornais de Berlim. Depois de embarcar no ônibus, fingi que estava dormindo (e fui tão longe na minha representação que até sorri no sonho) porque notei entre os passageiros o representante comercial dos presuntos. Mas dentro em breve estava dormindo de verdade.
Tendo obtido o que queria na aldeia, só abri o jornal quando voltei e então, com um sorriso bem-humorado, comecei a ler. Logo depois, ri abertamente: o carro fora descoberto.
O seu desaparecimento era explicado da seguinte maneira: três amigos alegres que passavam pela estrada na manhã de 10 de março — um mecânico desempregado, o cabeleireiro a quem já conhecemos e o irmão do cabeleireiro, um rapaz sem profissão fixa — viram na orla distante da floresta o brilho do radiador de um carro e se dirigiram imediatamente para lá. O cabeleireiro, que era um homem correto, disse que um deles devia ficar tomando conta do carro até que o dono aparecesse. Do contrário, deviam levar o carro para a delegacia de polícia em Koenigsdorf. Mas o irmão dele e o mecânico, que gostavam de se divertir, fizeram outra sugestão. O cabeleireiro replicou, porém, que não concordaria com isso e se internou mais na floresta, observando os arredores. Deu sem demora com o corpo do morto. Voltou apressadamente chamando os seus companheiros e ficou horrorizado ao ver que nem eles, nem o carro, estavam mais por lá. Esperou durante algum tempo, imaginando que fossem voltar. Mas isso não aconteceu. À tardinha, resolveu afinal informar a polícia de sua “sinistra descoberta”, mas, sendo amigo do irmão, guardou silêncio a respeito do carro.
O que ocorreu então foi que os dois malandros bateram com meu Icarus, ao qual trataram de esconder com a intenção de nada dizer à polícia, mas depois pensaram melhor e se entregaram. A notícia acrescentava: “No carro foi encontrado um objeto que estabeleceu a identidade do homem assassinado.”
Primeiro, por um lapso da vista, li “a identidade do assassino” e isso me aumentou a hilaridade, pois não se sabia desde o início que o carro me pertencia? Mas uma segunda leitura me fez pensar.
A frase me irritou. Havia uma tola espécie de confusão em torno da mesma. E claro que me convenci imediatamente de que se tratava de algum novo truque ou então de que não tinham encontrado nada mais importante que aquela ridícula garrafa de vodca. De qualquer maneira, isso me preocupava e, durante algum tempo, conferi conscienciosamente na memória todos os artigos que tinham participado do caso (lembrei-me até do trapo que ele usava como lenço e do seu revoltante pente) e como eu tinha agido na ocasião com cuidadosa e firme precisão, não tive dificuldade na recapitulação e na conclusão de que tudo estava em ordem. Q.E.D.
Em vão tudo. Eu não tinha paz... Já estava mais que em tempo de terminar aquele último capítulo, mas, ao invés de escrever, saí outra vez a vaguear pelos arredores. Quando voltei, estava tão completamente exausto que o sono me dominou imediatamente, apesar da confusa agitação do meu espírito. Sonhei que depois de uma tediosa busca (fora de cena e não apresentada em meu sonho), ncontrei afinal Lydia, que se estava escondendo de mim e que declarou então friamente que tudo estava bem, que ela estava de posse da herança e que se ia casar com outro homem, “porque você está morto”, como disse ela. Acordei cheio de tremenda raiva e com o coração a bater disparadamente. Ludibriado e indefeso, porque como podia um morto chamar os vivos a juízo, inteiramente indefeso! Voltei então ao meu juízo perfeito e ri... Que trapalhadas são às vezes os sonhos! Mas senti de repente que havia alguma coisa extremamente desagradável que nenhum riso poderia dissipar. Essa coisa não fazia parte de meu sonho e não era meu sonho que tinha importância. . . O que tinha realmente valor era o mistério das notícias do dia anterior, o objeto encontrado no carro... Refleti que se, na verdade, não se tratava de uma ardilosa armadilha ou de um engano; se, na realidade, eles tivessem descoberto o nome do morto e se esse fosse o nome certo... Não havia muitos ses... Repeti a cautela com que fizera o exame na véspera, quando seguira as curvas, regulares com as órbitas dos planetas que os diversos objetos haviam tomado... Eu poderia ter até traçado com linhas pontilhadas as rotas de cada um. Mas, com tudo isso, meu espírito não estava à vontade.
À procura de algum meio de libertar-me desses intoleráveis pressentimentos, reuni as folhas do meu original, sentindo-
-lhes o peso na palma da mão, cheguei a murmurar jovialmente “Muito bem!” e decidi que antes de escrever os dois ou três períodos finais, iria reler tudo do princípio ao fim.
Tinha a impressão de que uma grande satisfação me estava reservada. Ali de pé ao lado da mesa em que escrevia, na minha camisa de dormir, era com amor que eu balançava nas mãos aquela farfalhante profusão de páginas escritas. Fui para a cama uma vez mais; arrumei convenientemente os travesseiros sob os ombros. Notei então que havia deixado o manuscrito em cima da mesa embora pudesse até jurar que ele me tinha estado todo o tempo nas mãos. Calmamente, sem praguejar, levantei-me e levei-o para a cama, tornei a ajeitar os travesseiros e olhei para a porta. Fiquei sem saber se estava trancada ou não pois achava tremendamente desagradável ter de interromper a leitura a fim de abrir a porta para a empregada quando ela me levasse o café às nove horas. Tornei a levantar-me e mais uma vez com muita calma, verifiquei que a porta não estava trancada e que, portanto, eu não seria importunado. Tirei um cigarro, voltei para a cama desfeita, acomodei-me confortavelmente e ia começar a ler quando notei que meu cigarro estava apagado. Ao contrário dos cigarros alemães, os cigarros franceses reclamam constante atenção. Onde os fósforos tinham ido parar? Um momento antes, estavam comigo! Levantei-me pela terceira vez, já então com as mãos um pouco trêmulas. Descobri os fósforos atrás do tinteiro, mas, ao voltar para a cama, esmaguei com o meu peso outra caixa que estava escondida entre as cobertas, o que mostrava que eu poderia ter-me poupado o trabalho de sair da cama. Perdi a calma. Apanhei no chão as folhas esparsas do meu manuscrito e a deliciosa antecipação que pouco antes me havia empolgado transformou-se quase em sofrimento, na horrível apreensão de que algum demônio malévolo iria apontar-me erros e mais erros, apenas erros.
Entretanto, depois de acender de novo o cigarro e de reduzir à submissão com alguns murros os travesseiros mal-intencionados. comecei a leitura. O que mais me impressionou foi a ausência de um título na primeira página. Sem dúvida, eu tinha a certa altura pensado num título. Era uma coisa que começava com “Memórias...“ Mas “Memórias” de quem? Disso eu não me podia lembrar. De qualquer maneira, “Memórias” seria um título comum e sem relevo. Como deveria então chamar meu livro? “O Sósia”? Mas já havia um livro com esse título na literatura russa. “Crime e Trocadilho”? Não estava ruim, mas talvez fosse um pouco rude. “O Espelho”? “Retrato do Artista num Espelho”? Muito seco, à la mode... Que tal “A Semelhança”? “A Semelhança Irreconhecida”? “Justificação de uma Semelhança”? Não... frio, com um toque filosófico. Alguma coisa como “Só os Cegos Não Matam”? Muito comprido. Talvez “Resposta aos Críticos”? Ou então”O Poeta e a Ralé”? Tinha de pensar nisso. Primeiro, vamos ler o livro todo, disse eu em voz alta. O título virá depois.
Comecei a ler e, dentro em pouco, não sabia mais se etava a ler linhas escritas ou se tinha visões. Mais ainda: minha memória transfigurada inalava, por assim dizer, uma dose dupla de oxigênio. Meu quarto era ainda mais claro porque as vidraças tinham sido lavadas; meu passado se tornava ainda mais vívido porque era duplamente irradiado pela arte. Vi-me subindo de novo o morro nos arredores de Praga — ouvindo a cotovia cantar no céu e vendo a cúpula vermelha e redonda do gasômetro. Fui outra vez empolgado por violenta emoção ao deparar com o vagabundo que dormia. Tornei a vê-lo espreguiçarse e bocejar e de novo havia uma pobre violeta fanada pendente da lapela dele. Continuei a ler e, um por um, apareceram todos: minha rosada mulher, Ardalion, Orlovius. Todos estavam vivos, mas de certo modo eu trazia nas mãos as vidas de todos eles. Vi novamente o poste amarelo e andei por dentro da floresta já a arquitetar planos na cabeça; num dia de outono, minha mulher e eu olhamos de novo uma folha que caía ao encontro do seu reflexo. E ali estava eu caindo numa cidade da Saxônia cheia de repetições e ali estava meu sósia que se levantou calmamente para encontrar-se comigo. Voltei a exercer o meu fascínio sobre ele, e colhi-o nas minhas malhas, mas ele escapuliu e eu fingi desistir do meu plano e, então, com uma força inesperada, a história voltou a acender-se e a exigir do seu criador continuação e conclusão. E, mais uma vez, numa tarde de março, eu ia dirigindo o carro sonhadoramente pela estrada e ele estava ali na vala, perto do poste, à minha espera.
— Entre depressa. Temos de ir.
— Para onde?
— Para aquela floresta.
— Para ali? — perguntou ele, apontado...
Com o bastão, leitor, com o seu B-A-S-T-Ã-O, gentil leitor amigo. Era um cacete rudemente lavrado no qual estava gravado no nome do dono: Felix Wohlfahrt de Zwickau. Apontou com o seu bastão, leitor amigo ou inimigo, como seu bastão! Sabem o que é um bastão, não sabem? Pois foi com isso que ele apontou — um bastão. Entrou no carro e deixou o bastão lá quando saiu, desde que, temporariamente, o carro lhe pertencia. Anotei até a satisfação que ele sentiu. Que coisa curiosa é a memória de um artista! Imagino que deva superar tudo mais. “Para ali?” — perguntou ele, apontando com o seu bastão. Nunca na minha vida me senti mais assombrado.
Sentei-me na cama e arregalei os olhos para a linha que eu escrevera — perdão, eu não, mas a minha singular colaboradora que é a memória. Vi então muito bem como aquilo era irreparável. Não estou falando do fato da descoberta do bastão e, portanto, do nosso nome comum, o que levaria invariavelmente à minha captura. Não, não era isso que me afligia, mas, sim, a idéia de que o conjunto de minha obra-prima, que eu concebera e executara com um cuidado tão minucioso, fora intrinsecamente destruído e iria transformar-se num pequeno montão de mofo em conseqüência do erro que eu havia cometido. Ouçam, ouçam todos! Ainda que o cadáver dele tivesse passado pelo meu, a polícia teria achado aquele bastão e então viria capturar-me, pensando que botava a mão nele — e essa é a grande infelicidade! Toda a minha concepção se baseara na impossibilidade de um engano e agora se via que tinha havido um engano — e da natureza mais grosseira, ridícula e trivial. Ouçam, ouçam todos! Inclino-me sobre os destroços de minha maravilhosa criação e uma voz maldita me grita ao ouvido que a ralé que me negou reconhecimento talvez tivesse razão... De fato, começo a duvidar de tudo, a duvidar até das coisas essenciais, e compreendo que o pouco de vida que ainda me resta deve ser dedicado a uma luta inútil contra essa dúvida. Sorri então o sorriso dos condenados e com uma pena rombuda que rangia de dor, escrevi rápida e bravamente na primeira página de minha obra a palavra “Desespero”. Não é preciso procurar um título melhor.
A criada me trouxe o café. Tomei-o, deixando as torradas intactas. Vesti-me então às pressas, arrumei as malas e desci com elas. O médico não me viu, felizmente. O gerente mostrou-se surpreso com a minha partida e me fez pagar uma conta exorbitante. Mas isso não tinha mais importância. Só ia sair dali porque isso era de rigueur em tais casos. Estava seguindo uma certa tradição. Aliás, tinha motivos para supor que a polícia francesa já estivesse em minha pista.
Quando ia para a aldeia, vi do meu ônibus dois polícias num carro veloz, branco como as costas de um moleiro. Passaram pelo ônibus e tomaram direção contrária, desaparecendo numa nuvem de poeira. Mas não posso dizer que estivessem ali com o propósito deliberado de me prender. Além disso, passaram em grande velocidade e talvez não fossem de modo algum da polícia. Quando cheguei a Pignan, fui à agência do correio e me arrependo disso pois podia ter perfeitamente dispensado a carta que ali encontrei. Nesse mesmo dia, escolhi num folheto vistoso uma paisagem numa aldeia de montanha e, ao cair da tarde, cheguei lá. Quanto à carta... Pensando melhor, resolvi transcreve-la aqui, pois é um belo exemplo da ruindade humana.
“Escute aqui, meu caro senhor estou-lhe escrevendo por três motivos: (1) a pedido dela; (2) minha firme intenção de dizer-lhe exatamente o que penso de sua pessoa; (3) o desejo sincero de minha parte de sugerir que se entregue à polícia a fim de esclarecer esse caso sanguinário e esse revoltante mistério, com o qual ela, inocente e apavorada, é quem mais sofre naturalmente. Devo avisar-lhe que encaro com a mais profunda dúvida todo aquele enredo dostoievskiano que se deu ao trabalho de contar a ela. Usando de muita moderação, só lhe posso dizer é que tudo é uma danada mentira. E foi uma mentira covarde, à vista da impressão que deixou nos sentimentos dela.
“Ela me pediu que lhe escrevesse, pensando que talvez não saiba de coisa alguma. Perdeu a cabeça e jura que o senhor se zangará muito se ela lhe escrever agora. Gostaria muito de vê-lo zangado agora. Seria uma coisa muito divertida.
“... E é essa a situação. Não basta, porém, matar um homem e vesti-lo adequadamente. Há necessidade de mais um pequeno detalhe, a saber: semelhança entre os dois. Mas no mundo inteiro não há, nem pode haver, dois homens iguais, por mais que sejam disfarçados. Na verdade, não houve qualquer debate em torno de tais sutilezas, pois a primeira coisa que a polícia disse a ela foi que tinham encontrado um homem morto com os papéis do marido dela, mas que não era esse marido. Verificou-se então a parte mais terrível. Tendo recebido instruções de um patife imundo, a probrezinha insistiu, antes mesmo de ver o corpo — está compreendendo? — insistindo contra todas as probabilidades que o corpo era do marido dela e de ninguém mais. Não consigo compreender como foi que conseguiu infundir numa mulher, que era e é praticamente uma estranha para o senhor, tão sagrado respeito. Para conseguir uma coisa dessas, sem dúvida, é preciso ser fora do comum na relação dos monstros. Só Deus sabe que provações ainda a esperam! Isso não deve acontecer. O seu dever elementar é livrá-la dessa espécje de cumplicidade. Afinal de contas, todos vêem o caso com a maior clareza! Saiba para seu governo, meu caro, que esses pequenos truques com seguros de vida são conhecidos há séculos. Posso até dizer que o seu caso é um dos mais primários e comuns que é possível imaginar.
“Vamos agora ao que eu penso do senhor. A primeira notícia do caso foi alcançar-me numa cidade onde, depois de encontrar alguns colegas artistas, estava encalhado. Como vê, não cheguei a ir à Itália e dou graças aos céus de não ter ido. Sabe o que senti quando li a notícia? Não tive a menor surpresa! Soube sempre que você era um malfeitor e um valentão e pode crer que, durante o inquérito, não guardei segredo sobre coisa alguma que eu sabia. Por isso, descrevi demoradamente o tratamento que você dava a ela — suas zombarias, suas troças, seu desprezo, sua implacável crueldade e a ação negativa de sua presença que todos nós achávamos enregelante e opressiva. Parece-me um grande javali cinzento e selvagem com presas pútridas — é uma pena que não tivesse morrido assado como um javali naquele seu terno. E há mais uma coisa de que quero lavar o peito. Posso ser o que for — um bêbado abúlico ou um homem sempre disposto a vender a honra em favor de sua arte — mas deixe-me dizer-lhe que tenho vergonha de haver aceito as migalhas que me atirou e que com alegria revelaria a minha vergonha no exterior e iria expô-la em praça pública se com isso pudesse libertar-me do fardo que carrego.
“Escute, javali! Esta situação não pode Continuar. Desejo a sua morte não porque seja um assassino, mas porque é o mais mesquinho dos patifes mesquinhos, tendo usado para os seus fins perversos a inocência de uma jovem mulher crédula, a quem, na verdade, dez anos de vida no seu inferno particular atordoaram e despedaçaram. Se ainda há um resto de vergonha na sua alma negra, entregue-se!”
Deveria reproduzir esta carta sem quaisquer comentários. O leitor sensato de meus capítulos anteriores não pode deixar de ter notado o tom amigo e a bondade de minhas atitudes em relação a Ardalion. E era assim que ele me pagava. Mas vamos deixar isso para lá, para lá... É melhor pensar que ele escreveu essa carta completamente embriagado — pois só assim se explica a sua falta de forma, o seu afastamento da verdade, a sua abundância de afirmações caluniosas, cujo absurdo será facilmente visto pelo mesmo leitor atento. Chamar minha alegre, vazia e não muito brilhante Lydia de mulher “atordoada” e — qual foi a outra expressão que ele usou? — “despedaçada”; sugerir alguma espécie de divergência entre mim e ela, é realmente demais... Não sei que palavras posso empregar para definir essa ação. Não existem essas palavras. O autor da carta já usou todas possíveis, embora em direção errada. E desde que eu havia pensado últimamente com alguma satisfação que tinha superado o supremo limite possível da dor, da mágoa, da ansiedade mental, caí, depois de ler essa carta num estado tão terrível que meu corpo foi sacudido por tremores e todas as coisas em torno de mim começaram a tremer: a mesa, o copo em cima da mesa e até a ratoeira armada num canto de meu novo quarto.
Mas dei de repente uma palmada na testa e comecei a rir. Como era simples! Com que facilidade o misterioso delírio daquela carta se resolvia! Tinha sdio um delírio de proprietário! Ardalion não me pode perdoar que eu lhe tenha tomado o nome para servir como destinatário da carta de Lydia na posta-restante e que eu tenha cometido o crime naquele terreno dele. É uma tolice dele; tudo já entrou em falência há muito tempo... Ninguém sabe mais quem é o verdadeiro dono do terreno e... e... Mas chega de lar no imbecil do Ardalion. Dei a última pincelada no retrato dele. Com um último floreio do pincel, assinei o retrato num canto. Está muito melhor do que a máscara mortuária que o palhaço fez de mim. Basta. Está bem parecido, senhores!
Apesar disso... como se atreveu ele... Ora, vá para o diabo que o carregue, para o diabo que o carregue, para o diabo que o carregue inteirinho!
31 de março. Noite.
Minha história degenera, infelizmente, num diário. Mas nada é possível fazer. Já estou tão habituado a escrever que agora não posso mais desistir. Reconheço que o diário é o mais baixo dos gêneros literários. Os entendidos apreciarão aquele belo, inibido e falsamente significativo “Noite” (com a intenção de fazer os leitores imaginarem a variedade insone de pessoas literárias, tão pálidas e atrativas). Mas na realidade é noite agora.
O povoado onde me consumo fica no berço de um vale, entre altas montanhas compactas. Aluguei um grande quarto que mais parece um galpão na casa de uma velha sombria que tem embaixo uma mercearia. A aldeia tem uma rua apenas. Eu poderia estender-me no relato dos encantos do lugar, descrevendo, por exemplo, as nuvens que se comprimem e rastejam pela casa, usando um conjunto de janelas e saindo depois de arrastar-se pelas janelas fronteiras — mas descrever tais coisas é sempre muito aborrecido. O que me diverte é que eu sou o único turista aqui. Como, ainda por cima, sou estrangeiro e como os habitantes chegaram a descobrir (creio que a dona da casa teve alguma responsabilidade nisso) que vim diretamente da Alemanha, a curiosidade que desperto é fora do comum. Ainda não houve tanta agitação por aqui desde a época, duas temporadas atrás, em que uma companhia de cinema chegou para fazer filmagens de sua starlet no filme Les contrebandiers. Sem dúvida, eu deveria ficar escondido, mas a verdade é que estou muito em evidência. Seria difícil encontrar um lugar mais iluminado pelos refletores, ainda que se quisesse. Mas estou exausto; quanto mais depressa tudo acabar, melhor.
Hoje, muito apropriadamente, fiz conhecimento com o gendarme local. É uma figura perfeita de farsa! Imaginem um indivíduo de rosto gordo e corado, de pernas cambaias e bigode preto. Eu estava sentado num banco ao fim da rua e em torno de mim os aldeões estavam entregues às suas ocupações ou, melhor, fingiam estar entregues às suas ocupações e na realidade me observavam com implacável curiosidade e fosse qual fosse a posição em que estivessem, usando todo o eixo de visão, por cima do ombro, via sovaco, ou por baixo do joelho. Via-os empenhados nisso com muita clareza. O gendarme se aproximou de mim com alguma desconfiança. Falou do tempo e tratou então de discorrer sobre política e, depois, sobre arte. Chegou a apontar-me uma espécie de cadafalso pintado de amarelo que era só o que restava da cena onde um dos contrabandistas quase fora enforcado.
Lembrava-me de certa maneira o falecido e lamentado Felix, com aquela nota judiciosa e o espírito maternal do autodidata. Perguntei-lhe quando se efetuara na localidade a última prisão. O homem pensou um pouco e respondeu que isso havia acontecido seis anos antes quando capturaram um espanhol que se mostrara um tanto liberal no uso da faca durante uma briga e fugira então para as montanhas. Dentro, em pouco, meu interlocutor achou de seu dever me informar que naquelas montanhas havia muitos ursos que tinham sido levados para ali pelo homem com o intuito de eliminar os lobos índigenas, o que me pareceu muito cômico. Mas ele não riu. Ficou ali com a mão direita a torcer desalentadamente a ponta esquerda do bigode, depois do que, começou a discutir a educação moderna.
— Posso servir de exemplo — disse ele. — Sei Geografia, Aritmética e a ciência da guerra. Tenho uma bela caligrafia e...
— E, por acaso, toca violino? — perguntei.
Ele abanou tristemente a cabeça.
Neste momento, estou tremendo em meu quarto. Digo impropérios contra os cachorros que latem lá fora. Espero a cada momento ouvir cair a pequena guilhotina da ratoeira e decapitar um rato anônimo. Tomo mecanicamente alguns goles do chá de verbena que minha senhoria julga do seu dever trazer-me, pensando que estou com um ar abatido e receando provavelmente que eu possa morrer antes do julgamento. Muito bem, neste momento, estou sentado aqui a escrever em papel pautado — não foi possível encontrar outro na aldeia — e ora medito, ora olho de banda para a ratoeira. Graças a Deus, não há espelho no quarto, do mesmo modo que não há o Deus a quem dou graças. Tudo é escuro, negro, tudo é terrível e eu não vejo qualquer razão especial para que eu permaneça neste mundo sombrio e inutilmente inventado. Não é que eu pretenda matar-me. Seria antieconômico, desde que há em quase todos os países um homem pago pelo Estado para ajudar uma pessoa no momento da morte. Depois, o murmúrio oco da eternidade vazia. Mas o mais notável talvez é que há uma possibilidade de que nem tudo termine ainda, isto é, de que não me executem mas me Sentenciem a um período de trabalhos forçados. Caso isso aconteça, dentro de cinco anos mais ou menos, com a ajuda de uma anistia oportuna, poderei voltar para Berlim e fabricar chocolate de novo... Não sei por que, mas tudo isso me parece extremamente cômico.