Desespero
Capítulo 6
A inexistência de Deus é fácil de provar. É impossível aceitar, por exemplo, que um Jeová sério, onisciente e onipotente, pudesse gastar o tempo de maneira tão vazia a brincar com bonequinhos e — o que é ainda mais incongruente — restringisse o seu jogo às leis tremendamente banais da mecânica, da química e da matemática e nunca — notem bem, nunca! — mostrasse o rosto, limitando-se a espiadas sub-reptícias e circunlóquios e os furtivos sussurros (revelações, pois sim!...) de verdades controvertidas por trás das costas de algum gentil nervoso.
Presumo que todo esse caso de divindade seja uma grande impostura, da qual os sacerdotes certamente não têm culpa, pois são vítimas dela. A idéia de Deus foi inventada na madrugada da história por algum tratante genial. Essa idéia tem muito de humano, para que se possa admitir a sua origem celestial. Não quero dizer com isso que seja fruto da ignorância crassa. O tratante de que falo era bem versado em assuntos celestes e eu não sei ao certo qual é a variante melhor do céu: o deslumbramento de anjos de olhos de argos batendo as asas ou aquele espelho curvo em que para um professor de Física autocomplacente se encolhe, ficando cada vez menor. Há ainda outro motivo pelo qual não posso, nem quero, acreditar em Deus. O conto de fadas a respeito dele não é realmente meu, pertencendo aos outros, a todos os homens; está impregnado dos eflúvios malcheirosos de milhões de outras almas que se moveram um pouco sob o sol e então estouraram; está eivado de temores primordiais ressoa nele um coro confuso de inúmeras vozes que tentam sobrepujar umas às outras; ouço nele o estrondo e o arquejo do órgão, o berro do diácono ortodoxo, a melodia do cantor da sinagoga, a fluência eloqüente do pregador protestante, gongos, trovões, espasmos de mulheres epilépticas. Vejo brilhar através dele as páginas pálidas de todas as filosofias como a espuma de ondas há muito arrebentadas; tudo isso me é estranho, odioso e absolutamente inútil.
Se eu não sou senhor de minha vida, nem sultão de meu ser, não pode haver lógica de homem ou paroxismos extáticos de homem que me forcem a achar menos tola minha posição absurdamente tola, a de escravo de Deus; não, nem sequer escravo, mas apenas um fósforo displicentemente riscado e então apagado por algum menino curioso, terror dos seus brinquedos. Não há, portanto, razões para ansiedade: Deus não existe, como também não existe outra vida, espantalho que se remove com tanta facilidade quanto o outro. De fato, imagine alguém que acaba de morrer e vai de repente acordar no Paraíso onde, todos sorridentes, os seus entes queridos o esperam.
Façam agora o favor de me dizer que garantias se pode ter de que esses amados fantasmas são genuínos, de que é realmente a querida mãe morta e não algum mesquinho demônio que mistifica a pessoa, disfarçado como a mãe e a imitá-la com arte e naturalidade consumadas? Aí é que está a dificuldade, aí é que está o horror, ainda mais porque a representação se prolongará indefinidamente. Nunca, nunca, nunca a alma no outro mundo terá plena certeza de que os doces espíritos gentis que ali o cercam não são demônios disfarçados e alma ficará sempre, sempre e sempre em dúvida, esperando a cada momento alguma terrível mudança, algum esgar diabólico para desfigurar o rosto querido que para ela se inclina.
É por isso que estou disposto a aceitar tudo, venha como vier; o corpulento carrasco no seu chapéu alto e então o oco murmúrio da eternidade vácua. Recuso-me, porém, a sofrer as torturas da vida eterna e não quero aqueles frios cachorrinhos brancos. Deixem-me, não suportarei o menor sinal de ternura, estou avisando, porque sei que tudo é embuste, um baixo truque de mágica. E quando o ente mais querido que conheço neste mundo encontrar-se comigo no outro, e os braços que eu conheço se estenderem para abraçar-me, darei um grito de puro horror e cairei a contorcer-me na grama paradisíaca... Oh! Não sei bem o que farei! Não, não devem ser admitidos estranhos na terra dos bem-aventurados.
Entretanto, apesar da minha falta de fé, não sou por natureza nem deprimido, nem perverso. Quando voltei de Tarnitz para Berlim e efetuei um inventário dos bens de minha alma, alegrei-me como uma criança com as riquezas minguadas mas certas que ali encontrei e tive a sensação de que, renovado, reformado, liberado, eu estava entrando, como se costuma dizer, numa nova etapa da vida. Tinha uma esposa com um cérebro de passarinho, mas que era bonita e me adorava. Tinha, além disso, um belo apartamentozinho, um estômago acomodatício e um carro azul. Sentia que havia dentro de mim um poeta, um escritor, bem como grandes capacidades comerciais, ainda que os negócios andassem por baixo. Felix, meu sósia, não parecia senão uma curiosidade inofensiva e era muito possível que eu tivesse falado nele a meu amigos, se naquele tempo tivesse amigos. Pensei sem muito empenho em abandonar meu chocolate e dedicar-me a outra coisa, por exemplo, a publicação de volumes caros, de luxo, que tratassem exaustivamente das relações sexuais tal como eram reveladas na ciência e na literatura... Em suma, eu estuava de energia e não sabia como iria aplicá-la.
Um fim de tarde de novembro, especialmente, avulta em minha memória. Quando entrei em casa de volta do escritório, não encontrei minha mulher. Tinha-me deixado um bilhete dizendo que fora ao cinema. Sem saber o que fazer passeei pelo apartamento e estalei os dedos. Sentei-me então à minha mesa com a intenção de escrever um trecho de excelente prosa mas só consegui lambuzar a caneta e desenhar uma série de narizes encatarrados. Por isso, levantei-me e saí. Eu tinha tremenda necessidade de alguma coisa... de alguma espécie de intercâmbio com o mundo, pois, minha própria companhia era intolerável desde que me excitava demais e sem qualquer finalidade. Fui procurar Ardalion, charlatão de sangue quente e desprezível. Quando ele afinal me deixou entrar (trancava-se no quarto com receio dos credores) fiquei sem saber ao certo por que tinha ido até lá.
— Lydia está aqui — disse ele, com alguma coisa na boca (goma de mascar como se veio a saber). — Está passando mal. Fique à vontade.
Lydia estava deitada na cama de Ardalion fumando e semivestida, isto é, sem sapatos e com uma combinação verde amarfanhada.
— Oh, Hermann, — disse ela — que bom você ter tido a idéia de vir até aqui. Minha barriga não está bem. Sente-se aqui. Melhorou agora, mas passei mal no cinema.
— E bem no meio de um ótimo filme — disse Ardalion, esgaravatando o cachimbo e espalhando no chão os restos enegrecidos. — Há meia hora que ela está deitada aí. Tudo isso é apenas obra da imaginação feminina. Não é nada.
— Mande-o calar a boca — disse Lydia.
— Escute aqui — disse eu, voltando-me para Ardalion. — Tenho certeza de que não estou enganado. Você não pintou um quadro que mostra um cachimbo de urze branca e duas rosas?
Ele produziu um som que os romancistas costumam reproduzir indiscriminadamente assim: Hum...
— Que eu saiba, não — respondeu ele. — Parece que está trabalhando demais, amigo velho.
— Minha primeira — disse Lydia estendida na cama com os olhos fechados — minha primeira é um romântico sentimento ardente. Minha segunda é um animal. O conceito é também um animal ou, se preferem, um mau pintor.
— Não ligue para ela — disse Ardalion. — Quanto ao cachimbo e às rosas, acho que não. Mas pode procurar por si mesmo.
Os seus quadros estavam pendurados nas paredes, jogados desordenadamente na mesa, amontoados num canto. Tudo no quarto estava coberto por uma película de pó. Examinei as manchas sujas e purpúreas das aquarelas dele; toquei em vários pastéis gordurosos arrumados em cima de uma cadeira desconjuntada...
— Em primeiro lugar, — disse Ardorlion (Ardor-leão) a sua bela prima, terrivelmente provocante — deve aprender
como é que se escreve meu nome.
Saí do quarto e me encaminhei para a sala de jantar da dona da pensão. A velha, com um jeito muito grande de coruja, estava sentada numa poltrona gótica que ficava numa parte mais alta do assoalho perto da janela e cerzia uma meia estendida sobre um cogumelo de madeira.
— . . . ver os quadros — disse eu.
— Tenha a bondade — disse ela, gentilmente.
Encontrei logo à direita do aparador o que estava pró-curando. Aconteceu, porém, que não se tratava bem de duas rosas, nem bem de um cachimbo, mas de duas grandes pêras e um cinzeiro de vidro. Voltei num estado de aguda irritação.
— Como é? Encontrou? — perguntou Ardalion.
Sacudi a cabeça. Lydia já havia enfiado o vestido e os sapatos e tratava de arrumar os cabelos diante do espelho com a escova de Ardalion.
— Curioso... Devo ter comido alguma coisa que me fez mal — disse ela com aquele jeito muito seu de franzir o nariz.
— Isso são gases — murmurou Ardalion. — Esperem um momento, sim? Vou com vocês. Visto-me num instante. Vire-se para o outro lado, Lydia.
Vestia um guarda-pó remendado e manchado de tinta que lhe descia até quase os calcanhares. Tirou isso. Não havia nada embaixo a não ser a sua cruz de prata e tufos simétricos de cabelos. Detesto desmazelo e sujeira. Palavra que Felix era mais limpo que ele. Lydia estava olhando para fora da janela e cantarolava sem parar uma musiquinha que havia muito caíra de moda (e como ela pronunciava mal a letra alemã). Ardalion andava pelo quarto, vestindo-se às prestações de acordo com o que descobria nos lugares mais inesperados.
— Pobre de mim! — exclamou ele de repente. — Que pode haver de mais vulgar que um artista sem dinheiro? Se alguém de bom coração me ajudasse a organizar uma exposição, eu ficaria famoso e rico logo no dia seguinte.
Jantou conosco, jogou cartas com Lydia e saiu depois da meia-noite. Proponho isso como o programa de uma noite alegre e proveitosamente passada. Sim, tudo estava bem, tudo era excelente. Sentia-me outro homem, revigorado, renovado, liberado (um apartamento, uma esposa, o frio penetrante de um inclemente inverno berlinense) e assim por diante. Não posso deixar de dar também um exemplo de meus exercícios literários — uma espécie de treino subconsciente, segundo suponho, em vista da minha atual luta com esta mortificante história. As páginas tímidas e insignificantes escritas naquele inverno foram destruídas, mas uma ainda me persiste na memória. E isso me recorda um dos poemas em prosa de Turguenev... “Como eram belas e frescas as rosas” com acompanhamento de piano. Assim, devo importuná-los pedindo um pouco de música.
Era uma vez um homem fraco e gasto pela vida mas muito rico, um tal X. Y. Estava apaixonado por uma jovem encantadora que, infelizmente, não lhe dava a menor atenção. Um dia, durante uma viagem, esse homem pálido e apagado notou na praia um jovem pescador chamado Mano, camarada alegre, forte e queimado de sol, que, apesar de tudo isso, era maravilhosa e estupendamente parecido com ele. Uma idéia brilhante ocorreu ao nosso herói. Convidou a moça a quem amava a ir com ele até a praia. Hospedaram-se em hotéis diferentes. Logo na primeira manhã em que ela saiu para dar um passeio, quem foi que ela viu do alto dos rochedos? Seria mesmo X.Y.? Era difícil de crer! Estava lá embaixo na areia, alegre, queimado do sol, numa camisa listrada de jérsei e os fortes braços nus (mas era Mano!). A moça voltou para o hotel e ficou esperando, esperando... Os minutos de ouro foram virando chumbo...
Enquanto isso, o verdadeiro X.Y. que, de trás de um loureiro, a vira olhar lá embaixo para Mano, seu sósia, e estava dando tempo para que o coração dela ficasse bem no ponto, passeava ansiosamente pela aldeia, vestido de terno e com uma gravata lilás. De repente, uma moça do lugar com uma saia escarlate chamou-o da porta de uma cabana e, com um gesto latino de surpresa, exclamou: “Como você está bem vestido, Mano! Sempre pensei que você fosse um pescador simples e rude, como são todos os nossos rapazes, e não o amava. Mas agora, agora. . .“ Puxou-o para dentro da cabana. Lábios sussurrantes, uma mistuta de cheiro de peixe e loção de cabelos, carícias ardentes. E assim as horas passaram...
Afinal, X.Y. abriu os olhos e foi até o hotel onde sua querida, o seu único amor, febrilmente o esperava. “Eu estava cega”, exclamou ela ao vê-lo entrar. “Mas agora minha visão foi restaurada quando o vi aparecer na sua nudez bronzeada na praia banhada de sol. Sei que o amo. Faça de mim o que quiser.” Lábios sussurrantes? Carícias ardentes? Horas aladas? Não, positivamente não. Só um persistente cheiro de peixe. O pobre homem estava inteiramente exausto de seu recente encontro e ficou ali sentado, muito abatido
e triste, pensando como tinha sido louco em sabotar e anular o seu magnífico plano.
Material muito medíocre, sou o primeiro a reconhecer. Enquanto eu escrevia, tinha a impressão de que estava produzindo uma coisa muito viva e inteligente. Em certas ocasiões, isso acontece em sonho. Sonha-se que se está fazendo um discurso absolutamente brilhante, mas quando se recorda tudo ao despertar as palavras parecem desprovidas de sentido: “Além de ficar em silêncio antes do chá, estou em silêncio diante da esplanada e dos espelhos”, etc.
Por outro lado, aquele pequeno conto ao jeito de Oscar Wilde estaria muito bem na seção literária dos jornais, cujos redatores, especialmente os alemães, gostam de oferecer aos seus leitores justamente esses pequenos contos de estilo bonito e levemente licencioso, quarenta linhas ao todo, com uma intenção elegante e uma pitada do que os ignorantes chamam de paradoxos (“A conversa dele cintilava de paradoxos.”). Uma ninharia decerto, um capricho - da pena, mas deverão ficar espantados quando eu lhes disser que escrevi essa baboseira piegas numa agonia de sofrimento e de horror, rangendo os dentes, desabafando-me furiosamente, mas, ao mesmo tempo, com plena consciência de que aquilo não era desafogo de espécie alguma, mas uma refinada tortura e que eu nunca libertaria minha alma sombria e soturna por esse método, que apenas servia para piorar as coisas.
Foi mais ou menos nesse estado de espírito que eu enfrentei a noite de Ano Novo. Lembro-me da carcaça negra daquela noite, que era como uma feiticeira desequilibrada, prendendo a respiração à espera de que batesse a hora sacramental. Sentados à mesa, estávamos, Lydia, Ardalion, Orlovius e eu, imóveis e fixos como figuras heráldicas. Lydia, com o cotovelo na mesa, o indicador levantado vigilantemente, os ombros nus, o vestido tão variegado quanto as costas de uma carta de jogar; Ardalion com uma manta de peles sobre os joelhos (em vista da porta da varanda aberta) e um brilho vermelho no seu gordo rosto leonino; Orlovius, de sobrecasaca preta, com os óculos a faiscar e o colarinho de pontas viradas a engolir as pontas de sua diminuta gravata preta e eu, o Relâmpago Humano, a iluminar aquela cena.
Muito bem, agora podem movimentar-se e andem depressa com essa garrafa pois o relógio já vai bater meia-noite. Ardalion serviu o champanha e todos ficamos parados de novo. De lado e por cima dos óculos, Orlovius olhou para o seu velho relógio de prata colocado em cima da toalha da mesa. Faltavam ainda dois minutos. Na rua, alguém não agüentou mais a tensão da espera e soltou um foguete que explodiu ruidosamente; seguiu-se um pesado silêncio. Olhando para o seu relógio, Orlovius estendeu então para o copo, a mão senil com garras de grifo.
De repente, a noite cedeu e começou a rasgar-se. Subiram gritos da rua. Como se fôssemos reis, saímos com nossos copos de champanha para a varanda. Foguetes silvavam acima da varanda e iam estourar no alto em lágrimas coloridas. E em todas as janelas, em todas as varandas, emoldurada em cunhas e quadrados de luz festiva, havia gente comprimida a gritar repetidamente o mesmo cumprimento idiota.
Nós quatro tocamos os copos. Tomei um gole.
— Que é que Hermann está bebendo? — perguntou Lydia a Ardalion.
— Não sei, nem quero saber — disse Ardalion. — De qualquer maneira, ele vai ser decapitado este ano por sonegação de lucros.
— Que coisa horrível! — exclamou Orlovius. — Bebo à saúde universal.
— E faz muito bem — disse eu.
Alguns dias depois, numa manhã de domingo, quando eu já ia entrar no banho, a empregada bateu na porta e ficou repetindo alguma coisa que eu não podia ouvir direito em vista do barulho da água que corria na banheira. “Que é que há?”, berrava eu. “Que é que você quer?” Mas minha voz e o barulho da água sufocavam as palavras de Elsie e toda a vez que ela começava a falar eu berrava de novo, como acontece a duas pessoas que se encontram de frente numa calçada livre e larga, mas não se podem desvencilhar uma da outra, pois ambas se desviam repetidamente para o mesmo lado.
Mas tive afinal a idéia de fechar a torneira. Saltei então para a porta e, no súbito silêncio, a vozinha infantil de Elsie disse:
— Está aí um homem à sua procura.
— Um homem? — perguntei, abrindo a porta.
— Um homem — repetiu Elsie, como se fizesse um comentário sobre a minha nudez.
— Que é que ele quer? — perguntei e não apenas me senti suado, mas me vi coberto de gotas de suor da cabeça aos pés.
— Diz ele que é um assunto de negócios e que o senhor sabe de que se trata.
— Como é ele? — perguntei com um esforço.
— Está esperando na saleta — disse Elsie, com a mais completa indiferença pela armadura de pérolas que me cobria.
— Que espécie de homem é ele?
— Parece pobre e está com uma mochila passada pelo ombro.
— Diga-lhe que pode ir para o inferno direto! — exclamei. — Faça-o sair imediatamente. Diga a esse homem que não estou em casa, não estou na cidade, não estou neste mundo!
Bati a porta e passei o ferrolho. Sentia o coração latejar-me bem na garganta. Passou-se mais ou menos meio minuto. Não sei o que me deu de repente mas já gritando, abri a porta e saí do banheiro, nu como estava. No corredor, choquei-me com Elsie que estava voltando para a cozinha.
— Diga ao homem que espere! Onde está ele? Faça-o esperar!
— Ele já foi — disse ela, afastando-se polidamente do meu abraço sem intenção.
— Para que foi que você...
Mas nem acabei a frase. Corri para o quarto, enfiei os sapatos, as calças e o sobretudo, precipitei-me pela escada abaixo e saí na rua. Ninguém. Fui até a esquina, fiquei ali durante algum tempo olhando para todos os lados e acabei voltando para casa. Eu estava sozinho, pois Lydia tinha saído muito cedo para ver, segundo dissera, uma amiga. Quando voltou, disse-lhe que não estava passando muito bem e não iria com ela até ao café, como havíamos combinado.
— Coitado — disse ela. — E melhor você se deitar e tomar alguma coisa. Há aspirina por aí. Está muito bem. Irei ao café sozinha.
E foi. A empregada havia saído também. Fiquei esperando em verdadeira agonia que tocassem a campainha da porta.
“Idiota!”, pensava de mim mesmo. “Que grande idiota!”
Achava-me num estado de mórbida exasperação. Não sabia o que fazer. Estava disposto até a rezar a um Deus inexistente para que a campainha tocasse. Quando escureceu, não acendi a luz. Continuei deitado no divã, esperando, esperando... Com certeza, apareceria antes que a porta do edifício fosse fechada pelo resto da noite. Em todo caso, se isso não acontecesse, no dia seguinte ou, na pior das hipóteses, dois dias depois iria aparecer sem dúvida alguma. Eu morreria se ele... Não, não! Ele tinha de aparecer... Afinal, às oito horas, a campainha tocou e eu corri para a porta.
—Epa! Como estou cansada! — disse Lydia desgraciosamente, tirando o chapéu e passando a mão pelos cabelos.
Vinha acompanhada de Ardalion. Ele e eu fomos para a sala enquanto minha mulher foi fazer alguma coisa na cozinha.
— “O peregrino está com frio e fome” — disse Ardalion esquentando as mãos no aquecimento central e citando erradamente o poeta Nekrasov.
Silêncio.
— Pode dizer o que quiser — disse ele, olhando para meu retrato — mas há muita semelhança. Digo-lhe mais: uma semelhança notável. Sei que é pretensão de minha parte, mas não posso deixar de admirar esse retrato sempre que o vejo. E você fez bem, caro amigo, em raspar de novo esse bigode, sabe?
— O jantar está pronto! — exclamou Lydia com voz gentilmente modulada da sala de jantar.
Não pude tocar em comida. A cada instante, mandava um ouvido sair e ficar de sentinela junto à porta da rua, embora soubesse que já era muito tarde.
— Dois dos meus sonhos favoritos — disse Ardalion, dobrando fatias de presunto como se fossem panquecas e mastigando-as vigorosamente. — Dois sonhos celestiais: uma exposição e uma viagem à Itália.
— Há mais de um mês que esta pessoa aqui não toca numa gota de vodca — disse Lydia à guisa de explicação.
— Por falar em vodca — disse Ardalion — Perebrodov já o procurou?
Lydia levou a mão à boca.
— Isso me saiu da memória por completo — disse ela por entre os dedos.
— Nunca vi um camarada assim. O fato é que eu tinha pedido a Lydia que falasse com você... É a respeito de um pobre artista, de nome Perebrodov, velho amigo meu. Veio a pé de Dantzig até aqui. Pelo menos, é o que ele diz. Vende cigarreiras pintadas a mão e Lydia pensou que você poderia ajudá-lo. Dei-lhe seu endereço.
— Ah, sim, ele me procurou — respondi. — Procurou e eu mandei dizer que podia ir para o inferno. Ficaria muito grato a você se deixasse de me mandar toda a espécie de exploradores e mordedores. Pode dizer a seu amigo que não se dê ao trabalho de aparecer de novo. Na verdade, isso está passando dos limites. Poderiam até pensar que eu me tornei um benfeitor profissional. O diabo que carregue seu amigo... como é que se chama? Não quero nada com ele!
— Calma, Hermann, calma... — disse Lydia suavemente.
— Muito triste isso — murmurou Ardalion depois de fazer um som explosivo com os lábios.
Continuei a deblaterar durante algum tempo. Não me lembro mais das palavras que disse, mas isso não tem a menor importância.
Parece de fato que me adiantei um pouco — disse Ardalion, olhando de lado para Lydia. — Desculpe.
Fiquei calado de repente e comecei pensativamente a mexer minha xícara de chá muito tempo depois de não haver mais açúcar. Ao fim de algum tempo, disse:
— Sou um perfeito animal, não é mesmo?
— Ora essa, também não exagere — disse Ardalion, com um sorriso bem-humorado.
A minha falta de juízo me encheu de alegria. Como era que não me tinha ocorrido que se Felix tivesse aparecido (o que por si só seria um milagre pois ele nem meu nome sabia), a empregada teria ficado estupefata pois teria visto diante dela uma cópia perfeita de mim mesmo?
Depois que pensei nisso, minha fantasia construiu com cores vivas as exclamações da empregada e mostrou-a correndo para mim, a gaguejar e a rodear-me, falando da maravilha de nossa parecença. Eu teria explicado então a ela que se tratava de meu irmão chegado inesperadamente da Rússia. Na realidade, passara um longo dia sozinho a sofrer absurdamente, porque, em lugar de sentir-me surpreso com o simples fato da chegada dele, tratara de pensar no que iria acontecer depois — se ele se fora embora de vez ou se ainda voltaria, que pretendia de mim e se a chegada dele não iria prejudicar o cumprimento de meu sonho persistente, louco e admirável ou, então, se algumas pessoas que me conheciam o tinham visto na rua e, neste caso, se isso significava o desmoronamento dos meus planos.
Depois de haver assim ponderado sobre as falhas de minha razão e sobre o perigo tão facilmente dissipado, senti, como já disse, uma onda de satisfação e boa vontade.
— Desculpem-me por favor. Estou muito nervoso hoje. Para dizer a verdade, acontece que não cheguei a ver seu bom amigo, Ardalion. Eu estava no banho e Elsie disse a ele que eu não estava em casa. Escute, quando estiver com ele, dê-lhe estes três marcos. . . o que posso fazer faço com muito prazer ... e diga-lhe que no momento não posso fazer mais por ele e que convém que ele procure outra pessoa, talvez Vladimir Isakovitch Davidov.
— Aí está uma boa idéia — disse Ardalion. — Eu irei também procurá-lo. Por falar nisso o velho Perebrodov bebe como um peixe. Pergunte àquela minha tia que se casou com um agricultor francês, de quem já lhe falei, muito boa pessoa, mas avarenta como ela só. Ela tinha umas terras na Criméia e durante a luta ali em 1920 Perebrodov e eu bebemos tudo o que havia na adega dela.
— Quanto à viagem à Itália — disse eu, sorrindo — vamos ver.
— Hermann tem um coração de ouro — murmurou Lydia.
— Quer-me passar as salsichas, querida? — disse eu, sorrindo como dantes.
Não pude bem compreender na época o que me estava acontecendo, mas agora já sei o que era. Minha paixão pelo meu sósia estava surgindo novamente com uma violência surda mas terrível que dentro em breve fugiu a qualquer controle. Começou com a conscientização de que na cidade de Berlim havia um vago ponto central em torno do qual unia força confusa me obrigava a circular cada vez mais perto. O azul de cobalto das caixas de correio, o automóvel amarelo de grandes rodas com a insígnia da águia preta sob a sua janela gradeada, um carteiro com o saco pendente sobre a barriga a descer a rua (com aquela especial lentidão que em certos trabalhadores é um sinal de experiência), a máquina de selar correspondência na estação do metrô ou até as pequenas lojas filatélicas onde se viam selos apetitosamente sortidos de todas as partes do mundo metidos em envelopes com janelinhas — em suma, tudo o que se relacionava com o correio começou a exercer sobre mim uma estranha pressão e uma implacável influência.
Lembro-me de que um dia um estado muito semelhante ao sonambulismo me levou a determinada rua que eu conhecia muito bem e ali estava eu cada vez mais perto do ponto magnético que se tornara o fulcro do meu ser. Mas, de repente, com um sobressalto recuperei a consciência e fugi. Mas alguns minutos ou talvez alguns dias depois, percebi que tinha de novo entrado naquela mesma rua.
Estava na hora da entrega da correspondência e eu vi marcharem na minha direção com um passo bem descansado uma dúzia de carteiros de farda azul que ainda, sem pressa alguma, se dispersaram na esquina.
Mudei de rumo, mordendo o polegar e abanando a cabeça. Eu ainda estava resistindo mas com a louca pulsação da intuição infalível, sabia que a carta estava ali à minha espera e que, mais cedo ou mais tarde, eu acabaria cedendo à tentação.