Desespero
Capítulo 2
Tenho chegado a habituar-me tanto a uma visão externa de mim mesmo, sendo ao mesmo tempo pintor e modelo, que não é de admirar que falte ao meu estilo a bendita graça da espontaneidade. Por mais que me esforce, não consigo voltar ao meu invólucro original e, muito menos, ficar à vontade no meu antigo eu. A desordem por lá é muito grande: tiraram coisas do lugar, a luz está apagada e morta e os fragmentos do meu passado juncam o chão.
Foi um passado bem feliz, posso dizer. Tinha em Berlim um apartamento pequeno mas agradável, de três peças e meia, com uma sacada batida de sol, água quente e aquecimento central. Lydia era minha mulher de trinta anos e Elsie, nossa empregada de dezessete. Perto, ficava a garagem onde era guardado aquele delicioso carrinho — azul-escuro, de dois lugares, comprado a prestações. Na varanda, um gordo cacto espinhento de cabeça redonda crescia bravamente, embora com lentidão. Comprava os meus cigarros sempre no mesmo varejo e era recebido ali com um radioso sorriso. Um sorriso semelhante acolhia minha mulher na casa que nos abastecia de ovos e manteiga. Aos sábados à noite, íamos a um café ou ao cinema. Pertencíamos ao creme da classe média satisfeita ou assim parecia. Não costumava, porém, quando chegava em casa, tirar os sapatos para estender-me no divã com o jornal da tarde na mão. Também, a conversa com minha mulher não constava apenas de comentários sobre preços. Meus pensamentos nem sempre pairavam em torno das aventuras do chocolate. Devo até confessar que certos gostos boêmios não eram inteiramente estranhos à minha natureza.
Quanto à minha atitude para com a nova Rússia, cumpre-me declarar desde já que eu não tinha a mesma opinião de minha mulher. Ao sair de seus lábios pintados, a palavra “bolchevista” adquiria uma nota de ódio habitual e trivial..., não, “ódio” talvez seja neste caso uma palavra muito forte. Era alguma coisa simples, elementarmente feminina, pois ela detestava os bolchevistas como se detesta a chuva (especialmente aos domingos) ou os percevejos (especialmente em novos alojamentos) e bolchevismo significava para ela uma coisa incômoda como um resfriado. Ela dava por assentado que os fatos lhe confirmavam a opinião; a verdade dos mesmos era evidente demais para ser discutida. Os bolchevistas não acreditavam em Deus; isso era mau da parte deles mas que era que se podia esperar de sádicos e desordeiros?
Quando eu dizia que o comunismo no correr do tempo se revelaria uma coisa grande e necessária, que a jovem e nova Rússia estava produzindo valores admiráveis, embora ininteligíveis para os espíritos ocidentais e inaceitáveis para os exilados despojados e amargurados; que a história jamais havia conhecido tanto entusiasmo, tanto ascetismo e desprendimento ou tamanha fé na iminente igualdade de todos nós — quando eu dizia tais coisas, minha mulher me respondia serenamente: “Acho que só está dizendo essas coisas para me provocar e isso não é direito de sua parte.” Mas acontece que eu estava falando muito a sério, pois sempre acreditei que o variegado emaranhamento de nossas vidas incertas exige transformações tão essenciais assim, que o comunismo realmente criará um mundo belamente quadrado de camaradas idênticos e robustos, de ombros largos e microcéfalos e que uma atitude hostil em relação ao mesmo é não só infantil mas também preconcebida. Lembra-me a cara que minha mulher faz — narinas dilatadas e uma sobrancelha arqueada (a idéia infantil e preconcebida de uma vamp —) sempre que se vê diante de um espelho.
Eis uma palavra que eu odeio, e que designa uma realidade horrível. Não tenho mais essas coisas desde que deixei de fazer a barba. De qualquer maneira, a simples menção do objeto acaba de me dar um rude choque, quebrando o fio de minha história (procurem imaginar o que devia vir aqui — a história dos espelhos —); depois, também, há canalhas e monstros entre os espelhos; um pescoço nu, ainda que ligeiramente se estica de repente para baixo num abismo de carne que vai encontrar o abismo que se estende de baixo, numa nudez de maçapão rosado que sobe de um ponto abaixo do cinto para fundir-se numa só; um espelho canalha despe o homem ou começa por achatá-lo e então se produz um touro ou um sapo humano sob a pressão de inúmeras atmosferas de vidro; ou então se é puxado como miolo de pão e rasgado em dois.
É bastante. Vamos continuar — as gargalhadas não estão na minha linha. E bastante não é absolutamente tão simples quanto você parece pensar, seu porco! Ah, sim, vou chamar-lhe nomes feios e ninguém me pode impedir. E não ter um só espelho em meu quarto é também um direito que eu tenho! Na verdade, ainda que me veja diante de um (ora, que tenho a temer?) ele mostraria um estranho barbado — porque essa barba minha cresceu prodigiosamente e em muito pouco tempo também! Estou tão perfeitamente disfarçado que sou invisível ao meu próprio eu. O cabelo brota de todos os poros. Deve haver um tremendo estoque de pêlos dentro de mim. Escondo-me dentro dessa selva natural que cresceu de mim. Nada há a temer. Tola superstição!
Olhe, vou escrever de novo aquela palavra. Espelho. Espelho. Então, aconteceu alguma coisa? Espelho, espelho, espelho. Tantas vezes quantas você quiser... eu nada receio. Um espelho. Ver-se diante de um espelho. Referia-me a minha mulher ao falar disso. E difícil dizer alguma coisa quando se é constantemente interrompido.
Por falar nisso, minha mulher é também dada a superstições. Tem a mania de “bater na madeira”. Apressadamente, com um ar de decisão, os lábios apertados, corre os olhos em torno à procura de alguma madeira nua e não envernizada. Acha apenas a parte inferior de uma mesa, tocando-a então com os dedos gordos (pequenas almofadas de carne em torno das unhas cor de morango que, apesar do esmalte, nunca estão completamente limpas, unhas de criança). Toca a madeira rapidamente enquanto a menção de felicidade ainda paira quente no ar. Ela acreditava em sonhos: sonhar que se arrancava um dente pressagiava a morte de um conhecido; se havia sangue no dente, a morte era de um parente. Um campo de margaridas indicava um reencontro com quem tinha sido o primeiro amor. Pérolas significavam lágrimas. Era ruim a pessoa ver-se toda de branco à cabeceira de uma mesa. Lama representava dinheiro, um gato era traição e o mar queria dizer perigo para a alma. Ela gostava de contar os seus sonhos com todas as minúcias. Ah! Estou escrevendo dela no pretérito imperfeito. Vou apertar a fivela de minha história um furo acima.
Ela odeia Lloyd George. Se não fosse ele, o Império Russo não teria caído. Diz em geral: “Eu poderia estrangular aquele inglês com minhas próprias mãos.” Os alemães tinham o que bem mereciam em troca daquele trem blindado em que o bolchevismo foi enlatado e Lenine exportado para a Rússia. Falando dos franceses, diz; “sabe? Ardalion (um primo dela que tinha lutado com o Exército Branco) diz que eles procederam como verdadeiros canalhas em Odessa durante a evacuação.” Ao mesmo tempo, considera o tipo inglês de rosto (baseando-se no meu) o mais belo da terra; respeita os alemães porque são constantes e musicais: afirma que adora Paris onde passamos há tempos alguns dias. Essas opiniões dela se mostram tão inabaláveis como estátuas nos seus pedestais. Ao contrário, a posição dela em relação ao povo russo sofreu, de modo geral, alguma evolução. Em 1920, ela ainda dizia: “O genuíno camponês russo é monarquista.” Agora diz: “O genuíno camponês russo está extinto.”
Ela é pouco instruída e pouco observadora. Descobrimos um dia que para ela o termo “místico” se relacionava de modo vago com “mistério” e “mistura”, mas não fazia a menor idéia do que um místico realmente fosse. A única árvore que ela é capaz de identificar é a bétula. Diz ela que a faz lembrar-se das florestas do lugar onde nasceu.
É uma grande devoradora de livros, mas só lê o que há de pior e não guarda nada de memória, passando por cima das descrições mais extensas. Vai pegar os seus livros numa livraria russa de aluguel. Senta-se ali e passa muito tempo escolhendo. Remexe em todos os livros em cima da mesa. Pega um, folheia-o, olha-o de lado como uma galinha que investiga. Deixa-o de lado, pega outro, abre-o — tudo isso é feito na superfície da mesa e com a ajuda de uma das mãos apenas. Nota então que abriu o livro de cabeça para baixo, em vista do que, lhe dá uma volta de noventa graus, só isso porque logo o abandona a fim de correr para o volume que o homem da livraria vai oferecer a outra senhora. Todo esse processo dura mais de uma hora e eu não sei o que é que a decide a fazer a seleção final. Talvez seja o título.
Trouxe-lhe um dia de volta de uma viagem de trem um horrível romance policial que mostrava na capa uma aranha vermelha no centro de uma teia preta. Ela mergulhou no livro e achou-o tremendamente emocionante. Sentia que não podia deixar de dar uma espiada no final para ver como tudo acabava, mas como isso estragaria tudo, ela fechou bem os olhos e rasgou o livro de alto a baixo em dois pedaços. Escondeu então a última parte, onde estava a conclusão. Mais tarde, esqueceu o lugar do esconderijo e levou muito tempo rebuscando a casa à procura do criminoso que ela mesma escondera, repetindo a cada instante em voz baixa: “Era tão interessante, terrivelmente emocionante. Vou morrer se não descobrir...”
Já descobriu agora. Aquelas páginas que explicavam tudo estavam muito bem escondidas. Foram, entretanto, encontradas todas, exceto uma, talvez. Na verdade. muitas coisas aconteceram; estão agora devidamente explicadas. Veio também a suceder o que ela mais temia. De todos os presságios era o mais fantástico. Um espelho quebrado. Aconteceu, sim, mas não exatamente de maneira comum. Pobre mulher morta.
Ti-tu-tum! E mais uma vez, TUM! Não, não enlouqueci. Estou apenas produzindo breves sons alegres. Trata-se da espécie de alegria que se experimenta quando se engana alguém no dia Primeiro de Abril. E eu enganei lindamente alguém. A quem? Olhe-se ao espelho, leitor amigo, já que gosta tanto de espelhos.
E agora, de repente, sinto-me triste, desta vez de verdade. Acabo de visualizar, com escandalosa nitidez, o cacto da sacada, as peças azuis, aquele nosso apartamento construído no estilo moderno de caixão, em trapaça com o espaço, e em rígido realismo. E ali, no meu mundo de nitidez e limpeza, a desordem espalhada por Lydia e o adocicado e vulgar travo de seu perfume. Mas na verdade não me aborreciam os seus defeitos, a sua inocente apatia, o seu hábito de rir na cama adquirido no dormitório de seu colégio. Nunca discutíamos e eu nunca me queixava de coisa alguma, nem mesmo quando ela dizia os maiores disparates em público ou se vestia com absoluta falta de gosto. A pobre coitada não tinha jeito algum para distinguir os tons. Pensava que tudo estava muito certo se as cores principais combinassem, satisfazendo inteiramente o seu senso de cor e, por isso, podia ostentar um chapéu de feltro verde-folha com um vestido verde-oliva ou eau de Nill. Gostava de que tudo tivesse um “eco”. Por exemplo, se a faixa da cintura era preta, ela julgava absolutamente necessário algum debrum ou babado preto na gola do vestido. Nos primeiros anos de nossa vida de casados, ela costumava usar linho com bordados suíços. Era perfeitamente capaz de botar um vestido leve com sapatos pesados de outono. Não, decididamente, ela não tinha a mais leve noção dos mistérios da harmonia e isso se conjugava com o fato de ser lamentavelmente desmazelada. A negligência se revelava até na sua maneira de andar, porque tinha o costume de pisar batendo com força o salto do pé esquerdo.
Estremecia só de olhar para as gavetas de sua cômoda onde se misturavam desarrumadamente uma mixórdia de panos, fitas, retalhos de seda, o passaporte dela, uma tulipa murcha, algumas peças de peles roídas pelas traças, diversos anacronismos (como polainas, que as moças tinham usado séculos antes) e outro lixo impossível desse jeito. Era também muito freqüente ir cair no cosmo de minhas coisas lindamente arrumadas um lencinho de renda muito sujo ou um pé de meia solitário e rasgado. As meias pareciam positivamente queimar-se naquelas ágeis pernas dela.
Não entendia um níquel do governo de uma casa. As recepções dela eram terríveis. Havia sempre num pratinho barras de chocolate quebradas como se oferecem nas pobres famílias da província. Às vezes, eu ficava sem saber por que era mesmo que a amava. Talvez fosse pela quente íris cor de avelã de seus olhos macios ou pela ondulação natural nos seus cabelos castanhos de qualquer maneira penteados ou, então, pelo movimento de seus ombros roliços. Mas a verdade era provavelmente que eu a amava porque ela me amava. Eu era para ela o homem ideal, inteligente e corajoso. E ninguém se vestia melhor do que eu. Lembro-me de que na noite em que estreei o meu smoking novo, ela se deixou cair numa cadeira e murmuroi com as mãos juntas: “Oh, Hermann. . .“ Era um encantamento que raiava de certo modo pela angústia celestial.
Talvez com o sentimento mal definido de que, encarecendo a imagem do homem que ela amava, eu lhe estava fazendo de certo modo uma retribuição e praticando uma boa ação para ela a fim de fazê-la feliz, aproveitei-me de sua confiança e durante os dez anos em que vivemos juntos contei-lhe tamanho montão de mentiras sobre mim mesmo, sobre o meu passado e as minhas aventuras que estaria acima de minhas forças guardar tudo na cabeça, fichado para referência. Mas ela costumava esquecer tudo. A sombrinha dela ficava sucessivamente em casa de todas as conhecidas. O batom aparecia nos lugares mais inesperados como o bolso da camisa do primo dela e o que ela tinha lido de manhã no jornal me era contado à noite mais ou menos do seguinte jeito: “Deixe ver, onde foi que Ii isso e que foi exatamente que eu li?... Estava quase me lembrando... Oh! Veja se me ajuda!” Confiar-lhe uma carta para botar no correio era o mesmo que jogar a carta dentro do rio, deixando o resto entregue à acuidade das águas e aos lazeres de pescador do destinatário.
Confundia datas, nomes e caras. Depois de ter inventado alguma coisa, eu nunca mais repetia a história. Ela logo se esquecia, o episódio descia até ao fundo de sua consciência, mas na superfície ficavam os círculos sempre renovados de sua humilde admiração. O amor quase a fazia atravessar a fronteira que lhe limitava todos os sentimentos. Em certas noites, quando luar e olhar rimavam, os seus mais assentados pensamentos se transformavam em nômades tímidos. Isso não durava muito, os pensamentos não se afastavam demais e o mundo se trancava de novo. E era um mundo bem simples. A maior complicação que nele surgia consistia na procura de um número de telefone que ela havia anotado numa das páginas de um livro da livraria de aluguel, justamente tomado por empréstimo pela pessoa a quem ela queria telefonar.
Era cheia de corpo, baixa e um pouco disforme, mas eu sempre gostei das mulheres gordinhas. Não me interessam simplesmente as moças altas, as flappers ossudas, as altivas prostitutas elegantes que se pavoneiam para cima e para baixo em Tauentzienstrasse com as suas reluzentes botas bem justas. Não só sempre estivera eminentemente satisfeito com a minha meiga companheira de cama e com os seus encantos querubínicos, mas também tinha notado ultimamente, cheio de gratidão à natureza e com uma emoção de surpresa, que a violência e a doçura de minhas alegrias noturnas estavam sendo elevadas a um estranho vértice graças a certa aberração que, segundo entendo, não é tão incomum quanto a princípio pensei nos homens vigorosos de idade entre os trinta e os quarenta. Refiro-me a uma espécie bem conhecida de “dissociação”. Comigo, tudo começou de maneira fragmentária poucos meses antes de minha viagem a Praga. Por exemplo, eu estava na cama com Lydia, concluindo a breve série de carícias preparatórias a que ela se julgava com direito, quando tinha de repente consciência de que o diabólico Outro me havia tomado o lugar. Meu rosto estava enterrado nas dobras do seu colo, as pernas dela tinham começado a fechar-se sobre mim, o cinzeiro tinha caído da mesa de cabeceira, o universo tomava o mesmo caminho — mas ao mesmo tempo, de maneira incompreensível e deliciosa, eu estava de pé nu no meio do quarto, com uma das mãos apoiada nas costas da poltrona onde ela deixara as meias e as calcinhas. A sensação de estar em dois lugares ao mesmo tempo me excitava extraordinariamente. Mas isso nada foi em comparação com os desenvolvimentos posteriores. Na minha impaciência por dividir-me, levava Lydia para a cama mal acabávamos de jantar. A dissociação havia já chegado a uma fase perfeita. Sentava-me numa poltrona a meia dúzia de passos da cama na qual Lydia tinha sido convenientemente colocada e distribuída. Do meu posto de observação mágico, vi as ondulações percorrerem e sulcarem minhas costas musculosas, sob a luz de laboratório de um abajur ao pé da cama que tirava um reflexo de madrepérola dos joelhos rosados de Lydia e um brilho de bronze dos seus cabelos espalhados no travesseiro — que eram quase as únicas partes dela que eu podia ver enquanto as minhas grandes costas não haviam ainda escorregado para sustentar a sua metade dianteira ofegante diante do público. A fase seguinte se verificou quando descobri que quanto maior era o intervalo entre os meus dois eus, maior era o meu êxtase. Costumava, por isso, sentar-me de noite para noite alguns centímetros mais longe da cama, até que dentro em pouco as pernas de trás da poltrona chegaram ao batente da porta aberta. Acabei por ver-me sentado na sala-de-estar enquanto amava no quarto. Mas não bastava. Queria descobrir algum meio de afastar-me no mínimo cem metros do palco iluminado no qual representava. Desejava contemplar aquela cena de alcova de alguma remota galeria superior dentro de uma névoa azul sob as fluidas alegorias da abóbada estrelada, contemplar um casal pequeno mas muito ativo por meio de binóculos de teatro, de binóculos de campanha, de um tremendo telescópio ou de instrumentos ópticos de alcance ainda desconhecido que cresceriam na mesma proporção do meu arroubo em aumento. Na realidade, nunca passei do consolo na sala-de-estar e, ainda assim, tive a minha visão da cama prejudicada pela ombreira da porta, coisa que eu podia remediar fazendo a cama refletir-se no oblíquo speculum ou spiegel. Infelizmente, numa noite de abril, em que as harpas da chuva borbulhavam afrodisiacamente na orquestra, quando eu estava sentado à minha distância máxima de quinze filas e antecipava um espetáculo excelente — o qual, na verdade, já havia começado, mostrando o meu eu ativo em forma colossal e muita imaginação — veio da cama onde eu julgava estar presente o bocejo e a voz de Lydia, a dizer tolamente que, se eu não fosse logo para a cama, poderia levar-lhe o livro vermelho que ela deixara na sala. O livro estava de fato no consolo perto de minha poltrona e, em lugar de levá-lo, joguei-o para a cama fazendo as folhas rodarem como as pás de um moinho de vento. Esse choque estranho e terrível quebrou o encanto. Sentime como uma espécie de ave insular que perdeu a faculdade de elevar-se no ar e, como o pingüim, só voa no sono. Tentei empenhadamente recuperar a divisão e teria sem dúvida êxito se uma nova e maravilhosa obsessão não tivesse obliterado em mim todo o desejo de prosseguir nessas experiências divertidas mas um pouco banais.
A não ser isso, a minha ventura conjugal era completa. Ela me amava sem reservas, nem recordações. A devoção parecia fazer parte da natureza dela. Não sei por que voltei a falar dela no pretérito. Mas não liguem a isso; é mais fácil para a minha pena. Sim, ela me amava, amava-me fielmente. Gostava de examinar-me o rosto de um lado a outro. Com o indicador e o polegar abertos ao jeito de um compasso, media-me as feições: a área mais ou menos áspera acima do lábio superior com o seu longo sulco mediano e a testa espaçosa com as suas saliências gêmeas acima das sobrancelhas. A unha do indicador seguia sempre as rugas ao lado de minha boca, a qual ficava sempre bem fechada e era insensível às cócegas. Um rosto grande e nada simples, modelado por encomenda especial, com um brilho nas maçãs do rosto, as faces levemente cavadas e, ao segundo dia sem navalha, cobertas por uma vegetação desenfreada, arruivada sob alguns tipos de luz e exatamente como a barba dele. Só os nossos olhos não eram idênticos mas a semelhança que entre eles existia era uma pura superfluidade, desde que os olhos do homem estavam fechados quando ele se estendia no chão diante de mim e, embora eu nunca tivesse visto mas apenas sentido minhas pálpebras fechadas, sei que não eram diferentes em nada dos beirais dos olhos dele.. . Boa expressão esta! Rebuscada, mas boa e recebida de braços abertos em minha prosa. Não, não estou ficando absolutamente nervoso; o meu domínio sobre mim mesmo é perfeito. Se de quando em quando minha cara aparecer como detrás de um muro, talvez para desgosto do leitor formalista, será realmente para o bem dele. Ele que se acostume com o meu aspecto, enquanto eu me rirei calmamente do fato dele não saber se a cara era minha ou de Felix. Aqui estou eu! E então desapareço; ou talvez não fosse eu! So com esse método posso ter a esperança de dar uma liçao ao leitor, demonstrando-lhe que a semelhança entre nos não era imaginana mas uma possibilidade real, melhor ainda, um fato autêntico, por mais fantasioso e absurdo que pudesse parecer.
Quando cheguei a Berlim de volta de Praga, encontrei Lydia na cozinha tratando de bater um ovo dentro de um copo — geminha como nós dizíamos.
— Estou com dor de garganta — disse ela numa voz infantil.
Deixou então o copo na beira do fogão, limpou os dedos amarelos na parte de cima do pulso e tratou de beijar-me a mão. Tinha um vestido cor-de-rosa, meias cor-de-rosa e chinelas velhas, O sol da tarde mudava a cor da cozinha. Ela recomeçou a mexer com a colher a grossa massa amarela, fazendo ranger levemente o açúcar triturado. Ainda estava pegajoso pois a colher não se movia suavemente com a aveludada ovalidade que era necessária. Um livro maltratado estava aberto em cima do fogão. Havia a seguinte nota escrita na margem de uma página por uma pessoa desconhecida com um lápis de ponta rombuda. Dizia: “Ë triste, mais é verdade”, com mais três pontos de exclamação com os respectivos pontinhos fora dc lugar certo. Examinei a frase que tinha impressionado tanto uma das predecessoras de minha mulher. Era a seguinte: “Ama teu próximo” — disse Sir Reginald — “não tem cotação hoje em dia na bolsa das relações humanas.”
— Então? Fez boa viagem? — perguntou Lydia continuando vigorosamente a rodar a manivela do moinho de café, com a parte da caixa firmemente presa entre os joelhos. Os grãos de café estalavam, com o seu cheiro forte. O moinho funcionava ainda com um esforço pesado e rangente; houve então uma folga, uma frouxidão; toda a resistência desapareceu; o moinho estava vazio.
Fiquei mais ou menos desorientado, como num sonho. Ela estava fazendo geminha e não café.
— Podia ter sido pior — disse eu, falando da viagem. — E você, como foi que passou?
Por que não lhe falei de minha incrível aventura? Eu, que era capaz de falsificar para ela portentos aos milhões, parecia não ter coragem, com esses meus lábios poluídos, de contar-lhe um portento que era verdadeiro. Ou talvez outra coisa me tolhesse. Um escritor não mostra a ninguém o seu primeiro borrão; uma criança ainda no ventre não é chamada de Tom ou de Beile; um selvagem se abstém de dar nome a objetos de origem misteriosa e temperamento incerto; a própria Lydia não gostava de que eu lesse um livro que ela ainda não tivesse acabado.
Aquele encontro me oprimiu durante vários dias. Afligia-me estranhamente pensar que durante todo o tempo meu sósia estava percorrendo estradas que me eram desconhecidas, mal alimentado, friorento e molhado, talvez com um resfriado. Desejava que encontrasse trabalho. Ser-me-ia mais agradável saber que ele estava confortável e quente, ou, ao menos, em segurança na prisão. Apesar disso, não tinha absolutamente a intenção de empreender quaisquer medidas capazes de melhorar-lhe a situação. Não estava de modo algum inclinado a sustentá-lo e seria quase impossível conseguir-lhe um emprego em Berlim, que regurgitava de desempregados. Na verdade, para falar com toda a sinceridade, julguei de certo modo preferível mantê-lo a certa distância de mim, como se qualquer aproximação pudesse quebrar o encantamento de nossa semelhança. De tempos em tempos, eu poderia mandar-lhe um pouco de dinheiro para que ele não degringolasse e perecesse durante as suas remotas caminhadas, deixando assim de ser meu representante, uma cópia viva e em circulação de minha cara... Pensamentos bondosos, mas ociosos desde que o homem não tinha endereço certo. Pensei então que teria de esperar até que, em algum dia do outono, ele aparecesse na agência do correio daquela aldeia na Saxônia.
Maio passou e em meu espírito sarou a lembrança de Felix. Noto para meu prazer pessoal o macio desenrolar desse período, com o tom narrativo das duas primeiras palavras e, depois, aquele longo suspiro de contentamento imbecil. Entretanto, os amantes de sensações poderiam ter interesse em observar que, de modo geral, o verbo “sarar” só se emprega de referência a feridas e doenças. Mas isso é mencionado apenas de passagem; não há qualquer intenção malsã. Há mais alguma coisa que eu gostaria de notar agora. Escrever se tornou muito mais fácil para mim. Minha história ganhou ímpeto. Consegui pegar o ônibus mencionado no início e, o que é mais, consegui um lugar bem confortável do lado da janela. Era assim também que eu costumava ir para o escritório antes de comprar o carro.
O lustroso e pequenino Icarus azul teve de trabalhar pesadamente naquele verão. Estava inteiramente encantado com o meu novo brinquedo. Lydia e eu muitas vezes viajávamos o dia inteiro para o campo. Levávamos sempre em nossa companhia aquele primo dela, que se chamava Ardalion e era pintor. Tratava-se de uma alma jovial mas de um pintor horroroso. Era em todos os sentidos pobre como um pardal. Se alguém o mandava pintar o seu retrato, isso era pura caridade ou então falta de caráter, pois o homem podia ser tremendamente insistente. Costumava tomar emprestadas pequenas quantias a mim e com certeza a Lydia também. E é claro que sempre dava um jeito de ficar para o jantar. Vivia atrasado com o aluguel do quarto e, quando pagava, era em espécie. Em naturezas mortas, para sermos exatos... maçãs quadradas numa toalha estendida de viés ou tulipas fálicas num vaso inclinado. A senhoria dele mandava emoldurar tudo isso às custas, de modo que a sala de jantar lembrava uma exposição filistina de vanguarda. Comia num pequeno restaurante russo que, dizia, tinha “espancado” (o que significava que lhe havia decorado as paredes). Empregava uma expressão ainda mais pitoresca porque era natural de Moscou, onde as pessoas usam uma gíria engraçada cheia de exuberantes trivialidades (não vou tentar traduzi-la). Era curioso que, apesar de sua pobreza, tinha conseguido comprar um terreno, a três horas de carro de Berlim, isto é, conseguira pagar uma entrada de cem marcos e nunca mais se incomodara com o resto. Na verdade, nunca tivera a intenção de desembolsar mais um níquel que fosse, pois considerava que, fertilizado por esse primeiro pagamento, o terreno era daí por diante dele até o Dia de Juízo. O terreno tinha mais ou menos o comprimento de duas quadras e meia de tênis e ia dar num lagozinho relativamente belo. Um par de bétulas inseparáveis com troncos em forma de Y crescia ali (ou, melhor, um par de pares se contarmos a reflexão das mesmas nas águas do lago). Havia também várias moitas de amieiro preto. Um pouco adiante, erguiam-se cinco pinheiros e ainda mais para dentro havia um trecho de urze, cortesia da floresta circundante. O terreno não era cercado pois o dinheiro não tinha chegado para isso. Tenho fortes suspeitas de que Ardalion estivesse esperando que os dois lotes adjacentes fossem cercados primeiro, o que legitimaria automaticamente os limites de sua propriedade e lhe daria uma cerca de graça. Mas os lotes vizinhos estavam ainda por vender. O movimento era escasso nas margens daquele lago, desde, que o local era úmido, infestado de mosquitos e muito longe da aldeia. Depois, não havia caminho que o ligasse à estrada principal e ninguém sabia quando esse caminho seria feito.
Lembro-me de que foi num domingo pela manhã em meados de junho que fomos lá pela primeira vez. No caminho, paramos para pegar o homem. Levei muito tempo a tocar a buzina, com os olhos cravados na janela dele. A janela dormia a sono solto. Lydia pôs as mãos em concha na boca e gritou numa voz de trombeta: “Arda-lioooon!” Numa das janelas mais baixas, logo acima da tabuleta de um bar (que, pelo seu jeito, sugeria que Ardalion devia dinheiro ali) a cortina foi aberta furiosamente e um respeitável cavalheiro parecido com Bismarck e metido num robe enfeitado de alamares olhou para fora com uma trombeta de verdade na mão.
Deixando Lydia no carro, cujo motor já então havia parado de funcionar, subi para acordar Ardalion. Encontrei-o a dormir, com o seu maiô de banho de uma só peça. Rolando para fora da cama, tratou com silenciosa rapidez de enfiar as sandálias, uma camisa azul e calças de flanela. Pegou então uma pasta (com uma protuberância suspeita) e descemos. Uma expressão solene e sonolenta não acrescentava a bem dizer qualquer encanto ao seu rosto de nariz grande. Foi colocado na cadeirinha lá atrás.
Eu não sabia o caminho. Ele disse que o conhecia tão bem quanto o Pai Nosso. Mas, logo que saímos de Berlim, se perdeu. Durante todo o resto da viagem, tivemos de fazer perguntas a um e a outro.
— Eis uma vista que consola o coração de um proprietário! — exclamou Ardalion quando, por volta do meio-dia, passamos por Koenigsdorf e então corremos pelo trecho de estrada que ele conhecia. — Eu lhe direi onde você tem de entrar. Salve, salve, minhas velhas árvores!
— Deixe de palhaçadas, meu caro Ard! — disse placidamente Lydia.
Dos dois lados da estrada, estendiam-se terras desertas e incultas onde só se viam areia e urze, com alguns pinheiros aqui e ali. Mais adiante, a região mudou um pouco. Passamos a ter à nossa direita um campo comum, sombriamente orlado a alguma distância por uma floresta. Ardalion começou a agitar-se de novo. Ao lado direito da estrada, elevava-se um poste amarelo e dali partia em ângulo reto uma estrada quase indistinguível, o fantasma de alguma estrada antiga que ia acabar entre bardanas e aveias silvestres.
— É aqui que se entra — disse Ardalion solenemente e, em seguida, com um resmungo, inclinou-se para a frente sobre mim, porque eu havia pisado nos freios.
Está sorrindo, leitor amigo? Ora, por que não havia você de sorrir? Um dia ameno de verão e um campo muito pacífico; um artista desequilibrado e de boa natureza e mais um poste amarelo à beira da estrada... Aquele poste amarelo. Plantado pelo homem que vendia os lotes, projetado em brilhante solidão, irmão desgarrado dos outros postes pintados que, dezessete quilômetros mais adiante na direção da aldeia de Waldau, montavam sentinela a hectares mais tentadores e caros, aquele ponto de referência acabou sendo para mim uma idéia fixa. Recortado nitidamente em amarelo numa paisagem difusa, apresentava-se nos meus sonhos. As minhas fantasias orientavam-se pela sua posição. Todos os meus pensamentos a ele revertiam. Brilhava como um farol fiel nas trevas de minhas especulações. Tenho hoje a impressão de que o reconheci ao vê-lo pela primeira vez; era-me conhecido como uma coisa do futuro. Talvez eu esteja enganado; talvez o olhar que lhe lancei tenha sido indiferente e minha única preocupação fosse impedir que o pára-lama batesse nele quando dei a volta. Apesar de tudo, quando penso nas coisas hoje, não consigo separar aquele primeiro contato do seu desenvolvimento mais maduro.
A estrada, como já foi mencionado, perdia-se, apagava-se. O carro rangia zangadamente ao dar solavancos no chão irreguiar. Parei e dei de ombros.
— Sugiro, caro Ard, — disse Lydia — que a gente vá para Waldau em vez de ficar aqui. Você disse que há por lá um lago e um café ou coisa parecida.
— Absolutamente impossível — replicou nervosamente Ardalion. — Em primeiro lugar, o café ainda está sendo projetado. Além disso, eu também tenho um lago. Vamos, caro amigo, — continuou ele, voltando-se para mim. — Ande com este velho ônibus, que não vai arrepender-se.
À nossa frente, em terreno mais alto, à distância de cem metros, começava uma floresta de pinheiros. Olhei para ela... e juro que tive a sensação de que já a conhecia. É isso mesmo, agora estou percebendo tudo com clareza. . . Tive essa estranha sensação, que não foi acrescentada depois como uma elaboração posterior. E aquele poste amarelo... Como olhou para mim intencionalmente quando me voltei para trás, como se dissesse: “Estou aqui e às suas ordens. . .“ E os pinheiros à minha frente, com a casca semelhante a um couro de cobra avermelhada bem espichado e com a sua cobertura verde que o vento agitava erradamente; e aquela bétula nua na orla da floresta. . . (ora, por que foi que escrevi “nua”? Não era inverno ainda, o inverno estava bem remoto) e o dia tão suave e sem nuvens quase, enquanto os grilozinhos balbuciantes procuravam zelosamente dizer alguma coisa que começava por “z”... Sim, tudo isto tinha um sentido. Não havia engano possível.
—Posso saber onde você quer que eu entre? Não estou vendo estrada de espécie alguma.
—Ora, não seja tão exigente assim — disse Ardalion. — Vá em frente, amigo velho. Em linha reta. A entrada é bem ali e, depois de chegarmos à floresta, é um pulo até minha terra.
—Não era melhor saltarmos e irmos a pé? — propôs Lydia.
—Tem toda a razão — repliquei. — Ninguém iria pensar em roubar um carro abandonado aqui.
—De fato, é muito arriscado — reconheceu Lydia imediatamente.
— Por que não vão vocês dois (Ardalion resmungou) juntos? Ele lhe mostrará o lugar, enquanto eu ficarei a esperá-los aqui. Depois, seguiremos para Waldau, onde tomaremos banho no lago e nos sentaremos no café.
— Como vocês são insensíveis! — exclamou Ardalion com grande exaltação. — Não compreendem que quero recebê-los em minha terra? Tenho algumas boas surpresas reservadas para vocês. Assim me magoam muito.
Dei partida no carro, ao mesmo tempo que dizia:
— Se quebrarmos o carro, você pagará o conserto, fique sabendo.
Os solavancos faziam-me saltar do banco. Ao meu lado, Lydia saltava também e, atrás, Ardalion saltava e não parava de falar.
— Daqui a pouco (solavanco) chegaremos à floresta (solavanco) e então (duplo solavanco), a urze facilitará tudo (solavanco).
Entramos na floresta. Logo de saída, encontramos areia funda. O motor era acelerado, mas as rodas ficavam no mesmo lugar. Afinal, conseguimos sair. Então, os galhos começaram a passar pela carroçaria do carro, arranhando a pintura. Apareceu por fim uma espécie de caminho, que ora se perdia numa vasta extensão de urze, ora reaparecia para serpentear entre os troncos muito juntos.
— Mais para a direita, um pouco mais para a direita — disse Ardalion. — Então, que é que acham desse cheiro de pinheiros? Maravilhoso, não é? Eu bem disse a vocês. Absolutamente maravilhoso. Parem um instante aqui enquanto eu vou investigar.
Saltou do carro e se afastou, requebrando inspiradamente os quadris a cada passo.
— Espere que eu vou também! — gritou Lydia, mas ele ia a toda vela e, num instante, a densa vegetação do chão da floresta o encobriu.
O motor ainda funcionou um pouco e parou.
— Este lugar é de meter medo — disse Lydia. — De fato, eu não gostaria de ter ficado aqui sozinha. Pode-se aqui ser roubado... assassinado... tudo é possível...
Era mesmo um lugar isolado! Os pinheiros sussurravam mansamente, o chão estava coberto de neve e só alguns trechos de terra sem vegetação pareciam escuros. Que absurdo! Como era possível haver neve em junho? Isto devia ser riscado, se não fosse um crime suprimir alguma coisa; o que acontece é que o verdadeiro autor não sou eu, mas minha memória impaciente. Compreendam o fato como bem quiserem; nada tenho com isso. E o poste amarelo tem também agora um casquete de neve. Assim, o futuro tremeluz através do passado. Mas basta. Focalizemos de novo aquele dia de verão. A luz do sol era mosqueada e as sombras das ramas se estendiam pelo carro azul. Um cone de pinheiro estava em cima do estribo, onde iria aparecer um dia o mais inesperado dos objetos, um pincel de barba.
— É na terça-feira que eles vêm? — perguntou Lydia.
— Não, na quarta-feira à noite — respondi.
Silêncio.
— Só espero que não o tragam como da última vez.
— E ainda que tragam... Por que você se aborrece com isso, Lydia?
Silêncio. Pequenas borboletas azuis pousam no tomilho.
— Escute, Hermann, tem certeza mesmo de que é quarta-feira à noite?
(Vale a pena revelar o sentido oculto? Estávamos falando de ninharias, aludindo a alguns conhecidos nossos e ao cachorro deles, um bichinho perverso que exigia a atenção de todos os presentes às reuniões; Lydia só gostava de cachorros grandes e com pedigree. Quando ela pronunciava a palavra pedigree, as narinas lhe tremiam.)
— Por que é que ele não volta? — disse ela. — Com toda a certeza se perdeu.
Saltei do carro e dei uma volta em torno dele. A pintura estava toda arranhada.
À falta de coisa melhor, Lydia pegou a pasta de Ardalion com a protuberância. Sentiu-a primeiro com as mãos e, depois, abriu-a. Afastei-me alguns passos (não, não posso lembrar-me em que era que eu estava pensando), examinei alguns galhos quebrados a meus pés e voltei para o carro. Lydia estava sentada no estribo e assobiava baixinho. Acendemos ambos os cigarros. Silêncio. Ela tinha um jeito de soltar a fumaça de lado, entortando a boca.
Ouvimos de longe o grito vigoroso de Ardalion. Um minuto depois, apareceu numa clareira e agitou os braços a chamar-nos. Levamos vagarosamente o carro para onde ele estava, circunavegando os troncos das árvores. Ardalion seguiu em frente, de maneira resoluta e direta. Alguma coisa brilhou à frente, o lago.
Já descrevi o terreno dele. Ele não foi capaz de mostrar-me as divisas exatas. Com grandes passos batidos, media os metros, parava, olhava para trás, curvando a meio a perna que lhe suportava o peso. Em seguida, abanava a cabeça e saía à procura de certo toco de árvore que era uma marca já não sei de quê.
As duas bétulas enlaçadas se olhavam na água. Havia uma penugem qualquer na superfície do lago e os caniços brilhavam ao sol. A surpresa prometida por Ardalion era uma garrafa de vodca, a qual, entretanto, Lydia conseguira esconder. Ela ria e corria como uma bola de críquete, vestida com o seu maiô de banho bege com uma faixa dupla, vermelha e azul, na cintura. Quando, depois de se cansar de montar nas costas de Ardalion enquanto ele nadava devagar no lago (“Não me dê beliscões, mulher, senão eu jogo você dentro da água!”), depois de muitos gritos e de muita água espadanada, ela saiu do lago, as pernas pareceram decididamente cabeludas; mas, logo que secaram, um leve aveludado foi só o que apareceu. Antes de dar um mergulho de cabeça, Ardalion se benzia. Havia, ao longo da canela, uma grande e feia cicatriz deixada pela guerra civil. Da abertura do seu maiô de banho repulsivamente frouxo, uma cruz de prata, de padrão mujique, usada por ele sobre a pele, pulava fora sempre que ele dava o salto.
Lydia besuntou-se cuidadosamente com cold cream e se deitou de costas, pondo-se à disposição do sol. A poucos metros de distância, Ardalion e eu nos instalamos confortavelmente à sombra do melhor pinheiro dele. Da sua pasta tristemente murcha, ele tirou lápis e um caderno de desenho. Por fim, notei que ele me estava desenhando.
— Você tem um rosto difícil — disse ele, levantando os olhos.
— Quero ver! — exclamou Lydia pressurosamente, mas sem sair do lugar.
— Levante um pouco mais a cabeça — disse Ardalion. — Assim está bom. Obrigado.
— Quero ver — repetiu Lydia um minuto depois.
— Primeiro, tem de me mostrar onde escondeu minha garrafa de vodca — murmurou Ardalion.
— Nada feito! — replicou ela. — Não quero você bebendo em minha presença.
— Essa mulher não regula bem. Acha, meu velho, que ela enterrou a garrafa em algum lugar? E eu que queria beber com vocês a taça da amizade!
— Pois vai ter de deixar de beber por completo — disse ela, sem levantar as pálpebras lambuzadas de creme.
— É muito atrevimento — disse Ardalion.
— Escute aqui — disse eu — por que é que diz que eu tenho um rosto difícil? Qual é a dificuldade?
— Não sei. Não consigo pegar seu rosto com o lápis. Da próxima vez, vou tentar carvão ou óleo.
Apagou alguma coisa com a borracha, tirou o pó com as juntas dos dedos e levantou a cabeça.
— Engraçado, sempre pensei que tinha um rosto comum. Por que não tenta desenhá-lo de perfil?
— É isso mesmo! De perfil! — exclamou Lydia, que continuava deitada na areia com braços e pernas esticados.
— Bem, não acho que seja exatamente comum. Levante um pouco mais a cabeça, sim? Agora, vou-lhe dizer uma coisa. O seu rosto é um pouco estranho. Todas as suas linhas como que deslizam debaixo do meu lápis, deslizam e desaparecem.
— Os rostos assim são raros, não é isso que você quer dizer?
— Todo o rosto é único — afirmou Ardalion.
— Oh, estou sendo assada — murmurou Lydia queixosamente, mas não se moveu.
— Ora, que pretende dizer com essa história de único? Não está indo muito longe? Veja, por exemplo, os tipos definidos de rostos humanos que existem no mundo, digamos os tipos zoológicos. Há pessoas com feições de macaco; há também as que se parecem com os ratos ou com os porcos. Veja então a semelhança com as celebridades... Napoleão entre os homens e a Rainha Vitória entre as mulheres. Já ençontrei quem me dissesse que minha cara lembra a de Amundsen. Tenho deparado muitas vezes com narizes à Leon Tolstoi. Depois, há o tipo de rosto que faz pensar em determinados quadros, um ícone ou uma madona. E que me diz da semelhança que se deve a alguma maneira de viver ou alguma profissão?
— Você vai acabar dizendo que todos os chineses são iguais. O que você esquece, meu caro, é que o que o artista percebe fundamentalmente é a diferença entre as coisas. É o vulgo que nota as semelhanças. Quantas vezes já ouvimos Lydia exclamar no cinema: “Oh! Como aquela atriz é parecida com a nossa empregada”?
— Não se meta a engraçado, Ard querido — disse Lydia.
— Mas não pode deixar de reconhecer que às vezes é a semelhança que interessa.
— De fato, mas quando se vai comprar outro castiçal que seja igual ao primeiro.
A bem dizer, não há necessidade de continuar a reproduzir a nossa conversa. Eu desejava ardentemente que ele começasse a falar de sósias, mas isso não aconteceu.
Ao fim de algum tempo, ele largou o seu caderno de desenho. Lydia implorou que ele lhe mostrasse o que tinha feito. Ardalion disse que só mostraria se ela lhe devolvesse a garrafa de vodca. Ela recusou e não viu o desenho.
A lembrança daquele dia termina numa névoa atravessada pela luz do sol ou se mistura com as recordações de excursões posteriores. De fato, aquele primeiro passeio foi seguido de muitos outros. Cheguei a ter uma simpatia sombria e dobrosamente aguda por aquela floresta isolada em cujo interior o lago brilhava. Ardalion tentou intimidar-me para que eu procurasse o gerente e comprasse o terreno contíguo ao dele, mas resisti firmemente. Ainda que eu estivesse ansioso por adquirir terrenos, teria do mesmo jeito deixado de tomar uma decisão, pois os negócios andavam muito mal naquele verão e eu estava farto de tudo: aquele meu imundo chocolate me estava arruinando. Mas eu dou minha palavra, senhores, minha palavra de honra: não foi uma cobiça mercenária, não foi apenas isso, e não apenas o desejo de melhorar minha situação... É desnecessário, porém, antecipar os acontecimentos.