Desespero

Vladimir Nabokov · Capítulo 2 de 13

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Desespero

Capítulo 1

Se eu não tivesse certeza absoluta de meu poder de escrever e da minha maravilhosa capacidade de exprimir idéias com o máximo de graça e de brilho... Era mais ou menos assim que eu tinha pensado em começar a minha história. Em seguida, chamaria a atenção do leitor para o fato de que, se eu carecesse desse poder, dessa capacidade, etc., não só me absteria de descrever certos fatos recentes, mas também nada haveria para descrever por isso que, gentil leitor, não teria absolutamente acontecido coisa alguma. Talvez tudo isso seja absurdo, mas ao menos é claro. Só o dom de penetrar os mecanismos da vida e uma inclinação inata ao exercício constante da faculdade de criação poderiam permitir-me... Nessa altura, eu deveria ter comparado o delinqüente que faz tamanha cena em face de um pouco de sangue derramado com um poeta ou um ator de teatro. Mas como costumava dizer meu pobre amigo canhoto, a especulação filosófica é uma invenção dos ricos. Fora com ela.

Pode parecer que eu não sei como começar. É um espetáculo divertido o do velho que se locomove pesadamente, a balançar a papada, numa brava corrida atrás do último ônibus, ao qual acaba alcançando mas que tem medo de pegar em movimento e assim, com um sorriso encabulado, deixa-se ficar para trás, ainda correndo. Será que me falta coragem de dar o salto? O ônibus, o possante montibus de minha história, ronca, adquire velocidade e acabará desaparecendo irrevogavelmente ao dobrar da esquina. A imagem é um tanto desajeitada. Ainda estou correndo.

Meu pai era um alemão de língua russa de Reval, onde freqüentou uma famosa escola agrícola. Minha mãe, russa pura, era de uma velha família de príncipes. Nos dias quentes de verão, languidamente vestida de seda lilás, reclinava-se em sua cadeira de balanço e se abanava com um leque a comer chocolate, numa sala com todas as cortinas descidas que algum vento de um campo recém-ceifado fazia enfunar como velas roxas.

Durante a guerra, fui internado como súdito alemão... Pura falta de sorte, se levarmos em conta que eu tinha acabado de ingressar na Universidade de S. Petersburgo. Do fim de 1914 a meados de 1919, li exatamente mil e dezoito livros... tomava nota de todos eles. De volta à Alemanha, passei três nieses encalhado em Moscou e me casei ali. Desde 1928, estava morando em Berlim. A 9 de maio de 1930, tendo mais de trinta e cinco anos... Uma breve digressão: o trecho em que me refiro a minha mãe é uma deliberada mentira. Na realidade, ela era uma mulher do povo, simples e rude, que se vestia sordidamente com uma espécie de blusa que descia fofamente da cintura. É claro que eu poderia ter cortado esse parágrafo, mas deixo-o de propósito aqui para servir de amostra de um de meus traços essenciais: meu jeito fácil e inspirado de mentir.

Como eu ia dizendo, a 9 de maio de 1930 fiz uma viagem de negócios a Praga. Meu ramo era chocolate. Chocolate é uma coisa boa. Há moças que só gostam do tipo amargo... são umas pequenas exigentes e pretensiosas. (Não sei bem por que é que estou escrevendo desse jeito.)

Tremem-me as mãos. Quero gritar ou esmagar alguma coisa com estrondo... Esse estado do espírito é extremamente inadequado para o desenvolvimento suave de uma história calma. Sinto comichões no coração, o que é uma sensação horrível. Tenho de permanecer calmo, não posso perder a cabeça. Não adianta prosseguir sem ser assim. Bem calmo. O chocolate, como todos sabem... (o leitor deve imaginar aqui uma descrição da fabricação do produto). Nossa marca registrada no invólucro mostrava uma mulher de lilás com um leque. Estávamos insistindo com uma firma estrangeira à beira da falência para que substituísse o seu processo de fabricação pelo nosso a fim de abastecer a Tcheco-Eslováquia e foi justamente isso que me levou a Píaga. Na manhã de 9 de maio, saí do meu hotel num táxi que me levou a... É muito cansativo contar tudo isso. Sinto-me mortalmente enervado. Contudo, por mais que eu deseje chegar quanto antes ao ponto crucial, algumas explicações preliminares parecem necessárias. Vamos logo então com elas. O escritório da firma era situado bem nos arredores da cidade e eu não encontrei lá o camarada com quem queria falar. Disseram-me que ele estaria de volta dentro de mais ou menos uma hora...

Acho que devo informar ao leitor que houve um longo intervalo. Agora, o sol teve tempo de descambar tocando de sangüínea em sua marcha as nuvens acima do pico dos Pireneus que se parece tanto com o Fujiyama. Eu estava sentado num estranho estado de exaustão, que ora me levava a escutar o esfuziar e o baque do vento, ora me fazia desenhar narizes na margem da folha de papel, ora me conduzia a um vago torpor e então voltar a mim sobressaltado e todo trêmulo. De novo então crescia em mim aquela sensação de prurido, a intolerável agitação... e minha vontade se estendia inerte num mundo vazio... Tinha de fazer um grande esforço para acender a luz e colocar uma pena nova na caneta. A velha se lascara e encurvara. Parecia agora o bico de uma ave de rapina. Não, essas coisas não eram as vascas da criação... mas algo bem diferente.

Bem, como já disse, o homem não estava e só voltaria dentro de uma hora. Não tendo nada melhor para fazer, saí a fim de dar uma volta. Era um dia firme, fresco, pontilhado de azul. O vento, parente afastado deste que sopra aqui, voava no seu caminho por entre as ruas estreitas. De vez em quando, uma nuvem empalmava o sol, que reaparecia como uma moeda de mágico. No jardim público, onde os inválidos andavam em veículos movidos a mão, havia uma explosão de moitas arfantes de lilases. Olhei para as tabuletas das lojas e peguei uma ou outra palavra que escondia um radical eslavo conhecido, mas desdobrado com um sentido desconhecido. Eu estava de luvas amarelas novas e balançava os braços ao andar sem destino. De repente, a fila de casas terminou e mostrou uma vasta extensão de terra que à prinieira vista me pareceu bucólica e atraente.

Depois de passar por um quartel à frente do qual um soldado estava exercitando um cavalo branco, comecei a pisar num chão macio e pegajoso. Dentes-de-leão tremiam ao vento e um sapato esburacado tomava banho de sol debaixo de uma cerca. Mais adiante, um morro, esplendidamente escarpado, subia para o céu. Resolvi escalá-lo. O seu esplendor se revelou uma decepção. Entre faias enfezadas e moitas de amieiros, um caminho em ziguezague no qual haviam talhado degraus ia para o alto sempre e sempre. Imaginei a princípio que, logo depois da curva seguinte, iria encontrar um lugar de beleza selvagem e maravilhosa, mas este nunca apareceu. Aquela vegetação descolorida não me podia contentar. As moitas se espalhavam pelo chão descalvado, poluído de ponta a ponta por pedaços de papel, panos e latas amassadas. Não era possível deixar os degraus do caminho porque este ficava muito no fundo da rampa e dos dois lados das suas paredes de terra projetavam-se raízes de árvores e pedaços de musgo apodrecido como molas quebradas de móveis decrépitos numa casa onde um louco morrera de maneira horrível. Quando cheguei afinal ao cimo, encontrei algumas cabanas desaprumadas, uma corda de roupa e nela algumas calças de mulher inchadas pela vida fictícia do vento.

Coloquei os cotovelos no parapeito de madeira nodosa e, olhando para baixo, vi muito distante, e levemente velada pela névoa, a cidade de Praga: telhados brilhantes, chaminés fumegantes, o quartel pelo qual eu havia passado, um diminuto cavalo branco.

Resolvendo descer por outro caminho, segui pela estrada que encontrei depois das cabanas. Só havia de belo na paisagem a cúpula de um gasômetro no alto de um morro. Redonda e avermelhada sobre o céu azul, parecia uma grande bola de futebol. Deixei a estrada e comecei a subir de novo, dessa vez por uma encosta de grama rala. Região triste e nua. Veio da estrada o barulho de um caminhão, depois uma carreta em direção contrária e, depois, horrivelmente pintado com as cores do arco-íris, o caminhão fechado de uma firma de envernizadores. No espectro daqueles camaradas, a faixa verde era vizinha da vermelha.

Fiquei por muito tempo na encosta a olhar a estrada. Virei-me por fim, continuei, encontrei um caminho meio apagado que passava entre duas corcovas de chão liso e, ao fim de algum tempo, procurei um lugar onde pudesse descansar. A alguma distância de mim, sob um espinheiro, um homem estava estendido de costas com um boné a cobrir-lhe o rosto. Eu já ia passar quando alguma coisa em sua atitude exerceu sobre mim estranha atração: a ênfase naquela imobilidade a inércia daquelas pernas estendidas, a rigidez daquele braço meio dobrado. Estava vestido com um casaco preto e surradas calças de veludo.

“Absurdo”, pensei. “Está simplesmente dormindo. Não tenho motivo algum para meter-me na vida dele.” Apesar disso, aproximei-me e, com a ponta do meu sapato elegante, afastei-lhe o boné do rosto.

Clarins, sim? Ou, ainda melhor, o rufar de tambores que acompanha a execução de um número acrobático sensacional. Incrível! Duvidei da realidade do que via, duvidei de meu equilíbrio mental, sentime nauseado e com um princípio de vertigem... Para dizer a verdade, fui forçado a sentar-me, tanto os joelhos me tremiam.

Ora muito bem, se outro estivesse em meu lugar e visse o que eu vi, poderia talvez ter desatado em gargalhadas. Eu, porém, estava por demais atônito com o mistério que a coisa envolvia. Enquanto eu olhava, tudo dentro de mim pareceu desprender-se e cair de uma altura de dez andares. Eu estava contemplando uma maravilha. A sua perfeição e a sua falta de causa e objetivo enchiam-me de estranho temor respeitoso.

Nesta altura, agora que cheguei à parte importante e aplaquei o pior daquela comichão, presumo que seja conveniente deixar minha prosa em posição de descansar e tentar calmamente reconstituir o caminho que já percorrera, a fim de definir exatamente o meu estado de espírito e o rumo que tomavam os meus pensamentos, quando, não tendo encontrado o agente da firma no escritório, saí para dar um passeio, subi aquele morro e contemplei a rotunidade vermelha do gasômetro contra o fundo azul de um dia ventoso de maio. Vamos, seja lá como for, assentar esse ponto. Procurem então ver-me mais uma vez antes do encontro, com luvas vistosas, mas sem chapéu, ainda andando a esmo. Que tinha eu no espírito? Nada, absolutamente nada, por mais estranho que pareça. Estava inteiramente vazio e comparável, portanto, a algum vaso translúcido condenado a receber conteúdos ainda desconhecidos. Farrapos de pensamentos relativos ao negócio de que ia tratar, ao carro que tinha pouco antes comprado, a esta ou aquela particularidade da região circundante surgiam, por assim dizer, no exterior de meu espírito e se alguma coisa tinha ressonância em meu vasto deserto interior era simplesmente a vaga sensação de uma força que me impelia.

Um letão brilhante com quem eu me dava em 1919 em Moscou disseme uma vez que as nuvens de melancolia que de vez em quando e sem qualquer motivo caíam sobre mim eram um indício infalível de que eu iria acabar meus dias num asilo de loucos. O homem estava exagerando sem dúvida. No ano anterior, eu havia testado profundamente as notáveis qualidades de clareza e coerência evidenciadas pela carpintaria lógica em que se comprazia meu espírito fortemente desenvolvido mas perfeitamente normal. As extravagâncias da intuição, da visão artística, da inspiração, todas as coisas grandiosas que têm dado tanta beleza à minha vida, podem talvez parecer ao leigo, por mais inteligente que seja, um prefácio de loucura mansa. Mas não se preocupem; minha saúde é perfeita, meu corpo é limpo por dentro e por fora e meu passo é firme. Não bebo, nem fumo em excesso, nem sou dissoluto. Assim, em excelente saúde, bem vestido e com aspecto juvenil, eu percorria o cenário descrito acima e a inspiração secreta não me decepcionou. Encontrei aquilo cuja pista eu seguia inconscientemente. Permitam-me repetir — era incrível! Eu estava contemplando uma maravilha e sua perfeição, sua falta de causa e objetivo enchiam-me de um temor respeitoso. Mas talvez já então, enquanto eu olhava, minha razão tivesse começado a sondar a perfeição, a procurar a causa, a adivinhar o objetivo.

O homem aspirou o ar fungando forte. No seu rosto se mostraram breves ondulações de vida, que perturbaram um pouco a maravilha sem, entretanto, fazê-la desaparecer. Abriu então os olhos, olhou para mim de banda, sentou-se e com intermináveis bocejos, dos quais não parecia nunca saciar-se, começou a coçar a cabeça com as duas mãos metidas nos engordurados cabelos castanhos.

Era um homem de minha idade, magro e sujo, com uma barba de três dias no queixo. Havia um trecho estreito de carne rosada entre a parte inferior do colarinho (mole e com dois buracos redondos destinados a um botão inexistente) e a parte superior da camisa. A gravata estreita de malha estava torta e não havia um botão no peito da camisa. Algumas pálidas violetas murchavam na sua lapela; uma delas se desprendera e estava de cabeça para baixo. Perto dele estava uma velha mochila. Uma das abas abertas mostrava um biscoito do tipo pretzel e um pedaço grande de salsicha com as habituais indicações de fome intempestiva e amputação brutal. Fiquei examinando o vagabundo com espanto.

Parecia estar usando aquele mal-amanhado disfarce para algum baile à fantasia fora de moda e desleixado.

— Gostaria de fumar — disse ele em tcheco.

A voz se mostrou inesperadamente baixa de tom e até calma. Com dois dedos em forquilha, fez o gesto de segurar um cigarro. Estendi para ele a minha grande cigarreira, ao mesmo tempo que cravava os olhos no rosto dele. Curvou-se um pouco mais, apoiando simultaneamente a mão no chão e eu tive oportunidade de ver-lhe bem a orelha e a fonte cava.

— Alemães — disse ele e sorriu, mostrando as gengivas.

Isso me decepcionou, mas felizmente o sorriso dele desapareceu imediatamente. (A essa altura, eu já não estava querendo separar-me da maravilha.)

— Alemão também? — perguntou ele nessa língua, rolando e apertando o cigarro entre os dedos. Eu disse que sim e acendi o isqueiro sob o nariz dele. Juntou avidamente as mãos em concha sobre a chama trêmula. As unhas eram azuladas e quadradas.

— Sou alemão também — disse ele, soltando fumaça. — Isto é, meu pai era alemão, mas minha mãe era tcheca, nascida em Pilsen.

Eu continuava a esperar dele uma efusão de surpresa, gargalhadas talvez, mas ele se manteve impassível. Só então compreendi que idiota era ele.

— Dormi como uma pedra — disse ele a si mesmo num tom de fátua complacência e deu vigorosamente uma cusparada.

— Desempregado? — perguntei.

Assentiu várias vezes tristemente e tornou a cuspir. Sempre achei prodigiosa a quantidade de saliva que a gente simples do povo parece possuir.

— Posso andar mais que meus sapatos — disse ele, olhando para os pés.

Estava de fato muito mal calçado.

Rolou bem devagar o corpo até ficar de bruços e, enquanto olhava o gasômetro distante e uma cotovia que levantara vôo dc uma moita, continuou a falar pensativamente:

— Foi um bom emprego o que eu tive no ano passado na Saxônia, perto da fronteira. Jardinagem, a melhor coisa do mundo! Depois, fui trabalhar numa casa de pastéis. Todas as noites, depois do trabalho, eu e meu amigo costumávamos atravessar a fronteira para ir beber um pouco de cerveja. Oito quilômetros de ida e outros tantos de volta. A cerveja tcheca era mais barata do que a nossa e as pequenas eram mais gordas. Houve também um tempo em que toquei violino e criei um ratinho branco.

Agora, olhem-nos de lado, mas apenas de passagem, sem qualquer intenção de estudos fisionômicos. Perto demais não, meus amigos, senão poderiam levar o maior choque da vida. Ou talvez não levassem. Infelizmente, depois de tudo o que aconteceu, fiquei ciente da parcialidade e da capacidade de errar da visão humana. De qualquer maneira, o quadro era o seguinte: dois homens reclinados num trecho de grama escassa; um deles, um camarada elegantemente vestido, a bater no joelho com uma luva amarela; o outro, um vagabundo de olhar vago, deitado a fio comprido e dando voz às suas queixas da vida. Sussurrar áspero do espinheiro próximo. Nuvens rápidas no céu. Um dia ventoso de maio com pequenos tremores como os que costumam correr sob o pêlo de um cavalo. O barulho de um caminhão na estrada principal. O canto de uma cotovia no alto do céu.

O vagabundo tinha caído em silêncio; depois, voltou a falar, fazendo pausas para expectorar. Falou de uma coisa e de outra. Falou, falou. Deitado de bruços, dobrou as pernas até tocar as nádegas com a barriga das pernas e então esticou-as de novo.

— Escute aqui — exclamei. — Não está mesmo vendo nada?

O homem virou o corpo e se sentou.

— Que é que há? — perguntou ele com a cara fechada em desconfiança.

Disse eu então:

— Você deve ser cego.

Durante cerca de dez segundos, ficamos a encarar-nos, bem nos olhos. Levantei lentamente o braço direito mas o braço esquerdo dele não se levantou, como eu quase tinha esperado que acontecesse. Fechei o olho esquerdo, mas os dois olhos dele continuaram abertos. Mostrei-lhe a língua. Ele tornou a murmurar:

— Que é que há? Que é que há?

Tirei do bolso um pequeno espelho. Enquanto ele o recebia, passou a mão pelo rosto e olhou para a palma, mas não encontrou nem sangue, nem sujo de passarinho. Olhou-se no espelho em que se refletia o azul do céu. Devolveu-me o espelho com um encolher de ombros.

— Não seja tolo! — exclamei. — Não vê então que nós dois... não está vendo, seu idiota, que nós somos... Agora, escute... olhe bem para mim...

Puxei-lhe a cabeça de lado para a minha até que nossas têmporas se tocaram; no espelho, dois pares de olhos dançaram e flutuaram.

Quando voltou a falar, foi num tom condescendente.

— Um homem rico nunca se parece de verdade com um pobre. Lembro-me de ter visto uma vez dois gêmeos numa feira em agosto de 1926. . . ou foi em setembro? Deixe ver... Não, foi em agosto mesmo. Aqueles dois eram parecidos de fato. Ninguém podia distinguir um do outro. Havia a promessa de um prêmio de cem marcos para quem fosse capaz de notar a menor diferença. “Muito bem”, disse Fritz (que tinha o apelido de Cenourão) e deu num dos gêmeos um tapa na orelha. “Pronto”, disse ele. “Um deles tem uma orelha vermelha e o outro não tem. Por isso, se não se incomoda, vá passando o dinheiro”. Não calcula como rimos!

Correu os olhos pelo pano cinzento de meu terno, desceu pela manga do paletó, tropeçou e parou no relógio de ouro que eu levava no pulso.

— Não me pode arranjar algum trabalho? — perguntou ele, levantando a cabeça.

Nota: Foi ele e não eu quem primeiro percebeu o laço maçônico resultante de nossa semelhança. E como a semelhança tinha sido estabelecida por mim, eu estava diante dele — de acordo com o seu cálculo subconsciente — num sutil estado de dependência, como se eu fosse o imitador e ele, o modelo. Naturalmente sempre se prefere que os outros digam: “Ele se parece com você” e não ao contrário. Recorrendo a mim para ajudá-lo, o pequeno patife estava apenas sondando o terreno em vista de futuras exigências. No fundo de seu cérebro perturbado, escondia-se talvez a reflexão de que eu lhe devia ser grato pela generosa oportunidade que me dava, com o simples fato de sua existência, de parecer-me com ele. A nossa semelhança se me afigurava um fenômeno que raiava pelo miraculoso. O que mais lhe interessava era o meu desejo de ver alguma semelhança, fosse como fosse. Aos meus olhos, ele aparecia como meu duplo, isto é, como uma criatura corporalmente idêntica a mim. Era essa parecença absoluta que me dava tão penetrante emoção. Por sua vez, ele via em mim um imitador duvidoso. Devo insistir, porém, no caráter vago dessas idéias dele. Os meus comentários sobre essas idéias nunca seriam certamente compreendidos por aquele bronco.

— Creio que não é muito o que posso fazer por você neste momento — respondi friamente. — Mas deixe comigo seu endereço.

Tirei do bolso o meu caderninho e a lapiseira de prata.

Ele sorriu tristemente.

— Não adianta dizer que moro numa vila. É melhor dormir num galpão de feno do que sobre a relva numa floresta. Mas é melhor dormir na relva do que num banco duro.

— Apesar disso, gostaria de saber onde poderei encontrá-lo.

O homem pensou um pouco e disse:

— No outono, estarei com certeza na mesma aldeia onde trabalhei no ano passado. Pode mandar uma linha para a agência do correio de lá. Não é longe de Tarnitz. Deixe-me escrever o nome, sim?

O nome dele era Felix, o que quer dizer “feliz”. Qual era o sobrenome não é de sua conta, leitor amigo. A letra horrível dele parecia explodir a cada volta. Escrevia com a mão esquerda. Já era tempo de ir-me embora. Coloquei dez coroas no boné dele. Com um sorriso condescendente, estendeu a mão mas não se deu ao trabalho de levantar-se. Só lhe apertei a mão porque isso me deu a curiosa sensação de Narciso a enganar Nêmesis, ajudando sua imagem a afastar-se do regato.

Em seguida, quase a correr, voltei pelo mesmo caminho. Quando olhei para trás, vi o vulto magro e escuro entre as moitas. Estava deitado de costas, com as pernas cruzadas no ar e os braços sob a cabeça.

Sentime de repente fraco, tonto e exausto, como depois de longa e repulsiva orgia. A razão dessa conseqüência mórbida foi o fato de que ele tinha, com uma fria afetação de distração, guardado no bolso a minha lapiseira de prata. Um desfile de lapiseiras de prata descia por um interminável túnel de corrupção. Caminhando pela beira da estrada, fechei de vez em quando os olhos, a ponto de quase cair na vala. Depois, no escritório durante uma conversa comercial, tive verdadeiras ânsias de dizer ao meu interlocutor: “Aconteceu-me ainda há pouco uma coisa muito estranha! É difícil de acreditar...“ Mas nada disse, estabelecendo assim um precedente de segredo.

Quando afinal voltei ao meu quarto de hotel, encontrei ali, entre sombras caprichosas e uma moldura floreada de bronze, Felix à minha espera. Aproximou-se pálido e solene. Estava já bem barbeado e trazia os cabelos lisos penteados para trás. Usava um terno cinza com gravata lilás. Tirei o lenço do bolso e ele também. Uma trégua para negociações.

Um pouco do cheiro do campo me chegou ao nariz. Assoei-me e me sentei na cama, continuando, enquanto isso, a consultar o espelho. Lembro-me de que as pequenas marcas de existência consciente, tais como o pó em meu nariz, a terra preta entre o salto e a sola de um dos sapatos, a fome e, por fim, o sabor firme e castanho temperado de limão de um grande bife de vitela no grillroom, absorveram de modo tão estranho a minha atenção como se eu estivesse procurando e encontrando (embora ainda duvidando um pouco) provas de que eu era eu e que esse eu (um homem de negócios de segunda classe com idéias) estava realmente num hotel, jantando e pensando em assuntos comerciais, sem ter nada em comum com certo vagabundo que aquela hora se estendia indolentemente no mato. Mas a emoção dessa maravilha fez-me de novo o coração bater apressadamente. Aquele homem, especialmente quando dormia e as suas feições estavam imóveis, me mostrara meu rosto, minha máscara, a imagem irrepreensivelmente pura de meu cadáver. . . Emprego esse último termo porque desejo exprimir com o máximo de clareza... Exprimir o quê? A saber, o seguinte: tínhamos feições idênticas e, num estado de repouso perfeito, essa semelhança era flagrantemente evidente, e que é a morte senão uma fisionomia em paz, na sua perfeição artística? Só a vida desfigurava o meu duplo, do mesmo modo que uma brisa atenua a felicidade de Narciso e que, na ausência do pintor, o seu discípulo aparece e com o emprego supérfluo de tintas inesperadas deforma o retrato pintado pelo mestre.

Pensei então que eu, que conhecia e amava meu rosto, estava em muito melhor posição do que os outros para perceber meu sósia, porque não é todo o mundo que é tão observador. Por isso, é freqüente haver comentários sobre a semelhança óbvia entre duas pessoas que, embora se conheçam, nao suspeitam dessa semelhança e a negam indignadamente, se alguém lhes fala nisso. Ainda assim, eu nunca havia julgado possível que houvesse tão perfeita semelhança quanto a que havia entre mim e Felix. Tenho visto irmãos que se parecem muito, os gêmeos. Já vi no cinema um homem encontrar-se com o seu duplo. Ou, melhor, já vi um ator desempenhar um papel duplo, havendo entre os dois papéis, como em nosso caso, a acentuação da diferença de condição social, de modo que, num papel, o ator é um bruto cheio de manhas e, no outro, é um burguês bem estabelecido dentro de um carro, como se, na verdade, um par de vagabundos idênticos ou de cavalheiros iguais fosse menos divertido. Na verdade, tenho visto isso tudo, mas a semelhança entre gêmeos é prejudicada como uma rima de radical igual pelo selo do parentesco, ao mesmo tempo que um ator de cinema num papel duplo dificilmente engana alguém, porque ainda que ele apareça nos dois papéis ao mesmo tempo, a vista não pode deixar de seguir a linha no meio onde se juntaram as duas partes da imagem.

Nosso caso não era, porém, de gêmeos idênticos (partilhando um sangue que se destinava a apenas um) nem de um truque de montagem.

Que vontade eu tenho de convencê-los! E hei de convencer! Forçarei todos vocês, seus patifes, a acreditar... Mas presumo que as palavras por si sós, em vista da sua natureza especial, são incapazes de transmitir visualmente uma semelhança desse tipo. As duas caras deviam ser apresentadas lado a lado, por meio de cores reais e não de palavras. Então, e só então, o espectador compreenderia o que eu quero dizer. O sonho favorito de um escritor é transformar o leitor em espectador. Já houve alguém que o conseguisse? Os pálidos organismos dos heróis literários alimentados sob a supervisão do autor ganham corpo gradativamente graças ao sangue dos leitores. Desse modo, o gênio de um escritor consiste em dar aos heróis a faculdade de se adaptarem a essa alimentação — não muito apetitosa — e desenvolverem-se com ela às vezes através dos séculos. Mas no presente momento não é de métodos literários que eu preciso, mas da evidência direta e crua da arte do pintor.

Vejam, este é meu nariz: grande, do tipo nórdico, com uma dura parte óssea um pouco arqueada e uma parte carnuda de ponta arrebitada e quase retangular. O nariz dele é também assim, uma cópia perfeita do meu. Aqui estão as duas rugas profundas em ambos os lados de minha boca de lábios tão finos que parecem ter sido desbastados. Ele tem tudo isso também. Aqui estão as maçãs do rosto... mas isso é apenas uma relação de passaporte de características fisionômicas que nada significam; trata-se apenas de uma convenção absurda. Disseram-me uma vez que eu era parecido com Amundsen, o explorador polar. Ora, Felix se parece também com Amundsen. Mas não é todo o mundo que se pode lembrar da cara de Amundsen. Eu mesmo me lembro vagamente e não tenho muita certeza de não a confundir com a de Nansen. Não, nada posso explicar.

Estou é sorrindo convencidamente. A verdade é que eu provei o que queria dizer. Saí-me esplendidamente. Você agora nos conhece a ambos, leitor. Duas pessoas mas com uma só cara. Não deve supor, porém, que eu esteja envergonhado de possíveis falhas e erros de revisão no livro da natureza. Olhemos de mais perto: tenho dentes grandes e amarelados; os dele são mais brancos e mais compactos. Mas isso tem realmente alguma importância? Na minha testa, há uma veia estufada como um M maiúsculo imperfeitamente traçado, mas quando durmo minha testa é tão lisa quanto a de meu sósia. E aquelas orelhas... as convoluções das dele são apenas ligeiramente alteradas em comparação com as minhas: mais comprimidas aqui, amaciadas ali. Temos olhos da mesma forma, estreitamente rasgados com poucos cílios, mas as íris dele são mais claras do que as minhas.

Isso foi quase tudo o que eu descobri em matéria de marcas distintivas naquele primeiro encontro. Durante a noite, minha memória racional não cessou de examinar essas diminutas divergências, ao passo que com a memória irracional dos meus sentidos eu continuava a ver, apesar de tudo, a mim mesmo, ao meu próprio eu no lamentável disfarce de um vagabundo, com o rosto imóvel, e o queixo e as faces ensombrados pelos pêlos da barba, como acontece da noite para o dia a um morto.

Por que me deixava ficar em Praga? Havia concluído os meus negócios e podia voltar para Berlim quando quisesse. Por que, na manhã seguinte, voltei àquelas encostas, àquela estrada? Não tive dificuldade em encontrar o lugar exato onde ele se havia estendido no dia anterior. Descobri ali uma ponta de cigarro de boquilha dourada, uma violeta morta, um pedaço de jornal tcheco e ... aquele traço pateticamente impessoal que o homem errante e sem sofisticação costuma deixar debaixo de uma moita: um pedaço grande, reto e viril e um mais fino enroscado sobre ele. Várias moscas esmeraldinas completavam o quadro. Para onde tinha ele ido? Onde passara a noite? Enigmas vazios. Sentia-me de qualquer maneira horrivelmente mal de uma maneira vaga e pesada, como se tudo o que acontecera fosse um ato errado.

 

Voltei ao hotel para pegar minha maleta e fui às pressas para a estação. Na entrada para a plataforma, havia duas filas de bancos baixos e confortáveis com costas trabalhadas e encurvadas em conformidade perfeita com a espinha humana. Havia algumas pessoas ali sentadas; várias cochilavam. Tive a idéia de que de repente veria o homem ali, ferrado no sono, com as mãos abertas e uma última violeta ainda na lapela. Seríamos vistos juntos... Avançariam para cercar-nos e levar-nos para a delegacia de polícia... por quê? Por que estou escrevendo isso? E apenas o correr normal de minha pena? Ou será de fato um crime duas pessoas se parecerem como duas gotas de sangue?