Economia nua e crua

Charles Wheelan · Capítulo 8 de 18

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Economia nua e crua

7. Mercados financeiros: O que a economia pode nos dizer sobre enriquecer depressa (e perder peso também!)

7. Mercados financeiros

 

O que a economia pode nos dizer sobre

enriquecer depressa (e perder peso também!)

 

QUANDO EU ESTAVA no curso de graduação, muitos anos atrás, uma nova dieta varreu uma das fraternidades no campus. Não era uma dieta comum, era a dieta de toranja com sorvete. A premissa, como o nome sugeria, era que se podia perder peso comendo quantidades enormes de toranja e sorvete. A dieta não funcionava, claro, mas o incidente nunca me saiu da cabeça. Fiquei fascinado com o fato de um grupo de mulheres muito inteligentes ter jogado para o alto o senso comum a fim de abraçar uma dieta que não tinha como dar certo. Nenhuma informação médica ou dietética sugeria que comer toranja e sorvete levasse à perda de peso. Ainda assim, essa era uma ideia atraente. Quem não gostaria de perder peso tomando sorvete?

Lembrei da dieta de toranja com sorvete recentemente, quando um dos meus vizinhos começou a contar sua estratégia de investimento. Ele levara um golpe brabo no último ano porque sua carteira estava cheia de ações da internet e de tecnologia, explicou, mas se via de volta ao mercado com uma estratégia nova e aperfeiçoada. Ele estudava os gráficos passados dos movimentos do mercado em busca de formas que sinalizassem aonde o mercado iria a seguir. Não consigo me lembrar das formas específicas que ele procurava. Na hora, eu me distraí, tanto porque estava regando as flores quanto porque minha mente gritava: “Toranja com sorvete!” Meu esperto vizinho, que é médico e membro do corpo docente de uma universidade, estava se aventurando longe dos salões da ciência com sua estratégia de investimentos, e essa é a lição mais ampla. Quando se trata de finanças pessoais (e de perder peso), pessoas inteligentes jogam o bom senso para o alto mais depressa do que o tempo que se leva para dizer “dieta milagrosa”. As regras para investimentos bem-sucedidos são surpreendentemente simples, mas exigem disciplina e autossacrifício. O retorno é uma acumulação de riqueza lenta e constante (com uma porção de retrocessos ao longo do caminho), e não uma fortuna súbita e rápida. Assim, defrontados com a perspectiva de abrir mão do consumo no presente para obter sucesso no futuro, abraçamos com avidez os métodos mais rápidos e mais fáceis – e ficamos chocados quando não dão certo.

Este capítulo não é uma cartilha sobre finanças pessoais. Há alguns livros excelentes sobre estratégias de investimentos. Burton Malkiel lançou um dos melhores: A Random Walk Down Wall Street. Não, este capítulo fala sobre o que uma compreensão básica dos mercados – as ideias abordadas nos dois primeiros capítulos – pode nos dizer sobre investimentos pessoais. Qualquer estratégia de investimento deve obedecer às leis básicas da economia, assim como qualquer dieta é restringida pelas realidades de química, biologia e física. Tomando emprestado o título do romance bestseller de Wally Lamb, Eu conheço a verdade.

 

À PRIMEIRA VISTA, os mercados financeiros são extraordinariamente complexos. Ações e letras de câmbio já são complicadas o bastante, mas há opções, há o futuro, opções sobre o futuro, swaps de taxas de juros, letras do governo e os infames credit default swaps (CDS). Na Bolsa Mercantil de Chicago, hoje é possível comprar ou vender contratos futuros baseados na temperatura média em Los Angeles. Na Câmara de Comércio de Chicago, pode-se comprar e

vender o direito de emitir SO . Sim, é possível ganhar (ou perder) dinheiro comercializando 2

smog – fumaça poluente. Os detalhes desses contratos podem deixar qualquer um maluco, porém, no fundo, a maior parte do que ocorre é algo bastante direto. Instrumentos financeiros, como qualquer outro bem ou serviço na economia de mercado, precisam criar algum valor. Tanto comprador quanto vendedor precisam se perceber em situação melhor ao entrar no negócio. Ao mesmo tempo, os empreendedores buscam introduzir produtos financeiros mais baratos, rápidos, fáceis ou de algum modo melhores que os já existentes. Fundos mútuos foram uma inovação financeira; o mesmo ocorreu com os fundos indexados que Burt Malkiel ajudou a popularizar. No auge da crise financeira de 2008, ficou claro que mesmo os executivos de Wall Street não entendiam plenamente alguns dos produtos que suas empresas compravam e vendiam. Ainda assim, todos os instrumentos financeiros – não importa quão complexa seja sua apresentação – baseiam-se em quatro necessidades simples.

 

Aumento de capital. Uma das coisas fascinantes na vida, particularmente nos Estados Unidos, é que podemos gastar grandes somas de dinheiro que não nos pertence. Os mercados financeiros nos possibilitam tomar dinheiro emprestado. Às vezes isso significa que Visa e MasterCard saciam nossa sede de consumir hoje o que não podemos nos permitir até o ano que vem (se for o caso); mais amiúde – e mais significativo para a economia –, tomar emprestado possibilita todo tipo de investimento. Nós tomamos emprestado para pagar a mensalidade da faculdade. Tomamos emprestado para comprar casas. Tomamos emprestado para construir fábricas e comprar equipamentos ou montar novos negócios. Tomamos emprestado para fazer coisas que melhoram nossa vida mesmo depois que pagamos o custo do empréstimo.

Às vezes aumentamos o capital sem tomar empréstimo; podemos vender participação do nosso negócio para o público. Assim, dispomos de um pedaço da nossa propriedade (e portanto uma reivindicação de lucros futuros) em troca de dinheiro vivo. Empresas e governos podem tomar emprestado diretamente do público emitindo títulos. Essas transações podem ser simples, como um empréstimo para um carro novo, ou complexas, como uma injeção de liquidez de vários bilhões de dólares por parte do Fundo Monetário Internacional. A essência nunca muda: indivíduos, empresas e governos necessitam de capital para fazer hoje coisas que de outra forma não poderiam fazer; os mercados financeiros fornecem esse capital – por um preço.

Economias modernas não podem sobreviver sem crédito. De fato, a comunidade de desenvolvimento internacional começou a perceber que tornar crédito acessível aos empreendedores no mundo em desenvolvimento, mesmo pequenos empréstimos de US$ 50 ou US$ 100, pode ser uma ferramenta poderosa para combater a pobreza. A Opportunity International é um desses emprestadores de “microcrédito”. Em 2000, a organização fez aproximadamente 325 mil empréstimos de baixa ou nenhuma garantia em 24 países em desenvolvimento. O empréstimo médio era a aparente ninharia de US$ 195. Esther Gelabuzi, ugandense viúva e com seis filhos, representa uma história típica. Ela é parteira profissional e utilizou seu empréstimo ínfimo, pelos padrões ocidentais, para montar uma clínica (ainda sem eletricidade). Desde então fez o parto de 1.400 bebês, cobrando de US$ 6 a US$ 14 de cada paciente. A Opportunity International alega ter criado cerca de 430 mil empregos. E o mais impressionante, a taxa de devolução dos microempréstimos é de 96%.

 

Guardar, proteger e fazer uso rentável do excesso de capital. O sultão do Brunei ganhou milhões de dólares em rendimentos de petróleo na década de 1970. Suponha que ele tenha guardado o dinheiro debaixo do colchão e o deixado ali. Ele teria vários problemas. Primeiro, é muito difícil dormir com bilhões de dólares enfiados debaixo do colchão. Segundo, com bilhões de dólares enfiados debaixo do colchão, a roupa de cama suja não seria a única coisa a desaparecer toda manhã. Dedos ágeis, para não mencionar criminosos sofisticados, encontrariam o caminho do esconderijo. Terceiro, e mais importante, o ladrão mais implacável e eficiente seria a inflação. Se o sultão do Brunei enfiou US$ 1 bilhão debaixo do colchão em 1970, hoje o dinheiro dele vale US$ 180 milhões.

Assim, a primeira preocupação do sultão seria proteger sua riqueza, tanto de roubos quanto da inflação, sendo que cada qual reduz o poder aquisitivo à sua própria maneira. Sua segunda preocupação seria dar a seu excesso de capital algum uso produtivo. O mundo está cheio de tomadores de empréstimo em potencial, todos eles dispostos a pagar pelo privilégio. Quando economistas rabiscam equações sofisticadas no quadro-negro, às vezes usam o símbolo r para a taxa de juros. Por quê? Porque o empréstimo é considerado uma espécie de aluguel do capital, daí r – rental, “aluguel” em inglês. Esse é o modo mais intuitivo de pensar no que está acontecendo. Indivíduos, empresas e instituições com excesso de capital alugam a outros esse dinheiro para que possam fazer uso mais produtivo. A dotação da Universidade de Harvard é de aproximadamente US$ 25 bilhões. Esse é o equivalente, na Ivy League, ao dinheiro de emergência; enfiá-lo debaixo do colchão dos alunos e dos professores seria impraticável e um tremendo desperdício de recursos. Sendo assim, Harvard emprega cerca de duzentos profissionais para administrar essa provisão de modo que gere um retorno sadio para

a universidade e ao mesmo tempo forneça capital para o resto do mundo.1 Harvard compra ações e títulos, investe em fundos de capital de risco e tem outras maneiras de colocar US$ 25 bilhões nas mãos de pessoas e instituições ao redor do mundo que possam produzir coisas com esse dinheiro. De 1995 a 2005, a dotação obteve um retorno anual de 16%, bem mais produtivo para a universidade que deixar o dinheiro parado no campus. (Harvard também conseguiu perder 30% de sua dotação durante a crise financeira, então, voltaremos à dotação

da universidade quando falarmos de “risco e recompensa”.)2

Os mercados financeiros fazem mais que pegar o capital dos ricos e emprestá-lo aos outros. Eles possibilitam a cada um de nós amenizar o consumo ao longo da vida, que é um jeito bonito de dizer que não precisamos gastar nossa receita à medida que a recebemos. Shakespeare pode ter nos advertido para não sermos nem emprestadores nem tomadores de empréstimos; o fato é que a maioria de nós é as duas coisas em algum momento da vida. Se vivêssemos numa sociedade agrária, teríamos de comer nossas safras razoavelmente depressa após a colheita ou achar algum jeito de armazená-las. Os mercados financeiros são um meio mais sofisticado de administrar a colheita. Podemos gastar nossa receita agora sem a termos recebido – como ao tomar empréstimo para a faculdade ou para uma casa –, ou podemos ter nossa receita agora e gastá-la mais tarde, poupando-a para a aposentadoria. O fator importante é que a entrada da receita ficou divorciada de seu gasto, permitindo uma flexibilidade muito maior.

Segurança contra risco. A vida é uma proposta de risco. Arriscamo-nos a morrer simplesmente ao entrar na banheira, para não mencionar locomover-se para o trabalho ou praticar bungee-jump com os amigos. Consideremos algumas das maneiras de nos defrontar com a ruína financeira: desastre natural, doença ou incapacitação, fraude ou roubo. Um dos nossos impulsos básicos como seres humanos é minimizar esses riscos. Os mercados financeiros nos ajudam a fazer isso. Os exemplos mais óbvios são os seguros de saúde, vida e veículos. Como dissemos no Capítulo 4, as companhias de seguro cobram mais pela sua apólice do que esperam pagar a você, em média. Mas “em média” é aqui um termo importante. Você não está preocupado com resultados em média; está preocupado com as piores coisas que podem acontecer a você. Um golpe de sorte – a árvore que cai numa tempestade e esmaga sua casa – pode ser devastador. Portanto, a maioria de nós está disposta a pagar uma quantia previsível – mesmo que seja mais do que esperamos receber de volta – para nos proteger contra o imprevisível.

Quase qualquer coisa pode ser segurada. Você está preocupado com piratas? Deve estar, se transporta bens por navio pelo mar do Sul, na China, ou pelo estreito de Malaca. Como explica a The Economist: “Piratas ainda predam navios e marinheiros. Longe dos tipos simpáticos com perna-de-pau e venda no olho, os piratas hoje são sujeitos sórdidos, com granadas lançadas por foguetes e barcos velozes.” Houve 266 atos de pirataria (ou tentativas) reportados pela Organização Marítima Internacional em 2005. É por isso que empresas transportadoras de cargas por áreas perigosas compram seguro marítimo (que também as protege contra outros riscos no mar). Quando o navio petroleiro francês Limberg foi atingido por um atacante suicida num barco rápido, com um pacote de explosivos, na costa do Iêmen, em 2002, a seguradora acabou fazendo um cheque de US$ 70 milhões – exatamente como quando alguém entra na traseira de seu carro no estacionamento do shopping, só que era uma

reclamação bem mais significativa.3

A empresa de roupas e calçados Fila devia ter feito um seguro antes do torneio de tênis U.S. Open em 2009, mas não fez. Como outras empresas, a Fila apoia atletas e lhes paga bônus enormes quando obtêm grandes resultados. Ela patrocinava a jogadora belga Kim Clijsters, vencedora do U.S. Open, mas optou por não fazer “seguro de vitória” para aproximadamente US$ 300 mil em dinheiro do bônus que lhe prometera caso vencesse. (Foi uma decisão cara, mas também insultuosa para a sra. Clijsters.) O seguro teria saído barato. Clijsters não era cabeça de chave, tinha jogado apenas dois torneios desde que deixara o tênis

para ter bebê e era considerada uma zebra de 40:1 nas bolsas de apostas antes do torneio.4

Os mercados financeiros fornecem uma gama de outros produtos que parecem complicados, mas basicamente funcionam do mesmo jeito que uma apólice de seguro. Um contrato de futuros, por exemplo, fecha o preço de venda para uma commodity – qualquer coisa, de energia elétrica a grãos de soja – em uma futura data definida. Nas dependências da Câmara de Comércio, um comerciante pode comprometer-se a vender a outros mil sacas de milho a US$ 3,27 a saca, em março de 2010. Qual é o sentido? O sentido é que produtores e consumidores dessas commodities têm muito a temer com as oscilações de preço futuras. Plantadores de milho podem tirar proveito de fechar um preço de venda enquanto seu milho ainda está no chão – ou mesmo antes de plantá-lo. Poderiam eles obter preço melhor esperando para vender a safra após a colheita? Com toda a certeza. Ou obteriam preço muito mais baixo, o que os deixaria sem dinheiro para pagar suas contas. Eles, como todos nós, estão dispostos a pagar o preço da certeza.

Ao mesmo tempo, grandes compradores de commodities podem tirar proveito de estar do outro lado da mesa. As companhias aéreas usam contratos futuros para fechar um preço previsível para o combustível de jatos. Restaurantes fast-food podem entrar em contratos futuros para carne moída, barrigas de porco (a maioria das quais é transformada em bacon) e até queijo cheddar. Não conheço pessoalmente nenhum executivo da Starbucks, mas tenho uma boa ideia do que os mantém acordados à noite: o preço mundial dos grãos de café. Os americanos se dispõem a pagar US$ 3,50 por um grande skim decaf latte, mas não US$ 6,50, e é por isso que eu estaria disposto a apostar os direitos autorais deste livro que a Starbucks usa os mercados financeiros para se proteger de oscilações súbitas no preço do café.

Outros produtos lidam com outros riscos. Consideremos um dos meus favoritos: títulos de

catástrofe.5 Wall Street concebeu essas pérolas para auxiliar as companhias de seguros a limitar seu risco de desastre natural. Lembre-se, a seguradora faz um cheque quando uma árvore cai sobre o seu carro; se um monte de árvores cair sobre um monte de carros, então a seguradora, ou mesmo todo o setor, terá um problema. As companhias de seguros podem minimizar esse risco emitindo títulos de catástrofe. Eles pagam uma taxa de juros significativamente mais elevada que outros títulos corporativos porque há uma distorção: se furacões ou terremotos provocarem sérios danos numa certa área durante um intervalo de tempo específico, então os investidores perdem parte ou todo de seu principal. A United Services Automobile Association fez, no final dos anos 1990, um dos primeiros negócios vinculados à temporada de furacões na Costa Leste. Se um só furacão causa mais ou menos US$ 1,5 bilhão em danos, então os investidores em títulos de catástrofe perdem todo o seu principal. A seguradora, por outro lado, pode cobrir suas perdas com os sinistros evitando o repagamento da dívida. Se um furacão provoca entre US$ 1 bilhão e US$ 1,5 bilhão em prejuízos, então os investidores perdem uma fração de seu principal. Se os furacões provocam relativamente pouco dano nesse ano, então os compradores dos títulos recebem o principal de volta, mais aproximadamente 12% de juros – retorno bastante bom para um título desse tipo.

A mesma ideia básica está sendo usada agora para a proteção contra terrorismo. A Federação Internacional de Futebol (Fifa) – que governa o futebol mundial – segurou a Copa do Mundo de 2006 contra perturbações decorrentes de terrorismo (e outros riscos) emitindo US$ 260 milhões em “títulos de cancelamento”. Se o torneio transcorre sem qualquer estorvo (o que de fato ocorreu), os investidores recebem o capital de volta com um lucro convidativo. Se há alguma perturbação séria o bastante para cancelar a Copa do Mundo, os investidores perdem parte ou todo o dinheiro, que é usado para compensar a Fifa pela receita perdida. A beleza desses produtos reside em dividir os custos de um desastre natural ou de um ataque terrorista com um grupo amplo de investidores, cada um dos quais com uma carteira diversificada; portanto, cada qual recebe um golpe relativamente pequeno se algo terrível acontecer.

De fato, o papel dos mercados financeiros é permitir-nos distribuir nossos ovos generosamente. Preciso relatar uma daquelas experiências inúteis que só podem acontecer no ensino médio. Algum especialista em comportamento adolescente do meu colégio resolveu que os alunos estariam menos propensos a ser pais adolescentes se percebessem quanta responsabilidade isso exige. A melhor maneira de replicar a maternidade ou paternidade, imaginaram os especialistas, seria fazer cada aluno carregar um ovo pela escola. O ovo representava um bebê e devia ser tratado como tal – manuseado com delicadeza, nunca longe da vista, e assim por diante. Mas era um colégio de ensino médio. Os ovos caíam, eram esmagados, deixados no vestiário do ginásio de esportes, arremessados contra a parede pelos brigões, expostos ao fumo nos banheiros etc. A experiência não me ensinou nada sobre paternidade, mas convenceu-me para sempre de que carregar ovos é uma proposta arriscada.

Os mercados financeiros tornam fácil e barato o ato de colocar nossos ovos em diferentes cestas. Com um investimento de US$ 1 mil num fundo mútuo, você pode investir em quinhentas empresas ou mais. Se você fosse forçado a comprar ações individualizadas de um corretor, nunca poderia se permitir tal diversidade com meros US$ 1 mil. Por US$ 10 mil, você pode diversificar por uma ampla gama de produtos: ações grandes, ações pequenas, ações internacionais, títulos de longo prazo, títulos de curto prazo, títulos de alto risco, imóveis. Alguns desses produtos terão bom desempenho, enquanto outros terão desempenho fraco, protegendo você dos equivalentes em Wall Street aos brigões que jogam ovos contra a parede. Uma das atrações dos títulos de catástrofe para os investidores é que seu rendimento é determinado pela frequência dos desastres naturais, que não está correlacionada ao desempenho de ações, títulos, imóveis ou outros investimentos tradicionais.

Mesmo os famigerados CDS têm um propósito de investimento legítimo. Um CDS na verdade é só uma apólice de seguro sobre se um terceiro vai ou não pagar suas dívidas. Suponha que seu marido pressione você a emprestar US$ 25 mil ao irresponsável do seu cunhado para ele finalmente completar o programa de gerenciamento de raiva determinado pelo tribunal e dar uma volta por cima na vida. Você tem graves preocupações se algum dia irá ver de novo esse dinheiro. O que você precisa é de um CDS. Você pode pagar a alguma outra parte (provavelmente com uma visão mais favorável da credibilidade de seu cunhado) para entrar num contrato com você que lhe prometa pagar US$ 25 mil caso seu cunhado não lhe devolver o dinheiro. O contrato funciona como um seguro contra calote. Como qualquer outro tipo de seguro, você paga por essa proteção. Se seu cunhado tomar jeito na vida e lhe devolver o empréstimo, você terá adquirido um CDS por nada (que é como a outra parte da transação, ou a contraparte, ganha dinheiro). Como algo tão simples e aparentemente útil pôde contribuir para o colapso do sistema financeiro global? Continue a ler.

 

Especulação. Claro que, uma vez criado o produto financeiro, ele satisfaz outra necessidade humana básica: a necessidade de especular, ou apostar em movimentos de preço de curto prazo. Podem-se usar os mercados futuros para mitigar o risco – ou pode-se usar o mercado futuro para apostar no preço da soja no próximo ano. Pode-se usar o título de mercado para elevar o capital – ou pode-se usá-lo para apostar se Ben Bernanke vai cortar as taxas de juros no próximo mês. Pode-se usar o mercado de ações para investir em empresas e compartilhar seus lucros futuros – ou pode-se comprar uma ação às 10h da manhã na esperança de ganhar alguns trocados na hora do almoço. Produtos financeiros estão para a especulação assim como os eventos esportivos estão para a casa de apostas. Eles a facilitam, mesmo que esse não seja seu propósito básico.

Foi isso que saiu errado com os CDS. A coisa curiosa a respeito desses contratos é que qualquer um pode entrar na jogada, independentemente de ser ou não parte interessada na dívida que está sendo garantida. Vamos ficar no exemplo de seu cunhado fracassado. Para você, faz sentido usar um CDS para proteger-se contra perdas. No entanto, o mesmo mercado também permite ao resto de nós apostar se seu cunhado vai pagar ou não o empréstimo. Isso não é se proteger contra um calote, é especulação. Para qualquer dívida, pode haver centenas ou milhares de contratos vinculados ao pagamento ou não do empréstimo. Pense no que significa se seu cunhado começar a faltar ao programa de gerenciamento de raiva e der o calote. A essa altura, uma perda de US$ 25 mil fica ampliada milhares de vezes.

Se as partes que estão garantindo a dívida não tiverem feito seu dever de casa (e portanto não entendem que grande fracasso seu cunhado é), ou se não dão importância (porque ganham bônus enormes por fazer apostas dúbias com o capital da firma), então um conjunto de reveses econômicos que, em outras circunstâncias, seria algo pequeno pode explodir em uma coisa muito maior. Foi o que aconteceu quando a economia americana se defrontou com um obstáculo relacionado aos imóveis em 2007. O American International Group (AIG) foi a firma no centro do desastre do calote de crédito porque garantia uma porção de dívidas que deram errado. Na excelente avaliação que fez em 2009 da crise financeira, o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Simon Johnson, escreveu:

 

Reguladores, legisladores e professores, quase todos assumem que os administradores desses bancos sabiam o que

estavam fazendo. Em retrospecto, não sabiam. A Divisão de Produtos Financeiros da AIG, por exemplo, fez US$ 2,5

milhões de lucros com taxas pré-fixadas em 2005, em grande parte vendendo seguros subvalorizados sobre valores

mobiliários complexos, mal-compreendidos. Frequentemente descrita como “catar níqueis diante de um rolo compressor”,

essa estratégia é lucrativa em anos normais, e catastrófica em anos ruins. No último outono, a AIG tinha seguros sobre

mais de US$ 400 bilhões em valores mobiliários. Até o presente, o governo dos Estados Unidos, num esforço de salvar a

empresa, comprometeu cerca de US$ 180 milhões em investimentos e empréstimos para cobrir as perdas que a sofisticada

modelagem de riscos da AIG declarou serem virtualmente impossíveis.6

 

AUMENTAR CAPITAL. Proteger capital. Cercar os riscos. Especular. É isso aí. Toda a frenética atividade em Wall Street ou LaSalle Street (sede do mercado de futuros em Chicago) se encaixa em um ou mais desses módulos. O mundo das altas finanças é muitas vezes descrito como uma versão rica de Las Vegas – risco, glamour, personalidades interessantes e montes de dinheiro mudando de mão. Contudo, a analogia é terrivelmente inapropriada. Tudo que acontece em Las Vegas é um jogo de soma zero. Se a casa ganha uma mão de vinte e um, você perde. E as chances pesam significativamente a favor da casa. Se você jogar vinte e um durante um bom tempo – pelo menos sem contar as cartas –, é certeza matemática de que vai sair quebrado. Las Vegas provê entretenimento, mas não serve a nenhum propósito social maior. Wall Street, sim. A maior parte do que lá acontece é um jogo de soma positiva. Coisas são construídas; empresas são montadas; indivíduos e empresas administram o risco que, caso contrário, poderia ser devastador.

Nem toda transação é vencedora, claro. Assim como indivíduos fazem investimentos de que mais tarde se arrependem, os mercados de capitais são perfeitamente capazes de desperdiçar quantias enormes de capital; escolha sua pontocom predileta e pense nisso como exemplo. Bilhões de dólares de capital fluíram para negócios que não deram certo. A bolha imobiliária e o colapso de Wall Street fizeram o mesmo em escala ainda maior. A mão invisível de Adam Smith jogou um bocado de capital ao mar, para nunca mais ser visto. Ao mesmo tempo, algumas empresas potencialmente lucrativas estão famintas de capital porque suas garantias são insuficientes. Os economistas se preocupam, por exemplo, se há muito pouco crédito disponível para famílias pobres que gostariam de investir em capital humano. Um diploma de faculdade é um investimento excelente, mas não é algo que possa ser recuperado na eventualidade de inadimplência.

Ainda assim, os mercados financeiros fazem pelo capital o que outros mercados fazem por todo o resto: alocam-no de forma altamente produtiva, embora imperfeita. O capital flui para onde pode obter o maior retorno, e não um lugar ruim para fluir (em oposição, digamos, a negócios dirigidos por altos funcionários comunistas ou amigos do rei). Da mesma forma que o restante da economia, o governo pode ser inimigo ou amigo. Ele pode atrapalhar os mercados de capital da mesma maneira que pode atrapalhar todo o resto – com taxas pesadas e regulamentos exagerados, canalizando capital para projetos de sua predileção, recusando-se a permitir que a destruição criativa funcione de maneira cruelmente eficiente. Ou o governo pode fazer os mercados financeiros funcionarem melhor: minimizando fraudes, forçando a transparência do sistema, criando e fazendo vigorar uma estrutura de regulamentação, fornecendo bens públicos que baixem o custo dos negócios etc. Mais uma vez, a sabedoria reside em perceber a diferença.

Obviamente a crise atual tem nos ensinado algumas lições. O sistema regulatório financeiro precisa ser remendado, se não completamente vistoriado. O desafio será proteger aquilo que um sistema financeiro moderno faz de melhor – alocar capital para investimentos produtivos e proteger-nos de riscos que não podemos nos permitir – e ao mesmo tempo podar excessos, apostas estúpidas que enriquecem os caras que apostam para depois deixar uma imundície a ser limpa por todos nós.

 

ESTÁ TUDO MUITO BEM. Mas como se faz para ficar rico nos mercados? Um de meus antigos colegas na The Economist sugeriu que este livro deveria se chamar Você é rico o suficiente? Sua lógica era que a maioria das pessoas responderia “Não” e arrancaria os livros das prateleiras das livrarias. Infelizmente, não acredito muito em estratégias infalíveis que abram caminho para as riquezas. Tal como um programa miraculoso de perda peso viola quase tudo que sabemos sobre saúde e nutrição, esquemas de “fique rico depressa” violam os mais básicos princípios de economia.

Comecemos com um exemplo. Suponha que você esteja buscando uma casa no bairro de Lincoln Park, em Chicago. Após muitas semanas de procura, você descobre que uma propriedade de granito de três andares vai lhe custar algo na faixa de US$ 500 mil. Algumas casas estão anunciadas por US$ 450 mil, mas precisam de reforma; outras estão anunciadas por US$ 600 mil porque têm algumas facilidades extras. Exatamente quando você começa se desesperar por ter de gastar US$ 500 mil numa casa, encontra uma moradia de granito anunciada por US$ 250 mil que atende a todas as suas exigências. Ao investigar, fica sabendo que é em cada detalhe tão bonita quanto aquelas que você viu – mesma localização, mesmo tamanho, mesma estrutura sólida. Ainda cauteloso, você pede opinião à corretora de imóveis. Ela lhe garante que essa casa é uma pechincha extraordinária e que deveria estar sendo vendida por US$ 500 mil. Na opinião profissional dela, não há dúvida de que você poderia comprar esse imóvel por US$ 250 mil e vender poucos meses depois por US$ 500 mil ou mais. E aí você vê a peça de evidência final. Um artigo na página 3 do Crain’s Chicago Business com um título gritante: “Pechincha do mês: casa de granito em Lincoln Park anunciada por US$ 250 mil.”

Então você arremata a casa por US$ 250 mil. Sem dúvida alguma, seis meses depois, você

a vende por US$ 500 mil – dobrando seu dinheiro.a

Quantas coisas estão erradas nessa história? Diversas. Uma pessoa razoável poderia começar por fazer algumas das seguintes perguntas:

 

1. Se a casa valia realmente US$ 500 mil, quem era o idiota que a estava vendendo por US$

250 mil? Essa pessoa estava disposta a (ou era incapaz de) fazer os três minutos de

trabalho necessário para determinar que casas comparáveis na vizinhança eram vendidas

pelo dobro do preço? Senão, não havia um membro da família ou um corretor de imóveis

– cuja comissão é baseada no preço de venda – disposto a apontar essa enorme

discrepância?

 

2. Talvez não. Nesse caso, por que minha corretora não comprou a casa? Se é “negócio

certo” que a casa vai dobrar de preço, por que ela está trabalhando pela comissão de 3%

quando há US$ 250 mil encarando-a?

 

3. Talvez minha corretora também seja uma idiota. Nesse caso, onde estão todos os outros

compradores à procura de pechinchas, em especial depois que casa apareceu no Crain’s

Chicago Business? Se a casa de granito é uma tremenda pechincha – e foi amplamente

anunciada como tal –, então presume-se que todo tipo de gente vai querer comprá-la. Isso

resultaria numa guerra de ofertas, com os compradores potenciais oferecendo quantias

cada vez maiores até o preço chegar a seu valor de mercado, que é por volta de US$ 500

mil.

 

Em outras palavras, não existe praticamente nenhuma chance de encontrar uma casa de granito em Lincoln Park (sem alguma surpresa escondida no porão) por US$ 250 mil. Por quê? Por causa da ideia mais básica em economia. Você está tentando maximizar sua utilidade – e o resto das pessoas também. Num mundo em que todos estão buscando investimentos lucrativos, ninguém vai deixar US$ 250 mil descansando sobre da mesa. Todavia, as pessoas presumem o tempo todo que o mercado de ações funciona desse jeito. Acreditamos que depois de ler sobre um “papel quente” na Business Week, ou ler as recomendações de compras de um analista de Wall Street (oferecidas a todos os clientes da firma), podemos nos entupir de ações que vão trucidar a média do mercado. Mas esses supostos “papéis quentes” são apenas uma casa de granito em Lincoln Park com outra roupagem. Eis por quê.

Comecemos com um aspecto simples mas muitas vezes desconsiderado: toda vez que você compra uma ação (ou qualquer outro papel), alguém tem de vendê-lo a você. O cara que lhe vende esse “papel quente” resolveu que prefere ter dinheiro vivo. Ele consultou o atual “preço de pechincha” e quer se desfazer – exatamente na hora em você quer entrar. Claro, ele pode estar precisando de dinheiro para alguma outra coisa, mas ainda assim vai pedir um preço de mercado justo, como seria de esperar que alguém que precise se mudar de Lincoln Park peça US$ 500 mil por uma casa de granito, e não US$ 250 mil. O mercado de ações, como sugere o nome, é um mercado. O preço de uma ação num dado momento é o preço em que o número de compradores iguala o número de vendedores. Metade dos investidores negociando seu “papel quente” está tentando se livrar dele.

Ou talvez você saiba de algo que os compradores não saibam. Talvez todas as pessoas se desfazendo da XYZ Corp. tenham perdido o artigo no Wall Street Journal sobre alguma nova droga espetacular da XYZ para tratar a calvície masculina. Tudo bem, isso pode ocorrer. Mas onde estão os outros compradores sofisticados do mundo? Essa ação é negócio certo a US$ 45, mas por algum motivo Warren Buffet, os operadores da Goldman Sachs e os gestores da carteira de elite da Fidelity não estão comprando. (Se estivessem, a ação já estaria sendo negociada a um preço muito mais alto, como a casa de Lincoln Park.) Será que você sabe de alguma coisa que ninguém mais em Wall Street sabe (tendo em mente que fazer negócios de posse de qualquer informação não acessível ao público é contra a lei)?

Ou talvez alguém em Wall Street esteja lhe enfiando na cabeça a ideia dessa ação. As corretoras de valores empregam um quadro de analistas que passa seus dias fuçando o desempenho das corporações americanas. Será que toda a informação está errada? Não – embora haja uma profusão de casos de incompetência e conflito de interesses. Os analistas fornecem toda espécie de informação legítima, exatamente como sua corretora de imóveis. Quando você está procurando uma casa, a corretora pode lhe falar da vizinhança, de escolas, impostos, crime – o tipo de coisa que interessa. Os analistas de Wall Street fazem o mesmo para as empresas; dão relatórios sobre administração, futuros produtos, o setor, a concorrência. Mas isso não garante em nada que você irá obter aquele retorno acima da média para aquela ação.

O problema é que todo mundo tem acesso à mesma informação. Essa é a essência da teoria dos mercados eficientes. A premissa básica da teoria é que os preços do produto já refletem toda a informação disponível. Portanto, é difícil, se não impossível, escolher ações cujo desempenho supere o mercado com qualquer grau de consistência. Por que você não pode comprar uma casa em Lincoln Park por US$ 250 mil? Porque os compradores e vendedores reconhecem que tal casa vale muito mais. Uma participação na XYZ Corp. não é diferente. Os preços das ações se estabilizam num preço justo dado tudo que sabemos ou podemos razoavelmente predizer; os preços subirão ou cairão no futuro apenas em resposta a eventos imprevistos – coisas que não podemos saber no presente.

Escolher ações é como tentar escolher a menor fila de caixa no supermercado. Algumas filas andam mais depressa que outras? Decerto, da mesma forma que algumas ações superam outras em termos de desempenho. Existem coisas que julgamos sinalizar a rapidez com que uma fila anda em relação às outras? Sim. Você não quer ficar atrás do sujeito com dois carrinhos cheios ou da senhora idosa com um punhado de cupons de ofertas. Então, por que raramente acabamos na fila mais rápida no supermercado (e a maioria dos escolhedores de ações profissionais não se dá melhor que a média do mercado)? Porque todo mundo está procurando as mesmas coisas que nós e agindo de acordo com isso. Todos podem ver o sujeito com dois carrinhos cheios, a moça em treinamento na caixa três, a rainha dos cupons de ofertas na fila da caixa seis. Todo mundo na saída quer pegar a fila mais rápida. Às vezes dá certo, às vezes não. Com o tempo, os resultados se equilibram, de modo que se você for ao supermercado com bastante frequência, provavelmente passará o mesmo tempo na fila que todos os demais.

De fato, podemos levar a analogia um passo adiante. Suponha que em algum corredor você tenha visto a senhora idosa enfiando maços de cupons nos bolsos. Quando chega a hora de passar na caixa e você a vê na fila, sabiamente desvia seu carrinho para outra caixa. Quando ela tira sua bolsinha e começa a entregar os cupons, você presunçosamente se autocongratula. Momentos depois, porém, percebe que o sujeito à sua frente se esqueceu de pesar os abacates. “Verificação de preço de abacates na caixa três!” – ladra repetidamente a moça encarregada enquanto você assiste à senhora dos cupons carregar suas compras para fora da loja. Quem poderia ter previsto isso? Ninguém, como também ninguém teria previsto que a MicroStrategy, ambiciosa empresa de software, faria uma correção de sua receita em 19 de março de 2000, apagando milhões de dólares de seus livros contábeis. A ação caiu US$ 140 num só dia, uma queda de 62%. Teriam os investidores e administradores de carteiras que compraram ações da MicroStrategy imaginado que isso iria acontecer? Claro que não. O que importa são as coisas que não se podem predizer. Realmente, da próxima vez que você ficar tentado a investir uma boa quantia de dinheiro numa só ação, mesmo que seja de uma empresa grande e bem-estabelecida, repita essas palavras mágicas: Enron, Enron, Enron. Ou Lehman, Lehman, Lehman.

Proponentes da teoria dos mercados eficientes têm um conselho para os investidores: entre numa fila e fique nela. Se os produtos tiverem seus preços determinados com eficiência, então um macaco jogando dardos na lista de ações deveria escolher uma carteira cujo desempenho seja tão bom, em média, quanto as carteiras escolhidas pelos astros de Wall Street. (Burton Malkiel assinalou que, já que a diversificação é importante, o macaco deveria era jogar a toalha e desistir de consultar as listas de ações.) De fato, os investidores agora têm acesso ao seu próprio macaco com toalha: fundos indexados. Os fundos indexados são fundos mútuos que não objetivam escolher vencedores. Em vez disso, compram e mantêm um cesto de ações predeterminado, tais como o S&P 500, o índice que inclui as quinhentas maiores empresas dos Estados Unidos. Considerando que o S&P 500 é uma média ampla de mercado, esperaríamos que metade dos fundos mútuos ativamente gerenciados no país tenha desempenho melhor, e a outra metade, pior. Mas isso antes dos custos. Os administradores de fundos cobram taxas por qualquer processo de verificação que fazem; e também incorrem em custos ao negociar agressivamente. Fundos indexados, como macacos que jogam a toalha, são muito mais baratos de administrar.

Mas tudo isso é teoria. O que mostram os dados? Acontece que o macaco com a toalha pode ser o melhor amigo do investidor. Segundo a Morningstar, uma firma que acompanha fundos mútuos, um pouquinho menos que metade dos fundos diversificados ativamente gerenciados nos Estados Unidos bateu o S&P 500 no último ano. Uma proporção mais impressionante de 66% de fundos ativamente gerenciados bateu o S&P 500 nos últimos cinco anos. Mas veja o que acontece quando o período se torna mais longo: apenas 45% dos fundos ativamente gerenciados bateram a S&P num período de vinte anos, que é o intervalo de tempo mais relevante para as pessoas que poupam para a aposentadoria ou a universidade. Em outras palavras, 55% dos fundos mútuos que alegam ter alguma habilidade especial na escolha das ações se saíram pior em duas décadas que um simples fundo indexado, nosso equivalente moderno a um macaco jogando a toalha nas listas de ações.

Se você investiu US$ 10 mil no fundo de ações médio ativamente gerenciado em 1973, quando o livro herético de Malkiel, A Random Walk Down Wall Street, foi lançado, hoje eles valeriam US$ 355.091 (muitas edições depois). Se você tivesse investido a mesma quantia num fundo indexado S&P 500, ela valeria US$ 364.066.

Não obstante os dados, a teoria dos mercados eficientes não é a mais popular em Wall Street. Há uma velha piada sobre dois economistas andando pela rua. Um deles vê uma nota de US$ 100 caída no chão e pergunta ao amigo: “Aquilo ali na sarjeta é uma nota de US$ 100?”“Não”, retruca o amigo. “Se fosse uma nota de US$ 100, alguém já a teria apanhado.” E continuaram a andar.

Nem o mercado imobiliário nem o mercado de ações tem se comportado ultimamente de forma consistente com tal visão ordeira e sensata do comportamento humano. Algumas das cabeças mais brilhantes no mundo das finanças vêm desbastando a teoria dos mercados eficientes. Economistas comportamentais têm documentado as maneiras como os indivíduos tomam decisões falhas. Temos a tendência de nos comportar como manadas, com confiança demais em nossas próprias habilidades; colocamos peso demais em tendências passadas ao predizer o futuro, e assim por diante. Considerando que um mercado é apenas uma coleção de decisões individuais, é razoável pensar que, se os indivíduos fazem coisas erradas de maneira sistemática (como reagir exageradamente a boas e más notícias), então as coisas nos mercados também saem errado (como bolhas e explosões).

Há inclusive um campo novo, a neuroeconomia, que combina economia, neurociência cognitiva e psicologia para explorar o papel que a biologia desempenha na nossa tomada de decisões. Uma das descobertas mais estranhas e intrigantes é que pessoas com dano cerebral podem ser boas investidoras. Por quê? Porque o dano em certas partes do cérebro pode enfraquecer as respostas emocionais que nos levam a fazer tolices. Uma equipe de pesquisadores de Carnegie Mellon, Stanford e da Universidade de Iowa conduziu um experimento comparando as decisões de investimentos tomadas por quinze pacientes com danos nas áreas do cérebro que controlam as emoções (mas com funções lógicas e cognitivas intactas) com as decisões de investimentos de um grupo de controle. Os investidores com danos cerebrais acabaram o jogo com 13% a mais de dinheiro que o grupo de controle, em grande parte, acreditam os autores, porque não vivenciam medo e ansiedade. Os investidores com danos cerebrais assumiam mais riscos quando havia grande retorno potencial e ficavam

menos transtornados emocionalmente quando tinham perdas.7

Este livro não está receitando dano cerebral como estratégia de investimento. No entanto, economistas comportamentais acreditam que, antecipando as decisões erradas que os investidores estão propensos a tomar, podemos bater o mercado (ou pelo menos evitar sermos arruinados por ele). O economista Robert Shiller, de Yale, questionou pela primeira vez a teoria dos mercados eficientes no começo da década de 1980. Ele ficou muito mais famoso pelo seu livro Irrational Exuberance, que em 2000 argumentou que o mercado de ações estava supervalorizado. Ele estava certo. Cinco anos depois afirmou que havia uma bolha no mercado imobiliário. Mais uma vez, estava certo.

Se investidores irracionais estão largando por aí notas de US$ 100, não deveríamos ser capazes de pegá-las de algum modo? Sim, argumenta Richard Thaler, economista da Universidade de Chicago (o sujeito que tirou a tigela de castanhas-de-caju dos convidados, no Capítulo 1). Thaler está mesmo disposto a pôr seu dinheiro onde está sua teoria. Ele e alguns colaboradores criaram um fundo mútuo que tiraria proveito das nossas imperfeições humanas: o fundo de crescimento comportamental. Eu até admito que, depois de ter entrevistado o sr. Thaler para a rádio pública de Chicago, resolvi deixar de lado minha forte crença em mercados eficientes e investi uma pequena soma em seu fundo. Qual foi o resultado? Muito bom. O fundo de crescimento comportamental gerou um retorno médio de 4,5% ao ano desde o início, em comparação com um retorno anual de 2,3% para o S&P 500.

A teoria dos mercados eficientes não vai a parte alguma num futuro próximo. Na verdade, ainda é um conceito crucial para qualquer investidor entender, e por dois motivos. Em primeiro lugar, os mercados podem fazer coisas irracionais, mas isso não torna fácil ganhar dinheiro com esses movimentos loucos, pelo menos não por muito tempo. Quando os investidores se aproveitam de alguma anomalia do mercado, digamos, comprando ações que foram subvalorizadas irracionalmente, estão fixando a própria ineficiência que exploraram (fazendo subir o preço de ações subvalorizadas até não estarem mais subvalorizadas). Pense na analogia original de tentar achar a fila de caixa mais rápida no supermercado. Suponha que você consiga encontrar uma fila que ande previsivelmente mais depressa que as outras – talvez tenha realmente um caixa mais ligeiro e um ensacador ágil. Esse resultado também é observado pelos outros compradores; eles vão se acumular nessa fila até que ela não seja a mais rápida. As chances de você pegar a fila mais rápida semana após semana são nulas. Fundos mútuos funcionam do mesmo jeito. Se o gerente de uma carteira começa a bater o mercado, outros verão seus gigantescos retornos e copiarão a estratégia, tornando-a menos efetiva. Então, mesmo que você acredite que possa haver uma ocasional nota de US$ 100 largada no chão, também deve reconhecer que ela não vai ficar ali largada por muito tempo.

Em segundo lugar, os críticos mais efetivos da teoria dos mercados eficientes pensam que o investidor médio provavelmente não pode bater o mercado e nem deve tentar. Andrew Lo, do MIT, e A. Craig MacKinlay, da Wharton School, são autores de um livro intitulado A Non-Random Walk Down Wall Street no qual afirmam que peritos financeiros com recursos extraordinários, tais como supercomputadores, podem bater o mercado achando e explorando anomalias na determinação de preços. Uma resenha da Business Week sobre o livro comenta: “Surpreendentemente, talvez, Lo e MacKinlay na verdade concordam com o conselho de Malkiel ao investidor médio. Se você não tem nenhum conhecimento especial, nem tempo e dinheiro para achar ajuda especializada, dizem eles, então vá em frente e adquira fundos

indexados.”8

Warren Buffet, indiscutivelmente o melhor escolhedor de ações de todos os tempos, diz a

mesma coisa.9 Até Richard Thaler, o sujeito que bate o mercado com seu fundo de crescimento comportamental, disse ao Wall Street Journal que põe a maior parte de suas economias de

aposentadoria em fundos indexados.10 A indexação é para o investimento o que exercícios regulares e uma dieta baixa em gorduras são para perder peso: um excelente ponto de partida. O ônus da prova deve recair sobre qualquer um que alegue ter algum meio melhor.

Como já observei, este capítulo não é um guia de investimentos. Deixo para os outros explicar os prós e contras de planos de poupança para a faculdade, títulos municipais, anuidades variáveis e todas as modernas opções de investimentos. Dito isso, a economia básica pode nos dar um teste intuitivo. Ela nos provê com um conjunto básico de regras com as quais qualquer conselho decente de investimentos deve se conformar.

 

Poupe. Invista. Repita. Voltemos à ideia básica deste capítulo: capital é algo escasso. Essa é a única razão de qualquer tipo de investimento trazer retorno. Se você poupa capital, então alguém lhe pagará para usá-lo. Mas primeiro você precisa ter o capital de reserva, e o único meio de gerá-lo é gastar menos do que você ganha – isto é, poupar. Quanto mais você poupa, e quanto antes começa a poupar, mais aluguel pode exigir dos mercados financeiros. Qualquer bom livro sobre finanças pessoais deixará você deslumbrado com as virtudes dos juros compostos. Aqui, basta dizer que se conta que Albert Einstein os teria chamado de a maior invenção de todos os tempos.

O reverso da moeda, naturalmente, é que, se você gasta mais dinheiro do que ganha, terá de “alugar” a diferença em algum lugar. E terá de pagar por esse privilégio. Pagar o aluguel do capital não é diferente de pagar o aluguel de qualquer outra coisa: é uma despesa que exclui outras coisas que você pode querer consumir mais tarde. O custo de viver melhor no presente é viver pior no futuro. Inversamente, a recompensa de viver frugalmente no presente é viver melhor no futuro. Então, por enquanto, deixemos de lado perguntas sobre se seu plano de aposentadoria está em ações ou títulos de renda fixa. O primeiro passo é muito mais simples: poupe cedo, poupe com frequência e pague os cartões de crédito.

 

Corra risco, tenha retorno. Tudo bem, agora vamos ver se o seu plano de aposentadoria deve estar em ações ou títulos de renda fixa. Suponha que você tenha capital para alugar e esteja decidindo entre duas coisas: emprestar ao governo federal (uma obrigação do Tesouro) ou ao seu vizinho Lance, que anda fazendo umas coisas esquisitas no porão há três anos e alega ter inventado um motor de combustão interna que funciona à base de sementes de girassol. Tanto o governo federal quanto seu vizinho Lance estão dispostos a lhe pagar 6% de juros sobre o empréstimo. O que fazer? A menos que Lance tenha fotos comprometedoras suas, você deveria comprar o título do governo. O motor de combustão a girassol é uma proposta arriscada, o título do governo, não. Lance poderá eventualmente atrair o capital necessário para construir seu invento, mas não oferecendo 6% de retorno. Investimentos mais arriscados devem oferecer um retorno esperado mais alto para conseguir atrair capital. Essa não é uma lei arcana de finanças; é simplesmente como os mercados funcionam. Nenhuma pessoa racional investirá dinheiro em algum lugar quando pode obter o mesmo retorno esperado com menor risco em outro lugar.

A implicação para o investidor é clara: você será compensado correndo mais risco. Logo, quanto mais arriscada a sua carteira, mais alto o retorno – em média. Sim, de novo esse conceito chato, “em média”. Se sua carteira é arriscada, significa também que coisas muito ruins ocasionalmente acontecem. Ninguém abrange esse aspecto melhor que uma velha manchete do Wall Street Journal: “Títulos fixos lhe permitem dormir à noite, mas isso tem um

preço.”11 A reportagem examinava os retornos de ações e títulos de renda fixa de 1945 a 1997. Ao longo desse período, uma carteira composta 100% de ações produziu um retorno anual médio de 12,9%; uma carteira composta 100% de títulos de renda fixa trouxe um magro retorno anual médio de 5,8% no mesmo período. Então você poderia se perguntar: quem são os patetas que têm títulos fixos? Vamos com calma. A mesma reportagem então examinava o desempenho das diferentes carteiras nos piores anos. A carteira de ações perdeu 26,5% de seu valor em seu pior ano; a carteira de títulos nunca perdeu mais de 5% de seu valor num único ano ruim. De maneira similar, a carteira de ações teve retornos anuais negativos oito vezes entre 1945 e 1997; a carteira de títulos perdeu dinheiro apenas uma vez. O cerne do assunto: o risco é recompensado se você tem tolerância para ele.

Isso nos traz de volta à dotação de Harvard, que perdeu cerca de ⅓ de seu valor durante a crise financeira de 2008. E Yale perdeu ¼ de sua dotação em um só ano. Ao mesmo tempo, no mesmo período de circunstâncias econômicas desastrosas, minha sogra ganhou cerca de 3% de retorno mantendo quase todas as suas economias em certificados de depósito e em conta corrente. Será que minha sogra é um gênio em investimentos? Não e não. Minha sogra sempre mantém suas economias em investimentos seguros, mas de baixo retorno, porque não tem apetite para o risco. Quando os tempos são ruins ela está protegida; mas obviamente isso também significa que quando o mercado de ações declara um ganho de 18% ao ano ela ganha 3%. Simultaneamente, Harvard, Yale e outras universidades com amplas dotações obtinham retornos enormes durante os anos da explosão econômica, assumindo grandes riscos e fazendo investimentos relativamente não líquidos. (Liquidez é o reflexo da rapidez e previsibilidade com que algo pode ser transformado em dinheiro vivo. Investimentos não líquidos, como arte rara ou títulos corporativos venezuelanos, precisam pagar um prêmio para compensar a desvantagem; claro que quando você precisa se livrar deles depressa para levantar dinheiro, isso é um problema.) Essas instituições pagam um preço ocasional por suas carteiras agressivas, mas esses tropeções são mais que compensados a longo prazo, com retornos bem melhores que um certificado de depósito. Mais importante, as dotações são diferentes de um investidor típico planejando cursar a universidade ou uma aposentadoria; seu horizonte de investimento, em tese, é infinito, o que significa que se podem dar ao luxo de ter alguns anos realmente ruins, ou mesmo décadas, se isso maximizar os retornos nos próximos cem ou duzentos anos (embora tanto Harvard quanto Yale tivessem de fazer sérios cortes orçamentários para enfrentar a perda de receita das dotações). O reitor de Yale, Richard Levin, disse ao Wall Street Journal: “Tivemos enormes retornos em excesso na subida. Quando tudo tiver terminado e as coisas se estabilizarem, acho que descobriremos que o desempenho geral a longo prazo [da dotação] é melhor do que se não tivéssemos entrado

nessa.”12 Desconfio que ele esteja certo, mas isso não constitui necessariamente uma estratégia sensata para minha sogra.

 

Diversifique. Quando leciono finanças, gosto que meus alunos joguem moedas. É o melhor jeito de explicar certos fatores. Eis um deles: uma carteira bem diversificada reduzirá consideravelmente o risco de perdas sérias sem reduzir sua expectativa de retorno. Voltemo-nos para as moedas. Suponha que o retorno dos US$ 100 mil que você tem guardado no plano de aposentadoria dependa de se jogar uma moeda: cara, quadruplica o valor; coroa, você perde tudo. O resultado médio desse exercício é muito bom. (Sua expectativa de retorno é de

100%.)b O problema é que a perda é inaceitavelmente ruim. Você tem 50% de chance de perder todas as suas economias. Tente explicar isso para seu cônjuge.

Então vamos introduzir mais algumas moedas. Suponha que você distribua os US$ 100 mil da aposentadoria em dez investimentos diferentes, cada um com o mesmo esquema de retorno. Cara, o investimento quadruplica de valor; coroa, não vale mais nada. Sua expectativa de retorno não mudou em nada: em média, você lançará cinco caras e cinco coroas. Cinco dos seus investimentos quadruplicarão de valor; cinco não valerão mais nada. Isso funciona com o mesmo simpático retorno de 100%. Mas veja o que aconteceu com seu risco de perda. O único meio de você perder toda sua aposentadoria é lançar dez coroas, o que é altamente improvável. (A probabilidade é menor que uma em mil.) Agora imagine o mesmo exercício

com você comprando vários fundos indexados que incluem milhares de ações do mundo todo.c Nunca tantas moedas vão dar coroa.

Claro que é bom você se certificar ao máximo de que todos esses investimentos tenham resultados verdadeiramente independentes entre si. Uma coisa é lançar moedas, em que o resultado de um lançamento não tem correlação nenhuma com o resultado do lançamento seguinte. Outra coisa é comprar ações da Microsoft e da Intel e presumir que você dividiu sua carteira com segurança em dois cestos. Sim, são empresas diferentes, com produtos diferentes e administração diferente, mas se a Microsoft tiver um ano realmente ruim, há uma boa chance de a Intel também sofrer. Um dos erros que compuseram a crise financeira foi a crença de que juntar todas as hipotecas num único título garantido por hipotecas era mais seguro e previsível que qualquer hipoteca isolada – como lançar cem moedas em vez de só uma. Se você é um banco com um empréstimo de hipoteca extraordinário, ele pode sofrer inadimplência e levar todo seu capital junto. Mas se você compra um produto financeiro constituído de milhares de hipotecas, a maioria estará em ordem, o que reduz a perda de um eventual calote.

Em tempos normais, isso provavelmente é verdade. Uma hipoteca fica inadimplente quando alguém adoece ou perde o emprego. Isso não é provável de ocorrer em muitas casas; se uma das casas da quadra sofre inadimplência, não há motivo para acreditar que as outras também sofrerão. Quando uma bolha imobiliária estoura, tudo é diferente. Os preços dos imóveis estavam despencando por todo o país, e a recessão correlata significava que montes e montes de pessoas estavam perdendo seus empregos. Os títulos aparentemente sagazes garantidos por empréstimos imobiliários transformaram-se nos “ativos tóxicos” que desde então estamos tentando limpar.

 

Invista para o longo prazo. Você já esteve num cassino quando alguém ganha uma grande bolada? Os operadores do cassino ficam tão felizes quanto todo mundo. Por quê? Porque ganharão uma quantia de dinheiro extraordinária a longo prazo; esse é apenas um “soluço” ao longo do caminho. A beleza de gerenciar um cassino é que os números se acumulam a seu favor. Se estiver disposto a esperar tempo suficiente – e posar alegremente para fotos ao entregar um cheque gigantesco para um grande ganhador ocasional –, então você ficará rico.

Investir tem os mesmos benefícios que gerenciar um cassino. As chances estão acumuladas a seu favor se você for paciente e estiver disposto a encarar um contratempo ocasional. Qualquer carteira de investimentos razoável deve ter um retorno positivo esperado. Lembre-se, você alugou capital para diversas entidades e espera obter algo em troca. De fato, quanto mais arriscadas as empreitadas, mais você espera conseguir de volta, em média. Assim, quanto mais tempo você segura na mão seus investimentos (diversificados), mais tempo você tem para realizar a mágica. Em quanto o índice Dow vai fechar amanhã? Não tenho a mínima ideia. Quanto será no ano que vem? Não sei. E em cinco anos? Provavelmente mais alto que hoje, mas não existe tal certeza. Quanto será em 25 anos? Significativamente mais alto que hoje; estou razoavelmente certo disso. A idiotice dos negócios diários – comprar uma ação na esperança de vendê-la algumas horas depois com lucro – é que ela incorre em todos os custos de negociar ações (comissões e taxas, para não mencionar seu tempo) sem qualquer dos benefícios que advêm de conservar os títulos para o longo prazo.

 

ENTÃO VOCÊ TEM o teste para farejar investimentos pessoais. Da próxima vez que um consultor de investimentos vier procurá-lo prometendo um retorno de 20 ou 40%, você saberá que uma das três seguintes coisas será verdade: (1) deve ser um investimento muito arriscado para justificar um retorno esperado tão alto – pense na dotação de Harvard; (2) seu consultor de investimentos tropeçou em alguma oportunidade ainda não descoberta por todos os investidores sofisticados do mundo e foi gentil o bastante para dividi-la com você – por favor, me chame; ou (3) seu consultor de investimentos é incompetente e/ou desonesto – pense em Bernie Madoff. Com extrema frequência a resposta é (3).

A coisa fascinante em relação à economia é que as ideias não mudam. Monarcas da Idade Média necessitavam levantar capital (geralmente para as guerras) exatamente como as startups de biotecnologia hoje. Não tenho ideia de como será a cara do planeta daqui a cem anos. Talvez estejamos colonizando Marte ou convertendo água salgada em fonte de energia limpa e renovável. Mas sei que qualquer um desses empreendimentos utilizaria os mercados financeiros para levantar capital e mitigar o risco. E tenho certeza absoluta de que os americanos não ficarão magros e saudáveis comendo apenas toranja com sorvete.

 

a Seu retorno real seria muito mais alto, uma vez que grande parte da aquisição seria financiada. Se você entra com US$ 50 mil, por exemplo, teria ganhado US$ 250 mil sobre um investimento de US$ 50 mil (menos os juros pagos para amortizar a hipoteca durante o período em que foi dono da casa).

b A expectativa de retorno é 0,5 (US$ 400 mil) + 0,5 (US$ 0) = US$ 200 mil, que é 100% de retorno sobre seu investimento de US$ 100 mil.

c Esse exercício é um tanto simplificado demais. Os lançamentos de moedas são independentes, ao passo que o comportamento das ações individuais, não. Alguns eventos, como uma variação na taxa de juros, afetam todo o mercado. Portanto, comprar duas ações não oferece a mesma diversificação que dividir a carteira entre dois lances de moeda. Não obstante, o ponto como um todo é válido.