Economia nua e crua

Charles Wheelan · Capítulo 12 de 18

Páginas do PDF

Economia nua e crua

11. Economia internacional: Como um país bacana como a Islândia acabou falido?

11. Economia internacional

 

Como um país bacana como a

Islândia acabou falido?

 

EM 1992, GEORGE SOROS ganhou quase US$ 1 bilhão num só dia com os fundos de investimento que administrava. A maioria das pessoas precisa de várias semanas para ganhar US$ 1 bilhão, ou até um mês. Soros ganhou seu bilhão num único dia de outubro, fazendo uma gigantesca aposta no valor futuro da libra britânica em relação a outras moedas. Ele acertou, o que o transformou, indiscutivelmente, no mais famoso “especulador de moeda” de todos os tempos.

Como foi que ele conseguiu isso? Em 1992, a Grã-Bretanha fazia parte do Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio, MTC (em inglês, ERM, de European Exchange Rate Mechanism). Esse acordo destinava-se a administrar grandes flutuações nas taxas de câmbio entre nações europeias. As empresas consideravam mais difícil fazer negócios através do continente, onde não podiam prever quais seriam as taxas de câmbio futuras entre as múltiplas moedas da Europa. (Uma moeda única, o euro, seria criada aproximadamente uma década depois.) O MTC estabelecia metas para as taxas cambiais entre os países participantes. Cada governo era obrigado a desenvolver uma política que mantivesse sua moeda em operação nos mercados monetários internacionais oscilando no interior de uma faixa estreita em torno da meta. Por exemplo, a libra britânica era cotada a 2,95 marcos alemães e não podia ficar abaixo de um piso de 2,778 marcos.

A Grã-Bretanha estava em plena recessão e sua moeda caía de valor à medida que os investidores internacionais vendiam libras à procura de oportunidades mais lucrativas em outras partes do mundo. Moedas não são um bem diferente de qualquer outro; a taxa de câmbio, ou o “preço” de uma moeda em relação a outra, é determinada pela oferta em relação à demanda. À medida que caía a demanda de libras, o mesmo ocorria com o valor da libra nos mercados de câmbio. O governo britânico comprometeu-se a “defender a libra” para impedir que ela ficasse abaixo do seu valor designado no MTC. Soros não acreditou – e foi isso que motivou a sua grande aposta.

O governo britânico tinha duas ferramentas para conter o valor da libra diante da pressão de mercado que a empurrava para baixo: (1) o governo podia usar suas reservas de moeda estrangeira para comprar libras – alimentando diretamente a demanda da moeda; ou (2) podia usar a política monetária para aumentar as taxas de juros reais, o que, mantendo-se as outras variáveis iguais, tornaria os títulos britânicos (e as libras necessárias para comprá-los) mais lucrativos para investidores globais, atraindo capital (ou impedindo-o de sair da Grã-Bretanha).

Mas os britânicos tinham problemas. O governo já gastara altas somas de dinheiro comprando libras; o Banco da Inglaterra (o banco central britânico) arriscava-se a desperdiçar reservas adicionais de moeda estrangeira sem produzir efeito melhor. Aumentar as taxas de juros tampouco era uma opção atraente para o governo. A economia britânica achava-se em péssimo estado, e aumentar as taxas de juros durante uma recessão desacelera ainda mais a economia, resultando em péssima economia e política ainda pior. A revista Forbes explicou postumamente a estratégia de Soros: “Ao lutarem para tornar suas moedas atraentes, a Grã-Bretanha e a Itália [com problemas similares] foram obrigadas a manter altas taxas de juros a fim de atrair dólares de investimentos estrangeiros. Mas isso tolhia a

capacidade de estimular suas débeis economias.”1

Apesar de tudo, o primeiro-ministro John Major declarou enfaticamente que seu “objetivo primordial” era defender o valor acordado da libra no MTC, ainda que essa tarefa parecesse cada vez mais difícil. Soros chamou isso de blefe do governo. Apostou que os britânicos acabariam desistindo de defender a libra e que seu valor cairia brutalmente. A mecânica do

seu dia de US$ 1 bilhão é complexa,a mas a essência é bastante simples e direta: Soros

apostou pesadamente que o valor da libra cairia, e estava certo.2 Em 16 de setembro de 1992 – “Quarta-feira Negra” – a Grã-Bretanha retirou-se do MTC e a libra imediatamente perdeu mais de 10% de seu valor. A perda da libra foi o ganho de Soros – um grande momento.

A economia internacional não deve ser diferente da economia dentro dos países. Fronteiras nacionais são demarcações políticas, não econômicas. Transações através de fronteiras nacionais devem deixar todas as partes em situação melhor, ou não as faríamos. Você compra um Toyota porque acha que é um carro bom por um preço bom; a Toyota vende o carro para você porque pode lucrar com isso. O capital flui através de fronteiras internacionais pela mesma razão por que flui em qualquer outro lugar: investidores buscam o mais alto retorno possível (com algum nível de risco). Indivíduos, empresas e governos tomam títulos estrangeiros emprestados porque é o meio mais barato de “alugar” o capital necessário para fazer investimentos importantes ou pagar as contas.

Tudo que acabei de descrever poderia ser em Illinois e Indiana, e não na China e nos Estados Unidos. No entanto, as transações internacionais adicionaram uma camada de complexidade ao problema. Diferentes países têm diferentes moedas e diferentes instituições para criá-las e administrá-las. O Fed pode criar dólares americanos, mas não pode fazer muita coisa com os pesos mexicanos. Você compra o seu Toyota em dólares. A Toyota precisa pagar seus operários e executivos japoneses em ienes. É aí que tudo começa a ficar interessante.

O dólar americano é apenas um pedaço de papel, não é respaldado por ouro, arroz, bolas de tênis nem qualquer outra coisa com valor intrínseco. O iene japonês é exatamente a mesma coisa, da mesma forma que o euro, o peso, a rúpia e qualquer outra moeda moderna. Quando indivíduos e empresas começam a fazer negócios atravessando fronteiras nacionais, as moedas precisam ser trocadas de acordo com uma taxa. Se o dólar americano é só um pedaço de papel, e o iene japonês é só um pedaço de papel, então, quanto papel americano deve ser trocado pelo papel japonês?

A taxa em que uma moeda pode ser trocada por outra se chama taxa de câmbio. Temos um ponto de partida lógico para calcular o valor relativo de diferentes moedas. Um iene japonês tem valor porque pode ser usado para adquirir coisas; um dólar tem valor pelo mesmo motivo. Assim, em teoria, deveríamos estar dispostos a trocar US$ 1 pela quantidade de ienes, pesos ou rublos que compra a mesma quantidade de coisas no país em questão. Se um pacote de bens cotidianos custa US$ 25 nos Estados Unidos, e um pacote comparável de bens custa 750 rublos na Rússia, então devemos esperar que US$ 25 valham aproximadamente 750 rublos (e que US$ 1 valha aproximadamente 30 rublos). Essa é a teoria da paridade do poder de compra, ou PPC.

Pela mesma lógica, se o valor do rublo perde 10% de seu poder de compra dentro da Rússia a cada ano, enquanto o dólar americano preserva seu valor, devemos esperar que o rublo perca valor em relação ao dólar americano (ou se deprecie) na mesma taxa. Isso não é matemática avançada; se uma moeda compra menos coisas do que costumava comprar, então qualquer um que negocie essa moeda irá pedir mais quantidade dela para compensar a

diminuição do poder de compra.b

Eu aprendi essa lição uma vez – e do jeito mais difícil. Cheguei à Guangzhou, na China, na primavera de 1989, vindo de trem de Hong Kong. Na época, o governo chinês exigia que os

turistas trocassem dólares por renminbisc pelas ridículas taxas “oficiais”, que não tinham relação nenhuma com o poder de compra das duas moedas. Para fazer um negócio melhor, os mochileiros trocavam dinheiro no mercado negro. Eu tinha lido meu guia de viagem, então, quando cheguei à estação de Guangzhou, sabia mais ou menos qual deveria ser a taxa do dólar no mercado negro, sujeita às habituais barganhas. Achei imediatamente um cambista e fiz logo uma proposta incisiva – que o cambista imediatamente aceitou. Ele nem sequer hesitou, muito menos barganhou.

Acontece que meu guia de viagem era velho; a moeda chinesa vinha perdendo regularmente valor desde a sua publicação. Eu tinha trocado os meus US$ 100 pelo equivalente chinês a US$ 13,50.

A paridade do poder de compra é um conceito útil. É a ferramenta usada pelas agências oficiais para fazer comparações entre países. Por exemplo, quando a CIA ou as Nações Unidas coletam dados sobre a renda per capita em outros países e convertem o valor em dólares, muitas vezes usam o PPC, pois ele apresenta a foto instantânea mais acurada do padrão de vida de uma nação. Se alguém ganha 10 mil dinares jordanianos por ano, de quantos dólares uma pessoa nos Estados Unidos precisaria para conseguir um padrão de vida comparável?

A longo prazo, a lógica econômica básica sugere que as taxas de câmbio devem se alinhar aproximadamente com a paridade do poder de compra. Se US$ 100 podem ser trocados por pesos suficientes para comprar mais coisas no México, quem haveria de querer os US$ 100? Muitos trocariam dólares por pesos que pudessem comprar bens e serviços adicionais no México e viveriam melhor. (Ou, mais provavelmente, empreendedores espertos tirariam proveito da taxa cambial para comprar bens baratos no México e importá-los para os Estados Unidos com lucro.) Em qualquer um dos casos, a demanda de pesos aumentaria em relação aos dólares, e o mesmo aconteceria com seu “preço” – que é a taxa de câmbio. (Os preços dos bens mexicanos também poderiam subir.) Teoricamente, pessoas racionais continuariam a trocar dólares por pesos até que não houvesse mais nenhuma vantagem econômica nisso; nesse ponto, US$ 100 comprariam aproximadamente os mesmos bens e serviços nos Estados Unidos e no México – e este é também o ponto em que a taxa cambial alcançaria a paridade do poder de compra.

E aí está a coisa estranha: as taxas de câmbio oficiais – a taxa usada para efetivamente trocar uma moeda por outra – desviam-se amplamente e por longos intervalos de tempo daquilo que a PPC prediz. Se a paridade do poder de compra faz sentido econômico, por que ela é tão frequentemente um fraco previsor das taxas de câmbio? A resposta reside na distinção crucial entre bens e serviços que são negociáveis, significando que podem ser negociados internacionalmente, e os que não são negociáveis, e que (com toda a lógica) se chamam não negociáveis. Televisores e carros são bens negociáveis; cortes de cabelo e cuidados infantis, não.

Sob essa luz, revisitemos o nosso exemplo peso-dólar. Suponhamos que, pela taxa de câmbio oficial peso-dólar, um televisor Sony custe a metade do preço em Tijuana em relação a San Diego. Um empresário esperto pode trocar dólares por pesos, comprar televisores Sony baratos no México e vendê-los com lucro nos Estados Unidos. Se ele fizesse isso numa escala grande o bastante, o valor do peso subiria (e provavelmente também o preço do televisor no México), movendo a taxa de câmbio oficial na direção do que prediz a PPC. Nosso empresário esperto teria muitadificuldade de fazer a mesma coisa com cortes de cabelo. Ou a remoção de lixo. Ou babás. Ou casas de aluguel. Numa economia moderna, mais de ¾ dos bens e serviços não são negociáveis.

Uma cesta básica de bens – a fonte de comparação para a paridade do poder de compra – contém tanto bens negociáveis quanto não negociáveis. Se a taxa de câmbio oficial torna um determinado bem ou serviço não negociável particularmente barato em algum país (por exemplo, em Mumbai, você pode comprar por US$ 5 uma refeição que custaria US$ 50 em Manhattan), não há nada que um empresário possa fazer para explorar essa diferença de preço – e então ela persiste.

Usando o mesmo exemplo de uma refeição em Mumbai, você deve reconhecer por que a PPC é o mecanismo mais acurado para comparar rendas em diversos países. Pelas taxas de câmbio oficiais, o salário em Mumbai parece muito baixo quando convertido em dólares, mas, como muitos bens e serviços não negociáveis são muito menos caros em Mumbai que nos Estados Unidos, um salário aparentemente baixo pode comprar um padrão de vida bem mais alto que o sugerido pela taxa de câmbio oficial.

Moedas que compram mais que o previsto pela PPC se chamam “supervalorizadas”; moedas que compram menos são “subvalorizadas”. A The Economist criou uma ferramenta brincalhona chamada Índice Big Mac para avaliar as taxas de câmbio oficiais em relação ao que prediria a PPC. O Big Mac do McDonald’s é vendido no mundo inteiro. Ele contém alguns componentes negociáveis (carne e condimentos), e montes de coisas não negociáveis (trabalho local, aluguel, impostos etc.). A The Economist explica:

 

A longo prazo, as taxas cambiais dos países deveriam se mover na direção de taxas que equalizem os preços de uma cesta

idêntica de bens e serviços. Nossa cesta é o Big Mac do McDonald’s, produzido em 120 países. A PPC do Big Mac é a

taxa cambial que faria os hambúrgueres custarem a mesma coisa nos Estados Unidos e em outros lugares. Comparar

esses preços com as taxas reais sinaliza se uma moeda é sub ou supervalorizada.3

 

Em julho de 2009, um Big Mac custava em média US$ 3,57 nos Estados Unidos e 12,5 renminbis na China, sugerindo que US$ 3,57 valiam aproximadamente 12,5 renminbis (e que US$ 1 valia 3,5 renminbis). Mas isso não chegava nem perto da taxa de câmbio oficial. No banco, US$ 1 dólar comprava 6,83 renminbis – tornando o renminbi maciçamente subvalorizado em relação àquilo que a “burguerconomia” devia prever. (E vice-versa, o dólar é supervalorizado na mesma medida.) Não se trata de uma ocorrência esdrúxula. O governo chinês tem promovido políticas econômicas que se apoiam fortemente numa moeda “barata”. Ultimamente, o valor do renminbi em relação ao dólar tem sido uma significativa fonte de tensão entre os Estados Unidos e a China – tópico ao qual voltaremos adiante.

As taxas cambiais se desviam drasticamente daquilo que é previsto pela PPC. Isso leva a duas perguntas adicionais: por quê? E daí?

Vamos lidar primeiro com a segunda pergunta. Imagine que você faça uma reserva em seu hotel favorito em Paris, apenas para descobrir que os quartos custam o dobro do preço cobrado em sua última visita. Quando você vai reclamar com o gerente, ele retruca que há anos as tarifas dos quartos não mudam muito. E ele está dizendo a verdade. O que mudou foi a taxa de câmbio entre o euro e o dólar. O dólar “enfraqueceu” ou se “depreciou” em relação ao euro, significando que cada um de seus dólares compra menos euros que da última vez em que você esteve na França. (O euro, por outro lado, se “valorizou”.) Para você, isso faz com que o hotel fique mais caro. Para alguém que esteja visitando Paris vindo de outras partes da França, o hotel tem o mesmo preço de sempre. Uma mudança nas taxas de câmbio torna os bens estrangeiros mais baratos ou mais caros, dependendo do sentido da mudança.

Esse é o ponto crucial. Se o dólar americano está fraco e pode ser trocado por menos ienes ou euros que o normal, então os bens estrangeiros ficam mais caros. O que vale para o hotel em Paris vale também para as bolsas Gucci e os caminhões Toyota. O preço em euros ou ienes não mudou, mas esse preço custa mais dólares aos americanos, e é isso que importa para eles.

Ao mesmo tempo, um dólar fraco torna os bens americanos mais baratos para o resto do mundo. Suponha que a Ford resolva fixar o preço do Taurus em US$ 25 mil nos Estados Unidos e no equivalente em moeda local (pelas taxas de câmbio oficiais) nos mercados externos. Se o euro ficou mais forte em relação ao dólar e cada euro compra mais dólares do que costumava comprar, então o Taurus sai mais barato para os compradores de carro parisienses – mas a Ford continua a trazer para casa US$ 25 mil. Esse é o melhor dos mundos para os exportadores americanos: preços mais baratos, não lucros menores!

A boa notícia para a Ford não acaba aí. Um dólar fraco torna as importações mais caras para os americanos. Um carro cotado a € 25 mil costumava custar US$ 25 mil nos Estados Unidos; agora custa US$ 31 mil – não porque o preço do carro tenha subido, mas porque o valor do dólar caiu. Em Toledo, o preço anunciado sobe em cada Toyota e Mercedes, deixando os carros da Ford mais baratos, em comparação. A Toyota e a Mercedes podem manter os preços fixos em dólares (evitando o aborrecimento de remarcar cada carro do pátio), mas levam menos ienes e euros para o Japão e a Alemanha. De qualquer modo, a Ford recebe um impulso competitivo.

Em geral, uma moeda fraca é boa para os exportadores e punitiva para os importadores. Em 1992, quando o dólar americano estava relativamente fraco, uma matéria no New York Times começava assim: “O dólar em declínio transformou a economia mais rica do mundo no

saldão dos países industrializados.”4 Um dólar forte tem o efeito oposto. Em 2001, quando o dólar estava forte segundo os padrões históricos, uma manchete do Wall Street Journal proclamava: “Funcionário da G.M. diz que o dólar está forte demais para as empresas americanas.” Quando o iene japonês se valoriza em relação ao dólar em um único iene, quantia minúscula considerando que a taxa de câmbio atual é de US$ 1 para 90 ienes, a receita

operacional anual da Toyota cai cerca de US$ 540 milhões.5

Não há nada de inerentemente bom nem de ruim numa moeda “forte” ou “fraca” em relação às previsões da PPC. Uma moeda subvalorizada promove exportações (e portanto as indústrias que as produzem). Ao mesmo tempo, uma moeda barata aumenta os custos das importações, o que é ruim para os consumidores. (De modo irônico, uma moeda fraca pode também prejudicar exportadores tornando mais caro qualquer insumo importado.) Um governo que deliberadamente mantém sua moeda subvalorizada está taxando os consumidores de importados e subsidiando os exportadores. Uma moeda supervalorizada faz o contrário – torna os importados artificialmente baratos e as exportações menos competitivas no resto do mundo. A manipulação da moeda é como qualquer outro tipo de intervenção governamental: serve a algum propósito econômico construtivo – ou desvia os recursos da economia de seu uso mais eficiente. Você apoiaria um imposto que arrecadasse uma proporção significativa de cada bem importado que você comprasse e utilizasse a receita para emitir cheques para as empresas exportadoras?

Como os governos afetam a força de suas moedas? No fundo, os mercados de moeda são como qualquer outro. A taxa cambial é função da demanda de alguma moeda em relação à oferta. Os fatores mais importantes que afetam a demanda relativa de moedas são forças econômicas globais. Um país com uma economia florescente muitas vezes terá uma moeda valorizada. Um crescimento forte apresenta oportunidades de investimentos que atraem capital do resto do mundo. Para fazer esses investimentos locais (por exemplo, construir uma fábrica na Costa Rica ou comprar ações russas), investidores estrangeiros precisam antes comprar a moeda local. O contrário ocorre quando uma economia está murchando. Os investidores levam seu capital para algum outro lugar, vendendo a moeda local na saída.

Se todo o resto permanecer igual, uma grande demanda de exportações de um país faz com que sua moeda se valorize. Quando os preços do petróleo disparam, por exemplo, os produtores de petróleo do Oriente Médio acumulam enormes quantidades de dólares. (As vendas internacionais de petróleo são efetivadas em dólares.) Quando esses lucros são repatriados para a moeda local, digamos, para a Arábia Saudita, eles fazem com que o rival saudita se valorize em relação ao dólar.

Altas taxas de juros, que podem ser afetadas a curto prazo pelo Federal Reserve, nos Estados Unidos, ou pelo banco central equivalente, em outros países, tornam uma moeda mais valiosa. Se mantivermos todas as outras condições inalteradas, as altas taxas de juros oferecem aos investidores um maior retorno de capital, o que injeta fundos no país. Suponha que a libra britânica possa ser trocada por US$ 1,50, e que o retorno real dos títulos do governo, tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, seja de 3%. Se o governo britânico usar a política monetária de aumentar suas taxas de juros de curto prazo para 4%, os investidores americanos se verão seduzidos para vender letras do Tesouro dos Estados Unidos e comprar papéis britânicos. Para fazê-lo, claro, terão de utilizar o mercado de câmbio exterior, a fim de vender dólares e comprar libras. Se nada mais mudar na economia global (cenário improvável), a crescente demanda por libras britânicas fará a libra se valorizar em relação ao dólar.

Claro que “se nada mais mudar na economia” é um enunciado que nunca se aplica à economia global. Os economistas têm um histórico extremamente negativo na predição de movimentos das taxas de câmbio, em parte porque são muitos os fenômenos globais complexos que afetam os mercados de câmbio exterior ao mesmo tempo. Por exemplo, a economia dos Estados Unidos encontrava-se no chão por causa da recessão global que começou em 2007. Com a economia americana nesse estado, seria de esperar que o dólar se depreciasse em relação a outras moedas globais importantes. Na verdade, as letras do Tesouro americano são um local seguro para estacionar o capital durante um turbilhão econômico. Assim, à medida que se desenrolava a crise financeira, investidores de todo o mundo “fugiram para a segurança” dos títulos americanos, levando o dólar americano a se valorizar, apesar de a economia dos Estados Unidos estar no fundo do poço.

Os países também podem entrar diretamente no mercado de câmbio exterior comprando ou vendendo suas moedas num esforço para mudar seu valor relativo, como tentou fazer o governo britânico enquanto se debatiam formas de evitar a desvalorização de 1992. Dado o tamanho enorme do mercado de câmbio exterior – com literalmente trilhões de dólares em moedas mudando de mãos todos os dias –, a maioria dos governos não tem bolsos suficientemente fundos para fazer grande diferença. Como aprenderam o governo britânico e muitos outros, uma intervenção na moeda pode dar a sensação de se tentar aquecer uma banheira de água fria com uma colher de água quente de cada vez, em particular enquanto os especuladores fazem o contrário. Ao passo que o governo britânico comprava libras, Soros e outros as vendiam – jogando água fria na mesma banheira.

Nós ainda não respondemos a questão básica feita no início do capítulo: quantos ienes deveria valer um dólar? Ou rublos? Ou coroas suecas? Há uma porção de respostas possíveis para essa pergunta, dependendo, em grande parte, do mecanismo da taxa de câmbio que determinado país adote. Uma gama de mecanismos pode ser usada para avaliar uma moeda em relação a outras.

 

O padrão-ouro. O sistema mais simples de se entender é o padrão-ouro. Nenhum país industrializado moderno usa mais o ouro (a não ser em moedas comemorativas, com o preço acima do valor), mas, nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial, o padrão-ouro forneceu um mecanismo simples e direto para coordenar as taxas cambiais. Os países “amarravam” suas moedas a uma quantidade fixa de ouro e portanto, implicitamente, entre si. Esse é como um daqueles problemas escolares de matemática: se uma onça de ouro vale US$ 35 nos Estados Unidos e 350 francos na França, qual a taxa de câmbio entre o dólar e o franco?

Uma vantagem do padrão-ouro é que ele fornece faixas de câmbio previsíveis. E também protege contra a inflação; um governo não pode imprimir dinheiro novo a não ser que tenha reservas de ouro suficientes para respaldar a nova moeda. Nesse sistema, a nota que você possui na carteira tem um valor intrínseco; você pode pegar seus US$ 35 e exigir em troca deles uma onça de ouro. “Padrão-ouro” é um termo que soa bem; no entanto, o sistema provocou uma política monetária catastrófica durante a Grande Depressão e pode prejudicar seriamente a política monetária, mesmo em circunstâncias normais. Quando uma moeda respaldada por ouro fica sob pressão (por exemplo, em decorrência de uma economia enfraquecida), os estrangeiros começam a exigir ouro em lugar de papel. Para defender as reservas de ouro do país, o banco central precisa aumentar as taxas de juros – mesmo que uma economia enfraquecida necessite do oposto. O economista Paul Krugman, ganhador do Prêmio Nobel, em 2008, pelo seu trabalho sobre comércio internacional, explicou recentemente:

 

No começo dos anos 1930, essa mentalidade levou os governos a aumentar as taxas de juros e a cortar gastos, apesar do

desemprego em massa, numa tentativa de defender suas reservas de ouro. Mesmo quando países esgotavam seu ouro, a

mentalidade predominante os fazia relutar em cortar taxas e criar empregos.6

 

Se os Estados Unidos estivessem no padrão-ouro, em 2007, o Fed teria sido impotente para combater a crise. Sob padrão-ouro, um banco central pode sempre desvalorizar a moeda (por exemplo, declarar que uma onça de outro compra mais dólares do que antes), mas, em primeiro lugar, isso bombardeia o propósito de ter um padrão-ouro.

Em 1933, Franklin Roosevelt pôs fim ao direito de indivíduos americanos trocarem dinheiro por ouro, contudo, as nações conservaram esse direito ao estabelecer acordos internacionais. Em 1971, Richard Nixon terminou com isso também. A inflação nos Estados Unidos estava tornando o dólar menos desejável; dada a escolha entre US$ 35 e uma onça de ouro, os governos estrangeiros exigiam cada vez mais o ouro. Após um fim de semana de deliberações em Camp David, Nixon “fechou o guichê do ouro” unilateralmente. Os governos estrangeiros puderam resgatar ouro em lugar de dólares na sexta-feira, mas não na segunda. Desde então, os Estados Unidos (e todas as outras nações industrializadas) têm operado com “Fiat money”, ou moeda fiduciária, forma rebuscada de dizer que esse dinheiro é simplesmente papel.

 

Taxas de câmbio flutuantes. O padrão-ouro fixa as moedas umas em relação às outras; taxas flutuantes lhes permitem ondular de acordo com as condições econômicas, até de minuto em minuto. As economias mais desenvolvidas têm taxas de câmbio flutuantes; as moedas são negociadas nos mercados de câmbio exterior exatamente como numa bolsa de ações ou no eBay. Em qualquer momento determinado, a taxa de câmbio entre o dólar e o iene reflete o preço em que as partes estão dispostas a negociar voluntariamente uma moeda pela outra – exatamente como o preço de mercado de qualquer outra coisa. Quando a Toyota ganha rios de dólares vendendo carros nos Estados Unidos, ela troca esses dólares por ienes com alguma parte que esteja procurando fazer o contrário. (Ou a Toyota pode usar os dólares para pagar operários americanos, fazer investimentos ou comprar insumos nos Estados Unidos.)

Com taxas de câmbio flutuantes, os governos não têm obrigação de manter determinado valor de sua moeda, como ocorre com o padrão-ouro. O inconveniente básico desse sistema é que flutuações de moeda criam uma camada adicional de incerteza para empresas que fazem negócios internacionais. A Ford pode ter lucros imensos na Europa apenas para perder dinheiro nos mercados de câmbio exterior ao tentar trazer os euros de volta para casa. Até aqui, a volatilidade da taxa de câmbio tem se demonstrado um inconveniente das taxas flutuantes, mas esse não é um defeito fatal. As empresas internacionais podem usar os mercados financeiros para restringir seus riscos de câmbio. Por exemplo, uma firma americana fazendo negócios na Europa pode entrar num contrato de futuros cravado em alguma taxa de câmbio euro-dólar numa data futura específica – assim como a Southwest Airlines pode usar o mercado de futuros para proteger-se contra uma inesperada alta no preço dos grãos de café.

 

Taxas de câmbio fixas (ou faixas cambiais). Taxas de câmbio fixas ou prefixadas (atreladas) são como o padrão-ouro, exceto que não há ouro. (Isso pode parecer um problema, e muitas vezes é.) Os países se comprometem a manter suas taxas cambiais numa faixa predeterminada com um grupo de outros países – tais como as nações europeias. As moedas relevantes são negociadas livremente nos mercados, mas cada governo participante concorda em implantar políticas para manter sua moeda dentro da faixa predeterminada. O Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio descrito no começo deste capítulo era um sistema desse tipo.

O problema básico com a prefixação é que os países não podem se comprometer com credibilidade a defender suas moedas. Quando uma moeda começa a parecer fraca, como aconteceu com a libra, os especuladores entram em cena, na esperança de ganhar milhões (ou bilhões), se a moeda for desvalorizada. Claro que quando especuladores (e outros atentos à desvalorização) vendem agressivamente a moeda local – como Soros fez –, então a desvalorização torna-se ainda mais provável.

 

Tomar emprestada a reputação forte de outro. No fim de 1990, a inflação na Argentina era de mais de 1.000% ao ano, o que não surpreendia ninguém, dado o histórico de hiperinflação do país. Será que o peso argentino é uma moeda que você quer possuir? Havia muito o país era a ovelha negra da inflação mundial – o equivalente monetário de um sujeito que lhe dá o cano em três encontros e tenta lhe dizer que da quarta vez será diferente. Não será, e todo mundo sabe. Então, quando a Argentina afinal tomou tento no combate à inflação, o banco central teve de fazer algo radical. Basicamente, ele contratou os Estados Unidos como dama de companhia. Em 1991, a Argentina declarou que abria mão do controle sobre sua própria política monetária. Não haveria mais impressão de dinheiro. Em vez disso, o governo criou um regulamento da moeda com regras estritas para assegurar que daí por diante cada peso argentino valesse US$ 1. Para tornar isso possível (e com credibilidade perante o mundo), o regulamento garantiria que cada peso em circulação seria respaldado por US$ 1 em suas reservas. Assim, o regulamento da moeda autorizava a emissão de pesos novos apenas se houvesse novos dólares em seus cofres para respaldá-los. Além disso, cada peso argentino seria conversível em US$ 1. Na verdade, a Argentina criou um padrão-ouro com o dólar no lugar do ouro.

A coisa funcionou durante algum tempo. A inflação caiu para dois dígitos e depois para um dígito. Isso, porém, teve um custo enorme. Lembra-se de todas aquelas coisas maravilhosas que o presidente do Fed pode fazer para ajustar a economia? O governo argentino não podia fazer nada daquilo; ele havia abdicado do controle sobre a oferta de dinheiro em nome do combate à inflação. O país tampouco tinha qualquer controle independente de sua taxa de câmbio, o peso era fixo em relação ao dólar. Se o dólar estivesse forte, o peso estaria forte. Se o dólar estivesse fraco, o peso estaria fraco.

Essa falta de controle sobre a oferta de dinheiro e a taxa cambial teve um custo exorbitante. No fim da década de 1990, a economia argentina entrou em profunda recessão. As autoridades não tinham as ferramentas usuais para combatê-la. Para piorar as coisas, o dólar americano estava forte, por causa da explosão econômica dos Estados Unidos, deixando o peso argentino forte. Isso punia os exportadores argentinos e prejudicava ainda mais a economia. Em contraste, a moeda brasileira, o real, caíra mais de 50% entre 1999 e o fim de 2001. Para o resto do mundo, o Brasil lançara uma gigantesca liquidação pela metade do preço, e a Argentina nada podia fazer, a não ser ficar parada e contemplar. Enquanto a economia argentina capengava, os economistas debatiam a sensatez do regulamento da moeda. Os proponentes argumentavam que ele era uma fonte importante de estabilidade macroeconômica; os céticos diziam que causaria mais danos que benefícios. Em 1995, Maurice Obstfeld e Kenneth Rogoff, economistas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e de Princeton, respectivamente, publicaram um artigo advertindo que a maioria das tentativas de manter um taxa de câmbio fixa, tais como o regulamento argentino da moeda, estavam

fadados ao fracasso.7

O tempo provou que os céticos tinham razão. Em dezembro de 2001, a sofrida economia argentina desandou por completo. Os protestos de rua ficaram violentos, o presidente renunciou e o governo avisou que não podia mais pagar suas dívidas, produzindo o maior desfalque soberano da história. (Ironicamente, Ken Rogoff, àquela altura, percorrera o caminho da Universidade de Princeton para o Fundo Monetário Internacional, onde, como economista-chefe, teve de lidar com o naufrágio econômico que previra alguns anos antes.) O governo argentino rasgou o regulamento da moeda e pôs fim ao câmbio de um para um entre o peso e o dólar. O peso imediatamente perdeu cerca de 30% de seu valor em relação à moeda americana.

 

Dinheiro de brincadeira. Algumas moedas não têm absolutamente nenhum valor internacional. Em 1986 atravessei o Muro de Berlim para entrar em Berlim Oriental, atrás da Cortina de Ferro. Quando cruzamos para a Alemanha Oriental no “Checkpoint Charlie”, exigiram que trocássemos certa quantia de “moeda dura” (dólares ou marcos da Alemanha Ocidental) por certa quantia de moeda alemã oriental. Como era determinada essa taxa de câmbio? Era um faz de conta. O marco da Alemanha Oriental era uma moeda “volátil”, significando que não era negociado fora do mundo comunista, portanto, não tinha poder de compra em nenhum outro lugar. A taxa de câmbio era mais ou menos arbitrária, embora eu tenha bastante certeza de que o poder de compra do que recebemos era muito menor que o poder de compra do que demos. Na verdade, não tivemos permissão nem para tirar nosso dinheiro alemão oriental do país quando fomos embora. Em vez disso, os guardas de fronteira da Alemanha Oriental pegaram o que nos restava e “puseram numa conta” (foi isso mesmo que disseram) para nossa próxima visita. Em algum lugar da agora Alemanha unificada há uma conta em meu nome com uma pequena quantia de moeda alemã oriental sem valor algum. Então, tenho isso como reserva pessoal.

Moedas voláteis foram um problema mais sério para as empresas americanas com negócios nos países comunistas. Em 1974, a Pepsi fechou um negócio para vender seus produtos na União Soviética. Os comunistas também bebem refrigerante. Mas que diabos a Pepsi ia fazer com milhões de rublos? Em vez disso, a empresa e o governo soviético optaram por uma permuta à moda antiga. A Pepsi trocou seu xarope de refrigerante com o governo

soviético por vodca Stolichnaya, que tinha um valor real no Ocidente.8

Tudo isso soa tão razoável – exceto os tumultos nas ruas da Argentina. Na verdade, o desmoronamento da moeda do tipo da Argentina é muito frequente. Vamos revisitar uma linha de algumas páginas atrás: “Os investidores levam seu capital para outro lugar, vendendo a moeda local na saída.” Só agora vamos dotar essa afirmação de algo mais próximo da realidade: “Os investidores entram em pânico, lamuriando-se e gritando enquanto vendem seus ativos, enterrando a moeda local – o máximo possível, pelo preço que for possível –, na esperança de sair pela porta antes que o mercado desabe totalmente!”

Argentina, México, Rússia, Turquia, Coreia do Sul, Tailândia e o país que deu o nome ao capítulo, Islândia. O que eles têm em comum? Não é a geografia. Não é a cultura. Certamente não é o clima. Todos são países que sofreram crises de moeda. Não há duas crises exatamente iguais. Em geral elas têm um padrão em três partes: (1) o país atrai significativo capital estrangeiro; (2) alguma coisa ruim acontece; um governo toma empréstimos demais e fica à beira da moratória; uma bolha imobiliária explode; o país com taxas de juros prefixadas enfrenta uma desvalorização; o sistema bancário é exposto, repleto de maus empréstimos – ou alguma combinação de todas essas coisas; (3) investidores estrangeiros tentam mudar seu capital para outro lugar – preferivelmente antes dos outros. Os preços dos ativos caem (com os estrangeiros vendendo) e a moeda afunda. Essas duas coisas pioram ainda mais os problemas econômicos, o que faz com que os preços e a moeda afundem ainda mais. O país pede ao resto do mundo que o ajude a cessar a espiral econômica descendente.

Para se ter ideia de como essa peça se desenrola, vamos dar uma olhada na vítima mais recente: a Islândia, que não é um país pobre, em desenvolvimento. Na verdade, a Islândia estava no topo da lista do Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas em 2008. Eis os três atos da Islândia, da melhor forma que eu posso resumi-los.

 

Ato I. Na primeira década do século XXI, a moeda da Islândia, a coroa islandesa, era extremamente forte, e as taxas de juros reais eram elevadas, segundo os padrões globais. Os bancos da Islândia, quase não regulados, atraíam capital do mundo inteiro, os investidores buscavam altos retornos reais. No auge, os bancos islandeses tinham ativos dez vezes maiores que o PIB inteiro do país. Eles usavam essa enorme represa de capital para fazer os investimentos que pareciam mais inteligentes em 2006. Ao mesmo tempo, as altas taxas de juros domésticos induziam os islandeses a tomar empréstimos em outras moedas, mesmo para fazer compras relativamente pequenas. Um economista da Universidade da Islândia disse ao programa Money, da CNN: “Quando você comprava um carro, perguntavam-lhe: ‘Como você

quer o financiamento? Metade em ienes e metade em euros?’”9

 

Ato II. A crise financeira global foi ruim para o mundo e desastrosa para a Islândia. Os bancos islandeses sofreram gigantescas perdas por maus investimentos e empréstimos não quitados. No outono de 2008, os três principais bancos do país tinham falido. O banco central, que assumira o controle dos maiores bancos privados, também estava tecnicamente insolvente. O New York Times estampou uma reportagem em novembro de 2008 que começava assim: “As pessoas vão à falência o tempo todo. Empresas também. Mas e os países?”

Com a coroa islandesa afundando, o custo de todos aqueles empréstimos em moeda estrangeira ao consumidor subiu às alturas. Pense no seguinte: se você toma um empréstimo em euros, e a coroa perde metade do valor em relação ao euro, o pagamento mensal de seu empréstimo em coroas dobra. Claro que, ao mesmo tempo, muitos dos bens que os islandeses tinham adquirido com esses empréstimos, como casas e imóveis, desvalorizavam rapidamente.

 

Ato III. A coroa islandesa perdeu metade de seu valor. O mercado de ações caiu 90%; o PIB caiu 10%; o desemprego atingiu o pico, depois de quarenta anos. As pessoas estavam furiosas – como na Argentina. Uma mulher contou a The Economist: “Se eu encontrasse um banqueiro, lhe daria um chute na bunda tão forte que meu sapato ficaria preso.” E era uma professora da

pré-escola.10

Mesmo o Índice Big Mac teve um triste epílogo na Islândia. Em outubro de 2009, os três restaurantes McDonald’s do país fecharam após se tornarem vítimas da crise financeira. O McDonald’s exigia que suas franquias islandesas comprassem insumos alimentícios e embalagens na Alemanha. Como o valor da coroa em relação ao euro desabou, e como o governo impusera altas tarifas de importação, o custo desses insumos praticamente dobrou. O dono das franquias islandesas disse que, para ter um “lucro decente”, um Big Mac teria de ser vendido a mais de US$ 6 – preço mais alto que em qualquer outro lugar do mundo e inacessível para um país em meio a recessão profunda. Em vez disso, o McDonald’s fechou

suas portas na Islândia.11

 

O NAUFRÁGIO ECONÔMICO que resulta das repetidas e repetidas vezes que os investidores fogem de um país sugere uma saída óbvia: talvez devesse ser mais difícil fugir. Alguns países experimentaram controles de capital que impunham vários limites sobre o livre fluxo de capital. Como muitas saídas óbvias, essa tem menos problemas evidentes. Se investidores estrangeiros não podem deixar o país com seu capital, é menos provável que apareçam para investir. Isso é como tentar melhorar a receita de uma loja de departamentos impedindo a devolução de produtos. Um grupo de economistas estudou 52 países pobres entre 1980 e 2001 para examinar a relação entre liberalização financeira (facilitar a entrada e saída de capital do país) e desempenho econômico. Existe um custo: países que impõem algum tipo de controle sobre o capital também crescem mais devagar. A The Economist resumiu os achados do estudo: “Uma crise ocasional pode ter um preço que valha a pena pagar por um crescimento

mais rápido.”12

Tudo bem, e se todos nós tivéssemos a mesma moeda? Isso não ajudaria a evitar dores de cabeça relacionadas ao câmbio? Afinal, Iowa nunca teve um colapso financeiro pelo fato de os investidores de Illinois levarem seu capital de volta para o outro lado do rio Mississippi. Há benefícios em ampliar a zona de atuação da moeda. Essa foi a lógica do euro, que substituiu a maioria das moedas individuais na Europa. Uma moeda única por toda a Europa (e nos cinquenta estados americanos) reduz custos de transações e promove transparência de preços (o que significa que é mais fácil identificar e explorar discrepâncias quando o preço dos bens é fixado na mesma moeda). Mas também aqui há um tipo de custo: lembre-se, a política monetária é o instrumento básico que qualquer governo possui para controlar a “velocidade” da economia. Um banco central aumenta ou diminui taxas de juros tornando sua moeda mais ou menos escassa. Países que compartilham uma moeda com outros, como os países europeus que adotaram o euro, precisam abrir mão do controle sobre sua própria política monetária. O Banco Central Europeu (BCE) agora controla a política monetária para toda a zona do euro. (Obviamente Louisiana e Califórnia tampouco têm sua própria política monetária.) Isso pode ser um problema se uma parte da zona da moeda está no buraco econômico, beneficiando-se de taxas de juros mais baixas, enquanto outra região cresce depressa e precisa aumentar as taxas de juros para evitar a inflação.

Na verdade, nós não nos importamos com as moedas em si. O que realmente nos importa é o fluxo subjacente de bens e serviços. Esses negócios através de fronteiras internacionais são o que melhoram nossa vida. As moedas são um mero instrumento para facilitar transações mutuamente benéficas. A longo prazo, seria de esperar que o valor dos bens e serviços que mandamos para outros países sejam mais ou menos iguais ao valor que eles mandam para nós. Se não, alguém está fazendo um péssimo negócio. Mesmo crianças pequenas que trocam o lanche na hora da merenda reconhecem que aquilo que você dá deve valer o que você recebe de volta.

Exceto para os Estados Unidos. Nós somos aqueles caras que dão sanduíches de patê de fígado e ganham um sanduíche de peito de peru, mais chips, biscoitinhos, suco e salgadinhos. Os Estados Unidos vêm administrando grandes e persistentes déficits de conta corrente com o resto do mundo, o que significa que ano após ano estamos recebendo mais bens e serviços do resto do mundo do que vendemos a eles. (A conta corrente mede a receita obtida no estrangeiro com comércio de bens e serviços, mais algumas outras fontes de renda no exterior, como dividendos e juros em investimentos no estrangeiro, bem como remessas enviadas para casa por americanos trabalhando fora.) Com vamos nos safar disso? Esse pode vir a ser um problema a longo prazo? A resposta à segunda pergunta é sim. A primeira é mais complicada.

Conforme foi comentado no Capítulo 9, não há nada de inerentemente ruim num déficit de conta corrente, nem nada de inerentemente bom num superávit de conta corrente. Países como a Argélia e a Guiné Equatorial tinham superávits em conta corrente em 2007, mas isso não os tornava potências econômicas. Ainda assim, existe aqui uma inevitável realidade econômica à espreita: um país com um déficit em conta corrente recebe menos receita do resto do mundo do que paga. Consideremos um exemplo simples: se compramos US$ 100 milhões em carros do Japão e lhe vendemos US$ 50 milhões em aviões, então temos um déficit de conta corrente de US$ 50 milhões. Os japoneses não vão nos mandar um excedente de US$ 50 milhões em mercadorias só porque somos bacanas e bonzinhos; eles esperam que a gente cubra a diferença. Para isso, só temos um par de opções. Uma delas é vender ativos – ações, títulos, imóveis, e assim por diante – aos nossos parceiros comerciais japoneses.

Por exemplo, poderíamos vender a firmas japonesas US$ 25 milhões em imóveis em Manhattan e US$ 25 milhões em ações de firmas americanas. Agora a contabilidade faz sentido. Os americanos recebem US$ 100 milhões em bens e serviços do Japão; em troca, mandamos US$ 50 milhões em bens (aviões) e outros US$ 50 milhões em ativos. Esse é um negócio equilibrado. No entanto, ele tem um preço; os ativos que estamos dando (imóveis e ações) gerariam para nós um rendimento no futuro (aluguéis e dividendos). Agora essa receita irá para o nosso parceiro comercial. Estamos comprando carros e abrindo mão de rendimentos futuros.

Essa não é nossa única opção. Podemos comprar mercadorias a crédito. Podemos pedir a alguma parte com disposição na comunidade financeira global que nos empreste US$ 50 milhões. Nesse caso, nós “pagamos” nossos US$ 100 milhões em carros japoneses com US$ 50 milhões em aviões e US$ 50 milhões em capital emprestado. Isso também tem óbvios custos futuros. Devemos devolver os empréstimos com juros. Mais uma vez, estamos pagando pelo consumo atual tomando emprestado contra o futuro – literalmente, nesse caso.

Por que os Estados Unidos estão tendo déficits crônicos em conta corrente? Isso não tem quase nada a ver com a qualidade de nossos bens e serviços ou com a competitividade de nossa mão de obra, como diria a sabedoria convencional. (Em referência ao meu caso anterior, você acha que a Argélia e a Guiné Equatorial têm superávits de conta corrente porque produzem coisas melhores e com trabalhadores mais produtivos?) Os Estados Unidos têm déficits crônicos de conta corrente porque, ano após ano, consumimos mais que produzimos. Em outras palavras, estamos fazendo o contrário de poupar (quando se produz mais do que se consome e guarda-se o resto). Como país, estamos literalmente fazendo o que os economistas chamam de “despoupar”.

A ligação entre o equilíbrio da conta corrente e o índice de poupança de uma nação é crucial. Qualquer país que esteja consumindo mais que produz deve, por definição, estar com um déficit de conta corrente porque (1) as coisas que estão sendo consumidas além do que é produzido precisam vir de algum outro lugar do mundo; e (2) porque não se podem negociar bens e serviços pela mercadoria extra que se recebe do resto do mundo, já que tudo que o país produziu foi consumido.

Como de hábito, uma analogia agrícola pode ajudar. Suponha que um agricultor dos Estados Unidos cultive milho. Ele é um agricultor altamente produtivo, simpático e inteligente, que usa apenas as técnicas de cultivo mais modernas. (Esses detalhes são irrelevantes aqui, assim como são quando se diz se uma economia nacional tem um déficit ou superávit em conta corrente.) Há somente quatro coisas genéricas que o agricultor dos Estados Unidos pode fazer com aquilo que cultiva: pode comer seu produto (consumo); pode plantá-lo para a safra do próximo ano (investimento); pode mandá-lo para o governo a fim de pagar por serviços (gastos governamentais); ou pode negociá-lo por outros produtos (exportações trocadas por importações). É isso aí. Agora, vamos imaginar que o ano do agricultor americano tenha o seguinte aspecto.

Ele cultiva 100 alqueires de milho. Come 70 alqueires. Manda 30 para o governo. Precisa de 20 para plantar no ano seguinte. Se você fizer o cálculo, verá que o agricultor dos Estados Unidos está usando 120 alqueires por ano, mas cultivando apenas cem. Ele deve ser um tomador de empréstimo de milho – 20 alqueires, nesse caso. Isso é equivalente a um déficit de conta corrente, e depende só de matemática – se ele usa mais milho do que cultiva, o resto tem de vir de algum lugar.

O agricultor da China trabalha no sentido inverso. Cultiva apenas 65 alqueires de milho porque é novo no ramo e usa métodos relativamente primitivos. Consome 20 alqueires, manda 10 para o governo e separa 15 para plantar no ano seguinte. Mais uma vez, um cálculo rápido sugere que o agricultor da China não está usando tudo que cultiva. Ele tem 20 alqueires a mais. Como recomenda a conveniência, esses alqueires podem ser negociados com o agricultor dos Estados Unidos, que está precisando deles. Claro que o agricultor dos Estados Unidos não tem safras para negociar, então oferece, em vez disso, uma carta formal de dívida. O agricultor da China dá o milho ao agricultor dos Estados Unidos (uma “exportação”) – e lhe empresta o dinheiro para comprá-lo.

Agora vamos saltar da analogia agrícola para a realidade. Até agora, os Estados Unidos devem à China cerca de US$ 1 trilhão.

Normalmente esse tipo de desequilíbrio global tem mecanismos autocorretivos. A moeda de um país com um grande déficit em conta corrente em geral começa a se depreciar. Vamos admitir que a Nova Zelândia esteja tendo um déficit de conta corrente. O resto do mundo está acumulando regularmente dólares da Nova Zelândia porque está vendendo mais bens ao país que comprando dele; empresas estrangeiras vão querer trocar dólares neozelandeses acumulados pela sua moeda doméstica. No mercado de câmbio externo, a oferta de dólares neozelandeses à venda excederá a demanda, forçando o valor dessa moeda para baixo em relação às moedas de seus parceiros comerciais. O dólar neozelandês em queda ajuda a corrigir o desequilíbrio na balança comercial, tornando as exportações da Nova Zelândia mais competitivas e as importações mais caras. Por exemplo, se o dólar neozelandês se desvalorizar em relação ao iene, os carros Toyota ficam mais caros na Nova Zelândia, enquanto os produtos agrícolas do país (kiwis?) parecem mais baratos no Japão. Entrementes, a mesma coisa acontece com outros países; a Nova Zelândia começará a importar menos e a exportar mais, estreitando o déficit de conta corrente.

A atual situação envolvendo a China e os Estados Unidos é diferente. Os dois países estão indiscutivelmente imbricados numa relação simbiótica insalubre, com potencial de se desgrudar a qualquer momento. A China criou uma estratégia de desenvolvimento muito bem-sucedida, construída sobre “crescimento puxado pela exportação”, o que significa que o grosso do crescimento de empregos e da prosperidade tem sido gerado por empresas que fabricam produtos para exportação. Muitas dessas exportações vêm para os Estados Unidos.

A estratégia de desenvolvimento chinesa orientada para a exportação depende de manter o renminbi relativamente barato. Para conseguir isso, o governo chinês recicla dólares acumulados, basicamente, em letras do Tesouro americano, que são empréstimos para o governo federal dos Estados Unidos. Ambas as partes obtêm o que querem (ou necessitam), pelo menos a curto prazo. O governo chinês tem usado as exportações para gerar empregos e crescimento. Os Estados Unidos têm financiado suas “despoupanças” com enormes empréstimos da China. A situação não é muito diferente da do agricultor da China e do agricultor dos Estados Unidos: este último obtém empréstimos da China para comprar suas exportações.

A longo prazo, a situação apresenta sério risco para ambas as partes. Os Estados Unidos tornaram-se uma nação altamente devedora, e devedores estão sempre vulneráveis aos caprichos e exigências de seus credores. Os Estados Unidos têm o hábito de tomar empréstimos; a China o alimenta. James Fallows comentou: “Sem o bilhão de dólares diário da China, os Estados Unidos não poderiam manter sua economia estável nem poupar o dólar

do colapso.”13 Pior, a China poderia ameaçar despejar sua enorme carga de ativos em dólar. Seria uma coisa ruinosa. Conforme ressalta Fallows: “Seus anos de poupança nacional são mantidos nos mesmos dólares que seriam arruinados; num pânico, receberiam apenas uma pequena parcela, antes de o valor cair.” Ainda assim, essa é uma arma terrivelmente poderosa para dar a uma nação de quem discordamos.

Para os chineses, a coisa é pior. Suponhamos que o fardo da dívida dos Estados Unidos crescesse além do que os contribuintes americanos tivessem capacidade de (ou estivessem dispostos a) devolver. O governo dos Estados Unidos poderia dar um calote recusando-se a honrar suas dívidas. Isso é altamente improvável, sobretudo porque há outra opção irresponsável mais sutil: os Estados Unidos poderiam “inflacionar até fazer sumir” grande parte de sua dívida com a China (e outros credores) imprimindo dinheiro. Se imprimimos dólares com imprudência, a moeda perde valor – e o mesmo ocorre com nossas dívidas em dólar. Se a inflação chegar a 20%, então o valor real do que precisamos devolver cairá em 20%. Se a inflação chegar a 50%, então metade de nossa dívida com a China sumirá. Trata-se de uma saída provável? Não. Mas se alguém me devesse US$ 1 trilhão e também tivesse autoridade de imprimi-los, eu passaria um bocado de tempo preocupado com a inflação.

Essa relação econômica disfuncional vai acabar. As perguntas cruciais são “quando, por quê e como?”. James Fallows resumiu onde estamos agora: “Com efeito, toda pessoa nos (ricos) Estados Unidos tomou emprestado nos últimos dez anos, ou algo assim, cerca de US$ 4 mil de alguém na (pobre) República Popular da China. Como tantos desequilíbrios em economia, esse não pode continuar indefinidamente, e portanto não continuará. Mas a forma como irá terminar – de repente versus aos poucos, por razões previsíveis versus durante um pânico – fará uma enorme diferença para as economias chinesa e americana nos próximos

anos, para não mencionar os espectadores da Europa e de outros lugares.”14

 

DADOS OS RISCOS envolvidos, será que há algum adulto supervisionando tudo isso? Sim, mas os controladores estão ficando velhos demais. Nos dias finais da Segunda Guerra Mundial, representantes das nações aliadas reuniram-se no Mt. Washington Hotel, em Bretton Woods, New Hampshire. (É um lugar delicioso tanto no verão quanto no inverno, se você está procurando uma porta de entrada para a Nova Inglaterra.) A missão deles era criar uma infraestrutura financeira estável para o mundo pós-guerra. Eles criaram duas instituições internacionais, ou “as duas irmãs”.

A instituição no centro do combate global contra a pobreza é o Banco Mundial, sediado em Washington. (Os primeiros US$ 250 milhões de empréstimo foram para a França, em 1947, para a reconstrução pós-guerra.) O Banco Mundial, que é de propriedade dos seus 183 países-membros, levanta capital de seus membros e toma empréstimos nos mercados de capital. Esses fundos são emprestados para países em desenvolvimento, para projetos destinados a promover o desenvolvimento econômico. O Banco Mundial está no centro de muitas questões internacionais de desenvolvimento abordadas no Capítulo 13.

Se o Banco Mundial é a agência de bem-estar social do mundo, sua organização irmã, o Fundo Monetário Internacional, é o corpo de bombeiros responsável por extinguir crises financeiras internacionais. A Islândia chamou o FMI. A Argentina também, assim como o México e todos os demais. O FMI foi concebido em Bretton Woods como uma instituição de cooperação global. Os membros pagam fundos ao FMI; em troca, podem tomar empréstimos em períodos de dificuldade, “sob a condição de efetuar reformas econômicas a fim de eliminar essas dificuldades para seu próprio bem e de todos os outros membros”. Nenhum país jamais é obrigado a aceitar empréstimos ou conselhos do FMI ou do Banco Mundial. Ambas as organizações derivam seu poder dos estímulos que detêm.

Poucas instituições têm atraído tantas críticas quanto o Banco Mundial e o FMI, vindas de uma faixa ampla do espectro político. A The Economist uma vez comentou: “Se os países em desenvolvimento tivessem US$ 1 para cada proposta de mudar a ‘arquitetura financeira

internacional’, o problema da miséria no Terceiro Mundo estaria resolvido.”15 Os conservadores acusam o Banco Mundial e o FMI de serem organizações burocráticas que desperdiçam dinheiro em projetos que têm fracassado em tirar os países da pobreza. Argumentam também que, para começar, os socorros financeiros do FMI aumentam a probabilidade de crises; investidores fazem empréstimos internacionais imprudentes porque acreditam que o FMI virá salvar um país quando ele estiver em apuros. Em 2000, o Congresso de maioria republicana dos Estados Unidos reuniu uma comissão que recomendou encolher e

inspecionar tanto o Banco Mundial quanto o Fundo Monetário Internacional.16

Na outra ponta do espectro político, a coalizão antiglobalização acusa o Banco Mundial e o FMI de agirem como lacaios capitalistas, forçando a globalização ao mundo em desenvolvimento e deixando os países pobres atrelados a largas dívidas nesse processo. As reuniões das organizações tornaram-se ocasião para protestos violentos. Quando as duas instituições fizeram suas reuniões de outono, em Praga, no ano 2000, tanto o Kentucky Fried Chicken (KFC) quanto a Pizza Hut encomendaram vidraças de reserva com antecedência.

 

À MEDIDA QUE SE DESENROLAVA a recessão de 2007, os Estados Unidos criticaram diversas nações europeias por não fazerem nada além de estimular suas economias. A crítica específica é discutível, mas ainda assim mostra um ponto crucial. Para que a economia americana se recuperasse, as economias europeias também precisavam se recuperar. E mais o Japão, a China e todas as economias importantes. Nações não são competidoras no sentido tradicional do termo. Afinal, os Red Sox jamais se queixariam de que os Yankees não estavam fazendo o bastante na pré-temporada para melhorar o time. O beisebol é um jogo de soma zero. Só um time pode ganhar o campeonato. A economia internacional é o oposto. Todos os países podem ficar mais ricos com o tempo, embora as empresas individuais concorram por lucros e recursos, dentro desses países. O PIB global tem crescido constantemente ao longo dos séculos. Somos coletivamente mais ricos que em 1500. Quem ficou mais pobre para possibilitar tudo isso? Ninguém. A meta da política econômica global deve ser facilitar a cooperação mútua entre os países. Quanto melhor fizermos isso, mais ricos e mais seguros nós estaremos.

 

a Soros tomou emprestada uma enorme quantia em libras britânicas e imediatamente as negociou em troca de moedas mais fortes, como o marco alemão. Quando os britânicos acabaram se retirando do MTC e desvalorizaram a libra, ele trocou seus bens em moeda por mais libras do que originalmente tomara emprestado, pagou os empréstimos e ficou com a diferença. Os números tornam tudo isso ainda mais intuitivo. Suponha que Soros tenha tomado um empréstimo de £ 10 bilhões, trocando-as imediatamente por 10 bilhões de marcos alemães. (As taxas de câmbio e as quantias são inventadas para facilitar os cálculos.) Quando a libra foi desvalorizada, seu valor caiu em mais de 10%, de modo que os 10 bilhões de marcos alemães comprariam £ 11 bilhões. Soros trocou seus 10 bilhões de marcos por £ 11 bilhões. Devolveu seu empréstimo de £ 10 bilhões e guardou a diferença líquida para si (ou, mais precisamente, para seus fundos de investimento). Soros suplementou seus ganhos em moedas com apostas paralelas relacionadas à maneira como a desvalorização viria a afetar as ações e os títulos europeus.

b Os economistas fazem uma distinção entre a taxa de câmbio nominal, que é a taxa oficial em que uma moeda pode ser trocada por outra (os números afixados no quadro de câmbio da moeda), e a taxa de câmbio real, que leva em conta a inflação em ambos os países, e é portanto um indicador melhor das mudanças no poder de compra de uma moeda em relação à outra. Por exemplo, admitamos que o dólar americano possa ser trocado em seu banco local por 10 pesos. Além disso, admitamos que (1) a inflação seja zero nos Estados Unidos e de 10% ao ano no México; e (2) um ano depois seu banco local trocará US$ 1 por 11 pesos. Em termos nominais, o dólar americano valorizou 10% em relação ao peso (cada dólar compra 10% a mais de pesos). Mas a taxa de câmbio real não mudou em nada. No seu guichê de câmbio você pegará 10% a mais em pesos do que pegou no ano passado, mas, por causa da inflação no decorrer do ano, cada peso agora compra 10% menos do que antes. Como resultado, o poder de compra total dos pesos que você obtém do caixa no banco este ano pelos seus US$ 100 é exatamente o mesmo que o poder de compra dos (menos) pesos que você obteve pelos seus US$ 100 no ano passado. Qualquer referência a taxas de câmbio nas estimativas deste capítulo diz respeito às taxas de câmbio reais.

c A moeda chinesa é o renminbi, mas também usa-se o termo mais conhecido, yuan chinês. (N.T.)