Economia nua e crua

Charles Wheelan · Capítulo 7 de 18

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Economia nua e crua

6. Produtividade e capital humano: Por que Bill Gates é tão mais rico que você?

6. Produtividade e capital humano

 

Por que Bill Gates é tão mais rico que você?

 

COMO MUITA GENTE, Bill Gates achou sua casa um pouco apertada quando teve filhos. O magnata do software mudou-se para uma mansão de US$ 100 milhões em 1997; não muito depois, precisou dar umas incrementadas no imóvel. A casa de 3.700 metros quadrados tem um teatro de vinte lugares, um salão para recepções, estacionamento para 28 carros, uma cama elástica interna e todo tipo de equipamento computadorizado, como telefones que só tocam

quando há alguém por perto. Mas a casa ainda não era grande o bastante.1 Segundo documentos arquivados na região administrativa de Medina, em Washington, o sr. Gates e sua esposa construíram mais um dormitório e algumas áreas de lazer e estudo para os filhos.

Há muita coisa a inferir dos acréscimos feitos pelo sr. Gates à sua residência, mas uma delas é bastante óbvia: é bom ser Bill Gates. O mundo é um parque de diversões fascinante quando se tem US$ 50 bilhões ou algo assim. Também é possível ponderar sobre algumas questões mais amplas: por que algumas pessoas têm camas elásticas dentro de casa e jatos particulares, enquanto outras dormem nos banheiros das estações rodoviárias? Como é possível que aproximadamente 13% dos americanos sejam pobres, o que é uma melhora em relação ao pico recente de 15%, em 1993, mas não significativamente menor que a mesma fração durante qualquer ano da década de 1970? Ao mesmo tempo, uma em cada cinco crianças americanas – e chocantes 35% das crianças negras – vive na miséria. Claro que os Estados Unidos são o garoto riquinho do bairro. Mas, no alvorecer do terceiro milênio, vastas fatias da população mundial – cerca de 3 bilhões de pessoas – são desesperadamente pobres.

Os economistas estudam a pobreza e a desigualdade de renda. Buscam compreender quem é pobre, por que é pobre e o que pode ser feito em relação a isso. Qualquer debate acerca de por que Bill Gates é tão mais rico que os homens e mulheres que dormem em túneis e galerias deve começar com um conceito ao qual os economistas deram o nome de capital humano. Capital humano é a soma total de todas as aptidões incorporadas numa pessoa: educação, inteligência, carisma, criatividade, experiência de trabalho, energia empreendedora e até a habilidade de arremessar uma bola de beisebol com rapidez. Isso é o que iria lhe restar se você fosse despojado de todos os seus bens – emprego, dinheiro, casa, posses – e deixado numa esquina apenas com as roupas do corpo. Como Bill Gates se sairia numa situação dessas? Muito bem. Mesmo que sua riqueza fosse confiscada, outras empresas o contratariam como consultor, membro de diretoria, presidente, agente motivacional. (Quando Steve Jobs foi demitido da Apple, a empresa que havia pessoalmente criado, ele deu a volta por cima e fundou a Pixar; só depois a Apple o convidou a voltar.) Como se sairia Tiger Woods? Bastante bem. Se alguém lhe emprestasse tacos de golfe, ele poderia vencer um torneio no primeiro fim de semana.

Como se sairia Bubba, que largou a escola na décima série e é viciado em metanfetamina? Não tão bem. A diferença é o capital humano, algo de que Bubba não dispõe. (Ironicamente, alguns indivíduos ricos, como o sultão de Brunei, também não se sairiam muito bem nesse exercício; o sultão é rico porque seu reino está assentado sobre uma enorme reserva de petróleo.) O mercado de trabalho não é diferente do mercado de qualquer outra coisa; alguns tipos de talento são mais procurados que outros. Quanto mais especial for o conjunto de aptidões, mais bem-remunerado será seu dono. Alex Rodriguez vai ganhar US$ 275 milhões em dez anos, jogando beisebol para os New York Yankees, porque é capaz de acertar uma bola e mandá-la para o ar a mais de 130 quilômetros por hora com mais força e frequência

que outros jogadores. “A-Rod”a vai ajudar os Yankees a ganhar jogos, o que encherá estádios, venderá mercadorias e renderá direitos de televisionamento. Em tese, ninguém no planeta é capaz de fazer isso tão bem quanto ele.

Com respeito a outros aspectos da economia de mercado, o preço de certas habilidades não tem nenhuma relação inerente com seu valor social, só com sua escassez. Certa vez entrevistei Robert Solow, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1987 e notório entusiasta do beisebol. Perguntei-lhe se ficava incomodado por ganhar menos dinheiro com o Prêmio Nobel do que Roger Clemens, na época arremessador dos Red Sox, recebia em uma única temporada. “Não”, disse Solow. “Há uma porção de bons economistas, mas há apenas um Roger Clemens.” É assim que os economistas pensam.

Quem é rico nos Estados Unidos, ou pelo menos quem tem uma vida confortável? Programadores de software, cirurgiões plásticos especializados em mãos, engenheiros nucleares, escritores, contadores, banqueiros, professores. Às vezes esses indivíduos possuem talento natural; com mais frequência adquirem suas habilidades mediante educação e treinamento especializado. Em outras palavras, fizeram investimentos significativos em capital humano. Como qualquer outro tipo de investimento – desde construir uma fábrica até comprar uma letra de câmbio –, o dinheiro investido hoje em capital humano trará retorno no futuro. E um retorno muito bom. Estima-se que a educação superior represente um retorno de 10% sobre o investimento, e isso hoje significa que, se você aplica o dinheiro para estudar na faculdade, pode esperar receber o montante de volta e mais 10% ao ano em ganhos profissionais. Pouca gente em Wall Street faz investimentos melhores que esse, normalmente.

Capital humano é um passaporte econômico – literalmente, em alguns casos. Quando eu estava no curso de graduação, no final da década de 1980, conheci um jovem palestino chamado Gamal Abouali. A família de Abouali, que vivia no Kuwait, insistia para que o filho terminasse os estudos de graduação em três anos, em vez de quatro. Isso exigia ter aulas adicionais ao longo do ano e frequentar a escola todo verão, o que na época me pareceu algo muito radical. E os estágios, os estudos estrangeiros ou aqueles dias esquiando no Colorado? Uma vez almocei com o pai de Gamal, e ele explicou que a vida palestina é itinerante e precária. O sr. Abouali era contador, profissão que podia exercer até no fim do mundo – porque, explicou ele, era lá que podia acabar. A família tinha morado no Canadá antes de se mudar para o Kuwait, e podia estar em algum outro canto em cinco anos, ele completou.

Gamal estava estudando engenharia, qualificação também universal. Quanto mais cedo tirasse o diploma, insistia seu pai, mais seguro estaria. Não só o diploma lhe permitiria ganhar a vida, mas também lhe possibilitaria encontrar uma casa. Em alguns países desenvolvidos, o direito de imigração se baseia em aptidões e educação – em capital humano.

Os pensamentos do sr. Abouali foram prescientes. Depois que Saddam Hussein retirou-se do Kuwait em 1990, a maioria da população palestina, inclusive a família de Gamal, foi expulsa, porque o governo do país achou que os palestinos tinham sido simpáticos à agressão iraquiana. A filha do sr. Abouali lhe deu um exemplar da primeira edição deste livro. Ao ler os parágrafos anteriores, ele exclamou: “Está vendo, eu tinha razão!”

 

NA OUTRA PONTA do espectro de trabalho vale o contrário. As aptidões necessárias para perguntar “Você gostaria de uma porção de fritas como acompanhamento?” não são escassas. Há provavelmente 150 milhões de pessoas nos Estados Unidos capazes de vender refeições no McDonald’s. Restaurantes do tipo fast-food só precisam pagar um salário suficiente para alocar corpos vivos atrás de suas caixas registradoras. Isso pode significar US$ 7,25 por hora quando a economia está devagar, ou US$ 11 por hora quando a oferta de mão de obra se retrai; jamais será US$ 500 por hora, o tipo de remuneração que um advogado de primeira linha pode exigir. Advogados excelentes são escassos; atendentes que servem hambúrguer existem em quantidade. A maneira mais perspicaz de pensar sobre a pobreza neste país ou em qualquer outra parte do mundo é relacioná-la com a baixa preparação do material humano. É verdade, as pessoas são pobres nos Estados Unidos porque não conseguem achar bons empregos. Mas isso é um sintoma, não a doença em si. O problema subjacente é a falta de qualificação, ou de capital humano. A taxa de pobreza entre as pessoas que largam a escola é doze vezes maior que entre graduados. Por que a Índia é um dos países mais pobres do mundo? Basicamente, porque 35% da população é analfabeta (a taxa estava em 50% no começo da década de

1990).2 As pessoas podem viver em condições que tornam seu capital humano menos utilizável. Uma alta proporção da população sem-teto americana abusa de drogas, sofre de incapacidade ou doença mental.

Uma economia saudável também tem sua importância. Era mais fácil achar um emprego em 2001 que em 1975 ou 1932. Uma maré que enche, é verdade, ergue todos os barcos; o crescimento econômico é algo ótimo para os pobres. Ponto. Contudo, mesmo na maré alta, trabalhadores de pouca capacitação precisam se apegar a tábuas de salvação, enquanto seus colegas mais capacitados tomam coquetéis em iates. Uma economia robusta não transforma manobristas de estacionamento em professores universitários. Investimentos em capital humano fazem isso. Fatores macroeconômicos controlam as marés; o capital humano determina o tamanho do barco. Inversamente, a má economia é mais devastadora para os trabalhadores que ficam na parte rasa do lago, o mercado de trabalho.

Considere esse experimento mental. Imagine se, numa segunda-feira de manhã, soltássemos 100 mil pessoas sem escolaridade na esquina da State Street com a Madison Street, em Chicago. Isso seria uma calamidade social. Os serviços governamentais iriam ser demandados em sua capacidade máxima, ou até além dela. O crime aumentaria. Os empreendimentos evitariam se instalar no centro da cidade. Políticos pleiteariam ajuda do governo federal. Ou vocês nos dão dinheiro suficiente para sustentar essa gente ou nos ajudam a nos livrar dela. Quando os líderes empresariais em Sacramento, Califórnia, decidiram se livrar dos sem-teto, uma das estratégias foi oferecer-lhes bilhete só de ida para

outra cidade.3 (Diz-se que Atlanta fez o mesmo antes das Olimpíadas de 1996.)

Agora imagine a mesma esquina, e vamos soltar ali 100 mil graduados nas melhores universidades americanas. Os ônibus chegam à esquina da State com a Madison e começam a descarregar advogados, médicos, artistas, geneticistas, engenheiros de computação e um monte de pessoas inteligentes e motivadas, com as mais diversas aptidões. Muitos desses indivíduos achariam emprego imediatamente. (Lembre-se, capital humano incorpora não só treinamento de sala de aula, mas também perseverança, honestidade, criatividade, virtudes boas para se encontrar trabalho.) Alguns desses graduados altamente qualificados começariam seus próprios negócios, pois faro empresarial é um componente importante do capital humano. Outros iriam embora para outros lugares, pois trabalhadores altamente capacitados têm mais mobilidade que seus colegas com menos capacitação. Em alguns casos, firmas se mudariam para Chicago, ou abririam escritórios e indústrias na cidade para tirar proveito dessa temporária fartura de talento. Pontífices econômicos mais adiante descreveriam esse louco desembarque de passageiros como uma dádiva para o progresso econômico de Chicago, assim como as ondas de imigração ajudaram os Estados Unidos a se desenvolver.

Se o exemplo parece forçado, considere o caso do Naval Air Warfare Center (Nawc) em Indianápolis, instalação que produziu eletrônica avançada para a Marinha americana até o final da década de 1990. Decidiu-se que o Nawc, que empregava aproximadamente 2.600 trabalhadores, seria fechado como parte de um programa de redução de custos militares. Todos estão familiarizados com essas histórias de fechamento de fábricas. Centenas ou milhares de trabalhadores perdem seus empregos. Os negócios na comunidade em volta começam a definhar porque grande parte do poder de compra foi perdida. Vem alguém com uma câmera e diz: “Quando a fábrica fechou em [diz o ano], esta cidade começou a morrer.”

Mas o Nawc foi uma história diferente.4 Um de seus ativos mais valiosos era a força de trabalho, 40% da qual compostos por cientistas ou engenheiros. Líderes locais astutos, guiados pelo prefeito Stephen Goldsmith, acreditavam que a fábrica podia ser vendida a um comprador privado. Sete empresas fizeram propostas e a vencedora foi a Hughes Eletronics.

Numa sexta-feira, em janeiro de 1997, os funcionários do Nawc foram para casa como empregados do governo. Na segunda-feira seguinte, 98% deles foram trabalhar como empregados da Hughes. Os executivos da Hughes que entrevistei disseram que o valor da aquisição estava nas pessoas, não só nos tijolos e na argamassa. A Hughes estava comprando uma quantidade maciça de capital humano que não podia ser encontrada com facilidade em outro lugar. Essa história contrasta com os fechamentos de fábricas cantados por Bruce Springsteen, em que trabalhadores com educação limitada descobrem que seus estreitos conjuntos de aptidões não têm valor quando a usina/mina/fábrica/indústria desaparece. A diferença é o capital humano. De fato, os economistas podem até dar respaldo empírico a essas canções de Springsteen. O economista do trabalho Robert Topel estimou que trabalhadores experientes perdem 25% de sua capacidade de ganho a longo prazo quando são forçados a mudar de emprego pelo fechamento de uma fábrica.

Agora é o momento apropriado para liquidar uma das mais perniciosas noções em termos de políticas públicas: a falácia do inchaço da força de trabalho. Trata-se da crença errônea de que há uma quantidade fixa de trabalho a ser realizado na economia, e portanto todo emprego novo é criado à custa de um emprego perdido em algum outro lugar. Se eu estou desempregado, diz o argumento errado, então só conseguirei trabalho se alguém trabalhar menos ou não trabalhar. Era assim que o governo francês achava que o mundo funcionava, mas isso está errado. Empregos são criados em qualquer momento em que uma pessoa forneça um novo bem ou serviço, ou ache um modo melhor (ou mais barato) de fornecer um bem ou serviço antigo.

Os números provam esse argumento. A economia dos Estados Unidos gerou dezenas de milhões de novos empregos nas últimas três décadas, inclusive todo o setor ligado à internet. (É verdade, a recessão que começou em 2007 também destruiu montes de empregos.) Milhões de mulheres entraram na força de trabalho na segunda metade do século XX, contudo, a taxa de desemprego manteve-se extremamente baixa pelos padrões históricos até o início da recente crise. Da mesma maneira, enormes ondas de imigrantes vieram trabalhar nos Estados Unidos ao longo de toda a nossa história, sem qualquer aumento de desemprego a longo prazo. Há deslocamentos imediatos? Com certeza. Alguns trabalhadores perdem seus empregos ou veem seus salários diminuir quando são obrigados a competir com pessoas que acabam de entrar na força de trabalho. Contudo, mais empregos são criados que perdidos. Lembre, novos trabalhadores precisam gastar seus salários em outros setores da economia, criando uma nova demanda de outros produtos. O bolo econômico cresce, não é apenas fatiado mais uma vez.

Eis a impressão intuitiva: imagine uma comunidade agrícola na qual numerosas famílias possuem e trabalham sua própria terra. Cada família produz só o suficiente para se alimentar; não há excedente na colheita nem terra ociosa. Todo mundo nessa cidade tem o suficiente para comer; por outro lado, ninguém vive particularmente bem. Toda família gasta grande quantidade de seu tempo nos serviços domésticos. Eles costuram suas próprias roupas, ensinam a seus filhos, fazem e consertam seus próprios equipamentos agrícolas etc. Suponha um sujeito chegando à cidade em busca de trabalho. No cenário 1, o sujeito não tem qualificações. Não há terras disponíveis para cultivar, de modo que a comunidade lhe diz para entrar de volta no trem. Talvez até lhe compre um bilhete para sair da cidade. Essa comunidade “não tem empregos”.

Agora considere o cenário 2: o sujeito que chega à cidade tem doutorado em agronomia e desenhou um novo tipo de arado que melhora a produção de milho. Ele negocia o arado com os agricultores em troca de uma pequena parcela das colheitas. Todo mundo fica melhor de vida. O agrônomo pode se sustentar, os agricultores têm mais o que comer, mesmo depois de pagar seus novos arados (ou não os comprariam). Essa comunidade acabou de criar um novo emprego: vendedor de arados. Pouco depois, chega um carpinteiro na estação. Ele se oferece para fazer todos os tipos de trabalhos estranhos que limitam o tempo que os agricultores dedicam a cuidar de suas plantações. A produção volta a crescer porque os agricultores passam mais tempo fazendo o que sabem fazer de melhor: trabalhar a terra. E foi criado mais um emprego.

A essa altura, os agricultores estão cultivando mais do que eles próprios conseguem comer, então “gastam” seu excedente recrutando uma professora. Mais um emprego novo. Ela ensina as crianças da cidade, fazendo com que a próxima geração de agricultores seja mais bem-educada e mais produtiva que os pais. Com o tempo, nossa cidadezinha agrícola inventada, que “não tinha empregos” no começo desse exercício, tem romancistas, bombeiros, jogadores profissionais de beisebol e até engenheiros que projetam iPhones e margaritas instantâneas. Esse é o resumo da história econômica dos Estados Unidos. A elevação dos níveis de capital humano permitiu que uma nação agrária evoluísse a ponto de ter lugares ricos e complexos como Manhattan e o Vale do Silício.

Claro que nem tudo é cor-de-rosa ao longo do caminho. Suponha que um dos nossos recém-educados agricultores invente um arado que produza safras ainda melhores, tornando obsoleto o primeiro vendedor de arados – destruição criativa. É verdade, esse avanço tecnológico elimina um emprego de imediato. A longo prazo, porém, a cidadezinha está ainda melhor de vida. Lembre, todos os agricultores agora estão mais ricos (riqueza medida por maior produção de milho), possibilitando-lhes contratar o agrônomo desempregado para fazer alguma outra coisa, como desenvolver novas sementes híbridas (que tornarão a cidade ainda mais rica). A tecnologia desloca os trabalhadores de imediato, mas não leva a desemprego em massa a longo prazo. Ao contrário, nós ficamos mais ricos, o que cria demanda de novos empregos em outros setores da economia. Nesse processo, trabalhadores educados se saem muito melhor que trabalhadores sem instrução. Eles são mais versáteis numa economia que se modifica depressa, fazendo com que seja mais provável se manter de pé após um surto de destruição criativa.

Capital humano tem a ver com muitas outras coisas além de ganhar mais dinheiro. Ele faz de nós melhores pais, eleitores mais informados, maiores apreciadores de arte e cultura, mais capazes de apreciar os frutos da vida. E pode nos deixar mais saudáveis, porque comemos melhor e nos exercitamos mais. (Ao mesmo tempo, a boa saúde é um componente importante do capital humano.) Pais instruídos têm mais probabilidade de sentarem com os filhos para lhes ensinar cores e letras antes de eles entrarem na escola. No mundo em desenvolvimento, o impacto do capital humano pode ser ainda mais profundo. Os economistas descobriram que um ano a mais de escolaridade de uma mulher num país de baixa renda está associado à

redução de 5 a 10% da probabilidade de seu filho morrer nos primeiros cinco anos de vida.5

De maneira similar, nosso estoque total de capital humano – tudo o que sabemos como um povo – define quanto estamos bem de vida como sociedade. Nós nos beneficiamos do fato de sabermos como prevenir a poliomielite e produzir aço inoxidável – ainda que nenhum leitor deste livro seja capaz de fazer qualquer uma dessas coisas se for abandonado numa ilha deserta. O economista Gary Becker, que ganhou o Prêmio Nobel pelo seu trabalho no campo do capital humano, avalia que o acúmulo de educação, treinamento, aptidões e mesmo saúde das pessoas constitui cerca de 75% da riqueza de uma economia moderna. Não são diamantes, construções, petróleo ou bolsas elegantes, mas coisas que carregamos conosco dentro da cabeça. “Deveríamos realmente chamar a nossa economia de ‘economia capitalista humana’, pois é isso que ela é fundamentalmente”, disse Becker num discurso. “Enquanto todas as formas de capital – capital físico, tal como maquinaria e fábricas, capital financeiro e capital humano – são importantes, o mais importante é o capital humano. De fato, numa economia moderna, essa é de longe a forma de capital mais importante para criar riqueza e

crescimento.”6

Há uma surpreendente correlação entre o nível de capital humano de um país e seu bem-estar econômico. Ao mesmo tempo, há uma surpreendente falta de correlação entre recursos naturais e padrão de vida. Países como o Japão e a Suíça estão entre os mais ricos do mundo, apesar de terem patrimônios relativamente pequenos em termos de recursos naturais. Países como a Nigéria são exatamente o oposto; a enorme riqueza de petróleo fez relativamente pouco para o padrão de vida do país. Em alguns casos, a riqueza mineral da África financiou sangrentas guerras civis que teriam fim sem esses recursos. No Oriente Médio, a Arábia Saudita tem a maior parte do petróleo, enquanto Israel, sem recursos naturais com que contar, tem a maior renda per capita.

Níveis elevados de capital humano criam um ciclo virtuoso; pais bem-educados investem pesadamente no capital humano de seus filhos. Baixos níveis de capital humano têm o efeito exatamente oposto. Pais desfavorecidos tendem a criar filhos desfavorecidos, como qualquer professor da rede pública pode confirmar. O sr. Becker ressalta:

 

Mesmo pequenas diferenças entre os filhos na preparação oferecida pela família muitas vezes se multiplicam em

diferenças grandes quando eles são adolescentes. É por isso que o mercado de trabalho não pode fazer muita coisa por

aqueles que largam a escola, que mal sabem ler e nunca desenvolveram bons hábitos de trabalho; por isso é tão difícil

divisar políticas para ajudar esses grupos.7

 

POR QUE O CAPITAL HUMANO tem tanta importância? Para começar, ele está inextricavelmente ligado a uma das ideias mais importantes em economia: produtividade. Esta última é a eficiência com que convertemos insumos em resultados. Em outras palavras, quanto somos bons em fazer as coisas. Leva 2 mil horas para um operário de uma fábrica de carros em Detroit fazer um carro, ou 210 horas? Um agricultor de milho em Iowa consegue cultivar 30 alqueires de milho num acre de terra, ou 210 alqueires? Quanto mais produtivos somos, mais ricos. O motivo é simples: o dia sempre terá 24 horas; quanto mais produzimos nessas 24 horas, mais consumimos, seja diretamente, seja roçando outras coisas. A produtividade é determinada em parte pelos recursos naturais – é mais fácil cultivar trigo no Kansas que em Vermont –, mas, numa economia moderna, a produtividade é afetada por tecnologia, especialização e capacitação, todas elas funções do capital humano.

Os Estados Unidos são ricos porque os americanos são produtivos. Temos uma vida melhor hoje que em qualquer outro momento na história da civilização porque somos melhores em produzir bens e serviços – incluindo saúde e entretenimento – do que jamais fomos antes. O importante é que trabalhamos menos e produzimos mais. Em 1870, uma família típica exigia 1.800 horas de trabalho apenas para conseguir seu abastecimento de comida; hoje são necessárias cerca de 260 horas de trabalho. No decorrer do século XX, o ano médio de trabalho caiu de 3.100 horas para cerca de 1.730 horas. Ao mesmo tempo, o produto nacional bruto (PNB) real per capita – uma medida, ajustada pela inflação, de quanto cada um de nós produz em média – aumentou de US$ 4.800 para mais de US$ 40 mil. Mesmo os pobres estão vivendo extremamente bem segundo os padrões históricos. A linha de pobreza está agora num nível de renda real que era atingido apenas por aqueles inseridos nos 10% superiores da distribuição de renda um século atrás. Como disse uma vez John Maynard Keynes: “A longo prazo, produtividade é tudo.”

Produtividade é o conceito que elimina a “sugação” do “gigantesco som de sugação” mencionado por Ross Perot, milionário americano do setor de tecnologia. Quando Ross Perot concorreu à Presidência dos Estados Unidos, em 1992, como candidato independente, uma das questões que o definiam era a oposição ao Acordo de Livre-Comércio da América do Norte, o Nafta. Perot argumentava que, se os Estados Unidos abrissem suas fronteiras para o livre-comércio com o México, 10 milhões de empregos fugiriam para o lado sul da fronteira. Por que uma empresa não haveria de se realocar no México quando o operário de fábrica mexicano, na média, ganha uma fração dos salários pagos aos operários americanos? A resposta é produtividade. Podem os trabalhadores americanos competir contra trabalhadores estrangeiros que ganham a metade, ou menos, do seu salário? Sim, a maioria pode. Eles produzem mais que os trabalhadores mexicanos – muito mais, em muitos casos – porque têm melhor escolaridade, porque têm melhores serviços de saúde, porque têm melhor acesso a capital e tecnologia e porque têm instituições de governo mais eficientes e melhor infraestrutura pública. Pode um camponês vietnamita com dois anos de educação fazer o serviço que você faz? Provavelmente não.

Claro que há indústrias nas quais os trabalhadores americanos não são produtivos o bastante para justificar seus salários relativamente altos, como fabricação de têxteis e calçados. Essas são indústrias que exigem mão de obra relativamente não qualificada, que é mais cara nos Estados Unidos que no mundo em desenvolvimento. Pode um camponês vietnamita costurar um tênis de basquete? Sim – e por muito menos que o salário mínimo americano. Empresas americanas buscarão “terceirizar” empregos em outros países apenas se os salários nesses países forem baratos em relação àquilo que os operários podem produzir. Um operário que custa 1⁄10 e produz 1⁄10 não é grande negócio. Um operário que custa 1⁄10 e produz a metade provavelmente é.

Enquanto Ross Perot advertia que a maior parte da economia dos Estados Unidos migraria para Guadalajara, os economistas de tendência mais formal prediziam que o Nafta teria efeito modesto mas positivo na taxa de emprego americana. Alguns empregos seriam perdidos na competição com o México; mas outros empregos seriam criados, à medida que as exportações para o México aumentassem. Temos agora mais de uma década de vigência do Nafta, e foi exatamente isso que ocorreu. Economistas estimam que o efeito da taxa de emprego geral foi positivo, ainda que muito pequeno em relação ao tamanho da economia americana.

Estarão nossos filhos melhor de vida que nós? Sim, se forem mais produtivos do que somos, o que tem sido o padrão ao longo da história dos Estados Unidos. O crescimento de produtividade é o que melhora nosso padrão de vida. Se a produtividade cresce em 2% ao ano, então nos tornamos 2% mais ricos a cada ano. Por quê? Porque podemos pegar os mesmos insumos e fazer 2% a mais de coisas. (Ou podemos fazer a mesma quantidade de coisas com 2% a menos de insumos.) Um dos debates mais interessantes sobre a questão é se a economia americana teve ou não um aumento agudo na taxa de crescimento de produtividade. Alguns economistas, inclusive Alan Greenspan, durante seu exercício como presidente do Fed, têm argumentado que investimentos em tecnologia da informação levaram a taxas de crescimento de produtividade cada vez mais elevadas. Outros, como Robert Gordon, da Northwestern University, acreditam que o crescimento de produtividade não mudou significativamente quando os dados são interpretados da maneira apropriada.

A resposta para esse debate tem enorme importância. De 1947 a 1975, a produtividade cresceu numa taxa anual de 2,7%. De 1975 até meados dos anos 1990, por razões que ainda não são totalmente compreendidas, o crescimento de produtividade desacelerou para 1,4% ao ano. Aí voltou a melhorar. De 2000 a 2008, o crescimento de produtividade retornou à taxa anual bem mais saudável de 2,5%. A diferença pode parecer trivial. Na verdade, ela tem um efeito profundo em nosso padrão de vida. Um artifício habilidoso em finanças e economia é a regra do 72; divida 72 por uma taxa de crescimento (ou uma taxa de juros), e a resposta vai lhe dizer aproximadamente quanto tempo levará para uma grandeza crescente duplicar (por exemplo, a quantia principal de uma conta bancária rendendo 4% de juros duplicará em aproximadamente dezoito anos). Quando a produtividade cresce em 2,7% ao ano, nosso padrão de vida duplica a cada 27 anos. A 1,4%, duplica a cada 51 anos.

O crescimento da produtividade nos torna mais ricos, independentemente do que está ocorrendo no resto do mundo. Se a produtividade cresce 4% no Japão e 2% nos Estados Unidos, então ambos os países estão ficando mais ricos. Para entender por quê, voltemos à nossa economia simples de cultivo agrícola. Se um agricultor está produzindo 2% a mais de milho e suínos todo ano, e seu vizinho está produzindo 4% a mais, então ambos estão comendo mais todo ano (ou comercializando mais). Se essa disparidade continuar por um tempo longo, um deles se tornará significativamente mais rico que o outro, o que poderá vir a ser fonte de inveja ou de atritos políticos, mas ambos estão tendo uma vida cada vez melhor. O aspecto importante é que o crescimento de produtividade, como tantas outras coisas em economia, não é um jogo de soma zero.

Qual seria o efeito sobre os Estados Unidos se 500 milhões de pessoas na Índia se tornassem mais produtivas e gradualmente passassem da pobreza para a classe média? Nós também ficaríamos mais ricos. Aldeões pobres que hoje sobrevivem com US$ 1 por dia não podem se dar ao luxo de comprar nossos softwares, nossos carros, nossa música, nossos livros e nossas exportações agrícolas. Se fossem mais abastadas, poderiam. Ao mesmo tempo, parte desses 500 milhões de pessoas, cujo potencial é desperdiçado pela baixa escolaridade, produziria bens e serviços superiores aos que temos agora, deixando nossa vida melhor. Um desses camponeses recém-educados poderia descobrir a vacina para a aids ou um processo

para reverter o aquecimento global. Parafraseando o United Negro College Fund,b 550 milhões de cabeças é uma coisa terrível para se desperdiçar.

O crescimento de produtividade depende de investimento – em capital físico, capital humano, pesquisa, desenvolvimento e mesmo em coisas como instituições governamentais mais eficazes. Esses investimentos exigem que se abra mão de consumo no presente para consumir mais no futuro. Se você deixa de comprar um BMW e, em vez disso, investe em educação superior, sua renda futura será mais alta. Da mesma maneira, uma empresa de software pode deixar de pagar um dividendo aos seus acionistas e reinvestir os lucros no desenvolvimento de um produto novo e melhor. O governo pode arrecadar impostos (privando-nos de algum consumo corrente) para financiar a pesquisa genética a fim de melhorar nossa saúde no futuro. Em cada caso, gastamos recursos agora para nos tornarmos mais produtivos depois. Quando nos voltarmos para a macroeconomia – o estudo da economia como um todo –, uma preocupação importante será se estamos ou não investindo o suficiente como nação para continuar aumentando nosso padrão de vida.

Nossas estruturas legais, regulatórias e tributárias também afetam o crescimento da produtividade. Impostos altos, governo ruim, direitos de propriedade mal-definidos ou regulamentação excessiva podem diminuir ou eliminar o incentivo a investimentos produtivos. Fazendas coletivas, por exemplo, são uma péssima maneira de organizar a agricultura. Fatores sociais, como a discriminação, podem afetar profundamente a produtividade. Uma sociedade que não educa suas mulheres ou que nega oportunidades a membros de determinada raça, casta ou tribo está deixando de cultivar uma ampla área de recursos. O crescimento da produtividade também depende, em grande parte, de inovação e progresso tecnológico, nenhum dos quais é compreendido perfeitamente. Por que a internet explodiu em meados dos anos 1990, e não no fim da década de 1970? Como deciframos o genoma humano, mas ainda não temos uma fonte barata de energia limpa? Em suma, alimentar o crescimento de produtividade é como criar filhos: sabemos que coisas são importantes, mesmo que não haja receita para criar um atleta olímpico ou um professor de Harvard.

O estudo do capital humano tem profundas implicações para as políticas públicas. Mais importante, ele pode nos dizer por que ainda não morremos todos de fome. A população da Terra cresceu para 6 bilhões. Como temos sido capazes de alimentar tantas bocas? No século XVIII, Thomas Malthus predisse um futuro sombrio para a humanidade, porque acreditava que, à medida que a sociedade fosse ficando mais rica, desperdiçaria continuamente esses ganhos com o crescimento populacional – tendo mais filhos. Essas bocas adicionais engoliriam o excedente. Na opinião dele, a humanidade estava destinada a viver à beira da subsistência, procriando de forma temerária durante as épocas boas e mirrando de fome nas épocas ruins. Conforme ressaltou Paul Krugman, para 55 dos últimos 57 séculos, Malthus tinha razão. A população mundial cresceu, mas a condição humana não mudou de modo significativo.

Apenas com a Revolução Industrial as pessoas começaram a ficar constantemente mais ricas. Mesmo então, Malthus não estava tão errado assim. Conforme salienta Gary Becker: “Os pais gastavam mais com os filhos quando seus rendimentos aumentavam – conforme predisse Malthus –, porém gastavam bem mais com cada filho e tinham menos filhos, como

prevê a teoria do capital humano.”8 As transformações econômicas da Revolução Industrial, isto é, os grandes ganhos de produtividade, tornaram o tempo dos pais mais caro. As vantagens de ter mais filhos declinaram, as pessoas começaram a investir seus rendimentos crescentes na qualidade de seus filhos, e não meramente na quantidade.

Uma das falácias da miséria é que os países em desenvolvimento são pobres porque têm rápido crescimento populacional. Na verdade, a relação causal é mais bem-compreendida no sentido oposto: pessoas pobres têm muitos filhos porque o custo de criá-los é baixo. O controle da natalidade, não importa quão confiável seja, só funciona se as famílias preferirem ter menos filhos. Como resultado, uma das armas mais potentes para combater o crescimento populacional é criar melhores oportunidades econômicas para as mulheres, o que começa pela educação das meninas. Taiwan dobrou o número de meninas que se formam no ensino médio entre 1966 e 1975. Ao mesmo tempo, o índice de natalidade caiu pela metade. No mundo desenvolvido, onde por mais de meio século as mulheres têm desfrutado uma gama extraordinária de novas oportunidades econômicas, os índices de natalidade têm caído para perto ou abaixo do nível de reposição, que é 2,1 nascimentos por mulher.

 

COMEÇAMOS ESTE CAPÍTULO com um debate sobre a casa de Bill Gates, que é, com absoluta certeza, maior que a sua. Na aurora do terceiro milênio, os Estados Unidos são um lugar profundamente desigual. Estará o país ficando mais desigual? A resposta, segundo qualquer critério de medida, é sim. De acordo com uma análise da Secretaria de Orçamento do Congresso, os domicílios americanos na faixa inferior a 20% de distribuição de renda estavam ganhando apenas 2% a mais em 2004 (corrigidos pela inflação) que em 1979. Isso representa ¼ de século sem nenhum aumento real de renda. Os americanos na faixa intermediária de distribuição de renda se saíram melhor no mesmo período; o rendimento familiar médio cresceu 15% em termos reais. A quinta parte superior – os 20% do alto da

escala – viu sua renda crescer em 63% (corrigidos pela inflação).9

No decorrer da mais longa expansão econômica da história americana, os ricos ficaram mais ricos, enquanto os pobres ficaram parados ou empobreceram ainda mais. Os salários para os indivíduos do sexo masculino que não terminaram o ensino médio caíram aproximadamente ¼, quando comparados ao que seus pais ganhariam se também tivessem deixado o ensino médio. A recessão que começou em 2007 reduziu ligeiramente a diferença entre ricos e pobres nos Estados Unidos (destruindo riqueza no topo e não melhorando a vida do trabalhador médio). A maioria dos economistas concorda que a tendência de longo prazo é que se abra um fosso maior entre ricos e pobres americanos. A mudança mais estarrecedora tem sido no topo do topo. Em 1979, o 1% mais rico ganhava 9% da renda nacional total; agora ganha 16% do contracheque coletivo anual do país.

Por quê? O capital humano fornece a maior parte da compreensão para esse fenômeno social. As últimas décadas têm sido uma versão na vida real do filme A vingança dos nerds. Trabalhadores qualificados nos Estados Unidos sempre ganharam salários mais altos que trabalhadores não qualificados. A diferença começou a aumentar em proporções extraordinárias. Em suma, o capital humano tornou-se mais importante, e portanto mais bem-remunerado, do que nunca antes. Uma medida simples da importância do capital humano é a distância entre os salários pagos a formados no ensino médio e os salários pagos aos graduados no ensino superior. Formados em faculdades ganhavam em média 40% a mais que os que terminaram o ensino médio nos anos 1980; agora ganham 80% a mais. Indivíduos com diplomas de pós-graduação se dão ainda melhor. O século XXI é uma época especialmente boa para ser cientista espacial.

Nossa economia está evoluindo de maneira a favorecer trabalhadores qualificados. Por exemplo, a entrada da computação em quase todos os setores da indústria favorece trabalhadores que tenham qualificação nessa tecnologia ou que sejam interessados o suficiente para aprender a lidar com computadores no trabalho. A tecnologia torna trabalhadores interessados mais produtivos, ao mesmo tempo que torna dispensáveis os operários de baixa qualificação. Caixas eletrônicos substituíram os antigos caixas de banco; o autoabastecimento de combustível substituiu, nos Estados Unidos, os frentistas; linhas de montagem automatizadas substituíram operários que faziam tarefas repetitivas sem necessidade de raciocinar muito. De fato, a linha de montagem da General Motors engloba a principal tendência na economia americana. Computadores e robôs sofisticados hoje montam os principais componentes de um carro – o que cria empregos de remuneração elevada para as pessoas que escrevem os programas e projetam os robôs, ao mesmo tempo que reduz a demanda de trabalhadores que não tenham outra qualificação especializada além de se dispor a um honesto dia de trabalho.

Ao mesmo tempo, o comércio internacional aumenta a concorrência entre trabalhadores não qualificados locais e outros trabalhadores não qualificados ao redor do globo. A longo prazo, o comércio internacional é uma poderosa força para o bem; a curto prazo, tem suas vítimas. O comércio, como a tecnologia, melhora a vida dos trabalhadores altamente qualificados porque oferece novos mercados para nossas exportações de alta tecnologia. A Boeing vende aviões para a Índia, a Microsoft vende softwares para a Europa, a McKinsey & Company vende serviços de consultoria para a América Latina. Mais uma vez, é uma boa notícia para gente que sabe como projetar um motor a jato eficiente ou explicar administração de qualidade total em espanhol. Por outro lado, coloca nossos trabalhadores de baixa tecnologia em competição com operários mal-remunerados no Vietnã. A Nike pode pagar US$ 1 por dia aos trabalhadores de suas fábricas vietnamitas para que façam calçados em condições extremamente precárias. Mas não se podem fazer aviões Boeing desse modo. A globalização cria mais oportunidades para trabalhadores qualificados e mais competição para trabalhadores não qualificados.

Ainda há discordância quanto ao grau em que diferentes causas são responsáveis por esse aumento da diferença entre os salários. Os sindicatos tornaram-se menos poderosos, diminuindo o cacife dos trabalhadores braçais na mesa de negociações. Nesse ínterim, trabalhadores de salários mais altos passam mais horas no emprego que seus colegas de

salários mais baixos, o que exacerba a diferença no total de rendimentos.10 Cada vez mais indústrias estão vinculando pagamento a desempenho, o que aumenta as diferenças de salário entre os que são mais e menos produtivos. Em qualquer caso, o aumento da desigualdade de renda é real. Devemos nos importar? Os economistas tradicionalmente têm argumentado que não devemos, e por dois motivos básicos. Em primeiro lugar, a desigualdade de renda envia importantes sinais para a economia. A crescente diferença de salários entre formados no ensino médio e no ensino superior, por exemplo, irá motivar muitos alunos a obter diplomas universitários. De maneira similar, a espetacular riqueza conquistada por empreendedores provê um incentivo para assumir os riscos necessários a fim de promover saltos em termos de inovação, muitos dos quais têm retornos enormes para a sociedade. A economia trata de incentivos, e a perspectiva de ficar rico é um grande incentivo.

Em segundo lugar, muitos economistas argumentam que não devemos nos importar com a diferença entre ricos e pobres, contanto que todos estejam vivendo melhor. Em outras palavras, devemos nos importar com quanto do bolo total os pobres estão ganhando, e não quanto do bolo eles estão ganhando em relação a Bill Gates. Em seu discurso ao assumir a presidência da Associação Americana de Economia, Robert Fogel, historiador econômico laureado com o Prêmio Nobel, salientou que nossos cidadãos mais pobres têm níveis de conforto desconhecidos da realeza cem anos atrás. (Mais de 90% dos moradores de conjuntos habitacionais públicos têm televisão em cores, por exemplo.) A inveja pode ser um dos sete pecados capitais, mas não é algo a que os economistas tenham tradicionalmente prestado muita atenção. Minha utilidade deve depender de quanto gosto do meu carro, e não se meu vizinho tem ou não um Jaguar.

Claro que o senso comum sugere o contrário. H.L. Mencken certa vez comentou que um homem rico é aquele que ganha por ano US$ 100 a mais que o marido da irmã de sua mulher.

Alguns economistas ultimamente começaram a acreditar que essa opinião faz sentido.11 David Neumark e Andrew Postlewaite examinaram uma grande amostra de irmãs americanas num esforço para entender por que algumas mulheres optam por trabalhar fora e outras não. Quando os pesquisadores controlaram todas as explicações usuais – desemprego no mercado local de trabalho, educação e experiência profissional da mulher etc. –, descobriram forte evidência em respaldo à oblíqua observação de H.L. Mencken: uma mulher em sua amostra era significativamente mais propensa a procurar emprego se o marido da irmã ganhasse mais que seu marido.

Robert Frank, economista de Cornell e autor de Luxury Fever, deu argumentos persuasivos de que a riqueza relativa – o tamanho de minha fatia de bolo comparada à do meu vizinho – é uma determinação importante em nossa utilidade. Ele ofereceu aos participantes da pesquisa uma escolha entre dois mundos: (1) você ganha US$ 110 mil e o resto das pessoas ganha US$ 200 mil; ou (2) você ganha US$ 100 mil e todo o resto ganha US$ 85 mil. Ele explica: “Os valores da renda representam poder de compra real. Sua renda no mundo 1 permitirá uma casa 10% maior do que você poderia adquirir no mundo 2, 10% a mais de restaurantes, e assim por diante. Ao escolher o mundo 2, você abre mão de uma pequena quantia na renda absoluta em troca de um grande aumento de renda relativa.” Você seria mais rico no mundo 1; seria menos rico no mundo 2, porém, seria mais rico que o resto das pessoas. Que cenário deixaria você mais feliz? O sr. Frank descobriu que a maioria dos americanos escolheria o mundo 2. Em outras palavras, a renda relativa importa. Inveja pode ser parte da explicação. E também é verdade, o sr. Frank assinala, que, em ambientes sociais complexos, nós buscamos meios de avaliar nosso desempenho, e a riqueza relativa é um deles.

Há uma segunda preocupação, mais pragmática, relativa ao crescimento da desigualdade de renda. Poderia a diferença entre ricos e pobres – ética à parte – se tornar grande o suficiente para começar a inibir o crescimento econômico? Haverá algum ponto em que a desigualdade de renda pare de nos motivar a trabalhar mais duro e se torne contraproducente? Isso poderia acontecer por todo tipo de razões. Os pobres poderiam ficar marginalizados a ponto de rejeitar instituições políticas e econômicas importantes, tais como direitos de propriedade ou determinações legais. Uma distribuição de renda totalmente assimétrica pode levar os ricos a esbanjar recursos em luxos cada vez mais frívolos (por exemplo, bolos de aniversário para cães), quando outros tipos de investimentos, tais como capital humano para os pobres, trariam um retorno mais alto. Ou a luta de classes poderia levar a medidas que

punissem os ricos sem melhorar a vida dos pobres.12 Alguns estudos descobriram uma relação negativa entre desigualdade de renda e crescimento econômico; outros encontraram exatamente o contrário. Com o tempo, os dados irão esclarecer essa relação. Contudo, o debate filosófico mais amplo continuará fervilhante: se o bolo está crescendo, quanto deveríamos nos preocupar com o tamanho das fatias?

 

O TEMA DO CAPITAL HUMANO impõe algumas perguntas finais. Estarão os pobres sempre conosco, como Jesus advertiu uma vez? Nosso sistema de mercado livre torna a pobreza inevitável? Deve sempre haver perdedores e grandes ganhadores econômicos? Não, não e não. O desenvolvimento econômico não é um jogo de soma zero, o mundo não precisa de países pobres para ter países ricos, nem algumas pessoas precisam ser pobres para outras serem ricas. Famílias que moram em conjuntos habitacionais públicos na zona sul de Chicago não são pobres porque Bill Gates mora numa casa grande. São pobres apesar do fato de Bill Gates morar numa casa grande. Por uma complexa constelação de motivos, os pobres dos Estados Unidos não participaram dos ganhos de produtividade gerados pelo Microsoft Windows. Bill Gates não levou o bolo inteiro consigo, ele não atrapalhou o caminho para o sucesso dessas pessoas, nem se beneficiou de seus infortúnios. Ao contrário, sua visão e seu talento criaram uma enorme quantidade de riqueza que nem todo mundo pode compartilhar. Existe uma distinção crucial entre um mundo em que Bill Gates enriquece roubando a colheita dos outros e um mundo em que ele enriquece aumentando seu enorme suprimento de comida, que ele compartilha com alguns, e não com outros. Esta última é a melhor representação de como funciona a economia moderna.

Em teoria, um mundo em que todo indivíduo fosse educado, saudável e produtivo seria um mundo em que todas as pessoas viveriam confortavelmente. Talvez jamais curemos o mundo da diversidade de doenças físicas e mentais que impedem alguns indivíduos de atingir seu pleno potencial. Mas isso é biologia, não economia. A economia nos diz que não há limite teórico para quanto podemos viver bem e quanto nossa riqueza pode ser distribuída.

Será que isso é verdade? Se todos tivéssemos doutorado, quem entregaria as toalhas numa piscina de hotel? Provavelmente ninguém. À medida que a população se torna mais produtiva, começamos a substituir trabalho humano por tecnologia. Usamos correio de voz em lugar de secretárias, máquinas de lavar em vez de empregadas, caixas eletrônicos em vez de atendentes em guichês de bancos, bancos de dados em vez de arquivistas, máquinas de vendas automáticas em vez de balconistas, retroescavadeiras em vez de cavadores humanos. A motivação para esse desenvolvimento remonta ao conceito do Capítulo 1: custo de oportunidade. Indivíduos altamente qualificados podem fazer todos os tipos de coisas produtivas com seu tempo. Logo, é fabulosamente caro contratar um engenheiro para ensacar gêneros num armazém. (Quanto você cobraria para entregar toalhas numa piscina de hotel?) Há muito menos empregados domésticos nos Estados Unidos que na Índia, mesmo que os Estados Unidos sejam um país mais rico. A Índia está inundada de trabalhadores não qualificados que possuem poucas opções de emprego; os Estados Unidos não estão, o que torna o trabalho doméstico relativamente caro (como pode confirmar qualquer um que empregue uma babá). Quem pode ser dar ao luxo de ter um mordomo que poderia ganhar US$ 50 a hora redigindo códigos de computador?

Quando não conseguimos automatizar tarefas mais servis, podemos relegá-las a estudantes e jovens como meio para que eles adquiram capital humano. Durante mais de uma década trabalhei como caddy (a pessoa mais famosa para quem carreguei tacos de golfe foi George W. Bush, muito antes de ele ascender à Presidência); minha esposa foi garçonete. Esses empregos nos proporcionaram experiência de trabalho, elemento importante do capital humano. Mas suponha que houvesse alguma tarefa desagradável que não pudesse ser automatizada, nem pudesse ser realizada com segurança por gente jovem em início de carreira. Imagine, por exemplo, uma comunidade altamente educada que produza todos os tipos de bens e serviços valiosos, mas que gere um lodo repugnante como subproduto. Imagine mais, que recolher esse lodo seja um trabalho horrível, mentalmente robotizante. Todavia, se o lodo não é recolhido, toda a economia emperra e para. Se todo mundo tem diploma de Harvard, quem recolhe o lodo?

O recolhedor de lodo. E seria, ele ou ela, um dos trabalhadores mais bem pagos da cidade. Se a economia depende de recolher a imundície e não há máquina capaz de fazer o serviço, então a comunidade teria de obrigar alguém a fazer isso. A maneira de induzir gente a fazer qualquer coisa é pagar muito bem. O salário para recolher o lodo seria alto a ponto de o indivíduo – um médico, engenheiro ou escritor – se dispor a abandonar um emprego mais agradável e recolher o lodo. Logo, um mundo rico em capital humano ainda assim pode ter serviços desagradáveis – proctologistas me vêm à cabeça –, mas ninguém precisa ser pobre. E vice-versa, muita gente pode aceitar menos dinheiro para fazer tarefas particularmente agradáveis – ensinar estudantes universitários me vem à cabeça (especialmente nas férias de verão).

 

CAPITAL HUMANO CRIA oportunidades. Ele nos torna mais ricos e mais sadios; faz de nós seres humanos mais completos; possibilita-nos viver melhor e ao mesmo tempo trabalhar menos. E, o mais importante da perspectiva da política pública, o capital humano separa os que têm dos que não têm. Marvin Zonis, professor da Escola de Pós-Graduação em Administração da Universidade de Chicago e consultor de empresas e governos ao redor do mundo, demonstrou isso magnificamente num discurso para a comunidade empresarial de Chicago. “Complexidade será a marca registrada da nossa época”, ele declarou.

 

A demanda em toda parte será por níveis cada vez mais altos de capital humano. Os países que conseguirem isso, as

empresas que compreenderem como mobilizar e aplicar esse capital humano, e as escolas que o produzirem … serão os

grandes vitoriosos da nossa era. Quanto ao resto, mais retrocesso e mais miséria para seus próprios cidadãos e mais

problemas para o restante de nós.13

 

a O apelido pelo qual o jogador é conhecido nos Estados Unidos faz trocadilho com a palavra rod – não apenas a partícula inicial de seu nome, mas que designa diversos tipos de “haste” ou “barra”. A-Rod, então, significa que ele é o melhor, o classe A, além de evocar objetos de aço, em geral, portanto muito duros e resistentes. (N.T.)

b Organização norte-americana em prol da educação das minorias, fundada em 1944. (N.T.)