Economia nua e crua
12. Transações de negócios e globalização: A boa-nova sobre as fábricas asiáticas e suas péssimas condições
12. Transações de negóciosa e globalização
A boa-nova sobre as fábricas asiáticas
e suas péssimas condiçõesb
IMAGINE UMA INVENÇÃO espetacular: uma máquina capaz de converter milho em equipamento estéreo. Operando em plena capacidade, essa máquina consegue transformar 50 alqueires de milho num aparelho de DVD. Ou, com uma mudança no dial, converter 1.500 alqueires de soja num sedã de quatro portas. Mas essa máquina é ainda mais versátil que isso. Se adequadamente programada, pode transformar um programa Windows nos mais requintados vinhos franceses. Ou um Boeing 777 em frutas e legumes suficientes para alimentar uma cidade durante meses. De fato, a coisa mais impressionante nessa invenção é que ela pode ser montada em qualquer lugar do mundo e programada para transformar qualquer coisa ali cultivada ou produzida em algo geralmente muito mais difícil de se obter.
Ela também funciona para os países pobres. Nações em desenvolvimento podem pôr as coisas que conseguem produzir – mercadorias, produtos têxteis baratos, bens básicos manufaturados – na máquina e obter bens que de outra maneira lhes seriam negados: alimentos, remédios, bens industrializados mais avançados. Claro, os países pobres que tenham acesso a essa máquina crescerão mais depressa que aqueles que não a possuem. Seria de esperar que tornar a máquina acessível aos países pobres fosse parte da nossa estratégia de tirar bilhões de pessoas ao redor do globo da mais terrível pobreza.
Surpreendentemente, essa invenção já existe e se chama transação.
Se eu escrevo livros para ganhar a vida e uso minha receita para comprar um carro feito em Detroit, não há nada de particularmente controverso nessa transação. Ela me deixa melhor, e também minha revendedora de veículos. Esse é o tipo de tema do Capítulo 1. Uma economia moderna baseia-se em transações. Pagamos aos outros para fabricar coisas que não sabemos fazer – tudo, desde produzir um carro até remover um apêndice. De forma significativa, pagamos às pessoas para fazer todo tipo de coisas que poderíamos fazer, mas optamos por não realizar, em geral porque temos algo melhor com que empregar nosso tempo. Pagamos aos outros para fazer café, preparar sanduíches, trocar o óleo, limpar a casa e até para passear com o cachorro. A Starbucks não se baseou em nenhum grande avanço tecnológico. A empresa reconheceu que pessoas ocupadas pagarão regularmente alguns dólares por um copo de café, em vez de fazer seu próprio café ou tomar aquela coisa que fica na garrafa térmica do escritório durante seis horas.
O jeito mais fácil de apreciar os ganhos das transações é imaginar a vida sem elas. Você acordaria cedo numa casa pequena e desconfortável que você mesmo construiu. Vestiria roupas costuradas por você depois de tosquiar duas ovelhas que pastam em seu quintal. Então arrancaria alguns grãos de café da árvore desgrenhada que não cresce bem em Minneapolis – tudo isso enquanto espera que a galinha tenha posto um ovo esta noite para você ter algo para comer de manhã. A ênfase está no fato de o nosso padrão de vida ser alto porque somos capazes de nos concentrar nas tarefas que fazemos melhor e transacionar todas as outras.
Por que esses tipos de transação haveriam de ser diferentes se um produto ou serviço se origina na Alemanha ou na Índia? Na verdade não são. Nós cruzamos uma fronteira política, mas a economia não mudou de forma significativa. Indivíduos e empresas fazem negócios entre si porque todo mundo acaba ficando melhor. Isso vale para um trabalhador da fábrica da Nike no Vietnã, um operário de carros em Detroit, um francês comendo hambúrguer no McDonald’s em Bordeaux ou um americano tomando um requintado Burgundy em Chicago. Qualquer debate racional sobre transações de negócios precisa começar com a ideia de que as pessoas no Chade, no Togo ou na Coreia do Sul não são diferentes de você e de mim; elas fazem coisas que esperam tornar sua vida melhor, e as transações de negócios são uma delas. Paul Krugman observou: “Pode-se dizer – e eu diria – que a globalização, provocada não pela bondade humana, mas pela perspectiva de lucro, fez muito mais bem a muito mais gente que todo o auxílio estrangeiro e os empréstimos fáceis já fornecidos por governos e agências internacionais bem-intencionados.” E acrescenta em tom espirituoso: “Todavia, ao dizer isso,
sei por experiência própria, que garanti a mim mesmo uma rajada de cartas de ódio.”1
TAL É A NATUREZA da “globalização”, palavra que passou a representar o aumento do fluxo internacional de bens e serviços. Os americanos e muitos outros no planeta tendem a comprar mais bens e serviços de outro país e a vender bens e serviços no exterior. No fim dos anos 1980, eu estava viajando pela Ásia enquanto escrevia uma série de artigos para um jornal diário em New Hampshire. Numa parte relativamente remota de Bali, fiquei tão surpreso de encontrar um Kentucky Fried Chicken (KFC) que escrevi um artigo a respeito. “O coronel Sanders conseguiu abrir restaurantes fast-food nas áreas mais remotas do mundo”, escrevi. Se tivesse percebido que a ideia de “homogeneização cultural” viria a se tornar um estopim para a inquietação civil, uma década depois, teria ficado rico e famoso como um dos primeiros comentaristas da globalização. Em vez disso, observei: “Neste ambiente relativamente
imperturbado, o Kentucky Fried Chicken parece fora de lugar.”2
O restaurante KFC era mais que uma mera curiosidade, como fiz parecer. Era um sinal tangível daquilo que as estatísticas mostram claramente: o mundo está ficando cada vez mais interdependente economicamente. As exportações mundiais, como parcela do PIB global,
subiram de 8% em 1950 para cerca de 25% hoje.3 As exportações dos Estados Unidos como fração do PIB cresceram de 5% para aproximadamente 10% no mesmo período. Vale notar que o grosso da economia americana ainda consiste em bens e serviços produzidos para consumo doméstico. Ao mesmo tempo, por causa do simples tamanho dessa economia, os Estados Unidos são um dos maiores exportadores, atrás somente da China e da Alemanha, em termos de valor total. Os Estados Unidos têm muito a ganhar com um sistema de negócios internacional, aberto. Mais uma vez, o mesmo acontece com o resto do mundo.
Tendo apresentado essa ideia em diferentes lugares, agora sou eu quem recebe cartas de ódio, também. Às vezes é até divertido. Minha mensagem favorita é um e-mail que veio em resposta a uma coluna argumentando que uma Índia mais rica, que cresce mais depressa, beneficiará os Estados Unidos. Após a usual introdução dizendo que eu deveria ser substituído por alguém de algum país com salários baixos logo que possível, o e-mail concluía: “Por que você e Tom Friedman (autor do livro pró-globalização O mundo é plano) não alugam um quarto juntos? O mundo não é plano, sua cabeça é que é!” Outros tendem a ser menos sutis, como o e-mail com a linha de assunto preenchida da seguinte forma: “VOCÊ É UM BABACA !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!” (Sim, esse é o número exato de pontos de exclamação.)
Não obstante esses pontos de exclamação, quase toda teoria e as evidências sugerem que os benefícios dos negócios internacionais excedem de longe os custos. O tópico é digno de um livro inteiro; alguns livros bons abrangem tudo, desde a estrutura administrativa da Organização Mundial do Comércio até o destino das tartarugas marinhas apanhadas nas redes de camarão. Contudo, as ideias básicas subjacentes aos custos e benefícios da globalização são simples e diretas. De fato, nenhum assunto moderno provocou tanto pensamento descuidado. O caso dos negócios internacionais apoia-se nas ideias mais básicas da economia.
Transações nos enriquecem. As transações de negócios têm a distinção de ser uma das ideias mais importantes em economia, e também uma das menos fáceis de compreender. Abraham Lincoln certa vez foi aconselhado a comprar trilhos de ferro baratos da Grã-Bretanha para terminar a ferrovia transcontinental. Ele retrucou: “Parece-me que se comprarmos os trilhos da Inglaterra teremos os trilhos e eles terão o dinheiro. Mas se fabricarmos os trilhos aqui
teremos os trilhos e o dinheiro.”4 Para entender os benefícios das transações comerciais, precisamos achar a falácia na economia do sr. Lincoln. Deixe-me parafrasear seu argumento e ver se a falha lógica fica clara. Se compro carne do açougueiro, então fico com a carne e ele fica com o meu dinheiro. Mas se eu criar uma vaca no meu quintal durante três anos e eu mesmo abatê-la, então fico com a carne e com o meu dinheiro. Por que então não crio uma vaca no meu quintal? Porque seria uma tremenda perda de tempo – tempo que eu poderia usar para fazer algo bem mais produtivo. Nós transacionamos com os outros porque isso nos libera tempo e recursos para fazer coisas nas quais somos melhores.
A Arábia Saudita consegue produzir petróleo mais barato que os Estados Unidos. Por sua vez, os Estados Unidos podem produzir milho e soja mais baratos que a Arábia Saudita. A troca milho versus petróleo é um exemplo de transação de vantagem absoluta. Quando países diferentes são melhores em produzir coisas diferentes, eles podem ambos consumir mais especializando-se naquilo que fazem melhor e negociando o produto. As pessoas em Seattle não devem cultivar seu próprio arroz. Em vez disso, devem construir aviões (Boeing), projetar softwares (Microsoft) e vender livros (Amazon) – deixando o cultivo de arroz para os agricultores da Tailândia ou da Indonésia. Ao mesmo tempo, esses agricultores podem desfrutar dos benefícios do Microsoft Word mesmo que não tenham a tecnologia ou as habilidades necessárias para produzir o software. Países, como indivíduos, possuem diferentes vantagens naturais. Não faz mais sentido a Arábia Saudita cultivar verduras e legumes do que Tiger Woods consertar seu próprio carro.
Tudo bem, e quanto aos países que não fazem nada particularmente bem? Afinal, há países pobres porque não são produtivos. O que Bangladesh tem a oferecer aos Estados Unidos? Muita coisa, é o que descobrimos com um conceito chamado vantagem comparativa. Os trabalhadores em Bangladesh não precisam ser melhores que os trabalhadores americanos em produzir alguma coisa para lá que constitua um ganho numa transação. Em vez disso, produzem coisas para nós de modo que possamos gastar nosso tempo especializando-nos no que fazemos melhor. Eis um exemplo. Em Seattle moram muitos engenheiros. Esses homens e mulheres têm doutorado em engenharia mecânica e provavelmente sabem mais sobre fabricação de sapatos e camisas que qualquer um em Bangladesh. Então, por que compramos camisas e sapatos importados produzidos pelos incultos trabalhadores de Bangladesh? Porque nossos engenheiros de Seattle também sabem como projetar e fabricar aviões comerciais. De fato, é isso que eles fazem melhor, o que quer dizer que fabricar jatos gera o maior valor para o tempo deles e delas. Importar camisas de Bangladesh libera-os para fazer isso, e o mundo fica melhor para todos.
Produtividade é o que nos torna ricos. Especialização é o que nos torna produtivos. Transações de negócios permitem que nos especializemos. Nossos engenheiros de Seattle são mais produtivos fazendo aviões que costurando camisas; e os operários têxteis em Bangladesh são mais produtivos fazendo camisas e sapatos que qualquer outra coisa (ou não estariam dispostos a trabalhar numa fábrica têxtil). Neste momento estou escrevendo. Minha esposa está dirigindo uma firma de consultoria de software. Uma mulher maravilhosa chamada Clementine toma conta dos nossos filhos. Não empregamos Clemen porque ela é melhor que nós na criação de nossos filhos (embora haja momentos em que eu ache isso). Empregamos Clemen porque ela nos possibilita trabalhar durante o dia nas tarefas que fazemos bem, e esse é o melhor arranjo possível para a nossa família – sem mencionar Clemen, os leitores deste livro e os clientes da minha esposa.
Transações de negócios tornam mais eficiente o uso dos recursos escassos do mundo.
Transações criam perdedores. Se as transações de negócios transportam os benefícios da competição para os confins da Terra, então os destroços da destruição criativa não podem estar muito longe disso. Tente explicar os benefícios da globalização para os trabalhadores do setor de calçados do Maine que perderam seus empregos porque sua fábrica mudou-se para o Vietnã. (Lembre-se, fui redator de discursos para o governador do Maine, eu tentei explicar isso.) Transações, como a tecnologia, podem destruir empregos, em particular os de baixa qualificação. Se um trabalhador do Maine ganha US$ 14 por hora por algo que pode ser feito no Vietnã por US$ 1 por hora, então ele teria de ser catorze vezes mais produtivo. Se não, uma empresa que busca maximizar seus lucros escolherá o Vietnã. Países pobres também perdem empregos. Indústrias que se protegeram durante décadas da competição internacional e que, portanto, adotaram todos os maus hábitos provenientes de não ter de competir podem ser esmagadas por uma competição impiedosamente eficiente vinda do exterior. Você gostaria de ser o produtor da Thumbs-Up Cola na Índia quando a Coca-Cola entrou no mercado, em 1994?
A longo prazo, transações de negócios facilitam o crescimento e uma economia crescente pode absorver trabalhadores que perderam seu lugar. As exportações aumentam e os consumidores ficam mais ricos com importações baratas; as duas coisas criam demanda por novos trabalhadores em algum outro setor da economia. Perdas de empregos relacionadas a transações de negócios tendem a ser relativamente pequenas em relação à capacidade da economia de gerar novos empregos. Um estudo pós-Nafta concluiu que em média foram perdidos 37 mil empregos por ano de 1990 até 1997 por causa do livre comércio com o
México. No mesmo período a economia criou 200 mil empregos por mês.5 Ainda assim, “a longo prazo” é uma dessas expressões impiedosas – juntamente com “custos de transição” e “deslocamentos de curto prazo” – que minimizam em demasia a dor e o desconforto humanos.
Espera-se que os operários do setor de calçados do Maine paguem suas hipotecas a curto prazo. A triste realidade é que tampouco poderão estar melhor de vida a longo prazo. Trabalhadores deslocados muitas vezes têm problemas de qualificação. (Muito mais operários ficam supérfluos em decorrência da nova tecnologia que em consequência de transações de negócios.) Se uma indústria está concentrada numa área geográfica, como frequentemente acontece, trabalhadores dispensados poderão assistir ao desaparecimento de seu modo de vida e de suas comunidades.
O New York Times documentou o caso de Newton Falls, uma comunidade ao norte do estado de Nova York que cresceu em torno de uma fábrica de papel aberta em 1894. Um século depois, a fábrica fechou, em parte pela crescente competição externa. Isso não é nada bonito:
Desde outubro – depois que fracassou um esforço de última hora para salvar a fábrica – Newton Falls vem se tornando
cada vez mais um estudo de caso de dolorosa sociologia rural: uma cidade moribunda, onde as poucas pessoas que restam
dão um sombrio testamento sobre ver sua comunidade decair como um relógio sem corda, soando as horas
inexoravelmente rumo à batida final.6
Sim, os ganhos econômicos das transações superam as perdas, mas os vencedores raramente assinam cheques para os perdedores. E os perdedores muitas vezes têm perdas terríveis. Que consolo é, para um operário de calçados do Maine, que uma transação com o Vietnã deixe o país mais rico como um todo? Ele está mais pobre e provavelmente sempre estará. Também recebi esse tipo de e-mails.
De fato, estamos de volta ao debate sobre capitalismo que tivemos no começo do livro e outra vez no Capítulo 8. Os mercados criam uma ordem nova, mais eficiente, destruindo a velha ordem. Não há nada de agradável nisso, particularmente para indivíduos e empresas equipados para a velha ordem. Transações internacionais tornam os mercados maiores, mais competitivos e com maior potencial de ruptura. Mark Twain antecipou o dilema fundamental: “Eu sou totalmente a favor do progresso; é da mudança que eu não gosto.”
Marvin Zonis, consultor internacional e professor da Booth School of Business da Universidade de Chicago, chamou os benefícios potenciais da globalização de “imensos”, particularmente para os mais pobres dos pobres. E também observou: “A globalização rompe com tudo, em toda parte. Rompe com padrões de vida estabelecidos – entre marido e esposa, pais e filhos; entre homens e mulheres, jovens e velhos; entre patrão e empregado, governante
e governado.”7 Podemos fazer alguma coisa para mitigar esses golpes. Podemos treinar e até relocar trabalhadores. Podemos prover assistência de desenvolvimento para comunidades prejudicadas pela perda de uma grande indústria. Podemos assegurar que nossas escolas ensinem tipos de capacitação que tornem os trabalhadores adaptáveis a qualquer lugar onde a economia os jogue. Em suma, podemos garantir que os vencedores façam cheques (ainda que indiretamente) para os perdedores, dividindo pelo menos parte de seus ganhos. Isso é boa política e a coisa certa a se fazer.
Kenneth Scheve, professor de ciência política em Yale, e Matthew Slaughter, economista da Tuck School of Business de Dartmouth, escreveram um instigante artigo na Foreign Affairs argumentando que os Estados Unidos deveriam adotar um “sistema federal de impostos fundamentalmente mais progressista” (por exemplo, taxar mais os ricos) como melhor maneira de salvar a globalização de um “coice” protecionista. O interessante é que esses rapazes não são radicais de esquerda vestindo camisetas psicodélicas; Matt Slaughter serviu na administração de George W. Bush. Ao contrário, eles argumentam que os enormes benefícios para a economia americana como um todo estão em risco pelo fato de muitos americanos não verem aumento em seus contracheques. Scheve e Slaughter explicam:
A política [dos Estados Unidos] está se tornando mais protecionista porque o público está ficando mais protecionista, e o
público está ficando mais protecionista porque os rendimentos estão estagnados ou em queda. A integração da economia
mundial tem impulsionado a produtividade e a criação de riqueza nos Estados Unidos e em grande parte do mundo. Mas
dentro de muitos países, e certamente dentro dos Estados Unidos, os benefícios dessa integração têm se distribuído de
forma desigual – e esse fato está sendo cada vez mais reconhecido. Os indivíduos se perguntam: “A globalização é boa
para mim?” E um número cada vez maior de casos chega à conclusão de que não é.
Os autores propõem “um New Dealc para a globalização – que vincule o engajamento numa economia mundial a uma substancial redistribuição de renda”. Lembre-se, isso não é um papo de hippie. Os formuladores da ideia são dois capitalistas que veem trabalhadores irados com seus forcados parados sem ter o que fazer diante de uma fábrica muito lucrativa, e estão fazendo um cálculo muito pragmático: distribuam a essa gente um pouco de comida (e talvez
alguns ingressos de cinema e cerveja) antes que todos nós acabemos pior.8
O protecionismo salva empregos a curto prazo e retarda o crescimento econômico a longo prazo. Nós podemos salvar os empregos daqueles operários do setor de calçados do Maine e proteger lugares como Newton Falls. Podemos tornar lucrativas as usinas de aço em Gary, Indiana. Basta que nos livremos da competição externa. Podemos erigir barreiras comerciais para impedir a destruição criativa na fronteira. Então, por que não fazemos isso? Os benefícios do protecionismo são óbvios, como os empregos que serão salvos. Porém, ai de nós, os custos do protecionismo são mais sutis; é difícil apontar os empregos que jamais serão criados ou as receitas mais altas que nunca serão ganhas.
Para entender os custos das barreiras comerciais, vamos pensar sobre uma estranha questão: os Estados Unidos estariam em melhor situação se fosse proibido fazer transações atravessando o rio Mississippi? A lógica do protecionismo sugere que sim. Para aqueles de nós que estão a leste do Mississippi, novos empregos seriam criados, já que não teríamos mais acesso a coisas como aviões Boeing ou vinhos do norte da Califórnia. Mas quase todo trabalhador capacitado a leste do Mississippi já está trabalhando, e estamos fazendo coisas em que somos melhores do que aviões ou vinho. Ao mesmo tempo, os trabalhadores do Oeste, que agora são muitos bons em produzir aviões ou vinho, teriam de deixar seus empregos para fazer os bens normalmente vindos do Leste. Eles não seriam tão bons nesses serviços quanto as pessoas que os fazem atualmente. Impedir transações através do Mississippi faria voltar atrás o relógio da especialização. Não teríamos acesso a produtos superiores e seríamos forçados a fazer serviços nos quais não somos particularmente bons. Em suma, ficaríamos mais pobres, porque coletivamente seríamos menos produtivos. É por isso que os economistas são a favor de negócios não só de um lado a outro do Mississippi, mas também de um lado a outro do Atlântico e do Pacífico. Negócios globais adiantam o relógio da especialização, e o protecionismo impede que isso aconteça.
Os Estados Unidos castigam países malcomportados impondo punições econômicas. No caso de sanções severas, proibimos quase todas as importações e exportações. Um artigo recente no New York Times comentava o devastador impacto das sanções a Gaza. Desde que o Hamas chegou ao poder e recusou-se a renunciar à violência, Israel limitou o que pode entrar e sair do território, deixando Gaza “quase inteiramente fechada ao comércio normal com o mundo”. Antes da Guerra do Iraque, nossas (malsucedidas) sanções àquele país foram responsáveis pela morte de algo em torno de 100 mil a 500 mil crianças, dependendo da
pessoa em quem você acredita.9 Mais recentemente, as Nações Unidas impuseram várias rodadas de sanções cada vez mais rigorosas ao Irã por não suspender seu programa nuclear clandestino. O Christian Science Monitor explicou a lógica econômica: sanções mais rígidas “atingiriam duramente os mulás governantes aumentando o desemprego já altíssimo no Irã, e talvez forçassem uma gradual mudança de regime”.
Os estudiosos da Guerra Civil devem se lembrar de que uma estratégia-chave do Norte foi impor um bloqueio naval ao Sul. Por quê? Porque o Sul não podia negociar o que produzia bem (algodão) com a Europa em troca daquilo de que mais precisavam (bens manufaturados).
Então, eis uma pergunta: por que haveríamos de querer impor sanções a nós mesmos – que é exatamente o que faz qualquer tipo de protecionismo? Será que os manifestantes antiglobalização podem explicar como os países pobres ficarão mais ricos se negociarem menos com o resto do mundo? Como Gaza? Eliminar as transações comerciais deixa um país mais pobre e menos produtivo – e é por isso que as suspendemos com os inimigos.
Transações baixam o custo de bens para os consumidores, o que é o mesmo que aumentar sua renda. Esqueça momentaneamente os operários da indústria de calçados e pense nos calçados. Por que a Nike faz calçados no Vietnã? Porque é mais barato do que fazê-los nos Estados Unidos, e isso significa calçados menos caros para todos nós. Um paradoxo das transações comerciais é que os indivíduos que alegam preocupar-se com os oprimidos esquecem o fato de que importados baratos são bons para consumidores de baixa renda (para nós todos). Bens mais baratos têm o mesmo impacto em nossas vidas que as rendas mais altas. Podemos nos permitir comprar mais. A mesma coisa vale, obviamente, em outros países.
Barreiras comerciais são um imposto – embora um imposto disfarçado. Suponha que o governo americano baixasse um imposto de 30% sobre cada galão de suco de laranja vendido nos Estados Unidos. As forças conservadoras antigoverno pegariam em armas. O mesmo aconteceria com os liberais, que em geral criam caso com impostos sobre alimentos e vestuário, uma vez que eles são regressivos, custam mais (em termos de porcentagem de renda) para os menos favorecidos. Bem, o governo soma 30% ao custo de cada galão de suco de laranja, embora não de maneira tão transparente quanto um imposto. O governo americano impõe tarifas às laranjas e ao suco de laranja brasileiros que chegam a até 63%. Partes do Brasil são praticamente ideais para cultivo de cítricos, o que preocupa os produtores americanos, e o governo os protege. Economistas estimam que as tarifas sobre as laranjas e o suco de laranja brasileiros limitam a oferta de importados, e portanto acrescentam US$ 0,30 ao preço do galão de suco de laranja. A maioria dos consumidores não tem ideia de que o governo está tirando dinheiro de seus bolsos e mandando para os produtores de laranja
da Flórida.10 Isso não aparece na nota fiscal.
Eliminar barreiras comerciais tem o mesmo impacto para os consumidores que reduzir impostos. O precursor da Organização Mundial do Comércio era o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt, sigla em inglês de General Agreement on Tariffs and Trade). Após a Segunda Guerra Mundial, o Gatt foi o mecanismo pelo qual os países negociaram a redução de tarifas globais, abrindo caminho para o comércio. Nas oito rodadas de negociações do Gatt, entre 1948 e 1995, as tarifas médias em países industriais caíram de 40 para 4%. Essa é uma redução maciça no “imposto” pago sobre todos os bens importados. O governo também forçou os produtores domésticos a baratear e melhorar seus bens para se manterem competitivos. Se você entra hoje numa concessionária de carros, você está melhor que em 1970 por dois motivos: primeiro, há uma escolha maior de importados excelentes; segundo, Detroit respondeu (de forma lenta, atrasada e incompleta) fazendo carros melhores, também. O Honda Accord e o Ford Taurus melhoram sua vida, que está melhor do que estaria se não houvesse competição.
Transações são boas também para os países pobres. Se tivéssemos explicado pacientemente os benefícios das transações comerciais aos manifestantes em Seattle, Washington, Davos ou Gênova, talvez eles tivessem largado seus coquetéis molotov. OK, talvez não. A essência dos protestos antiglobalização tem sido que os negócios globais são algo imposto pelos países ricos ao mundo em desenvolvimento. Se tais negócios são bons para os Estados Unidos, então devem ser ruins para algum outro lugar. A esta altura do livro, deveríamos reconhecer que pensar em termos de soma zero em geral está errado quando se trata de economia. E é esse o caso. Representantes das nações em desenvolvimento foram os que se queixaram mais amargamente da interrupção das conversações da OMC em Seattle. Alguns acreditavam que a administração Clinton organizou secretamente os protestos para arruinar as conversações e proteger grupos de interesse americanos, como as organizações sindicais. De fato, após o fracasso das conversações da OMC em Seattle, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, culpou os países desenvolvidos por erigir barreiras comerciais que excluem os países em desenvolvimento dos benefícios do comércio global e conclamou a um “New Deal
Global”.11 A atual rodada de conversações da OMC para reduzir barreiras de comércio globais, a rodada de Doha, emperrou em grande parte porque um bloco de países em desenvolvimento está exigindo que os Estados Unidos e a Europa reduzam seus subsídios agrícolas e suas barreiras comerciais. Até agora os países ricos têm se recusado a fazer isso.
Negócios internacionais dão aos países pobres acesso a mercados no mundo desenvolvido. É aí que a maioria dos consumidores do mundo está (ou pelo menos aqueles com dinheiro para gastar). Considere o impacto do African Growth and Opportunity Act, lei passada em 2000 que permitiu aos países mais pobres da África exportar têxteis para os Estados Unidos com uma tarifa mínima ou nula. Em um ano, as exportações têxteis de Madagascar para os Estados Unidos subiram 120%, as do Maláui subiram 1.000%, da Nigéria, 1.000% e da África do Sul, 47%. Conforme observou um comentarista, isso são
“empregos reais para pessoas reais”.12
Tais negócios abrem caminho para o enriquecimento dos países mais pobres. As indústrias de exportação pagam salários mais altos que outras áreas da economia. Novos empregos na exportação criam mais competição para os trabalhadores, o que faz os salários subirem em outras áreas. Mesmo os rendimentos rurais podem subir; com os trabalhadores deixando as áreas rurais em busca de melhores oportunidades, há menos bocas para alimentar com o que pode ser cultivado na terra que estão deixando para trás. Outras coisas importantes acontecem ao mesmo tempo. Empresas estrangeiras introduzem capital, tecnologia e novas qualificações. Isso não só torna os trabalhadores da exportação mais produtivos, como também é algo que se espalha para outras áreas da economia. Os trabalhadores “aprendem fazendo” e carregam conhecimento consigo.
No excelente livro O espetáculo do crescimento, William Easterly conta a história do advento da indústria de vestuário de Bangladesh, uma indústria fundada quase por acaso. A corporação Daewoo, da Coreia do Sul, era uma importante produtora têxtil na década de 1970. Os Estados Unidos e a Europa haviam imposto cotas de importação aos têxteis da Coreia do Sul, então a Daewoo, empresa que sempre busca maximizar seus lucros, contornou as restrições comerciais transferindo algumas operações para Bangladesh. Em 1979, a Daewoo assinou um acordo de colaboração para produzir camisas com a empresa bangladeshi Desh Garments. Mais significativo, a Daewoo levou 130 operários bangladeshis para treinamento na Coreia do Sul. Em outras palavras, a Daewoo investiu no capital humano de seus funcionários de Bangladesh. O aspecto intrigante com referência ao capital humano, ao contrário do capital financeiro ou da maquinaria, é que ele jamais pode ser retirado. Uma vez que esses trabalhadores bangladeshis sabiam fazer camisas, jamais seriam forçados a esquecer. E não esqueceram.
A Daewoo depois rompeu sua relação com o sócio bangladeshi, mas as sementes para a explosão da indústria exportadora já estavam plantadas. Dos 130 operários treinados pela Daewoo, 115 deixaram a empresa na década de 1980 para abrir suas próprias firmas de exportação de vestuário. O sr. Easterly argumenta de forma convincente que o investimento da Daewoo foi um bloco construtivo essencial para o que veio a se tornar uma indústria exportadora de roupas no valor de US$ 3 bilhões. A menos que alguém acredite que as barreiras comerciais sejam construídas para ajudar os mais pobres entre os pobres, ou que os republicanos sejam mais adversos a proteger interesses especiais que os democratas, deve-se notar que a administração Reagan baixou as cotas de importação sobre os têxteis de Bangladesh nos anos 1980. Seria dificílimo explicar as razões econômicas para limitar as oportunidades de exportação de um país com um PIB per capita de US$ 1.500.
No caso mais famoso, as exportações baratas foram o caminho da prosperidade para os “tigres” asiáticos: Singapura, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan (e para o Japão antes disso). A Índia manteve-se surpreendentemente insular durante as quatro décadas após a conquista da sua independência da Grã-Bretanha, em 1947; foi um dos países de pior desempenho econômico durante esse período. (Pudera, Gandhi, assim como Lincoln, foi um grande líder, mas péssimo economista; Gandhi propôs que a bandeira indiana tivesse uma roca de fiação para indicar autossuficiência econômica.) A Índia reverteu esse curso na década de 1990, desregulando a economia doméstica e abrindo-se para o mundo. O resultado é uma contínua história de sucesso. A China também tem usado as exportações como plataforma para o crescimento. De fato, se as trinta províncias chinesas fossem contadas como países individuais, as vinte nações de maior crescimento no mundo entre 1978 e 1998 teriam sido chinesas. Para colocar em perspectiva tais conquistas de desenvolvimento, foram necessários 58 anos para o PIB per capita da Grã-Bretanha duplicar após o início da Revolução Industrial. Na China, o PIB per capita tem duplicado a cada dez anos. Nos casos da Índia e da China, estamos falando de centenas de milhões de pessoas tiradas da pobreza e, cada vez mais, entrando na classe média. Nicholas Kristof e Sheryl WuDunn, correspondentes na Ásia do New York Times por mais de uma década, escreveram:
Nós e outros jornalistas escrevemos sobre os problemas do trabalho infantil e das condições opressivas tanto na China
quanto na Coreia do Sul. Mas, olhando para trás, nossas preocupações foram excessivas. Essas fábricas de péssimas
condições tiveram uma mirada e a riqueza necessárias para resolver os problemas que criaram. Se os americanos tivessem
reagido às histórias de horror na década de 1980, reduzindo importações de produtos dessas terríveis fábricas, nem a China
meridional nem a Coreia do Sul teriam registrado o progresso que hoje apresentam.13
A China e o Sudeste Ásiático não são casos especiais. A firma de consultoria AT Kearney realizou um estudo sobre como a globalização tem afetado 34 países desenvolvidos e em desenvolvimento. Descobriu que os países de globalização mais rápida tiveram, nos últimos vinte anos, índices de crescimento entre 30 e 50% mais altos que os países menos integrados à economia mundial. Esses países também desfrutaram de maior liberdade política e obtiveram avaliação mais alta no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. Os autores estimam que cerca de 1,4 bilhão de pessoas escaparam da pobreza absoluta como resultado de crescimento econômico associado à globalização. Havia más notícias, também. Índices mais elevados de globalização estavam associados a taxas mais altas de desigualdade de renda, corrupção e degradação ambiental. Falarei sobre isso adiante.
Mas há um jeito mais fácil de defender a causa da globalização. Se não houver um aumento dos negócios e da integração econômica, o que se deve fazer em seu lugar? Aqueles que se opõem a transações de negócios mais globais precisam responder a essa pergunta, segundo o ponto defendido por Jeffrey Sachs, economista de Harvard: existe algum exemplo na história contemporânea de um único país com desenvolvimento bem-sucedido que não
tenha feito negócios nem se integrado à economia mundial?14
Não, não existe.
E é por isso que Tom Friedman sugeriu que a coalizão antiglobalização deveria ser conhecida como “Coalizão para manter os pobres do mundo sempre pobres”.
Transações baseiam-se em trocas voluntárias. Indivíduos fazem coisas que tornam sua vida melhor. Esse ponto óbvio muitas vezes se perde do debate sobre a globalização. O McDonald’s não abre um restaurante em Bangkok e depois encosta uma arma na cabeça das pessoas para obrigá-las a comer lá. As pessoas comem lá porque querem. E se não querem, não são obrigadas. E se ninguém comer lá, o restaurante perde dinheiro e fecha. O McDonald’s muda as culturas locais? Sim. Foi isso que chamou minha atenção, uma década atrás, quando escrevi sobre o Kentucky Fried Chicken em Bali. Escrevi: “Os indonésios têm a sua própria versão de fast-food, mais prática que as caixas de papelão e os pratos de isopor do coronel. Uma refeição comprada numa barraca de comida é embrulhada em folha de bananeira e jornal. A grande folha verde retém o calor, é impermeável à gordura, pode ser dobrada e formar um belo pacotinho.”
De maneira geral, as folhas de bananeira do mundo parecem estar perdendo para o papelão. Não muito tempo atrás, participei de uma reunião de negócios com minha esposa em Puerto Vallarta, no México. Puerto Vallarta é uma cidade adorável, que desce pelas montanhas na direção do Oceano Pacífico. O ponto focal da cidade é um passeio público que corre ao longo do oceano. Perto da metade desse passeio há um lugar onde ele se projeta diretamente para dentro do mar e, na extremidade, há um local que considero um dos terrenos mais preciosos da cidade, um restaurante Hooters. Quando nosso grupo divisou essa infame exportação americana, um homem resmungou: “Isso está simplesmente errado.”
Um Hooters em todas as grandes cidades do mundo provavelmente não é o que Adam Smith tinha em mente. O professor Marvin Zonis, da Universidade de Chicago, observou: “Certos aspectos da cultura popular americana – depravação e grosseria, violência e
sexualidade – são dignas de ressentimento.”15 A ameaça de “homogeneização cultural” – sendo o pior produto dos Estados Unidos – é um argumento comum contra a globalização. Mas ela é uma questão que nos leva de volta a um ponto crucial do Capítulo 1: quem decide? Eu não fiquei feliz de ver um Hooters em Puerto Vallarta, mas, como ressaltei muitas páginas atrás, não sou eu quem dirige o mundo. Mais importante ainda, não moro nem voto em Puerto Vallarta. Nem os desordeiros que atiram pedras em Seattle, Gênova ou Pittsburgh (ou onde quer que eles resolvam aparecer).
Há razões legítimas para limitar a proliferação das cadeias de fast-food e similares? Sim, elas apresentam intromissões clássicas. Os restaurantes fast-food geram tráfego e lixo, são feios e podem contribuir para a expansão desordenada. (Antes do meu valioso trabalho em oposição a uma nova estação de trem na Fullerton Avenue, fiz parte de um grupo que tentou impedir um McDonald’s de se instalar do outro lado da rua.) Essas são decisões locais que deveriam ser tomadas pelas pessoas afetadas – aquelas que poderiam comer no limpo e seguro ambiente de um McDonald’s, bem como aquelas que poderão sofrer com embalagens de fast-food entupindo seus bueiros. O livre comércio é consistente com um dos nossos valores liberais mais básicos: o direito de tomar nossas próprias decisões.
Agora há um McDonald’s em Moscou e um Starbucks na Cidade Proibida de Pequim. Stálin jamais teria permitido o primeiro; Mao jamais teria permitido o último. O que é um aspecto digno de reflexão.
De qualquer forma, o argumento da homogeneização cultural pode não ser verdadeiro. A cultura é transmitida em todas as direções. Posso agora assistir a um filme iraniano na Netflix. A rádio pública nacional recentemente apresentou um segmento sobre artesãos e artistas em regiões remotas do mundo que estão vendendo seu trabalho via internet. É possível conectar-
se à Novica.com e encontrar uma loja virtual global de arte e artesanato. Katherine Ryan, que trabalha para a Novica, esclarece: “Há uma comunidade no Peru onde a maioria dos artistas ia trabalhar em minas de carvão. Agora, com o sucesso da Novica, um artista pôde contratar muitos dos membros da sua família e vizinhos para trabalhar no ramo de tecelagem, e eles não são mais mineiros de carvão. Agora estão fazendo o que a família fez durante muitas gerações,
ou seja, tapeçarias incríveis.”16 John Micklethwait e Adrian Wooldridge, autores do tratado sobre globalização A Future Perfect, ressaltam que, no reino dos negócios, uma empresa finlandesa antes obscura como a Nokia foi capaz de enfrentar mastodontes americanos como a Motorola.
ESTAMOS APENAS FAZENDO um aquecimento quando se trata dos efeitos colaterais da globalização. Um Hooters em Puerto Vallarta é uma leve dor de cabeça em comparação com os horrores das comprimidas fábricas asiáticas. Todavia, os princípios são os mesmos. A Nike não usa trabalho forçado nas fábricas vietnamitas, contudo, por que os trabalhadores estão dispostos a aceitar US$ 1 ou US$ 2 por dia? Porque é melhor que qualquer outra alternativa que eles têm à mão. Segundo o Instituto de Economia Internacional, o salário médio pago por empresas estrangeiras em países de baixa renda é o dobro do salário médio doméstico na indústria.
Nicholas Kristof e Sheryl WuDunn descreveram uma visita a Mongkol Latlakorn, tailandês cuja filha de quinze anos estava trabalhando numa fábrica em Bangkok fazendo roupas a fim de exportar para os Estados Unidos.
Ela recebe US$ 2 por um dia de nove horas, seis dias por semana. Em várias ocasiões, agulhas espetaram suas mãos, e os
gerentes fizeram ataduras para que ela pudesse voltar ao trabalho.
“Que terrível”, nós murmuramos solidariamente.
Mongkol ergueu os olhos, intrigado. “É um bom pagamento”, ele disse. “Espero que ela consiga manter o emprego.
Agora há toda essa conversa sobre fecharem as fábricas, e ela disse que há boatos de que a fábrica dela pode fechar.
Espero que isso não aconteça. Eu não sei o que ela faria.”17
A mensagem implícita dos protestos antiglobalização é que nós, no mundo desenvolvido, de algum modo sabemos o que é melhor para os povos dos países pobres – onde deveriam trabalhar e até em que tipos de restaurantes deveriam comer. Como observou a The Economist: “Os céticos desconfiam igualmente de governos, políticos burocratas internacionais e mercados. Então acabam se autoproclamando juízes, acima não só de governos e mercados, mas também das preferências voluntárias dos trabalhadores mais
interessados. Isso parece uma grande coisa a se levar adiante.”18
A vantagem comparativa de trabalhadores em países pobres é a mão de obra barata. Isso é tudo que eles têm a oferecer. Eles não são mais produtivos que os trabalhadores americanos, não têm melhor educação, não têm acesso a tecnologia melhor. Ganham muito pouco pelos padrões ocidentais porque realizam muito pouco pelos padrões ocidentais. Se as empresas estrangeiras forem obrigadas a aumentar os salários de modo significativo, então não há mais qualquer vantagem em ter fábricas no mundo em desenvolvimento. As empresas substituirão os trabalhadores por máquinas, ou se mudarão para algum lugar onde a maior produtividade justifique maiores salários. Se as fábricas de péssimas condições pagassem um salário decente pelos padrões ocidentais, elas não existiriam. Não há nada de bonito em pessoas dispostas a trabalhar longas horas em condições ruins por alguns dólares por dia, mas não confundamos causa e efeito. Não são essas fábricas horrorosas a causa dos baixos salários nos países pobres; ao contrário, elas pagam baixos salários porque esses países oferecem pouquíssimas outras alternativas aos trabalhadores. Os manifestantes poderiam muito bem jogar pedras e garrafas em hospitais por haver tanta gente doente sofrendo lá dentro.
Tampouco faz sentido achar que podemos melhorar as condições dos trabalhadores nessas fábricas recusando-nos a comprar os produtos que eles fazem. A industrialização, por mais primitiva que seja, põe em movimento um processo que pode tornar mais ricos os países pobres. O sr. Kristof e a sra. WuDunn chegaram à Ásia na década de 1980. “Como a maioria dos ocidentais, chegamos à região indignados com as péssimas condições daquelas fábricas”, recordam eles catorze anos depois. “Com o tempo, porém, acabamos aceitando o ponto de vista defendido pela maioria dos asiáticos: de que a campanha contra essas fábricas pode prejudicar a população que pretende ajudar. Pois por baixo dessa superfície encardida, essas fábricas são um sinal claro da revolução industrial que está começando a remodelar a Ásia.” Depois de descrever suas horríveis condições – trabalhadores impedidos de ir ao banheiro, exposição a produtos químicos perigosos, obrigação de trabalhar sete dias por semana –, eles concluem: “Os trabalhadores asiáticos ficariam horrorizados com a ideia de os consumidores americanos boicotarem certos brinquedos ou roupas como forma de protesto. O meio mais
simples de ajudar os asiáticos mais pobres é comprar mais dessas fábricas, não menos.”19
Ainda não está convencido? Paul Krugman fornece um triste exemplo de boas intenções que dão errado:
Em 1993, descobriram crianças operárias em Bangladesh produzindo roupas para o Walmart; o senador Tom Harkin
propôs uma legislação banindo importados de países que empregassem trabalhadores menores de idade. O resultado direto
foi que as fábricas têxteis de Bangladesh pararam de empregar crianças. Mas as crianças voltaram à escola? Voltaram a
lares felizes? Não, segundo a Oxfam, d que descobriu que as crianças operárias demitidas acabaram em empregos ainda
piores ou nas ruas – e que uma quantidade significativa delas foi forçada à prostituição.20
Opa.
Preferências mudam com a renda, particularmente em relação ao ambiente. Pessoas pobres preocupam-se com coisas diferentes das pessoas ricas. Pelos padrões globais, pobre não significa contentar-se com um Ford Fiesta quando na verdade o que você queria era um BMW. Pobre é ver seus filhos morrerem de malária porque você não tinha dinheiro para comprar um mosquiteiro de US$ 5. Há partes do mundo em que US$ 5 são cinco dias de trabalho. Segundo esses mesmos padrões, qualquer um que leia um livro é rico. O modo mais rápido de encerrar qualquer discussão significativa sobre globalização é acenar com a cartada do meio ambiente. Mas façamos um exercício simples para ilustrar por que pode ser terrivelmente errado impor nossas preferências ambientais ao resto do mundo. Eis a tarefa: peça a quatro amigos para citar o problema ambiental mais urgente do mundo.
Um bom palpite é que pelo menos dois deles citem o aquecimento global e nenhum mencione água limpa. No entanto, acesso inadequado a água potável – problema facilmente resolvido aumentando os padrões de vida – mata 2 milhões de pessoas por ano e deixa outro meio bilhão seriamente doente. Será que o aquecimento global é um problema sério? Sim. Seria nossa preocupação principal se as crianças em sua cidade morressem rotineiramente de diarreia? Não. A primeira falácia relacionada a negócios internacionais e meio ambiente é que os países pobres deveriam estar sujeitos aos mesmos padrões ambientais que o mundo desenvolvido. (O debate sobre segurança no trabalho é quase idêntico.) Produzir coisas gera resíduos. Lembro-me do primeiro dia de um curso de economia ambiental, quando o professor visitante Paul Portney, ex-chefe de Resources for the Future, ressaltou que o simples ato de ficar vivo impõe a produção de resíduos. O desafio é pesar os benefícios do que produzimos contra os custos de produzir, inclusive a poluição. Alguém que vive confortavelmente em Manhattan pode encarar esses custos e benefícios de forma diferente de alguém que viva à beira da fome no interior do Nepal. Logo, decisões de negócios que afetem o meio ambiente no Nepal deveriam ser tomadas no Nepal, reconhecendo que os problemas ambientais que cruzam fronteiras políticas serão resolvidos do modo habitual, isto é, mediante acordos e organizações multilaterais.
A noção de que o desenvolvimento econômico é inerentemente ruim para o meio ambiente pode estar errada. A curto prazo, praticamente toda atividade econômica gera resíduos. Se produzimos mais, poluímos mais. Contudo, também é verdade que, à medida que ficamos mais ricos, prestamos mais atenção ao meio ambiente. Eis outro teste: em que ano a qualidade do ar em Londres (a cidade para a qual temos os melhores dados de poluição de longo prazo) chegou ao pior nível? Para facilitar, vamos restringir as opções: 1890; 1920; 1975; 2001. A resposta é 1890. De fato, a atual qualidade do ar é melhor que em qualquer outro período desde 1585. (Não há nada de especialmente “limpo” em cozinhar num fogo a céu aberto.) A qualidade ambiental é um bem de luxo no sentido técnico da palavra, o que quer dizer que damos mais valor a ela à medida que vamos ficando mais ricos. Aí reside um dos mais poderosos benefícios da globalização: transações internacionais enriquecem os países; países mais ricos se importam mais com a qualidade ambiental e têm mais recursos a seu dispor para lidar com a poluição. Os economistas estimam que muitos tipos de poluição aumentam à medida que o mais pobre se torna mais rico (quando toda família compra uma motocicleta) e depois diminuem em estágios posteriores (quando banimos o chumbo na gasolina e exigimos motores mais eficientes).
Os críticos das transações internacionais têm alegado que permitir que países, individualmente, tomem suas próprias decisões ambientais nos levará a uma “corrida para o fundo”, na qual os países pobres competem pelos negócios dilapidando seus ambientes. Isso não aconteceu. O Banco Mundial recentemente concluiu, após seis anos de estudo, que “paraísos poluidores – países em desenvolvimento que fornecem abrigo permanente para indústrias sujas – não se materializaram. Em vez disso, nações e comunidades mais pobres estão atuando de forma a reduzir a poluição porque decidiram que os benefícios da redução
superam os custos”.21
A mudança do clima é um caso mais traiçoeiro, pois as emissões de carbono são uma situação de soma zero, pelo menos nos países em desenvolvimento, e a curto prazo. Países grandes, de crescimento rápido, como a China e a Índia, têm um apetite voraz por energia; para atender a essa necessidade, eles voltam-se sobretudo para combustíveis com base em
carbono. A China depende muito de carvão, um emissor de CO particularmente danoso. 2 Transações internacionais tornam esses países mais ricos. À medida que ficam mais ricos,
eles usam mais energia. Usando mais energia, as emissões de CO aumentam. Isso é um 2 problema. Então, qual o melhor remédio?
Se você acha que é reduzir os negócios, deixe-me apresentar uma versão ligeiramente diferente do mesmo desafio básico. A China e a Índia estão mandando cada vez mais cidadãos para a universidade (ao mesmo tempo que ampliam também sua educação básica). A educação está tornando a China e a Índia mais ricas. À medida que ficam mais ricos, esses países usam mais energia… Está vendo aonde isso leva? Devemos banir a educação?
Não. A resposta ao problema do CO é promover o crescimento – na Índia, na China, nos 2
Estados Unidos e em todo lugar – de uma maneira que minimize os danos ambientais. O melhor jeito de fazer isso é desencorajar o uso de combustíveis sujos impondo algum tipo de taxa de carbono que seja acordada entre os países – quanto mais cedo, melhor, porque a Índia e a China estão tomando decisões referentes a desenvolvimento, tais como construir usinas de energia, com as quais conviveremos por cinquenta anos.
O argumento de que manter as pessoas pobres é bom para o planeta é econômica e moralmente falido.
A POBREZA É uma droga. O diretor de uma escola de ensino médio perto dos conjuntos habitacionais Robert Taylor, em Chicago, certa vez me disse isso quando eu estava escrevendo um artigo sobre educação urbana. Ele se referia aos desafios de ensinar crianças que tinham crescido pobres e carentes. Ele podia muito bem estar falando da situação do mundo. Muitas partes do globo – partes nas quais raramente pensamos, e muito menos visitamos – são desesperadamente pobres. Nós deveríamos torná-las mais ricas; a economia nos diz que os negócios internacionais são um meio importante de fazê-lo. Paul Krugman resumiu habilmente a ansiedade sobre a globalização com um velho ditado francês: qualquer um que não seja socialista antes dos trinta anos não tem coração; qualquer um que ainda seja socialista depois dos trinta anos não tem cabeça. Ele escreveu:
Se você compra um produto feito num país do Terceiro Mundo, ele foi produzido por trabalhadores que recebem
incrivelmente pouco segundo os padrões ocidentais e provavelmente trabalham em condições horríveis. Qualquer um que
não se incomode com esses fatos, pelo menos por algum tempo, não tem coração. Mas isso não significa que os
manifestantes estejam certos. Ao contrário, qualquer um que pense que a resposta para a pobreza do mundo é a simples
indignação contra os negócios globais não tem cabeça – ou opta por não usá-la. O movimento antiglobalização já tem um
histórico notável de prejudicar os próprios povos e as causas que ele alega defender.22
A tendência rumo a transações de negócios mais globais muitas vezes é descrita como uma força impossível de deter. Não é. Nós já passamos por essa estrada antes, só para ver o sistema de comércio mundial ser dilacerado pela guerra e a política. Um dos períodos mais rápidos de globalização ocorreu durante o fim do século XIX e o começo do século XX. John Micklethwait e Adrian Wooldridge, autores de A Future Perfect, observaram: “Olhe cem anos para trás, e você descobrirá um mundo que, segundo qualquer critério de medida econômico, era mais global que hoje; viajar sem passaporte, o padrão-ouro como moeda internacional e tecnologia (carros, trens, navios e telefones) que tornava o mundo muitíssimo menor.” Por infortúnio, ressaltam eles: “Essa grande ilusão foi feita em pedaços nos campos de batalha de
Somme.”23
Fronteiras políticas ainda são importantes. Governos podem fechar a porta na cara da globalização, como já fizeram antes. Isso seria uma pena tanto para os países ricos quanto para os pobres.
a O título deste capítulo no original é “Trade and globalization”. A palavra trade significa, literalmente, “troca” e costuma ser traduzida como “comércio”, sendo esse, efetivamente, seu uso mais comum. No entanto, o leitor perceberá neste capítulo que o termo refere-se a qualquer tipo de “troca” – ou “transação” – envolvendo duas ou mais partes, ampliando-se assim seu significado. Desse modo, ele abrange situações comuns nas relações econômicas internacionais, como investimentos industriais, comerciais ou financeiros de empresas de um país (estatais ou privadas) em outro; acordos econômicos bi ou multilaterais; empréstimos em troca de facilidades econômicas e outras. Optamos portanto por traduzir trade por “transações de negócios”, ou simplesmente “transações”, conservando a fidelidade ao sentido mais amplo. Nos casos específicos, mantivemos a tradução como “comércio” ou “troca”. (N.T.)
b No original sweatshops – “oficinas de suor” –, que é como são conhecidas as fábricas e oficinas, geralmente de confecção de roupas e calçados, na Ásia. O nome é autoexplicativo, pois as condições de trabalho nesses locais são as piores possíveis. (N.T.)
c New Deal: traduzido literalmente como “Novo Acordo”, foi o nome dado a um programa implantado pelo presidente americano Franklin Delano Roosevelt a partir de 1933, com uma série de medidas visando recuperar e reformar a economia dos Estados Unidos após a Grande Depressão. (N.T.)
d Oxfam: Oxford Commitee for Famine Relief, confederação de dezessete ONGs com atuação nos países não desenvolvidos com o objetivo de procurar a solução dos problemas da pobreza e da injustiça social. (N.T.)