Economia nua e crua
10. O Federal Reserve: Por que essa nota no seu bolso é mais que um simples pedaço de papel
10. O Federal Reserve
Por que essa nota no seu bolso é
mais que um simples pedaço de papel
ÀS VEZES DECLARAÇÕES simples ressoam forte. Em 11 de setembro de 2001, horas depois dos ataques terroristas aos Estados Unidos, o Federal Reserve emitiu o seguinte comunicado: “O sistema do Federal Reserve está aberto e operando. O guichê de descontos está disponível para atender a necessidades de liquidez.”
Essas duas frases técnicas e concisas tiveram um efeito calmante sobre os mercados globais. Na segunda-feira seguinte, quando os mercados dos Estados Unidos abriram para as primeiras sessões de negócios após o ataque, o Federal Reserve reduziu as taxas de juros em 0,5%, outro ato que moderou o impacto financeiro e econômico das agressões terroristas.
Como um comunicado de duas frases, sem elegância, tem efeito tão profundo sobre a maior economia do mundo – de fato, sobre a economia global?
O Federal Reserve tem ferramentas com mais impacto direto sobre a economia global que qualquer outra instituição do mundo, pública ou privada. Durante a crise econômica que começou a se desenrolar em 2007, o Fed usou tudo o que tinha em sua caixa de ferramentas – e depois ainda adquiriu alguns utensílios novos – para forçar o sistema financeiro a retroceder do limiar do pânico. Desde então, algumas pessoas têm criticado o Fed e seu presidente, Ben Bernanke, por fazer demais; outras têm criticado o Fed por fazer de menos. Todo mundo concorda que aquilo que o Fed faz tem uma importância tremenda.
De onde o Federal Reserve, instituição que não é obrigada a prestar contas diretamente ao público eleitor, obtém tanto poder? E como esse poder afeta o cotidiano dos cidadãos americanos? A resposta a todas essas perguntas é a mesma: o Fed controla o suprimento de dinheiro e portanto a torneira de crédito para a economia. Quando a torneira está bem aberta, as taxas de juros caem e nós gastamos mais livremente em coisas que exigem dinheiro emprestado – tudo, desde carros novos até novas fábricas. Logo, o Fed pode usar a política monetária para contra-atacar crises econômicas (ou, em primeiro lugar, para preveni-las). E pode injetar dinheiro no sistema financeiro depois de choques súbitos, como o colapso do mercado de ações em 1987, ou os ataques terroristas do 11 de Setembro, ou o estouro da bolha imobiliária americana, quando consumidores e empresas poderiam ter congelado e parado de gastar. Ou, então, o Fed pode fechar a torneira, elevando as taxas de juros. Quando o custo de verbas emprestadas sobe, nossos gastos desaceleram. Esse é um poder assombroso. Paul Krugman certa vez escreveu: “Se você quer um modelo simples para prever a taxa de desemprego nos Estados Unidos ao longo dos próximos anos, aqui está ele: será o que Greenspan quiser, com uma margem de erro para cima ou para baixo, refletindo o fato de que ele não é Deus.” O mesmo vale agora para Ben Bernanke.
Deus não precisa delegar para administrar. Ben Bernanke precisa. O sistema do Federal Reserve é composto por doze Reserve Banks espalhados pelo país e um quadro diretor de sete governadores com base em Washington. Ben Bernanke é o presidente desse quadro diretor de governadores – ele é o “presidente do Fed”. O Federal Reserve regula bancos comerciais, dá sustentação à infraestrutura bancária e em geral faz funcionar os encanamentos do sistema financeiro. Essas atribuições exigem competência, não genialidade nem grande capacidade de previsão. A política monetária, a outra grande responsabilidade do Federal Reserve, é diferente. Ela pode ser razoavelmente descrita como o equivalente econômico de uma cirurgia no cérebro. Os economistas não estão de acordo quanto à maneira como o Federal Reserve deve administrar nosso suprimento de dinheiro. Tampouco concordam sobre como e por que as mudanças no suprimento de dinheiro têm os efeitos que têm. Todavia, os economistas concordam que uma política monetária efetiva é importante. O Fed deve alimentar a economia com a quantidade exata de crédito para mantê-la acesa de forma regular e constante. Errar a mão pode ter consequências desastrosas. Robert Mundell, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1999, argumenta que a política monetária confusa dos anos 1920 e 1930 gerou uma deflação crônica que desestabilizou o mundo. Ele observa: “Se o preço do ouro tivesse sido elevado no fim da década de 1920, ou se os principais bancos centrais tivessem buscado políticas de estabilidade de preços, em vez aderir ao padrão-ouro, não teria havido Grande
Depressão, nem revolução nazista, nem Segunda Guerra Mundial.”1
A tarefa não parecia tão complicada. Se o Fed pode fazer a economia crescer mais depressa reduzindo as taxas de juros, então, presumivelmente, taxas de juros mais baixas são sempre melhores. De fato, por que haveria de existir qualquer limite à possível taxa de crescimento de uma economia? Se começamos a gastar mais livremente quando as taxas são diminuídas de 7 para 5%, por que parar aí? Se ainda há pessoas sem emprego e outras sem carro novo, vamos pressionar para a taxa chegar a 3%, ou mesmo a 1%. Dinheiro novo para todos! Infelizmente, há limites para a rapidez com que uma economia pode crescer. Se taxas de juros baixas, ou “dinheiro fácil”, levam os consumidores a exigir 5% a mais de PT Cruisers do que os comprados no ano passado, então a Chrysler precisa expandir a produção em 5%. Isso significa contratar mais operários e comprar mais aço, vidro, componentes elétricos etc. Em algum ponto, torna-se difícil ou impossível para a Chrysler encontrar esses novos insumos, em particular operários qualificados. A essa altura, a empresa simplesmente não consegue fabricar PT Cruisers suficientes para satisfazer a demanda; em vez disso, ela começar a aumentar os preços. Ao mesmo tempo, os operários da indústria automobilística reconhecem que a Chrysler está desesperada por força de trabalho, e o sindicato exige salários mais altos.
A história não acaba aí. A mesma coisa estaria acontecendo em toda a economia, não só na Chrysler. Se as taxas de juros são excepcionalmente baixas, as empresas tomam empréstimos para investir em novos sistemas de computadores e software; os consumidores vão estourar seus cartões de crédito comprando TV de tela grande e fazendo cruzeiros pelo Caribe – até certo ponto. Quando os navios de cruzeiro estiverem cheios e a Dell vender cada computador que puder produzir, então essas empresas também subirão os preços. (Quando a demanda excede a oferta, as empresas podem cobrar mais e ainda assim encher cada navio ou vender cada computador.) Em suma, uma política de “dinheiro fácil” do Fed pode levar os consumidores a uma demanda maior do que aquilo que a economia consegue produzir. O único meio de racionar esse excesso de demanda é com preços mais altos. O resultado é a inflação.
O preço de mercado do PT Cruiser sobe e ninguém fica melhor de vida por causa disso. É verdade que a Chrysler ganha mais dinheiro, mas também está pagando mais a fornecedores e operários. Esses operários estão recebendo salários mais altos, mas também estão pagando preços mais altos pelas suas necessidades básicas. Os números estão mudando por toda parte, mas a capacidade produtiva da nossa economia e a medida do nosso bem-estar, o PIB real, bateu no teto. Uma vez iniciado, o ciclo inflacionário é difícil de quebrar. Empresas e trabalhadores em todo lugar começam a esperar os preços mais altos (o que, por sua vez, provoca preços continuamente mais altos). Bem-vindos aos anos 1970.
O ritmo em que a economia pode crescer sem causar inflação é considerado razoavelmente um “limite de velocidade”. Afinal, há apenas um punhado de meios para aumentar a quantidade daquilo que um país pode produzir. É possível trabalhar mais horas. É possível adicionar novos operários, mediante redução do desemprego ou imigração (reconhecendo que os trabalhadores disponíveis talvez não tenham as qualificações exigidas). Podemos acrescentar máquinas e outros tipos de capital que nos ajudem a produzir coisas. Ou podemos nos tornar mais produtivos – produzir mais com o que temos, talvez em decorrência de uma inovação ou de um avanço tecnológico. Cada uma dessas fontes de crescimento tem restrições naturais. Trabalhadores são escassos, o capital é escasso, avanços tecnológicos ocorrem num ritmo finito e imprevisível. No fim dos anos 1990, os operários da indústria automobilística americana ameaçaram entrar em greve porque estavam sendo forçados a trabalhar horas extras demais. (Bem que gostaríamos de ter esse problema agora…) Ao mesmo tempo, os restaurantes fast-food ofereciam bônus para contratar novos funcionários. Estávamos contra a parede. Os economistas avaliam que o limite de velocidade para a economia americana é algo em torno de um crescimento de 3% ao ano.
A expressão “algo em torno de” dá o primeiro indício de como é difícil a tarefa do Fed. Ele precisa atingir um delicado equilíbrio. Se a economia cresce abaixo de sua capacidade, estamos desperdiçando potencial econômico. As fábricas que produzem os PT Cruisers ficam ociosas; os operários que poderiam trabalhar lá, em vez disso, estão desempregados. Uma economia que tem a capacidade de crescer 3% ao ano, em vez disso, capenga em torno de 1,5% ou entra em recessão. Logo, o Fed precisa alimentar a economia com crédito suficiente para criar empregos e prosperidade, mas não tanto a ponto de superaquecê-la. William McChesney Martin Jr., presidente do Federal Reserve durante aos anos 1950 e 1960, uma vez observou que a tarefa do Fed é levar embora a tigela de ponche exatamente quando a festa começa a ficar boa.
Ou às vezes o Fed precisa botar ordem na festa muito depois de ela ter saído do controle. O Federal Reserve tem deliberadamente engendrado algumas recessões para espremer a inflação para fora do sistema. Notável foi o presidente do Fed, Paul Volcker, o ogro que pôs fim à festa inflacionária nos anos 1970. Àquela altura havia pessoas nuas dançando furiosamente sobre as mesas. A inflação subira de 3%, em 1972, para 13,5%, em 1980. O sr. Volcker pisou fundo nos freios monetários, o que quer dizer que ele elevou as taxas de juros para desacelerar a economia. Taxas de juros de curto prazo chegaram a um pico de 16% em 1981. O resultado foi um doloroso desmonte do ciclo inflacionário. Com as taxas de juros na casa dos dois dígitos, havia profusão de carros Chrysler K parados no pátio. Os revendedores foram obrigados a reduzir os preços (ou a parar de aumentá-los). As fábricas de automóveis ficaram ociosas e dispensaram operários. Os trabalhadores que ainda tinham emprego decidiram que não era uma época boa para pedir mais dinheiro emprestado.
A mesma coisa, claro, estava se passando nos outros setores da economia. Devagar, e com grande custo humano, a expectativa de subida constante dos preços foi purgada do sistema. O resultado foi a recessão de 1981-82, durante a qual o PIB encolheu em 3% e o desemprego chegou a quase 10%. No final, o sr. Volcker conseguiu expulsar os dançarinos nus de cima da mesa. Em 1983, a inflação caíra para 3%. Obviamente, para começar, teria sido mais fácil e menos doloroso se a festa não tivesse saído do controle.
DE ONDE O FED tira esse poder extraordinário sobre as taxas de juros? Afinal, os bancos comerciais são entidades privadas. O Federal Reserve não pode forçar o Citibank a aumentar ou diminuir as taxas que cobra dos consumidores nos empréstimos para comprar carros ou nas hipotecas das casas. Não, o processo é indireto. Lembre-se do Capítulo 7, a taxa de juros na verdade é apenas uma taxa de aluguel do capital, ou o “preço do dinheiro”. O Fed controla o suprimento de dinheiro dos Estados Unidos. Já, já chegaremos à mecânica desse processo. Por enquanto, reconheça que capital não é diferente de apartamentos: quanto maior o suprimento, mais barato o aluguel. O Fed mexe nas taxas de juros fazendo mudanças na quantidade de fundos disponíveis para os bancos comerciais. Se os bancos estiverem inundados de dinheiro, então as taxas de juros devem ser relativamente baixas para atrair interessados em tomar empréstimos em todos os fundos disponíveis. Quando o capital é escasso, acontece o contrário: os bancos podem cobrar taxas de juros mais altas e ainda assim atrair interessados para todos os fundos disponíveis. É a oferta e demanda, com o Fed controlando o suprimento.
As decisões monetárias – determinar se as taxas de juros precisam subir, descer ou ficar como estão – são tomadas por um comitê dentro do Fed chamado Federal Open Market Committee (Fomc), formado pelo quadro de governadores, o presidente do Federal Reserve Bank de Nova York e os presidentes de quatro outros Federal Reserve Banks, em sistema rotativo. O presidente do Fed também é o presidente do Fomc. Ben Bernanke tira seu poder do fato de estar sentado à cabeceira da mesa quando o Fomc toma decisões referentes a taxas de juros.
Se o Fomc quer estimular a economia baixando o custo de tomar dinheiro emprestado, o comitê tem duas ferramentas básicas ao seu dispor. A primeira é a taxa de desconto, a taxa de juros pela qual os bancos comerciais podem tomar empréstimos de fundos diretamente do Federal Reserve. A relação entre a taxa de desconto e o custo de tomar um empréstimo no Citibank é direta; quando a taxa de desconto cai, os bancos podem tomar dinheiro emprestado do Fed mais barato, e portanto emprestar mais barato a seus clientes. No entanto, há um complicador. Tomar emprestado diretamente do Fed produz certo estigma, implica que o banco não foi capaz de levantar fundos de forma privada. Assim, recorrer ao Fed para um empréstimo é semelhante a pegar dinheiro emprestado de seus pais depois dos 25 anos. Você receberá o dinheiro, mas é melhor procurar primeiro em outro lugar.
Em vez disso, os bancos em geral tomam empréstimos de outros bancos. A segunda ferramenta importante na caixa de suprimento de dinheiro do Fed é a taxa de fundos federais, que os bancos cobram de outros bancos em empréstimos de curto prazo. O Fed não pode estipular a taxa com que o Wells Fargo empresta dinheiro ao Citigroup. Em compensação, o Fomc determina uma meta para a taxa de fundos federais, digamos, 4,5%, e então manipula o suprimento de dinheiro para alcançar seu objetivo. Se o suprimento de fundos aumenta, então os bancos terão de baixar seus preços – reduzir as taxas de juros – a fim de encontrar tomadores para os fundos novos. Pode-se pensar no suprimento de dinheiro como um forno que tem a taxa de fundos federais como termostato. Se o Fomc reduz a meta da taxa de fundos federais de 4,5 para 4,25%, então o Federal Reserve injetará dinheiro no sistema bancário até que a taxa cobrada pelo Wells Fargo ao Citibank por um empréstimo overnight (de um dia para o outro) fique muito próximo de 4,25%.
Tudo isso nos traz para nosso enigma final: como o Federal Reserve injeta dinheiro no sistema bancário privado? Será que Ben Bernanke imprime US$ 100 milhões de dinheiro novo, carrega um caminhão fortemente blindado e o leva até uma agência do Citibank? Não exatamente – embora a imagem não seja ruim para entender o que se passa.
Ben Bernanke e o Fomc realmente criam dinheiro novo. Nos Estados Unidos, somente eles têm esse poder. (O Tesouro apenas funde moedas e imprime notas novas para substituir dinheiro já existente.) O Federal Reserve entrega dinheiro novo a bancos como o Citibank. Mas o Fed não dá fundos ao banco; ele negocia o dinheiro novo por títulos do governo que os bancos já possuem. No nosso exemplo metafórico, o gerente da agência do Citibank encontra o caminhão blindado de Ben Bernanke em frente ao banco, descarrega o veículo e coloca US$ 100 milhões de dinheiro novo no cofre do banco; depois, em troca, entrega ao presidente do Fed US$ 100 milhões em títulos do governo que já estavam na carteira do banco. Note que o Citibank não ficou mais rico com a transação. O banco só trocou US$ 100 milhões de um tipo de produto (títulos) por US$ 100 milhões de um produto de outro tipo (dinheiro vivo ou, mais precisamente, seu equivalente eletrônico).
Os bancos detêm títulos pelo mesmo motivo que os investidores individuais; eles são um local seguro para guardar fundos não necessários para outra coisa. Especificamente, os bancos compram títulos com fundos de depósitos que não estejam sendo emprestados. Para a economia, o fato de o Citibank ter trocado títulos por dinheiro faz toda a diferença. Quando um banco tem US$ 100 milhões de depósitos guardados em títulos, esses fundos não estão sendo emprestados. Não estão financiando casas, negócios nem novas fábricas. Mas depois que o caminhão blindado metafórico de Ben Bernanke se vai, o Citibank fica com fundos que podem ser emprestados. Isso significa novos empréstimos para todos os tipos de coisa que geram atividade econômica. De fato, o dinheiro injetado no sistema bancário tem efeito de cascata. Um banco que troca títulos por dinheiro do Fed mantém uma fração dos fundos em reservas, como é exigido por lei, e aí empresta o restante. Quem receber esses empréstimos irá gastá-los em algum lugar, talvez numa concessionária de veículos ou numa loja de departamentos. O dinheiro acaba indo para outros bancos, que manterão alguns fundos de reserva e farão seus próprios empréstimos. A ação do Fed, de injetar US$ 100 milhões de novos fundos no sistema bancário, pode, em última instância, aumentar em dez vezes o suprimento de dinheiro.
Claro que o presidente do Fed não guia efetivamente um caminhão até a agência do Citibank para trocar dinheiro por títulos. O Fomc executa a mesma coisa usando o mercado de títulos (que funciona como o mercado de ações, exceto que se vendem e compram títulos). Negociantes de títulos trabalhando em nome do Fed adquirem títulos de bancos comerciais e pagam com dinheiro recém-criado – fundos que não existiam vinte minutos antes. (Presumivelmente, os bancos que vendem seus títulos são aqueles com maiores oportunidades de fazer novos empréstimos.) O Fed continuará a comprar títulos com dinheiro novo, num processo que se chama operações de mercado aberto, até que a meta da taxa de fundos federais seja atingida.
Obviamente, o que o Fed dá, o Fed tira. O Federal Reserve pode aumentar as taxas de juros, fazendo o oposto de tudo que acabamos de analisar. O Fomc poderia voltar a aumentar a taxa de desconto e/ou a meta da taxa de fundos federais, e emitir uma ordem para vender títulos de sua carteira aos bancos comerciais. Quando os bancos abrem mão de fundos emprestáveis em troca de títulos, o suprimento de dinheiro encolhe. O dinheiro que poderia ter sido emprestado para consumidores e empresas fica estacionado em títulos. As taxas de juros sobem e qualquer coisa adquirida com capital emprestado fica mais cara. O efeito cumulativo é retardar o crescimento econômico.
A MECÂNICA DE OPERAÇÃO do Fed não deve obscurecer o quadro mais amplo. A obrigação do Federal Reserve é facilitar um ritmo sustentável de crescimento econômico. No entanto, vamos esclarecer quanto essa tarefa realmente é difícil. Primeiro, estamos apenas adivinhando a taxa na qual a economia pode se expandir sem deflagrar inflação. Um debate comum entre os economistas é se os computadores e outros tipos de tecnologia da informação tornaram ou não os americanos significativamente mais produtivos. Caso sim, conforme sugeriu o sr. Greenspan durante seu mandato, então o potencial de crescimento da economia pode ter subido. Caso não, como argumentam de modo convincente outros economistas, o velho limite de velocidade ainda se aplica. É difícil guiar-se por um limite de velocidade não claramente definido.
Mas esse é apenas o primeiro desafio. O Fed também precisa avaliar que tipo de impacto uma mudança da taxa de juros terá e quanto tempo levará. Será que um corte de 0,25% fará com que doze pessoas comprem os novos PT Cruisers em Des Moines, ou 421 pessoas? Quando? Semana que vem, ou daqui a seis meses? Ao mesmo tempo, o Fed tem o controle máximo sobre taxas de juros de curto prazo, que podem ou não se mover na mesma direção que as taxas de longo prazo. Por que Ben Bernanke não pode fazer sua mágica também nas taxas de longo prazo? Porque taxas de longo prazo não dependem do suprimento de dinheiro hoje, mas das predições dos mercados referentes ao suprimento de dinheiro (relativo à demanda) para daqui a dez, vinte ou até trinta anos. Ben Bernanke não tem controle sobre o suprimento de dinheiro em 2015. Lembre-se também de que, enquanto o Fed está tentando usar a política monetária para atingir determinada meta econômica, o Congresso pode estar fazendo coisas com a política fiscal – decisões governamentais sobre gastos e impostos – que têm um efeito totalmente diverso (ou o mesmo efeito, fazendo com que a política do Fed seja excessiva).
Então, vamos nos ater à nossa analogia do limite de velocidade e recapitular o que exatamente o Fed é encarregado de fazer. Ele deve facilitar uma taxa de crescimento econômico que não seja nem rápida nem lenta demais. Tenha quatro coisas em mente: (1) nós não sabemos o limite de velocidade exato da economia; (2) tanto o acelerador quanto o freio operam com uma defasagem, significando que nenhum dos dois funciona assim que pisamos nele. Em vez disso, precisamos esperar um pouco por qualquer reação – desde poucas semanas até alguns anos, mas sem nenhum padrão previsível. Um motorista inexperiente pode pisar cada vez mais fundo no acelerador, perguntando-se por que nada acontece (e aguentando todo tipo de agressão pública pelo seu modo pateticamente vagaroso de guiar), apenas para descobrir que o carro está fugindo de controle nove meses depois; (3) a política monetária e a política fiscal afetam a economia de forma independente, então, enquanto o Fed está freando com delicadeza, o Congresso e o presidente podem estar pisando e soltando com violência o acelerador. Ou o Fed pisa no acelerador com delicadeza apenas para ver o Congresso soltar um tijolo em cima do freio; (4) por fim, existe o curso de obstáculos dos acontecimentos mundiais – um colapso financeiro aqui, um aumento súbito do preço do petróleo ali. Pense que o Fed está sempre guiando em terreno pouco familiar, com um mapa que está pelo menos dez anos defasado.
A biografia de Alan Greenspan escrita por Bob Woodward foi intitulada Maestro. Na década de 1990, com a economia americana rugindo em seu mais longo período de expansão da história, o sr. Greenspan recebeu o crédito por sua abordagem “Goldilocks” (“Cachinhos dourados”) da política monetária – fazer tudo certinho. Essa reputação desde então foi parcialmente questionada. Agora o sr. Greenspan é criticado por estimular as bolhas no mercado imobiliário e de ações mantendo as taxas de juros muito baixas por tempo demais. “Dinheiro barato” não causou inflação levando todo mundo a comprar PT Cruisers e a fazer cruzeiros pelo Caribe. Em vez disso, compramos ações e imóveis, e esses preços em alta não apareceram no índice de preços ao consumidor. Acrescente um novo desafio à política monetária: estávamos gastando, embora os índices que nos habituamos a consultar dissessem que não.
ESSA É UMA TAREFA difícil. Ainda assim, esta conclusão está muito longe da medonha alegação de Robert Mundell, laureado com o Prêmio Nobel, de que a política monetária lançou as bases para a Segunda Guerra Mundial. A fim de entender por que uma política monetária irresponsável pode ter efeitos cataclísmicos, precisamos antes fazer uma breve digressão sobre a natureza do dinheiro. Para os economistas, dinheiro é bem diferente de riqueza. A riqueza consiste em todas as coisas que têm valor – casas, carros, objetos, capital humano. Dinheiro, um ínfimo subconjunto dessa riqueza, é apenas um meio de troca, algo que facilita o comércio e os negócios. Em teoria, dinheiro nem é necessário. Uma economia simples poderia se arranjar só com a troca de gêneros. Numa sociedade com base agrícola, é bem fácil trocar cinco galinhas por um vestido novo ou pagar um professor com uma cabra e três sacas de arroz. O escambo não funciona tão bem numa economia mais avançada. Os desafios logísticos de usar galinhas para comprar livros na Amazon seriam formidáveis.
Em quase toda sociedade, algum tipo de dinheiro foi criado para facilitar o comércio. (A palavra “salário” vem da remuneração dos soldados romanos, que eram pagos em sacos de sal.) Qualquer meio de troca – seja uma moeda de ouro, um dente de baleia ou um dólar americano – serve aos mesmos propósitos básicos. Primeiro, como forma de permutar, de modo que eu possa apreciar costeletas de porco esta noite para o jantar mesmo que o açougueiro não tenha interesse em comprar este livro. Segundo, serve como uma unidade de contagem, de modo que o custo de todo tipo de bens e serviços seja medido e comparado usando-se uma escala. (Imagine a vida sem uma unidade de contagem: a Gap está vendendo jeans por três galinhas o par, enquanto Tommy Hilfiger tem calças semelhantes à venda por onze peles de castor. Que jeans custa mais caro?) Terceiro, o dinheiro precisa ser portátil e durável. Nem bolas de boliche nem pétalas de rosa serviriam a esse propósito. Finalmente, o dinheiro deve ser relativamente escasso para servir como depósito de valor.
Gente esperta sempre achará um meio de troca que funcione. Durante muito tempo cigarros serviram como meio de troca em prisões, onde o dinheiro é banido. (Não importa se você fuma ou não, o cigarro tem valor porque outros detentos fumam.) Então, o que aconteceu quando o fumo foi banido das prisões federais nos Estados Unidos? Os detentos se voltaram para outro depósito de valor portátil e durável: latas de cavalinhas. Segundo o Wall Street Journal, uma única lata de cavalinhas (mackerel), ou “mack”, é a unidade-padrão de dinheiro atrás das grades. (Algumas prisões passaram de latas a embalagens plásticas, porque as latas podem ser transformadas em armas.) Em lata ou embalagem plástica, a cavalinha não estraga, pode ser comprada da cantina e custa cerca de US$ 1, tornando a conta fácil. Um corte de
cabelo custa dois macks no complexo corretivo federal de Lompoc.2
Durante boa parte da história americana, o comércio foi conduzido com papel-moeda respaldado por metais preciosos. Antes do século XX, os bancos privados emitiam seu próprio dinheiro. Em 1913, o governo dos Estados Unidos baniu o dinheiro privado tornando-se o único provedor de moeda. A ideia básica não mudou. Fosse o dinheiro público ou privado, o papel-moeda derivava seu valor do fato de poder ser resgatado em troca de uma quantidade de ouro ou prata, fosse de um banco ou do governo. Então aconteceu algo estranho. Em 1971 os Estados Unidos abandonaram permanentemente o padrão-ouro. Nesse ponto, cada dólar de papel tornou-se resgatável em troca de… nada.
Examine aquele maço de notas de US$ 100 na sua carteira. (Se necessário, pode substituir por notas de US$ 1.) Essas notas não passam de papel. Você não pode comê-las, bebê-las, fumá-las e, o mais importante, não pode levá-las até o governo e exigir qualquer coisa em troca. Elas não têm valor intrínseco. Isso é verdade para quase todas as moedas do mundo. Deixado sozinho numa ilha com US$ 100 milhões, você iria morrer depressa. De outro lado, a vida seria boa se você fosse salvo e pudesse levar o dinheiro consigo. É aí que reside o valor da moeda moderna: ela tem poder de compra. Dólares têm valor porque pessoas negociando coisas reais – comida, livros, pedicures – os aceitam. E as pessoas negociando coisas reais aceitam dólares porque têm confiança de que outras pessoas negociando outras coisas reais também os aceitam. Um dólar é um pedaço de papel cujo valor deriva somente da nossa confiança de que poderemos usá-lo para comprar algo de que necessitemos no futuro.
Para lhe dar uma ideia de como o dinheiro moderno é um jogo de confiança, considere um bizarro fenômeno na Índia. A maioria dos indianos envolvidos no comércio – lojistas, taxistas etc. – não aceita uma nota de rúpia rasgada, amassada ou muito gasta. Uma vez que muitos indianos sabem que diversos de seus compatriotas não aceitam notas rasgadas, eles também não as aceitam. Finalmente, quando turistas chegam ao país, logo aprendem a aceitar apenas notas intactas, a menos que queiram ficar com as notas rasgadas em suas mãos. Todo o processo é absolutamente irracional, já que o banco central indiano diz que qualquer nota com número de série – rasgada, suja, amassada ou qualquer outra coisa – é legítima. Todo banco trocará rúpias rasgadas por rúpias novinhas em folha. Isso não importa. Pessoas racionais recusam notas com valor legal porque acreditam que elas não seriam aceitas por outra pessoa. Todo o bizarro fenômeno ressalta o fato de que a nossa fé no papel-moeda é predicado da fé que outros depositam nele.
Já que o papel-moeda não tem valor inerente, seu valor depende do seu poder de compra – algo que pode mudar com o tempo, ou mesmo de forma muito rápida. No verão de 1997, passei alguns dias andando de carro por Iowa “tomando o pulso do agricultor americano” para a The Economist. Em algum lugar, nas cercanias de Des Moines, comecei a bater papo com um fazendeiro de milho, soja e gado. Ao me proporcionar um tour pela sua fazenda, ele apontou para um velho trator estacionado junto ao celeiro. “Aquele trator me custou US$ 7.500 em 1970”, ele disse. “Agora olhe aquilo”, disse zangado, apontando para um trator reluzente ao lado do velho. “Esse me custou US$ 40 mil. Você pode explicar isso?”
Eu podia explicar aquilo, porém não foi o que eu disse ao fazendeiro, que já desconfiava do fato de eu ser jovem, da cidade, usar gravata e guiar um Honda Civic. (No ano seguinte, quando fui solicitado a escrever uma história similar sobre os produtores de tabaco em Kentucky, tive o bom senso de alugar uma picape.) Minha resposta teria sido uma única palavra: inflação. O trator novo provavelmente não era mais caro que o velho em termos reais, significando que envolveu a mesma quantidade de trabalho, ou menos, para comprá-lo. O valor nominal do trator tinha subido, mas os preços de venda da safra e do gado também.
Inflação significa, simplesmente, que os preços médios estão subindo. A taxa de inflação, ou a mudança no índice de preços ao consumidor, é a tentativa do governo de refletir os preços em mudança com um único número, digamos 4,2%. O método de determinar esse número requer uma tecnologia baixa. Funcionários do governo verificam periodicamente os preços de milhares e milhares de bens – roupas, alimentos, combustível, entretenimento, habitação – e os compilam em um número que reflete como os preços de uma cesta de bens adquirida pelo consumidor médio mudaram.
O modo mais instrutivo de pensar na inflação não é que os preços estão aumentando, e sim que o poder de compra do dólar está diminuindo. Um dólar compra menos do que costumava comprar. Aí reside o elo entre o Federal Reserve, ou qualquer banco central, e a devastação econômica. Um papel-moeda tem valor apenas porque é escasso. O banco central controla essa escassez. Portanto, um banco central corrupto ou incompetente pode corroer ou até destruir completamente o valor do nosso dinheiro. Suponha que os funcionários da prisão, num arroubo de boa vontade, decidam dar a cada detento quinhentas latas de cavalinha. O que aconteceria com o preço do corte de cabelo em “macks”? E cavalinha é melhor que papel, pois pelo menos tem algum valor intrínseco.
Em 1921, um jornal alemão custava cerca de ⅓ de marco; dois anos depois, um jornal custava 70 milhões de marcos. Não foi o jornal que mudou durante esse período, foi o marco alemão que se tornou inútil à medida que o governo imprimia marcos novos com imprudente desleixo. De fato, o marco perdeu tanto seu valor que ficou mais barato para as famílias queimá-los que os usar para comprar lenha. A inflação foi tão ruim na América Latina nos
anos 1980 que houve países cuja maior importação era papel-moeda.3 No fim dos anos 1990, o rublo bielorrusso era conhecido como “coelhinho”, não só pela lebre gravada na nota, mas também por causa da notável capacidade da moeda de procriar. Em agosto de 1998, o rublo bielorrusso perdeu 10% do seu poder de compra em uma semana.
A INFLAÇÃO MACIÇA distorce a economia também maciçamente. Trabalhadores correm para gastar seu dinheiro antes que ele perca o valor. Surge uma cultura na qual os trabalhadores se apressam para desembolsar seus contracheques no almoço porque os preços terão subido na hora do jantar. Empréstimos com taxa fixa tornam-se impraticáveis, porque nenhuma instituição financeira concorda em ser paga com uma quantia fixa de dinheiro quando este corre o risco de se tornar inútil. Pense nisso: qualquer pessoa possuidora de uma hipoteca com taxa fixa na Alemanha de 1921 poderia ter pagado o empréstimo todo em 1923 com menos marcos do que custava um jornal. Mesmo hoje, não é possível obter uma hipoteca fixa de trinta anos em grande parte da América Latina por causa dos temores de que a inflação volte a rugir.
Os Estados Unidos nunca sofreram hiperinflação. Tivemos surtos de inflação moderada. Os custos foram pequenos e mais sutis, porém significativos. No nível mais básico, a inflação leva a comparações enganosas ou imprecisas. Os jornalistas raras vezes distinguem valores reais e nominais como deveriam. Suponha que a renda dos americanos tenha subido 5% no ano passado. Esse é um dado sem significado enquanto não soubermos qual foi a taxa de inflação. Se os preços subiram 7%, na verdade nossa vida ficou pior. Nosso contracheque pode parecer maior, contudo, ele compra 2% a menos do que comprava no ano passado. Hollywood é um egrégio transgressor, proclamando ano após ano que algum filme medíocre bateu novo recorde de bilheteria. Comparar a receita bruta de 2010 com as receitas brutas de 1970 ou 1950 é um exercício tolo, a menos que elas sejam corrigidas pela inflação. Um ingresso para E o vento levou custava US$ 0,19. Um ingresso para Cara, cadê meu carro? custou US$ 10. Claro que a diferença de receita bruta vai parecer enorme.
Mesmo uma inflação moderada tem o potencial de devorar nossa riqueza se não administrarmos nossos bens adequadamente. Qualquer riqueza mantida em dinheiro vivo perderá valor com o tempo. Mesmo contas de poupança e certificados de depósito, que são considerados investimentos “certos”, porque o principal é segurado, são vulneráveis ao risco menos óbvio de suas baixas taxas de juros não conseguirem acompanhar a inflação. É uma triste ironia que os investidores não sofisticados evitem o “arriscado” mercado de ações apenas para ter o principal aos poucos escoado pela porta dos fundos. A inflação pode ser muito perniciosa para aposentados ou outras pessoas que vivem com base numa renda fixa. Se essa renda não for indexada pela inflação, então seu poder de compra irá aos poucos desaparecendo. Um contracheque que proporcionava uma vida confortável em 1985 torna-se inadequado para comprar as necessidades básicas em 2010.
A inflação também redistribui a riqueza de modo arbitrário. Suponha que eu tome US$ 1 mil emprestados de você e prometa devolver o empréstimo, mais juros de US$ 100, no ano que vem. Parece um arranjo justo para nós dois. Agora suponha que um presidente de banco central altamente irresponsável permita que a inflação exploda a 100% ao ano. Os US$ 1.100 que eu lhe devolverei no ano que vem valerão muito menos do que qualquer um de nós esperava; seu poder de compra estará reduzido pela metade. Em termos reais, eu tomarei emprestados US$ 1.100 e devolverei US$ 500. Surtos inesperados de inflação são bons para os devedores e ruins para os credores – um aspecto crucial ao qual também iremos voltar.
Você deve reconhecer a diferença entre taxa de juros real e nominal. A taxa nominal é usada para calcular o que você precisa pagar de volta, e ela é o número que você vê no cartaz informativo do banco ou na primeira página de um contrato de empréstimo. Se o Wells Fargo está pagando uma taxa de 2,3% para depósitos, essa é a taxa nominal. Ela é diferente da taxa de juros real, que leva em conta a inflação, e portanto reflete o verdadeiro custo de “alugar” capital. A taxa de juros real é a taxa nominal menos a taxa de inflação. Como exemplo simples, suponha que você pegue um empréstimo no banco, por um ano, com uma taxa nominal de 5%, e que a inflação também seja de 5% no período. Nesse caso, sua taxa de juros real é zero. Você devolve 5% a mais do que tomou emprestado, mas esse dinheiro desvalorizou 5% no decorrer do ano, então você devolve exatamente o mesmo poder de compra que pegou emprestado. O custo verdadeiro para você usar o capital de terceiros por um ano foi zero.
A inflação também distorce os impostos. Pegue, por exemplo, os ganhos de capital. Suponha que você compre uma ação e a venda um ano depois, por 10% a mais. Se a inflação nesse ano também foi de 10%, então na verdade você não ganhou dinheiro nenhum. Seu retorno compensa exatamente o fato de que cada dólar em sua carteira perdeu 10% de seu poder de compra – ele perdeu para o Tio Sam. Você deve impostos sobre seu “ganho” de 10%. Os impostos já são desagradáveis quando você ganhou dinheiro; se não ganhou, eles dão enjoo.
Isso posto, a inflação moderada, numa taxa constante e previsível, teria muito pouco efeito. Suponha, por exemplo, que soubéssemos que a taxa de inflação seria de 10% ao ano para sempre – nem mais alta, nem mais baixa. Poderíamos lidar com isso facilmente. Qualquer conta de poupança pagaria alguma taxa real de juros mais 10% para compensar a inflação. Nossos salários aumentariam 10% ao ano (mais, esperamos nós, algum valor real, com base no mérito). Todos os contratos de empréstimos cobrariam alguma taxa real pelo aluguel do capital mais um prêmio anual de 10% para levar em conta o fato de que os dólares que você está tomando emprestados não são os mesmo que você irá devolver. Os benefícios do governo seriam indexados pela inflação, bem como os impostos.
Mas a inflação não é constante nem previsível. Na verdade, a aura de incerteza é um de seus custos mais insidiosos. Indivíduos e empresas são obrigados a adivinhar os preços futuros ao tomar decisões econômicas. Quando os operários da indústria de automóveis e a Ford negociam um contrato de quatro anos, as duas partes precisam fazer algumas estimativas sobre a inflação futura. Um contrato com aumentos anuais de 4% é muito generoso quando a taxa de inflação é de 1%, mas péssimo para os trabalhadores se a inflação sobe para 10%. Os emprestadores precisam fazer um cálculo similar. Emprestar dinheiro a alguém por trinta anos a uma taxa de juros fixa significa um risco enorme num ambiente inflacionário. Assim, quando os emprestadores temem a inflação futura, eles introduzem uma proteção. Quanto maior o medo da inflação, maior a proteção. De outro lado, se o banco central prova que está sendo sério em termos de prevenir a inflação, então o para-choque fica menor. Um dos benefícios mais significativos da persistente inflação baixa dos anos 1960 foi que os emprestadores ficaram menos receosos em relação à inflação futura. Como resultado, as taxas de juros de longo prazo caíram acentuadamente e tornaram mais acessíveis casas e outros bens de peso. Robert Barro, economista de Harvard que estudou o crescimento econômico em quase cem países durante várias décadas, confirmou que a inflação alta está associada ao mais lento crescimento real do PIB.
Parece bastante óbvio que governos e bancos centrais deveriam tornar o combate à inflação uma prioridade. Mesmo que cometessem erros honestos tentando guiar suas economias dentro de um “limite de velocidade”, seriam de esperar pequenos surtos de inflação, e não períodos prolongados de aumento de preços, muito menos hiperinflação. Contudo, não é isso que observamos. Os governos, tanto ricos quanto pobres, têm guiado suas economias não apenas acima do limite de velocidade, mas em velocidades de fazer fumegar os motores e cantar os pneus. Por quê? Porque governos míopes, corruptos ou desesperados podem ganhar tempo alimentando a inflação. Falamos sobre o poder dos incentivos no Capítulo 2. Ainda assim, veja se consegue montar esse quebra-cabeça: (1) os governos muitas vezes têm dívidas enormes, e governos problemáticos devem ainda mais; (2) inflação é boa para devedores porque corrói o valor do dinheiro que precisam pagar; (3) os governos controlam a taxa de inflação. Some tudo isso: os governos reduzem suas próprias dívidas empurrando a inflação para cima.
Claro que isso cria vítimas de todo tipo. Aqueles que emprestam dinheiro ao governo recebem de volta o valor nominal da dívida, mas em moeda que perdeu valor. Ao mesmo tempo, os que têm moeda nas mãos são punidos porque agora seu dinheiro compra menos. Por fim, mesmo os futuros cidadãos são punidos, porque o governo vai perceber que é difícil, senão impossível, tomar novamente empréstimos com taxas de juros razoáveis (embora os banqueiros demonstrem uma estranha propensão a cometer os mesmos erros vezes e vezes seguidas).
Os governos também podem se beneficiar, a curto prazo, daquilo a que os economistas se referem como “imposto de inflação”. Suponha que você esteja comandando um governo incapaz de aumentar os impostos por meios convencionais, seja porque a infraestrutura necessária para arrecadar impostos não existe, seja porque os cidadãos não podem ou não querem pagar mais. No entanto, você tem funcionários do governo, talvez até um grande exército, que exigem ser pagos. Eis uma solução muito simples. Compre um pouco de cerveja, peça uma pizza (ou algum outro prato conveniente) e comece a rodar as impressoras na casa da moeda. Assim que a tinta estiver seca em novos pesos, rublos ou dólares, use-os para pagar os funcionários e soldados do governo. Ai, ai, você acabou de taxar o povo do seu país – de maneira indireta. Não tirou fisicamente dinheiro de suas carteiras, mas, em vez disso, você os espoliou desvalorizando o dinheiro que está em suas carteiras. O Congresso Continental fez isso durante a Guerra Revolucionária; ambos os lados o fizeram durante a Guerra Civil; o governo alemão o fez entre as guerras; países como o Zimbábue estão fazendo neste momento.
Um governo não precisa estar à beira da catástrofe para jogar a cartada da inflação. Mesmo nos Estados Unidos de hoje, políticos espertos podem usar a inflação moderada em seu próprio proveito. Uma das características da política monetária irresponsável – como uma festa que foge ao controle – é que, durante algum tempo, ela pode ser divertida. A curto prazo, dinheiro fácil faz todo mundo se sentir mais rico. Quando uma horda de consumidores entra na concessionária Chrysler em Des Moines, a primeira reação do proprietário é que ele está realmente se saindo muito bem na venda de veículos. Ou talvez pense que os novos modelos da Chrysler são mais atraentes que os da Ford e da Toyota. Em qualquer um dos casos, ele sobe os preços, ganha mais e acredita que sua vida está melhorando. Só aos poucos é que vai percebendo que a maioria dos outros negócios está experimentando o mesmo fenômeno. Como também estão subindo os preços, seu aumento de renda maior será perdido para a inflação.
A essa altura, os políticos podem ter conseguido o que queriam: reeleição. Um banco central que não esteja suficientemente isolado da política pode dar uma festa de arromba antes dos votos nas urnas. Haverá muita dança em cima das mesas. Na hora em que os eleitores estiverem passando mal da ressaca induzida pela inflação, a eleição já terminou. O saber macroeconômico narra que Arthur Burns, presidente do Fed, prestou esse favor a Richard Nixon em 1972, e que a família Bush ainda está zangada com Alan Greenspan por não adicionar um pouquinho mais de álcool ao ponche na eleição de 1992, quando George H.W. Bush foi tirado do poder após uma leve recessão.
A independência política é crucial quando se deseja que as autoridades monetárias cumpram seus deveres com responsabilidade. A evidência mostra que países com bancos centrais independentes – aqueles que podem operar com relativa liberdade em relação às intromissões políticas – têm taxas de inflação médias mais baixas no decorrer do tempo. O Federal Reserve dos Estados Unidos está entre os considerados relativamente independentes. Os membros de seu quadro de governadores são indicados pelo presidente para mandatos de catorze anos. Isso não lhes dá o mesmo cargo vitalício que os juízes da Suprema Corte, porém torna mais difícil que o presidente encha o Federal Reserve de protegidos seus. É notável – e mesmo fonte de crítica – que o posto econômico mais importante num governo democrático seja preenchido por indicação, e não por eleição. Nós concebemos assim o Fed, tomamos a decisão democrática de criar uma instituição relativamente não democrática. A efetividade de um banco central depende de sua independência e credibilidade. Se as empresas acreditam que o banco central não irá tolerar inflação, não se sentirão compelidas a aumentar os preços. E se empresas não aumentam preços, não haverá problema de inflação.
Os funcionários do Fed ficam irritados quando se trata de intromissão política. Na primavera de 1993, jantei com Paul Volcker, ex-presidente do Federal Reserve. O sr. Volcker lecionava em Princeton e foi suficientemente gentil para levar seus alunos ao jantar. O presidente Clinton acabara de fazer um importante discurso para uma sessão conjunta do Congresso, e o presidente do Fed, Alan Greenspan, sucessor de Volcker, estava sentado ao lado de Hillary Clinton. O que mais me lembro desse jantar foi do sr. Volcker resmungando que era inadequado que Alan Greenspan estivesse sentado ao lado da esposa do presidente. Ele sentia que isso emitia uma mensagem errada acerca da independência do Federal Reserve em relação ao Poder Executivo. Essa é uma amostra da seriedade com que os banqueiros encaram sua independência política.
INFLAÇÃO É RUIM. Deflação, ou seja, preços em queda constante, é muito pior. Mesmo uma deflação modesta pode ser economicamente devastadora, como o Japão aprendeu nas duas últimas décadas. Pode parecer um disparate que os preços em queda piorem a vida dos consumidores (especialmente se o aumento de preços também torna sua vida menos agradável), mas a deflação gera um ciclo econômico perigoso. Para começar, preços em queda levam os consumidores a postergar as compras. Por que comprar um refrigerador hoje se na semana que vem ele vai custar menos? Ao mesmo tempo, os preços das coisas adquiridas também caem, e então os consumidores se sentem mais pobres e menos inclinados a gastar. É por isso que o estouro de uma bolha imobiliária causa tanto dano econômico. Os consumidores assistem ao valor das suas casas desabar acentuadamente enquanto as mensalidades da hipoteca permanecem iguais. Sentem-se mais pobres (porque estão). Como vimos no capítulo anterior, quando consumidores gastam menos, a economia cresce menos. As empresas respondem a essa desaceleração reduzindo ainda mais os preços. O resultado é uma espiral econômica mortal, como observou Paul Krugman:
Os preços estão caindo porque a economia está deprimida; agora acabamos de aprender que a economia está deprimida
porque os preços estão caindo. Isso prepara o palco para a volta de outro monstro que não vemos desde a década de 1930,
a “espiral deflacionária”, na qual preços em queda e economia em crise se alimentam mutuamente, fazendo a economia
mergulhar no abismo.4
Essa espiral pode envenenar o sistema financeiro, mesmo quando os banqueiros não fazem nada de irresponsável. Bancos e outras instituições financeiras ficam mais fracos à medida que os empréstimos vão mal e diminui o valor dos imóveis e de outros bens usados como garantia para esses empréstimos. Alguns bancos começam a ter problemas de solvência; outros simplesmente têm menos capital para fazer novos empréstimos, o que priva de crédito empresas que de outra forma seriam saudáveis, espalhando a angústia econômica. O propósito da intervenção conhecida como Tarp (de Trouble Asset Relief Program, ou “Programa de Alívio de Ativos Problemáticos”), no fim do governo George W. Bush – a chamada injeção de salvamento de Wall Street –, era “recapitalizar” os bancos americanos e recolocá-los em posição de fornecer capital para a economia. O projeto do programa tinha suas falhas. A comunicação sobre o que o governo estava fazendo e por que estava fazendo era um abismo. Mas o conceito subjacente fazia muito sentido diante da crise financeira.
A política monetária sozinha talvez não seja capaz de romper a espiral deflacionária. No Japão, o banco central cortou as taxas de juros nominais para quase zero, muito tempo atrás, o que significa que não dá para descer mais. (Taxas de juros nominais não podem ser negativas. Qualquer banco que tenha emprestado US$ 100 e pedido de volta apenas US$ 98 faria melhor
se simplesmente conservasse os US$ 100 em seus cofres.)a Contudo, mesmo com taxas nominais próximas de zero, a taxa de aluguel do capital – a taxa de juro real – podia ser bastante alta. Eis por quê. Se os preços estão caindo, então tomar emprestados US$ 100 hoje e devolver US$ 100 no ano que vem não tem custo nenhum. Os US$ 100 que você paga de volta têm mais poder de compra que os US$ 100 que tomou emprestado, talvez muito mais. Quanto mais depressa os preços caem, mais alto o custo real de pegar um empréstimo. Se a taxa de juros nominal é zero, porém os preços caem 5% ao ano, então a taxa de juros real é 5% – o custo de tomar empréstimos é muito acentuado quando a economia está estagnada. Os economistas há muito estão convencidos de que o Japão precisa é de uma dose firme de inflação para arrumar tudo isso. Um economista muito proeminente chegou a ponto de encorajar o banco central do Japão a fazer “qualquer coisa próxima de despejar notas de
dinheiro de helicópteros”.5 Recordando a política dos interesses organizados mencionada no Capítulo 8, uma teoria para explicar por que os funcionários japoneses não fizeram mais para combater a queda de preços é que a crescente população idosa do Japão, a maior parte da qual vive de renda fixa ou poupança, vê a deflação como uma coisa boa, apesar de suas consequências terríveis para a economia como um todo.
Os Estados Unidos têm tido seus próprios encontros com a deflação. Há um consenso entre economistas de que uma política monetária podre estava na raiz da Grande Depressão. De
1929 a 1933, o suprimento de dinheiro dos Estados Unidos caiu 28%.6 O Fed não fechou a torneira do crédito deliberadamente; porém, viu de forma indiferente o suprimento de dinheiro cair por sua própria conta. O processo pelo qual o dinheiro circula pela economia tinha ficado à deriva. Em decorrência dos numerosos fracassos bancários de 1930, tanto bancos quanto indivíduos começaram a acumular dinheiro vivo. O dinheiro guardado debaixo do colchão ou trancado num cofre de banco não podia ser emprestado de volta para a economia. O Fed nada fez, enquanto o crédito nos Estados Unidos secava (e aumentou acentuadamente as taxas de juros em 1931 para defender o padrão-ouro). Os funcionários do Fed deveriam ter feito exatamente o contrário: injetar dinheiro no sistema.
Em setembro de 2009, aniversário de um ano do colapso do Lehman Brothers, a chefe do Conselho de Assessores Econômicos, Christina Romer, deu uma palestra sinistramente intitulada “De volta da beira do abismo”, que depositou grande parte do crédito por termos escapado do desastre econômico ao Federal Reserve. E explicou:
A resposta de formulação de política no presente episódio, em contraste [com os anos 1930], foi ágil e corajosa. As
criativas e agressivas ações do Federal Reserve no outono passado, visando manter o empréstimo de dinheiro, serão
reconhecidas como um ponto alto na história do banco central. À medida que mercado de crédito após mercado de crédito
foram congelando e evaporando, o Federal Reserve criou muitos programas novos para preencher a lacuna e manter o
fluxo de crédito.
Despejamos dinheiro de helicópteros? Quase. Acontece que o professor de Princeton que advogava essa estratégia (não literalmente) uma década atrás para o Japão não era outro senão Ben Bernanke (o que lhe valeu o apelido de “Ben Helicóptero” em alguns redutos).
Começando com os primeiros vislumbres de encrenca em 2007, o Fed usou agressivamente todas as suas ferramentas convencionais, cortando a meta da taxa de fundos federais sete vezes entre setembro de 2007 e abril de 2008. Quando isso começou a dar a sensação de “chover no molhado”, o Fed começou a fazer coisas que um recente artigo descreveu como “fora das descrições de política monetária dos livros atuais”. O Fed é o “emprestador de último recurso” dos Estados Unidos, o que o torna responsável pelo funcionamento bem lubrificado do sistema financeiro, em particular quando este corre o risco de ruir por falta de crédito e liquidez. Nessa função, o Fed é investido de impressionantes poderes. O Artigo 13(3) do Federal Reserve Act dá ao Fed autoridade para fazer empréstimos a “qualquer indivíduo, sociedade ou corporação, sob a condição de que o tomador seja incapaz de obter crédito de uma instituição bancária”. Ben Bernanke pode criar US$ 500 e emprestá-los para a sua avó consertar o telhado se o banco local tiver dito não e ele achar que isso pode trazer algum bem para todos nós.
Bernanke e equipe instituíram uma política monetária equivalente a uma fita isolante. O Federal Reserve instou os bancos comerciais a tomar empréstimos diretamente do Fed via guichê de descontos, deu aos bancos a possibilidade de tomar empréstimos anonimamente (de modo a não enviar sinais de fraqueza para o mercado) e ofereceu empréstimos de longo prazo. O Fed também emprestou fundos diretamente para um banco de investimentos (Bear Stearns) pela primeiríssima vez em todos os tempos, quando este último chegou a vislumbrar a insolvência; e emprestou US$ 30 bilhões ao JPMorgan Chase para assumir o Bear Stearns, poupando o mercado do caos que mais tarde se seguiu à falência do Lehman Brothers. Em casos nos quais as instituições já tinham acesso ao capital do Fed, as regras para garantias foram alteradas a fim de que os tomadores caucionassem bens ilíquidos como títulos respaldados por hipotecas – significando que quando a vovó pedisse US$ 500 emprestados ela podia caucionar o empréstimo usando todo aquele entulho no sótão como garantia, mesmo que não se soubesse quem ia querer comprar aquilo, nem a que preço. Isso faz com que o
dinheiro chegue à vovó para consertar o telhado, que é o objetivo de tudo.7
A POLÍTICA MONETÁRIA é um negócio traiçoeiro. Feita corretamente, ela facilita o crescimento econômico e amortece a economia de choques que poderiam causar enormes estragos. Feita de maneira errada, pode causar dor e sofrimento. Será possível que todas as recentes ações não convencionais do Federal Reserve tenham apenas preparado a cena para outro conjunto de problemas? Não, não e não. É mais provável, ao menos com base nas evidências, que o Fed tenha impedido uma crise mais séria e, como consequência, poupado uma grande dose de sofrimento humano. O presidente Barack Obama indicou Ben Bernanke para presidente do Federal Reserve num segundo mandato de quatro anos, começando em 2010. Na cerimônia de nomeação, o presidente disse: “Como estudioso das causas da Grande Depressão, tenho certeza de que Ben jamais imaginou que faria parte de um time responsável por evitar outra crise. Mas, pelo seu histórico, seu temperamento, sua coragem e criatividade, foi exatamente
isso que ele ajudou a fazer.”8 Isso é um elogio e tanto. Por enquanto, parece amplamente correto.
a Tudo bem, isso não é exatamente verdade. No auge da crise financeira, bem na época em que o Lehman Brothers declarou falência, o resultado de letras do Tesouro americano para o prazo de três meses caiu para abaixo de zero, o que significa que a taxa de juros nominal ficara negativa. Surpreendentemente, os investidores estavam pagando mais do que prometiam pagar em três meses. Para os responsáveis pela política, isso foi sinal de pânico. Keith Hennessey, diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, disse a James Stewart, da New Yorker: “As taxas do Tesouro ficaram negativas! As pessoas estavam realizando uma perda só para proteger seu dinheiro.”