Economia nua e crua

Charles Wheelan · Capítulo 5 de 18

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Economia nua e crua

4. Governo e economia II: O exército teve sorte de conseguir aquela chave de fenda por US$ 500

4. Governo e economia II

 

O exército teve sorte de conseguir

aquela chave de fenda por US$ 500

 

A ESSA ALTURA VOCÊ provavelmente está pronto para enaltecer as virtudes da burocracia em seu próximo jantar elegante. Calma aí. Se o governo fosse tão maravilhoso, os países de maior participação governamental – lugares como a Coreia do Norte e Cuba – seriam verdadeiras potências econômicas. Não são. O governo é bom para fazer certas coisas e péssimo para outras. O governo pode lidar com externalidades significativas – ou pode regular a economia a ponto de arruiná-la. Ele pode prover bens públicos essenciais – ou desperdiçar enormes receitas de impostos em programas ineficazes e projetos ridículos. Pode transferir dinheiro dos ricos para os desfavorecidos, ou do povo para aqueles que são politicamente bem-relacionados. Em suma, é possível usar o governo para criar as fundações de uma economia de mercado vibrante ou para sufocar um comportamento altamente produtivo. A sabedoria, claro, está em saber a diferença.

Há uma velha piada, uma das prediletas de Ronald Reagan, que é mais ou menos assim. Uma mulher soviética tenta comprar um Lada, um dos automóveis baratos feitos na antiga União Soviética. A vendedora lhe diz que há escassez desses carros, apesar de sua reputação de qualidade sofrível. Ainda assim, a mulher insiste em deixar um pedido. A vendedora pega uma pasta enorme, cheia de poeira, e acrescenta o nome da mulher à longa lista de espera. “Volte em dois anos a contar de agora, em 17 de março”, diz ela. A mulher consulta o calendário. “De manhã ou de tarde?”, ela pergunta. “Que diferença faz?”, retruca a vendedora, ranzinza. “É daqui a dois anos!” “É que o encanador vai à minha casa nesse dia”, ela responde.

Se a URSS nos ensinou alguma coisa é que o monopólio asfixia qualquer necessidade de ser inovador ou responsivo aos clientes. E o governo é um monopólio muito grande. Por que a funcionária no Departamento de Veículos é grosseira e ranzinza? Porque pode. Como seria seu comércio se seus clientes, por lei, não pudessem ir a outro lugar? Certamente eu pensaria duas vezes antes de trabalhar até tarde, ou, já que é assim, nem iria trabalhar nos dias quentes de verão, quando o Cubs, meu time de beisebol, estivesse jogando em casa.

Operações governamentais muitas vezes são descritas como ineficientes. Na verdade, elas são exatamente como seria de esperar, dados os incentivos. Pense no Departamento de Trânsito, que tem o monopólio de conceder carteiras de habilitação aos motoristas. Qual o sentido de ser gentil, ficar aberto até mais tarde, deixar os clientes à vontade, contratar funcionários para reduzir as filas, manter os escritórios limpos ou interromper um telefonema pessoal para atender a algum cliente no guichê? Nada disso trará nem um cliente a mais! Toda pessoa que precisa de uma carteira de habilitação já vai ao Departamento de Trânsito e continuará a ir, não importa quão desagradável seja a experiência. Há limites, claro. Se o serviço ficar ruim demais, os eleitores tomarão alguma atitude contra os políticos encarregados. Mas esse é um processo indireto, vagaroso. Compare com suas opções no setor privado. Se um rato passasse correndo pelo balcão de seu restaurante chinês predileto, você (provavelmente) deixaria de comer lá. Fim do problema. O restaurante vai ter de se livrar dos ratos ou fechar as portas. Por outro lado, se você parar de ir ao Departamento de Trânsito, corre o risco de acabar na cadeia.

Passei por uma coisa desse tipo, de forma bastante vívida, quando um cheque que eu estava aguardando da Fidelity, a companhia de fundos mútuos, não apareceu na minha caixa de correio. (Eu precisava do dinheiro para devolver à minha mãe, que sabe ser uma credora bem feroz.) Passava-se o tempo, e nada do cheque. Nesse meio tempo, minha mãe vinha “checar” as coisas com frequência cada vez maior. Uma das duas partes tinha culpa, a Fidelity ou os Correios dos Estados Unidos, e eu ia ficando cada vez mais zangado. Finalmente liguei para a Fidelity a fim de exigir uma prova de que o cheque fora enviado. Eu estava pronto a mudar todos os meus (relativamente magros) ativos para a Vanguard, a Putnam ou alguma outra companhia de fundos mútuos (ou ao menos a fazer a ameaça). Em vez disso, falei com uma pessoa bastante gentil do atendimento aos clientes que me explicou que o cheque fora enviado por correio duas semanas antes, e se desculpou pelo meu incômodo. Ela cancelou o cheque e mandou outro em questão de segundos. E aí se desculpou mais uma vez por um problema que, como eu agora percebia, sua companhia não havia causado.

A culpa foi da agência dos correios. Então fiquei ainda mais zangado e aí… Não fiz nada. O que eu deveria fazer? O encarregado da agência local não aceita reclamações por telefone. Eu não queria perder tempo escrevendo uma carta (que, de qualquer maneira, poderia não chegar). Tampouco adiantava reclamar com o carteiro, que nunca se preocupou com a qualidade do serviço. Mais ou menos uma vez por mês ele “pula” uma casa e entrega toda a correspondência na casa seguinte. A questão, cuidadosamente disfarçada nessa diatribe, é que os Correios dos Estados Unidos têm o monopólio da entrega de correspondência de primeira classe. E isso é visível.

Há duas lições mais amplas a serem aprendidas. Em primeiro lugar, o governo não deveria ser o único fornecedor de um bem ou serviço, a menos que haja uma razão compulsória para acreditar que o setor privado falharia nesse papel. Essa exclusão deixa coisa de sobra para o governo fazer em áreas que vão desde a saúde pública até a defesa nacional. Tendo acabado de criticar o Departamento de Trânsito, devo admitir que emitir uma carteira de habilitação provavelmente é uma função que deveria ficar nas mãos do governo. Empresas privadas emitindo carteiras de habilitação poderiam competir não somente no preço e na qualidade do serviço; teriam um poderoso incentivo para atrair fregueses emitindo carteiras de habilitação para pessoas que não as merecem.

Ainda assim, isso deixa uma porção de coisas que o governo não deveria estar fazendo. Entregar correspondência é uma delas. Um século atrás, o governo podia ter razões legítimas para estar no ramo da correspondência. Os Correios dos Estados Unidos chegaram a regiões subdesenvolvidas do país, garantindo a entrega de correspondência com uma taxa subsidiada (uma vez que entregar correspondência em áreas remotas é mais caro que entregá-la na área metropolitana, embora o selo custe a mesma coisa). A tecnologia também era diferente. Em 1820, era improvável que mais de uma empresa privada tivesse feito o investimento maciço necessário para construir um sistema que entregasse correspondência em qualquer lugar do país. (Um monopólio privado não é melhor – talvez seja pior – que o monopólio governamental.) Os tempos mudaram. FedEx e United Parcel Service (UPS) provaram que firmas privadas são perfeitamente capazes de construir infraestruturas de entrega mundiais.

Existe algum custo econômico gigantesco associado ao medíocre serviço postal? Provavelmente não. Mas imagine os correios controlando outros setores importantes da economia. Em outras partes do mundo, o governo administra usinas de aço, minas de carvão, bancos, hotéis e empresas aéreas. Todos os benefícios que a competição pode trazer para esses negócios são perdidos. Por conseguinte, a vida dos cidadãos fica pior. (Para alimentar o pensamento: um dos maiores monopólios governamentais que ainda persiste nos Estados Unidos é a educação pública.)

Há um segundo ponto mais sutil. Mesmo que o governo tenha um papel importante a desempenhar na economia, como construir estradas e pontes, isso não implica que ele deva efetivamente fazer o serviço. Empregados do governo não precisam ser aqueles que despejam o cimento. Em vez disso, o governo pode planejar e financiar uma nova rodovia, e então solicitar propostas de construtoras privadas para fazer o trabalho. Se o processo de licitação for honesto e competitivo (um “se” enorme, em muitos casos), o projeto irá para a empreiteira capaz de fazer o melhor trabalho pelo custo mais baixo. Em suma, um bem público é entregue de maneira a aproveitar todas as vantagens do mercado.

Essa distinção às vezes se perde para os contribuintes americanos, aspecto que Barack Obama fez questão de frisar durante suas reuniões sobre a reforma do sistema de saúde. Ele disse: “Outro dia recebi a carta de uma mulher. Ela dizia: ‘Eu não quero serviço de saúde

administrado pelo governo. Não quero medicina socializada. E não toque no meu Medicare.’”a A ironia, claro, é que o Medicare é um serviço de saúde gerido pelo governo; o programa permite que americanos acima de 65 anos busquem atendimento de seus médicos particulares, que são reembolsados pelo governo federal. Mesmo a Agência Central de Inteligência (CIA) aprendeu essa lição. A CIA precisa usar tecnologia de ponta, porém não pode oferecer os mesmos incentivos à inovação que o setor privado. Alguém que faça uma descoberta revolucionária na Agência não estará valendo centenas de milhões de dólares seis meses depois, como aconteceria numa empresa iniciante no Vale do Silício. Assim, a CIA resolveu usar o setor privado para seus próprios fins, empregando dinheiro alocado pelo Congresso para abrir sua própria empresa de capital de risco, chamada In-Q-It (uma astuta referência a

Q, o guru de tecnologia que desenvolve as engenhocas para James Bond).1 Como explicou um executivo da In-Q-It, o propósito da empresa era “passar a tecnologia de informação para a Agência mais depressa do que permitem os processos tradicionais do governo”. Como qualquer outra empresa de capital de risco, a In-Q-It fará investimentos em pequenas firmas com novas tecnologias promissoras. A In-Q-It e as firmas que ela banca ganharão dinheiro – talvez muito dinheiro – se essas tecnologias se revelarem valiosas para aplicações comerciais. Ao mesmo tempo, a CIA deterá o direito de usar qualquer nova tecnologia com potenciais aplicações de coletar informações. Um empreendedor do Vale do Silício financiado pela Agência pode desenvolver um meio mais eficaz de criptografar dados na internet – algo que as empresas de comércio virtuais iam querer de imediato. Ao mesmo tempo, a CIA teria um modo melhor de salvaguardar informações enviadas a Washington por investigadores disfarçados no mundo todo.

 

NO SETOR PRIVADO, os mercados nos dizem onde colocar nossos recursos. Sentado nas cadeiras centrais num jogo do time de beisebol Chicago White Sox, vi um vendedor andar pelas arquibancadas levando algo vistosamente anunciado como Margarita Space Pak. O equipamento tecnológico possibilitava ao vendedor preparar margaritas geladas no local; de algum modo ele misturava as bebidas no seu dispositivo, que parecia uma mochila, e aí servia o drinque em copos plásticos por uma mangueirinha. O benefício social ostensivo dessa descoberta tecnológica era que os fãs de beisebol podiam agora curtir margaritas, em vez de cerveja, sem sair do lugar. Desconfio que algumas das mais argutas mentes – um recurso escasso – do nosso país dedicaram tempo e esforço para criar o Margarita Space Pak, o que significa que não estão dedicando seu tempo a procurar uma fonte de energia mais barata e mais limpa, nem uma forma melhor de enviar alimentos às crianças malnutridas da África. Será que o mundo precisa do Margarita Space Pak? Não. Poderiam as cabeças dos engenheiros que o criaram ser colocadas a serviço de um propósito mais útil socialmente? Sim. Mas – e este é o aspecto importante – esta é a minha opinião, e eu não dirijo o mundo.

Quando o governo controla alguns elementos da economia, recursos escassos são alocados por autocratas, burocratas ou políticos, e não pelo mercado. Na antiga União Soviética, maciças usinas de aço cuspiam toneladas de metal, mas o cidadão médio não podia comprar sabão ou cigarros decentes. Em retrospecto, não deveria ser surpresa que fosse a URSS a primeira a colocar um foguete em órbita (também é óbvio que ela não inventaria o Margarita Space Pak). O governo podia simplesmente obrigar que os recursos fossem gastos no programa espacial, mesmo que a população preferisse ter legumes frescos ou ceroulas para o frio. Algumas dessas decisões de alocação de recursos foram trágicas. Por exemplo, os planejadores centrais soviéticos não consideravam o controle da natalidade uma prioridade econômica. O governo soviético poderia ter feito contraceptivos acessíveis para todos; qualquer país capaz de construir mísseis balísticos intercontinentais tem o know-how para fazer uma pílula anticoncepcional ou pelo menos um preservativo. Mas a contracepção não era a área para a qual os planejadores centrais optaram canalizar os recursos do país, deixando o aborto como única forma de planejamento familiar. Nos anos do comunismo, havia cerca de dois abortos para cada nascimento. Desde o colapso da União Soviética, os contraceptivos ocidentais têm se tornado amplamente acessíveis, e o índice de abortos caiu pela metade.

Mesmo em países democráticos, o processo político pode investir recursos em alguns lugares bastante estranhos. Certa vez entrevistei um perito em tecnologia acerca dos planos do governo para construir um acelerador de partículas de alta velocidade (um bom exemplo de pesquisa básica). O acelerador traria empregos e dinheiro federal para o lugar que abrigaria o projeto. Isso foi no começo dos anos 1990, e os dois locais preferidos eram o norte de Illinois e algum lugar no Texas. Segundo o sujeito com quem falei, Illinois era mais atraente porque já tinha um acelerador de partículas e um importante laboratório federal. Grande parte da infraestrutura científica já estava no local e não precisaria ser duplicada. Apesar disso, o projeto foi instalado no Texas. “Por quê?”, indaguei. O sujeito olhou para mim como se eu fosse um idiota. “Porque George [H.W.] Bush era presidente”, ele respondeu, como se não pudesse haver razão mais óbvia para instalar um acelerador de partículas gigante no Texas. No final, o governo gastou cerca de US$ 1 bilhão no projeto e depois o abandonou.

O setor privado aloca recursos onde obtiver retorno mais elevado. Em contraste, o governo aloca recursos onde quer que o processo político determine. (Considere a primeira página do Wall Street Journal: “Indústrias que apoiaram Bush agora buscam retorno do

investimento.”)2

Será que isso é porque os republicanos são particularmente propensos a esse tipo de influência política escavada com dinheiro? Talvez. Mas isso não explicaria essa manchete mais recente do New York Times: “Em Washington, um presidente de banco ainda aguenta firme.” E a matéria começava:

 

Jamie Dimon, presidente do JPMorgan Chase, fará uma reunião de diretoria aqui na capital do país, pela primeira vez, na

segunda-feira, com um convidado: o chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel. A presença do sr. Emanuel vem

sublinhar a arrancada do sr. Dimon, que, em meio à desgraça do setor, surgiu como banqueiro favorito do presidente

Obama e também como objeto da inveja de seus rivais de Wall Street. Isso reflete igualmente um bom retorno para o que o

sr. Dimon rotulou de ‘sétima linha de negócios’ de sua empresa: relações com o governo.3

 

Não há nada de errado nisso. A política é um processo necessário, mas imperfeito, e todo mundo tem o direito de exercer influência. Bases militares são construídas ou fechadas de uma forma que reflete a composição da Comissão das Forças Armadas no Senado, tanto quanto (ou mais que) as necessidades militares do país. Um exército privado não é opção, de modo que isso é o melhor que podemos esperar. Mas quanto menos a economia for deixada para a política, melhor. Políticos poderosos não devem decidir, por exemplo, quem tem crédito bancário e quem não tem. No entanto, é exatamente isso que ocorre em nações autocráticas como a China e em países democráticos como a Indonésia, onde os políticos brincam de “capitalismo íntimo”. Projetos que têm potencial altamente lucrativo não conseguem financiamento, enquanto empreendimentos duvidosos patrocinados pelo cunhado do presidente são prodigamente regados com fundos governamentais. Os consumidores perdem de dois modos. Primeiro, o dinheiro dos impostos é desperdiçado quando projetos que nunca deveriam ter sido financiados vão para o buraco (ou quando todo o sistema bancário precisa ser avalizado por estar cheio de empréstimos podres, politicamente motivados). Segundo, a economia não se desenvolve com a rapidez ou eficiência necessária porque o crédito (um recurso finito) é canalizado para longe dos projetos que valem a pena: fábricas de automóveis não são construídas; estudantes não obtêm empréstimos; empreendedores não recebem verbas. Como resultado, os recursos são esbanjados e a economia tem um desempenho bem distante de seu potencial.

 

O GOVERNO NÃO PRECISA dirigir usinas de aço ou distribuir empréstimos bancários para intervir na economia. O tipo mais sutil e difuso de envolvimento governamental é a regulamentação. Os mercados funcionam porque os recursos fluem para onde são mais valorizados. A regulamentação governamental interfere nesse processo. No mundo pintado pelos livros de economia, os empresários atravessam a rua para obter lucros mais altos. No mundo real, funcionários do governo ficam no meio da rua e cobram pedágio, isso se não impedirem a passagem. A firma empreendedora pode precisar de uma licença para atravessar a rua ou ter seu veículo fiscalizado pelo Departamento de Trânsito ao cruzar a via, ou provar para o Serviço de Imigração que os trabalhadores que atravessam a rua são cidadãos americanos. Alguns desses regulamentos melhoram nossa vida. É bom ter funcionários do governo bloqueando a rua quando o “empreendedor” está transportando 7 quilos de cocaína. Mas cada regulamento particular também tem um custo.

Milton Friedman, escritor encantador e porta-voz articulado de um governo menos invasivo (e um pensador bem mais sutil que muitos dos autores que assombram atualmente as páginas de opinião, pretensiosamente considerando-se herdeiros de seu manto), aborda esse aspecto em Capitalismo e liberdade, relatando a troca de opiniões entre um economista e um representante da American Bar Association [correspondente à Ordem dos Advogados do

Brasil] num grande encontro de advogados.4 O economista argumentava diante do grupo que a admissão à Associação deveria ser menos restritiva. Permitir a prática de mais advogados, inclusive daqueles que talvez não fossem os mais afiados do arsenal, baixaria os custos dos serviços jurídicos, argumentava ele. Afinal, alguns procedimentos legais, como testamentos básicos e transações imobiliárias, não exigem os serviços de um jurista. Por analogia, ele disse que seria um absurdo o governo exigir que todos os automóveis fossem Cadillacs. A essa altura, um advogado da plateia levantou-se e disse: “O país não pode se permitir outra coisa a não ser advogados Cadillacs!”

Na verdade, exigir apenas “advogados Cadillacs” deixa escapar tudo que a economia busca nos ensinar a respeito de escolhas e riscos entre trade-offs (por motivos que nada têm a ver com o fato de a General Motors ser um caso perdido). Num mundo que tivesse apenas Cadillacs, a maioria das pessoas não poderia se permitir qualquer tipo de transporte. Às vezes não há nada de errado em permitir que as pessoas andem de Toyota Corolla.

Para um impressionante exemplo internacional dos efeitos da regulação sobre a economia,

considere a agitação civil em 2000 em Nova Déli, na Índia.5 A cidade é uma das mais poluídas do mundo. Depois que a Suprema Corte da Índia tomou uma importante decisão referente à poluição industrial, milhares de moradores da cidade saíram às ruas em violento protesto. “Turbas incendiaram ônibus, jogaram pedras e bloquearam estradas importantes”, dizia a reportagem do New York Times. E aqui vai o mais esquisito: Os manifestantes apoiavam os poluidores. A Suprema Corte se desentendeu com a cidade de Nova Déli por não conseguir fechar cerca de 90 mil pequenas fábricas que poluíam a área. Essas fábricas empregavam aproximadamente 1 milhão de pessoas que seriam expulsas do trabalho. A manchete da história englobava perfeitamente o trade-off: “Escolha cruel em Nova Déli: empregos versus meio ambiente mais seguro.”

E quanto ao DDT, uma das substâncias químicas mais sórdidas que a humanidade já soltou no meio ambiente? O DDT é um “poluente orgânico persistente” que penetra e percorre a cadeia alimentar, causando devastação ao longo do caminho. Deveria esse nocivo pesticida

ser banido do planeta? A The Economist deu um argumento convincente para que não fosse.6 Grande parte do mundo em desenvolvimento é assolada pela malária; cerca de 300 milhões de pessoas são acometidas por essa doença todo ano, e mais de 1 milhão morre. (Claro que a malária não é uma doença à qual somos particularmente sensíveis no mundo desenvolvido, uma vez que foi erradicada da América do Norte e da Europa cinquenta anos atrás. O pesquisador tanzaniano Wen Kilama certa vez fez um comentário famoso dizendo que se sete Boeings 747, lotados em sua maioria de crianças, se chocassem contra o monte Kilimanjaro todo dia, então o mundo prestaria atenção. Essa é a escala em que a malária mata suas

vítimas.)7

O economista Jeffrey Sachs, de Harvard, estimou que a África subsaariana seria quase ⅓ mais rica hoje se a malária tivesse sido erradicada em 1965. Agora voltemos ao DDT, que é o meio mais efetivo em termos de custo para controlar os mosquitos que espalham a doença. A segunda alternativa não é somente menos eficaz como também quatro vezes mais cara. Será que os benefícios do DDT para a saúde justificam seus custos ambientais?

Sim, argumentam alguns grupos – como o Sierra Club, o Serviço de Proteção à Vida Selvagem Ameaçada, o Fundo de Defesa Ambiental e a Organização Mundial de Saúde (OMS). Sim, você está lendo os nomes corretamente. Todos defendem o DDT como “veneno útil” para combater a malária em países pobres. Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) reuniu representantes de 120 países na África do Sul, em 2000, para banir “poluentes orgânicos persistentes”, os delegados concordaram em excluir o DDT em situações nas quais

fosse usado para combater a malária.8

Ao mesmo tempo, nem todos os regulamentos são iguais. A questão relevante nem sempre é se o governo deveria se envolver ou não na economia, mas a maneira como a regulamentação é estruturada. Gary Becker, economista da Universidade de Chicago e laureado com o Prêmio Nobel, passa seus verões em Cape Cod, onde é um apaixonado

consumidor da perca listrada.9 Como os estoques desse peixe estão diminuindo, o governo impôs um limite para a captura comercial total da perca listrada por temporada. O sr. Becker não tem problema com isso, ele também gostaria de comer perca listrada daqui a dez anos.

Mas ele expôs, numa coluna para a Business Week, uma questão sobre como o governo optara por limitar a captura total. Na época em que escreveu, impusera-se uma cota agregada sobre a quantidade de perca listrada que podia ser pescada em cada estação. O sr. Becker escreveu: “Infelizmente, essa é uma maneira muito frágil de controlar a pesca, porque estimula cada barco pesqueiro a capturar avidamente o máximo possível na estação, antes que outros barcos tragam peixe suficiente para chegar à cota agregada aplicável a todos eles.” Nesse caso, todo mundo perde: os pescadores só conseguem um preço baixo quando vendem no mercado abarrotado, no começo da temporada; aí, depois que a cota agregada é atingida, os consumidores não conseguem mais comprar perca listrada. Vários anos depois, Massachusetts mudou o sistema, e a cota de perca listrada é dividida individualmente entre os pescadores; a pesca total ainda é limitada, mas cada pescador pode preencher sua cota em qualquer momento durante a temporada.

A chave para pensar como um economista é reconhecer os trade-offs inerentes a dançar segundo a música dos mercados. A regulamentação pode perturbar o movimento de capital e trabalho, aumentar o custo de bens e serviços, inibir inovações e manietar a economia de várias maneiras (tais como deixar os mosquitos escaparem com vida). E esta é apenas a regulamentação inspirada por boas intenções. No pior dos casos, a regulamentação pode se tornar uma ferramenta poderosa de interesse próprio, quando as empresas manipulam o sistema político em seu proveito. Afinal, se você não consegue superar os concorrentes, então, por que não fazer o governo atrapalhá-los para você? O economista George Stigler, da Universidade de Chicago, recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1982 por sua incisiva observação e comprobatória evidência de que empresas e associações profissionais muitas vezes buscam regulamentação como meio de impor seus interesses.

Considere uma campanha regulatória que ocorreu no estado onde moro, Illinois. A legislatura estadual estava sendo pressionada para decretar exigências de licenciamento mais rígidas para as manicures. Seria uma campanha de pressão comunitária orquestrada pelas vítimas de terríveis barbeiragens dessas profissionais? (É possível imaginar as vítimas mancando de dor nas escadarias da capital.) Não exatamente. A pressão era exercida pela Associação de Cosmetologia de Illinois em nome de spas e salões estabelecidos que preferiam não competir com uma porção de imigrantes amadoras. A quantidade de salões de manicure cresceu 23% em apenas um ano, no fim da década de 1990, e as ofertas chegavam a ponto de o serviço ser prestado por apenas US$ 6, bem distante dos US$ 25 cobrados num salão legalizado. Exigências mais rígidas de licenciamento – que quase sempre excluem fornecedores de serviços já existentes – teriam limitado a concorrência feroz, fazendo com que fosse mais difícil abrir um salão.

Milton Friedman ressaltou que a mesma coisa aconteceu em escala maior na década de 1930. Depois que Hitler chegou ao poder, em 1933, grande quantidade de profissionais fugiu da Alemanha e da Áustria para os Estados Unidos. Em reação, muitas profissões erigiram barreiras tais como exigências de “atestado de cidadania” e exames de idioma que tinham uma ligação tênue com a qualidade do serviço oferecido. Friedman destacou que o número de médicos treinados no exterior e licenciados para praticar nos Estados Unidos nos cinco anos após 1933 foi o mesmo que nos cinco anteriores – o que seria altamente improvável se as exigências para a licença existissem apenas para excluir os médicos incompetentes, mas muito provável se essas exigências fossem usadas para racionar o número de médicos estrangeiros com permissão para exercer a profissão.

Pelos padrões globais, os Estados Unidos têm uma economia levemente regulada (mas tente apresentar esse argumento numa reunião da Câmara de Comércio). De fato, uma triste ironia do mundo em desenvolvimento é que os governos fracassam na maioria de suas tarefas básicas, como definir direitos de propriedade ou fazer cumprir a lei, enquanto se concentram em outros tipos de regulação pesada. Em teoria, essa espécie de regulação protegeria os consumidores de fraudes, melhoraria a saúde pública ou salvaguardaria o meio ambiente. De outro lado, os economistas têm se perguntado se esse tipo de regulação significa menos “dar uma mão” à sociedade e mais “meter a mão”, para os burocratas corruptos, cujas oportunidades de extorquir propinas crescem juntamente com o número de permissões e licenças governamentais exigidas para qualquer empreendimento.

Um grupo de economistas estudou a questão de “dar uma mão” versus “meter a mão” examinando os procedimentos, custos e atrasos associados a iniciar um novo negócio em 75

países diferentes.10 Foi uma gama extraordinária. Registrar e licenciar um negócio no Canadá requer apenas dois procedimentos, enquanto na Bolívia exige vinte. O tempo requerido para abrir um negócio varia de dois dias no Canadá a seis meses em Moçambique. O custo de saltar por cima dessa variedade de barreiras governamentais varia de 0,4% da renda per capita na Nova Zelândia até 260% da renda per capita na Bolívia. O estudo descobriu que em países pobres, como Vietnã, Moçambique, Egito e Bolívia, um empresário precisa abrir mão de uma quantia igual a uma a duas vezes seu salário anual (sem contar propinas e o custo de oportunidade do seu tempo) simplesmente para licenciar um novo negócio.

E então, será que os consumidores estão mais seguros e saudáveis em países como Moçambique que no Canadá ou na Nova Zelândia? Não. Os autores descobriram que a observância dos padrões internacionais de qualidade é mais baixa em países com mais regulação. Tampouco essa burocracia governamental parece reduzir a poluição ou incrementar os níveis de saúde. Ao mesmo tempo, a regulação excessiva empurra os empreendedores para a economia informal, na qual não existe qualquer regulação. É mais difícil abrir um negócio novo em países onde a corrupção é mais elevada, sugerindo que a regulação excessiva é uma fonte potencial de receita para os burocratas encarregados de seu cumprimento.

A Índia tem mais de 1 bilhão de pessoas, muitas das quais são desesperadamente pobres. A educação tem desempenhado o importante papel de movimentar a economia do país e projetar milhões de cidadãos para acima da linha de pobreza. A educação superior em particular contribui para a criação e expansão de um vibrante setor de tecnologia da informação. Contudo, uma recente escassez de trabalhadores capacitados tem sido um entrave para o crescimento econômico. Então, não é nenhum grande enigma econômico o motivo que levou uma escola farmacêutica em Mumbai a tentar usar o espaço vago em seu edifício de oito andares para duplicar as matrículas de alunos.

O problema é que essa ação transformou a administração da escola em um bando de criminosos. É verdade – o governo indiano impõe rígidos regulamentos a suas escolas técnicas, para proteger o consumidor contra algo imprudente e potencialmente perigoso como usar espaço vago para educar mais estudantes. De modo específico, a lei estipula que uma escola técnica precisa prover 15 metros quadrados para cada aluno (a fim de assegurar espaço para a aprendizagem). Essa fórmula impede a Escola de Farmácia Diretor K.M. Kundnani de abrigar mais que trezentos alunos – independentemente do fato de que todas as salas de aula no andar superior do prédio estão trancadas por falta de uso.

Segundo o Wall Street Journal, “As regras também estipulam o tamanho exato de bibliotecas e escritórios administrativos, a proporção de professores para assistentes e palestrantes, cotas para matrículas de alunos e número de terminais de computador, livros e

publicações que precisa haver no local”.11

Felizmente, às vezes os governos voltam atrás nesse tipo de regulamentação. Em novembro de 2008, a União Europeia (UE) agiu audaciosamente para legalizar… frutas e vegetais feios. Antes dessa data, os supermercados por toda a Europa eram proibidos de vender produtos “exageradamente curvos, com excesso de saliências ou de formato esquisito”. Foi um verdadeiro ato de coragem política das autoridades da União Europeia, dado que os representantes de dezesseis dos 27 países membros tentaram bloquear a anulação do

regulamento enquanto ele estava sob exame pelo Comitê de Administração Agrícola da UE.12

Eu gostaria que esse caso fosse invenção minha.

 

V AMOS DEIXAR POR um momento a ironia e voltar à ideia de que o governo tem capacidade de fazer muitas coisas boas. Mesmo quando ele toma iniciativas teoricamente esperáveis, os gastos governamentais precisam ser financiados pela arrecadação de impostos, e os impostos significam um custo para a economia. Esse “entrave fiscal”, como o chamou Burton Malkiel, provém de dois fatores. Primeiro, os impostos tiram dinheiro dos nossos bolsos, o que necessariamente diminui nosso poder de compra, e portanto nossa utilidade. É fato que o governo pode criar empregos gastando bilhões de dólares em caças a jato, mas nós estamos pagando por esses caças com dinheiro dos nossos contracheques, o que significa comprar menos televisores, doar menos para instituições de caridade, tirar menos férias. Logo, o governo não está necessariamente criando empregos; pode estar apenas transferindo-os ou destruindo-os. Esse efeito da tributação é menos óbvio que uma nova fábrica para a defesa, onde operários felizes montam aviões reluzentes. (Quando, adiante, nos voltarmos para a macroeconomia, examinaremos a premissa keynesiana de que o governo pode incrementar o crescimento econômico alimentando a economia durante períodos de recessão.)

O segundo fator, mais sutil, é que a tributação leva os indivíduos a mudarem seu comportamento de forma que tornam a economia pior sem necessariamente representar alguma receita para o governo. Pense no imposto de renda, que pode chegar a US$ 0,50 para cada US$ 1 ganho quando computados todos os impostos federais e estaduais relevantes. Alguns indivíduos que prefeririam trabalhar se estivessem levando para casa todo dólar que ganham podem resolver abandonar a força de trabalho quando a taxa de impostos chega a 50%. Todo mundo perde nessa situação. Alguém cuja preferência é trabalhar deixa o emprego (ou nem começa a trabalhar), e o governo não tem receita.

Como dissemos no Capítulo 2, os economistas referem-se a esse tipo de ineficiência associada à tributação como “perda de peso morto”. Você fica pior de vida sem melhorar a vida de ninguém. Imagine que um ladrão invada sua casa e roube variados bens pessoais; na pressa, ele vai embora com maços de dinheiro, mas também com um precioso álbum de família. Não há perda de peso morto associada ao dinheiro que ele roubou; cada US$ 1 furtado melhora sua vida em US$ 1. (Perversamente, aos olhos dos nossos economistas amorais, essa é uma simples transferência de riqueza.) De outro lado, o álbum de fotos roubado é pura perda de peso morto. Não significa nada para o ladrão, que o joga numa caçamba de entulho logo que percebe o que levou. Todavia, é uma tremenda perda para você. Qualquer tipo de taxação que desestimule o comportamento produtivo causa alguma perda de peso morto.

Impostos também podem desestimular os investimentos. Um empreendedor que esteja ponderando fazer um investimento arriscado poderá fazê-lo quando o retorno esperado é de US$ 100 milhões, mas não quando o retorno esperado, com a redução dos impostos, é de apenas US$ 60 milhões. Uma pessoa pode buscar um diploma de graduação que aumentará sua renda em 10%. Porém, esse mesmo investimento, que é custoso em termos de despesas de ensino e tempo, talvez não valha a pena se sua renda pós-imposto – o que a pessoa realmente vê depois de todas as deduções no pagamento – subir apenas 5%. (No dia em que meu irmão mais novo recebeu seu primeiro pagamento, ele chegou em casa, abriu o envelope e berrou: “Que diabos é retenção na fonte?”) Ou considere uma família que tem uma reserva de US$ 1 mil e está decidindo se compra uma TV de tela grande ou se põe o dinheiro num fundo de investimentos. As duas opções têm impactos profundamente diferentes sobre a economia a longo prazo. Optar pelo investimento torna o capital acessível para as empresas construírem fábricas, realizarem pesquisas, treinarem operários. Esses investimentos são o equivalente macro a uma educação superior; eles nos tornam mais produtivos a longo prazo, e portanto mais ricos. Comprar a televisão, por outro lado, é consumo imediato. Isso nos deixa felizes hoje, mas não faz nada para nos deixar mais ricos amanhã.

Sim, o dinheiro gasto numa televisão mantém os operários da fábrica de televisores no emprego. Mas se o mesmo dinheiro fosse investido, criaria empregos em algum outro lugar, digamos, para cientistas num laboratório ou trabalhadores numa construção, e ao mesmo tempo nos deixaria mais ricos a longo prazo. Pense no caso da faculdade. Mandar alunos à faculdade cria empregos para professores. Usar o mesmo dinheiro para comprar carros esportivos de luxo para alunos do curso médio que acabaram de se formar cria empregos para operários das fábricas de automóveis. A diferença crucial entre esses dois cenários é que a educação superior torna uma pessoa jovem mais produtiva para o resto da vida; um carro esportivo, não. Logo, a despesa com educação superior é um investimento; comprar carro esporte é consumo (embora comprar um carro para o trabalho ou os negócios também possa ser considerado um investimento).

Então, de volta à nossa família com uma reserva de US$ 1 mil. O que ela escolherá fazer com o dinheiro? A decisão dependerá do retorno pós-imposto que a família espera ganhar investindo o dinheiro em vez de gastá-lo. Quanto mais alto o imposto, como é o caso do imposto sobre ganhos de capital, menor o retorno do investimento – portanto, mais atraente se torna a televisão.

A tributação desestimula tanto o trabalho quanto o investimento. Muitos economistas argumentam que cortar impostos e diminuir a regulamentação libera forças produtivas na economia. Isso é verdade. Os mais ardentes economistas “do lado da oferta” (supply-siders) argumentam que cortes de impostos podem aumentar a receita arrecadada pelo governo, pois todos nós trabalharemos com mais afinco, teremos rendimentos maiores e acabaremos pagando mais em impostos, mesmo que taxas e alíquotas tenham diminuído. Essa é a ideia por trás da curva de Laffer, que forneceu a sustentação intelectual para os grandes cortes de impostos da era Reagan. O economista Arthur Laffer teorizou, em 1974, que impostos elevados desestimulam tanto o trabalho quanto o investimento, e que cortar impostos traria ao governo uma receita maior, e não menor. (Ele esboçou pela primeira vez um gráfico dessa ideia num guardanapo de restaurante, enquanto jantava com um grupo de jornalistas e

políticos. Numa das deliciosas ironias da vida, era o guardanapo de Dick Cheney.)13 Em algum nível de taxação essa relação deve ser verdadeira. Se o imposto de renda pessoal for de 95%, por exemplo, então ninguém vai trabalhar muito além do necessário para subsistir. Cortar a alíquota para 50% decerto impulsionaria a receita do governo.

Mas será que a mesma relação valeria nos Estados Unidos, onde, para começo de conversa, as alíquotas de impostos eram muito mais baixas? Tanto os cortes de impostos de Reagan quanto os de George W. Bush nos deram a resposta: não. Esses grandes cortes de impostos não impulsionaram as receitas do governo (relativamente ao que elas teriam sido na

ausência de cortes);b eles levaram a grandes déficits orçamentários. No caso dos cortes da era Reagan, a conjectura do sr. Laffer parecia valer para os americanos mais abastados, que acabaram mandando mais dinheiro para o Tesouro depois que os impostos foram cortados. Claro que isso pode ser mera coincidência. Como iremos ver no Capítulo 6, trabalhadores altamente qualificados viram seus salários crescerem intensivamente nas últimas décadas à medida que a economia foi exigindo cada vez mais cérebros em lugar de músculos. Logo, os americanos mais ricos podem ter pagado mais em impostos porque seus rendimentos cresceram de repente, e não porque estivessem trabalhando mais em resposta aos impostos mais baixos.

Nos Estados Unidos, onde os impostos são baixos em relação ao resto do mundo, a economia do lado da oferta (supply-side) é uma quimera: em todas as circunstâncias, com raríssimas exceções, não podemos cortar impostos e ter mais dinheiro para gastar em programas do governo – um aspecto que os economistas conservadores logo reconhecem. Bruce Bartlett, funcionário das administrações Reagan e George H.W. Bush, lamentou publicamente que o termo “economia do lado da oferta” tenha se transformado, a partir de uma ideia importante e defensável – de que alíquotas de imposto marginais mais baixas estimulam a atividade econômica –, na noção “implausível” de que “todos os cortes de impostos

aumentam a receita”.14 Quando o senador John McCain disse à National Review, em 2007, que cortes de impostos, “como todos nós sabemos, aumentam as receitas”, o economista Greg Mankiw (que foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos de George W. Bush), de Harvard, formulou a seguinte pergunta lógica em seu blog: “Se o senhor acha que cortes de impostos aumentam a receita, por que advogar a contenção? Não podemos pagar pelos novos

programas de despesas com mais cortes de impostos?”15

Se pareço enfático ao deixar claro esse ponto, é porque sou mesmo. O problema da falácia do corte de impostos/aumento de receita é que ela confunde o debate sobre nossas finanças públicas, dando a ilusão de que podemos conseguir algo em troca de nada. A essa altura você já deve reconhecer que esse não costuma ser o caso em economia. Há muita coisa boa em relação a cortes de impostos. Sobra mais dinheiro no nosso bolso. Ele estimula o trabalho árduo e os riscos. Na verdade, o aumento de atividade econômica causado por impostos mais baixos em geral ajuda a compensar parte da receita perdida. US$ 1 em corte de imposto pode custar ao governo apenas US$ 0,80 em receita perdida (ou US$ 0,50, em casos extremos), já que o governo está pegando uma fatia menor de um bolo maior.

Pense num exemplo numérico simples. Suponha que a alíquota do imposto seja 50% e a base taxada de US$ 100 milhões. A receita arrecadada pelo imposto seria de US$ 50 milhões. Agora suponha que a alíquota seja cortada para 40%. Algumas pessoas trabalham horas adicionais, porque podem ficar com uma parcela maior do que ganham; alguns cônjuges pegam um segundo emprego. Admita que a base taxada suba para US$ 110 milhões. A receita do governo agora é de 40% dessa economia maior, ou seja, US$ 44 milhões. O governo perdeu receita por tomar uma porcentagem menor à atividade econômica preexistente, mas parte dessa perda é compensada pela porcentagem da atividade econômica nova. Se não tivesse havido resposta econômica à diminuição do imposto, o corte de 10% teria custado ao governo US$ 10 milhões em receita perdida; em vez disso, perderam-se apenas US$ 6 milhões. (No caso do aumento de impostos, o mesmo fenômeno tem tendência invertida: o aumento na nova receita será compensado em parte por uma redução do bolo econômico.) Peritos em impostos costumam levar em conta essas respostas comportamentais quando projetam os efeitos de um corte ou aumento de imposto.

Em todas as circunstâncias, exceto as mais extraordinárias, não há almoço grátis. Tributos mais baixos significam menor receita total do governo – e portanto menos recursos para travar guerras, equilibrar o orçamento, capturar terroristas, educar crianças ou fazer qualquer outra coisa que os governos fazem. Esse é o trade-off. A bastardização da economia do lado da oferta (supply-side) levou a um debate intelectual importante – se devemos pagar mais impostos para obter mais serviços do governo, ou pagar menos e obter menos – e o transformou numa premissa intelectualmente desonesta: que podemos pagar menos e obter mais. Eu gostaria que fosse verdade, assim como gostaria de ficar rico trabalhando menos, ou de perder peso comendo mais. Até aqui, nada disso aconteceu.

Isso posto, os proponentes de um governo menor têm um ponto a seu favor. Impostos mais baixos podem levar a mais investimento, o que produz uma taxa de crescimento econômico mais rápida a longo prazo. É fácil jogar essa ideia fora como se ela fosse ruim ou como uma política que favorece estritamente os ricos. Um bolo que cresce é importante – talvez até de extrema importância – para aqueles que têm as fatias menores. Quando a economia cresce devagar ou afunda em recessão, são os metalúrgicos e os ajudantes de cozinha os dispensados, não os neurocirurgiões e os professores universitários. Em 2009, em meio à recessão induzida pela crise financeira, a taxa de pobreza americana era de mais de 13% – o nível mais alto em mais de uma década.

Inversamente, os anos 1990 foram bastante bons para aqueles que estão na base da pirâmide econômica. Rebecca Blank, economista da Universidade de Michigan e membro do Conselho de Assessores Econômicos do governo Clinton, recorda a notável expansão econômica da década de 1990 e comenta:

 

Acredito que a primeira e mais importante lição dos anos 1990 para os que combatem a pobreza é que o crescimento

econômico continuado é uma coisa maravilhosa. À medida que as políticas ajudem a manter forte crescimento de

empregos, baixo desemprego e salários crescentes entre os trabalhadores, elas podem significar tanto ou mais que os

dólares gastos em programas dirigidos aos pobres. Se não há oportunidades de emprego, ou se os salários caem, é muito

mais caro – tanto em termos de dólares gastos quanto de capital político – para os programas do governo tirar as pessoas

da pobreza.16

 

Então, ao longo de dois capítulos, dei voltas em torno da pergunta “quente”: o papel que o governo desempenha na economia dos Estados Unidos é grande demais, pequeno demais ou tem o tamanho certo? Posso finalmente oferecer uma resposta simples, direta e inequívoca: depende da pessoa a quem você pergunta. Há economistas inteligentes e sérios que gostariam de ver um governo maior, mais ativo; há economistas inteligentes e sérios que preferem um governo menor; e entre os extremos há toda uma faixa contínua de pensadores.

Em alguns casos, os entendidos discordam sobre questões factuais, da mesma forma que eminentes cirurgiões em relação ao procedimento apropriado para desobstruir uma artéria entupida. Por exemplo, há um debate atual sobre os efeitos de se aumentar o salário mínimo. A teoria sugere que deve haver um trade-off: um salário mínimo mais alto ajuda os trabalhadores cujos salários são aumentados; ao mesmo tempo, prejudica alguns trabalhadores de salários baixos que perdem seus empregos (ou que, para começar, nunca são contratados) porque a empresa reduz o número de trabalhadores que emprega com o novo salário mais alto. Economistas discordam (e apresentam pesquisas divergentes) sobre quantos empregos são perdidos quando o salário mínimo é aumentado. Essa é uma peça de informação crucial para quem quer tomar uma decisão bem-informada sobre se elevar ou não o salário mínimo é uma boa política para trabalhadores de baixos salários. Com o tempo, essa é uma questão que será respondida com bons dados e sólida pesquisa. (Conforme me apontou certa vez um analista de formulação de políticas, pode ser fácil mentir com estatísticas, mas é bem mais fácil mentir sem elas.)

Mais frequentemente, a economia pode apenas enquadrar os tópicos que exigem julgamentos com base em moral, filosofia e política – mais ou menos como um médico indicando opções para o paciente. O médico pode delinear as questões médicas relativas a tratar um câncer avançado com quimioterapia. A decisão do tratamento, em última instância, cabe ao paciente, que levará em conta sua visão sobre qualidade de vida versus longevidade, disposição para experimentar desconforto, situação familiar etc. – considerações perfeitamente legítimas e que nada têm a ver com medicina ou ciência. Todavia, tomar a decisão ainda assim requer um excelente aconselhamento médico.

Nessa veia de raciocínio, podemos apresentar um quadro para refletir sobre o papel do governo na economia.

O governo tem o potencial de aumentar a capacidade produtiva da economia e, como resultado, tornar nossa vida muito melhor. O governo cria e sustém a estrutura legal que torna possíveis os mercados; ele aumenta nossa utilidade fornecendo bens públicos que somos incapazes de adquirir sozinhos; ele fixa os limites aproximados do capitalismo corrigindo externalidades, em particular no campo ambiental. Logo, a noção de que um governo menor é sempre um governo melhor está errada.

Dito isso, pessoas razoáveis podem concordar com tudo o que foi falado e ainda discordar quanto a se o governo dos Estados Unidos deveria ser maior ou menor. Uma coisa é acreditar, em teoria, que o governo tem capacidade de gastar recursos de forma a tornar melhor a vida de todos nós; outra coisa é acreditar que os políticos falíveis que compõem o Congresso vão escolher gastar dinheiro dessa maneira. Será um museu russo-germânico no local de

nascimento de Lawrence Welk,c em Strasburg, Dakota do Norte, realmente um bem público? O Congresso alocou US$ 500 mil para o museu em 1990 (e aí retirou em 1991, quando houve um clamor público). E que tal uma apropriação de US$ 100 milhões para procurar vida extraterrestre? Procurar ETs atende à definição de bem público, uma vez que seria impraticável para cada um de nós efetivar sua própria busca individual. Ainda assim, desconfio que muitos americanos preferem ver seu dinheiro gasto em outra coisa.

Se eu perguntasse a cem economistas, cada um deles me diria que melhorar a educação primária e secundária nos Estados Unidos levaria a grandes ganhos econômicos. Mas o mesmo grupo estaria dividido quanto a gastar ou não mais dinheiro em educação pública. Por quê? Porque não sabem se a injeção de mais dinheiro no sistema existente de fato melhoraria os resultados dos estudantes.

 

Alguma atividade governamental reduz o tamanho do bolo, mas mesmo assim pode ser socialmente desejável. Transferir dinheiro dos ricos para os pobres é tecnicamente “ineficiente”, no sentido de que mandar um cheque de US$ 1 para uma família pobre pode custar US$ 1,25 quando se leva em consideração os custos de tributação do peso morto. A tributação relativamente alta, necessária para sustentar uma rede de segurança social forte, recai mais pesadamente sobre aqueles com ativos produtivos, incluindo capital humano, fazendo de países como a França um bom lugar para uma criança nascer numa família pobre e mau para ser empresário da internet (o que, por sua vez, faz dela um mau lugar para ser um trabalhador em tecnologia de ponta). De forma geral, políticas que garantem algum pedaço de bolo para todo mundo desaceleram o crescimento do bolo em si. A renda per capita dos Estados Unidos é mais alta que a renda per capita da França; os Estados Unidos também têm uma proporção mais alta de crianças vivendo na pobreza.

Tendo dito tudo isso, pessoas razoáveis podem discordar quanto ao nível apropriado de gastos sociais. Primeiro, elas podem ter preferências diferentes em relação a quanto de riqueza estão dispostas a trocar por mais igualdade. Os Estados Unidos são um lugar mais rico, porém mais desigual, que a maior parte da Europa. Segundo, a noção de um simples trade-off entre riqueza e igualdade é uma supersimplificação do dilema de ajudar os menos favorecidos. Economistas que se importam profundamente com os americanos mais pobres podem discordar quanto a se os pobres seriam mais ajudados por programas caros do governo, como o sistema de saúde universal, ou por impostos mais baixos, que encorajem o crescimento econômico e permitam que mais americanos de baixa renda trabalhem com salários melhores.

 

Por fim, alguns envolvimentos do governo na economia são puramente destrutivos. Um governo de mão pesada será uma pedra em volta do pescoço de uma economia de mercado. Boas intenções levarão a programas de governo e regulações cujos benefícios perdem de longe para seus custos. Más intenções podem levar a todos os tipos de lei que servem a interesses especiais ou a políticos corruptos. Isso vale para o mundo em desenvolvimento, onde se poderia fazer muita coisa boa apenas tirando o governo de certas áreas da economia que não lhe dizem respeito. Como comentou Jerry Jordan, ex-presidente e diretor executivo do Federal Reserve Bank de Cleveland: “O que separa o ‘ter de fazer’ do ‘não ter de fazer’ é se o papel das instituições da economia – em particular suas instituições públicas – é facilitar a

produção ou confiscá-la.”17

Em suma, o governo é como o bisturi de um cirurgião: um instrumento invasivo que pode ser usado para o bem ou para o mal. Manejado cuidadosamente, facilitará a notável capacidade do corpo de se curar. Em mão erradas, ou manejado com zelo exagerado, mesmo com a melhor das intenções, causará grande dano.

 

a Ver nota sobre serviço de saúde nos Estados Unidos no Capítulo 5. (N.T.)

b Aqui há um ponto analítico sutil, mas importante. Aqueles que argumentam que o corte de impostos aumenta a receita governamental muitas vezes apontam, corretamente, que a receita do governo é mais alta após um grande corte de impostos. Mas essa não é a comparação apropriada. A pergunta que deveríamos fazer é se a receita do governo após o corte é mais elevada do que teria sido se não tivesse havido um corte de impostos. A importância dessa distinção é que inflação e crescimento econômico empurram a receita para cima ano após ano, mesmo sem alteração das alíquotas de imposto. Então, é inteiramente plausível que a receita tivesse subido 5% sem o corte; se ela subiu 2% com o corte, a receita do governo está numericamente mais alta que no ano anterior, porém, mais baixa do que estaria sem o corte nos impostos. Se o crescimento nos gastos não for controlado de modo a se ajustar a essa nova realidade da receita, isso poderá resultar em déficit orçamentário, o que costuma ocorrer.

c Conhecido músico, acordeonista, líder de banda e apresentador de programa de televisão americano. (N.T.)