Economia nua e crua
5. Economia da informação: O McDonald’s não criou um hambúrguer melhor
5. Economia da informação
O McDonald’s não criou um hambúrguer melhor
QUANDO BILL CLINTON concorreu à Presidência, em 1992, lançou a ideia das Hope Scholarships [Bolsas de Estudo da Esperança]. Em aparência, o plano de Clinton (baseado num experimento anterior em Yale) era elegante. Estudantes podiam pegar dinheiro emprestado para cursar a faculdade e pagar os empréstimos após a graduação, com uma porcentagem de suas rendas anuais, em lugar dos costumeiros pagamentos fixos de principal mais juros. Alunos graduados que viessem a se tornar banqueiros de investimentos deveriam mais em empréstimos estudantis que aqueles que fossem trabalhar com adolescentes menos favorecidos em bairros pobres, e essa era exatamente a questão. O plano destinava-se a levar em conta a preocupação dos estudantes graduados com as grandes dívidas, que os levavam a procurar se dar bem em lugar de fazer o bem. Afinal, é difícil virar professor ou servidor depois de se formar tendo de pagar empréstimos estudantis no valor de US$ 75 mil.
Em teoria, o programa se autofinanciaria. Os administradores poderiam determinar o salário médio após a graduação para estudantes elegíveis e então calcular o percentual de renda que deveriam pagar para que o programa recuperasse seus custos – digamos 1,5% da renda anual durante quinze anos. Estudantes que viessem a se tornar neurocirurgiões devolveriam mais que a média; estudantes que fossem combater doenças tropicais em Togo pagariam menos. Em média, os que ganhassem mais e os que ganhassem menos se cancelariam mutuamente, e o programa se equilibraria.
Havia somente um problema: as Hope Scholarships não tinham esperança de dar certo, pelo menos não sem um subsídio grande e permanente do governo. O problema era a assimetria crucial de informação: os estudantes sabem mais a respeito de seus futuros planos de carreira que os administradores de empréstimos. Os estudantes da faculdade nunca sabem com certeza seus planos futuros, porém a maioria tem uma boa ideia de se sua renda após a graduação será maior ou menor que a média – o que é suficiente para determinar se uma Hope Scholarships seria mais ou menos cara que um empréstimo convencional. Os barões que quisessem ir para Wall Street evitariam o programa, porque para eles seria um mau negócio. Quem quer pagar 1,5% de US$ 5 milhões todo ano durante quinze anos quando um empréstimo convencional seria bem mais barato? Ao mesmo tempo, os futuros professores dos jardins de infância do mundo e os voluntários do Peace Corps optariam pela bolsa de estudos.
O resultado é chamado seleção adversa; futuros graduados se incluem ou excluem do programa com base em informação privada sobre seus planos de carreira. No final, o programa atrai sobretudo devedores de valores baixos. Os cálculos para a devolução do empréstimo, baseados no salário médio após a graduação, não se aplicam mais, e o programa não consegue recuperar os custos. Pode-se presumir que o sr. Clinton ignorou o que seus assessores lhe disseram sobre o experimento em Yale. O programa foi discretamente cancelado depois de cinco anos, tanto porque as devoluções foram inferiores às projetadas quanto porque os custos administrativos eram altos.
O que nós não sabemos pode nos machucar. Economistas estudam como adquirimos informação, o que fazemos com ela e como tomamos decisões baseados em poucos elementos. De fato, a Academia de Ciências da Suécia reconheceu essa questão em 2001, quando concedeu o Prêmio Nobel de Economia a George Akerlof, Michael Spence e Joseph Stiglitz pelo trabalho seminal sobre economia da informação. O trabalho explora os problemas que surgem quando pessoas racionais são forçadas a tomar decisões com base em informação incompleta, ou quando uma das partes envolvidas em uma transação sabe mais que a outra. As sacações desses economistas são relevantes para nossas mais prementes questões sociais, de levantamento genético a discriminação no local de trabalho.
Considere um pequeno escritório de advocacia entrevistando dois candidatos a um emprego, um homem e uma mulher. Ambos são recém-graduados pela Escola de Direito de Harvard e eminentemente qualificados para a posição. Se o “melhor” candidato para o emprego é aquele que vai trazer mais dinheiro para o escritório, o que constitui uma premissa razoável, então argumento que a escolha racional é contratar o homem. O entrevistador não tem informação específica sobre os planos de família dos candidatos (e é proibido por lei lhes perguntar a respeito), mas pode fazer uma inferência razoável, com base no que todo mundo sabe sobre os Estados Unidos no começo no século XXI: as mulheres ainda arcam com o grosso das responsabilidades de criar os filhos. A demografia sugere que ambos os candidatos provavelmente darão início a famílias num futuro próximo. Contudo, só a candidata mulher terá licença-maternidade remunerada. Mais importante: pode ser que ela não volte ao trabalho depois de ter o filho, o que deixa o escritório com o custo de encontrar, contratar e treinar outro advogado.
Algum desses aspectos é uma certeza? Não. Pode ser que o candidato homem tenha sonhos de ficar em casa com seus cinco filhos; a candidata mulher pode ter resolvido anos atrás que não quer ter filhos. Contudo, esses não são os cenários mais prováveis. A candidata mulher é punida porque o escritório não tem informação sobre suas circunstâncias específicas, mas tem bons dados sobre as tendências sociais gerais. Isso é justo? Não. (Nem é legal.) No entanto, a lógica do escritório faz sentido. Em outras palavras, nesse caso é racional discriminar, o que vira do avesso toda a ideia de discriminação. De hábito, a discriminação é algo irracional. Como ressaltou Gary Becker, ganhador do Prêmio Nobel, em The Economics of Discrimination, empregadores com um “gosto pela discriminação” sacrificam os lucros
porque passam por cima de minorias para favorecer brancos menos qualificados.1 Um paciente que se recusa a ir ao famoso médico negro por causa da cor da sua pele é um tolo. Um escritório de advocacia que minimiza a troca de empregados jogando de acordo com as médias estatísticas pode ofender nossa sensibilidade e violar uma lei federal – mas não tem nada de tolo.
Quando abordamos isso como problema de informação, há diversas percepções cruciais. Primeiro, as empresas não são as únicas vilãs. Quando mulheres profissionais optam por ter um filho, tirar licença-maternidade remunerada e largar a empresa, elas impõem um custo indiscutivelmente injusto aos lugares onde trabalham. Mais importante: impõem um custo às outras mulheres. Firmas que sentem terem sido “prejudicadas” por funcionárias que tiram licença-maternidade e depois se demitem terão maior propensão a discriminar outras mulheres jovens no processo de contratação (em particular aquelas que já estão grávidas) e menor tendência a oferecer benefícios generosos de maternidade. A boa notícia é que existe uma solução rápida e fácil: um pacote maternidade generoso, mas restituível. Fique com ele se você voltar ao trabalho, restitua se não voltar. Essa simples mudança de política nos dá praticamente tudo o que queremos. As firmas não precisarão mais se preocupar com o pagamento de benefícios a mulheres que não retornam ao trabalho. De fato, torna-se possível oferecer mais benefícios generosos sem dar um incentivo para a funcionária pegar o dinheiro e cair fora. As mulheres, por sua vez, não sofrerão mais o mesmo nível de discriminação no processo de contratação.
A discriminação estatística, ou a chamada “discriminação racional”, ocorre quando o indivíduo faz uma inferência defensável segundo um padrão estatístico amplo, mas (1) tem probabilidade de estar errado no caso em questão; e (2) tem efeito discriminatório sobre um grupo. Suponha um empregador sem preconceito racial, mas com aversão a contratar funcionários com ficha criminal. Com certeza trata-se de uma preferência razoável, por todos os motivos. Se o empregador precisa decidir uma contratação sem acesso ao histórico criminal dos candidatos (porque não tem tempo nem recursos para juntar a informação, ou porque seja proibido por lei de perguntar), então é plausível que ele discrimine candidatos negros do sexo masculino, que têm chance muito maior de ter cumprido pena na cadeia (28%) que candidatos homens brancos (4%).
É óbvio que o que importa ao empregador é se a pessoa à sua frente tem ou não ficha criminal. Se ele puder conseguir essa informação, então os padrões sociais mais amplos não têm importância. Em teoria, seria de esperar que o acesso a fichas criminais pudesse contribuir para reduzir a discriminação contra homens negros sem histórico criminal. Na verdade, é isso que os dados nos mostram. Um grupo de economistas comparou decisões de contratação em firmas que fazem verificações de fichas criminais com empresas que não fazem esse tipo de busca. A conclusão foi: “Constatamos que empregadores que checam o histórico criminal têm uma propensão maior a contratar funcionários afro-americanos, especialmente homens. Esse efeito é mais acentuado entre os empregadores que relatam ter
aversão a contratar gente com histórico criminal do que entre os que não têm essa aversão.”2
Em relação a raça, mais informação em geral é melhor. A conclusão implícita é que menos informação é pior. Os Estados Unidos têm uma enorme população ex-carcerária. (O país tem alto índice de encarceramento, e a maioria das pessoas que cumpre pena acaba saindo; a pena em média é inferior a dois anos.) Políticas que buscam ajudar ex-presos suprimindo informação sobre seus históricos criminais podem ser ruins para uma população muito mais ampla. Os autores do estudo citado advertiram: seus resultados “sugerem que restringir o acesso a históricos criminais pode na verdade prejudicar mais gente que ajudar e agrava as diferenças raciais nos resultados do mercado de trabalho”.
ESTE CAPÍTULO NÃO É sobre discriminação. É sobre informação, que está no cerne de muitos problemas relacionados com discriminação. A informação tem particular importância quando não temos toda informação de que necessitamos. Os mercados tendem a favorecer a parte que sabe mais. (Você alguma vez já comprou um carro usado?) Mas se o desequilíbrio, ou assimetria de informação, se tornar grande demais, então os mercados podem desmoronar. Esse foi o insight fundamental de George Akerlof, laureado com o Prêmio Nobel de Economia em 2001 e economista da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Seu artigo intitulado “The market for lemons” usou o mercado de automóveis usados para demonstrar seu argumento central. Qualquer pessoa que venda um carro usado sabe mais sobre a qualidade do veículo que alguém pensando em comprá-lo. Isso cria um problema de seleção adversa, como ocorreu com as Hope Scholarships. Proprietários felizes com seus veículos estão menos propensos a vendê-los. Assim, compradores de carros usados antecipam problemas ocultos e exigem um desconto. Contudo, uma vez que já há um desconto embutido no mercado, donos de carros de boa qualidade ficam menos propensos a vendê-los – o que garante que o mercado estará cheio de limões azedos. Em teoria, o mercado de carros usados de boa qualidade não funcionará, em detrimento de qualquer um que esteja disposto a comprar ou vender um carro desses. (Na prática, tais mercados muitas vezes funcionam pelos motivos explicados pelo cavalheiro com quem o sr. Akerlof dividiu seu Prêmio Nobel; iremos ver isso daqui a pouco.)
“The market for lemons” é um caso típico das ideias reconhecidas pelo Comitê do Prêmio Nobel. Nas palavras da Academia de Ciências da Suécia, é “uma ideia simples, mas profunda
e universal, com numerosas implicações e amplas aplicações”. O serviço de saúde,a por exemplo, é assolado por problemas de informação. Consumidores do serviço de saúde – os pacientes – quase sempre têm menos informação sobre seu atendimento que os médicos. De fato, mesmo depois de consultar um médico, podemos não saber se estamos sendo tratados adequadamente. Essa assimetria de informação está no cerne dos nossos infortúnios no sistema de saúde.
Em qualquer sistema do tipo “taxa de serviço”, os médicos cobram uma taxa a cada procedimento realizado. Os pacientes não pagam por esses testes e procedimentos extras; quem paga são as companhias de seguro (ou o governo federal, no caso dos americanos mais velhos com direito ao serviço público de saúde). Ao mesmo tempo, a tecnologia da medicina continua a apresentar todo tipo de novas opções médicas, muitas das quais fabulosamente caras. Essa combinação está no cerne dos custos ascendentes com a saúde: os médicos têm um incentivo para realizar procedimentos caros e os pacientes não têm razão para discordar. Se você entrar no consultório de sua médica com dor de cabeça e ela sugerir uma tomografia computadorizada, sem dúvida você concordará, “só para ter certeza”. Nem você nem a médica estão agindo com falta de ética. Quando o custo não é um fator, faz sentido excluir a possibilidade de câncer no cérebro, ainda que o sintoma seja apenas daquela dor de cabeça matinal, depois de uma festinha de feriado. Sua médica também pode temer, e com razão, que, se não pedir uma tomografia, você a processe mais tarde, por um valor enorme, se houver algo de errado com a sua cabeça.
Inovações médicas são incríveis em alguns casos e um desperdício em outros. Considere a atual gama de tratamentos para o câncer de próstata, um tipo de câncer que aflige muitos homens mais velhos. Uma opção de tratamento é “esperar atentamente”, o que consiste em não fazer nada a menos que, ou até que, os exames mostrem que o câncer está piorando. Esse é um curso de ação razoável, porque o câncer de próstata tem uma evolução tão lenta que a maioria dos homens morre de alguma outra coisa antes de o câncer de próstata se tornar um problema sério. Outra opção de tratamento é radioterapia de prótons, que consiste em disparar partículas atômicas no tumor usando um acelerador de prótons que tem aproximadamente o tamanho de um campo de futebol. Não fazer nada custa essencialmente nada (mais ou menos); disparar prótons de um acelerador custa algo em torno de US$ 100 mil.
A diferença de custo não é surpresa; chocante é que a terapia de prótons não tem se provado mais efetiva que a espera atenta. Uma análise feita pela Rand Corporation concluiu:
“Uma terapia não tem se mostrado superior à outra.”3
Organizações de manutenção da saúde foram projetadas para controlar os custos mudando os incentivos. Em muitos planos dessas organizações, os clínicos gerais recebem uma taxa fixa por paciente, por ano, independente dos serviços oferecidos. Os médicos têm restrições quanto aos tipos de exames e serviços que podem prescrever e podem até receber bônus se se abstiverem de mandar seus pacientes para especialistas. Isso muda as coisas. Agora, quando você entra no consultório da médica (ainda em desvantagem em termos de informação sobre sua própria saúde) e diz “Estou tonto, minha cabeça dói e o meu ouvido está sangrando”, ela consulta as diretrizes de tratamento da organização e lhe diz para tomar duas aspirinas. Por mais exagerado que seja o exemplo, o aspecto básico é válido: a pessoa que sabe mais sobre sua condição médica pode ter um incentivo econômico para lhe negar tratamento. Queixas sobre gastos excessivos são substituídas por queixas sobre gastos ínfimos. Todo cliente de uma organização dessas tem alguma história horrível relativa a brigar com burocratas acerca de despesas aceitáveis. Nas histórias mais extremas (e anedóticas), os pacientes tiveram negados tratamentos vitais por parte dos contadores da organização.
Alguns estão dispostos a batalhar contra as companhias de seguros em nome de seus pacientes. Outros simplesmente quebram as regras disfarçando tratamentos que não são cobertos pelo seguro. (Os pacientes não são os únicos que sofrem de assimetria de informação.) Políticos também saltam para dentro da briga exigindo coisas como a publicação dos incentivos pagos aos médicos pelas companhias de seguros e até uma carta de direitos do paciente.
O problema de informação no núcleo do sistema de saúde não desapareceu: (1) o paciente, que não paga a conta, exige o máximo de tratamento possível; (2) o médico maximiza rendimentos e minimiza processos legais fornecendo o máximo de tratamento possível; (3) a companhia de seguros maximiza lucros pagando o mínimo de tratamento possível; (4) a tecnologia introduz uma gama de opções caríssimas, algumas das quais são milagrosas, e outras, desperdício de dinheiro; e (5) é muito caro tanto para o paciente quanto para a seguradora comprovar o curso “certo” do tratamento. Em suma, a informação faz com que o sistema de saúde seja diferente do resto da economia. Quando você entra numa loja de artigos elétricos para comprar uma TV de tela grande, pode observar qual delas tem melhor imagem. Aí você compara as etiquetas de preços, sabendo a conta que irá chegar à sua casa. No fim, você pesa os benefícios de diversos televisores (cuja qualidade você pode observar) contra os custos (que você terá de pagar) e escolhe um deles. Já uma cirurgia no cérebro é algo bem diferente.
O desafio fundamental da reforma do sistema de saúde é pagar pelo tratamento “certo” – o “produto” que faz mais sentido em relação àquilo que custa. Esse é um exercício que os consumidores fazem sozinhos em qualquer outro setor da economia. Os contadores não deveriam negar automaticamente tratamentos supercaros; alguns podem ser maravilhosamente eficazes, valendo cada centavo. Eles deveriam dizer não a tratamentos caros que não sejam comprovadamente melhores que as opções mais baratas. Deveriam também dizer não a coisas como exames “só para ter certeza”, não só porque esses diagnósticos são caros, mas também porque, quando administrados a pessoas saudáveis, tendem a gerar “falsos positivos”, que podem provocar uma sequência de tratamento cara, desnecessária e potencialmente perigosa.
Há um velho aforismo em propaganda: “Sei que estou desperdiçando metade do meu dinheiro; só gostaria de saber que metade.” O caso do sistema de saúde é semelhante, e se a meta da reforma do sistema é restringir os custos que crescem depressa, então qualquer mudança de política terá de ter em foco a qualidade e os resultados, e não simplesmente pagar pelos insumos. O colunista financeiro do New York Times David Leonhardt descreve o tratamento para câncer de próstata (em que uma tecnologia fabulosamente cara parece não estar gerando saúde melhor) como seu próprio “teste pessoal de tornassol” para a reforma do sistema de saúde. Ele escreve:
O teste do câncer de próstata determinará se o presidente Obama e o Congresso fizeram uma lei que começa a consertar
o problema fundamental do nosso sistema de saúde: a combinação de custos gigantescos e resultados medíocres. Se isso
não acontecer, o sistema de saúde permanecerá em profundos apuros, não importa que outras melhoras possam ser feitas.
MAS AINDA NÃO ACABAMOS com o sistema de saúde. O médico pode saber mais sobre sua saúde que você, mas você sabe mais de sua saúde a longo prazo que sua companhia de seguros. Talvez você não seja capaz de diagnosticar doenças raras, mas sabe se está levando ou não um estilo de vida saudável, se há certas doenças comuns em sua família, se está se envolvendo em comportamento sexual arriscado, se está na iminência de engravidar etc. Essa informação tem potencial de causar tumulto no mercado de seguros.
Os seguros tratam de achar os números corretos. Alguns indivíduos quase não demandam atendimento de saúde. Outros têm moléstias crônicas que exigem centenas de milhares de dólares de tratamento. A seguradora lucra determinando o custo médio de tratamento para todos os seus segurados e cobrando um pouquinho a mais. Quando a seguradora Aetna emite uma apólice de seguro em grupo para 20 mil homens de cinquenta anos, e o custo médio do serviço de saúde para um homem de cinquenta anos é de US$ 1.250 por ano, então presume-se que a companhia possa estabelecer o prêmio anual em US$ 1.300 e lucrar US$ 50 – em média – para cada homem que subscreva a apólice. A Aetna ganhará dinheiro em algumas apólices e perderá em outras, mas o resultado geral da companhia será conhecido de antemão – se os números estiverem certos.
Será que esse exemplo está começando a parecer as Hope Scholarships ou o mercado de carros usados? Deveria. A apólice de US$ 1.300 é um mau negócio para os homens de cinquenta anos mais saudáveis e um excelente negócio para os fumantes acima do peso com histórico familiar de doença cardíaca. Assim, os homens com mais saúde estarão propensos a não entrar no programa; os mais enfermos provavelmente optarão por entrar. Quando isso acontece, a população masculina na qual se baseava o prêmio original começa a mudar; em média, os homens restantes são menos saudáveis. A seguradora estuda a nova composição de homens de meia-idade e avalia que o prêmio anual precisa aumentar para US$ 1.800 para gerar algum lucro. Está vendo aonde isso vai dar? Nesse novo preço, mais homens – os mais saudáveis dos não saudáveis – decidem que a apólice é um mau negócio e resolvem sair. Os sujeitos mais doentes se agarram às suas apólices com o máximo de força que seus corpos enfermos permitem. Mais uma vez a composição muda, e agora nem US$ 1.800 cobrem o custo de seguro dos homens que subscrevem a apólice. Em teoria, essa seleção adversa poderia não terminar nunca, até o mercado de seguros de saúde ruir inteiramente.
Isso na realidade não acontece. As companhias de seguro em geral garantem que os grupos serão grandes, e os participantes não têm permissão para escolher se entram ou saem. Se a Aetna faz as apólices dos funcionários da General Motors, por exemplo, então não haverá seleção adversa. A apólice vem com o emprego, e todos os funcionários, saudáveis ou não, estão cobertos. Eles não têm escolha. A Aetna calcula o custo médio de seguro-saúde para essa grande variedade de homens e mulheres, e aí cobra um prêmio suficiente para dar lucro.
Fazer apólices para indivíduos, porém, é tarefa muito mais assustadora. As seguradoras têm motivo para temer que as pessoas com mais exigência de cobertura de saúde (ou seguro de vida) sejam aquelas que dela mais necessitem. Isso será verdade, não importa quanto a seguradora cobre pelas apólices. Para qualquer preço dado – mesmo US$ 5 mil por mês –, as pessoas que esperam que seus custos médicos sejam mais altos que o custo da apólice serão as mais propensas a subscrever a apólice. Claro que as seguradoras têm alguns truques próprios, como recusar-se a dar cobertura a pessoas que estejam doentes ou propensas a ficar doentes no futuro próximo. Isso muitas vezes é visto como um tipo de prática cruel, injusta, perpetrada contra o público pela indústria de seguros. Num nível superficial, realmente parece perverso que pessoas doentes tenham dificuldade de obter seguro-saúde. Mas imagine se as companhias de seguro não tivessem esse privilégio legal. Uma conversa (altamente inventada) com seu médico poderia ser mais ou menos assim:
M ÉDICO: Receio ter más notícias. Quatro das suas artérias coronárias estão total ou parcialmente bloqueadas. Eu
recomendaria uma cirurgia de coração aberto o mais breve possível.
PACIENTE: E a cirurgia tem probabilidade de dar certo?
M ÉDICO: Sim, nós temos resultados excelentes.
PACIENTE: E a operação é cara?
M ÉDICO: Óbvio que é cara. Estamos falando de uma cirurgia de coração aberto.
PACIENTE: Então seria melhor eu arranjar primeiro um seguro-saúde.
M ÉDICO: É, acho que seria uma boa ideia.
Companhias de seguro fazem aos candidatos perguntas sobre histórico familiar, hábitos de saúde, tabaco, hobbies perigosos e todos os tipos de coisas pessoais. Quando procurei um seguro de vida, um representante da companhia veio à minha casa e tirou sangue para se certificar de que eu não era HIV-positivo. Ele perguntou se meus pais eram vivos, se eu praticava mergulho, se corria de carro. (Sim, sim, não.) Fiz xixi no copo; subi na balança; respondi perguntas sobre uso de tabaco e drogas ilícitas – tudo isso pareceu razoável, considerando que a companhia estava assumindo um compromisso de pagar à minha mulher uma grande quantia de dinheiro caso eu morresse no futuro próximo.
As companhias de seguros têm outra ferramenta sutil. Elas podem inventar apólices, ou mecanismos de “filtragem”, que extraem informação de seus clientes em potencial. Essa percepção, aplicável a todos os tipos de mercados, deu a Joseph Stiglitz, economista da Universidade de Columbia e ex-economista-chefe do Banco Mundial, uma participação no Prêmio Nobel de 2001. Como as firmas filtram seus clientes no ramo de seguros? Usando uma franquia. Clientes que se consideram propensos a permanecer saudáveis subscrevem apólices com uma franquia alta. Em troca, pagam prêmios mais baixos. Clientes que sabem que provavelmente terão contas altas evitarão a franquia e, por conseguinte, pagarão prêmios mais altos. (A mesma coisa vale quando você está procurando um seguro de carro e tem uma ligeira suspeita de que seu filho de dezesseis anos é um motorista pior que a maioria dos rapazes da idade dele.) Em suma, a franquia é uma ferramenta para forçar a saída de informação; ela obriga os clientes a se autodenunciar.
QUALQUER QUESTÃO DE seguros, em última análise, envolve um problema explosivo: quanta informação é informação demais? Garanto que este se tornará um dos problemas mais espinhosos de formulação de política nos próximos anos. Eis um exercício simples: arranque um fio do seu cabelo. (Se você é totalmente careca, pegue um chumaço de algodão e raspe um pouquinho de saliva da bochecha.) Essa amostra contém seu código genético inteiro. Nas mãos certas (ou erradas), pode ser usada para determinar se você tem predisposição a doenças cardíacas, certos tipos de câncer, depressão e – se a ciência continuar nesse ritmo frenético – qualquer outro tipo de doença. Com um fio do seu cabelo, um pesquisador (ou seguradora) em pouco tempo será capaz de determinar se você corre risco de ter doença de Alzheimer – 25 anos antes de a doença aparecer. Isso cria um dilema. Se a informação genética for dividida amplamente com as companhias de seguros, então será difícil, se não impossível, para pessoas com propensão a certas doenças obter qualquer tipo de cobertura. Em outras palavras, as pessoas que mais necessitam de seguro são as que têm menor probabilidade de consegui-lo – não só na véspera da cirurgia, mas em qualquer época. Indivíduos com histórico familiar de doença de Huntington, distúrbio cerebral degenerativo hereditário que causa morte prematura, já estão achando difícil ou impossível conseguir um seguro de vida. De outro lado, novas leis proíbem as seguradoras de reunir esse tipo de informação, deixando-as vulneráveis à seleção adversa. Pessoas que sabem que correm o risco de ficar doentes no futuro são as que terão generosas apólices de seguros.
Um editorial na The Economist comentava esse dilema: “Os governos se deparam com a escolha entre banir o uso de resultados de testes e destruir a indústria, ou permitir seu uso e criar uma subclasse de pessoas não seguráveis ou que não podem se permitir ter gastos com o seguro.” A The Economist, que dificilmente pode ser considerada um bastião do pensamento de esquerda, sugeria que o mercado de seguro-saúde privado considerasse esse problema intratável deixando o governo com um papel muito maior a desempenhar. O editorial concluía: “De fato, testes genéticos tornam-se o mais poderoso argumento para um sistema de saúde
universal financiado pelo Estado.”4
Qualquer reforma no sistema de saúde que busque tornar o seguro-saúde mais acessível, tanto em termos de facilidade quanto de gastos, em particular para os que estão enfermos ou têm propensão a ficar enfermos, irá gerar devastadores problemas de seleção adversa. Pense nisso: se eu prometo que você pode contratar um seguro acessível em termos de custo, independentemente de você já estar ou não doente, então o momento ideal de adquirir esse seguro é na ambulância, a caminho do hospital. O único detalhe com esse problema inerente é combinar acesso garantido a um seguro pelo qual se possa arcar com a exigência de que todo mundo compre um seguro – saudáveis e doentes, jovens e velhos –, o chamado “compulsório pessoal”. As seguradoras ainda perderão dinheiro nas apólices que são forçadas a vender com grandes riscos, mas essas perdas podem ser compensadas pelos lucros obtidos de gente saudável forçada a aderir ao seguro. (Qualquer país com sistema de saúde nacional tem um compulsório pessoal; todos os cidadãos são obrigados a pagar as contribuições, e em troca recebem um serviço de saúde financiado pelo governo.)
Essa foi a abordagem que Massachusetts adotou como parte de um plano estadual de oferecer acesso universal ao seguro-saúde. Residentes no estado que podem se permitir ter seguro-saúde, mas não o fazem, são multados em sua restituição estadual de imposto. Hillary Clinton apoiou um compulsório pessoal nas primárias presidenciais do Partido Democrata em 2008; Barack Obama não apoiou, embora isso indiscutivelmente tivesse mais a ver com estabelecer uma diferença de sua oponente democrata mais acirrada do que com sua análise da seleção adversa. Obviamente, forçar pessoas saudáveis a comprar algo que elas não comprariam significa o governo usar a mão pesada; e também é o único jeito de compor o risco (o propósito do seguro) quando a distribuição de risco não é aleatória.
Eis os aspectos econômicos relevantes: (1) sabemos quem está doente; (2) sabemos cada vez mais quem ficará doente; (3) pessoas doentes podem ser extremamente caras; (4) seguros privados não funcionam bem em tais circunstâncias. Isso tudo é simples e direto. A parte difícil é filosófica/ideológica: até que ponto queremos dividir, de qualquer maneira, os gastos de um sistema de saúde (se é que queremos), e como devemos fazê-lo? Essas eram as perguntas fundamentais quando Bill Clinton tentou reformar o sistema de saúde em 1993, e novamente quando a administração Obama assumiu a questão em 2009.
ESTE CAPÍTULO COMEÇOU com os mais egrégios problemas relacionados à informação – casos em que a ausência de informação mutila mercados e leva os indivíduos a se comportar de maneiras que têm sérias implicações sociais. Os economistas também ficam intrigados com exemplos mais comuns, de como os mercados reagem à ausência de informação. Passamos nossas vidas comprando produtos e serviços cuja qualidade não podemos determinar com facilidade. (Você teve de pagar por este livro antes de lê-lo.) Na vasta maioria dos casos, consumidores e empresas criam seus próprios mecanismos para resolver problemas de informação. De fato, aí jaz a genialidade do McDonald’s, que inspirou o subtítulo deste capítulo. Os “arcos dourados” têm tanto a ver com informação quanto com hambúrgueres. Todo hambúrguer do McDonald’s tem o mesmo sabor, seja vendido em Moscou, Cidade do México ou Cincinnati. Isso não é mera curiosidade, está no cerne do sucesso da companhia. Suponha que você esteja viajando de carro pela Interestadual 80, nos arredores de Omaha, nunca tendo estado no Nebraska, e vê um McDonald’s. Você sabe tudo sobre o restaurante. Sabe que será limpo, seguro e barato. Sabe que sempre terá um banheiro que funciona. Sabe que estará aberto sete dias por semana. E pode até saber quantos picles há num cheeseburguer duplo. Você sabe todas essas coisas antes de sair do carro, num estado em que nunca esteve.
Compare isso ao cartaz de propaganda do Chuck’s Big Burger. Pode ser que o Chuck’s tenha um dos melhores hambúrgueres a oeste do Mississippi. Ou pode ser um foco para a próxima grande epidemia de E. coli do país. Como você pode ter certeza? Se você morasse em Omaha, talvez estivesse familiarizado com a reputação do Chuck’s. Mas não mora, você está passando pelo Nebraska de carro às 21h. (Aliás, a que horas o Chuck’s fecha?) Se você for como 1 milhão de outras pessoas, mesmo aquelas que acham fast-food relativamente pouco convidativo, irá procurar os arcos dourados porque sabe o que está por trás deles. O McDonald’s vende hambúrgueres, fritas e, o mais importante, previsibilidade.
Essa é a ideia subjacente ao conceito de branding, ou gestão de marca, pelo qual as empresas gastam quantias enormes a fim de construir uma identidade para seus produtos. O branding resolve o problema para os consumidores: como você escolhe produtos cuja qualidade ou segurança você só pode determinar depois de usá-los (e às vezes nem nesse momento)? Hambúrgueres são apenas um exemplo. A mesma regra se aplica a tudo, desde férias até moda. Você vai curtir um cruzeiro? Sim, porque é da Royal Caribbean – ou Celebrity, ou Viking, ou Cunard. Eu tenho um péssimo senso de moda, então me sinto seguro quando compro uma camisa Tommy Hilfiger, estarei razoavelmente apresentável quando sair de casa. Os anúncios dos pneus Michelin mostram bebês brincando dentro dos pneus com os dizeres: “Porque há tantos usando os seus pneus.” A mensagem implícita é claríssima. Ao mesmo tempo, a Firestone praticamente destruiu muito do valor de sua marca como resultado da ligação entre pneus defeituosos e capotagens mortais de Ford Explorers.
O branding tem sofrido ataques, como uma ferramenta por meio da qual corporações multinacionais gananciosas nos convencem a pagar preços exorbitantes por bens de que não precisamos. A economia conta outra história: o branding ajuda a prover um elemento de confiança necessário para o funcionamento de uma economia complexa. Os negócios modernos demandam que realizemos transações importantes com pessoas que nunca encontramos. Eu envio regularmente cheques por correio para a Fidelity, mesmo sem conhecer uma só pessoa na companhia. Atormentados reguladores governamentais só podem me proteger dos tipos de fraude mais escandalosos. Não me protegem de práticas comerciais baixas, muitas delas perfeitamente legais. Inúmeros negócios anunciam rotineiramente sua longevidade. Aquele cartaz na frente do açougue dizendo “Desde 1927” é uma maneira diplomática de dizer: “Não estaríamos mais aqui se esfolássemos nossos fregueses.”
As marcas fazem a mesma coisa. Assim como reputações, elas são construídas com o tempo. Realmente, às vezes a marca torna-se mais valiosa que o próprio produto. Em 1997, Sara Lee, uma empresa que vende de tudo, de roupa íntima a salsichas para o café da manhã, declarou que começaria a vender suas instalações de produção. Nada mais de criação de perus nem de fábricas têxteis. Em vez disso, a empresa se concentraria em vincular suas prestigiosas marcas – Champion, Hanes, Coach, Jimmy Dean – a produtos fabricados por terceiros. Uma revista de negócios comentou: “A Sara Lee acredita que sua alma está em suas marcas, e que o melhor uso de suas energias é insuflar vida comercial na matéria inerte
suprida por outros.”5 A ironia é adorável: a estratégia da Sara Lee para crescer e lucrar é não produzir nada.
O branding pode ser uma estratégia muito lucrativa. Em mercados competitivos, os preços são dirigidos inexoravelmente para o custo de produção. Se custa US$ 0,10 fazer uma lata de refrigerante e eu a vendo por US$ 1, vai aparecer alguém e vender por US$ 0,50. Em pouco tempo, algum outro estará mascateando por US$ 0,25, depois US$ 0,15 centavos. Finalmente, alguma corporação implacavelmente eficiente estará comercializando o refrigerante por US$ 0,11 centavos a lata. Do ponto de vista do consumidor, essa é a beleza do capitalismo. Do ponto de vista do produtor, é um “mercado do inferno”. Considere a triste sina de um agricultor americano. Um grão de soja é um grão de soja; como resultado, um agricultor de Iowa não pode cobrar nem um centavo acima do preço de mercado pela sua safra. Uma vez levados em conta os custos de transporte, cada grão de soja no mundo é vendido pelo mesmo preço, que, na maior parte dos anos, não é muito mais do que custou para produzi-lo.
Como faz uma empresa para salvar seus lucros da espiral mortífera da concorrência? Convencendo o mundo (justificadamente ou não) de que sua mistura de xarope de milho e água é diferente da mistura de xarope de milho e água do resto do mundo. Coca-Cola não é refrigerante, é a Coca-Cola, a Coke. Produtores de bens com marca criam um monopólio para si – e estabelecem o preço de acordo com isso – persuadindo os consumidores de que seus produtos não têm igual. Roupas da Nike não são pedaços de pano costurados por operários no Vietnã, são as roupas de Tiger Woods. Mesmo os agricultores entenderam essa mensagem. No supermercado, encontram-se (e pagam-se os preços de) laranjas Sunkist, carne Angus, frangos Tyson.
Às vezes juntamos informação pagando terceiros para certificar a qualidade. A função de Roger Ebert é assistir a montes de filmes ruins para que eu não tenha de ir assisti-los. Quando ele vê alguma ocasional preciosidade, dá um sinal de “positivo”. Ao mesmo tempo, sou poupado de assistir a coisas como Gatos numa roubada, filme ao qual o sr. Ebert deu zero estrelas. Pago por essa informação sob a forma de assinatura do Chicago Sun-Times (ou espiando os anúncios que o Sun-Times é pago para exibir em seu site gratuito). A revista Consumer Reports fornece o mesmo tipo de informação sobre bens de consumo; a Underwriters Laboratories certifica a segurança dos aparelhos elétricos; a Morningstar avalia a performance dos fundos mútuos de aplicação. E temos também o clube do livro da Oprah, que tem a capacidade de mandar, a jato, livros obscuros para as listas dos mais vendidos.
Simultaneamente, as empresas farão tudo o que puderem para “sinalizar” sua própria qualidade no mercado. Esse foi o insight de Michael Spence, laureado com o Prêmio Nobel de 2001 e economista da Universidade de Stanford. Suponha que você esteja escolhendo um consultor de investimentos após um golpe de sorte na loteria. A primeira firma que você visita tem um vistoso revestimento de madeira, um saguão todo de mármore, pinturas impressionistas originais e executivos que vestem ternos italianos feitos à mão. Você pensa: (1) é o meu dinheiro que vai pagar por toda essa beleza – que exploração; ou (2) nossa, essa firma deve ser muito bem-sucedida, e espero que me aceitem como cliente. A maioria das pessoas escolheria a opção 2. (Se você não estiver convencido, pense de outra maneira: como você se sentiria se seu consultor de investimentos trabalhasse num escritório frio e úmido, com um processador de texto de vinte anos?)
Os chamarizes que indicam sucesso – o revestimento de madeira, o mármore, a coleção de arte – não têm nenhuma relação inerente com a conduta profissional da firma. Nós os interpretamos como “sinais” a nos assegurar que a firma é de qualidade. Eles estão para os mercados como as vistosas plumas de pavão estão para a fêmea: um bom sinal num mundo de informação imperfeita.
O que sinaliza sucesso quando você entra num escritório em lugares da Ásia? Temperaturas ridiculamente frias. O bafo de ar gelado lhe diz imediatamente que essa firma pode se dar ao luxo de ter montes de aparelhos de ar-condicionado. Mesmo quando a temperatura é de mais de 40º do lado de fora, as temperaturas nos escritórios às vezes são tão gélidas que alguns funcionários usam aquecedores. O Wall Street Journal relata: “Ar-condicionado gelado é um meio de os donos de negócios e edifícios mostrarem que estão adiante da curva em termos de conforto. Em cidades asiáticas ostentosas, os patrões gostam de
mandar a mensagem: ‘Nós somos luxuosos, somos árticos.’”6
EIS UMA QUESTÃO correlata sobre a qual os economistas gostam de ponderar: os graduados em Harvard são bem-sucedidos porque obtiveram conhecimentos em Harvard que fizeram com que tivessem sucesso, ou porque Harvard seleciona e admite estudantes talentosos que se sairiam extraordinariamente bem de qualquer maneira? Em outras palavras, Harvard agrega valor a seus estudantes, ou simplesmente fornece um mecanismo elaborado de “sinalizar” que permita a alunos brilhantes anunciarem seus talentos para o mundo por terem sido admitidos em Harvard? Alan Krueger, economista de Princeton, e Stacy Dale, economista da Mellon
Foundation, fizeram um interessante estudo para analisar essa questão.7 Eles observam que os graduados de faculdades altamente seletivas ganham salários mais altos depois de formados que os graduados em faculdades menos seletivas. Por exemplo, o estudante médio que entrou em Yale, Swarthmore, ou na Universidade da Pensilvânia em 1976, ganhava US$ 92 mil em 1995; o estudante médio que entrou numa faculdade moderadamente seletiva, como Penn State, Denison ou Tulane, ganhava US$ 22 mil a menos. Essa não é uma descoberta surpreendente, e tampouco chega à questão de se os alunos de escolas como Yale e Princeton ganhariam mais que seus colegas de escolas menos competitivas mesmo que tivessem passado quatro anos enchendo a cara e vendo televisão.
Então o sr. Krueger e a sra. Dale levaram sua análise um passo adiante: examinaram os resultados de alunos que foram admitidos tanto numa escola altamente seletiva quanto numa escola moderadamente seletiva. Alguns desses estudantes foram para os lugares de elite; outros escolheram a opção menos seletiva. O principal achado do sr. Krueger e da sra. Dale é bem sintetizado no título do artigo: “Children smart enough to get into elite schools may not need to bother” [Crianças inteligentes o suficiente para entrar em escolas de elite talvez não precisem se preocupar com isso]. Os salários médios de estudantes admitidos simultaneamente em escolas altamente seletivas e moderadamente seletivas eram quase os mesmos, independente do tipo de escola que cursaram. (A única exceção eram estudantes de famílias de baixa renda, para quem frequentar uma escola mais seletiva aumentava em muito os ganhos.) De modo geral, a qualidade do estudante parece ter mais importância numa fase posterior da vida que a qualidade da universidade que frequentou.
É irracional gastar US$ 150 mil ou mais para cursar uma universidade de elite? Não necessariamente. No mínimo, um diploma de Princeton ou Yale é equivalente, em termos de currículo, a um “positivo” de Roger Ebert. Ele declara que você é altamente qualificado, de modo que os outros – empregadores, cônjuges, parentes dos cônjuges – tenham menos dúvidas. E sempre existe a possibilidade de que você possa aprender alguma coisa zanzando durante quatro anos com as grandes cabeças do mundo. Ainda assim, o sr. Krueger oferece este conselho a estudantes que se candidatam à faculdade: “Não creia que a única escola digna de frequentar é aquela que não admitiria você. Reconheça que sua própria motivação, ambição e seus talentos determinarão seu sucesso, mais que o nome da faculdade em seu diploma.”
A noção de que indivíduos brilhantes, motivados (com pais também motivados), vão se sair bem, qualquer que seja a escola que cursem, muitas vezes se perde nas reformas escolares dos Estados Unidos. Em Illinois, todo outono é saudado com a publicação dos relatórios das escolas do estado. Cada escola é avaliada com base nos resultados de seus alunos, numa bateria de exames padronizados. A mídia logo pega esses relatórios escolares para identificar as “melhores” escolas do estado, a maioria delas em geral localizada em subúrbios abastados. Mas será que esse processo de fato nos diz alguma coisa sobre quais escolas são mais efetivas? Não necessariamente. “Em muitas comunidades suburbanas, os alunos se sairiam bem em exames padronizados mesmo que fossem à escola e ficassem o dia todo sentados no banheiro por quatro anos”, diz o economista Eric Hanushek, da Universidade de Rochester, especialista na relação um tanto tênue entre insumos escolares e os resultados dos alunos. Há uma peça fundamental de informação que falta: quanto valor está sendo realmente agregado a essas “escolas de alta performance”? Elas têm professores e administradores excepcionais, ou são receptáculos de alunos privilegiados que se sairiam bem em testes padronizados independente de onde fossem estudar? É a mesma a questão de Harvard.
ESTE CAPÍTULO COMEÇOU com uma séria questão social e terminará do mesmo jeito. O perfil racial é um problema de informação. Há duas perguntas simples no cerne dessa questão. Primeira, raça ou etnia – sozinha ou em conjunção com alguma outra circunstância – transmite alguma informação significativa relacionada à potencial atividade criminosa? Se sim, o que fazer com isso? A resposta à primeira pergunta recebe a maior parte da atenção. Depois dos ataques do 11 de Setembro, decerto seria possível argumentar que homens árabes na casa dos 35 anos apresentavam maior risco ao país que mulheres polonesas de 65 anos. Policiais há muito argumentam que a raça pode ser um indício; jovens brancos bem-vestidos em bairros negros pobres em geral estão procurando drogas para comprar. Organizações criminosas têm afiliações raciais ou étnicas. Ao mesmo tempo que o presidente Clinton declarava a elaboração do perfil racial algo “moralmente indefensável”, o website do czar antidrogas, Barry Mc-Caffrey, fazia exatamente isso. Em Denver, dizia o site, os negociantes de heroína são predominantemente de nacionalidade mexicana. Em Trenton, os negociantes de crack são principalmente homens afro-americanos e os negociantes de cocaína em pó são sobretudo
latinos.8
De fato, todos nós elaboramos perfis à nossa maneira. Desde tenra idade somos ensinados que nunca se deve julgar um livro pela capa. Mas nós precisamos fazer isso; às vezes a capa é tudo que se pode ver. Imagine que você está andando pela garagem de um estacionamento à noite quando ouve passos atrás de si. Em termos ideais, você pediria a essa pessoa um currículo, os dois se sentariam para um café e discutiriam os objetivos dele, seu emprego, a família, sua filosofia política e, o mais importante, a razão de ele estar andando atrás de você numa garagem mal-iluminada. Você faria uma checagem do histórico criminal. Aí, com toda informação nas mãos, você decidiria se deve ou não apertar o botão de alarme no chaveiro. A realidade é diferente. Você dá uma olhada rápida por cima do ombro. Que informação importa? Sexo? Raça? Idade? Maleta? Roupas?
Nunca vou esquecer minha experiência como vítima de um perfil racial. Peguei um ônibus do centro de Chicago para a zona oeste quando estava começando a escurecer. Chicago é uma cidade muito segregada; a maioria dos bairros da zona oeste é povoada por afro-americanos. Eu estava de terno, e depois de alguma quadras eu era o único branco no ônibus. Mais ou menos nessa hora uma senhora negra mais velha perguntou delicadamente: “Ah, os Bulls estão jogando esta noite?” O time de basquete Chicago Bulls joga no Chicago Stadium, que também fica a oeste do centro da cidade. A mulher inferiu, com toda a inocência, que a única razão para um branco de terno estar nesse ônibus por volta das 19h era ir a um jogo do Bulls. Obviamente, era injusto e pernicioso que ela tirasse qualquer conclusão sobre meu destino com base apenas na cor da minha pele e no meu estilo de vestir. A coisa sinistra é que eu estava mesmo a caminho do jogo dos Bulls.
Raça, idade, etnia, e/ou país de origem podem transmitir informações em algumas circunstâncias, em particular quando falta alguma outra informação melhor. Do ponto de vista de uma política social, porém, o fato de esses atributos transmitirem informação significativa é uma pista enganosa. A pergunta que importa é: estamos dispostos a molestar sistematicamente as pessoas que se encaixam em determinado perfil étnico ou racial amplo, e que pode, em média, ter alguma sustentação estatística, mas, mesmo assim, e com muito mais frequência, estar mais errado que certo? A maior parte das pessoas responderia não na maioria das circunstâncias. Nós construímos uma sociedade que valoriza as liberdades civis mesmo à custa da ordem social. Opositores da elaboração de perfis raciais sempre parecem ser arrastados para o atoleiro de saber se os perfis são ou não bons trabalhos policiais ou ferramentas de contraterrorismo. Esse não é o único ponto relevante – em alguns casos, pode ser completamente irrelevante. Se a economia nos ensina alguma coisa, é que devemos pesar custos e benefícios. Os custos de molestar dez, vinte ou cem pessoas cumpridoras da lei para pegar mais um traficante não valem a pena. O terrorismo é mais traiçoeiro porque os custos potenciais de deixar escapar só uma pessoa pelas fendas são devastadoramente altos. Então, o que deveríamos fazer a respeito? Este é um dos difíceis trade-offs do mundo após o 11 de Setembro.
NO MUNDO DE ECON 101, todas as partes têm “informação perfeita”. Os gráficos são claros e precisos; os consumidores e produtores sabem tudo que quiserem saber. O mundo fora de Econ 101 é mais interessante, embora bagunçado. Um patrulheiro estadual que manda encostar uma Grand Am 1990 com farol traseiro quebrado num trecho deserto de uma rodovia da Flórida não tem informação perfeita. Como também não tem uma jovem família procurando uma babá segura e digna de confiança, ou uma companhia de seguros buscando se proteger dos custos extraordinários do HIV/aids. A informação tem importância. Os economistas estudam o que fazemos com ela e, às vezes mais importante, o que fazemos sem ela.
a Faz-se aqui necessário um esclarecimento: nos Estados Unidos, até o início do governo Obama, não havia um sistema público de saúde que atendesse teoricamente a toda a população, como temos no Brasil. Os americanos eram obrigados a recorrer aos planos de saúde privados, o que deixava grande parte da população carente sem atendimento médico. O único serviço público era o Medicare, já citado no Capítulo 4, que vale apenas para cidadãos acima de determinada faixa etária. Portanto, alguns fatos, explicações e análises a seguir são válidos considerando a situação geral americana. (N.T.)