Estresse, Ansiedade e Depressão
1. Não fomos feitos para esta vida moderna
1. Não fomos feitos para esta vida
moderna
D EPENDENDO DA SUA IDADE, sua avó ou talvez bisavó atravessaram as maiores transformações na história da humanidade. Veja o meu exemplo. Eu nasci em 1955, e na época meu pai tinha 55 anos. Isso mesmo, ele era de 1900, século XIX, e foi a pessoa que mais transformações viu acontecer no planeta.
Nascido numa família nobre na Rússia, onde o meio de transporte eram os cavalos, ele teve a oportunidade de conhecer o Concorde, um avião comercial supersônico, e eu de viajar nele.
O voo comercial que ligava Paris ao Rio de Janeiro, com uma escala em Dakar, durava cinco horas e meia. Dava para almoçar em Paris e jantar em casa, dependendo do fuso-horário e ainda considerando a ponte aérea para São Paulo sem esquecer, é claro, do trânsito na nossa famosa Marginal Tietê.
Desativado em 2003, o avião atingia a velocidade de 2.500 km/h, ou seja, o dobro da velocidade do som. Voava mais rápido do que o movimento de rotação da Terra que é 1.666 km/h. Quando atingia a altitude máxima, de 60 mil pés ou 18 km, era possível ver a curvatura da Terra.
Foi considerada a mais bela aeronave já construída, com um design inovador. Sim, ela era maravilhosa. Como não era impossível fazer voo direto por causa do excesso de combustível necessário para alcançar as proezas, tínhamos que fazer uma escala em Dakar, no Senegal, para abastecer.
Apesar de toda sofisticação do Concorde, em Dakar não tínhamos finger (aqueles tubos que conectam o avião ao terminal do aeroporto). Era preciso descer por uma longa escada.
Na hora eu pensei:
Que absurdo! Pagar uma fortuna para viajar neste avião e ter que descer de escada, pegar um ônibus para levar os passageiros até o terminal do aeroporto e nesse calor!
Porém qual não foi minha surpresa quando olhei para trás enquanto descia e vi aquele bico majestoso do Concorde que mais parecia um pássaro. Justamente por sermos obrigados a usar a escada, todos os passageiros puderam ver a maravilha daquela aeronave bem de pertinho.
Pena que naquela época não tínhamos acesso aos celulares de hoje e não pude fazer uma selfie.
Quis começar este livro com esta história para que você pense um pouco no quanto nossa vida mudou e em tão pouco tempo.
A explosão urbana!
Em 1800, apenas 3% dos seres humanos viviam em cidades. A maioria da população mundial era rural, pois era de onde tiravam seu sustento caçando, na pesca de água-doce, na criação de gado e na agricultura.
O que estabelecia o ritmo da vida eram as estações do ano.
A maioria das pessoas nascia e morria na mesma aldeia e isso durou milênios, até que o homem parou de ser nômade e começou a se fixar, há cerca de quinze mil anos. Assim permanecemos por longos anos até a chegada da Revolução Industrial no século XVIII e como a própria palavra diz foi uma verdadeira revolução em todos os setores.
Em 1900, (ano que meu pai nasceu, lembra?) 15% da população ocidental já tinha se tornado urbana e em 1950 (na década que eu nasci) essa porcentagem chegava a 30%. A partir de então esse fenômeno continuou de forma colossal no mundo inteiro.
A ONU em seu relatório “Perspectivas da Urbanização Mundial” [World Urbanization Prospects] na revisão de 2018, afirma que no âmbito mundial, mais pessoas vivem em áreas urbanas (55%) do que rurais, e que para 2050, 68% da população mundial está sendo projetada para ser urbana.
Megacidades com mais de 10 milhões de habitantes crescerão cada vez mais.
Em 1990, eram 10 megacidades, desde 2014 temos 28 megacidades e a projeção para 2030 será de 41 megacidades com mais de 10 milhões de habitantes.
Como será que tudo isso nos afeta?
O filósofo alemão Hartmut Rosa mostra que até os anos 1970 as mudanças mais notáveis se davam na escala de uma geração. Hoje ele calcula que um homem de 35 anos já viveu três vezes a vida de seu avô (em média trocou três vezes de esposa, de emprego, de casa...).
Enquanto seu avô se sentia bem informado lendo o jornal pela manhã, hoje esse homem mesmo tendo lido o jornal no café da manhã, ele sente que isso não foi suficiente. Tem que se manter constantemente informado, seja pelo computador, tablet ou celular.
Devemos sempre nos atualizar, como fazemos com os programas do nosso computador. Só que não somos máquinas que trabalham 24/24 ou 7/7. Somos seres humanos com o tempo dividido em passado, presente e futuro.
Na verdade, nossa relação com o tempo foi totalmente transformada nas últimas décadas. Estamos sempre com pressa, muitas vezes atrasados, tudo é para ontem. Vivemos um tempo onde tudo é urgente e acabamos nossa jornada de trabalho com a sensação de que nos faltam mais horas no dia.
A revolução tecnológica que supostamente nos ofertaria uma vida mais confortável e com mais tempo livre, não cumpriu sua promessa. A humanidade acabou mergulhando numa tríade fatal: estresse, ansiedade e depressão.
O mundo mudou. E nós também!
Nas últimas décadas nosso país passou por várias mudanças em todos os setores, o que tornou possível diversas transformações no estilo de vida do brasileiro com redução das desigualdades sociais, de forma que o país tem crescido de maneira mais inclusiva.
Nosso setor da saúde deu um salto com diversos avanços, o que nos trouxe um aumento na expectativa de vida, porém mudanças no consumo e padrão alimentar do brasileiro trouxeram uma nova realidade à tona: as principais doenças dos brasileiros hoje deixaram de ser agudas e passaram a ser crônicas.
Transição nutricional:
da desnutrição para a obesidade.
Temos uma população hoje que enfrenta um aumento expressivo de sobrepeso e obesidade em todas as faixas etárias. As doenças crônicas não transmissíveis são a principal causa de morte entre os adultos, pois a obesidade é a mãe hospedeira da maioria das doenças.
A obesidade, por exemplo, sendo uma doença inflamatória, causa um distúrbio generalizado fazendo com que moléculas cheguem ao cérebro das mais diversas maneiras, inclusive gerando estresse, ansiedade e depressão, que você verá mais adiante
O excesso de peso está presente em:
1 em cada 2 adultos
1 em cada 3 crianças brasileiras