Estresse, Ansiedade e Depressão
2. Nem para comer como estamos fazendo hoje
2. Nem para comer como estamos
fazendo hoje
P ARA ENTENDER OS FRUTOS amargos que estamos colhendo hoje em nossa saúde de uma forma geral, precisamos olhar para nosso passado e analisar o que aconteceu.
Essa pandemia de obesidade e esse aumento absurdo de pessoas com problemas de transtornos de humor não aconteceu por mero capricho da natureza.
Existe uma causa bem clara e definida que veremos neste capítulo, e se queremos reverter esse quadro é importante ver onde e quando erramos para nos encontrarmos nessa situação calamitosa e ter a determinação de mudar, pois a batalha não é fácil, mas não é impossível e você vai entender por quê.
Diferentemente da época das nossas avós, a mulher contemporânea tem uma participação importante no mercado de trabalho e indiscutivelmente essa transição modificou os hábitos alimentares das famílias. A busca por produtos que reduzam o tempo de preparo e diminuam a frequência das compras é uma realidade dos nossos tempos.
A década de 1980 foi marcada pelo grande crescimento dos alimentos industrializados e pelo hábito de comer fora de casa.
A indústria rapidamente observou essa fatia de mercado e adaptou-se a esse novo estilo de vida, disponibilizando produtos de rápido preparo e consumo, (geralmente ricos em gordura, açúcar e sódio, para melhorar o sabor e aumentar o tempo de prateleira), como lasanhas, pizzas, salgados e lanches que podem ser preparados em menos de quinze minutos no micro-ondas.
Além da indústria, o comércio também se adaptou a uma sociedade estressada com excesso de trabalho e falta de tempo. Inclusive para comer!
Nas grandes cidades, o tempo cada vez mais reduzido para fazer refeições favoreceu a procura por alimentos rápidos (de comer e de serem entregues) com os fast-food encontrados facilmente nas lanchonetes ou solicitados por telefone (os tão conhecidos deliveries), que hoje fazem parte da realidade de qualquer classe social, caracterizando a globalização da alimentação.
Em seguida, no início da década de 1990, com a entrada do governo Collor, houve uma abertura de mercado, com importante crescimento nas importações no nosso país, inclusive de alimentos.
Em apenas três anos (1992 a 1995), tivemos um crescimento de 409% nas importações de produtos alimentícios industrializados. Sabe-se que quanto maior a oferta, maior será o consumo, calórico.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – realiza um interessante levantamento chamado Pesquisa de Orçamento Familiares (POF) com o objetivo de entender as estruturas de consumo, os gastos e os rendimentos das famílias brasileiras, possibilitando traçar um perfil das condições de vida da nossa população, tanto rural como urbana.
A primeira pesquisa se chamou
Estudo Nacional de Despesa Familiar e aconteceu entre 1974 e 1975.
A seguir, foram feitas Pesquisas de Orçamento Familiar (POF) no Brasil
entre 1987 e 1988,
entre 1995 e 1996 e,
por último, entre 2002 e 2003.
Em 2005, a Revista de Saúde Pública da Universidade de São Paulo publicou a matéria intitulada Disponibilidade domiciliar de alimentos no Brasil: distribuição e evolução (1974--2003), com os dados da tabela 3 a seguir:
Tabela 3 – Dados de consumo alimentar no Brasil
LEVY-COSTA, Renata Bertazzi et al. Disponibilidade domiciliar de alimentos no Brasil: distribuição e evolução (1974-2003). Rev.
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Saúde Pública, São Paulo, v. 39, n. 4, p. 530-540, Ago. 2005.
Esse artigo revelou claramente a mudança dos padrões de consumo alimentar nos últimos trinta anos (lembre-se de que ela foi editada em 2005), mostrando um declínio dos alimentos básicos e tradicionais da dieta do brasileiro, como arroz e feijão, e insuficiente consumo de legumes, verduras e frutas.
Detectou-se um aumento vertiginoso de até 400% nos produtos industrializados, como biscoitos e refrigerantes, onde encontramos a presença de excesso de açúcar e gordura, principalmente do tipo saturada.
Vendo os dados acima, fica fácil compreender o trabalho publicado por Brown e colegas, em 2008, realizado pela divisão de Fisiologia do departamento de Medicina da Universidade de Friburgo, na Suíça.
Com o artigo intitulado Sugary drinks in the pathogenesis of obesity and cardiovascular diseases [Bebidas açucaradas na patogêneses da obesidade e doenças cardiovasculares], eles “sugerem” que o aumento no consumo de alimentos ricos em sódio (os famosos salgadinhos) provoca sede e, de forma compensatória, estimula o aumento do consumo de bebidas açucaradas – como refrigerantes – aumentando assim a suscetibilidade ao desenvolvimento da obesidade e das doenças cardiovasculares. Associação interessante, não?
E quando pensamos que a situação, que já está ruim, não pode ficar pior, encontramos os dados da tabela 4 na pesquisa seguinte, da POF 2008 – 2009:
Tabela 4 – Dados de consumo alimentar no Brasil
Fonte: Pesquisa de orçamentos familiares 2008-2009: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil / IBGE, Coordenação de
Trabalho e Rendimento – Rio de Janeiro: IBGE, 2011. 150 p.
Se a obesidade vem aumentando de forma alarmante em toda a população, o que mais me deixa chocada, como profissional da área da saúde, são as estatísticas que mostram que as crianças com menos de 5 anos de idade, hoje, terão expectativa de vida menor que a de seus pais. Sabemos que a obesidade é uma doença multifatorial, mas existem fortes evidências da influência da propaganda e do ambiente obesogênico na mudança dos hábitos alimentares.
A influência da propaganda é clara, pois a TV aberta ainda é a maior fonte de lazer e informação, com um mundo midiático ditando as novas regras e comportamentos para a maioria da população.
O ambiente obesogênico tem aqui dois componentes importantes: o estilo de vida sedentário e o problema das toxinas ambientais e dos aditivos alimentares, que veremos em detalhes no próximo capítulo. Porém, o que mais me intriga é como a propaganda pode influenciar culturas milenares, no mundo todo. A alimentação faz parte da identidade cultural de um povo, traduzindo sua estabilidade como grupo social. É um de seus patrimônios.
De acordo com pesquisadores e filósofos brasileiros, temos um “vazio” nesse sentido, a não ser que você seja descendente dos índios que aqui moravam antes da chegada dos portugueses. Temos “apenas” quinhentos anos de uma cultura que mesclou a tradição indígena com a portuguesa e, depois, com a cultura trazida pelos povos africanos que aqui chegaram graças à escravidão – um capítulo triste da nossa História. Mas, mesmo assim, não é tão pouco tempo. E o que dizer das culturas milenares?
A chegada dos meios de comunicação, como a televisão, a internet e, em menos tempo, as mídias sociais, associada à globalização, simplesmente mudou o comportamento alimentar do planeta.
Uma das estratégias da globalização foi criar um Mercado Mundial; mas, para isso, ela precisaria quebrar as fronteiras culturais – e um dos mais fortes pilares era justamente no tocante à alimentação.
A indústria e o comércio de produtos alimentícios conseguiram desenvolver técnicas para estimular as vendas e persuadir o consumidor a novos hábitos alimentares, destruindo, em algumas décadas, a influência milenar de cada povo e criando uma espécie de cultura mundializada.
Quer um exemplo simples no seu dia a dia? Passamos a comer pãozinho francês no café da manhã, hambúrguer no almoço e pizza no jantar. Essa é uma estratégia indispensável para a formação de uma sociedade global: a retirada da nossa territorialidade – a mandioca no café da manhã, o arroz com feijão no almoço e, dependendo da região, o peixe com farinha no jantar.
Essa cultura mundializada nos impõe novos valores, fazendo com que nos transformemos naquilo que querem que sejamos, e, assim, sem perceber, vamos modificando a forma como vivemos, trabalhamos e comemos, tornando-nos cada vez mais consumidores de novos produtos que essa mídia apresenta em cenários maravilhosos, como sendo indispensáveis para nós e nossas famílias. Aqui, é fácil perceber que a intenção é tocar no mais profundo do ser humano: sua busca pela felicidade.
Só esse parágrafo daria um livro inteiro, se fôssemos pensar no quanto o ser humano moderno confunde prazer com felicidade. Prazer é do corpo. Felicidade é da alma. É por isso que nenhum alimento, nem nada que nos satisfaz fisicamente, poderá ser fonte de felicidade.
Temos que ficar atentos com a avalanche de informações que nos são apresentadas pelos meios de comunicação e, agora, temos mais um cuidado a acrescentar nessa lista: as mídias sociais. Nelas, leigos com milhares de seguidores se tornaram formadores de opinião, fazendo disso uma profissão. São, principalmente, pessoas que transmitem informações sobre alimentação e atividade física, mas que não têm a formação acadêmica necessária para isso.
Vejo pessoas até muito bem-intencionadas querendo compartilhar, por meio desses canais, as suas experiências que deram certo. Mas não podemos esquecer que aquilo que foi bom para elas não será necessariamente bom para você. Lembre-se do termo-chave: individualidade bioquímica.
A TV aberta é ainda a maior fonte de lazer e informação, ditando as novas regras e comportamentos para a maioria da população. Não podemos acreditar em tudo só porque “você assistiu na televisão”, “estava naquela revista semanal” ou até (e principalmente) “leu na internet”.
Pesquisas científicas concluíram que as propagandas de alimentos têm o poder de influenciar as escolhas alimentares de crianças e adolescentes – lembrando que são os hábitos adquiridos na infância que se perpetuam na vida adulta.
Já faz tempo que nós, brasileiros, estamos perdendo nossos hábitos alimentares regionais, nossas raízes, em troca de alimentos que parecem comida, têm gosto de comida, mas não são comida! Nosso homem do campo está vendendo o produto da terra que ele planta e colhe, para ir à cidade comprar alimentos industrializados.
Esse foi um dado apresentado num congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo – SOCESP – em São Paulo, em que eu estava presente, como parte dos resultados de um grande estudo chamado Prospective Urban and Rural Epidemiological Study – PURE [Estudo Epidemiológico Urbano Prospectivo – PURE]. São estudos como esse que fazem os cientistas terem uma noção do que está acontecendo, tanto nas grandes cidades, como no campo, e entender melhor os fatores que influenciam o desenvolvimento das doenças não transmissíveis.
A facilidade de acesso a produtos que reduzam o tempo de preparo e diminuam a frequência das compras tornou-se uma das características dos nossos tempos.
Como já mencionei, o aumento da participação da mulher no mercado de trabalho foi, sem dúvida, um ponto que considero particularmente importante, pois alterou o padrão de alimentação caseira e da família.
A indústria alimentícia rapidamente observou essa fatia de mercado e adaptou-se ao novo estilo de vida, disponibilizando uma enorme variedade de produtos de rápido preparo e consumo.
O comércio também se adaptou a uma sociedade com excesso de trabalho, falta de tempo e, sobretudo, altamente estressada, em que a comida se torna um conforto para o corpo e para a mente.
Existem estratégias (eu diria até malignas) para indução de comportamento que têm sido amplamente utilizadas pela indústria, criando reflexos condicionados naquele consumidor cansado, estressado e carente de um conforto emocional por meio de um prazer externo.
São técnicas chamadas de “mnemônicas”, que estimulam as áreas cerebrais que controlam o desejo, o querer e o prazer. Elas estimulam associações que são aprendidas e guardadas na memória, gerando um ciclo de reflexos condicionados:
Vejo
↓
Lembro
↓
Quero ansiosamente
↓
Me sinto recompensado momentaneamente ao comer.
Quem não identifica o produto imediatamente, após ouvir uma das chamadas a seguir?
“Um sabor inesquecível.”
“Exageradamente gostoso.”
“Com sabor de quero mais.”
“Impossível comer um só.”
De todas as faixas etárias, as crianças são as mais vulneráveis na criação desses reflexos condicionados, pois são, também, o principal agente para a indução do consumo de alimentos e bebidas industrializados na família.
Um estudo mostrou que 65% das decisões de compra de produtos são tomadas dentro dos supermercados, sendo que 50% não são planejadas. É por isso que nunca devemos fazer compras com fome e, principalmente, levar as crianças conosco. Quantas vezes você já não viu os pais se renderem a elas depois de um verdadeiro escândalo por desejarem um produto?
Veja este exemplo da influência da propaganda nos hábitos tradicionais. Qual a bebida que todo estrangeiro, quando vem ao Brasil, experimenta e fica encantado? A nossa famosa caipirinha, certo? Feita com aguardente, elaborada em alambiques, a partir de uma matéria-prima bem brasileira, que é a cana-de-açúcar.
Mas quando perguntamos para a maioria dos brasileiros qual a sua bebida predileta nos fins de semana, no churrasco com os amigos, na praia e nos momentos de lazer, qual é a resposta?
– Cerveja! E, por favor, “estupidamente gelada”!
Raciocine comigo: como uma bebida criada em países europeus, cuja população precisava de algo para aquecer o corpo e dar energia – pois, com o inverno rigoroso, não há produção de uvas para o vinho – veio parar num país tropical?
A resposta é que houve uma estratégia de marketing extremamente bem-sucedida desse forte segmento da indústria de bebidas, que conseguiu mudar o hábito de beber caipirinha e introduzir a cerveja, por meio da criação da “cerveja estupidamente gelada”.
Nos países de origem, esse conceito seria totalmente inaceitável. Quem já foi para a Alemanha, principalmente, sabe que, no verão ou no inverno, a cerveja é servida à temperatura ambiente.
A visualização desse produto rodeado de belas mulheres em lugares paradisíacos, com uma juventude exibindo visual saudável de férias, em propagandas direcionadas tanto ao público masculino como ao feminino, impôs um novo contexto social e fez da cerveja “estupidamente gelada” um ícone nas férias de verão em nossas praias tropicais.
Essa poderosa indústria de alimentos e bebidas, aliada ao comércio de alimentos consumidos principalmente fora de casa (em restaurantes, bares, lanchonetes, cantinas), desenvolveu uma série de produtos que ativam excessivamente um sistema no cérebro chamado “hedônico”, isto é, de prazer, gerando necessidade de consumo, mesmo na ausência da fome (ou da sede) e provocando descontrole alimentar. Assustador, não?
Os três ingredientes da alimentação moderna – açúcar, gordura e sal – quando oferecidos nas “doses certas”, potencializam a geração de prazer.
Essa estratégia foi claramente observada no congresso de 2014 do Instituto de Medicina Funcional (IFM) por ocasião do lançamento do documentário Fed Up [Engordou], disponível na NETFLIX®, que fala da obesidade infantil nos Estados Unidos, do problema do açúcar “escondido” nos produtos industrializados, e como a indústria de alimento pressionou o governo e até mesmo a OMS.
O mais chocante para mim foi quando apresentaram dois cérebros na tela depois de fazer um exame sofisticadíssimo para mostrar as áreas ativadas quando comemos açúcar ou quando cheiramos cocaína: são exatamente as mesmas regiões. Entendeu por que açúcar vicia?
É por isso que ao termos diante dos olhos bombons, bis-coitos, salgadinhos ou batatas fritas, ao sentir seu aroma, é praticamente impossível não pegar um. E depois de comer o primeiro essa atitude “abre o apetite” e nos faz querer mais e mais...
Não vou entrar aqui em detalhes sobre como funcionam essas respostas hormonais geradas no nosso cérebro, por conta de alimentos altamente palatáveis desenvolvidos exatamente para essa função; gostaria apenas de salientar que muitas pessoas podem desenvolver padrões de comportamento descontrolados ao consumir substâncias que causam prazer.
Não é por acaso que o Guia Alimentar 2015 sobre o qual falaremos mais extensamente no próximo capítulo, sinaliza algo importante sobre estes quatro elementos:
Óleos, gorduras, sal e açúcar
Ele recomenda que se utilizem esses ingredientes com moderação, em pequenas quantidades e nas elaborações dos alimentos in natura ou minimamente processados, a fim de não fazer da preparação, mesmo com matérias-primas de excelente quantidade, um alimento nutricionalmente desbalanceado.
No capítulo “Como montar seu prato”, você encontrará a receita do meu sal de ervas, que ajudará a diminuir o sal de adição das suas preparações, além de conferir um sabor inigualável e acrescentar importantes compostos bioativos, presentes nas especiarias dessa receita.
Você entende, agora, por que eu disse que quem decide mudar seus hábitos tem uma dura batalha pela frente? É que vivemos num mundo totalmente construído para nos seduzir por meio dos nossos sentidos.
Isso me lembra muito a nossa batalha espiritual, em que precisamos estar vigilantes o tempo todo, para não cair em tentação. Fazer uma mudança de hábitos alimentares torna-se, aqui, uma ascese espiritual.
“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação.
O espírito, com certeza, está preparado, mas a carne é fraca.”
(Mt 26,41)
E pensar que a gula é, dos pecados capitais, o primeiro degrau a ser vencido, quando queremos progredir na nossa trajetória de santidade... Mas a boa-nova é que nutrientes dão inteligência às nossas emoções.
Vou mostrar mais adiante como bioquímica e fisiologicamente uma pessoa bem nutrida tem maior controle sobre seus impulsos e paixões, mas para alcançar esse êxito é necessário comer “comida de verdade”.
Somente alimentos ricos em macronutrientes de qualidade (carboidrato, gordura e proteína) e micronutrientes (vitaminas e minerais) além de compostos bioativos, são capazes de nos fornecer matéria-prima (tijolos) para construirmos neurotransmissores que em doses adequadas nos proporcionarão bem-estar emocional e resiliência para encarar todos os desafios dessa modernidade de hoje.