Estresse, Ansiedade e Depressão
4. A vez dos neurotransmissores
Até aqui você viu que:
• Mudamos nossos hábitos alimentares e passamos de uma realidade de desnutrição para obesidade, mas ironicamente o obeso de hoje é um desnutrido no que se refere a nutrientes (importantes inclusive para fazê-lo emagrecer).
• A obesidade é uma doença inflamatória que traz inúmeras consequências deletérias para a nossa saúde, inclusive sendo gatilho para o desenvolvimento da ansiedade, depressão e do próprio estresse.
• Estamos cercados por toxinas de todos os lados e justamente os nutrientes que nos ajudariam a eliminá-las estão em falta no nosso organismo pelas péssimas escolhas alimentares que estamos fazendo.
Então chega no consultório aquele paciente se queixando de inúmeros sintomas como empachamento, gases, refluxo, intestino alternando diarreia e constipação, sem energia para nada, dormindo mal, querendo urgentemente emagrecer e tomando remédio para depressão que, segundo ele, não está fazendo efeito!
Já falou com o psiquiatra, trocaram algumas vezes de medicamento, mas o quadro não muda. Essas medicações têm como princípio fazer com que o neurotransmissor serotonina tenha mais acesso ao cérebro, a fim de proporcionar o bem-estar tão almejado.
Só que a pergunta que não quer calar é:
– Mas será que você está produzindo, isto é, sintetizando serotonina para que o medicamento faça efeito? De que adianta várias fechaduras e poucas chaves?
Aqui está o grande problema. Geralmente os psiquiatras não avaliam como está a alimentação desse paciente e muitos deles nem sequer solicitam exames de vitamina D, um nutriente fundamental para saúde em geral e principalmente emocional.
Outro dia veio no consultório uma paciente que me viu falando com o Pe. Fábio de Melo no programa Direção Espiritual sobre vitamina D, e ela se deu conta de que seu psiquiatra (e nenhum médico anteriormente) nunca tinha solicitado esse exame. Ela já estava em tratamento havia três anos sem obter grandes resultados. Não teve dúvida, como ela também era uma profissional da área da saúde, foi a um clínico geral e disse que gostaria de fazer exames laboratoriais. Porém ao ver a lista de exames que o médico passou percebeu que ele também não tinha solicitado a vitamina D (que deve ser prescrita na forma de 25 OH Vitamina D3) e perguntou:
– Doutor, o senhor poderia incluir o exame para ver o status da minha vitamina D?
E ele respondeu:
– Está na moda, né?
Pois mesmo assim ela insistiu e fez o exame. O resultado foi que ela estava com sua vitamina D muito abaixo do desejado. Naquela época o laboratório colocava como padrão de normalidade uma faixa entre 30 ng/mL e 100 ng/mL e a dela tinha da 19 ng/mL.
Conclusão: ela foi suplementada e para surpresa de todos (menos dela) recebeu alta do psiquiatra.
Não estou aqui falando que você agora vai sair comprando vitamina D e que milagrosamente sua depressão vai acabar, mas muitas vezes um detalhe é que faz a diferença entre o sucesso e fracasso do tratamento. Outro ponto importante é que a vitamina D deve sempre vir sempre acompanhada do uso da vitamina K2, pois essa associação faz com que o cálcio seja direcionado para os ossos e não se deposite nas artérias.
Infelizmente, no mercado não temos uma vitamina D já associada a vitamina K2, portanto, o ideal sempre é ir a um profissional que possa avaliar seus exames e verificar a dose exata, por quanto tempo e de que forma tomar para ter sempre um bom status de vitamina D que não é apenas importante para sua saúde emocional. Hoje, sabemos que essa “vitamina” é um hormônio e que tem mais de 3.000 pontos de ligação com nosso DNA. Isso mesmo, ela faz expressão gênica. Mas a vitamina D é uma exceção no tocante aos nutrientes, pois diferentemente dos outros que podemos (e devemos) obter por meio da alimentação, essa vitamina precisa do sol para ser produzida no nosso organismo, e hoje quem não usa um filtro solar para se proteger? Dificilmente encontro algum paciente, mesmo vivendo no norte ou nordeste, à beira-mar, que tenha níveis adequado dessa vitamina.
Apenas um em cada dez pacientes (10/1) encontra-se na faixa de normalidade. Os outros nove precisam de suplementação. Mas se a vitamina D é importante, imagine os outros nutrientes que, como vimos, estão em falta na dieta do brasileiro.
Nossos neurotransmissores para serem produzidos precisam de matéria-prima, isto é, de comida e comida de verdade. Vamos entender um poucos sobre eles.
Neurotransmissores são substâncias químicas produzidas pelos neurônios, as células cerebrais, cuja função é fazer o que o próprio nome diz: servem para transmitir uma mensagem. Essas substâncias têm um papel decisivo para o bom funcionamento não apenas do cérebro. Elas também podem estimular um comando cuja reação final seja um músculo ou um órgão do corpo. Mas os neurotransmissores não estão apenas envolvidos em reações físicas. Eles vão muito além, sendo os responsáveis por nossa imaginação, nosso raciocínio, nossa percepção dos acontecimentos do dia a dia.
Como expliquei anteriormente, tudo no nosso corpo funciona no sistema chave-fechadura para que uma reação aconteça. Portanto, para que as coisas funcionem bem devemos ter uma produção adequada de neurotransmissores (chaves), mas também dos seus receptores (fechaduras). Se as chaves são importantes para entrar em casa, portas com fechaduras são indispensáveis também.
Cada célula do nosso corpo é como se fosse uma casa, e as portas permitem o acesso. Neurotransmissores, hormônios, nutrientes, enfim, tudo precisa desse caminho. Por isso quando me dizem: “Somos o que comemos”, eu respondo: “Não. Somos o que conseguimos absorver”.
Isso significa digerir (quebrar) os alimentos até suas menores porções (os nutrientes), depois serem absorvidos pelo intestino, caírem na corrente sanguínea, serem transportados através, geralmente, de uma proteína carregadora (uma espécie de carrinho transportador) para chegarem com sucesso ao seu destino. Ao chegar, precisam entrar na célula para poderem executar sua função; daí a importância dos receptores celulares.
Ao tratar de problemas envolvendo neurotransmissores, levamos em consideração que algumas pessoas até os produzem, mas faltam receptores (fechaduras) para recebê-los.
Ao ser prescrito um medicamento para esse tipo de situação, o médico
sempre avisa que o remédio só começará a fazer efeito depois de duas
semanas que é o tempo médio necessário para que o corpo fabrique novas
portas e fechaduras nas membranas celulares.
Paciência é a palavra-chave, pois muitos casos de ansiedade e depressão têm a necessidade de uso de medicamentos, pelo menos no período inicial, e aqui é onde a nutrição adequada, como explico neste livro, poderá ajudar muito.
Em primeiro lugar, para que o próprio medicamento consiga fazer os efeitos esperados; e em segundo lugar, para que o psiquiatra possa reavaliar a dose do medicamento. Muitas vezes, após um período de alimentação adequada – principalmente retirando os produtos alimentícios que são pró-inflamatórios – a dose poderá ser reduzida, e em alguns casos o remédio poderá até ser retirado, mas claro que, após um desmame da medicação.
Nunca pare de tomar uma medicação prescrita pelo médico sem falar antes
com ele, pois alguns remédios precisam ser retirados aos poucos.
Os neurotransmissores mais conhecidos são:
• serotonina, para o humor,
• dopamina, noradrenalina e adrenalina, para motivação.
Mas existe outro que é fundamental:
• ácido gama-aminobutírico, mais conhecido como GABA. É ele que desacelera respostas exageradas de raiva ou medo etc. Ele é indispensável para que tenhamos a resposta certa, na hora certa, com a pessoa certa! Ele dá inteligência às nossas emoções.
Mas o neurotransmissor mais conhecido, principalmente por nós mulheres, é a serotonina.
De fato, a serotonina é o neurotransmissor mais ligado a contentamento, satisfação, alegria e felicidade. Porém esse fabuloso neurotransmissor não tem apenas essa função no nosso cérebro. Ele tem um papel importantíssimo no crescimento dos neurônios.
A serotonina age numa família de proteínas chamadas de neurotrofinas que são responsáveis pela sobrevivência, desenvolvimento e função dos neurônios. Ajuda a combater o estresse oxidativo impedindo o envelhecimento do cérebro, melhora a memória recente e a memória a médio prazo. Lembre-se disso: o ferro enferruja e nós oxidamos.
A serotonina não é apenas importante para a nossa saúde mental, mas física também, pois quando temos uma visão mais otimista dos acontecimentos do dia a dia, os impactos do estresse são bem menores.
Em si, o estresse não é ruim. Lembre que tudo que nosso corpo produz é bom. O problema é o excesso ou a falta. Só que toda vez que a pessoa está estressada, sua visão dos fatos fica prejudicada, e ela passa a ver todos os acontecimentos do dia a dia com lente de aumento, chegando à noite exausta.
O estresse nos prepara para duas situações: luta ou fuga. Ambas são respostas de sobrevivência. Raciocine comigo: se você precisa fugir ou lutar, precisa estar com todos os seus sentidos à flor da pele para reagir rapidamente, certo? Essa sensação é totalmente contrária àquela que a serotonina traz de bem-estar, calma e paz. Portanto, toda vez que você produz cortisol, que é o hormônio do estresse, sua serotonina é aniquilada, destruída.
Precisamos chegar ao final do dia com uma cota de serotonina no nosso cérebro, pois ela será a matéria-prima para produção da melatonina, o mais poderoso antioxidante que o seu organismo produz. Até pouco tempo atrás, quando se falava em melatonina lembrávamos apenas que ela era o hormônio do sono. Hoje sabemos que a melatonina pode ser produzida em todas as nossas células sob demanda.
Como se trata de um dos mais eficientes antioxidantes que o nosso corpo produz, na medida que uma célula necessita, ela mesma pode sintetizar essa melatonina para si própria. E vale aqui ressaltar que o órgão que mais solicita produção de melatonina é o intestino, devido às várias agressões que sofre ao longo do dia.
É comum acontecer de ao receber pacientes com queixas de dores no corpo, com suspeita de diagnóstico de fibromialgia, e minha primeira pergunta é:
– Como está sua qualidade de sono?
– Péssima, doutora! Não sei o que é dormir bem faz muito tempo.
Torna-se um círculo vicioso. Geralmente esses pacientes tiveram uma sobrecarga emocional, ou passaram por um período que solicitou muito estudo, como um vestibular, um concurso público ou uma concorrência no trabalho. Essa demanda excessiva, associada a uma alimentação completamente inadequada, faz que o excesso de cortisol destrua a serotonina, prejudicando todo o organismo. Essas pessoas geralmente dormem mal por falta da produção de melatonina – lembrando que é justamente quando dormimos que nosso corpo se recupera.
A melatonina faz uma verdadeira faxina, neutralizando os famosos radicais livres, inclusive no cérebro. Não é de estranhar que as dores no corpo não melhorem. Tenho testemunhos espetaculares de pessoas que se curaram da chamada fibromialgia apenas corrigindo a alimentação, sono e fazendo uso de suplementação adequada e por um breve período.
Esses radicais livres que tanto conhecemos como vilões, na verdade são essenciais para equilíbrio e proteção do nosso organismo. Gosto muito de citar aquela passagem bíblica onde Deus viu o que tinha feito e achou bom! É exatamente isso, tudo que nosso corpo produz é bom, o problema está no desequilíbrio (excesso ou a falta) e é aqui que nossa escolhas alimentares fazem toda diferença.
Nosso cérebro tem aproximadamente 100 bilhões de neurônios (células cerebrais) que processam simultaneamente um número imenso de informações locais e para o corpo. Por isso, é o órgão de maior gasto energético de todo o organismo e o primeiro que sofre quando há queda de energia.
A glicose é o combustível preferencial da maioria das células do nosso corpo, principalmente das do cérebro, mas a natureza se encarregou de providenciar uma outra fonte de energia na falta dela que são os corpos cetônicos. Isso numa situação de emergência.
Para essa glicose se transformar em energia, ela precisa entrar nas células (neurônios). A organela chamada de mitocôndria, presente em praticamente todas as células do nosso corpo, é a nossa usina de força que faz essa conversão de nutriente em energia.
Quando temos, entretanto, muito cortisol circulando por um estresse crônico, há um bloqueio da entrada da glicose nas células cerebrais e portanto suas mitocôndrias ficam sem matéria-prima para gerar energia. Aqui começa um grande problema: as mitocôndrias, que deviam produzir muita energia a partir da glicose absorvida gerando poucos radicais livres, fazem exatamente o contrário. Sem energia adequada por falta de glicose, começam a produzir quantidades maiores de radicais livres.
Outro problema é que a energia produzida pelas mitocôndrias serve para equilibrar a entrada de cálcio nos neurônios, impedindo que as células cerebrais fiquem com acúmulo desse mineral no seu interior, pois nessa situação ele se torna tóxico, provocando inclusive a morte neuronal.
Esses radicais livres produzidos dentro da mitocôndria, como estão em excesso, acabam escapando de dentro delas e vão atacar o núcleo dos neurônios, atingindo então o DNA, nosso código genético, que é o livro de receitas de todas as proteínas que nosso corpo tem que produzir. A partir daí, nossos neurônios não conseguem gerar todas as substâncias de que o cérebro precisa, dando início a uma degeneração dos circuitos cerebrais.
Um dos reflexos quando ocorrem essas lesões são as fobias. As pessoas passam a ter um medo exagerado de coisas que antes nunca as tinham incomodado, como de entrar num elevador, ficar no escuro, ouvir trovões etc. Existe uma explicação muito lógica para isso. Nosso código genético tem as informações de toda nossa ancestralidade, desde o homem paleolítico. Com o passar dos anos (milhões), certos mecanismos de sobrevivência foram desativados, pois não precisamos mais deles, contudo permanecem arquivados (nos íntrons do DNA) para que, se no futuro precisarmos, estejam disponíveis para nossa sobrevivência.
A partir do momento em que nosso DNA é atacado, em momentos de grande estresse, essas informações arquivadas podem ser ativadas, fazendo vir à tona memórias dos medos dos nossos ancestrais, que viviam num ambiente extremamente hostil.
Mas, graças a Deus, nosso corpo tem uma capacidade de regeneração imensa e conta com seus próprios meios para se recuperar por meio da produção de proteínas regeneradoras.
Essas proteínas agem principalmente quando estamos dormindo, na fase profunda do sono, e quando temos uma boa nutrição, responsável inclusive para que possamos ter uma qualidade de sono.
Você esta vendo como a nutrição tem um papel determinante na nossa saúde?
Quando digo às minhas pacientes para voltarem ao tempo da vovó, não apenas em termos de qualidade da alimentação, mas que voltem a cozinhar, elas respondem:
– Não tenho tempo para isso, doutora!
E eu respondo:
– Você pode dizer que não tem tempo para cuidar da sua saúde hoje, mas lamento informar que vai gastar muito mais tempo (e dinheiro) no futuro para cuidar da sua doença.
Somos credores ou devedores de nós mesmos no futuro. Pense nisso com carinho: mesmo que você tenha uma informação no seu código genético para uma determinada doença, isso não significa que você vai desenvolvê-la.
Genética não é destino!
O meio ambiente – e aqui entra a nutrição – tem os meios fornecidos por
Deus para nossa constante recuperação. Mantendo nossa saúde física e
mental, podemos desenvolver todo nosso potencial para criar um mundo
melhor, mais feliz, a começar por nós.
Falando ainda sobre a falta de nutrientes, existe uma situação muito particular. Chama-se neuroglicopenia – falta de glicose no cérebro.
Tudo começa com a carência de dois minerais: cromo e vanádio, indispensáveis para ativar a sensibilidade dos receptores (fechaduras) de insulina (chave). Esses receptores abrem a porta da célula, estimulando o código genético a produzir proteínas que transportam a glicose até as mitocôndrias.
Quando a glicose não chega aos neurônios, o cérebro entra num processo de fome. É a neuroglicopenia – falta de glicose no cérebro. Na verdade esta glicose existe e está lá, mas como não consegue entrar o cérebro dá um sinal de alerta que está faltando glicose para ele. Acontecem os primeiros sinais e sintomas: falta de concentração, a memória começa a falhar e a depressão começa a se instalar.
Desesperado por glicose, o cérebro começa a enviar mensagens para regiões do cérebro responsáveis pela fome (hipotálamo), pedindo mais combustível (glicose). O pior é que o tipo de carboidrato que se consome nessas horas é o pior, com excesso de açúcar e gordura, de rápida absorção, cuja refinamento retira dele justamente todo o cromo necessário para metabolizá-lo. Ocorre que, quanto mais carboidrato é consumido, mais insulina é produzida, piorando cada vez mais a sensibilidade dos receptores.
A esse excesso de insulina damos o nome de hiperinsulinemia, um marcador no exame de sangue que identifica que a sensibilidade dos receptores (fechaduras) está prejudicada. A hiperinsulinemia pode causar não apenas o diabetes tipo 2 (DM2), mas também obesidade, hipertensão, depressão, fechando o diagnóstico para a famosa síndrome metabólica.
Assim como o pâncreas, o cérebro é atingido nessa situação, mas é o pâncreas que geralmente dá o primeiro alerta por meio do desenvolvimento de DM2. Mas o cérebro também dispara um alerta (subliminar), pois geralmente, antes do aparecimento declarado de um DM2, as pessoas apresentam uma depressão. Por isso, essa neuroglicopenia também é chamada de diabetes cerebral.
Já se sabe que os portadores de DM2, por conta da resistência à insulina, têm um risco aumentado de 50 a 65% para o desenvolvimento da doença de Alzheimer.