Falar Verdade a Mentir

Almeida Garrett · Capítulo 10 de 17

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Falar Verdade a Mentir

Cena X

Os já mencionados e AMÁLIA

 

AMÁLIA, acudindo — Oh meu Deus! que é isto?

JOSÉ FÉLIX, baixo a Amália — Separe-nos, ande... (alto) Eu não bato a mim. Duarte — Mas mim bate a ti. Agora o veremos.

BRÁS FERREIRA — E eu mando-te que te cales. Que tal está! Ai que eu!... (aparte) E eu que pensava ao princípio que era uma brincadeira!... e o jogo é a valer. (a José Félix) O senhor é o ofendido...

DUARTE — Não senhor, o ofendido sou eu.

BRÁS FERREIRA — Tu! tu que o ias matando, aleijando pelo menos!

DUARTE — Não é verdade.

JOSÉ FÉLIX — É verrdade.

BRÁS FERREIRA — É verdade sim senhor: a culpa é sua, não há que duvidar.

DUARTE — se o meu tio o diz, não tenho remédio eu senão acreditá-lo.

BRÁS FERREIRA — Ora graças a Deus! que confessou a sua culpa, e entrou na razão enfim. Da sua parte, milord, espero que desista, que se esqueça...

JOSÉ FÉLIX — Se o senhórr está muito triste, very sorry, se não tinha intenxion...

BRÁS FERREIRA — Não tinha, não.

DUARTE — Não tive.

BRÁS FERREIRA — Então vamos! esqueça-se tudo; e em sinal de reconciliação, milord, há de almoçar connosco.

AMÁLIA — Ainda bem! respiro.

DUARTE, aparte — Verdade, verdade, não tenho muito de que me queixar. Ainda eu lhe sou obrigado ao tal maganão que embirrou a fazer-me este serviço. (alto) Oh lá! Joaquina, Isidoro! algum de vocês... É preciso mandar arranjar depressa alguma coisa...

BRÁS FERREIRA — Para quê?

DUARTE — Pois o senhor almoça connosco...

BRÁS FERREIRA — Almoça: e então? Tu tens almoço em casa para um príncipe. Já te esqueceste?

DUARTE — Ah! sim... decerto... Mas talvez um almoço de garfo... sem chá preto... sem manteiga fresca... não será do gosto de milord...

JOSÉ FÉLIX — Eu peço o seu perdão, vóssinhorrie. O meu stomago é cosmopolitana, e entende todos línguas; janta em francês, pórtuguiz... não importa; almoça com Turquia se é preciso, e ceia sobre Peru, se vóssinhorrie dá prazer.