Falar Verdade a Mentir

Almeida Garrett · Capítulo 15 de 17

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Falar Verdade a Mentir

Cena Xv

GENERAL e BRÁS FERREIRA

 

General — Creio que é o senhor Brás Ferreira do Porto a quem tenho a honra de falar? Muita satisfação de ver a vossa senhoria em Lisboa. Conheço-o há muito de nome, e quase que posso dizer somos amigos sem nos termos visto. O meu antigo camarada, o coronel Luís Guedes sempre me encarece por tal modo a amizade que lhe tem! Nas suas cartas quase que me não fala de outra coisa senão do seu filho e da vossa senhoria.

BRÁS FERREIRA — Luís Guedes! Então vossa senhoria é...

General — O seu mais antigo e melhor amigo, o general Lemos.

BRÁS FERREIRA — Ah! vossa excelência perdoe, por quem é. Mas porque se incomodou, senhor general? Eu é que devia ir aos seus pés... e hoje mesmo tencionava fazê-lo — para lhe agradecer todas as bondades que tem tido com o meu genro... que está para ser.

General — Bondades! eu não sei... decerto não tem nada que me agradecer... mas é sua culpa. Eu ignorava absolutamente...

BRÁS FERREIRA — O quê, general?

General — Que Duarte estivesse em Lisboa.

BRÁS FERREIRA — Que me diz, senhor? Há três meses.

General — Ainda o não vi uma só vez. Antes de ontem recebi eu uma carta do seu pai, que me pareceu um enigma: queixa-se de que o filho não tenha ainda obtido a recebedoria de Santarém que tanta conta lhe fazia... Mas que diacho! quem quer alguma coisa, pede-a. Eu não podia adivinhar, e vinha aqui de propósito ralhar com ele.

BRÁS FERREIRA — Ralhar, tenho eu que ralhar com o tal menino por outras muito piores. Mas como é isto, senhor? Pois Duarte não vai habitualmente a sua casa?

General — Não senhor.

BRÁS FERREIRA — Não digo em Lisboa, mas à sua quinta? General — A minha quinta? É coisa que não tenho.

BRÁS FERREIRA — Pois não digo quinta... não seja... mas a linda casa que tem da outra banda com uma vista magnífica, um bilhar...

General — Sou tão desastrado que não jogo o bilhar.

BRÁS FERREIRA — Estava visto... Faça ideia, general, que é o sistema de mentiras mais complicado que nunca vi, e combinado de modo que ainda não sei... Mas deixá-lo: vossa excelência está aqui, há de me ajudar a confundi-lo... Com toda a certeza não lhe dou minha filha.

General — Por quem é! Eu que vinha com tanto gosto trazer-lhe a minha prenda de casamento...

BRÁS FERREIRA — Não há de ser meu genro. General — E a sua palavra?

BRÁS FERREIRA — Retiro-a: e ele não tem direito de se queixar... Avisei-o de que, à primeira mentira em que o apanhasse, tudo estava acabado. Ainda bem que o encontrei, general: vamos a ver com que cara o maldito do rapaz... Oh! ele aí vem: peço-lhe que não diga o seu nome.

General, aparte — E esta! Eu que vinha para obsequiar o pobre do rapaz, e ao seu pai de quem sou tão amigo!