Falar Verdade a Mentir

Almeida Garrett · Capítulo 2 de 17

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Falar Verdade a Mentir

Cena Ii

Os já mencionados e AMÁLIA

 

AMÁLIA — Joaquina! Joaquina! ando à tua procura. O senhor Duarte ainda não veio?

JOAQUINA — Não, minha senhora.

AMÁLIA — Que homem é esse com quem tu estavas a falar? José Félix — Anda, apresenta-me como gente.

JOAQUINA — Minha senhora, é aquele rapaz de quem lhe eu dizia no Porto...

AMÁLIA — Ah! já sei: o senhor José Félix. Tens bom gosto, Joaquina. O pior é que vocês não têm de casar senão quando o meu casamento se fizer, tenho muito medo que ainda esperem bem tempo.

JOAQUINA — Então porquê, minha senhora?

AMÁLIA — Ora! estou desesperada, transtornou-se tudo: meu pai quer quebrar com ele.

JOAQUINA — Com o senhor Duarte? Amália — Sim: pois com quem?

JOSÉ FÉLIX, aparte — Meu Deus! e as nossas cem moedas?

JOAQUINA — Não é possível: a mesma família, a mesma riqueza, um casamento tão igual, tão acertado... O seu pai não se há de atrever.

AMÁLIA — Nada, não! Veio a Lisboa — agora é que o eu sei bem — só para achar pretexto de o desmanchar.

JOAQUINA — Pois não o há de achar. O senhor Duarte é um rapaz como há poucos. Juízo não lhe falta: suas doidices... não é, é pancada da mocidade. Isso passa depressa. Bom coração... não o há melhor. Quer a senhora saber? O mal que ele faz é por moda... todos assim são... e o bem que ele faz, que é muito, esse, minha senhora, não é moda que pegue.

AMÁLIA — Pois sim; mas já que falamos nos seus defeitos, sempre te digo que ele que tem um, que se o meu pai o vem a descobrir... Tenho-lho encoberto até agora, mas se ele o chega a conhecer, acabou-se, nunca mais lhe perdoa. O meu pai é um negociante dos antigos, que leva a honra e probidade, a lisura e a verdade no trato, a um ponto de severidade que é quase rudeza... e Duarte é muito bom rapaz, não há dúvida; mas não sei se é distração se é doidice, tomou o costume de nunca dizer uma palavra que seja verdade.

JOSÉ FÉLIX — Percebo: tem viajado muito...

JOAQUINA — Não, mas é morgado, e de raça quase castelhana...

JOSÉ FÉLIX — Entendo, entendo: echelas usted más blandas.

JOAQUINA — E para além do mais, há seis meses que está em Lisboa...

JOSÉ FÉLIX — Onde todos os talentos se aperfeiçoam.

AMÁLIA — Enfim, meu pai declarou que à primeira mentira bem clara, bem provada em que o apanhasse, tudo estava acabado.

JOSÉ FÉLIX — Ora adeus! O senhor seu pai com efeito... ele ainda é parente, bem se vê, há de ter sua costela espanhola... O seu projeto é outra espanholada também... Querer impedir que um rapaz do tom, da moda pregue a sua peta!... isso é mais do que formar castelos em Espanha, é querer meter o Rossio pela Betesga.

AMÁLIA — Meu pai é que o não entende assim: e eu não sei como hei de avisar a Duarte.

JOAQUINA — Vou eu pôr-me à espera dele. Não tarda a vir por aí; e antes que entre e que fale com o seu pai, hei de avisá-lo que tome conta em si, e que não dê notícias senão as que forem oficiais... a ser possível.

AMÁLIA — Cala-te: oiço falar no quarto do meu pai; é a voz de Duarte.

JOAQUINA — É que entrou pela outra escada.

AMÁLIA — Está tudo perdido! Se ele falou com o meu pai... aposto que já... Nunca vi: é que não pode, mente por hábito e sem saber o que faz.

JOAQUINA — Então agora o que se podia... o que era de mestre, era fazer que o senhor Brás Ferreira o não conhecesse. Por fim de contas, a nós que nos importa que ele minta, contanto que o seu pai o não perceba?

JOSÉ FÉLIX — Ela tem razão, a Joaquina. E é mais fácil isso. Se a senhora D. Amália se confia em mim, e me autoriza...

AMÁLIA — Oh meu Deus! Se vocês encobrem aquele defeito ao meu pai, fico-lhes numa obrigação... Depois em nós casando, eu o emendarei. Que se não fosse isso...

JOSÉ FÉLIX — Está claro, minha senhora. Mas agora é preciso que o senhor Duarte me não veja. E u é que se pudesse ouvi-lo, e fazer assim ideia do seu modo...

JOAQUINA, apontando para uma alcova, à direita — Ora!... aquela alcova... e tem uma porta que dá direita na escada... Eles aí vêm: entra depressa, esconde-te.