Falar Verdade a Mentir

Almeida Garrett · Capítulo 4 de 17

Páginas do PDF

Falar Verdade a Mentir

Cena Iv

Os já mencionados e um criado da hospedaria

 

CRIADO, trazendo uma carta. — Para o senhor Brás Ferreira, do Porto.

BRÁS FERREIRA — Sou eu: dá cá. (abre) Ah! é para o tal pagamento. (O criado sai.) Vejamos as minhas contas: quanto tenho eu em dinheiro?... Dá-me licença, Duarte; tenho uns papéis que arranjar. Conversa com a minha filha. (Tira a sua carteira, e vai sentar-se à esquerda.)

AMÁLIA, baixo a Duarte — Não se emenda, está visto.

DUARTE — De a adorar? não decerto.

AMÁLIA — Não é disso, é do seu maldito vício que nos deita a perder: meu pai jurou que desfazia o nosso casamento se daqui até à noite o apanhasse numa mentira.

DUARTE — Oh meu Deus, o que fiz eu!

AMÁLIA — Pois que é, Duarte? Tudo quanto tem estado a dizer?...

DUARTE — É verdade no fundo; acredite: agora os detalhes... os pormenores... eu não sei como isto é... não é com má tenção... mas a maior parte das vezes, as coisas contadas tais quais como elas são... ficam de uma sensaboria tal...

AMÁLIA, com ironia — Que não pode resistir ao desejo de as enfeitar, e de mostrar a riqueza da sua imaginação.

DUARTE — Não torno mais. Juro-lhe que nunca mais.

AMÁLIA — Cale-se, que pode ouvir meu pai.

DUARTE — Não me importa, não tenho medo: estou emendado e para sempre. Amália, prometo, hei de ser o modelo dos maridos, leal, sincero, verdadeiro, sempre...

AMÁLIA — Sempre! se o meu pai ouvisse essa palavra, desfazia logo o nosso casamento.

DUARTE — Amália, isso também é de mais!...

BRÁS FERREIRA, chegando com um papel — Não tenho dinheiro que chegue. E eu sem me lembrar! Duarte, hás de me fazer um favor.

DUARTE — Qual? Estou pronto.

BRÁS FERREIRA — Uma letra de três contos de réis para descontar. Duarte — Em bem má ocasião, com a fortuna! não tenho um pinto. Brás Ferreira — Não tens!... e aquele dinheiro? Duarte — Qual dinheiro? Brás Ferreira — O da tua casa.

DUARTE — Da minha casa?... Ah sim, é verdade. É que atualmente... Brás Ferreira — Já dispuseste dele?

DUARTE — Não, não, isto é, de certo modo já; mas propriamente... Amália, baixo a Duarte — Vê o que é mentir.

DUARTE — Em suma, porque lhe não hei de dizer francamente o que é, meu tio?... Eu tinha minhas dívidas...

AMÁLIA — Outra, Duarte?

DUARTE — Não, esta não; é verdade puríssima. Um rapaz não pode viver sem isso. Ora sucedeu, por uma coincidência esquisita, que o comprador da minha casa, o tal senhor José Marques...

BRÁS FERREIRA — Ainda agora disseste Tomás...

DUARTE — Tomás José Marques, um lino agiota de gema...

BRÁS FERREIRA — Tinhas-me dito um negociante...

DUARTE — Negociante, porque negoceia em papéis e descontos por atacado, e faz usura em grosso. Enfim, o meu honradíssimo homem, que já é comendador e sai conselheiro um dia destes, era o que me tinha emprestado o dinheiro. De sorte que na compra da casa, feitas bem as contas...

BRÁS FERREIRA — E tu devias ao comprador?

DUARTE — Uns dez a doze contos de réis.

BRÁS FERREIRA — Então vendeste por trinta e três; tem de te dar ainda de tornas vinte e um contos.

DUARTE, atrapalhado — Vinte contos de réis... É o que lhe eu dizia... (aparte) Como hei de eu sair desta?

BRÁS FERREIRA, olhando para ele — Dar-se-á caso que tu me pregasses uma das tuas?... que tal comprador não exista?...