Falar Verdade a Mentir
Cena Vi
Os já mencionados, menos AMÁLIA
JOSÉ FÉLIX — Então, meu caro senhor! eu venho acabar com isto: fazemos ou não fazemos o negócio da sua casa?
DUARTE, admirado — Da minha casa?
JOSÉ FÉLIX — Da sua casa... ainda assim! da que a vossa senhoria vendeu e eu comprei: não se trata senão de entrar de posse... É verdade: que cabeça a minha! Muitos recados da senhora D. Jacinta Marques, minha mulher, uma criada da vossa senhoria. Já me ia esquecendo. É que eu, em se tratando de negócios, a respeito de tudo o mais recolho o meu espírito.
DUARTE — Ah! então o senhor vem... (a Brás) A mim sempre me sucedem coisas! Esta é a mais extraordinária...
BRÁS FERREIRA — Que lhe achas tu extraordinário? Vendeste a casa...
DUARTE — Está claro... pois isso não é o que me admira. Mas se o tio soubesse!...
JOSÉ FÉLIX — O contrato não está assinado, mas é como se o fosse. Oh! bem entendido: décima e impostos anexos, por este ano ainda lhe pertence a vossa senhoria pagá-los.
DUARTE — Esta agora é melhor! Não me faltava mais nada. Com que eu hei de pagar?... eu! a décima da tal dita casa que... que vendi ao senhor... senhor...
JOSÉ FÉLIX — Tomás José Marques, um criado da vossa senhoria. — Pois, meu senhor, é como se tudo tivesse assinaturas e sinais em público e raso. Eu sou homem de dizer e fazer. E o dinheiro está pronto; quando quiser...
DUARTE, aparte — É uma pulha de entrudo; está visto. Mas deixa, que eu já te apanho. (alto) Então como o dinheiro está pronto, meu caro senhor Tomás José Marques, o dito dito, faz favor de mo entregar...
JOSÉ FÉLIX — Essa é boa! certamente. (Procurando nas algibeiras, donde, por fim, tira a caixa do tabaco.) Assinado o contrato, e certidão tirada do registo das hipotecas...
BRÁS FERREIRA — Tem razão.
JOSÉ FÉLIX — Além disso, o senhor Duarte bem sabe, aquelas continhas velhas... não lhe venho a restar senão...
DUARTE, aparte — Não sei como se pode mentir com aquele desembaraço... José Félix — E já está em poder do tabelião o saldo...
DUARTE — Pois é pena! tinha vontade de ver as cruzes ao seu dinheiro, senhor Marques... E por causa deste senhor meu sogro, mais por outras razões particulares... se me pudesse dar aqui já algum ao menos... (aparte) tinha mais graça a mangação.
JOSÉ FÉLIX — Faço ideia: na sua posição, há de lhe ser preciso realizar... ainda que não seja senão para as suas fianças.
DUARTE — As minhas fianças!
JOSÉ FÉLIX — Então! a recebedoria-geral de Santarém.
BRÁS FERREIRA — O quê? pois ele será verdade?... O que tu me disseste ainda agora de um emprego?...
JOSÉ FÉLIX — O decreto está assinado: não há ninguém que o não saiba... O general Lemos tem uma influência com os ministros... Ainda esta manhã estive com ele. É um belo sujeito o general... e olhe que é seu amigo, senhor Duarte, seu amigo deveras. E então a senhora D. Matilde, a mulher do general? não falemos nisso. É verdade: tenho que ralhar com a vossa senhoria da sua parte. Isso não é bonito; prometeu. deve Cumprir. Aquela música, não se lembra? para aquela modinha, que lhe fez a letra — e que há de ser linda... mas não há música onde caiba.
DUARTE, aparte — Irra! isto já é descoco demais... é já muita caçoada junta. (alto) Oh lá, senhor... sabe que mais?...
JOSÉ FÉLIX — Aos pés da vossa senhoria. senhor recebedor-geral. — Um lugar magnífico! verdadeiramente dos rendosos e pouco trabalhosos! — Com um poucachinho de jeito e de savoir-faire — quaisquer boas relações no tesouro, um amigo seguro nas companhias-monstros... pode-se andar muito caminho em pouco tempo. Hão de gritar — é o costume — hão de gritar: o recebedor-geral para aqui, o recebedor-geral para acolá!... Deixá-los gritar: ri-se a gente, e vai arranjando a sua vida. A minha regra, a minha regra, que é: em ouvindo tolices, recolho o meu espírito. E com isto não enfado mais. Criado e fiel cativo... (Vai-se.)