Falar Verdade a Mentir
Cena Iii
JOAQUINA, AMÁLIA, BRÁS FERREIRA, DUARTE
BRÁS FERREIRA — Agora essa é demais!... Cem mil cruzados de renda!
DUARTE — Pois é tal e qual como lho digo... uma senhora brasileira — marquesa, que é o menos que lá há; a marquesa de Paraguaçu. Engenhos de açúcar a moer, trezentos e seis; pretos... entre pretos, mulatos, cabras e cabritos, é uma conta que mete medo; sem falar em cajus, bananas, farinha-de-pau, papagaios e periquitos, que isso anda a rodo pela casa — pois a mesma em pessoa é que me pediu, a mim.
BRÁS FERREIRA — Uma marquesa deveras!
DUARTE — Marquesa deveras. E eu recusei: escuso de dizer porquê... (olhando para Amália.)
BRÁS FERREIRA — E que caminho levou essa fidalga? Tomara vê-la.
DUARTE — Vê-la, coitada! Apenas lhe dei o fatal desengano, saiu daqui no primeiro navio para Pernambuco, de Pernambuco à Baía, da Baía para Niterói, de Niterói — que desgraça! — passava para o Rio de Janeiro naquele vapor que arrebentou... morreu escaldada a pobre da marquesa.
BRÁS FERREIRA — Que pena!
JOAQUINA, aparte — Que fortuna!
BRÁS FERREIRA — Se ela vivesse, queria saber...
JOAQUINA, aparte — Por isso Deus a levou: ainda bem!
BRÁS FERREIRA — Sempre lhe acontecem coisas a este rapaz!
DUARTE — Ainda isto não é nada. — Mas deixa-me falar com esta querida Amália. Que gosto que eu tenho de a tornar a ver! Mas chegou ontem, e não me manda dizer nada! Se eu tal soubesse, não tinha ido a S. Carlos, onde me sucedeu, contudo, uma aventura, à saída do teatro... Queriam roubar esta prima-dona que chegou há pouco... roubá-la... levá-la a ela numa sege... Acudo eu, duas bengaladas no boleeiro, deito a mão ao cavalo das varas, o da boleia espanta-se, quebra os tirantes, foge... os meliantes fogem também e... Mas que é isso, que tem? Que tristeza é essa? Então não sabe que o seu pai consente enfim em nos unir hoje? hoje mesmo!...
AMÁLIA — É possível!
DUARTE — Sim, deu-me a sua palavra que esta noite, depois de jantar, se assinavam as escrituras; mas com uma condição somente que me não quis dizer qual era. Disse-lha, não disse?
AMÁLIA — Disse, Duarte, disse; e bem medo tenho que já não esteja no seu poder cumpri-la.
BRÁS FERREIRA — Pelo menos há de lhe custar, me parece. Mas quero ser justo, e não hei de condenar sem provas. Por desgraça estou bem persuadido que te não hás de ver aflito por me dares quantas eu queira daqui até à noite.
DUARTE — O que a mim me parece é que no Porto deram em falar por enigmas, porque eu não entendo nada. Mas seja o que for: o que eu entendo bem é o amor que lhe tenho, Amália, a afeição tão verdadeira que me inspirou, e que me persuado merecer-lhe também. Estou tão contente de a ver... Separados há seis meses!
BRÁS FERREIRA — Queira Deus que tu tenhas aproveitado este tempo, que adquirisses amigos, boas relações, protetores. Nas tuas cartas nunca me falavas no general Lemos, o melhor amigo do teu pai. Dar-se-á caso que o não fosses visitar ou que deixasses de frequentar uma casa que?...
DUARTE — Ao contrário, vou lá todos os dias. É a casa mais agradável de Lisboa: uma senhora extremamente amável... O outro dia compus eu uma modinha para ela... uma letra que não ficou feia... hoje tinha ficado de lhe ir levar a música.
JOAQUINA, a Amália — Jesus! que medo que eu tenho! José Félix, que está em casa do general, tinha-mo dito decerto, se fosse verdade.
DUARTE — O meu general, coitado! o meu santo general Lemos tem-me obsequiado e tem-me feito serviços... interessou-se por mim de uma maneira... O caso é que hoje tenho eu à minha disposição, para escolher, três lugares de primeira ordem, recebedor-geral em Évora, Santarém...
BRÁS FERREIRA — Escolho eu: Santarém. E vamos já, já daqui sem demora a casa do general.
DUARTE — Ora! ainda agora chegou, se pode dizer, e há de ir já tratar de negócios! Não senhor, tratemos dos divertimentos primeiro. Quero eu fazer as honras da capital a esta senhora. Há hoje benefício em S. Carlos, toca o Liszt: mandei-lhe tomar uma frisa. Depois vamos ao baile do clube: temos quantos bilhetes quiserem; eu sou diretor.
BRÁS FERREIRA — Tu és diretor, tu!
DUARTE — É verdade: eleito por duzentos votos.
BRÁS FERREIRA — Duzentos votos! pois quantos sócios tem o clube?
DUARTE — Duzentos e um. Não perdi senão um voto; e mais foi cá por certa coisa que eu sei. — É verdade, e como se arranjam neste hotel? É o melhor de Lisboa. Os quartos não são grandes, não... Mas eu moro nos outros de cima, e então... foi egoísmo da minha parte...
BRÁS FERREIRA — A falar a verdade, eu gostava mais do Cais do Sodré.
DUARTE — Ora se eu tal soubesse, mandava arranjar um quarto da minha casa que é mesmo no fim da Rua do Alecrim. Amália — A sua casa!
BRÁS FERREIRA — Pois tu tens uma casa em Lisboa?
DUARTE — E que me não custou cara. Assinei por trezentos contos na Companhia-monstro, vendi, ganhei dez por cento sem desembolsar cinco réis... bagatela! trinta contos de réis: não sabia o que lhe havia de fazer, comprei aquela casa.
BRÁS FERREIRA — Com a breca! é fortuna.
DUARTE — Uma casa linda, nova; saída por três ruas — e tenho quase tudo alugado: — tudo, ainda assim! menos o segundo andar que é o melhor, e para onde podiam ir se eu soubesse. Mas enfim, sempre era um segundo andar.
BRÁS FERREIRA — Que me importa! Os segundos andares em Lisboa é o mais habitável das casas. Vou para lá morar eu para a tal casa.
DUARTE — Que pena que eu tenho! Se tal adivinhasse, não a tinha vendido ontem.
BRÁS FERREIRA — Pois já a vendeste?
DUARTE — É verdade, trinta e três contos: e ainda ganhei... uma bagatela é certo, mas sempre é melhor que perder. E havia seus consertos, suas despesas que fazer.
BRÁS FERREIRA — Consertos numa casa nova?
DUARTE — Eu lhe digo: é que as águas-furtadas tinham sido feitas de empreitada, e bem sabe... Enfim vendi e não fiz mal. Trinta e três contos é mais certo, e não paga impostos e tal...
BRÁS FERREIRA — E o comprador é pessoa segura?
DUARTE — Oh! seguríssima. Um homem de uma fortuna imensa, um negociante retirado, Tomás José Marques... há de conhecer... BRÁS FERREIRA — Não conheço: admira-me.
DUARTE — Tem estado quase sempre no Brasil e cm Inglaterra, veio-se estabelecer aqui agora. Compra tudo quanto aparece em bens de raiz. Esta manhã ficou ele de me trazer aqui o dinheiro. Não me dá trabalho nenhum.
JOAQUINA, aparte — Nem a mim.
AMÁLIA, baixo a Joaquina — Ai, Joaquina, que esta parece-me que é... Joaquina, baixo a Amália — Também a mim.