Falar Verdade a Mentir

Almeida Garrett · Capítulo 16 de 17

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Falar Verdade a Mentir

Cena Xvi

Os já mencionados, DUARTE, AMÁLIA, JOAQUINA

 

DUARTE — Ora com efeito! forte companhia fazem os tais senhores! — O senhor meu sogro levanta-se no meio do almoço, e daí a um instante milord desaparece à segunda garrafa de Champanhe.

JOAQUINA — Vieram procurá-lo.

DUARTE — Não duvido... algum pobre rapaz que se achou em aperto... Que é preciso confessar... o tal sujeito é a criatura mais serviçal... E então sem nenhum interesse! — Diga-me uma coisa, amabilíssimo sogro, que fazemos nós esta manhã?

BRÁS FERREIRA — Eu tinha vontade de sair; mas temos aqui uma visita, um amigo da família...

DUARTE — Perdoe... eu não tinha tido o gosto de ver este senhor... É do Porto? Brás Ferreira — É verdade.

DUARTE — Ia jurá-lo... Nós os das províncias do Norte temos um ar de franqueza, um aberto de fisionomia... se a vossa senhoria se demorar em Lisboa, terei muito gosto de o acompanhar, de lhe servir de guia... Não faça cerimónia comigo... sinceramente lho peço... um amigo do meu sogro!...

General — Dou-lhe os parabéns, senhor Brás Ferreira: o seu genro parece um rapaz extremamente amável.

BRÁS FERREIRA, baixo ao general — Espere, espere, e depois falará. (a Duarte) É preciso que saibas, meu caro amigo, que este senhor vem a Lisboa para negócios que tem na secretaria da guerra, e precisa muito do valimento do general Lemos.

DUARTE — Melhor... Dizem que é um homem justo e imparcial; e toda a gente o estima.

BRÁS FERREIRA — Pois sim... mas tu que tens relações de intimidade com ele, não podias pela tua influência?

DUARTE — Ah! certamente... terei a honra de lho apresentar. Há de gostar dele, verá: um homem agradável e que, sem bazófia, é meu amigo.

BRÁS FERREIRA, rindo — Hem!

General, baixo a Brás Ferreira — Até aqui, acho que diz a verdade.

DUARTE — E alegre!... Olhe: à mesa me não deixava ele só, como aqui me fizeram. Ainda ontem almoçámos nós juntos na sua casa.

BRÁS FERREIRA e General — Em casa dele?!

DUARTE — Sim, juntos, ao pé um do outro.

BRÁS FERREIRA — Então muito mudado está ele de ontem para cá.

DUARTE — Porquê?

BRÁS FERREIRA, apontando para o general — Porque ele aqui está, e tu não o conheceste.

DUARTE, surpreendido — O general Lemos! Joaquina, aparte — Estamos perdidos. Amália — Tudo, tudo está perdido.

DUARTE, tornando a si logo — O quê! Pois este é o senhor general Lemos? Muito sinto... não tenho a honra de o conhecer.

BRÁS FERREIRA — Não duvido... mas nem por isso deixa de ser ele em pessoa.

DUARTE — Há de me perdoar, meu tio: eu não digo o contrário; mas não foi com este senhor que eu almocei ontem... a verdade pura é esta. Como isto foi é que eu não sei; mas a não ser que haja outro general Lemos em Lisboa...

General — Em Lisboa do apelido de Lemos nem eu conheço senão meu primo o coronel Francisco de Lemos.

DUARTE — Exatamente. Pois foi em casa dele, decerto, que ontem me apresentaram, e provavelmente com ele é que eu almocei.

General — Não teria dúvida nenhuma em o acreditar, se não fosse uma pequena dificuldade: e é que há três meses que está em Inglaterra.

DUARTE, aparte — Com a breca! (alto) É que voltaria há pouco, sem se saber... porque ele ontem estava em Lisboa.

BRÁS FERREIRA — Não estava.

DUARTE — Estava tal.

BRÁS FERREIRA — Pois bem, rapaz, esqueço-me de tudo... se me provares essa.