Falar Verdade a Mentir

Almeida Garrett · Capítulo 17 de 17

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Falar Verdade a Mentir

Cena Xvii

Os já mencionados, um criado, JOSÉ FÉLIX (com farda de

brigadeiro), etc.

 

Criado — O senhor Lemos.

JOSÉ FÉLIX, afetando desembaraço — Então que é isto, que é isto?

General — Que vejo! É o meu brejeiro do meu Félix.

JOSÉ FÉLIX — Ora vivam meus senhores... Adeus, meu Duarte.

DUARTE — Oh meu querido protetor! Confesso que desta vez já não contava com o seu auxílio... Ainda bem que veio... Vou apresentá-lo ao meu sogro e ao seu primo.

JOSÉ FÉLIX, indo para eles com ar chibante, reconhece de repente o general — Santo Deus, meu amo!...

General, aparte — E com a minha farda, o maroto!

BRÁS FERREIRA, espantado — Conhecem-se! (Duarte, Brás Ferreira, José Félix e Amália ficam todos imóveis de admiração.)

General — Que painel! Enterraram-se todos até ao joelho. Ora vamos a dar-lhes a mão, que eles por si não se levantam. (para José Félix) Então senhor meu primo...

Todos — Seu primo!

General — Que espanto é esse? Pois queria esconder de mim a sua volta a Lisboa?

DUARTE — O quê? Pois este senhor é seu primo, o coronel Francisco de Lemos que voltou de Inglaterra?

General — Sim senhor. Porquê?... não lhe faz conta?

DUARTE — Certamente que faz. — Mas é que isto hoje parece mesmo um acinte... não invento senão verdades. — Pois não é minha culpa, senhor Brás; mas, em consciência, está obrigado a dar-me sua filha.

General — Não há dúvida, senhor Brás Ferreira; é preciso consentir neste casamento. Já não tem mentiras de que o acusar.

BRÁS FERREIRA — Exceto a da recebedoria de Santarém.

General — Aqui está o decreto. É a prenda de casamento que lhe eu trazia.

AMÁLIA — Pois é possível!

DUARTE — Aposto que é verdade... tudo é verdade hoje. Assim, meu caro sogro, consinta, não há remédio...

BRÁS FERREIRA — Estou certo que me enganaram.

JOSÉ FÉLIX — E eu também.

General — E eu também... Apesar disso, vamos, consinta...

BRÁS FERREIRA — Que lhe hei de eu fazer? Ainda que não seja senão por curiosidade e para saber esta adivinhação.

JOSÉ FÉLIX, atirando com o chapéu — Viva! A palavra do senhor Brás Ferreira é letra que não tem desconto. Eu ritorno al mio mestiere e ponho aos pés da minha cara Joaquina... o senhor Tomás José Marques... milord Coockimbroock, e sobre todos, o seu fiel José Félix, criado particular do excelentíssimo general Lemos.

DUARTE — Ó maroto, pois eras tu?

BRÁS FERREIRA — Faz-te de novas.

DUARTE — Juro-lhe que eu não sabia nada, e que Nem sequer o conheço...

BRÁS FERREIRA — Continuamos?... Não faltava senão esta que é a mais difícil de engolir!

AMÁLIA — E contudo é verdade, meu pai. Eu lhe explicarei como isto foi.

DUARTE — Protesto-lhe que hoje foi o último dia da minha vida que me deixei cair neste maldito vício... E nem eu sei como foi; queria-me defender... vinham umas atrás das outras... por fim... não sei... Mas acabou-se: não torno mais a mentir; custa muito, dá muito trabalho. Vi-me em ânsias! Juro que me hei de emendar... já estou emendado. — José Félix, nunca me hei de esquecer da lição que me deste, e prometo pagar-ta.

JOSÉ FÉLIX — Deveras?

AMÁLIA, dando-lhe uma bolsa — E eu pago-ta já.

JOSÉ FÉLIX — Melhor ainda. (apalpando a bolsa) Isto sim que são verdades puras... e não deixam mentir ninguém.

 

(Cai o pano.)

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