Falar Verdade a Mentir
Cena Vii
DUARTE, BRÁS FERREIRA, JOAQUINA
DUARTE — Com efeito sempre é o maior falador!
BRÁS FERREIRA — Tenho que te pedir perdão, meu Duarte: confesso-te que tinha desconfiado, estava em dúvida...
DUARTE — O quê! pois meu tio?...
BRÁS FERREIRA — Mas acabou-se, com isto acabou-se. Vamos já imediatamente a casa do general, e apresenta-me como teu sogro: quero-lhe agradecer.
JOAQUINA, aparte — Está perdido!
DUARTE, atrapalhado — Hoje é... domingo... hoje está ele da outra banda na sua quinta da Lameda. É um sítio delicioso a Lameda, à borda do Tejo, uma vista, uns ares... Vamos lá, uma, duas vezes na semana: Sempre lhe digo, senhor Brás, que há ali um bilhar em que eu tenho feito as bolas mais espantosas... O outro dia carambolei... eu lhe digo como: a negra estava...
BRÁS FERREIRA — Sim, sim; mas não é hoje que o general há de jogar no tal bilhar, porque ainda agora este Tomás José Marques me disse que tinha estado com ele esta manhã. Assim, como eu não estou para ir só, vamos.
DUARTE — Amanhã, cada vez que quiser; mas hoje é-me impossível.
BRÁS FERREIRA — Então porquê?
DUARTE — Tenho uns amigos à minha espera esta manhã — um pequeno-almoço de rapazes... mas contamos com o meu caro sogro.
BRÁS FERREIRA — Eu não posso: prometi de ir almoçar com o barão da Granja.
DUARTE — Ai está! E eu que tinha mandado fazer um almoço magnífico, um verdadeiro ambigu. Champanhe, já se sabe. Um cerceal da Madeira que bate quantos hocs e johannisbergs tem o Reno; — torta de camarões e ostras, e dois faisões que me chegaram ontem de Inglaterra pelo vapor, coisa preciosa! (Joaquina parece tomar sentido na lista dos pratos.)
BRÁS FERREIRA — Ora vá — pois seja... Mas ainda não são senão dez horas: o teu almoço há de ser como o meu, para o meio-dia: e daqui lá, temos tempo de sobejo para ir a casa do general. Assim, anda, vem... Então que é isso?
DUARTE, aparte — Está teimoso com a tal visita.
JOAQUINA, aparte — O pobre rapaz não sabe com que santo se há de pegar.
BRÁS FERREIRA — Então! que tens tu? Que pasmaceira é essa? Não podes sair de casa por meia hora?
DUARTE — Pois enfim, meu tio, já que não há outro remédio, vou-lhe dizer... já que lhe não posso ocultar o que eu tanto desejava... saiba que não posso sair de casa esta manhã nem um minuto. (baixo) Tenho um desafio, e estou à espera do meu adversário.
BRÁS FERREIRA — Oh meu Deus!
JOAQUINA — Bem no dizia eu: aqui temos outra.
BRÁS FERREIRA — E então aquele almoço que tu me dizias ainda agora?
DUARTE — Lá está... lá está o almoço, posto lá, à espera... Um dos rapazes que aí vem almoçar é que me há de servir de padrinho.
BRÁS FERREIRA — Isso! outra cabeça doida como a tua: tinham de fazê-la bonita... Não senhor, toca-me a mim: eu é que hei de arranjar esse negócio.
DUARTE — Ora, não se meta nisto, deixe cá a gente. Pode comprometê-lo... nós somos rapazes, é outra coisa.
BRÁS FERREIRA — Nada, nada! quero saber como isso é, como isso foi, senão adeus casamento.
DUARTE, aparte — Que diabo de homem! (alto) E o seu almoço em casa do barão da Granja?...
BRÁS FERREIRA — Importa-me cá almoço nem meio almoço! que espere o almoço. Trata-se da tua vida, da tua honra... Tu, filho do meu maior amigo, e agora meu filho, que és quase como se o fosses já! Vamos, fala, conta-me lá como isso foi, quero saber tudo por miúdo.
DUARTE, aparte — É um homem capaz, por fim de contas, o meu sogro. (alto) Ora pois oiça, senhor Brás, e não tome estas coisas em ponto de admiração... é um caso como há tantos, um mal-entendu, uma brincadeira por fim.
BRÁS FERREIRA — Não está má brincadeira! pôr em perigo a sua vida, a de um amigo! Assim é que vocês o entendem...
DUARTE — Primeiro que tudo, é um inglês.
BRÁS FERREIRA — É o mesmo... E para que hás de ir tu logo às do cabo, logo com as mãos à cara?...
DUARTE — Eu não lhe toquei.
BRÁS FERREIRA — Ou com palavras?...
DUARTE — Eu lhe digo como a coisa se passou. Fui ontem jantar fora, a Benfica... uma casa linda à beira da estrada... O dia estava belo, um dia de Verão. Depois de jantar viemos tomar café para um terraço delicioso que fica mesmo rente com a casa... É uma espécie de quiosque... uma lindeza! faça ideia... e pouco elevado do chão. A casa fez-se este ano, ainda lhe não puseram grades no terraço... repare bem nesta circunstância... note...
BRÁS FERREIRA — Noto, noto, e faz-me estremecer. Querem ver que sucedeu alguma?
DUARTE — Oiça. A dona da casa, senhora extremamente amável... e moça ainda... uns olhos pretos!... a dona da casa pergunta-me se quero mais açúcar... Eu tinha a xícara na mão, o café soberbo e a ferver... Eu entretido a olhar para a senhora e a dizer-lhe algumas coisas agradáveis... o tio bem sabe... não reparei na xícara que estava muito cheia a deitar por fora... e eu de sapatos... Sinto escaldar-se-me um pé de repente, dou um pulo à retaguarda, empurro um sujeito que estava por trás de mim... para a borda do terraço... e com a fortuna...
BRÁS FERREIRA e Joaquina — E Jesus!
DUARTE — Perigo nenhum!... cinco ou seis palmos de altura... Mas a desgraça foi que justamente nesse momento passava um oficial inglês da nau... viria de Sintra ou das Laranjeiras, mas vinha a pé... para um inglês é indiferente; e o meu sujeito cai-lhe mesmo em cima dos ombros.
JOAQUINA, rindo — Ah ah ah! Já não posso mais.
BRÁS FERREIRA — Ó Joaquina, pois tu ris-te?...
JOAQUINA, contendo o riso — Oh! senhor, é que eu já não posso... não me pude conter.
DUARTE — O mesmo sucedeu a toda a companhia. O inglês desesperado embirra comigo, teima que eu o fiz de propósito, que lhe atirei com o homem... Eu procuro acomodar a coisa; ofereço-lhe a desforra, dando-lhe até um primeiro andar de partido, isto é, que o atirem a ele do segundo sobre mim... Recusa tudo... não houve remédio senão dar-lhe a minha adresse; ele dá-me a sua... E lord Coockimbroock aí vem logo buscar-me com um par de pistolas.
BRÁS FERREIRA, abanando a cabeça — Confesso-te que a tal história sempre me parece bem extraordinária... Mas não importa, eu não te largo, e quero ser teu padrinho.
DUARTE, aparte — É cabeçudo ou não é? (alto) Mas, senhor Brás, eu faço escrúpulo de lhe pregar uma maçada... E se ele não vier?... Não era a primeira que sucedia. Há por aí sujeitinho que, ã mais pequena coisa, tem logo na boca: “A sua adresse?” Pensam que é para a gente lhe não escapar? Não senhor, é para se escaparem eles.
BRÁS FERREIRA — Pois bem, se ele não vier, iremos nós ter com ele.