Falar Verdade a Mentir

Almeida Garrett · Capítulo 1 de 17

Páginas do PDF

Falar Verdade a Mentir

Cena I

JOAQUINA, JOSÉ FELIX

 

JOAQUINA — Entre, senhor José Félix, entre. Isto são umas madrugadas!... Para uma pessoa como o senhor José Félix, o criado particular de um fidalgo da corte! Lá por fora ainda mal são nove horas...

JOSÉ FÉLIX — Nove horas... e fidalgo da corte!... Recolha o seu espírito, senhora D. Joaquina. O meu amo é general, estamos de acordo; nove horas deram há muito. Mas cá em Lisboa contam-se as horas e os fidalgos por outro modo. Lá na província, minha querida Joaquina...

JOAQUINA — Ai, como tu estás tolo! A província, a província... Ora isto! Saiba que eu venho do Porto, senhor José Félix, que é a segunda capital do reino, e a cidade eterna, como dizem os periódicos. Província será a terra de você, que há de ser a Lourinhã, ou a aldeia de Paio Pires, ou coisa que o valha. E então?...

JOSÉ FÉLIX — Basta, Joaquina, basta; recolhe o teu espírito, que já aqui não está quem falou. Soube ainda agora que tinham chegado ontem à noite no vapor, que estavam aqui nesta hospedaria, que é pegada quase com a nossa casa; e vim logo, minha adorada Joaquina, reclamar o prémio de onze meses de eternas saudades.

JOAQUINA — E você, vamos a saber, você tem sido constante, fiel?... José Félix — Horrivelmente fiel! Maldição, Joaquina, maldição!... Joaquina — Que diz ele?...

JOSÉ FÉLIX — Se tu vens da!... da província não. Não, Joaquina, tu não vens da província, vens da cidade eterna... Virás. Maldição eterna sobre quem o duvidar! Mas vens, vens donde ainda se não sabe a língua das românticas paixões, dos sentimentos copiados do nu da natureza como nós cá a temos na Rua dos Condes, e nos folhetins das folhas públicas, que são o órgão da opinião incomensurável dos séculos.

JOAQUINA — Se te eu entendo...

JOSÉ FÉLIX — Ah! tu não entendes? Bem, Joaquina, bem. Nem eu: nem ninguém. Por isso mesmo, Joaquina. A moda é esta. Deixa: em tu estando aqui oito dias, ficarás mais perfeita do que eu; porque a tua alma de mulher é feita para compreender o meu coração de homem. E então, vês tu? Oh Joaquina, anjo, mulher, sopro, silfo, demónio! eu amo-te! amo-te, porque...

JOAQUINA — Cruzes!

JOSÉ FÉLIX — Não me interrompas, não me interrompas, deixa ir. Silfo, anjo, sopro, mulher! amo-te porque o meu coração está em brasa, e tenho umas veias, e estas veias... têm umas artérias... e estas artérias têm... não têm... as artérias não têm nada; mas batem, batem como os sinos que dobram pelo finado na hora do passamento, que é morrer, morrer, morrer... oh Joaquina, morrer! E que é a morte? É a vida que cai nos abismos estrepitosos da eternidade, que é, que é...

JOAQUINA — Isso é comédia, ou tu estás a brincar comigo?

JOSÉ FÉLIX — Isto é o drama das paixões, que o sentimento, a verdade...

JOAQUINA — Pois olha: tinha uma coisa muito séria que te dizer mas como tu estás doido, adeus!

JOSÉ FÉLIX — A poesia da vida é esta, Joaquina. Mas... mas passemos à vil prosa dos interesses materiais do país, se é preciso. Vá. Far-te-ei mais esse sacrifício. Que exiges tu de mim?

JOAQUINA — Que deixes essas patetices agora e oiças. O meu amo, o senhor Brás Ferreira, que é um ricaço como tu sabes, um daqueles negociantes do Porto que têm dinheiro como milho, vem de propósito a Lisboa para casar a menina. É uma filha única, e morre por mim, coitada! É um anjo! Prometeu-me que no dia que se assinassem as escrituras tinha eu o meu dote.

JOSÉ FÉLIX — Dote! Céus! um dote... Oh Joaquina, pois tu tens um dote?... Não quero saber de quanto. Quem eu! Maldição sobre mim!

JOAQUINA — Cem moedas.

JOSÉ FÉLIX — Oh! seja o que for, que me importa? O amor, o amor verdadeiro não conta os pintos do objeto amado... Não... E é em dinheiro de contado, sonante, Joaquina?

JOAQUINA — Sim senhor.

JOSÉ FÉLIX — Melhor: porque bem vês, com a minha educação, um rapaz que emigrei, estive em Paris, e hoje sou criado particular de um general... habilitado para ser mordomo de um clube dos de primeira ordem — a Galocha já eu recusei — bem vês, não podia formar uma aliança que me não desse os meios de sustentar a posição social em que me acho colocado. Mas tu tens dote; acabou-se. Recolho o meu espírito c estendo a minha mão.

JOAQUINA — Ai, José Félix! mas o casamento da minha ama ainda não está feito.

JOSÉ FÉLIX — Pois que há... que impedimentos?

JOAQUINA — Não sei... quando vínhamos no vapor, pareceu-me, vi que havia transtorno. O pai e a filha tiveram suas coisas a esse respeito. E a menina anda triste, desassossegada. Estou certa que há impedimento grande, há obstáculos...

JOSÉ FÉLIX — Obstáculos! Não há, não os pude haver. A minha paixão, a nossa felicidade, cem moedas sonantes, mil pintos com os diabos! absolutamente não pode deixar de ser, há de se fazer este casamento, Joaquina... A honra, a delicadeza, tudo lhe ordena, senhora Joaquina, que vá já desenganar o papá. E se é preciso que eu tome parte na questão...

JOAQUINA — O caso era saber a gente o que é, e onde a coisa pega... Mas espere; olha, aí vem a senhora D. Amália: deixa-te tu estar e... Mas não vás tu fazer falta em casa ao teu amo.

JOSÉ FÉLIX — Meu amo! Toma. Tu estás muito atrasada, Joaquina. O meu amo é um cavalheiro, um general, uma pessoa da primeira sociedade, portanto costumado a fazer esperar os outros, e a esperar ele pelos seus criados, que é a regra. Além disso, eu tenho licença por todo o dia, que houve lá uma coisa em casa... A senhora chorou, o senhor ralhou. Eu te contarei noutra ocasião, que hás de rir. O caso é que hoje tenho o dia por meu. Ela aí vem, a tua ama. Vem triste, coitada! Firme, Joaquina! Olha que a coisa é séria para ti, um dote e um marido!