Filosofia da Caixa Preta
Prefácio à edição brasileira
PREFÁCIO A EDIÇÃO BRASILEIRA
O presente ensaio é resum o de algum as conferências e aulas que pronunciei sobretudo na França e na Alem anha. A pedido da European Photography, Göttingen, foram reunidas neste pequeno livro publicado em alem ão em 1983. A reação do público (não apenas dos fotógrafos, m as sobretudo do interessado em filosofia) foi dividida, porém intensa. Em consequência à polêm ica criada, escrevi outro ensaio “Ins Universum der technischen Bilder” (Adentrando o universo das im agens técnicas), publicado em 85, onde procuro am pliar e aprofundar as reflexões aqui apresentadas.
Estas partem da hipótese segundo a qual seria possível observar duas revoluções fundam entais na estrutura cultural, tal com o se apresenta, de sua origem até hoj e. A prim eira, que ocorreu aproxim adam ente em m eados do segundo m ilênio a.C., pode ser captada sob o rótulo “invenção da escrita linear” e inaugura a História propriam ente dita; a segunda, que ocorre atualm ente, pode ser captada sob o rótulo “invenção das im agens técnicas” e inaugura um modo de ser ainda dificilm ente definível. A hipótese adm ite que outras revoluções podem ter ocorrido em passado m ais rem oto, m as sugere que elas nos escapam .
Para que se preserve seu caráter hipotético, o ensaio não citará trabalhos precedentes sobre tem as vizinhos, nem conterá bibliografia. Espera assim criar atm osfera de abertura para cam po virgem . Não obstante, incorporará um breve glossário de term os explícitos e im plícitos no argum ento, no intuito de clarear o pensam ento e provocar contra-argum entos. As definições no glossário não se querem teses para defesas, m as hipóteses para debates.
A intenção que m ove este ensaio é contribuir para um diálogo filosófico sobre o aparelho em função do qual vive a atualidade, tom ando por pretexto o tem a fotografia. Subm eto-o, pois, à apreciação do público brasileiro. Faça-o com esperança e com receio. Esperança, porque, ao contrário dos dem ais públicos que m e lêem , sinto saber para quem estou falando; receio, por desconfiar da possibilidade de não encontrar reação crítica. Este prefácio se quer, pois, aceno aos am igos do outro lado do Atlântico e aos críticos da im prensa. Que m e leiam e não m e poupem .
Percebo que editar este ensaio no contexto brasileiro é em presa aventurosa. Quero agradecer aos que nela m ergulharam , sobretudo Maria Lília Leão, por sua coragem e am izade. Que sua iniciativa contribua para o diálogo brasileiro.
V. F.
São Paulo, outubro 85