Filosofia da Caixa Preta

Vilém Flusser · Capítulo 11 de 14

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Filosofia da Caixa Preta

A necessidade de uma filosofia da fotografia

9. A URG ÊNCIA DE UMA FILOSOFIA DA FOTOG RAFIA

 

No decorrer deste ensaio, vieram à tona estes conceitos-chave: imagem, aparelho, programa, informação. Tais conceitos form am as pedras angulares de toda filosofia da fotografia, baseando-se na seguinte definição de fotografia: im agem produzida e distribuída por aparelhos segundo um program a, a fim de inform ar receptores. Todo conceito-chave, por sua vez, im plica conceitos subseqüentes. Imagem im plica m agia. Aparelho im plica autom ação e j ogo. Programa im plica acaso e necessidade. Informação im plica sím bolo. Os conceitos im plícitos perm item am pliar a definição da fotografia da seguinte m aneira: imagem produzida e distribuída automaticamente no decorrer de um jogo programado, que se dá ao acaso que se torna necessidade, cuja informação simbólica, em sua superfície, programa o receptor para um comportamento mágico.

A definição tem curiosa vantagem : exclui o hom em enquanto fator ativo e livre. Portanto, é definição inaceitável. Deve ser contestada, porque a contestação é a m ola propulsora de todo pensar filosófico. De m aneira que a definição proposta pode servir de ponto de partida para a filosofia da fotografia.

Os conceitos imagem, aparelho, programa, informação, considerados m ais de perto, revelam o chão com um do qual brotam . Chão da circularidade. Imagens são superfícies sobre as quais circula o olhar. Aparelhos são brinquedos que funcionam com m ovim entos eternam ente repetidos. Programas são sistem as que recom binam constantem ente os m esm os elem entos. Informação é epiciclo negativam ente entrópico que deverá voltar à entropia da qual surgiu. Quando refletim os sobre os quatro conceitos-chave, estam os no chão do eterno retorno. Abandonam os a reta, onde nada se repete, chão da história, da causa e efeito. Na região do eterno retorno, sobre a qual nos coloca a fotografia, as explicações causais devem calar-se. “Rest, rest, dear spirit” com o dizia Cassirer com referência à causalidade. Categorias não-históricas devem ser aplicadas à filosofia da fotografia, sob pena de não se adequarem ao seu assunto.

No entanto, o abandono do pensam ento causal e linear se dá espontaneam ente, não é preciso deliberá-lo. Pensam os j á pós-historicam ente. Os conceitos-chaves sustentadores da fotografia j á estão espontaneam ente encrustados em nosso pensar. Darei com o único exem plo, a cosm ologia atual.

Reconhecem os no cosm os um sistem a que tende para situações cada vez m ais prováveis. Situações im prováveis surgem ao acaso, de vez em quando. Mas retornarão, necessariam ente, para a tendência rum o à probabilidade. Reform ulando: reconhecem os no cosm os um sistem a que contém um program a inicial, no big bang, que vai se realizando por acaso, autom aticam ente. No curso da realização, surgirão inform ações que vão pouco a pouco, se desinform ando. A cada instante, o universo é situação surgida ao acaso, que levará necessariam ente à m orte “térm ica”, de form a que o universo é aparelho produtor do caos. A nossa própria cosm ologia não passa de im agem desse aparelho. Em conseqüência, tal cosm ovisão deve descartar toda explicação causal e recorrer a explicações form ais, funcionais. Os quatro conceitos-chave da fotografia são tam bém os da cosm ologia.

A estrutura pós-histórica do nosso pensam ento pode ser encontrada em vários outros terrenos: biologia, psicologia, lingüística, inform ática, cibernética, para citar apenas alguns. Em todos, estam os j á, de form a espontânea, pensando informaticamente, programaticamente, aparelhisticamente, imageticamente. Estam os pensando do m odo pelo qual “pensam ” com putadores. Penso que estam os pensando de tal m aneira porque a fotografia é o nosso m odelo, foi ela que nos program ou para pensar assim .

A tese não é m uito nova. Sem pre se supôs que os instrum entos são m odelos de pensam ento. O hom em os inventa, tendo por m odelo seu próprio corpo. Esquece-se depois do m odelo, “aliena-se”, e vai tom ar o instrum ento com o m odelo do m undo, de si próprio e da sociedade. Exem plo clássico dessa alienação é o século XVIII. O hom em inventou as m áquinas, tendo por m odelo seu próprio corpo, depois tom ou as m áquinas com o m odelo do m undo, de si próprio e da sociedade. Mecanicismo. No século XVIII, portanto, um a filosofia da m áquina teria sido a crítica de toda ciência, toda política, toda psicologia, toda arte. Atualm ente, um a filosofia da fotografia deve ser outro tanto. Crítica do funcionalismo.

A coisa não é tão sim ples. A fotografia não é instrum ento, com o a m áquina, m as brinquedo com o as cartas do baralho. No m om ento em que a fotografia passa a ser m odelo de pensam ento, m uda a própria estrutura da existência, do m undo e da sociedade. Não se trata, nesta revolução fundam ental, de se substituir um m odelo pelo outro. Trata-se de saltar de um tipo de m odelo para outro (de paradigm a em paradigm a). Sem circunlocuções: a filosofia da fotografia trata de recolocar o problem a da liberdade em parâm etros inteiram ente novos.

Toda filosofia trata, em últim a análise, do problem a da liberdade. Mas, no decorrer da história, o problem a se colocava da seguinte m aneira: se tudo tem causa, e se tudo é causa de efeitos, se tudo é “determ inado”, onde há espaço para a liberdade? Reduzirem os as m últiplas respostas a um a única: as causas são im penetravelm ente com plexas, e os efeitos, tão im previsíveis, que o hom em , ente lim itado pode agir com o se não estivesse determ inado. Atualm ente, o problem a se coloca de outro m odo: se tudo é produto do acaso cego, e se tudo leva necessariam ente a nada, onde há espaço para a liberdade? Eis com o a filosofia da liberdade deve colocar o problem a da liberdade. Por isto e para isto é necessária.

Reform ulem os o problem a: constata-se em nosso entorno, com o os aparelhos se preparam a program ar, com autom ação estúpida, as nossas vidas; com o o trabalho está sendo assum ido por m áquinas autom áticas, e com o os hom ens vão sendo em purrados rum o ao setor terciário, onde brincam com sím bolos vazios; com o o interesse dos hom ens vai se transferindo do m undo obj etivo para o m undo sim bólico das inform ações: sociedade inform ática program ada; com o o pensam ento, o desej o e o sentim ento vão adquirindo caráter de j ogo em m osaico, caráter robotizado; com o o viver passa a alim entar aparelhos e ser por eles alim entado. O clim a de absurdo se torna palpável. Aonde, pois, o espaço para a liberdade?

Eis que descobrim os, à nossa volta, gente capaz de responder à pergunta: fotógrafos. Gente que j á vive o totalitarism o dos aparelhos em m iniatura; o aparelho fotográfico program a seus gestos, autom aticam ente, trabalhando autom aticam ente em seu lugar; age no “setor terciário”, brincando com sím bolos, com im agens; seu interesse se concentra sobre a inform ação na superfície das im agens, sendo que o obj eto “fotografia” é desprezível; seu pensam ento, desej o e sentim ento tem caráter fotográfico, isto é, de m osaico, caráter robotizado; alim entam aparelhos e são por eles alim entados. Não obstante, os fotógrafos afirm am que tudo isto não é absurdo. Afirm am serem livres, e nisto, são protótipos do novo hom em .

A tarefa da filosofia da fotografia é dirigir a questão da liberdade aos fotógrafos, a fim de captar sua resposta. Consultar sua práxis. Eis o que tentaram fazer os capítulos anteriores. Várias respostas apareceram : 1. o aparelho é infra-hum anam ente estúpido e pode ser enganado; 2. os program as dos aparelhos perm item introdução de elem entos hum anos não-previstos; 3. as inform ações produzidas e distribuídas por aparelhos podem ser desviadas da intenção dos aparelhos e subm etidas a intenções hum anas; 4. os aparelhos são desprezíveis. Tais respostas, e outras possíveis, são redutíveis a um a: liberdade é jogar contra o aparelho. E isto é possível.

No entanto, esta resposta não é dada pelos fotógrafos espontaneam ente. Som ente aparece com o escrutínio filosófico da sua práxis. Os fotógrafos, quando são provocados, dão respostas diferentes. Quem lê os textos escritos por fotógrafos, verifica crerem eles que fazem outra coisa. Crêem fazer obras de arte, ou que se engaj am politicam ente, ou que contribuem para o aum ento do conhecim ento. E quem lê história da fotografia (escrita por fotógrafo ou crítico), verifica que os fotógrafos crêem dispor de um novo instrum ento para continuar agindo historicam ente. Crêem que, ao lado da história da arte, da ciência e da política, há m ais história: a da fotografia. Os fotógrafos são inconscientes da sua práxis. A revolução pós-industrial, tal com o se m anifesta, pela prim eira vez no aparelho fotográfico, passou despercebida pelos fotógrafos e pela m aioria dos críticos de fotografia. Nadam eles na pós-indústria, inconscientem ente.

Há, porém , um a exceção: os fotógrafos assim cham ados experim entais; estes sabem do que se trata. Sabem que os problem as a resolver são os da imagem, do aparelho, do programa e da informação. Tentam , conscientem ente, obrigar o aparelho a produzir im agem inform ativa que não está em seu program a. Sabem que sua práxis é estratégia dirigida contra o aparelho. Mesm o sabendo, contudo, não se dão conta do alcance de sua práxis. Não sabem que estão tentando dar resposta, por sua práxis, ao problem a da liberdade em contexto dom inado por aparelhos, problem a que é, precisam ente, tentar opor-se.

Urge um a filosofia da fotografia para que a práxis fotográfica sej a conscientizada. A conscientização de tal práxis é necessária porque, sem ela, j am ais captarem os as aberturas para a liberdade na vida do funcionário dos aparelhos. Em outros term os: a filosofia da fotografia é necessária porque é reflexão sobre as possibilidades de se viver livrem ente num m undo program ado por aparelhos. Reflexão sobre o significado que o hom em pode dar à vida, onde tudo é acaso estúpido, rum o à m orte absurda. Assim vej o a tarefa da filosofia da fotografia: apontar o cam inho da liberdade. Filosofia urgente por ser ela, talvez, a única revolução ainda possível.

 

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