Filosofia da Caixa Preta

Vilém Flusser · Capítulo 3 de 14

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Filosofia da Caixa Preta

A imagem

1. A IMAG EM

 

Im agens são superfícies que pretendem representar algo. Na m aioria dos casos, algo que se encontra lá fora no espaço e no tem po. As im agens são, portanto, resultado do esforço de se abstrair duas das quatro dim ensões espaciotem porais, para que se conservem apenas as dim ensões do plano. Devem sua origem à capacidade de abstração específica que podem os cham ar de im aginação. No entanto, a im aginação tem dois aspectos: se de um lado, perm ite abstrair duas dim ensões dos fenôm enos, de outro perm ite reconstituir as duas dim ensões abstraídas na im agem . Em outros term os: im aginação é a capacidade de codificar fenôm enos de quatro dim ensões em sím bolos planos e decodificar as m ensagens assim codificadas. Im aginação é a capacidade de fazer e decifrar im agens.

O fator decisivo no decifram ento de im agens é tratar-se de planos. O significado da im agem encontra-se na superfície e pode ser captado por um golpe de vista. No entanto, tal m étodo de decifram ento produzirá apenas o significado superficial da im agem . Quem quiser “aprofundar” o significado e restituir as dim ensões abstraídas, deve perm itir à sua vista vaguear pela superfície da im agem . Tal vaguear pela superfície é cham ado scanning.

O traçado do scanning segue a estrutura da im agem , m as tam bém im pulsos no íntim o do observador. O significado decifrado por este m étodo será, pois, resultado de síntese entre duas “intencionalidades”: a do em issor e a do receptor. Im agens não são conj untos de sím bolos com significados inequívocos, com o o são as cifras: não são “denotativas”. Im agens oferecem aos seus receptores um espaço interpretativo: sím bolos “conotativos”.

Ao vaguear pela superfície, o olhar vai estabelecendo relações tem porais entre os elem entos da im agem : um elem ento é visto após o outro. O vaguear do olhar é circular: tende a voltar para contem plar elem entos j á vistos. Assim , o “antes” se torna “depois”, e o “depois” se torna o “antes”. O tem po proj etado pelo olhar sobre a im agem é o eterno retorno. O olhar diacroniza a sincronicidade imaginística por ciclos.

Ao circular pela superfície, o olhar tende a voltar sem pre para elem entos preferenciais. Tais elem entos passam a ser centrais, portadores preferenciais do significado. Deste m odo, o olhar vai estabelecendo relações significativas. O tem po que circula e estabelece relações significativas é m uito específico: tem po de m agia. Tem po diferente do linear, o qual estabelece relações causais entre eventos. No tem po linear, o nascer do sol é a causa do canto do galo; no circular, o canto do galo dá significado ao nascer do sol, e este dá significado ao canto do galo. Em outros term os: no tem po da m agia, um elem ento explica o outro, e este explica o prim eiro. O significado das im agens é o contexto m ágico das relações reversíveis.

O caráter m ágico das im agens é essencial para a com preensão das suas m ensagens. Im agens são códigos que traduzem eventos em situações, processos em cenas. Não que as im agens eternalizem eventos; elas substituem eventos por cenas. E tal poder m ágico, inerente à estruturação plana da im agem , dom ina a dialética interna da im agem , própria a toda m ediação, e nela se m anifesta de form a incom parável.

Im agens são m ediações entre hom em e m undo. O hom em “existe”, isto é, o m undo não lhe é acessível im ediatam ente. Im agens têm o propósito de representar o m undo. Mas, ao fazê-lo, entrepõem -se entre m undo e hom em . Seu propósito é serem m apas do m undo, m as passam a ser biom bos. O hom em , ao invés de se servir das im agens em função do m undo, passa a viver em função de im agens. Não m ais decifra as cenas da im agem com o significados do m undo, m as o próprio m undo vai sendo vivenciado com o conj unto de cenas. Tal inversão da função das im agens é idolatria. Para o idólatra – o hom em que vive m agicam ente -, a realidade reflete im agens. Podem os observar, hoj e, de que form a se processa a magicização da vida: as im agens técnicas, atualm ente onipresentes, ilustram a inversão da função imaginística e remagicizam a vida.

Trata-se de alienação do hom em em relação a seus próprios instrum entos. O hom em se esquece do m otivo pelo qual im agens são produzidas: servirem de instrum entos para orientá-lo no m undo. Imaginação torna-se alucinação e o hom em passa a ser incapaz de decifrar im agens, de reconstituir as dim ensões abstraídas. No segundo m ilênio A. C., tal alucinação alcançou seu apogeu. Surgiram pessoas em penhadas no “relem bram ento” da função originária das im agens, que passaram a rasgá-las, a fim de abrir a visão para o m undo concreto escondido pelas im agens. O m étodo do rasgam ento consistia em desfiar as superfícies da im agens em linhas e alinhar os elem entos imaginísticos. Eis com o foi inventada a escrita linear. Tratava-se de transcodificar o tem po circular em linear, traduzir cenas em processos. Surgia assim a consciência histórica, consciência dirigida contra as im agens. Fato nitidam ente observável entre os filósofos pré- socráticos e sobretudo entre os profetas j udeus.

A luta da escrita contra a im agem , da consciência histórica contra a consciência m ágica caracteriza a História toda. E terá consequências im previstas. A escrita se funda sobre a nova capacidade de codificar planos em retas e abstrair todas as dim ensões, com exceção de um a: a da conceituação, que perm ite codificar textos e decifrá-los. Isto m ostra que o pensam ento conceitual é m ais abstrato que o pensam ento im aginativo, pois preserva apenas um a das dim ensões do espaço-tem po. Ao inventar a escrita, o hom em se afastou ainda m ais do m undo concreto quando, efetivam ente, pretendia dele se aproxim ar. A escrita surge de um passo para aquém das im agens e não de um passo em direção ao m undo. Os textos não significam o m undo diretam ente, m as através de im agens rasgadas. Os conceitos não significam fenôm enos, significam idéias. Decifrar textos é descobrir as im agens significadas pelos conceitos. A função dos textos é explicar im agens, a dos conceitos é analisar cenas. Em outros term os: a escrita é m eta-código da im agem .

A relação texto-im agem é fundam ental para a com preensão da história do Ocidente. Na Idade Média, assum e a form a de luta entre o cristianism o textual e o paganism o im aginístico; na Idade Moderna, luta entre a ciência textual e as ideologias im aginísticas. A luta, porém , é dialética. À m edida que o cristianism o vai com batendo o paganism o, ele próprio vai absorvendo im agens e se paganizando; à m edida que a ciência vai com batendo ideologias, vai ela própria absorvendo im agens e se ideologizando. Por que isso ocorre? Em bora textos expliquem im agens a fim de rasgá-las, im agens são capazes de ilustrar textos, a fim de rem agicizá-los. Graças a tal dialética, im aginação e conceituação que m utuam ente se negam , vão m utuam ente se reforçando. As im agens se tornam cada vez m ais conceituais e os textos, cada vez m ais im aginativos. Atualm ente o m aior poder conceitual reside em certas im agens, e o m aior poder im aginativo, em determ inados textos da ciência exata. Deste m odo, a hierarquia dos códigos vai se perturbando: em bora os textos sej am m etacódigo de im agens, determ inadas im agens passam a ser m etacódigo de textos.

No entanto, a situação se com plica ainda m ais devido à contradição interna dos textos. São eles m ediações tanto quanto o são as im agens. Seu propósito é m ediar entre hom em e im agens. Ocorre, porém , que os textos podem tapar as im agens que pretendem representar algo para o hom em . Ele passa a ser incapaz de decifrar textos, não conseguindo reconstituir as im agens abstraídas. Passa a viver não m ais para se servir dos textos, m as em função destes.

Surge textolatria, tão alucinatória com o a idolatria. Exem plo im pressionante de textolatria é “fidelidade ao texto”, tanto nas ideologias (cristã, m arxista, etc.), quanto nas ciências exatas. Tais textos passam a ser inim agináveis, com o o é o universo das ciências exatas: não pode e não deve ser im aginado. No entanto, com o são im agens o derradeiro significado dos conceitos, o discurso científico passa a ser com posto de conceitos vazios; o universo da ciência torna-se universo vazio. A textolatria assum iu proporções críticas no percurso do século passado.

A crise dos textos im plica o naufrágio da História toda, que é, estritam ente, processo de recodificação de im agens em conceitos. História é explicação progressiva de im agens, desm agiciação, conceituação. Lá, onde os textos não m ais significam im agens, nada resta a explicar, e a história pára. Em tal m undo, explicações passam a ser supérfluas: m undo absurdo, m undo da atualidade.

Pois é precisam ente em tal m undo que vão sendo inventadas as im agens técnicas. E em prim eiro lugar, as fotografias, a fim de ultrapassar a crise dos textos.