Filosofia da Caixa Preta
Flusser e a liberdade de pensar, ou Flusser e uma certa geração 60 - Maria Lilia Leão
FLUSSER E A LIBERDADE DE PENSAR
ou Flusser e um a certa geração 60.
Nasci em Praga em 1920 e m eus antepassados parecem ter habitado a “Cidade Dourada” por m ais de m il anos. Sou j udeu e a sentença “o ano vindouro em Jerusalém ” acom panhou toda a m inha m ocidade. Fui educado na cultura alem ã e dela participo há vários anos. Em bora m ina passagem por Londres em 1940 tenha sido relativam ente curta, ocorreu em época de vida em que a m ente se form a de m odo definitivo. Engaj ei-m e, durante a m aior parte da m inha vida, na tentativa de sintetizar cultura brasileira, a partir de culturem as ocidentais, levantinos, africanos, indígenas e extrem o-ocidentais (e isso continua a fascinar-m e). Atualm ente m oro em Robion, sul da França, integrando-m e no tecido de aldeia provençal cuj as origens se
perdem na brum a do passado. 1
Este é o Flusser que conheço (e aprendi a conhecer) ao longo de espaços e tem pos os m ais descontínuos. Figura hum ana im pressionante, dessas que causam impressão de matriz em nossos núcleos pessoais. Mesm o não havendo em patia, no prim eiro ou nos encontros subseqüentes, j am ais se fica neutro.
Flusser am a o desafio, o “corpo a corpo” intelectual provocando-o m esm o, quase com o a um gesto iniciático. E que venham as críticas, elogiosas ou não, tanto faz! “Um m arco na cultura alem ã”; “Um desrespeito filosófico, de Platão a Wittgenstein”: as duas críticas diam etralm ente opostas lhe foram dirigidas por ocasião de um sem inário em Ham burgo sobre seu livro Para uma filosofia da
fotografia 2 . Flusser relata a cena com a m elhor das gargalhadas – traço personalíssim o do caráter desse autêntico homo ludens, um Macunaím a j udeu-tcheco-paulistano.
Em sua últim a passagem por São Paulo, a convite da 18ª Bienal para proferir palestras, ouvi-o falar sobre seu tem a atual: texto/im agem . As sentenças, destiladas pelo “rigor da razão-e-da-paixão” (com o Flusser, poucos conseguem am algam ar), eram com o chicotadas, querendo sacudir-nos da letargia a que nos condena um a época ruidosa; querendo incom odar, para que não se tenha a ilusão de não serm os responsáveis e que o pensar e repensar tudo não vale m ais a pena. Mas aquelas sentenças queriam tam bém abraçar, atrair novos e m ais parceiros ao diálogo.
Flusser sem pre faz pensar. E pensar dói. Pois continua o m esm o, esse nosso am igo, escritor, filósofo, engaj ando-se para fazer da reflexão alim ento de prim eira necessidade, gesto corporal do ser, prazer erótico. Não há dúvida que, para ele, o hom em total é o ser pensante.
Participo da desconfiança em analogias que tendem
rapidam ente a se transform arem em m etáforas, isto é, transferências de raciocínio adequado a um dado contexto para contexto inapropriado. No entanto, nada captarem os sem m odelo. De m odo que todo m odelo deve, prim eiro, procurar pescar o problem a, e depois, procurar m odificar-se, ou em certos casos, ser j ogado fora. (...) O dever de gente com o nós, é engaj ar-se contra a ideologização e em favor da dúvida diante do m undo, que, de fato, é com plexo e não sim plificável. Engaj am ento difícil, por certo, m as nem por isto, apolítico. Para nós, Polis é a elite decisória e não a tal
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m assa.
A intenção que m ove este relato, que se quer subj etivo, é possibilitar um testem unho humano – não m ais que isso – da vívida presença entre nós, geralm ente incom preendida, super-sub-estim ada, deste que é, por m uitos, considerado “o genuíno filósofo brasileiro”-, j á que falar de sua obra é tarefa que exigiria plena desenvoltura no percurso de seu controvertido pensam ento.
Se o faço, é certam ente apoiada pelo afeto, m as sobretudo por um tipo de engaj am ento. Publicar Flusser, no Brasil, é questão de honestidade, sim ples reconhecim ento do valor de suas reflexões. Mas falar sobre a pessoa de Flusser é, talvez, querer ir m ais longe, penetrar floresta escura, j á invadindo quem sabe espaço transpessoal.
Aprendi o seguinte: ao nascer fui j ogado em tecido que m e prendeu a pessoas. Não escolhi tal tecido. Ao viver, e sobretudo ao m igrar, teci eu próprio fios que m e prendem a pessoas e fiz em colaboração com tais pessoas. “Criei” am ores e am izades (e ódios e antagonism os); é por tais fios que sou responsável. O patriotism o é nefasto porque assum e e glorifica os fios im postos e m enospreza os fios criados. Por certo: os fios im postos podem ser elaborados para se tornarem criados. Mas o que im porta é isto: não sou responsável por m eus laços fam iliais ou de vizinhança, m as por m eus am igos e pela m ulher que am o.
Quanto aos fios que prendem as pessoas, tenho duas experiências opostas. Todas as pessoas às quais fui ligado em Praga m orreram . Todas. Os j udeus nos cam pos, os tchecos na resistência, os alem ães em Stalingrado. As pessoas às quais fui ligado (e continuo ligado) em São Paulo, em sua m aioria, continuam vivas. Em bora, pois, Praga tenha sido m ais “m isteriosa”
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que São Paulo, o nó górdio cortado foi m acabram ente m ais fácil.
Quando o conhecem os – refiro-m e a um grupo de j ovens universitários dos anos 60, geração que cultivava um j eito de vivenciar intelectualm ente a sua angustia e cuj a ironia não havia ainda descam bado para o deboche-, estávam os
todos subm ersos no grande vazio que é a busca de sentido.5 Flusser, estrangeiro no m undo, apátrida por excelência, assistia a tudo, promovendo tudo. Mas entre o seu engaj am ento na cultura brasileira e o nosso destacar-se do pano de fundo habitual-nativo, um a sutil dialética se estabelecerá.
Nós os m igrantes, som os j anelas através das quais os nativos podem ver o m undo.
Seria ele, para nós, esta j anela?
Mistério m ais profundo que o da pátria geográfica é o que cerca o outro. A pátria do apátrida é o outro.
Seríam os nós, para ele, esta pátria?
Nós, j ovens daquela geração niilista, vivenciávam os a saga de um a época em que, após ter aplaudido o célebre protesto de estudantes na Europa, nada passava m ais a ter significado. Os anos 60, se de um lado traziam m arcas com o a rebeldia dos Beatles, a revelação do sexo, e a partir daí, o culto ao am or livre do m ovim ento hippie e a escalada social do bissexualism o; o fracasso da potência am ericana no Vietnã, onde a inteligência venceu as arm as, num com bate que utilizou cobras, abelhas e bam bus; toda um a poesia desordenada e todo um desencanto às coisas e aos valores estabelecidos, por um lado, deixou farrapos de um derradeiro “rom antism o”: desej o da m ão j ovem querendo reconstruir o m undo e im pedida pelos velhos (com o sem pre foi); o olhar do m undo culto e politizado para o prim eiro m ovim ento de obj etivos definidos na Am érica, ao som do slogan “cubanos si, y ankees no”; a resposta de um a “geração triste” que com eçava a se redim ir pela m úsica e a poesia (“Tropicália” e os “Novíssim os”, apenas para citar alguns).
No cam po da Filosofia, Sartre, Cam us e dem ais existencialistas m arcavam a j uventude intelectual brasileira, em bora a grande m aioria não tivesse acesso a tudo isso. O escritor Jorge Medauar é quem diz: “O Brasil não tem linha filosófica definida porque não tem pensadores”.
Nosso grupo, porém , era privilegiado: freqüentávam os a casa de Flusser. Lá se canalizavam os turbilhões, ventos e brisas do m undo filosófico, em tertúlias que se alongavam por sábados e dom ingos, e quantas vezes não éram os surpreendidos por Guim arães Rosa, Sam son Flexor, Vicente Ferreira da Silva!
Flusser foi se revelando professor, cercado por aqueles m oços e m oças, de m odo dom éstico e peripatético (em bora sem pre sentado em sua cadeira no j ardim -de-inverno, nos fundos daquela casa, no Jardim Am érica) envolto às fum aças de seu cachim bo inseparável. Não há com o apagar os prim eiros passos na filosofia ensinada, transm itida assim ... Paideia construída pelo con-viver, em chão de concretude, por um “m odelo” vivo de existência. Tudo isso plasm ou as nossas m entes, interagindo hoj e na circunstância em que vivem os.
Caso clássico de influência poderosa de patriarca intelectual – não faltará quem o diga. Alguns, não suportando o peso de tam anha in-formação, hoj e o renegam e se refugiam nos cantos m atreiros do inconsciente, om itindo-se ao confronto. Não lem braria Flusser, em certo aspecto, a personalidade de Freud? Com o ele – subversivo, j udeu, em igrado – tam bém não foi aceito pelo establishment acadêm ico, criando afetos, desafetos e um a fieira de pupilos dolorosam ente estigm atizados.
Ao longo dos trinta e um anos em que viveu na circunstancialidade brasileira, Flusser desenvolveu seu m odo de pensar com um vigor e originalidade que cunham um de seus traços inconfundíveis – o que lhe valeu im agem m itificada, e até certo ponto, desconcertante para certos eruditos, que, tantas vezes, com ele se digladiaram .
Com o Nietzsche, Kierkegaard e tantos outros, Flusser não se propôs a construir um sistem a filosófico. Seu pensam ento é um fluir generoso que se vai tecendo fora de velhas ou m odernas m alhas, dentro da urdidura fundante que é a linguagem – “m orada do ser”, com o a nom eia Heidegger. Seu m ergulho nas correntes da Fenom enologia levou-o à Filosofia da Linguagem , seu cam po predileto, ao qual dedicou vários ensaios, livros e cursos. Chegou até a criar um a coluna em j ornal (“Posto Zero” na Folha de São Paulo, de 1969 a 1971), onde fazia um a espécie de análise fenomenológica do cotidiano brasileiro.
Quando escreve, e o faz com o quem respira o ar fresco das m anhãs, Flusser traduz e retraduz o m esm o texto para as línguas que dom ina: alem ão, inglês, português, francês.
Sinto-m e abrigado por, pelo m enos, quatro línguas, e isto se reflete no m eu trabalho, um a das razões pelas quais m e interesso pelos fenôm enos da com unicação hum ana. Reflito sobre os abism os que separam os hom ens e as pontes que atravessam tais abism os, porque flutuo, eu próprio, por cim a deles. De m odo que a transcendência das pátrias é m inha vivência concreta,
m eu trabalho cotidiano e o tem a das reflexões às quais m e dedico. 6
Max Planck, em sua biografia, diz que para haver um a idéia original são necessárias duas condições: que o “criador” estej a livre e que m orra toda um a geração, porque apenas a seguinte poderá com preendê-la. Os contem porâneos estão com prom etidos e escravizados, por isso se assustam com o novo. Eis, num a palavra, o pecado de Flusser: pensar o novo e, para tanto, estar livre. Qualquer pessoa que entra em contato com suas idéias percebe o quão ligadas estão ligadas com o que acontece à sua volta. Não se pode delim itar as bases de seu pensam ento, porque ele está constantem ente correlacionado a fatos, não im porta de que natureza. A aguda capacidade de observar o m undo e captar a atualidade, filtrando a am bos pelos conceitos clássicos e construindo os seus próprios conceitos, tornam Vilém Flusser o pensador para a época “pós-histórica” que atravessam os.
É precisam ente a consonância entre observação dos fatos e sua resultante reflexão que nos dá a sensação do verdadeiro. Mas, para que tal sensação conduza à verdade, o que ainda nos falta?
Aqui transcrevo pergunta feita ao psicanalista Isaías Kirschbaum , que após driblar com m estria: la reponse est la mort de la question... (que analista, afinal, não tem necessariam ente de ser filósofo...) assim respondeu: “Consenso é que dá cunho de verdade”.
Daí, m inha indagação: teria sido o m eio cultural brasileiro – e o paulistano em particular – propício à form ação de um consenso ao pensam ento flusseriano, consenso que, por sua vez, teria de ser o fruto m aduro de exercícios de crítica responsável e consciente por parte da com unidade pensante?
Migrar é situação criativa, m as dolorosa. Toda um a literatura trata da relação entre criatividade e sofrim ento. Quem abandona a pátria (por necessidade ou decisão, e as duas são dificilm ente separáveis), sofre. Porque m il fios o ligam à pátria, e quando estes são am putados, é com o se intervenção cirúrgica tenha sido operada. Quando fui expulso de Praga (ou quando tom ei a decisão coraj osa de fugir), vivenciei o colapso do universo. É que confundi o m eu intim o com o espaço lá fora. Sofri as dores dos fios am putados. Mas depois, na Londres dos prim eiros anos da guerra, e com a prem onição do horror dos cam pos, com ecei a m e dar conta de que tais dores não eram as de operação cirúrgica, m as de parto. Dei-m e conta de que os fios cortados m e tinham alim entado, e que estava sendo proj etado para a liberdade. Fui tom ado pela vertigem da liberdade, a qual se m anifesta pela inversão da pergunta “livre de quê” em “livre para fazer o quê”. E
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assim som os todos os m igrantes: seres tom ados de vertigem .
Sei que Vilém Flusser tem algo a nos dizer. Algo para nos inquietar. Este livro, que ora publicam os, é apenas o com eço. Sej am os livres para ouvi-lo. E exerçam os com liberdade o direito de pensar.
Maria Lilia Leão
Apoio à edição brasileira
Fred Jordan
José Bueno
José Longm an
Maria Lilia Leão
Milton Vargas
Rodolfo Geiser.