Filosofia da Caixa Preta

Vilém Flusser · Capítulo 5 de 14

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Filosofia da Caixa Preta

O aparelho

3. O APARELHO

 

As im agens técnicas são produzidas por aparelhos. Com o prim eira delas foi inventada a fotografia. O aparelho fotográfico pode servir de m odelo para todos os aparelhos característicos da atualidade e do futuro im ediato. Analisá-lo é m étodo eficaz para captar o essencial de todos os aparelhos, desde os gigantescos (com o os adm inistrativos) até os m inúsculos (com o os chips), que se instalam por toda parte. Pode-se perfeitam ente supor que todos os traços aparelhísticos j á estão prefigurados no aparelho fotográfico, aparentem ente tão inócuo e “prim itivo”.

Antes de m ais nada, é preciso haver acordo sobre o significado do aparelho, j á que não há consenso para este term o. Etim ologicam ente, a palavra latina apparatus deriva dos verbos adparare e praeparare. O prim eiro indica prontidão para algo; o segundo, disponibilidade em prol de algo. O prim eiro verbo im plica o estar à espreita para saltar à espera de algo. Esse caráter de anim al feroz prestes a lançar-se, im plícito na raiz do term o, deve ser m antido ao tratar-se de aparelhos.

Obviam ente, a etim ologia não basta para definirm os aparelhos. Deve-se perguntar, antes de m ais nada, por sua posição ontológica. Sem dúvida, trata-se de obj etos produzidos, isto é, obj etos trazidos da natureza para o hom em . O conj unto de obj etos produzidos perfaz a cultura. Aparelhos fazem parte de determ inadas culturas, conferindo a estas certas características. Não há dúvida que o term o aparelho é utilizado, às vezes, para denom inar fenôm enos da natureza, por exem plo, aparelho digestivo, por tratar-se de órgãos com plexos que estão à espreita de alim entos para enfim digeri-los. Sugiro, porém , que se trata de uso m etafórico, transporte de um term o cultural para o dom ínio da natureza. Não fosse a existência de aparelhos em nossa cultura, não poderíam os falar em aparelho digestivo.

Grosso modo, há dois tipos de obj etos culturais: os que são bons para serem consum idos (bens de consum o) e os que são bons para produzirem bens de consum o. (Instrum entos). Todos os obj etos culturais são bons, isto é: são com o devem ser, contêm valores. Obedecem a determ inadas intenções hum anas. Esta, a diferença entre as ciências da natureza e as da cultura: as ciências culturais procuram pela intenção que se esconde nos fenôm enos, por exem plo, no aparelho fotográfico, portanto, segundo tal critério, o aparelho fotográfico parece ser instrum ento. Sua intenção é produzir fotografias. Aqui surge dúvida: fotografias serão bens de consum o com o bananas ou sapatos? O aparelho fotográfico será instrum ento com o o facão produtor de banana, ou a agulha produtora de sapato?

Instrum entos têm a intenção de arrancar obj etos da natureza para aproxim á-los do hom em . Ao fazê-lo, m odificam a form a de tais obj etos. Este produzir e inform ar se cham a “trabalho”. O resultado se cham a “obra”. No caso da banana, a produção é m ais acentuada que a inform ação; no caso do sapato, é a inform ação que prevalece. Facões produzem sem m uito inform arem , agulhas inform am m uito m ais. Serão os aparelhos agulhas exageradas que inform am sem nada produzir, j á que fotografias parecem ser inform ação quase pura?

Instrum entos são prolongações de órgãos do corpo: dentes, dedos, braços, m ãos prolongados. Por serem prolongações, alcançam m ais longe e fundo a natureza, são m ais poderosos e eficientes. Os instrum entos sim ulam o órgão que prolongam : a enxada, o dente; a flecha, o dedo; o m artelo, o punho. São “em píricos”. Graças à revolução industrial, passam a recorrer a teorias científicas no curso da sua sim ulação de órgãos. Passam a ser “técnicos”. Tornam -se, destarte, ainda m ais poderosos, m as tam bém m aiores e m ais caros, produzindo obras m ais baratas e m ais num erosas. Passam a cham ar-se “m áquinas”. Será então, o aparelho fotográfico m áquina por sim ular o olho e recorrer a teorias óticas e quím icas, ao fazê-lo?

Quando os instrum entos viraram m áquinas, sua relação com o hom em se inverteu. Antes da revolução industrial, os instrum entos cercavam os hom ens; depois, as m áquinas eram por eles cercadas. Antes, o hom em era a constante da relação, e o instrum ento era a variável; depois, a m áquina passou a ser relativam ente constante. Antes os instrum entos funcionavam em função do hom em ; depois grande parte da hum anidade passou a funcionar em função das m áquinas. Será isto válido para os aparelhos? Podem os afirm ar que os óculos (tom ados com o proto-aparelhos fotográficos) funcionavam em função do hom em , e hoj e, o fotógrafo, em função do aparelho?

O tam anho e o preço das m áquinas faz com que apenas poucos hom ens as possuam : os capitalistas. A m aioria funciona em função delas: o proletariado. De m aneira que a sociedade se divide em duas classes: os que usam as m áquinas em seu próprio proveito, e os que funcionam em função de tal proveito. Isto vale para aparelhos? O fotógrafo será proletário, e haverá um foto-capitalista?

Em tais perguntas sente-se que, em bora razoáveis, não ferem ainda o problem a do aparelho. Por certo: aparelhos inform am , sim ulam órgãos, recorrem a teorias, são m anipulados por hom ens, e servem a interesses ocultos. Mas não é isto que os caracteriza. As perguntas acim a não são nada interessantes, quando se trata de aparelhos. Provêm , elas todas, do terreno industrial, quando os aparelhos, em bora produtos industriais, j á apontam para além do industrial: são obj etos pós-industriais. Daí perguntas industriais (por exem plo, as m arxistas) não m ais serem com petentes para aparelhos. A nossa dificuldade em defini-los se explica: aparelhos são obj etos do m undo pós-industrial, para o qual ainda não dispom os de categorias adequadas.

A categoria fundam ental do terreno industrial (e tam bém do pré-industrial) é o trabalho. Instrum entos trabalham . Arrancam obj etos da natureza e os inform am . Aparelhos não trabalham . Sua intenção não é a de “m odificar o m undo”. Visam m odificar a vida dos hom ens. De m aneira que os aparelhos não são instrum entos no significado tradicional do term o. O fotógrafo não trabalha e tem pouco sentido cham á-lo de “proletário”. Já que, atualm ente a m aioria dos hom ens está em penhada em aparelhos, não tem sentido falar-se em proletariado. Devem os repensar nossas categorias, se quiserm os analisar nossa cultura.

Em bora fotógrafos não trabalhem , agem . Este tipo de atividade sem pre existiu. O fotógrafo produz sím bolos, m anipula-os e os arm azena. Escritores, pintores, contadores, adm inistradores sem pre fizeram o m esm o. O resultado deste tipo de atividade são m ensagens: livros, quadros, contas, proj etos. Não servem para serem consum idos, m as para inform arem : serem lidos, contem plados, analisados e levados em conta nas decisões futuras. Estas pessoas não são trabalhadores, m as inform adores. Pois atualm ente a atividade de produzir, m anipular e arm azenar sím bolos (atividade que não é trabalho no sentido tradicional) vai sendo exercida por aparelhos. E tal atividade vai dom inando, program ando e controlando todo trabalho no sentido tradicional do term o. A m aioria da sociedade está em penhada nos aparelhos dom inadores, program adores e controladores. Outrora, antes que aparelhos, fossem inventados, a atividade deste tipo se cham ava “terciária”, j á que não dom inava. Atualm ente, ocupa o centro da cena. Querer definir aparelhos é querer elaborar categorias apropriadas à cultura pós-industrial que está surgindo.

Se considerarm os o aparelho fotográfico sob tal prism a, constatarem os que o estar programado é que o caracteriza. As superfícies sim bólicas que produz estão, de algum a form a, inscritas previam ente (“program adas”, “pré-escritas”) por aqueles que o produziram . As fotografias são realizações de algum as das potencialidades inscritas no aparelho. O núm ero de potencialidades é grande, m as lim itado: é a som a de todas as fotografias fotografáveis por este aparelho. A cada fotografia realizada, dim inui o núm ero de potencialidades, aum entando o núm ero de realizações: o program a vai se esgotando e o universo fotográfico vai se realizando. O fotógrafo age em prol do esgotamento do programa e em prol da realização do universo fotográfico. Já que o program a é m uito “rico”, o fotógrafo se esforça por descobrir potencialidades ignoradas. O fotógrafo m anipula o aparelho, o apalpa, olha para dentro e através dele, afim de descobrir sem pre novas potencialidades. Seu interesse está concentrado no aparelho e o m undo lá fora só interessa em função do program a. Não está em penhado em m odificar o m undo, m as em obrigar o aparelho a revelar suas potencialidades. O fotógrafo não trabalha com o aparelho, m as brinca com ele. Sua atividade evoca a do enxadrista: este tam bém procura lance “novo”, a fim de realizar um a das virtualidades ocultas no program a do j ogo. E tal com paração facilita a definição que tentam os form ular.

Aparelho é brinquedo e não instrum ento no sentido tradicional. E o hom em que o m anipula não é trabalhador, m as j ogador: não m ais homo faber, m as homo ludens. E tal hom em não brinca com seu brinquedo, m as contra ele. Procura esgotar-lhe o program a. Por assim dizer: penetra o aparelho a fim de descobrir-lhe as m anhas. De m aneira que o “funcionário” não se encontra cercado de instrum entos (com o o artesão pré-industrial), nem está subm isso à m áquina (com o o proletário industrial), m as encontra-se no interior do aparelho. Trata-se de função nova, na qual o hom em não é constante nem variável, m as está indelevelm ente am algam ado ao aparelho. Em toda função aparelhística, funcionário e aparelho se confundem .

Para funcionar, o aparelho precisa de program a “rico”. Se fosse “pobre”, o funcionário o esgotaria, e isto seria o fim do j ogo. As potencialidades contidas no program a devem exceder à capacidade do funcionário para esgotá-las. A com petência do aparelho deve ser superior à com petência do funcionário. A com petência do aparelho fotográfico deve ser superior em número de fotografias à com petência do fotógrafo que o m anipula. Em outros term os: a com petência do fotógrafo deve ser apenas parte da com petência do aparelho. De m aneira que o program a do aparelho deve ser im penetrável para o fotógrafo, em sua totalidade. Na procura de potencialidades escondidas no program a do aparelho, o fotógrafo nele se perde.

Um sistem a assim tão com plexo é j am ais penetrado totalm ente e pode cham ar-se caixa preta. Não fosse o aparelho fotográfico caixa preta, de nada serviria ao j ogo do fotógrafo: seria j ogo infantil, m onótono. A pretidão da caixa é seu desafio, porque, em bora o fotógrafo se perca em sua barriga preta, consegue, curiosam ente, dom iná-la. O aparelho funciona, efetiva e curiosam ente em função da intenção do fotógrafo. Isto porque o fotógrafo dom ina o input e o output da caixa: sabe com que alim entá-la e com o fazer para que ela cuspa fotografias. Dom ina o aparelho, sem no entanto, saber o que se passa no interior da caixa. Pelo dom ínio do input e do output, o fotógrafo dom ina o aparelho, m as pela ignorância dos processos no interior da caixa, é por ele dom inado. Tal am álgam a de dom inações – funcionário dom inando aparelho que o dom ina – caracteriza todo funcionam ento de aparelhos. Em outras palavras: funcionários dom inam j ogos para os quais não podem ser totalm ente com petentes.

Os program as dos aparelhos são com postos de sím bolos perm utáveis.

Funcionar é permutar símbolos programados. Um exem plo anacrônico pode ilustrar tal j ogo: o escritor pode ser considerado funcionário do aparelho “língua”. Brinca com sím bolos contidos no program a lingüístico, com “palavras”, perm utando-os segundo as regras do program a. Destarte, Vai esgotando as potencialidades do program a lingüístico e enriquecendo o universo lingüístico, a “literatura”. O exem plo é anacrônico porque a língua não é verdadeiro aparelho. Não foi produzida deliberadam ente, nem recorreu a teorias científicas, com o no caso de aparelhos verdadeiros. Mas serve de exem plo ao funcionam ento de aparelhos.

O escritor inform a obj etos durante seu j ogo: coloca letras sobre páginas brancas. Tais letras são sím bolos decifráveis. Aparelhos fazem o m esm o. Há aparelhos, porém , que o fazem “m elhor” que escritores, pois podem inform ar obj etos com sím bolos que não significam fenôm enos, com o no caso das letras, m as que significam m ovim entos dos próprios obj etos. Tais obj etos assim inform ados vão decifrando os sím bolos e passam a m ovim entar-se. Por exem plo: podem executar os m ovim entos de trabalho. Podem , portanto, substituir o trabalho hum ano. Em ancipam o hom em do trabalho, liberando-o para o j ogo.

O aparelho fotográfico ilustra o fato: enquanto obj eto, está program ado para produzir, automaticamente, fotografias. Neste aspecto, é instrum ento inteligente. E o fotógrafo, em ancipado do trabalho, é liberado para brincar com o aparelho. O aspecto instrum ental do aparelho passa a ser desprezível, e o que interessa é apenas o seu aspecto brinquedo. Quem quiser captar a essência do aparelho, deve procurar distinguir o aspecto instrum ental do seu aspecto brinquedo, coisa nem sem pre fácil, porque im plica o problem a da hierarquia de program as, problem a central para a captação do funcionam ento.

Um a distinção deve ser feita: hardware e software. Enquanto objeto duro, o aparelho fotográfico foi program ado para produzir autom aticam ente fotografias; enquanto coisa mole, im palpável, foi program ado para perm itir ao fotógrafo fazer com que fotografias deliberadas sej am produzidas autom aticam ente. São dois program as que se co-im plicam . Por trás destes há outros. O da fábrica de aparelhos fotográficos: aparelho program ado para program ar aparelhos. O do parque industrial: aparelho program ado para program ar indústrias de aparelhos fotográficos e outros. O econôm ico-social: aparelho program ado para program ar o aparelho industrial, com ercial e adm inistrativo. O político-cultural: aparelho program ado para program ar aparelhos econôm icos, culturais, ideológicos e outros. Não pode haver um “últim o” aparelho, nem um “program a de todos os program as”. Isto porque todo program a exige m etaprogram a para ser program ado. A hierarquia dos program as está aberta para cim a.

Isto im plica o seguinte: os program adores de determ inado program a são funcionários de um m etaprogram a, e não program am em função de um a decisão sua, m as em função do m etaprogram a. De m aneira que os aparelhos não podem ter proprietários que os utilizem em função de seus próprios interesses, com o no caso das m áquinas. O aparelho fotográfico funciona em função dos interesses da fábrica, e esta, em função dos interesses do parque industrial. E assim ad infinitum. Perdeu-se o sentido da pergunta: quem é o proprietário dos aparelhos. O decisivo em relação aos aparelhos não é quem os possui, m as quem esgota o seu program a.

 

O aparelho fotográfico é, por certo, obj eto duro feito de plástico e aço. Mas não é isso que o torna brinquedo. Não é a m adeira do tabuleiro e das pedras que torna o xadrez, j ogo. São as virtualidades contidas nas regras: o software. O aspecto duro dos aparelhos não é o que lhes confere valor. Ao com prar um aparelho fotográfico, não pago pelo plástico e aço, m as pelas virtualidades de realizar fotografias. De resto, o aspecto duro dos aparelhos vai se tornando sem pre m ais barato e j á existem aparelhos praticam ente gratuitos. É o aspecto m ole, im palpável e sim bólico o verdadeiro portador de valor no m undo pós-industrial dos aparelhos. Transvalorização de valores; não é o obj eto, m as o sím bolo que vale.

Por conseguinte, não m ais vale a pena possuir obj etos. O poder passou do proprietário para o program ador de sistem as. Quem possui o aparelho não exerce o poder, m as quem o program a e quem realiza o program a. O j ogo com sím bolos passa a ser j ogo do poder. Trata-se, porém , de j ogo hierárquicam ente estruturado. O fotógrafo exerce poder sobre quem vê suas fotografias, program ando os receptores. O aparelho fotográfico exerce poder sobre o fotógrafo. A indústria fotográfica exerce poder sobre o aparelho. E assim ad infinitum. No j ogo sim bólico do poder, este se dilui e se desum aniza. Eis o que sej am “sociedade inform ática” e “im perialism o pós-industrial”.

Tais considerações perm item ensaiar definição do term o aparelho. Trata-se de brinquedo com plexo; tão com plexo que não poderá j am ais ser inteiram ente esclarecido. Seu j ogo consiste na perm utação de sím bolos j á contidos em seu program a. Tal program a se deve a m eta-aparelhos. O resultado do j ogo são outros program as. O j ogo do aparelho im plica agentes hum anos, “funcionários”, salvo em casos de autom ação total de aparelhos. Historicam ente, os prim eiros aparelhos (fotografia e telegrafia) foram produzidos com o sim ulações do pensam ento hum ano, tendo, para tanto, recorrido a teorias científicas. Em sum a: aparelhos são caixas pretas que sim ulam o pensam ento hum ano, graças a teorias científicas, as quais, com o o pensam ento hum ano, perm utam sím bolos contidos em sua “m em ória”, em seu program a. Caixas pretas que brincam de pensar.

O aparelho fotográfico é o prim eiro, o m ais sim ples e o relativam ente m ais transparente de todos os aparelhos. O fotógrafo é o prim eiro “funcionário”, o m ais ingênuo e o m ais viável de ser analisado. No entanto, no aparelho fotográfico e no fotógrafo j á estão, com o germ es, contidas todas as virtualidades do m undo pós-industrial. Sobretudo, torna-se observável na atividade fotográfica, a desvalorização do obj eto e a valorização da inform ação com o sede de poder. Portanto, a análise do gesto de fotografar, este m ovim ento do com plexo “aparelho-fotógrafo”, pode ser exercido para a análise da existência hum ana em situação pós-industrial, aparelhizada.