Filosofia da Caixa Preta

Vilém Flusser · Capítulo 7 de 14

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Filosofia da Caixa Preta

A fotografia

5. A FOTOG RAFIA

 

Fotografias são onipresentes: coladas em álbuns, reproduzidas em j ornais, expostas em vitrines, paredes de escritórios, afixadas contra m uros sob form a de cartazes, im pressas em livros, latas de conservas, cam isetas. Que significam tais fotografias? Segundo as considerações precedentes, significam conceitos program ados, visando program ar m agicam ente o com portam ento de seus receptores. Mas não é o que se vê quando para elas se olha. Vistas ingenuam ente, significam cenas que se im prim iram autom aticam ente sobre superfícies. Mesm o um observador ingênuo adm itiria que as cenas se im prim iram a partir de um determ inado ponto de vista. Mas o argum ento não lhe convém . O fato relevante para ele é que as fotografias abrem ao observador visões do m undo. Toda filosofia da fotografia não passa, para ele, de ginástica m ental para alienados.

No entanto, se o observador ingênuo percorrer o universo fotográfico que o cerca, não poderá deixar de ficar perturbado. Era de se esperar: o universo fotográfico representa o m undo lá fora através deste universo, o m undo. A vantagem é perm itir que se vej am as cenas inacessíveis e preservar as passageiras (o que, afinal de contas, sej a adm itido, j á é um a filosofia da fotografia rudim entar).

Mas será verdade? Se assim for, com o explicar que existam fotografias preto-e-branco e fotografias em cores? Haverá, lá fora no m undo, cenas em preto-e-branco e cenas coloridas? Se não, qual a relação entre o universo das fotografias e o universo lá fora? Inadvertidam ente, o observador ingênuo se encontra m ergulhado em plena filosofia da fotografia, a qual pretendeu evitar.

Não pode haver, no m undo lá fora, cenas em preto-e-branco. Isto porque o preto e o branco são situações “ideais”, situações-lim ite. O branco é presença total de todas as vibrações lum inosas; o preto é a ausência total. O preto e o branco são conceitos que fazem parte de um a determ inada teoria da Ótica. De m aneira que cenas em preto-e-branco não existem . Mas fotografias em preto e branco, estas sim , existem . Elas “im aginam ” determ inados conceitos de determ inada teoria, graças à qual são produzidas autom aticam ente. Aqui, porém , o term o automaticamente não pode m ais satisfazer o observador ingênuo do universo da fotografia. Quanto ao problem a da crítica da fotografia, eis o ponto crítico: ao contrário da pintura, onde se procura decifrar idéias, o crítico de fotografia deve decifrar, além disso, conceitos.

O preto e o branco não existem no m undo, o que é grande pena. Caso existissem , se o m undo lá fora pudesse ser captado em preto-e-branco, tudo passaria a ser logicam ente explicável. Tudo no m undo seria então ou preto ou branco, ou interm ediário entre os dois extrem os. O desagradável é que tal interm ediário não seria em cores, m as cinzento... a cor da teoria. Eis com o a análise lógica do m undo, seguida de síntese, não resulta em sua reconstituição. As fotografias em preto-e-branco o provam , são cinzentas: im agens de teorias (óticas e outras) a respeito do m undo.

A tentativa de im aginar o m undo em preto-e-branco é antiga. Faltavam apenas os aparelhos adequados a tal im aginação. Dois exem plos desse m aniqueísm o pré-fotográfico: 1. Abstraiam -se do universo dos j uízos os verdadeiros e os falsos. Graças a tal abstração, pode ser construída a lógica aristotélica, com sua identidade, diferença e o terceiro excluído. Esta lógica, por sua vez, vai contribuir para a construção da ciência m oderna. Ora, a ciência funciona de fato, em bora não existam j uízos inteiram ente verdadeiros ou inteiram ente falsos, e em bora toda análise lógica de j uízos os reduza a zero;

2. abstraiam -se do universo das ações as boas e as más. Graças a tal abstração, podem ser construídas ideologias (religiosas, políticas, etc.). Essas ideologias, por sua vez, vão contribuir para a construção de sociedades sistem atizadas. Ora, os sistem as funcionam de fato, em bora não existam ações inteiram ente boas ou inteiram ente m ás, e em bora toda ação se reduza, sob análise ideológica, a m ovim entos de fantoche. As fotografias em preto-e-branco são resultados desse tipo de m aniqueísm o m unido de aparelho. Funcionam .

E funcionam da seguinte form a: transcodificam determ inadas teorias (em prim eiro lugar, teorias da Ótica) em im agem . Ao fazê-lo, magicizam tais teorias. Transform am seus conceitos em cenas. As fotografias em preto-e-branco são a m agia do pensam ento teórico, conceitual, e é precisam ente nisto que reside seu fascínio. Revelam a beleza do pensam ento conceitual abstrato. Muitos fotógrafos preferem fotografar em preto-e-branco, porque tais fotografias m ostram o verdadeiro significado dos sím bolos fotográficos: o universo dos conceitos.

As prim eiras fotografias eram , todas, em preto-e-branco, dem onstrando que se originavam de determ inada teoria da Ótica. A partir do progresso da Quím ica, tornou-se possível a produção de fotografias em cores. Aparentem ente, pois, as fotografias com eçaram a abstrair as cores do m undo, para depois as reconstituírem . Na realidade, porém , as cores são tão teóricas quanto o preto e o branco. O verde do bosque fotografado é im agem do conceito “verde”, tal com o foi elaborado por determ inada teoria quím ica. O aparelho foi program ado para transcodificar tal conceito em im agem . Há, por certo ligação indireta entre o verde do bosque fotografado e o verde do bosque lá fora: o conceito científico “verde” se apoia, de algum a form a, sobre o verde percebido. Mas entre os dois verdes se interpõe toda um a série de codificações com plexas. Mais com plexas ainda do que as que se interpõem entre o cinzento do bosque fotografado em preto-e-branco e o verde do bosque lá fora. De m aneira que a fotografia em cores é m ais abstrata que a fotografia em preto-e-branco. Mas as fotografias em cores escondem , para o ignorante em Quím ica, o grau de abstração que lhe deu origem . As brancas e pretas são, pois, m ais “verdadeiras”. E quanto m ais “fiéis” se tornarem as cores das fotografias, m ais estas serão m entirosas, escondendo ainda m elhor a com plexidade teórica que lhes deu origem . (Exem plos: “verde Kodak” contra “verde Fuj i”.)

O que vale para as cores vale, igualm ente, para todos os elem entos da im agem . São, todos eles, conceitos transcodificados que pretendem ser im pressões autom áticas do m undo lá fora. Tal pretensão precisa ser decifrada por quem quiser receber a verdadeira m ensagem das fotografias: conceitos program ados. Destarte, o observador ingênuo se vê obrigado, malgré lui, a m ergulhar no torvelinho das reflexões filosóficas que procurou elim inar, por considerá-las ginástica m ental alienada.

Concordem os quanto ao que pretendem os dizer por deciframento. Que faço ao decifrar um texto em alfabeto latino? Decifro o significado das letras, esses determ inados sons da língua falada? Decifro o significado das palavras com postas de tais letras? Decifro o significado das frases com postas de tais palavras? Ou devo procurar, por trás do significado das frases, outros significados, com o a intenção do autor e o contexto cultural no qual o texto foi codificado? Para decifrar o significado da fotografia do bosque verde, bastaria ter decifrado os conceitos científicos que codificaram a fotografia, ou devo ir m ais longe? Assim colocada, a questão do decifram ento não terá resposta satisfatória, j á que todo nível de decifram ento assentará sobre m ais um a ser decifrado. Mas podem os, no caso da fotografia, evitar este regresso ao infinito. Para decifrar fotografias não preciso m ergulhar até o fundo da intenção codificadora, no fundo da cultura, da qual as fotografias, com o todo sím bolo, são pontas de icebergs. Basta decifrar o processo codificador que se passa durante o gesto fotográfico, no m ovim ento do com plexo “fotógrafo-aparelho”. Se conseguíssem os captar a involução inseparável das intenções codificadoras do fotógrafo e do aparelho, teríam os decifrado, satisfatoriam ente, a fotografia resultante. Tarefa aparentem ente reduzida, m as na realidade gigantesca. Precisam ente por serem tais intenções inseparáveis, e por se articularem de form a específica em toda e qualquer fotografia a ser criticada.

No entanto, o decifram ento de fotografias é possível, porque, em bora inseparáveis, as intenções do fotógrafo e do aparelho podem ser distinguidas.

Esquem aticam ente, a intenção do fotógrafo é esta: 1. codificar, em form a de im agens, os conceitos que tem na m em ória; 2. servir-se do aparelho para tanto; 3. fazer com que tais im agens sirvam de m odelos para outros hom ens; 4. fixar tais im agens para sem pre. Resum indo: A intenção é a de eternizar seus conceitos em form a de im agens acessíveis a outros, a fim de se eternizar nos outros. Esquem aticam ente, a intenção program ada no aparelho é esta: 1. codificar os conceitos inscritos no seu program a, em form a de im agens; 2. servir-se de um fotógrafo, a m enos que estej a program ado para fotografar autom aticam ente; 3. fazer com que tais im agens sirvam de m odelos para hom ens; 4. fazer im agens sem pre m ais aperfeiçoadas. Resum indo: a intenção program ada no aparelho é a de realizar o seu program a, ou sej a, program ar os hom ens para que lhe sirvam de feed-back para o seu contínuo aperfeiçoam ento.

Mas por trás da intenção do aparelho fotográfico há intenções de outros aparelhos. O aparelho fotográfico é produto do aparelho da indústria fotográfica, que é produto do aparelho do parque industrial, que é produto do aparelho sócio-econôm ico e assim por diante. Através de toda essa hierarquia de aparelhos, corre um a única e gigantesca intenção, que se m anifesta no output do aparelho fotográfico: fazer com que os aparelhos program em a sociedade para um com portam ento propício ao constante aperfeiçoam ento dos aparelhos.

Se com pararm os as intenções do fotógrafo e do aparelho, constatarem os pontos de convergência e divergência. Nos pontos convergentes, aparelho e fotógrafo colaboram ; nos divergentes, se com batem . Toda fotografia é resultado de tal colaboração e com bate. Ora, colaboração e com bate se confundem . Determ inada fotografia só é decifrada, quando tiverm os analisado com o a colaboração e o com bate nela se relacionam .

No confronto com determ inada fotografia, eis o que o crítico deve perguntar: até que ponto conseguiu o fotógrafo apropriar-se da intenção do aparelho e subm etê-la à sua própria? Que m étodos utilizou: astúcia, violência, truques? Até que ponto conseguiu o aparelho apropriar-se da intenção do fotógrafo e desviá-la para os propósitos nele program ados? Responder a tais perguntas é ter os critérios para j ulgá-la. As fotografias “m elhores” seriam aquelas que evidenciam a vitória da intenção do fotógrafo sobre o aparelho: a vitória do hom em sobre o aparelho. Forçoso é constatar que, m uito em bora existam tais fotografias, o universo fotográfico dem onstra até que ponto o aparelho j á consegue desviar os propósitos dos fotógrafos para os fins program ados. A função de toda crítica fotográfica seria, precisam ente, revelar o desvio das intenções hum anas em prol dos aparelhos. Não dispom os ainda de um a tal crítica da fotografia, por razões que serão discutidas nos próxim os capítulos.

Confesso que o presente capítulo, em bora se cham e “A fotografia”, não considerou algum as das m ais im portantes características da fotografia. Minha desculpa é que seu propósito era outro: abrir cam inho para o decifram ento de fotografias. Resum o, pois, o que pretendi dizer: fotografias são im agens técnicas que transcodificam conceitos em superfícies. Decifrá-las é descobrir o que os conceitos significam . Isto é com plicado, porque na fotografia se am algam am duas intenções codificadoras: a do fotógrafo e a do aparelho. O fotógrafo visa eternizar-se nos outros por interm édio da fotografia. O aparelho visa program ar a sociedade através das fotografias para um com portam ento que lhe perm ita aperfeiçoar-se. A fotografia é, pois, m ensagem que articula am bas as intenções codificadoras. Enquanto não existir crítica fotográfica que revele essa am bigüidade do código fotográfico, a intenção do aparelho prevalecerá sobre a intenção hum ana.