Filosofia da Caixa Preta
A imagem técnica
2. A IMAG EM TÉCNICA
Trata-se de im agem produzida por aparelhos. Aparelhos são produtos da técnica que, por sua vez, é texto científico aplicado. Im agens técnicas são, portanto, produtos indiretos de textos – o que lhes confere posição histórica e ontológica diferente das im agens tradicionais. Historicam ente, as im agens tradicionais precedem os textos, por m ilhares de anos, e as im agens técnicas sucedem aos textos altam ente evoluídos. Ontologicam ente, a im agem tradicional é abstração de prim eiro grau: abstrai duas dim ensões do fenôm eno concreto; a im agem técnica é abstração de terceiro grau: abstrai um a das dim ensões da im agem tradicional para resultar em textos (abstração de segundo grau); depois, reconstituem a dim ensão abstraída, a fim de resultar novam ente em im agem . Historicam ente, as im agens tradicionais são pré-históricas; as im agens técnicas são pós-históricas. Ontologicam ente, as im agens tradicionais im aginam o m undo; as im agens técnicas im aginam textos que concebem im agens que im aginam o m undo. Essa posição as im agens técnicas é decisiva para o seu decifram ento.
Elas são dificilm ente decifráveis pela razão curiosa de que aparentem ente não necessitam ser decifradas. Aparentem ente, o significado das im agens técnicas se im prim e de form a autom ática sobre suas superfícies, com o se fossem im pressões digitais onde o significado (o dedo) é a causa, e a im agem (o im presso) é o efeito. O m undo representado parece ser a causa das im agens técnicas e elas próprias parecem ser o últim o efeito de com plexa cadeia causal que parte do m undo. O m undo a ser representado reflete raios que vão sendo fixados sobre superfícies sensíveis, graças a processos óticos, quím icos e m ecânicos, assim surgindo a im agem . Aparentem ente, pois, im agem e m undo se encontram no m esm o nível do real: são unidos por cadeia ininterrupta de causa e efeito, de m aneira que a im agem parece não ser sím bolo e não precisar de decifram ento. Quem vê im agem técnica parece ver seu significado, em bora indiretam ente.
O caráter aparentem ente não-sim bólico, obj etivo, das im agens técnicas faz com que seu observador as olhe com o se fossem j anelas e não im agens. O observador confia nas im agens técnicas tanto quanto confia em seus próprios olhos. Quando critica as im agens técnicas (se é que as critica) , não o faz enquanto im agens, m as enquanto visões do m undo. Essa atitude do observador face às im agens técnicas caracteriza a situação atual, onde tais im agens se preparam para elim inar textos. Algo que apresenta consequências altam ente perigosas.
A aparente obj etividade das im agens técnicas é ilusória, pois na realidade são tão sim bólicas quanto o são todas as im agens. Devem ser decifradas por quem desej a captar-lhes o significado. Com efeito, são elas sím bolos extrem am ente abstratos: codificam textos em im agens, são m etacódigos de textos. A im aginação, à qual devem sua origem , é capacidade de codificar textos em im agens. Decifrá-las é reconstituir os textos que tais im agens significam . Quando as im agens técnicas são corretam ente decifradas, surge o m undo conceitual com o sendo o seu universo de significado. O que vem os ao contem plar as im agens técnicas não é “o m undo”, m as determ inados conceitos relativos ao m undo, a despeito da autom aticidade da im pressão do m undo sobre a superfície da im agem .
No caso das im agens tradicionais, é fácil verificar que se trata de sím bolos: há um agente hum ano (pintor, desenhista) que se coloca entre elas e seu significado. Este agente hum ano elabora sím bolos “em sua cabeça”, transfere-os para a m ão m unida de pincel, e de lá, para a superfície da im agem . A codificação se processa “na cabeça” do agente hum ano, e quem se propõe a decifrar a im agem deve saber o que se passou em tal “cabeça”. No caso das im agens técnicas, a situação é m enos evidente. Por certo, há tam bém um fator que se interpõe (entre elas e seu significado): um aparelho e um agente hum ano que o m anipula (fotógrafo, cinegrafista). Mas tal com plexo “aparelho-operador” parece não interrom per o elo entre a im agem e seu significado. Pelo contrário, parece ser canal que liga im agem e significado. Isto porque o com plexo “aparelho-operador” é dem asiadam ente com plicado para que possa ser penetrado: é caixa preta e o que se vê é apenas input e output. Quem vê input e output vê o canal e não o processo codificador que se passa no interior da caixa preta. Toda crítica da im agem técnica deve visar o branqueam ento dessa caixa. Dada a dificuldade de tal tarefa, som os por enquanto analfabetos em relação às im agens técnicas. Não sabem os com o decifrá-las.
Contudo, podem os afirm ar algum as coisas a seu respeito, sobretudo o seguinte: as im agens técnicas, longe de serem j anelas, são imagens, superfícies que transcodificam processos em cenas. Com o toda im agem , é tam bém m ágica e seu observador tende a proj etar essa m agia sobre o m undo. O fascínio m ágico que em ana das im agens técnicas é palpável a todo instante em nosso entorno. Vivem os, cada vez m ais obviam ente, em função de tal magia imaginística: vivenciam os, conhecem os, valorizam os e agim os cada vez m ais em função de tais im agens. Urge analisar que tipo de m agia é essa.
Claro está que a m agia das im agens técnicas não pode ser idêntica à m agia das im agens tradicionais: o fascínio da TV e da tela de cinem a não pode rivalizar com o que em ana das paredes de caverna ou de um túm ulo etrusco. Isto porque TV e cinem a não se colocam ao m esm o nível histórico e ontológico do hom em da caverna ou dos etruscos. A nova m agia não precede, m as sucede à consciência histórica, conceitual, desmagicizante. A nova m agia não visa m odificar o m undo lá fora, com o o faz a pré-história, m as os nossos conceitos em relação ao m undo. É m agia de segunda ordem : feitiço abstrato. Tal diferença pode ser form ulada da seguinte m aneira: A m agia pré-histórica ritualiza determ inados m odelos, m itos. A m agia atual ritualiza outro tipo de m odelo: programas. Mito não é elaborado no interior da transm issão, j á que é elaborado por um “deus”. Program a é m odelo elaborado no interior m esm o da transm issão, por “funcionários”. A nova m agia é ritualização de program as, visando program ar seus receptores para um com portam ento m ágico program ado. Os conceitos “program a” e “funcionário” serão considerados nos capítulos seguintes deste ensaio. Neste ponto do argum ento, trata-se de captar a função da m agia.
A função das im agens técnicas é a de em ancipar a sociedade da necessidade de pensar conceitualm ente. As im agens técnicas devem substituir a consciência histórica por consciência m ágica de segunda ordem . Substituir a capacidade conceitual por capacidade im aginativa de segunda ordem . E é neste sentido que as im agens técnicas tendem a elim inar os textos. Com essa finalidade é que foram inventadas. Os textos foram inventados, no segundo m ilênio A.C., a fim de desmagiciarem as im agens (em bora seus inventores não se tenham dado conta disto). As fotografias foram inventadas, no século XIX, a fim de rem agiciarem os textos (em bora seus inventores não se tenham dado conta disto). A invenção das im agens técnicas é com parável, pois, quanto à sua im portância histórica, à invenção da escrita. Textos foram inventados no m om ento de crise das im agens, a fim de ultrapassar o perigo da idolatria. Im agens técnicas foram inventadas no m om ento de crise dos textos, a fim de ultrapassar o perigo da textolatria. Tal intenção im plícita das im agens técnicas precisa ser explicitada.
A invenção da im prensa e a introdução da escola obrigatória generalizaram a consciência histórica; todos sabiam ler e escrever, passando a viver historicam ente, inclusive cam adas até então suj eitas à vida m ágica: o cam pesinato proletarizou-se. Tal conscientização se deu graças a textos baratos: livros, j ornais, panfletos. Sim ultaneam ente todos os textos se baratearam (inclusive o que está sendo escrito). O pensam ento conceitual barato venceu o pensam ento mágico-imaginístico com dois efeitos inesperados. De um lado, as im agens se protegiam dos textos baratos, refugiando-se em ghettos cham ados “m useus” e “exposições”, deixando de influir na vida cotidiana. De outro lado, surgiam textos herm éticos (sobretudo os científicos), inacessíveis ao pensam ento conceitual barato, a fim de se salvarem da inflação textual galopante. Deste m odo, a cultura ocidental se dividiu em três ram os: a im aginação m arginalizada pela sociedade, o pensam ento conceitual herm ético e o pensam ento conceitual barato. Um a cultura assim dividida não pode sobreviver, a não ser que sej a reunificada. A tarefa das im agens técnicas é estabelecer código geral para reunificar a cultura. Mais exatam ente: o propósito das im agens técnicas era reintroduzir as im agens na vida cotidiana, tornar im agináveis os textos herm éticos, e tornar visível a m agia sublim inar que se escondia nos textos baratos. Ou sej a, as im agens técnicas (e, em prim eiro lugar, a fotografia) deviam constituir denom inador com um entre conhecim ento científico, experiência artística e vivência política de todos os dias. Toda im agem técnica devia ser, sim ultaneam ente, conhecim ento (verdade), vivência (beleza) e m odelo de com portam ento (bondade). Na realidade, porém , a revolução das im agens técnicas tom ou rum o diferente, não tornam visível o conhecim ento científico, m as o falseiam ; não reintroduzem as im agens tradicionais, m as as substituem ; não tornam visível a m agia sublim inar, m as a substituem por outra. Neste sentido, as im agens técnicas passam a ser “falsas”, “feias” e “ruins”, além de não terem sido capazes de reunificar a cultura, m as apenas de fundir a sociedade em m assa am orfa.
Por que isto se deu? Porque as im agens técnicas se estabeleceram em barragens. Os textos científicos desem bocam nas im agens técnicas, deixam de fluir e passam a circular nelas. As im agens tradicionais desem bocam nas técnicas e passam a ser reproduzidas em eterno retorno. E os textos baratos desem bocam nas im agens técnicas para aí se transform arem em m agia program ada. Tudo, atualm ente, tende para as im agens técnicas, são elas a m em ória eterna de todo em penho. Todo ato científico, artístico e político visa eternizar-se em im agem técnica, visa ser fotografado, film ado, videoteipado. Com o a im agem técnica é a m eta de todo ato, este deixa de ser histórico, passando a ser um ritual de m agia. Gesto eternam ente reconstituível segundo o program a. Com efeito, o universo das im agens técnicas vai se estabelecendo com o plenitude dos tem pos. E, apenas se considerada sob tal ângulo apocalíptico, é que a fotografia adquire seus devidos contornos.