Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 3 de 18 · parte 3/5

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Guerra e Paz

Terceira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

A Guarda fizera toda a campanha como se não houvesse saído da parada, muito orgulhosa dos seus brilhantes uniformes e da sua ordem impecável. As etapas tinham sido curtas, com as mochilas em cima das viaturas, e as autoridades austríacas haviam preparado excelentes repastos para os oficiais em cada uma das etapas. Os regimentos entravam nas povoações de banda à frente; durante as tiradas, conforme a ordem do grão-duque, os soldados deviam marchar formados, o que os tornava ainda mais orgulhosos, e os oficiais no seu lugar nas fileiras. Bóris, durante todo o trajecto, estivera sempre ao lado de Berg, já comandante de companhia. Tendo obtido, no decurso da campanha, esse comando, soubera merecer a confiança dos seus superiores e obter vantagens materiais muito apreciáveis, graças à sua pontualidade e à sua exactidão. Quanto a Bóris, esse, durante o mesmo período, travara muitas relações susceptíveis de lhe virem a ser úteis, e, graças à carta de recomendação que Pedro lhe enviara, relacionara-se com André Bolkonski, por cujo intermédio esperava conseguir ser adstrito ao estado-maior do generalíssimo. Berg e Bóris, com os seus uniformes muito cuidados e limpos, descansavam da última etapa na habitação assaz confortável que lhes tinha sido atribuída, sentados em volta de uma mesa redonda, jogando o xadrez. Berg tinha o cachimbo entre os joelhos, e com os cuidados que o distinguiam ia empilhando as pedras do jogo com as suas mãos brancas, aguardando que Bóris jogasse, e observava o parceiro, o qual era evidente só pensar de momento no xadrez, consoante o seu costume de se não preocupar senão com o que estava a fazer,

— Sempre quero ver como é que se vai sair desta! — exclamou ele,

— Faremos o que pudermos — replicou Berg, tocando num peão, para logo o abandonar.

Entretanto a porta abriu-se.

— Ora aí está ele finalmente! — exclamou Rostov — E o Berg também! Eh!, então, meninos, vamos deitar, dormir!— acrescentou, repetindo as palavras que a ama costumava dizer, e que outrora tanto os faziam rir, a Bóris e a ele. Rostov.

— Santos Padres! Como estás mudado!

Bóris levantou-se para receber Rostov, sem se esquecer de conservar no seu lugar os peões que iam a cair. Quis beijar o amigo, mas Nicolau evitou-o. Por uma tendência característica da juventude, que detesta os caminhos trilhados, não quer imitar o que está feito, antes, pelo contrário, gosta de exprimir os seus sentimentos de maneira nova, a seu modo, desde que, pelo menos, não seja como o costumam fazer as pessoas de idade, muitas vezes, aliás, pouco sinceramente. Nicolau queria traduzir num acto especial a sua alegria de tornar a ver o amigo, quanto mais não fosse beliscando-o ou empurrando-o, mas nunca beijando-o, como toda a gente. Bóris, pelo contrário, muito tranquila e afectuosamente, beijou-o e abraçou-o duas ou três vezes seguidas.

Havia quase seis meses que se não viam. Naquela idade, em que se dão os primeiros passos na vida, verificavam um no outro mudanças consideráveis, uma interpretação completamente nova do meio em que ambos haviam sido educados. Tinham ambos mudado muito do seu último encontro para cá e ambos tinham pressa de mostrar um ao outro a que ponto já não eram as mesmas pessoas.

— Ah, seus polidores de calçadas! Vocês estão aí limpinhos e asseados que é uma beleza, como se tivessem voltado agora de um passeio pela cidade. Não são como nós, pobres diabos do exército activo — dizia Rostov, na sua voz de barítono, ainda desconhecida de Bóris, com uma verdadeira desenvoltura militar f— exibindo os calções todos sujos de lama.

A hospedeira, uma alemã, ao ouvir a voz estentórea de Rostov, veio espreitar à porta.

— Rica mulher, hem! — exclamou ele, piscando um olho. — Porque é que gritas tanto? Até lhe metes medo — observou Bóris. — Não te esperava hoje. Só ontem te mandei entregar o meu bilhete por um ajudante-de-campo de Kutuzov, que eu conheço, o Bolkonski. Não sabia que ele to faria chegar ás mãos tão depressa... Então! Que fazes tu? Como vais? Já estiveste na linha de fogo? — perguntou.

Rostov, sem responder, pôs-se a brincar com a cruz de S. Jorge, de soldado, que lhe pendia dos alamares do uniforme, e, mostrando o braço entrapado, fitou Berg, sorridente.

— É como vês! — sublinhou.

— Sim, sim, óptimo! — exclamou Bóris — Também nós, nós também fizemos uma bela campanha. Sabes? Sua Alteza acompanhou sempre, o nosso regimento; por isso tivemos todas as facilidades e gozámos de todas as regalas. Na Polónia, houve recepções, jantares, bailes! Não se pode descrever! E o Tsarevitch foi óptimo para todos os oficiais.

E ambos se puseram à compita a contar histórias narrando um as suas partidas de hússar e a sua vida de campanha, o outro a sua existência cheia de distracções e de bem-estar, sob as ordens de personagens altamente cotadas.

— Oh!, a Guarda! — exclamou Rostov. — Mas ouve lá, e se tu mandasses vir uma garrafa?

Bóris franziu as sobrancelhas.

— Se fazes questão disso... — retorquiu,

Encaminhou-se para a cama onde dormia, tirou debaixo das almofadas muito limpas a bolsa do dinheiro e mandou que fossem comprar vinho.

— A propósito, vou dar-te as cartas e o dinheiro — acrescentou ele.

Rostov pegou nas cartas e, pousando o dinheiro em cima do divã, encostou-se à mesa e pôs-se a ler. Passou a vista por algumas linhas, depois olhou para Berg com irritação. Sentindo-lhe os olhos fitos nele, escondeu a cara com a folha de papel.

— Assim mesmo mandaram-lhe uma boa maquia — disse Berg, observando o volumoso saco enterrado no divã. — Ah!, a nós não nos pesa muito o pré. Por mim, posso dizer-lhe...

— Ouça cá, meu caro Berg — disse Rostov —, se eu o visse receber uma carta da família ou encontrar um amigo a quem quisesse perguntar qualquer coisa, trataria logo de me ir embora para o não incomodar. Pois então, vá-se embora, peço-lhe, vá para qualquer parte, para qualquer parte.., para o diabo!...

Tinha engrossado a voz; e pegando-lhe por debaixo do braço, com um olhar amável, para suavizar a dureza das palavras, acrescentou:

— Sabe? Não se zangue, meu caro, meu bom amigo, é francamente que lhe falo, como a um velho camarada.

— Quê? Claro, compreendo muito bem, conde — balbuciou Berg, na sua voz de ventríloquo, erguendo-se.

— Vá até junto dos donos da casa, eles convidaram-no — acrescentou Bóris.

Berg enfiou o seu redingote muito asseado, sem a mais pequena nódoa nem qualquer grão de poeira, repuxou, diante do espelho, o cabelo na testa, à maneira de Alexandre Pavlovitch, e persuadido, graças ao olhar que Rostov lhe lançava, que o seu redingote estava a ter êxito, saiu, esboçando um amável sorriso.

— Ah! Que animal que eu sou! — exclamou Rostov, lendo a carta.

— Porquê?

— Ah! Que animal que eu fui em não lhes ter escrito urna vez que tosse antes de lhes ter pregado este susto! Ah! Que animal! — repetiu corando muito. — Então, sempre mandaste o Gravila buscar uma garrafa? Mandaste? Tanto melhor!

Dentro da carta dos pais vinha outra, uma carta de recomendação para o príncipe Bagration, carta que a velha condessa, a conselho de Ana Mikailovna, conseguira, através de umas pessoas conhecidas, e que enviava ao filho para que ele a entregasse ao destinatário e tirasse dela o melhor partido.

— Que tolice! Como se eu Precisasse disto! — murmurou Rostov, atirando com a carta para cima da mesa.

— Porque é que a deitas fora? — inquiriu Bóris.

— É uma espécie de carta de recomendação. Diabos me levem se eu tenho necessidade disso!

— Quê, não tens precisão disso? — interrompeu Bóris, apanhando a carta e lendo o sobrescrito. — Esta carta pode ser-te muito útil.

— A mim? De modo nenhum! Não sou eu quem irá procurar seja quem for na esperança de ser ajudante-de-campo.

— Porque não? — perguntou Bóris.

— São funções de lacaio.

— Continuas a ser o mesmo idealista, pelo que vejo — observou o amigo, abanando a cabeça.

— E tu, sempre o mesmo diplomata. Mas não é disso que se trata... E tu, que fazes? — perguntou Rostov.

— O que vês. Até agora tudo tem corrido bem; mas tenho de confessar-te que não desejava outra coisa senão ser ajudante-de-campo; preferia isso a ficar nas fileiras.

— Porquê?

— Porque, desde o momento em que uma pessoa escolhe a carreira militar, deve esforçar-se por torná-la o mais brilhante possível.

— Ah!, realmente! — exclamou Rostov, pensando claramente noutra coisa.

Olhava o amigo fixamente, e bem nos olhos, como se lhe estivesse a pedir debalde a solução de um problema.

O velho Gravila apareceu com o vinho.

— E se nós mandássemos vir o Afonso Karlitch? — interveio Bóris. — Fazia-te companhia a beber; cá por mim, não posso.

— Isso mesmo, isso mesmo! Mas quem diabo é esse alemão? — perguntou Rostov, sorrindo desdenhosamente.

— É um rico tipo, bom e honesto!

Rostov fitou mais uma vez Bóris nos olhos e suspirou. Berg voltou a aparecer, e em volta da garrafa tomou-se mais afectuosa a conversa dos três amigos. Os oficiais da Guarda contavam a Rostov as campanhas que tinham feito, as recepções que lhes tinham oferecido ria Rússia, na Polónia e no estrangeiro, o que tinha dito e feito o seu grande chefe, o grão-duque, e repetiam anedotas reveladoras da sua bondade e do seu entusiasmo. Berg, como de costume, calava-se quando não se tratava pessoalmente do seu caso, mas, a propósito do que se dizia dos acessos de cólera do grão-duque, contou, com visível prazer, ter-lhe acontecido encontrar-se ele na Galícia no momento em que o grão-duque passava revista aos regimentos e se zangara por causa da irregularidade dos movimentos de tropas. E referia, sorrindo amavelmente, como o grão-duque, muito zangado, se aproximara dele gritando: «Arnaútas!» — a expressão favorita do Tsarevitch quando estava furioso — e mandara chamar o comandante da companhia.

— Pode crer, conde, não tive medo algum, sabia perfeitamente que tinha razão. Sabe, conde, eu, sem me vangloriar, sei de cor as ordens do dia do regimento e conheço os regulamentos tão bem como o padre-nosso. E era por isso, conde, que não havia qualquer irregularidade na minha companhia. Tinha a consciência tranquila. Apresento-me. — Nesta altura Berg levantou-se e mimou a cara que tinha nesse momento, com a mão na pala da barretina. De facto, não era fácil exibir uma atitude mais deferente e mais satisfeita. — E põe-se ele então a insultar-me, a dizer-me as últimas. Foi um nunca acabar de injúrias e de «arnaútas» e de «diabos» e de «a Sibéria!». — Nesta altura teve um fino sorriso. — Eu sabia perfeitamente que tinha razão, por isso me calava. Compreende, não é verdade, conde? No dia seguinte não havia nada na ordem do dia, é a isto que se chama não perder a cabeça. Não é verdade, conde? — concluiu, soltando baforadas de fumo do cachimbo.

— Sim, não há dúvida — observou Rostov, sorrindo.

Mas Bóris, percebendo que Rostov se preparava para chasquear de Berg, desviou habilmente a conversa. Perguntou a Rostov onde e quando fora ferido. Eis o que lhe não desagradou, e principiou a sua história, entusiasmando-se a pouco e pouco. Contou a aventura de Schöngraben, tal qual como o costumam fazer os comparsas de urna batalha, isto é, da maneira que mais lhes agradaria que se tivessem passado as coisas, consoante as ouviram contar por outros, numa palavra, fazendo um relato muito bem composto, mas de maneira alguma de acordo com a realidade. Rostov era um rapaz muito franco, e por nada desta vida seria capaz de desnaturar conscientemente a verdade. Principiou com a intenção de contar tudo tal qual se tinha passado, mas, sem dar por isso, involuntária e fatalmente, alterou a verdade em seu proveito. Se ele se tivesse limitado a referir simplesmente a verdade aos seus ouvintes, os quais, mais do que uma vez — e esse era o seu caso — tinham ouvido contar as peripécias de um ataque, e disso tinham uma, ideia muito nítida, e esperavam, precisamente, da parte dele urna história à imagem e semelhança do que eles próprios pensavam, ninguém o teria acreditado, ou então, o que seria mais grave, teriam pensado ser culpa dele as coisas consigo não se terem passado como geralmente acontecia nos ataques de cavalaria. Era-lhe impossível dizer, simplesmente, terem-se posto a galopar, que caíra do cavalo, que recompusera o braço e que se pusera a correr para a floresta, a fim de escapar aos Franceses. Além disso, para contar as coisas tal qual, seria necessário um grande esforço sobre si próprio para não acrescentar fosse o que fosse. É muito difícil narrar uma história verídica e os rapazes raramente o conseguem. Esperavam ouvi-lo contar que, ardente de entusiasmo, sem saber o que fazia, se precipitara como um tufão sobre o quadrado, que o perfurara, espadeirada para a direita e para a esquerda, que a espada arrancava carne aos pedaços e que, por fim, acabara por cair esgotado e ainda muitas outras coisas do mesmo quilate. E, com efeito, foi uma descrição nesse género que ele lhes fez.

Em plena história, quando dizia: «Não podes calcular o furor estranho que se apossa de nós durante o ataque», entrou na sala o príncipe André Bolkonski, que Bóris aguardava. O príncipe André, protector do jovem, sentia-se lisonjeado quando lhe procuravam o apoio e, simpatizando com Bóris, que soubera agradar-lhe na véspera, estava desejoso de lhe ser prestável. Encarregado por Kutuzov de levar uns documentos ao Tsarevitch, passara por casa de Bóris na esperança de o encontrar só. Ao ver. à, entrada na sala, um hússar do exército contando aventuras de guerra — aí estava um género de pessoas que ele detestava —, dirigiu um amável sorriso a Bóris, franziu as sobrancelhas, piscando o olho na intenção de Rostov, e, com um ligeiro cumprimento, sentou-se no divã, indolente e fatigado. Nada lhe era tão desagradável como cair no meio de uma sociedade que detestava. Rostov, adivinhando-lhe os pensamentos, corou; mas a verdade é que, no fim de contas, pouco se lhe dava: aquele homem nada tinha de comum com ele. Entretanto, tendo reparado em Bóris, leu-lhe no rosto que também parecia envergonhado da presença daquele hússar. Conquanto o príncipe André lhe tivesse mostrado uma atitude desagradável e irónica, e apesar do profundo desdém que lhe inspiravam todos os ajudantes-de-campo do estado-maior, a cuja categoria, naturalmente, o recém-chegado devia pertencer. Rostov, no fundo, sentiu-se confuso, não pôde deixar de corar e acabou por se calar. Bóris perguntou se havia notícias do estado-maior e se, sem indiscrição, se falava de disposições futuras.

— Naturalmente continuarão a avançar — replicou Bolkonski, que parecia sem grande vontade de falar diante de desconhecidos.

Bóris aproveitou a oportunidade para perguntar, com a sua habitual polidez, se a ração de forragem dos comandantes companhia não seria duplicada, como constava. O príncipe An respondeu, sorrindo, não estar nas suas mãos resolver problemas administrativos de tal magnitude e Berg pôs-se a rir.

— Falaremos depois do seu problema — disse André a Bóris, lançando um olhar para o lado de Rostov. — Venha visitar-me depois da revista, faremos o que for possível.

Deixou errar a vista pela sala em que se encontrava e sem parecer notar o ar de confusão pueril em que caíra Rostov, o qual, pouco a pouco, se ia transformando em verdadeira cólera, disse-lhes:

— Creio que estava a falar do recontro de Schöngraben? — Esteve lá?

— Estive — respondeu Rostov, com uma certa exasperação, num tom que procurava ferir o ajudante-de-campo.

Bolkonski percebeu o estado de espírito em que o hússar se encontrava e isso divertiu-o muito. Sorriu com um ar ligeiramente desdenhoso.

— Sim, são muitas as histórias que se contam agora desse recontro!

— É verdade — volveu Rostov, numa voz forte, lançando a Bóris e Bolkonski olhares subitamente furiosos. — É verdade, contam-se histórias de toda a espécie, mas as que nós contamos, nós, são histórias de quem esteve sob o fogo do inimigo: as nossas histórias têm sumo, não as desses meninos do estado-maior, condecorados sem nada terem feito.

— E a cujo número supõe que eu pertenço — retrucou o príncipe André, o mais tranquilamente deste mundo, e com um sorriso amável.

Rostov experimentou um curioso misto de mau humor e consideração perante a serenidade daquele homem,

— Não me refiro ao senhor — respondeu ele. — Não o conheço e confesso-lhe que o não quero conhecer. Falo de maneira geral dos oficiais do estado-maior...

— Pois eu, aqui tem o que me permito dizer-lhe — interrompeu André, num tom de tranquila autoridade. — Vejo que tem a intenção de me ofender, e não me custa dizer-lhe que é tudo quanto há de mais fácil desde que não tem respeito por si próprio; mas espero que reconheça que escolhe mal a ocasião e o lugar para semelhantes insinuações. Não tarda que todos nós estejamos envolvidos num duelo muito mais importante e muito mais sério, e além disso Drubetskoi, que diz ser seu velho amigo, não é culpado de a minha cara ter a pouca sorte de lhe ser desagradável. Aliás — acrescentou, levantando-se — o senhor não desconhece o meu nome e onde me pode encontrar, mas não se esqueça de que eu me não considero de modo algum ofendido, estou tão pouco ofendido como o senhor. O meu conselho de pessoa mais velha é que o melhor é não pensar mais nisto. Portanto, sexta-feira, depois da parada, espero por si. Drubetskoi. Até à vista! — rematou em alta voz, e saudando-os a ambos saiu.

Rostov não se lembrou de retorquir senão quando ele já tinha desaparecido e tanto mais furioso se sentiu quanto era certo não ter respondido. Ordenou logo que lhe trouxessem o cavalo, e, depois de se ter despedido secamente de Bóris, voltou para casa. Que fazer? Ir no dia seguinte ao quartel-general desafiar para um duelo o petulante ajudante-de-campo ou não pensar mais no caso? Eis o problema que o atormentou durante todo o percurso. Ora se dizia a si próprio, iracundo, que seria grande o prazer que teria em ver a cara assustada desse homenzinho débil e vaidoso diante da sua pistola carregada, ora tinha a surpresa de verificar que entre todos os seus conhecidos a nenhum desejaria tanto tornar a ver como àquele ajudantezinho-de-campo a quem tão profundamente ficara a odiar.

 

[VIII]

No dia seguinte ao da entrevista de Bóris e de Rostov foi a revista das tropas austríacas e russas, tanto das forças frescas acabadas de chegar da Rússia como das que vinham do campo de batalha com Kutuzov. Os dois imperadores, o da Rússia, com o príncipe herdeiro, e o da Áustria, com o arquiduque, passavam revista a um exército aliado de oitenta mil homens.

Desde a aurora que as tropas, de grande uniforme e escrupulosamente engraxadas, se haviam posto em marcha para formar na esplanada diante da fortaleza. Primeiro viram-se mover milhares de pés e de baionetas, bandeiras desfraldadas, que, à voz dos oficiais, faziam alto, se moviam e formavam com intervalos regulares, ultrapassando outras massas de soldados de infantaria com uniformes diferentes. Em seguida, ao passo cadenciado dos cavalos e ao retinir dos sabres, apareceu a cavalaria em trajo de parada, com uniformes bordados, azuis, vermelhos e verdes, a banda militar à frente, montada em murzelos, alazões e cinzentos. Entre a infantaria e a cavalaria vinha a artilharia, com longas colunas de canhões bem polidos e reluzentes, que estremeciam sobre as rodas, num trepidar metálico, de mechas acesas, dirigindo-se para os locais designados. Os generais, de grande uniforme, corpulentos e muito cingidos, para darem a impressão de mais magros, a nuca apertada nas golas, com as bandas e todas as condecorações; os oficiais, rebrilhantes e janotas; os soldados, de cara barbeada e lavada, com o seu correame a brilhar; os cavalos, bem arreados e nédios, brilhavam como cetim, as crinas alisadas pêlo a pêlo, tudo, numa palavra, dizia ir passar-se um acontecimento importante e solene, que nada tinha de brincadeira. Generais e soldados sentiam não serem nada, não passarem de grãos de areia de um oceano humano, bem conscientes da sua força enquanto elementos daquele todo imenso.

Desde que luzira o dia que a azáfama principiara e às dez horas tudo estava a postos. Sobre a enorme esplanada formavam as colunas. Todo o exército formava três corpos. A frente a cavalaria, depois a artilharia e por último a infantaria.

Entre cada coluna de tropas abria-se uma clareira. Os três corpos do exército estavam nitidamente separados; primeiro, as tropas de campanha de Kutuzov, entre as quais, no flanco direito e no primeiro plano, o regimento de Pavlogrado; depois os regi— mentos das tropas de linha e a Guarda que chegara da Rússia, por fim o exército austríaco. Mas todos estavam sob o mesmo comando e sob uma única disciplina.

Como vento na folhagem perpassou um murmúrio. «Lá vêm eles! Lá vêm eles!», disseram vozes ansiosas, e, como uma vaga, um fervilhar de preparativos supremos percorreu as tropas.

Vindo dos lados de Olmütz surgiu um grup9 em movimento. No mesmo instante, conquanto não houvesse vento, um sopro ligeiro percorreu o exército, as flâmulas das lanças ondularam e os estandartes estremeceram nas hastes. Dir-se-ia o exército inteiro a dar a entender neste frémito a alegria que sentia com a chegada dos imperadores. Uma voz ressoou: «Sentido!» Em seguida, como os galos ao nascer do Sol, vozes diversas, aqui e ali, foram repetindo a mesma voz. E tudo voltou a serenar.

Naquele silêncio de morte só se ouviam as patas dos cavalos. Era a comitiva dos imperadores que se aproximava das tropas.

Os clarins do primeiro regimento de cavalaria entoaram uma marcha. Dir-se-ia não serem os clarins que tocavam, mas o próprio exército, para festejar a aproximação dos soberanos, que soltava espontaneamente a sua voz. E em seguida, distintamente, ouviu-se a voz jovem e simpática do imperador Alexandre, que gritava a sua saudação às tropas. E o primeiro regimento soltou um «Hurra!», um «hurra» tão ensurdecedor, tão alegre e prolongado que os próprios homens pareceram assustados com o número e o poder que representavam.

Rostov estava na primeira linha do corpo do exército de Kutuzov, para onde se dirigia o imperador. Também ele sentia o que todos os demais soldados sentiam: olvido de si próprio, orgulho de um tal poder, entusiasmo apaixonado por aquele que era o objecto de tamanho triunfo:

«Uma só palavra daquele homem», pensava, «e aquela massa inteira, de que ele não era mais que uma ínfima partícula, lançar-se-ia ao fogo ou à água, precipitar-se— ia no crime ou na morte, praticaria os mais heróicos actos.» E por isso não podia dominar um estremecimento íntimo, um quase desfalecimento, à aproximação daquela voz potente.

«Hurra! Hurra! Hurra!», rebentava de todos os lados; e os regimentos, uns após outros, recebiam o imperador, ao som da marcha militar, e depois vinham os «hurras!», e em seguida outra vez a marcha, e ainda de novo os «hurras!», alternadamente, de tal modo que o todo, constantemente ampliado, se fundia num trovão ensurdecedor.

Antes da aproximação do imperador cada regimento, silencioso e imóvel, parecia um corpo sem vida; mas assim que ele se aproximava, o regimento animava-se, de súbito, e juntava os seus gritos aos das fileiras que o soberano acabava de percorrer. No meio deste clamor tremendo e ensurdecedor, desta massa de soldados imóveis, como que petrificados nas suas formações, iam evolucionando as centenas de cavaleiros da comitiva, negligentemente, simetricamente, em perfeito à-vontade; na vanguarda, a cavalo, os dois imperadores. E era neles que se concentrava a atenção apaixonada e pretensa de toda aquela mole.

O jovem e belo imperador Alexandre, no seu uniforme da Guarda montada, o tricórnio ligeiramente pendido sobre a orelha, atraía todos os olhares, graças ao seu ar amável e à sua voz sonora, mas não muito forte.

Rostov, na vizinhança dos clarins, de longe, com os seus penetrantes olhos, reconhecera logo o imperador, que seguia em todos os seus movimentos. Quando o soberano estava a uns vinte passos e Nicolau pôde ver distintamente, nos seus mais pequenos pormenores, esse rosto belo, jovial e jovem, apossou-se dele um enternecimento e um entusiasmo como nunca sentira em toda a sua vida. Os traços, os gestos, toda a pessoa do imperador se lhe afiguraram maravilhosos. Parando diante do regimento de Pavlogrado. Alexandre disse algumas palavras em francês ao imperador da Áustria e esboçou um sorriso. Ao ver isso. Rostov também, sem perceber que sorria, e o entusiasmo que sentia já pelo imperador foi maior ainda. Teria querido testemunhar de qualquer maneira o amor que ele lhe inspirava. E reconhecendo que isso era impossível, teve vontade de chorar. O imperador, chamando o comandante do regimento, disse algumas palavras.

«Meu Deus, e se ele se dirigisse a mim!», murmurou. «Morreria de felicidade!»

O imperador falou também aos oficiais::

— A todos, meus senhores — cada uma das suas palavras era como que uma voz descendo do céu — a todos agradeço do coração.

Que feliz Rostov se sentiria naquele momento se pudesse morrer pelo seu soberano...

— Mereceram as insígnias de S. Jorge e serão dignos delas.

«Pudesse eu morrer, morrer por ele», pensava Rostov.

O imperador disse ainda qualquer cola que ele não percebeu e os soldados, a plenos pulmões, berram: «Hurra!»

Rostov, inclinado sobre a sela, gritava também a plenos pulmões. Teria desejado ferir-se a si próprio gritando, desde que pudesse exprimir completamente o seu entusiasmo.

O imperador deteve-se alguns instantes diante dos hússares, como que indeciso.

«Como é que o imperador pode hesitar?», disse Rostov consigo mesmo, mas no mesmo instante pareceu-lhe sublime e cheia de encanto aquela hesitação, como tudo o que do imperador emanasse.

Mas a hesitação pouco durou. O pé do imperador, com a sua bota estreita e pontiaguda, à moda da época, aflorou o flanco da égua baia inglesa: a mão enluvada de branco apanhou as rédeas, e o soberano seguiu adiante, acompanhado de uma esteira de ajudantes-de-campo disseminados atrás dele. Foi andando, para de novo se deter junto dos outros regimentos, e Rostov, por fim, já só lhe via a pluma branca que emergia do meio da comitiva dos dois soberanos.

Entre as personagens que seguiam os imperadores Rostov fixou Bolkonski, montado com elegância e negligência. Lembrou-se da disputa da véspera e perguntou-se a si mesmo se valeria ou não a pena provocá-lo. «Claro que não», concluiu. «Vale a pena pensar numa coisa dessas, vale lá a pena falar nisso numa hora como esta? Num tal momento de amor, de entusiasmo e de sacrifício que importam as nossas discussões e as ofensas que recebemos? Amo todos os homens, perdoo a todos neste momento.»

Assim que o imperador acabou de passar revista a todos os regimentos puseram-se as tropas a desfilar em passo de parada, e Rostov, montado no seu Beduíno, havia pouco comprado a Denissov, desfilou também, no coice do esquadrão, isto é, sozinho e bem à vista do imperador.

Antes de passar em frente do czar. Rostov, excelente calção que era, por duas ou três vezes esporeou o seu cavalo, conseguindo pô-lo a galope, esse belo galope quando excitado. Arqueando sobre os peitorais, a cabeça coberta de espuma, a cauda eriçada, como suspenso, sem tocar no terreno, atirando alternadamente com as patas. Beduing, que parecia também sentir o olhar do imperador, desfilou, soberbo, diante do monarca.

Rostov, as pernas repuxadas para trás e o ventre atirado para a frente, uma só peça ele e o cavalo, o rosto crispado, mas feliz, passou diante do czar como um verdadeiro demónio, no dizer de Denissov.

— Bravo, hússares de Pavlogrado! — exclamou o imperador. «Meu Deus! Que feliz eu me sentiria se ele neste momento me mandasse atirar a uma fogueira», pensou Rostov.

Quando a revista findou, os oficiais que tinham acabado de chegar juntamente com os de Kutuzov reuniram-se em grupos c, houve animadas conversas por causa das condecorações, dos austríacos mobilizados e dos seus uniformes, de Bonaparte e da sua situação crítica quando chegasse o corpo de Essen e a Prússia se aliasse à Rússia.

Mas de quem se falava principalmente por toda a parte era do imperador Alexandre; repetiam-se as suas mais insignificantes palavras e toda a gente se sentia fascinada por ele.

O desejo de todos era só um: lançarem-se, sob o seu comando, contra o inimigo. «As ordens do imperador seria impossível que não vencessem fosse quem fosse», eis o que pensavam, depois da parada, tanto Rostov como a maior parte dos oficiais.

Agora todos se sentiam mais certos da vitória do que se tivessem ganho duas batalhas.

 

[IX]

No dia seguinte. Bóris, pois de envergar o seu belo uniforme e de ter recebido os mais efusivos votos de boa sorte da parte do seu camarada Berg, dirigiu-se a Olmütz para se apresentar a Bolkonski, visto a boa disposição em que este se mostrava para com ele, na esperança de melhorar de situação, e, na melhor das hipóteses, conseguir o lugar de ajudante-de-campo de qualquer importante personagem, cargo que muito especialmente o atraía. «É bom para o Rostov, a quem o pai manda seis mil rublos de uma assentada, isso de se não querer vergar diante de quem quer que seja, de não querer ser lacaio de ninguém. Mas eu, que só comigo posso contar, tenho de tratar da vida e de não perder as boas oportunidades.»

Nesse dia não encontrou o príncipe André em Olmütz. Mas o aspecto da cidade, onde se estabelecera o quartel-general, onde estava instalado o corpo diplomático e onde habitavam os dois imperadores, com as suas comitivas de cortesãos e familiares, ainda mais radicou nele o desejo de fazer parte daquele mundo superior.

Não conhecia ali ninguém, e o certo é que, apesar do seu elegante uniforme da Guarda, todas aquelas altas personalidades que iam e vinham pelas ruas, em magníficas carruagens, com os seus penachos, os seus grandes cordões e as suas medalhas, quer cortesãos, quer militares, se lhe afiguravam tanto acima dele, insignificante oficial da Guarda, que ele e a sua existência não podiam deixar de lhes passar despercebidos.

Na sede do quartel-general de Kutuzov, aonde foi procurar Bolkonski, todos os ajudantes-de-campo e até mesmo os subalternos pareciam dar-lhe a entender, pela forma como o olhavam, que oficiais como ele era coisa que não faltava por ali e que principiavam a estar fartos disso. Apesar de tudo, ou talvez até precisamente por essa razão, logo no dia seguinte, dia 15, voltou a Olmütz depois de jantar, e, dirigindo-se às dependências ocupadas por Kutuzov, perguntou por Bolkonski. O príncipe André estava e Bóris foi conduzido a um salão espaçoso onde naturalmente outrora se dançava e em que se viam agora cinco camas e vários móveis desirmanados: mesas, cadeiras e um cravo. Ao pé da porta, um ajudante-de-campo, com o seu roupão oriental, escrevia sentado diante de uma mesa. Outro, o corpulento e vermelhusco Nesvitski, deitado numa das camas, os braços debaixo da cabeça a fazerem de travesseiro, ria com o oficial sentado ali perto. Um terceiro, sentado ao cravo, tocava uma valsa vienense; um quarto, meio estendido sobre o mesmo cravo, acompanhava-o cantando. Não viu Bolkonski. Nenhum dos oficiais, ao ver Bóris, mudou de atitude. O que escrevia, e a quem Bóris interpelara, voltou-se pouco satisfeito e disse-lhe que Bolkonski estava de serviço; por isso, se lhe queria falar, não tinha mais que dirigir-se à porta da esquerda, na sala de visitas. Bóris agradeceu e voltou costas. Na sala de visitas foi encontrar uma dezena de oficiais e generais.

Quando Bóris entrou, o príncipe André, com esse ar especial de polida lassidão, em que se lia que, se o dever a isso o não obrigasse, aquela conversa não teria durado mais que um minuto, ouvia, piscando os olhos, algo desdenhoso, um velho general russo condecorado, que, quase em bicos de pés, rigidamente erecto, lhe fazia um relatório, com uma obsequiosa expressão marcial no rosto vermelho.

— Muito bem, queira ter a bondade de esperar um momento — dizia Bolkonski ao general com o sotaque francês que costumava pôr nas suas palavras russas quando queria falar desdenhosamente, e, ao ver Bóris, não prestou mais atenção ao militar, que lhe foi no encalço, pedindo-lhe que o escutasse ainda, e dirigiu-se para o jovem com um sorriso jovial e um amistoso aceno de cabeça.

Bóris compreendeu naquele momento o que, de resto, já presumia: que no exército, acima da disciplina e da subordinação inscritas nos códigos e ensinadas nos regimentos, coisa que ele tão bem conhecia, havia uma outra hierarquia mais subtil que obrigava aquele general de face rubicunda a aguardar respeitosamente e numa atitude militar que se dignassem ouvi-lo, desde que um príncipe André, simples capitão, a seu belo prazer, resolvesse conversar com o alferes Drubetskoi. E Bóris, mais do que nunca, a si próprio prometeu, de futuro, obedecer não aos regulamentos, mas às leis desta hierarquia não prevista. Dava-se conta naquele momento de que o mero facto de ter sido recomendado ao príncipe André o punha imediatamente mais alto do que um general, que noutras circunstâncias, nas fileiras, estaria em condições de o esmagar a ele, mero alferes da Guarda. O príncipe André aproximou-se e deu-lhe o braço.

— Lamento que me não tenha encontrado ontem. Passei o dia inteiro com os alemães. Fomos com Weirother verificar as disposições tomadas. Quando estes alemães resolvem ser miudinhos, nunca mais nos largam!

Bóris sorriu, como se fosse coisa que toda a gente soubesse isso a que o príncipe André se estava a referir. No entanto era a primeira vez que ouvia pronunciar quer o nome de Weirother, quer a palavra «disposições».

— Com que então, meu amigo, continua a querer ser ajudante-de-campo? Tenho pensado muito em si desde que o vi a última vez.

— Quero; até pensei em dirigir urna petição ao general-chefe — respondeu Bóris, corando sem saber porquê. — Tenho uma carta do príncipe Kuraguine. Quero fazer este pedido — acrescentou, à guisa de desculpa — Porque receio muito que a Guarda não venha a bater-se.

— Bem! Muito bem! Voltaremos a falar nisso — disse o príncipe André. — Deixe-me só resolver o caso deste senhor e estou inteiramente às suas ordens.

Enquanto o príncipe ia comunicar ao comandante— chefe o assunto do general rubicundo, este, que, está claro, não compartilhava das ideias de Bóris acerca da hierarquia não prevista pelos regulamentos, fitava com tanta insistência o insolente alferes que o não deixara concluir a sua conversa com o ajudante-de-campo que este se sentiu incomodado. Voltando a cara, esperou, impaciente, o regresso do príncipe André.

— Bom, meu caro, foi isto o que eu pensei a seu respeito disse o príncipe quando entraram no salão do cravo.— Não ganha nada em procurar o general-chefe. Vai-lhe dizer uma série de amabilidades, convidá-lo para jantar («o que», pensou Bóris, «já não seria mau no ponto de vista da tal hierarquia»), mas pouco mais adiantará. Não tarda que nós, ajudantes-de-campo e oficiais às ordens, formemos um verdadeiro batalhão. Por isso, aqui tem o que, em minha opinião, devemos fazer. Tenho um bom amigo, um general do estado-maior, aliás um homem encantador, o príncipe Dolgorukov; e embora você não saiba, com certeza, o certo é que nós, os do estado-maior, não temos influência alguma: agora está tudo concentrado nas mãos do imperador. Por isso, o melhor é irmos procurar Dolgorukov. Tenho precisamente necessidade de me encontrar com ele. Já lhe falei de si. Vamos a ver se ele arranja maneira de o instalar a seu lado ou em qualquer outro sítio mais perto do astro-rei.

O príncipe André, sempre que tinha de guiar um moço e ajudá-lo a abrir carreira, mostrava-se muito animado. Sob o pretexto de ajudar a outrem, auxílio que ele, por orgulho, não pedia para si próprio, alegrava-o aproximar-se do meio que garantiria o êxito. Chamou a si a causa de Bóris e com a melhor boa vontade acompanhou-o junto do príncipe Dolgorukov.

Já a tarde ia adiantada quando entraram no palácio de Olmütz ocupado pelos imperadores e seus familiares.

Nesse mesmo dia houvera um conselho em que tinham tomado parte os membros do Conselho Superior de Guerra e os dois imperadores. Decidira-se, contra o parecer dos velhos generais Kutuzov e príncipe Schwartzenberg, tomar imediatamente a ofensiva e travar uma batalha geral com Bonaparte. Acabava sessão do Conselho de Guerra quando André, acompanhado de Bóris, entrava no palácio para falar ao príncipe Dolgorukov.

Todas as personalidades do quartel-general rejubilavam com , decisão tomada, a qual era a garantia da vitória do partido dos novos. A voz dos contemporizadores, que aconselhavam esperar-se para se tomar a ofensiva, fora abafada tão unanimemente, as objecções que levantavam haviam sido repelidas com provas to incontestáveis das vantagens da ofensiva que a batalha futura de que se falara no Conselho, e que sem dúvida alguma terminaria por uma vitória, já não parecia pertencer ao futuro, mas sim ao passado. Havia todas as vantagens: as enormes forças aliadas, incontestavelmente muito superiores às de Napoleão, estavam todas concentradas num mesmo ponto; as tropas estavam entusiasmadas com a presença dos imperadores e não queriam senão bater-se; a posição estratégica sobre a qual convinha actuar conhecia-a, nos seus mais pequenos pormenores, o general austríaco Weirother, que comandava os exércitos. Um feliz acaso permitira que no ano anterior as manobras do exército austríaco se tivessem desenrolado precisamente no terreno onde agora este tinha de se medir com os Franceses. Havia cartas da região, a qual era conhecida nos seus mais pequenos pormenores, e Bonaparte, evidentemente enfraquecido, não tomaria qualquer iniciativa.

Dolgorukov, um dos partidários mais ardentes da ofensiva, acabava precisamente de sair do Conselho, fatigado, exausto, mas todo entusiasmado e orgulhoso com a vitória que obtivera.

O príncipe André apresentou-lhe o seu protegido, mas Dolgorukov contentou-se em apertar-lhe polidamente a mão, sem nada mais dizer, e depois, não podendo calar os pensamentos que naquele momento o preocupavam, declarou em francês:

— Ah, meu caro! Que batalha acabámos de ganhar! Deus queira que a verdadeira batalha que aí vem finde tão vitoriosa. Devo reconhecer, no entanto, meu amigo — acrescentou, animado, e exprimindo-se aos sacões —, as minhas lacunas quando me comparo com os austríacos, e especialmente com Weirother. Que exactidão, que minúcia, que conhecimento do terreno, que previsão de todas as eventualidades, de todas as condições, dos mais pequenos pormenores! Sim, meu caro, é impossível imaginar condições mais favoráveis do que aquelas em que nos encontramos. Que poderíamos nós desejar mais que a aliança da pontualidade austríaca com a bravura russa?

— Então a ofensiva está definitivamente assente? — inquiriu Bolkonski.

— E sabe, meu caro, tenho a impressão de que Bonaparte perdeu decisivamente o seu latim. Pois não recebeu hoje mesmo o czar uma carta dele — disse Dolgorukov, com um sorriso significativo.

— Que me diz? E que escreveu Bonaparte?

— Que havia ele de escrever? Patarati, pataratá... Tudo apenas para ganhar tempo. É o que eu lhe digo, temo-lo nas mãos, é um facto! Mas o mais engraçado — prosseguiu, rindo com bonomia — é que ninguém sabia como escrever o endereço da resposta. Se não se lhe pode chamar cônsul, muito menos imperador. Em minha opinião, devia ter-se escrito Buonaparte.

— No entanto, entre não o reconhecer como imperador e chamar-se-lhe general Buonaparte há a sua diferença— observou Bolkonski.

— É precisamente esse o ponto — volveu Dolgorukov rindo com volubilidade. — Conhece Bilibine? É um homem de muito espírito. Propôs que se endereçasse a carta assim: «Ao usurpador e ao inimigo do género humano.»

E Dolgorukov pôs-se a rir a bom rir,.

— Nada mais? — observou Bolkonski.

— Foi ainda Bilibine quem encontrou uma fórmula séria. É um homem muito fino e muito inteligente.

— E qual?

— Ao chefe do Governo francês — explicou Dolgorukov, retomando o ar sisudo. — Não acha que é perfeito?

— Acho, mas não lhe vai agradar nada — disse Bolkonski. — Pelo contrário! Meu irmão conhece-o, jantou mais do que uma vez com ele, quer dizer, com o actual imperador, em Paris, e disse-me que nunca houve diplomata mais refinado e manhoso: sabe?, um misto da habilidade francesa e do cabotinismo italiano. Já ouviu as anedotas a propósito de Markov (Embaixador da Rússia em Paris. (N, dos T.)? Só o conde Markov chegou para ele. Já ouviu contar a história do lenço? É maravilhosa!

E o tagarela do Dolgorukov, dirigindo-se ora a Bóris ora ao príncipe André, contou que Bonaparte, querendo experimentar o embaixador russo Markov, deixara cair de propósito o lenço na sua presença e ficara à espera que Markov o apanhasse. Então este deixara cair também o seu lenço ao lado do de Bonaparte e, apanhando o seu, não tocara no do imperador.

— Encantador — disse Bolkonski. — Mas ouça cá, príncipe, vim procurá-lo para lhe pedir um favor para este jovem. Sabe...

O príncipe André não teve tempo de acabar: apresentou-se um ajudante que vinha convocar Dolgorukov para se apresentar ao imperador.

— Ah, que maçada! — exclamou Dolgorukov, levantando-se precipitadamente e apertando a mão ao príncipe André e a Bóris.— Fique certo de que terei muito prazer em fazer tudo que dependa de mim tanto por si como por este rapaz encantador. — Voltou a apertar a mão de Bóris, com um ar desprendido, cheio de bonomia e de animação. — Mas, como vê... Para a outra vez!

Bóris sentia-se impressionado por se encontrar naquele momento tão perto do poder supremo. Tinha a impressão de estar em contacto com as alavancas que accionavam todas aquelas enormes massas, de que ele, no seu regimento, não passava de uma mínima partícula obediente e insignificante. Seguiram atrás do príncipe Dolgorukov para o corredor e, saindo da porta do gabinete do imperador por onde desaparecera o seu companheiro, viram um homem de pequena estatura, à paisana, de aspecto inteligente, com uma cicatriz no queixo, a qual, não o desfeando, lhe dava uma expressão de vivacidade e de astúcia. Este homenzinho acenou familiarmente a Dolgorukov e fitou atentamente e com frieza o príncipe André, com quem cruzou no caminho, esperando certamente que aquele o cumprimentasse ou se afastasse para o deixar passar. O príncipe André não fez nem uma nem outra coisa; teve uma expressão contrariada, e o outro, afastando-se, tomou por um dos lados do corredor.

— Quem é? — perguntou Bóris.

— É um homem dos mais notáveis, mas também dos mais desagradáveis que conheço. É o ministro dos Negócios Estrangeiros, o príncipe Adão Czartoriski. São estes indivíduos — disse Bolkonski, soltando um suspiro, que lhe fora impossível reprimir, no momento em que saíam do palácio —, são estes indivíduos que decidem do destino dos povos.

No dia seguinte as tropas puseram-se em marcha; não foi possível a Bóris, antes da batalha de Austerlitz, voltar a ver Bolkonski nem Dolgorukov, e ficou à espera no seu regimento, em Ismail.

[X]

Na madrugada de 16, o esquadrão de Denissov, em que servia Nicolau Rostov, e que fazia parte do destacamento de Bagration, deixou o seu acampamento nocturno para entrar em acção, segundo se dizia. Cerca de uma versta mais adiante, na esteira das outras colunas, encontrou-se na estrada real. Rostov tinha visto desfilar os cossacos, o primeiro e o segundo esquadrões de hússares, os batalhões de infantaria com a artilharia, depois vira passar os generais Bagration e Dolgorukov, seguidos de seus ajudantes-de-campo. O medo que, como da primeira vez, tinha sentido antes do combate, a luta interior com que procurava dominar esse medo, o desejo de cumprir o seu dever no meio da confusão, como um verdadeiro hússar, tudo desaparecera de repente. O seu esquadrão ficara de reserva e Rostov passara todo o santo dia triste e aborrecido. As nove horas da manhã ouviu na sua frente fuzilaria e gritos de «Hurra!» e viu alguns poucos feridos que eram trazidos para a retaguarda, e no meio de uma centena de cossacos deparara-se-lhe finalmente um destacamento de cavalaria francesa. Os soldados e os oficiais, de regresso à retaguarda, falavam de uma brilhante vitória, da tomada de Wischau e de um esquadrão francês feito prisioneiro. O céu estava claro e soalheiro depois da geada que caíra durante a noite, e o alegre esplendor daquele dia de Outono harmonizava-se com a notícia de uma vitória, proclamada não só pelo relato dos que nela haviam tornado parte, mas também pela alegria que se pintava na cara dos soldados, dos oficiais, dos generais, dos ajudantes-de-campo que passavam, para cá e para lá diante de Rostov.

Nicolau parecia, contudo, tanto mais triste quanto era certo ter sentido inutilmente a angústia de quem vai para o combate, pois o dia lhe decorrera em inacção.

— Anda dai. Rostov, vamos beber qualquer coisa para esqueceres a tua tristeza! — gritou-lhe Denissov, sentado na berma da estrada, diante de um cantil e de algumas vitualhas.

Em volta de Denissov havia um magote de oficiais que comiam e bebiam palrando.

— Olha, lá trazem outro! — exclamou um deles, apontando para um dragão francês prisioneiro que era conduzido, a pé, por dois cossacos. Um deles levava pelo bridão um belo e corpulento cavalo tomado ao prisioneiro.

— Vende-me esse cavalo — disse Denissov para o cossaco.

— Se o fidalgo o quiser...

Os oficiais levantaram-se e vieram fazer roda em volta dos cossacos e do francês. O dragão francês era um rapazola, um alsaciano, que falava com sotaque alemão. A emoção embargava-lhe a voz, tinha as faces muito vermelhas, e, ao ouvir falar francês, pôs-se a tagarelar com os oficiais, ora com um, ora com outro. Dizia que nunca se teria deixado aprisionar, que a culpa não fora dele, mas do cabo, que o havia mandado apanhar as gualdrapas dos cavalos, embora ele o tivesse avisado de que os Russos já ali estavam. E ia repetindo a cada momento: «mas não façam mal ao meu cavalinho», enquanto lhe passava a mão pelo lombo. Via-se que não compreendia lá muito bem onde se encontrava. Ora pedia desculpa de se ter deixado aprisionar, ora, julgando encontrar-se perante os superiores, se vangloriava da exactidão e da pontualidade com que cumpria os seus deveres. Com ele chegava até à retaguarda russa em toda a sua frescura a atmosfera do exército francês, então completamente estranha aos Russos. Os cossacos venderam o cavalo a troco de dois ducados, e Rostov, que tinha recebido dinheiro fresco e era o mais abonado, foi quem fez a transacção.

— Mas que não façam mal ao meu cavalinho! — repetia o alsaciano, dirigindo-se a Rostov, com um ar bonacheirão, quando lhe entregaram o cavalo.

Rostov, sorrindo, tranquilizou o dragão e deu-lhe algum dinheiro.

— É andar! É andar! — exclamou o cossaco, pegando no braço do prisioneiro para o obrigar a caminhar.

— O imperador! O imperador! — gritaram de repente.

Toda a gente se pôs a correr, e Rostov, voltando-se, viu, avançando pela estrada, um grupo de cavaleiros que se aproximava, os penachos brancos ao vento. Num abrir e fechar de olhos, cada um retomara o seu lugar nas fileiras e esperava.

Rostov não compreendia como tinha podido retornar tão depressa o seu lugar e montar a cavalo. De súbito, desvanecera-se-lhe o desgosto de não ter tomado parte no combate e o mau humor de se ver no meio dos homens de todos os dias; de chofre, tudo que nele era sentimento pessoal desaparecera. Não pensava senão na alegria de ir ver de perto o imperador. Sentia que a presença dele só por si o compensaria bem do dia que perdera. Tomava-o uma felicidade idêntica à do apaixonado que por muito tempo esperou a mulher amada. Sem se atrever a voltar-se nas fileiras, e sem que realmente se voltasse, sentia, cheio de júbilo, a aproximação do czar. E o certo é que não era só o tropear dos cavalos que lhe anunciava a próxima vinda do imperador, mas uma como que claridade, um ar de alegria, uma espécie de atmosfera de festa espalhada por todos os lados. A medida que o imperador se acercava, era como se, a seus olhos, um sol fosse irradiando uma luz suave e magnífica, e eis que se sentia como que envolto nos seus raios de luz, que ouvia a sua voz, a sua voz cariciosa, calma, majestosa, e ao mesmo tempo tão simples. Como, de resto, já o esperava, fez-se um silêncio de morte e no meio desse silêncio ouviu-se a voz do imperador,

— Os hússares de Pavlogrado? — perguntou o czar.

— A reserva. Sire! — respondeu uma voz, num tom tão humano quanto o tom da outra se lhe afigurara sobre-humano.

Ao chegar à altura em que se encontrava Rostov fez alto. Os seus traços fisionómicos ainda eram mais belos que três dias antes, por ocasião da parada. Tamanhas eram a alegria e a juventude, tamanha a inocente mocidade que se lhe espelhavam no rosto que dir-se-ia ter a petulância de uma criança de catorze anos sem deixar de ser um soberano majestoso. Percorrendo distraidamente com a vista o esquadrão encontrou os olhos de Rostov e deteve-se, fitando-o alguns segundos. Teria surpreendido o que se estava a passar na alma de Rostov? (Rostov estava persuadido de que ele compreendia tudo.) O certo é que o fitou por instantes com seus olhos azuis, donde escorria uma luz suave e enternecida. Depois, repentinamente, soergueu as sobrancelhas, cravou bruscamente no cavalo a espora do pé esquerdo e despediu a galope.

O jovem imperador não tinha querido deixar de assistir à batalha, e, contra os conselhos dos cortesãos, ao meio-dia separara-se da terceira coluna, atrás da qual seguia, para se dirigir à primeira linha.

Ainda não chegara ao pé dos hússares e já alguns ajudantes-de-campo lhe anunciavam o venturoso resultado da acção. Este combate, de que resultou apenas o aprisionamento de um destacamento francês, foi considerado uma grande vitória; por isso o imperador e todo o exército, sobretudo no momento em que o fumo da batalha ainda se não dissipara, julgaram os Franceses vencidos e a recuar. Alguns minutos após a passagem do imperador, a divisão do regimento de Pavlogrado recebeu ordem de avançar. Foi em Wischau, nessa pequena cidade alemã, que Rostov pode ver ainda uma vez mais o imperador. No meio da praça da cidade, onde houvera antes fuzilaria assaz violenta, viam-se prostrados mortos e feridos que ainda não tinha havido tempo de retirar. O imperador, cercado por uma comitiva de civis e militares, montava numa égua alazã inglesa, não já a mesma do dia da parada: inclinado de lado, e empunhando, com graciosidade, o lorgnon de ouro, olhava para um soldado, com a cabeça ensanguentada e sem barretina, estendido a seus pés, com a cara contra o solo. O soldado ferido estava tão sujo, tão grosseiro, tão sebento, que Rostov se afligiu de vê-lo tão perto do imperador. Viu os ombros possantes do czar percorridos por uma espécie de tremura febril, notou a perna esquerda esporear nervosamente a montada, e esta já habituada, parecer indiferente e ficar imóvel. Um ajudante-de-campo desmontou, pegou no soldado pelos ombros e pôs-se a ajeitá-lo numa maca que nesse momento apareceu. O ferido soltou um gemido.

— Cuidado, cuidado, não se pode ter mais cuidado? — recomendou o imperador, que parecia sofrer ainda mais do que o soldado moribundo, e prosseguiu o seu caminho.

Rostov viu os olhos do imperador cheios de lágrimas, e ouviu-o dizer para Czartoriski, enquanto se afastava:

— Que terrível coisa, a guerra! Que coisa terrível!

As tropas da vanguarda haviam-se estabelecido adiante de Wischau, à vista da linha do inimigo, que durante todo o dia cedera terreno à mais ligeira fuzilaria. O imperador testemunhou o seu reconhecimento à vanguarda das tropas, prometeram-se recompensas e os homens receberam dupla ração de vodka. Ainda mais alegres que na noite anterior, crepitavam as fogueiras dos acampamentos e os soldados cantavam. Denissov nessa noite festejou a sua promoção a major, e Rostov, bem bebido, propôs, no fim do repasto, uma saúde ao imperador, mas <não», insistiu ele, «não à saúde de Sua Majestade o Czar, como se diz nos banquetes oficiais, mas à saúde do imperador, que é um homem bom, encantador e grande: bebamos à sua saúde e à vitória sobre os Franceses!»

— Se nós nos batemos sempre bem até aqui — disse ele e se não deixámos passar os Franceses em Schöngraben, o que não seremos capazes de fazer agora, que o temos a comandar-nos? Estamos todos prontos, todos, a morrer por ele alegremente. Não é verdade, meus senhores? Talvez não esteja a falar tão bem como seria necessário, pois já lhe bebi um bocado: mas a verdade é que estes são os meus sentimentos e os vossos também. A saúde de Alexandre I! Hurra!

— Hurra! — repetiram, em eco, as vozes entusiastas dos oficiais.

E o certo é que o velho capitão Kirsten pôs no seu hurra tanto ou mais entusiasmo e não menor sinceridade que o jovem Rostov, oficial de vinte anos.

Quando os oficiais acabaram de beber e partiram os copos. Kirsten encheu outros, e, em mangas de camisa e calção de montar, avançou de copo na mão e aproximou-se do acampamento dos soldados; numa atitude majestosa e grandes gestos deteve-se, iluminado pela fogueira, que lhe incendiava os grandes bigodes grisalhos e a brancura do peito, visível através da camisa entreaberta.

— Rapazes, à saúde do czar, pela vitória sobre os nossos inimigos, hurra! — gritou na sua voz grave e máscula de velho hússar.

Os hússares formaram grupos e responderam, como uma só voz, soltando ruidosas aclamações.

Já tarde, pela noite dentro, quando, por fim, se separaram. Denissov bateu no ombro de Rostov, seu favorito, com a sua pequena mão.

— Com que então, na guerra, como não há ninguém para gente gostar cá bem de dentro, toca uma pessoa a enamorar-se do czar — disse ele.

— Denissov, deixa-te de brincar com coisas sérias — gritou Rostov — é um sentimento muito elevado, muito belo...

— Bem sei, bem sei, meu amigo; e eu compartilho dele, sou o primeiro a aprová-lo...

— Não, tu não compreendes!

E Rostov, erguendo-se, pôs-se a deambular pelo meio do acampamento e a sonhar com a felicidade que seria para ele morrer, não para lhe salvar a vida a ele, coisa em que nem sequer ousava pensar, mas simplesmente morrer diante do imperador. Realmente, era um facto: estava apaixonado pelo seu czar e pela glória dos exércitos russos, e todo ele era esperança num triunfo próximo. E o certo é que nem só Rostov experimentava tais sentimentos nos memoráveis dias que precederam a batalha de Austerlitz: noventa mil homens estavam igualmente apaixonados, embora não no mesmo grau, pelo czar e pela glória dos exércitos russos.

Continuar: parte 4 de 5