Guerra e Paz
Terceira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
[XI]
No dia seguinte o imperador dormiu em Wischau. O seu médico às ordens. Villiers, foi chamado várias vezes. No quartel-general e nos círculos afectos espalhara-se a notícia de que o soberano tivera uma indisposição. Nada comera e dormira mal de noite, segundo diziam os íntimos. A causa era a violenta impressão que lhe produzira na alma sensível a vista dos feridos e dos mortos.
No dia 17, de madrugada, um oficial francês, protegido por uma bandeira branca, foi conduzido a Wischau, às guardas avançadas, e pedira audiência ao imperador russo. Este oficial era Savary. O czar acabava de adormecer; Savary viu-se obrigado a esperar. Ao meio-dia era recebido pelo imperador, e uma hora depois regressava às guardas avançadas francesas acompanhado pelo príncipe Dolgorukov.
O objectivo desta missão, segundo corria, era a proposta para uma entrevista do imperador Alexandre com Napoleão. A entrevista pessoal fora recusada, com grande alegria e grande orgulho de todo o exército, e o príncipe Dolgorukov, o vencedor de Wischau, foi enviado com Savary para entrar em contacto com Napoleão, na hipótese de a entrevista solicitada, contra a geral expectativa, ter, realmente, a paz por objectivo.
A noitinha estava Dolgorukov de regresso, e, tendo-se dirigido imediatamente para junto do imperador, ficou muito tempo a sós com o czar.
Nos dias 18 e 19 de Novembro, as tropas avançaram ainda duas etapas, e as guardas avançadas inimigas, depois de uma ligeira escaramuça, retiraram-se. A partir da tarde do dia 19 houve um importante movimento para cá e para lá nas altas esferas do comando, que se prolongou até à manhã do dia seguinte, 20, jornada da memorável batalha de Austerlitz.
Antes da tarde de 19, a inusitada agitação, as conversas animadas, as deslocações, as missões dos ajudantes-de-campo, limitaram-se apenas ao quartel-general dos imperadores; mas depois este movimento estendeu-se igualmente ao quartel-general de Kutuzov e aos estados-maiores dos comandantes de coluna. Para a tarde, graças às ordenanças, uma verdadeira agitação percorreu todos os corpos do exército; na noite de 19 para 20, nos acampamentos ouvia-se um murmúrio de vozes, notava-se uma agitação geral e aquela massa de oitenta mil homens pôs-se em marcha, numa enorme cortina de nove verstas.
O movimento que de manhã se concentrara no quartel-general dos imperadores e que impulsionara tudo o mais fazia lembrar o da roda motriz de qualquer relógio monumental. Lentamente uma das rodas põe-se em movimento, depois outra, e uma terceira começa a girar, e cada vez mais depressa entram em movimento engrenagens, eixos e roldanas; retinem as campainhas, as figurinhas desfilam e os ponteiros principiam a mover-se regularmente: este o resultado final.
Tal qual o mecanismo de um relógio, a máquina militar tem de ir até ao fim desde que se verifique o primeiro movimento e também se conserva imóvel até ao momento em que o impulso inicial atinge as engrenagens até aí insensíveis. As rodas rangem nos eixos, as charneiras encadeiam-se, os carretes, graças à rapidez da rotação, gemem, enquanto a roda vizinha se mostra tão tranquila, tão imóvel como se essa imobilidade fosse para durar centenas de anos. O momento chega, porém: um dente apanhou-a, e, obediente ao resto, range, rodando, fundindo-se na acção geral cujo resultado e cuja finalidade se lhe mantêm desconhecidos.
Da mesma maneira que no relógio o movimento distribuído por inúmeras e diferentes engrenagens e roldanas entra numa lenta deslocação, assim as múltiplas evoluções daqueles cento e sessenta mil russos e franceses, o amálgama de todas aquelas paixões, de todos aqueles desejos, de todos aqueles pesares, de todas aquelas humilhações, de todas aquelas dores, de todos aqueles acessos de orgulho, de medo, de entusiasmo, não vieram a ter por resultado senão o desastre de Austerlitz, aquela batalha que passou à história como a dos três imperadores, quer dizer, uma deslocação insensível da agulha da história universal no quadrante da história da humanidade.
O príncipe André, nesse dia, estava de serviço, e manteve-se constantemente junto do general-chefe.
As seis horas da tarde chegou Kutuzov ao quartel-general dos imperadores e, depois de estar algum tempo com Alexandre, dirigiu-se para junto do grande marechal da corte, o conde Tolstoi.
Bolkonski aproveitou esse momento para colher pormenores dos acontecimentos junto de Dolgorukov. Percebia Kutuzov distraído e descontente e sentia que no quartel-general também estavam descontentes com ele, que toda a gente aí tinha tomado para com Kutuzov o tom das pessoas que sabem o que os outros ignoram. Por isso muito desejava falar com Dolgorukov.
— Oh, boa tarde, meu caro — disse-lhe Dolgorukov, que tomava chá com Bilibine. — Então a festa é para amanhã! Como vai o seu velhote? Não está lá muito bem disposto, não é verdade?
— Não direi que não esteja bem disposto, mas acho que gostaria que lhe prestassem atenção.
— Mas prestaram-lhe atenção no conselho de guerra e toda a gente está pronta a ouvi-lo quando falar com bom senso; mas demorarmo-nos e esperar, agora que o Bonaparte mais do que nunca receia uma batalha geral, não é possível.
— Falou-lhe? — inquiriu o príncipe André. — E então? Que impressão lhe fez Bonaparte?
— Falei-lhe e fiquei convencido de que não há nada que ele mais tema no mundo que uma batalha geral — repetiu Dolgorukov, frisando sobretudo esta conclusão, súmula da sua entrevista com Bonaparte. — Se ele não temesse a batalha, porque iria pedir esta entrevista, porque recorreria aos seus parlamentares, e sobretudo porque recuaria quando o recuo é a coisa mais contrária aos seus métodos de guerra? Pode crer: ele receia uma batalha geral. Chegou a sua hora, sou eu quem lho diz.
— Mas conte-me, como é ele? — perguntou de novo o príncipe André.
— É um cavalheiro de casacão cinzento, que se pela por ouvir-se chamar de «Vossa Majestade», mas eu é que lhe não dei título algum, com grande desapontamento seu. Eis o homem, e é tudo — redarguiu Dolgorukov, trocando um sorriso com Bilibine — Apesar do meu profundo respeito pelo velho Kutuzov – Prosseguiu —, seríamos anjinhos se continuássemos à espera e lhe déssemos oportunidade de se nos escapar e de nos enganar, quando é certo que neste momento nos está nas mãos. Não, não devemos esquecer Stivorov e os seus princípios: nunca nos colocarmos na posição de atacados, mas de atacantes. Pode crer, na guerra, a energia dos jovens é muito mais uma garantia do verdadeiro êxito do que a experiência dos velhos cunctators.
— Mas em que situação é que vamos atacar? Fui hoje aos postos avançados e verifiquei não ser possível saber exactamente onde estão as forças principais do inimigo — observou o príncipe André.
O seu propósito era comunicar a Dolgorukov o plano de ataque que ele próprio congeminara.
— Ah! Tudo isso não tem a mais pequena importância — apressou-se a dizer Dolgorukov, levantando-se e abrindo um mapa em cima da mesa. — Todas as hipóteses estão previstas: se ele estiver em Brünn...
E o príncipe Dolgorukov, fluente e pouco claro, expôs o movimento de flanco previsto por Weirother.
O príncipe André levantou as suas objecções e expôs o seu plano, que podia ser tão bom como o de Weirother, mas que tinha apenas uma desvantagem: a de o outro já estar adoptado. Desde o momento em que o príncipe se pusera a mostrar as vantagens do seu plano e os inconvenientes do segundo. Dolgorukov deixou de o ouvir e não voltou a olhar para o mapa senão distraidamente. Por fim, fitando nos olhos o interlocutor, observou:
— Bom! Há hoje conselho de guerra no quartel-general de Kutuzov. Pode expor aí o seu plano.
— E é isso mesmo que eu vou fazer — disse o príncipe André, deixando o mapa.
— Mas o que vos preocupa, meus senhores? — interveio Bilibine, que até então estivera a ouvir, em silêncio, e naquele momento se preparava , ara fazer um gracejo.— Quer seja um desastre ou uma vitória o que amanhã nos espera, a glória dos exércitos russos esta garantida. A não ser o seu Kutuzov, nem um só general é russo. Os chefes, aqui os têm: Herr general Wimpfen, o conde de Langeron, o príncipe de Lichtenstein, o príncipe de Hohenlohe, e por fim Trsch. Prsch.., e assim por diante, como todos os nomes polacos...
— Cale-se, língua danada! — exclamou Dolgorukov. — De resto, é falso; agora, pelo menos, há dois russos: Miloradovitch e Dokturov e ainda podíamos mencionar um terceiro, o conde Araktcheev, se não fossem os seus fracos nervos.
— Creio que Mikail Ilarionovitch está de volta — disse o príncipe André. — Que a sorte vos seja propícia, meus senhores. — E saiu, depois de apertar a mão a Dolgorukov e a Bilibine.
Uma vez junto de Kutuzov não resistiu a perguntar ao general, que estava sentado sem dizer palavra, qual a sua opinião sobre a batalha do dia seguinte.
Kutuzov olhou severamente o seu ajudante-de-campo, e após um silêncio respondeu:
— Penso que perderemos a batalha, e foi isso que eu disse ao conde Tolstoi, pedindo-lhe que transmitisse a minha opinião ao imperador. Queres saber o que ele me respondeu? «Ora, meu caro general, eu trato do arroz e das costeletas, ocupe-se o senhor das coisas da guerra.» Sim.., foi isto que me responderam!
[XII]
Às dez horas da noite Weirother chegou com os seus planos à residência de Kutuzov, onde tinha ficado assente que se realizaria o conselho de guerra. Todos os generais comandantes de coluna haviam sido convocados para comparecer perante o general-chefe, e à excepção de Bagration, que se recusara a fazê-lo, todos se apresentaram à hora marcada.
Weirother, que fora o exclusivo organizador da futura batalha, na sua animação e agitação, apresentava o mais completo contraste com Kutuzov, nada satisfeito e cheio de sono, pois fora forçado, contra sua vontade, a desempenhar o papel de presidente e director do conselho de guerra. Weirother sentia-se, evidentemente, à cabeça de um movimento que se tornava irresistível. Parecia um cavalo atrelado a uma carroça que desliza por uma ladeira abaixo. Se era ele quem puxava o veículo ou se o veículo o arrastava, eis o que ele ignorava; mas o certo é que lá ia em marcha acelerada, sem ter possibilidade de reparar no terreno para onde era arrastado. Nessa noite, por duas vezes, fora inspeccionar a linha inimiga, e por duas vezes apresentara o seu relatório aos dois imperadores, o russo e o austríaco, e lhes dera esclarecimentos, indo igualmente ao seu gabinete para ditar o seu dispositivo em alemão. Chegava agora, extenuado, ao quartel-general de Kutuzov.
Tão preocupado estava, evidentemente, que se esquecia até de ser respeitoso para com o general-chefe: interrompia-o, falava-lhe bruscamente, com pouca clareza, sem encarar com o interlocutor, sem responder às perguntas que lhe fazia; estava coberto de lama e tinha um ar lamentável, moído, hirsuto, embora, no entanto, estivesse cheio de segurança e de orgulho.
Kutuzov estava instalado num pequeno castelo dos arredores de Austerlitz. No grande salão que lhe servia de gabinete encontravam-se reunidos Kutuzov. Weirother e os membros do conselho de guerra. Tomavam chá. Aguardavam apenas a chegada de Bagration para darem começo aos trabalhos. As oito horas chegou um oficial de ordenanças de Bagration a anunciar que o príncipe não podia assistir ao conselho. O príncipe André é que fora encarregado desta missão, e, aproveitando a autorização que Kutuzov antecipadamente lhe dera, ficou na sala.
— Uma vez que o príncipe Bagration não vem, podemos começar — disse Weirother, levantando-se apressadamente e aproximando-se da mesa onde estava, estendido, um imenso mapa dos arredores de Brünn.
Kutuzov, com o uniforme desabotoado, com o grosso e adiposo pescoço descoberto, sentara-se numa poltrona baixa, as duas mãos, rechonchudas, de velho, pousadas simetricamente de cada lado: dormitava. Ao ruído da voz de Weirother entreabriu com esforço o olho que lhe restava.
— Pois sim. Pois sim, façam favor, começa a ser tarde — disse ele; meneou a cabeça, depois deixou-a descair e fechou os olhos.
Se no primeiro momento os membros do conselho puderam pensar que Kutuzov fingia dormir, não há dúvida de que o ruído ribombante que lhe prorrompia do nariz quando se procedeu à leitura imediata claramente veio demonstrar que naquele instante o preocupava qualquer coisa muito mais importante que exprimir a sua opinião favorável ou desfavorável sobre o dispositivo ou assunto quejando, pois o certo era que se tratava, para ele, de satisfazer urna necessidade imperiosa: a do sono. Efectivamente. Kutuzov dormia. Weirother, com um movimento de impaciência de alguém demasiado ocupado para se dar ao trabalho de perder um minuto que fosse, lançou um olhar ao general-chefe, e, convencido de que efectivamente ele dormia, pegou num papel, e em voz alta e num tom monótono pôs-se a ler o dispositivo da futura batalha, sem esquecer o título, que também leu:
«Dispositivo para o ataque à posição inimiga na retaguarda de Kobelnitz e de Sokolnitz no dia 20 de Novembro de 1805.»
Este dispositivo era assaz complicado e difícil de compreender. O original rezava assim:
«Como o inimigo se apoia, na sua ala esquerda, em colinas cobertas de matagal e na ala direita se estende ao longo de Kobelnitz e de Sokolnitz por detrás dos pântanos que existem aí, e nós, pelo contrário, pela nossa ala esquerda ultrapassamos largamente a sua direita, é de toda a vantagem para nós atacarmos esta ala inimiga, principalmente se ocuparmos as povoações de Soko1nitz e de Kobelnitz, o que nos dará a possibilidade de cair sobre o flanco inimigo e de o perseguir na planície entre Schlapanitz e a floresta de Thurass, evitando, ao mesmo tempo, os desfiladeiros entre Schlapanitz e Bellowitz, que protegem a frente inimiga. Para alcançar este objectivo é necessário... A primeira coluna marcha.., a segunda coluna marcha.., etc.» (Em alemão no texto original. (N, dos T.)
Os generais não pareciam ouvir com grande prazer este dispositivo complicado. O general Boekshevden, um louro, grandalhão, estava de pé, de costas contra a parede, os olhos fitos nas velas acesas; não só parecia não ouvir, mas até não querer que se pudesse pensar que ouvia. Mesmo diante de Weirother, com os seus olhos brilhantes muito abertos voltados para ele, numa pose marcial, as mãos nos joelhos, com os cotovelos para fora, sentava-se Miloradovitch, rosado, de bigodes retorcidos, ombros largos. Calava-se obstinadamente, os olhos fitos em Weirother, e não baixou a vista senão quando o chefe do estado-maior austríaco acabou a leitura. Então, virou os olhos significativamente para os outros generais. Mas este olhar significativo não deixava perceber se ele estava de acordo ou não, se aprovava ou reprovava o dispositivo. O general mais próximo de Weirother era o conde de Langeron: com o seu fino sorriso de meridional francês, presente durante toda a leitura, contemplava os seus afilados dedos, fazendo girar entre eles rapidamente uma caixa de rapé de ouro guarnecida de miniaturas. No meio de um dos períodos mais longos, suspendeu a rotação da caixa de rapé, levantou a cabeça, e com uma fria polidez, com a ponta dos delgados dedos procurou interromper Weirother, querendo dizer fosse o que fosse; mas o general austríaco, sem deixar de ler, franziu o sobrolho, colérico, e fez com o braço um gesto que queria dizer: «Depois, depois dirá da sua justiça, mas por agora queira seguir pelo mapa e escutar.» Langeron ergueu os olhos ao alto, numa expressão de espanto, lançou um olhar a Miloradovitch como que a pedir-lhe explicações e, ao deparar-se-lhe nada mais que uma expressão que nada significava, baixou os olhos com tristeza, voltando a fazer girar a caixa de rapé entre os dedos.
«Uma lição de geografia», disse ele com os seus botões, mas suficientemente alto para ser ouvido.
Przebiszewski, com respeitosa mas digna, cortesia, voltou para Weirother a concha da orelha, como a dar-se ares de ser todo ouvidos. O pequeno Dokturov, sentado precisamente diante de Weirother, concentrado e modesto e de bruços sobre o mapa, estudava conscienciosamente o dispositivo e o terreno que não conhecia. Várias vezes pediu a Weirother que repetisse passos difíceis que ouvira mal e nomes difíceis de algumas povoações. Weirother aquiescia e Dokturov tomava notas,
Quando a leitura, que durou quase uma hora, chegou ao fim. Langeron, detendo o movimento da caixa de rapé, e sem olhar para Weirother nem para ninguém em particular, pôs-se a explicar quão difícil seria executar semelhante dispositivo em que a situação do inimigo se pressupunha conhecida, quando era certo que talvez o não fosse de maneira alguma, visto estar em movimento. Estas objecções, posto fundamentadas, era evidente terem por principal objectivo fazer sentir a Weirother, que lera os seus papéis com tanta segurança que dir-se-ia dirigir-se a colegiais, que não estava perante imbecis, mas de pessoas que muito lhe poderiam ensinar do ponto de vista militar. Quando a voz monótona de Weirother se calou. Kutuzov abriu o olho, como um moleiro que desperta em sobressalto ao deixar de ouvir o ruído sonolento das rodas do moinho, prestou atenção às palavras de Langeron e, como quem diz: «Ah, os senhores ainda estão à volta dessas tolices!», deu-se pressa em cerrar de novo a pálpebra. A cabeça descaiu-lhe mais ainda sobre o peito.
Procurando ferir Weirother o mais vivamente possível na sua vaidade de autor. Langeron mostrava que Napoleão podia muito bem atacar em vez de ser atacado, o que tornaria o dispositivo completamente inútil. Weirother replicava a todas as críticas com um sorriso desdenhoso, de plena segurança, preparado, evidentemente, de antemão para responder a tudo, fossem quais fossem as objecções que lhe fizessem.
— Se ele nos pudesse atacar já o tinha feito — lançou ele.
— Imagina-o, talvez, impotente... — redarguiu Langeron.
— Se tiver quarenta mil homens, já é muito — replicou Weirother, sorrindo, como o médico a quem uma pobre mulher recomenda uma tisana.
— Nesse caso é como se se condenasse a si próprio, se espera o nosso ataque — observou Langeron com um subtil sorriso de ironia, procurando de novo o olhar de aprovação da parte de Miloradovitch.
Mas este, claro está, de momento estava longe de se ocupar do assunto que dividia as opiniões dos generais.
— Palavra — disse ele. — Amanhã tudo isso se verá no campo de batalha.
Weirother teve de novo um sorriso que queria dizer parecer-lhe ridículo e estranho encontrar objecções junto dos generais russos e dar provas de coisas de que não só ele estava absolutamente convencido, mas de que se haviam persuadido, inclusivamente, os próprios imperadores.
— O inimigo apagou as fogueiras e no seu acampamento ouve-se um ruído ininterrupto — tornou ele — Que quer isto dizer? Afastar-se-á, a única coisa que nós devemos recear, ou altera as suas posições? — Isto fê-lo sorrir. — Mas ainda mesmo que viesse a ocupar a posição de Thurass, com isso apenas nos evitava grandes maçadas, e todas as disposições tomadas, nos seus mais pequenos pormenores, continuariam as mesmas.
— Como assim? — perguntou o príncipe André, que de há muito esperava a oportunidade de expandir as suas dúvidas. Kutuzov despertou, tossicou e olhou os generais.
— Meus senhores, o dispositivo de amanhã, quer dizer, de hoje, visto ser quase uma hora, não se pode modificar — disse ele. — Já o ouviram ler e todos nós cumpriremos o nosso dever. E antes da batalha nada é mais importante (hesitou um momento) que dormir bem.
Fez menção de se levantar. Os generais, com uma vénia, afastaram-se. Era já bastante mais da meia-noite. O príncipe André saiu.
O conselho de guerra em que o príncipe André não pudera exprimir a sua opinião, conforme seu desejo, deixou-lhe urna impressão confusa e nublada. Quem teria razão? Dolgorukov e Weirother, ou Kutuzov. Langeron e os outros, que não aprovavam o plano de ataque? Eis o que ele ignorava. Mas teria sido, de facto, impossível a Kutuzov comunicar directamente a sua opinião ao imperador? Não poderiam as coisas vir a passar-se de outra maneira? «Será legítimo, para dar satisfação às ideias particulares de simples cortesãos, arriscar a vida de dezenas de milhares de homens, e a minha também?», pensava de si para consigo.
«Sim, pode muito bem acontecer que me matem amanhã», prosseguiu. E subitamente, ao pensar na morte, toda uma cadeia de reminiscências as mais longínquas, as mais íntimas, lhe invadiu a imaginação. Lembrou-se do seu último adeus ao pai e à esposa; lembrou-se dos seus primeiros tempos de namoro com Lisa! Lembrou-se da gravidez da mulher e uma grande piedade por ela e por ele próprio o invadiu, e num estado de tensão nervosa e intensa emoção saiu da cabana que partilhava com Nesvitski e pôs-se a andar de um lado para o outro diante da porta.
A noite estava enevoada, e através da bruma filtrava-se, misteriosamente, um raio da Lua. «Sim, amanhã, amanhã!», disse para si mesmo... «Amanhã talvez tudo tenha acabado para mim; de todas estas recordações nada restará, todas estas recordações deixarão de ter para mim o mais pequeno sentido. Amanhã, talvez, com certeza amanhã, é que eu prevejo que pela primeira vez me será dado, por fim, mostrar de quanto sou capaz. — E por diante dos seus olhos perpassava a batalha, o seu resultado desastroso, a concentração do combate num único ponto e o embaraço de todos os seus superiores. E eis que surgia o minuto que o destino lhe reservava, esse seu Toulon há tanto esperado, e que por fim se lhe propiciava. Ei-lo que diz, firme e claramente, tudo quanto pensa a Kutuzov, a Weirother e aos imperadores. A precisão dos seus planos impressiona-os a todos, mas ninguém assume a responsabilidade de os pôr em prática, e ei-lo que toma o comando de um regimento, de uma divisão, que impõe como condições ninguém intervir nas suas disposições: e leva a divisão até ao ponto critico e é ele sozinho quem consegue a vitória. «E a morte e a agonia?», diz uma outra voz. Mas nada responde a esta voz, e os seus triunfos continuam. É ele, só ele, quem estabelece o dispositivo da futura batalha. Mero oficial às ordens de Kutuzov, é ele e só ele quem tudo faz. A batalha que se segue ele a ganha. Kutuzov é transferido e é ele norteado para o seu posto... «E de— pois?», segreda-lhe ainda a segunda voz, «e depois, se tu não tiveres sido antes dez vezes ferido, morto ou traído; e depois?» «E então depois?!», replica André. «Ignoro o que acontecerá depois, não quero nem posso sabê-lo; mas se é isto que eu desejo, se quero o glória, se quero ser célebre entre os homens, se quero vir a ser um ídolo, que culpa realmente tenho eu de querer que as coisas sejam assim, de não querer senão isto, de não viver senão para isto? Sim, só para isto! Nunca o direi a ninguém, mas, meu Deus, que hei-de eu fazer se a única coisa a que realmente aspiro é a glória e a idolatria dos homens! A morte, os ferimentos, a perda da minha família, nada me mete medo. Por mais queridas que me sejam todas estas pessoas, meu pai, minha irmã, minha mulher, e outros, outros mais, por mais que os estime, e ainda que isso possa parecer terrível e contra a natureza, a todos estou pronto a sacrificar por um minuto de glória, por um instante de triunfo, pelo amor que inspirarei a pessoas que não conheço e a quem nunca conhecerei, pelo amor, precisamente, dessas mesmas pessoas.» E em tudo isto pensava enquanto ia ouvindo um ruído de vozes no pátio do alojamento de Kutuzov. Era a conversa dos impedidos que se deitavam. Um deles, provavelmente um cocheiro, para arreliar o velho cozinheiro de Kutuzov, que o príncipe André conhecia muito bem e se chamava Tito, dizia:
— Tito, eh. Tito!
— O que aconteceu? — inquiria o velho.
— Tito, vai malhar o teu trigo (Aforismo intraduzível. (N, dos T.) — dizia o gracioso.
— O Diabo te leve! — gritava a outra voz, logo abafada pela risota dos alegres camaradas.
«E apesar de tudo só uma coisa me interessa, só uma coisa me absorve: o desejo de triunfar sobre todos; só me interessa esta força misteriosa, esta glória que eu sinto pairar aqui por cima de mim, no meio desta neblina!»
[XIII]
Rostov, nessa noite, encontrava-se com o seu pelotão na linha dos flanqueadores na vanguarda do destacamento de Bagration. Os hússares estavam divididos dois a dois, formando a primeira linha; ele próprio a percorria a cavalo, procurando dominar o sono que o prostrava. Na retaguarda descobria-se urna vasta área ocupada pelos acampamentos nocturnos do exército russo, visão confusa no meio do nevoeiro; na vanguarda, completa opacidade. Por mais que Rostov procurasse ver para além dessa distante neblina, nada podia distinguir: ora era qualquer coisa cinzenta, ora qualquer coisa vagamente negra; por vezes dir-se-ia ver fogueiras no local onde devia encontrar-se o inimigo; outras acreditava não passarem de clarões que lhe perpassavam pela vista. Fechava os olhos e a imaginação representava-lhe ora o czar, ora Denissov, ora recordações de Moscovo, e logo procurava reabri-los, para ver ali mesmo, diante de si, mesmo contra si, a cabeça e as orelhas do cavalo que montava, outras vezes negras silhuetas de hússares quando passava a pouca distância deles, e ao longe sempre o mesmo nevoeiro opaco. «Quem sabe?», pensava. «Pode muito bem acontecer que o czar, encontrando-me no seu caminho, me venha a dar, como a qualquer outro oficial, uma missão a cumprir e me diga: ‘Vai ver o que se passa lá adiante!’ Não ouvi eu já contar que ele, por mero acaso, reconhecendo um oficial, o chamou para junto de si? E se ele me chamasse para junto dele? Oh! Como eu o protegeria, como eu lhe diria toda a verdade, como eu desmascararia os impostores!» E Rostov, para se representar a si próprio, ao vivo, a sua dedicação e o seu amor pelo czar, via-se a contas com um inimigo ou um traidor alemão, a quem abatia, cheio de júbilo, ou a quem esbofeteava perante o seu senhor. De súbito, um grito distante fê-lo estremecer e despertar daquela abstracção.
«Onde estou eu? Ah! Sim, na linha de fogo. O santo e a senha é: Timão. Olmütz. Que pena o nosso esquadrão estar amanhã de reserva... », disse de si para consigo. «Vou pedir que me deixem tomar parte na batalha. É talvez a única maneira de ver o czar. E agora devo estar quase a ser rendido. Vou dar ainda mais uma volta, e no regresso procurarei o general para lhe fazer o meu pedido.» Empertigou-se na sela e esporeou o cavalo disposto a inspeccionar uma vez mais os seus hússares. Pareceu-lhe a manhã um pouco mais clara. A esquerda via-se uma vertente suave iluminada e em frente um cabeço negro que parecia abrupto como uma muralha. Sobre o cabeço havia uma mancha clara que Rostov não pode definir: seria uma clareira na floresta iluminada pelo luar ou neve perpétua ou um grupo de casas brancas? Pareceu-lhe, mesmo, que alguma coisa mexia. «Com certeza é neve aquela mancha. Uma mancha», parafusava ele; «mas, não, não é uma mancha...»
«É Natacha, a minha irmã, são os seus olhos negros... Natacha... Ficará ela admirada quando eu lhe disser que vi o imperador? Não há dúvida, é a Natacha.., aquela manchazinha...» — Meta à direita. Excelência, aqui há uma moita — disse de súbito a voz do hússar diante do qual Rostov ta passando, sonolento.
Rostov ergueu a cabeça, que tinha deixado pender sobre o pescoço do cavalo, e parou ao pé do hússar. Prostrava-o um sono de criança. «Mas, então, em que, é que eu estava a pensar? Preciso de me não esquecer. Quando falar ao imperador? Não, não se trata disso, mas é amanhã. Sim, sim! Natacha.., ataque, taque.., quem? O hússar. Ali!, o hússar com os bigodes... Pelo Tverskaia (Rua importante de Moscovo. (N, dos T.) lá vai andando aquele hússar dos bigodes, sim, estou a pensar nele mesmo defronte da casa Guriev... O velho Guriev. Eh!, grande compincha, o Denissov! Mas tudo isto são disparates. Agora o importante é o imperador estar aqui. Quando olhou para mim, quis falar-me, mas não teve coragem... Não, fui eu, eu é que não tive coragem. Tudo isto continua a ser disparate; o principal é que eu me não esqueça de qualquer coisa muito importante em que estava a pensar. Natacha, ataque.., sim, sim, É isso!» E de novo voltou a cabecear sobre o pescoço do cavalo. De súbito, pareceu-lhe que disparavam contra ele. «Quê? Quê?... Acutilem-nos! O quê?», gritou, sobressaltado. No momento precisamente em que abria os olhos ouviu diante dele, do lado do inimigo, gritos prolongados de milhares de vozes. O cavalo de Rostov e o do hússar que lhe ficava mais próximo eriçaram as orelhas. Na direcção donde provieram os gritos acendeu-se e apagou-se uma luz, depois outra, e ao longo de toda a linha francesa, no alto do cabeço, brilharam luzes e os gritos tornaram-se cada vez mais intensos. Rostov conseguia perceber que se falava francês, sem poder compreender. Falava muita gente ao mesmo tempo. Nada mais se discernia senão: aaa!, rrr!
— Que vem a ser isto? Que te parece? — perguntou ao hússar a seu lado. — É do campo do inimigo, com certeza!
O hússar não respondeu.
— Quê, então tu não ouves? — perguntou de novo Rostov, depois de ter esperado muito tempo por uma resposta.
— Quem sabe lá, meu fidalgo? — replicou o hússar contra vontade.
— Pela direcção que trazem deve ser o inimigo — voltou a dizer Rostov.
— Se calhar, pode muito bem ser que sim — disse o hússar. — É de noite!... Eh, tu lá, cautela! — gritou para o cavalo, que parecia inquieto.
A montada de Rostov impacientava-se também, escarvava a terra gelada, eriçava as orelhas ao ouvir barulho e olhava de soslaio para o lado das luzes. O som das vozes ia-se tornando cada vez mais intenso, fundindo-se num rumor geral, que só podia provir de uma massa de muitos milhares de homens. As luzes propagavam-se mais e mais, naturalmente seguindo a linha do campo francês. Rostov já não tinha vontade de dormir. Aqueles gritos de alegria e triunfo no exército inimigo agiam sobre ele como um revulsivo. «Viva o imperador, viva!», ouvia agora distintamente.
— Não é longe daqui, naturalmente é por detrás do rio — disse Rostov ao seu hússar.
Este limitou-se a suspirar, sem nada responder, depois pôs-se a tossir furiosamente. Ao longo da linha dos hússares ouvia-se um trote de cavalaria, e de súbito emergiu do nevoeiro nocturno, como se fosse um, grande elefante, a figura de um sargento.
— Meu fidalgo, os generais! — disse ele, aproximando-se de Rostov.
Rostov, sem deixar de observar as luzes e os gritos, acompanhou o sargento ao encontro de um certo número de cavaleiros que se dirigiam para eles ao longo da linha. Um deles montava um cavalo branco. Eram Bagration e Dolgorukov, com os seus ajudantes-de-campo, que vinham observar aquela estranha manifestação de luzes e de clamores no exército inimigo. Rostov, aproximando-se de Bagration, fez-lhe o seu relato e reuniu-se aos ajudantes-de-campo, ouvindo o que diziam os generais.
— Acredite no que eu lhe digo — dizia o príncipe Dolgorukov para Bagration. — Tudo isto não passa de um ardil. Bate em retirada e deu ordens às forças da retaguarda para que acendessem fogueiras e fizessem todo este rebuliço para nos iludir.
— Não creio — tornou Bagration. — Desde o princípio da noite que eu os veio em cima daquele morro. Se retirassem, teriam levantado o acampamento. Senhor oficial — disse ele para Rostov —, eles ainda lá têm os flanqueadores?
— Ontem à noite tinham, mas agora não os vejo. Excelência. Se assim o ordenar, irei lá ver com os hússares — disse Rostov. Bagration parou e, sem responder, procurou ver através do nevoeiro a cara de Rostov.
— Bom, então vá — disse, depois de um curto silêncio.
— Às suas ordens!
Rostov esporeou o cavalo, chamou o sargento Fedtchenko e dois hússares, ordenou-lhes que o acompanhassem e principiou a descer o cabeço, a trote, orientado pelos gritos que continuavam. Experimentava um misto de angústia e de alegria ao sentir que ia assim, apenas com três hússares, a caminho daquelas paragens distantes, brumosas, misteriosas e perigosas onde ninguém fora antes dele. Bagration gritou-lhe do alto da colina que não passasse além do rio, mas Rostov fingiu nada ouvir, e, sem se deter, seguiu sempre em frente, enganando-se a cada momento, tomando arbustos por árvores e moitas por homens, reconhecendo daí a pouco o engano em que caíra. Depois de ter descido a trote a vertente deixou de ver tanto as linhas russas como as luzes inimigas, mas ouvia os gritos cada vez mais fortes e mais distintos. Lá no fundo do vale encontrou-se diante de qualquer coisa que lhe pareceu um rio, mas assim que se aproximou mais verificou ser a estrada real. Uma vez aí fez estacar o cavalo indeciso: que devia fazer? Seguir a estrada ou atravessá-la e depois marinhar pelos campos em frente, no escuro? Seguir ao longo da estrada iluminada, no meio do nevoeiro, era menos perigoso, pois, mais depressa se reconheciam as pessoas. «Venham atrás de mim», disse ele; atravessou a estrada e, a galope, pôs-se a subir a colina, em direcção àqueles postos onde no começo da noite havia um piquete francês.
— Meu fidalgo! Lá está um! — exclamou um dos hússares atrás dele.
Rostov mal teve tempo de ver surgir do nevoeiro fosse o que fosse de negro, e logo uma chama brilhou, um tiro zuniu, uma bala passou, como um lamento, alta no meio da neblina, depois desapareceu. Um segundo tiro falhou, mas os fechos da espingarda cintilaram. Rostov fez meia volta e retomou, a galope, o caminho que fizera. Quatro tiros explodiram ainda com pequenos intervalos e as balas assobiaram, em tons diferentes, perdendo-se algures no meio das trevas. Rostov refreou o cavalo, excitado, como ele, pelas detonações, e seguiu a passo. «Então, vamos, mais outro! Outro ainda!», dizia de si para consigo, alegremente. Mas a fuzilaria cessou.
Ao aproximar-se de Bagration. Rostov voltou a esporear o cavalo, que partiu a galope, e foi com a mão na viseira da barretina, em continência, que o abordou.
Dolgorukov continuava a sustentar a sua ideia de que os Franceses retiravam, e que só tinham acendido aquelas luzes para os enganar.
— Que prova isso? — dizia ele quando Rostov se acercou. — Podem muito bem ter retirado, deixando um piquete.
— Evidentemente, ainda não partiram todos, príncipe — dizia Bagration. — Amanhã de manhã, amanhã de manhã, saberemos tudo.
— No alto da colina há um piquete. Excelência, no mesmo sítio de ontem à noite — disse Rostov, debruçando-se para diante, com a mão na viseira, e sem poder dominar a alegria que lhe causara a sua expedição, e sobretudo o zumbir das balas.
— Bom, bom — disse Bagration — os meus agradecimentos, senhor oficial.
— Excelência — atalhou Rostov.— Consinta que eu lhe faça um pedido.
— De que se trata?
— Amanhã o nosso esquadrão está de reserva: consinta que eu lhe peça que me destaque para o primeiro esquadrão.
— Como se chama? — Conde Rostov.
— Ah!, muito bem. Fique comigo como oficial de ordenança.
— O filho de Ilia Andreitch? — perguntou Dolgorukov. Rostov não respondeu.
— Então, posso contar. Excelência...
— Eu darei as minhas ordens.
«Amanhã pode ser que me mandem levar um despacho ao imperador», pensou. «Louvado seja Deus!»
Os gritos e as luzes no exército inimigo eram por causa da leitura às tropas da ordem do dia de Napoleão, enquanto o imperador em pessoa percorria a cavalo os acampamentos. Os soldados, que o tinham descoberto, haviam acendido archotes de palha e acorriam gritando: «Viva o imperador!» A ordem do dia de Napoleão era a seguinte:
Soldados!
O exército russo está diante de vós disposto a vingar o
exército austríaco de Ulm. Estais diante dos mesmos batalhões que batestes em Hallabrünn, e que depois disso tendes vindo a perseguir até hoje.
As posições que nós ocupamos são formidáveis, e quando eles
marcharem para contornar a nossa direita, apresentar-me-ão o seu flanco. Soldados, eu próprio comandarei os vossos batalhões. Conservar-me-ei longe da linha de fogo se vós, com a vossa costumada bravura, levardes a desordem e a confusão às fileiras inimigas; mas se a vitória se apresentar incerta um momento que seja, vereis o vosso imperador expor-se nas primeiras linhas, pois da vitória não podemos duvidar nesta jornada, em que se trata, antes de mais nada, da honra da infantaria francesa, tão importante para a honra de toda a nação.
Que as fileiras não fiquem desguarnecidas com o pretexto de
recolher os feridos e que cada um se compenetre bem do pensamento de que é preciso vencer estes estipendiados da Inglaterra, que tão grande ódio sentem contra a nossa nação!
Esta vitória será o fim da campanha, e poderemos depois
dela recolher aos nossos quartéis de Inverno, onde virão ao nosso encontro os novos exércitos que se estão a formar em França, e então a paz que eu farei será digna do meu povo, de vós e de mim.
Napoleão.
[XIV]
As cinco horas da manhã ainda era completamente escuro,
O centro, as reservas e o flanco direito de Bagration ainda se mantinham imóveis, mas no flanco esquerdo as colunas de infantaria, de cavalaria e de artilharia, que seriam as primeiras a assaltar a ravina para atacar o flanco direito dos Franceses e repeli-los, de acordo com o dispositivo, para as montanhas da Boémia, principiavam a agitar-se e a deslocar-se dos seus acampamentos. O fumo das fogueiras, onde se lançava tudo que podia servir de empecilho, tornava-se sufocante. O tempo estava frio e sombrio. Os oficiais tomavam chá, comiam qualquer coisa à pressa, os soldados rilhavam os seus biscoitos, batiam com os pés no chão para aquecer e apinhavam-se diante das fogueiras, para onde atiravam com os restos das tendas, cadeiras, mesas, rodas, tinas, tudo que não podiam levar. Os oficiais guias austríacos disseminavam-se por entre as tropas russas e transmitiam as ordens de partida. Assim que um oficial austríaco aparecia à porta da tenda do comandante do regimento, logo este entrava de se preparar para o combate: os soldados abandonavam as fogueiras, guardavam os cachimbos no cano das botas, atiravam com as mochilas para cima das carroças, desensarilhavam as espingardas e alinhavam-se na forma Os oficiais abotoavam os seus uniformes, afivelavam os cinturões, prendiam as suas sacolas e percorriam as fileiras, gritando vozes de comando. Os comboiadores e os impedidos atrelavam, ordenavam, limpavam as carroças. Os ajudantes-de-campo, os comandantes de batalhão e de regimento montavam a cavalo, benziam-se, dando as últimas ordens e indicações e instruções aos boiadores retardatários, e ouvia-se o ruído monótono de milhares de passos martelando o chão. As colunas punham-se em marcha, sem saberem aonde iam e sem verem, cegas pela multidão que as envolvia, o fumo e o nevoeiro cada vez mais espesso, o lugar donde saíam, nem aquele aonde se dirigiam.
O soldado em marcha está enquadrado, limitado nos seus recursos, arrastado pelo seu regimento como o marujo a bordo do navio que o leva. Onde quer que se dirija, por mais longe que vá, qualquer que seja a estranha e perigosa latitude desconhecida em que se encontre, o marujo tem sempre diante dos olhos as mesmas pontes, os mesmos mastros, os mesmos cabos; assim também o soldado tem sempre presentes os mesmos camaradas, as mesmas fileiras, o mesmo sargento Ivan Mitritch, o mesmo cão da companhia. Jutchka (Nome corrente dos cachorrinhos. (N, do T.), os mesmos comandantes. É raro que ao soldado interesse saber em que latitude navega o navio a bordo do qual vai embarcado; mas no momento sente oportuno ressoar nele uma advertência severa e igual para todos, e que vem só Deus sabe donde; é um aviso que lhe faz ressoar no íntimo a aproximação de um momento decisivo e solene, e que nele desperta uma curiosidade a que não está habituado. O soldado no dia da batalha sente-se como que transportado para fora do círculo dos pequenos interesses do seu regimento; ouve, olha, interroga avidamente, quer saber o que está a passar-se em tomo de si.
O nevoeiro tornara-se tão espesso que, apesar da aurora, nada se via a dez passos. Os arbustos pareciam árvores imensas; superfícies planas dir-se-iam cortadas de ravinas e cheias de declives. Por toda a parte, tanto à direita como à esquerda, havia um inimigo invisível, a pequena distância, no qual se podia embater. Mas por muito tempo as colunas foram marchando sempre através do mesmo nevoeiro, subindo e descendo encostas, atravessando jardins e vedações, em terreno novo e desconhecido, sem em parte alguma encontrar inimigos. Pelo contrário, tanto para a frente como para trás, por todos os lados, só se viam tropas russas caminhando na mesma direcção. E o soldado sentia um grande alívio ao verificar que para onde seguia, embora, de resto, ignorasse o seu destino, muitos, muitos dos seus seguiam também.
— Olha, os de Kursk também aí vão — dizia-se nas fileiras. — Eh!, rapazes, o que aí vai de gente nossa! Esta noite, quando se acenderam os fogueiras, não se lhe via o cabo. Palavra, até parecia Moscovo!
Embora nenhum dos comandantes de coluna se aproximasse das fileiras e falasse aos soldados (os comandantes de coluna, como se vira no conselho de guerra, não estavam lá muito bem dispostos, desagradava-lhes a acção iniciada e limitavam-se a executar ordens, sem se preocuparem em reanimar os soldados), estes marchavam alegremente, como sempre que um soldado marcha para a linha de fogo, e sobretudo quando ataca. No entanto, depois de cerca de uma hora de marcha, no meio do nevoeiro, a maior parte dos homens teve de fazer alto e nas fileiras sentia-se a penosa impressão da desordem e da confusão que principiavam a alastrar. Como é que esta impressão se tinha transmitido, eis o que não era fácil de dizer; mas não havia dúvida de que se propagava com segurança, que submergia tudo, insensível e irresistivelmente, como a água que vai inundando um terreno alagadiço. Se as tropas russas estivessem sozinhas no campo de batalha, e não na companhia dos aliados, ter-se-ia passado bastante tempo antes que esta sensação de desordem viesse a transformar-se numa certeza; mas na situação presente, como podiam lançar, com um prazer não dissimulado, e absolutamente legítimo, sobre os imbecis dos alemães a causa da desordem, eis que todos estavam convencidos da existência de uma confusão assaz lamentável devida aos devoradores de salsichas.
— Porque é que eles pararam? Está impedida a estrada? Demos com os Franceses?
— Não, não se ouve nada. Se fossem eles, disparavam.
— Quê? Fizeram-nos levantar arraiais, e agora deixam-nos para aqui no meio do campo, sem que a gente saiba para quê? Estes malditos alemães são uns trapalhões. Que grandes imbecis!
— Cá por mim tinha-os obrigado a ir adiante. Mas é o vais, estão todos lá para trás. E nós para aqui estamos de barriga a dar horas.
— Bom, isto não vai demorar! Dizem que a cavalaria impede o caminho — observou um oficial.
— Quê! Então estes raios destes alemães nem ao menos conhecem a terra deles? — comentou outro.
— A que divisão é que vocês pertencem? — gritou um ajudante-de-campo que nesse momento apareceu.
— A décima oitava.
— Então que fazem vocês aqui? Há que tempo vocês deviam estar lá diante; agora já lá não conseguem chegar antes da noite.
— Chama-se a isto uma estupidez; nem eles próprios sabem o que estão a fazer! — exclamou o oficial, que partiu a galope.
Daí a pouco passou um general, que gritou, furioso, uma ordem numa língua que não era a russa.
— Tafalafa, que está ele para ali a dizer? — arremedou um soldado, imitando o general que se afastava...— Eu mandava fuzilar estes canalhas!
«A ordem era que estivéssemos na nossa posição às nove horas, e ainda nem sequer andámos metade do caminho. Bonita maneira de fazer as coisas!», ouvia-se dizer de vários lados. E a energia com que as tropas se tinham posto em marcha principiava a transformar-se em desalento e cólera contra as ordens estúpidas e contra os Alemães.
A causa da desordem era que quando a cavalaria austríaca entrara em movimento no flanco esquerdo, o alto comando entendera que o centro russo estava muito afastado do flanco direito e fora dada ordem a toda a cavalaria para que atravessasse para o lado direito. Alguns milhares de cavaleiros tinham de passar por diante da infantaria, e esta era obrigada a esperar.
Na linha da frente deu-se um conflito entre um guia de coluna austríaco e um general russo. Este gritava, pedindo que mandasse parar a cavalaria; o austríaco alegava não ser ele o culpado, mas o alto comando. E entretanto as colunas estacionavam, enfadavam-se, perdiam a coragem. Após uma hora de paragem, as tropas retomaram por fim a sua marcha e puseram-se a descer a encosta. O nevoeiro, que se havia dissipado nos cabeços, adensava-se, mais espesso, nos vales onde os soldados iam penetrando. Na frente ressoaram, no meio da neblina, um tiro, depois outro, primeiro irregularmente e com um certo intervalo, «tra.., ta.., ta», depois, mais regularmente e mais nutrido, e uma escaramuça ocorreu nas margens do Goldbach.
Como não esperavam encontrar o inimigo nas margens do rio, era um pouco ao acaso que o atacavam, no meio do nevoeiro, sem uma palavra de encorajamento dos comandantes, com o sentimento, que todos tinham, de que se perdera tempo, e sobretudo sem que se visse fosse o que fosse, nem na vanguarda nem aos lados. Os Russos ripostavam à fuzilaria com lentidão e moleza, avançavam, depois paravam, sem receberem em devido tempo ordens dos comandantes e dos ajudantes-de-campo, que erravam, no meio do nevoeiro, em terreno desconhecido, à procura das suas respectivas secções.
Foi assim que se iniciou a luta na primeira, na segunda e na terceira colunas, as que haviam descido para o vale. A quarta, onde se encontrava Kutuzov, estava ainda no planalto de Pratzen.
Nos pontos mais baixos, onde a acção tinha principiado, o nevoeiro continuava espesso; nas eminências estava mais claro, mas continuava a não poder ver-se o que se passava um pouco adiante. Estariam todas as forças inimigas, como se supunha, a dez verstas daquele ponto, ou encontrar-se-iam naquela linha de bruma? Eis o que ninguém soube antes das nove horas.
A essa hora o nevoeiro alongava-se, como um compacto oceano, pelos vales, mas para os lados de Schlapanitz, na eminência onde estava Napoleão, rodeado dos seus marechais, tudo era claro. O céu ali era azul e sereno e o disco imenso do Sol, como uma formidável bóia flutuante, vermelho-viva, vogava à superfície daquele mar leitoso.
Todo o exército francês, e até o próprio Napoleão, com o seu estado-maior, não só não se encontravam na outra margem do rio e dos pântanos das aldeias de Sokolnitz e Schlapanitz, para lá dos quais os Russos se dirigiam e onde pensavam travar batalha, mas, pelo contrário, achavam-se tão perto que a olho nu o imperador francês podia distinguir tanto a cavalaria como a infantaria russas. Ele ali estava um pouco mais à frente dos seus marechais, montado num pequeno cavalo árabe cinzento, com o seu capote azul, o mesmo com que fizera a campanha de Itália. Contemplava, silencioso, as colinas que pareciam emergir do oceano de neblina e sobre as quais, ao longe, se viam as tropas russas em marcha, e escutava o tiroteio na ravina. Naquele momento riem. Um só músculo da cara lhe estremecia: tinha os olhos brilhantes fixos, imóveis, num único ponto. O que previra resultava certo. Os Russos, por um lado, já desciam para as regiões alagadiças dos pântanos e dos lagos, pelo outro, evacuavam as cumeadas de Pratzen, que era sua intenção atacar, e que considerava a chave da posição. E eis que ele via, através da neblina, no pano de fundo formado pelas duas eminências vizinhas da aldeia de Pratzen, as colunas russas em marcha, todas em direcção aos pântanos, de baionetas caladas, desaparecendo, sucessivamente, no mar de brumas. Segundo as informações recebidas ao fim da tarde, a avaliar pelo ruído dos passos e o fragor das viaturas que se ouviam nos postos avançados durante a noite, pela confusão dos movimentos das colunas russas, seguindo todas as previsões, via claramente que os aliados estavam convencidos de que ele. Napoleão, se encontrava muito longe, na sua vanguarda, e que as colunas em marcha perto de Pratzen formavam naturalmente o centro do exército russo, e que esse centro era já fraco de mais para atacar com êxito. Mas, apesar disso, não se decidia ainda pelo ataque. Aquele dia era para ele uma data solene, o do aniversário da sua coroação. Pela manhã dormira algumas horas, e bem disposto, alegre, repousado, naquela disposição de espírito em que tudo parece possível e em que tudo resulta bem, montou a cavalo e dirigiu-se para o campo. E lá estava, imóvel, os olhos fixos nas cumeadas que se descortinavam através do nevoeiro e no seu rosto frio reflectia-se essa felicidade cheia de confiança e bem ganhada tão própria dos que são novos e felizes ao amor. Os marechais conservavam-se na sua, retaguarda, sem ousarem distrair-lhe a atenção. Napoleão ora olhava para o planalto de Pratzen ora para o Sol, que emergia da bruma.
Quando o Sol surgiu inteiro das nuvens e inundou a campina com a sua estonteante claridade, como se fosse aquele o momento que Napoleão aguardava para dar ordens de ataque, descalçou a luva da sua bela mão branca, fez um aceno aos marechais e deu ordem de principiar. Os marechais, acompanhados pelos seus ajudantes-de-campo, largaram a galope em direcções diferentes e dentro de breves minutos as forças principais do exército francês estavam a avançar rapidamente em direcção às eminências de Pratzen, as quais as tropas russas, que à esquerda desciam para os vales, iam deixando completamente abandonadas.
[XV]
As oito horas. Kutuzov chegou a cavalo a Pratzen, à frente da quarta coluna de Miloravitch, que devia tomar o lugar das colunas de Przebiszewski e de Langeron, que já tinham descido. Depois da continência aos soldados dó regimento da vanguarda, deu ordem de marcha, querendo significar com isso ser sua intenção comandar essas tropas. Assim que chegou à aldeia de Pratzen, fez alto. O príncipe André, na companhia de grande número de personalidades da comitiva do general-chefe, conservava-se na retaguarda. Sentia-se emocionado, irritado, e ao mesmo tempo cheio de serenidade, como um homem que vê chegar o momento há muito esperado. Estava firmemente convencido de que chegara o seu Toulon ou a sua Ponte d’Arcole. Como se iam passar as coisas não sabia, mas com firmeza acreditava que assim tinha de ser. O terreno e a situação das tropas russas conhecia-os ele tão bem ou melhor que qualquer outro oficial. O seu plano estratégico particular, que evidentemente não seria de aplicar naquele momento, fora posto de lado, e actualmente, adoptando o plano de Weirother, considerava os imprevistos que porventura poderiam surgir e formava novas combinações que punham à prova a rapidez do seu golpe de vista e da sua decisão.
A esquerda, lá em baixo, no meio do nevoeiro, ouvia-se tiroteio entre tropas invisíveis. Ali, afigurava-se ao príncipe André, está a concentrar-se a batalha, há ali um obstáculo, e «se me mandassem lá», dizia para si mesmo, «com uma brigada ou uma divisão, eu avançaria à frente, de bandeira em punho, e tudo derrubaria à minha passagem».
A vista dos estandartes dos batalhões que desfilavam não lhe podia ser indiferente. Dizia de si para consigo a todo o momento: «Sim, talvez seja com aquela mesma bandeira que me há-de vir a ser dado marchar diante das tropas.»
O nevoeiro nocturno nas cumeadas deixara apenas pela manhã uma camada de geada, que se ia transformando em orvalho, mas nos vales continuava a alongar-se como um mar de leite. Nada se via na planura à esquerda onde as tropas russas se batiam e donde vinha o eco da fuzilaria. Nas alturas o céu estava claro, mas de um azul carregado, e à direita lá estava n enorme disco do Sol. Em frente, na distância, na margem oposta do mar de brumas, colinas cobertas de matas limitavam o horizonte: ali estavam, sem dúvida, os exércitos inimigos, pois alguma coisa lá se distinguia. A direita, a Guarda penetrava na zona de nevoeiro com um fragor de rodas, um tropear de cavalos, e as baionetas a cintilar furtivamente. A esquerda, por detrás da aldeia, massas de cavalaria aproximavam-se, fundindo-se no nevoeiro. A cabeça e no coice marchava a infantaria, o general-chefe, postado à saída da povoação, via as tropas desfilar diante dele. Naquela manhã Kutuzov parecia irritado e exausto. A infantaria, que desfilava, fez alto sem que ninguém o ordenasse, evidentemente porque na sua dianteira surgira qualquer obstáculo.
— Diga aos homens, enfim, que formem em colunas de batalhão e que contornem a aldeia — gritou Kutuzov, colérico, a um general que apareceu. — Como é que, meu caro senhor, não compreende que não convém formar em fileiras nas ruas de uma aldeia em marcha contra o inimigo?
— Pensava formar através da povoação. Alta Excelência — respondeu o general.
Kutuzov pôs-se a rir com azedume.
— Devia ser bonito o senhor a estender a sua frente à vista do inimigo, sim, devia ser bonito!
— O inimigo ainda está longe. Alta Excelência. Segundo o dispositivo...
— O dispositivo! — gritou Kutuzov de má catadura. — E quem é que lhe disse?... Trate de fazer o que lhe mandam.
— As suas ordens.
— Meu caro — disse, em voz baixa. Nesvitski ao príncipe André —, o velho está insuportável.
Um oficial austríaco, de uniforme branco, com uma pluma verde na barretina, avançou para Kutuzov e perguntou-lhe, da parte do imperador, se a quarta coluna entrara em acção.
Kutuzov, sem responder, voltou a cabeça e por acaso fixou o seu olhar no príncipe André, que estava a seu lado. Ao ver Bolkonski, moderou-se e no seu rosto amenizou-se-lhe a expressão, deixando perceber com isso que o seu ajudante-de-campo não era culpado do que estava a acontecer. Sem se dirigir ao oficial austríaco, disse a Bolkonski:
— Vá ver, meu caro, se a terceira divisão já ultrapassou a aldeia. Diga-lhe que pare e que aguarde as minhas ordens.