Guerra e Paz
Segunda Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Está pílulas, assim o julguei sempre.
— E eu bem o disse — confirmava Ana Pavlovna —, e ainda há pouco repeti diante de toda a gente — insistia, especialmente, na prioridade —, que ele era um rapaz com o cérebro desarranjado, completamente estragado pelas ideias corruptas do século. Já o dizia quando toda a gente lhe cantava hinos, na altura em que ele regressou do estrangeiro. E não sei se se lembram daquela noite em que ele quis armar em Marat. Como é que tudo isto acabou? Desde essa ocasião que fui contrária a tal casamento, e tinha previsto tudo quanto aconteceu.
Ana Pavlovna continuava a organizar soirées, da mesma maneira, nos seus dias livres, e como só ela sabia, e onde se reunia, antes de mais nada, a nata da verdadeira alta sociedade, a fina flor da essência intelectual da sociedade de Petersburgo, como ela própria costumava dizer. Além desta fina selecção de convidados, as suas soirées eram célebres porque primava em apresentar aos convidados em cada uma delas uma nova e interessante personalidade, e que em nenhum outro lado em Petersburgo mais clara e seguramente se podia apreciar a temperatura política dos meios legitimistas da corte.
No fim de 1806, quando foram conhecidos todos os tristes pormenores do desbaratamento por Napoleão do exército prussiano em Iena e Auerstaedt e a capitulação da maior parte dos redutos fortificados, já o exército russo se encontrava na Prússia e principiara a segunda guerra contra o imperador dos Franceses. Ana Pavlovna deu em sua casa uma soirée. A nata da verdadeira sociedade consistia na encantadora e infeliz Helena, abandonada pelo marido, em Mortemart, no sedutor príncipe Hipólito, havia pouco chegado de Viena, em dois diplomatas, na tia, num jovem cujos únicos predicados consistiam em se dizer dele que se tratava de um homem de muito mérito, numa dama de honor promovida pouco antes, e que se fazia acompanhar da mãe, e em mais algumas pessoas de menor notoriedade.
A personalidade que Ana Pavlovna primava em apresentar a seus convidados como novidade da noite era Bóris Drubetskoi, chegado havia pouco a Petersburgo, proveniente do exército prussiano, como correio e ajudante-de-campo de uma muito alta personalidade.
A temperatura que nessa noite acusava ali o termómetro político era a seguinte. «Por mais que os soberanos e os altos postos», dizia-se, «façam por se entender com Bonaparte, a fim de me causar ou de nos causar dissabores e aborrecimentos, a nossa opinião acerca dele não pode modificar-se. Não deixaremos nunca de a este respeito exprimirmos francamente a nossa maneira de ver, e tudo quanto poderemos dizer ao rei da Prússia e aos demais é isto: tanto pior para eles... Tu a quiseste. Georges Dandin, eis tudo quanto nos cabe dizer.» Este o grau de temperatura que atingira em casa de Ana Pavlovna o termómetro político. Quando Bóris, preparado para a apresentação aos convidados, penetrou na sala, quase toda a sociedade estava já reunida, e a conversa, orientada pela dona da casa, girava em tomo das relações diplomáticas da Rússia com a Áustria e da esperança que então lavrava de conseguir-se uma aliança com esse país.
Bóris, no seu elegante uniforme de ajudante-de-campo, galhardo, fresco e rosado, entrou na sala com o seu ar desembaraçado e foi conduzido, como era da praxe, à presença da tia, a quem tinha de apresentar as suas homenagens, misturando-se depois ao grupo principal dos convidados. Ana Pavlovna deu-lhe a beijar a mão seca, apresentou-o a algumas das personalidades que ele não conhecia, esclarecendo-o em voz baixa acerca de cada uma delas.
— O príncipe Hipólito Kuraguine, um rapaz encantador. O Sr. Krug, encarregado de negócios de Copenhaga, um espírito profundo, ou então, simplesmente: O Sr. Shitoff, um homem de muito mérito.
Bóris, durante o período de serviço, graças às diligências de Ana Mikailovna, aos seus gostos particulares e à discrição do seu carácter, conseguira a mais invejável das situações. Era ajudante-de-campo de uma alta personalidade, desempenhara uma importante missão na Prússia e acabava de chegar daquele país como correio. Havia-se iniciado inteiramente naquela disciplina não regulamentada que tanto lhe agradara em O1mutz e de harmonia com a qual um alferes podia ocupar uma posição incomparavelmente muito mais elevada que a de um general, e segundo a qual, para se triunfar na carreira, não havia necessidade de esforço, de trabalho, de coragem, ou de perseverança, mas simplesmente de um talento especial para tratar com os distribuidores de recompensas. E o certo é que ele próprio se surpreendia com os seus rápidos êxitos e com o facto de ver os outros não compreenderem o interesse de semelhantes manobras. Esta revelação transformara por completo a sua existência, as suas relações com os seus conhecimentos anteriores, todos os seus projectos de futuro. Não era rico, mas empregava os seus últimos rublos vestindo-se muito melhor do que os demais. Preferia privar-se de muita coisa que lhe desse prazer a apresentar-se numa carruagem ordinária ou a permitir que o vissem nas ruas de Petersburgo envergando um uniforme velho. Não se relacionava nem procurava relacionar-se senão com as pessoas de posição mais elevada do que a sua e que, por conseguinte, lhe poderiam vir a ser úteis. Adorava Petersburgo e tinha o maior desdém por Moscovo. Era-lhe pouco agradável lembrar-se dos Rostov e do seu entusiasmo de infância por Natacha, e desde que se incorporara no exército nunca mais pusera os pés em sua casa.
Convidado para a soirée de Ana Pavlovna, honra que considerava passo importante na sua carreira, imediatamente compreendera o seu papel e deixara que esta aproveitasse o interesse que ele para ela poderia ter, dedicando-se a observar atentamente cada uma das personagens presentes e a pesar as possibilidades e as vantagens das relações a estabelecer com esta ou com aquela. Sentou-se no lugar que lhe indicaram, ao lado da bela Helena, e apurou o ouvido para a conversa geral.
— Viena considera as bases do tratado tão inaceitáveis que se não poderiam conseguir nem mesmo com uma série de êxitos brilhantes e põe em dúvida os meios que os poderiam proporcionar, É esta a frase textual do gabinete de Viena. — Era assim que falava o encarregado de negócios da Dinamarca.
— A dúvida é que é lisonjeira — replicou o homem de espírito profundo, com um fino sorriso nos lábios.
— É preciso não confundir o gabinete de Viena com o imperador da Áustria — atalhou Mortemart. — O imperador da Áustria nunca pensou numa coisa dessas, só o gabinete é que fala assim.
— Eh! Meu caro visconde — acorreu Ana Pav1ovna. — A Urope... — Pronunciava a Urope sem qualquer razão, julgando utilizar deste modo uma subtileza de linguagem a que se podia dar o luxo falando, como falava, o francês. — A Urope nunca será nossa aliada sincera.
E encaminhou em seguida a conversa para a firmeza e a coragem do rei da Prússia, ria intenção de levar Bóris a entrar em cena,
Este ouvia corri toda a atenção aquele que falava, aguardando sua vez, e de tempos a tempos relanceava a vista à sua vizinha, a bela Helena, a qual, por várias vezes, respondera com um sorriso aos olhares do belo e jovem ajudante-de-campo.
Muito naturalmente, a propósito da situação da Prússia. Ana Pavlovna pediu a Bóris que contasse a sua viagem a Glogau e que dissesse o que pensava do estado do exército prussiano. Bóris, sem se apressar, num francês puro e correcto, expôs alguns pormenores muito interessantes acerca das tropas e da corte, evitando cuidadosamente, em toda a sua exposição, formular uma opinião pessoal sobre os factos que relatava. Durante algum tempo monopolizou a, atenção geral, e Ana Pavlovna Pôde verificar que os seus convidados muito apreciavam a novidade que ela lhes oferecia. Helena, mais do que ninguém, prestou atenção a conversa de Bóris. Por várias vezes o interrogou sobre as suas viagens e pareceu muito preocupada com a situação do exército prussiano. Quando Bóris se calou, virou-se para ele com o seu sorriso habitual:
— É absolutamente indispensável que venha, a minha casa — disse-lhe, num tom que podia fazer acreditar que, mercê de certas combinações misteriosas para ele, a sua visita era imprescindível.
— Terça-feira, entre as oito e as nove. Dar-rne-á grande prazer.
Bóris deu-se pressa em prometer-lhe que estava à sua disposição e preparava-se para uma longa conversa quando Ana Pavlovna chamou Helena com, o pretexto de que a tia desejava ouvir as histórias do militar.
— Conhece o marido dela, não é verdade? — disse Ana ao oficial, assumindo um ar de mistério e assinalando, com um gesto, a bela Helena. — Ah!, que encantadora e infeliz mulher! Não fale no nome dele diante dela, peço-lhe, não fale no nome dele! É muito penoso para ela,
[VII]
Quando Bóris e Ana Pavlovna se acercaram novamente do grupo, o príncipe Hipólito era o centro da conversa. Chegando-se para a borda da poltrona em que se sentava, pronunciou: O rei da Prússia!, e pôs-se a rir. Toda a gente se voltou para o seu lado.
— O rei da Prússia! — repetiu; depois voltou a rir e tomou a enterrar-se na sua poltrona, retomando o seu ar sério e calmo. Ana Pavlovna aguardou alguns instantes e, vendo que decididamente Hipólito nada mais dizia, pôs-se a contar como esse ímpio do Bonaparte roubara em Potsdam a espada de Frederico-o-Grande.
— É a espada de Frederico-o-Grande que eu... — ia a dizer, mas Hipólito interrompeu-a.
— O rei da Prússia... — e mais uma vez, quando toda a gente se mostrava já atenta às suas palavras, não teve mais que dizer e calou-se.
Ana Pavlovna mostrou uma expressão descontente. Mortemart, o amigo de Hipólito, disse-lhe bruscamente:
— Vejamos, que aconteceu ao vosso rei da Prússia?
Hipólito pôs-se a rir como se se sentisse embaraçado.
— Não, não é nada, eu queria apenas dizer... — Pensava repetir um gracejo que ouvira em Viena e para que procurara toda a noite um a-propósito.— Eu apenas queria dizer que é disparate fazermos a guerra pelo rei da Prússia.
Bóris pôs-se a sorrir com circunspecção, de modo a que o seu sorriso pudesse ser interpretado ao mesmo tempo como censura ou como aprovação, consoante a maneira como o gracejo viesse a ser recebido. Todos se puseram a rir.
— É mau o seu trocadilho, espirituoso, mas injusto — disse Ana Pavlovna, ameaçando-o com o dedo. — Nós não fazemos a guerra pelo rei da Prússia, mas pelos bons princípios. Ah!, que mau este príncipe Hipólito!
Durante toda a noite nunca mais a conversa se esgotou, abordando principalmente boatos políticos. Mas foi sobretudo no fim que mais se animou, quando se falou das recompensas concedidas pelo imperador.
— Se N. N, recebeu o ano passado uma tabaqueira com o retrato — disse o homem de espírito profundo —, porque é que S. S, não poderá receber uma igual?
— Peço perdão, uma tabaqueira com o retrato do imperador é uma recompensa, não uma distinção— replicou o diplomata — ou antes um presente.
— Houve antecedentes, citar-lhe-ei Schwarzenberg.
— É possível — objectou uma terceira pessoa.
— Aposto. A grã-cruz é diferente...
Quando se levantaram para partir. Helena, que tinha falado muito pouco durante toda a noite, renovou junto de Bóris o pedido que lhe fizera, ou, antes, a ordem amável e instante para que viesse vê-la na terça-feira seguinte.
Quando no dia aprazado, pela noite. Bóris entrou no sumptuoso salão de Helena, não pôde compreender de princípio, claramente, a necessidade que ela tivera de o ver. Outras pessoas da sociedade estavam presentes, e a condessa poucas palavras lhe dirigiu. Apenas quando ele se despediu, beijando-lhe a mão, ela lhe segredou, em voz muito baixa, deixando nesse momento, estranhamente, de sorrir: Venha jantar amanhã... à noite. É preciso que venha... Venha.
Durante aquela sua primeira estada em Petersburgo. Bóris tomou-se íntimo da condessa Bezukov.
[VIII]
A guerra reacendia-se e o teatro das operações aproximava-se das fronteiras russas. Por toda a parte se ouvia clamar contra Bonaparte, o inimigo do género humano. Milícias e recrutas agrupavam-se pelas aldeias, e do teatro da guerra chegavam notícias contraditórias, falsas, como sempre, e por isso mesmo interpretadas de maneiras completamente diferentes.
A vida do velho príncipe Bolkonski, do príncipe André e da princesa Maria mudara muito de 1805 para cá.
Em 1806, o velho príncipe fora designado para o cargo de um dos oito chefes da milícia nomeados para toda a Rússia. Apesar da sua decrepidez, que muito se acentuara durante o período em que supusera o filho morto, julgou de seu dever não recusar as funções que o imperador em pessoa lhe confiara, e esta actividade nova que se lhe oferecia ajudava-o a recuperar a coragem e o vigor. Andava continuamente a girar pelos três distritos que tinha a seu cargo. Cumpria escrupulosamente as suas obrigações. Era severo, quase cruel, para com os subordinados, e descia aos mais pequenos pormenores da sua tarefa. A princesa Maria deixara de dar lições de Matemática com o pai e só penetrava no gabinete do ancião pela manhã, acompanhada da ama e do principezinho Nicolau, como lhe chamava o avô, quando o velho príncipe estava em casa. A criança, corri a ama e Savichna, a velha criada, ocupavam os aposentos da falecida princesa, e Maria passava a, maior parte do tempo ao pé do sobrinho, procurando substituir o melhor que podia a mãe do pequenino. Mademoiselle Bourienne parecia também apaixonadamente afeiçoada à criança e a princesa Maria, privando-se muitas vezes dessa alegria, deixava à amiga a satisfação de ameigar o seu anjinho, como ela dizia, e de brincar com ele.
Junto do altar da igreja de Lissia Gori tinham mandado levantar um oratório sobre o túmulo da princesinha, e aí haviam erguido um monumento de mármore, encomendado em Itália, que representava um anjo de asas abertas pronto a esvoaçar. Este anjo tinha o lábio superior um pouco soerguido, como se fosse sorrir, e um dia André e a irmã, ao saírem do oratório, verificaram — coisa curiosa — que aquele rosto lembrava o da finada. Mas, mais estranho ainda, coisa que André não confessou a Maria, é que ele encontrava nos traços que o artista por acaso dera à fisionomia a mesma expressão de lamentosa queixa que ele próprio lera no rosto da mulher morta. — «Ah!, porque me trataram assim?...»
Pouco tempo depois do seu regresso, o velho príncipe atribuíra ao filho a parte que lhe competia na herança e dera-lhe Bogutcharovo, domínio importante situado a quarenta verstas de Lissia Gori. Ou fosse por causa das penosas lembranças que andavam ligadas a esta casa, ou porque não pudesse suportar por mais tempo o carácter do pai, ou ainda porque tivesse necessidade de solidão, o príncipe André tomara conta da sua nova propriedade, onde mandara fazer obras, e lá passava a maior parte do seu tempo.
Depois da campanha de Austerlitz o príncipe André tornara a resolução de não voltar a servir no exército. Quando a guerra recomeçou e que toda a gente teve de partir, para não reingressar no serviço activo passou a desempenhar funções, sob as ordens paternas, no engajamento das milícias. O pai e o filho, depois da campanha de 18O5, parecia terem trocado as suas opiniões mútuas relativamente aos acontecimentos. O velho príncipe, esporcado pela sua nova actividade, esperava os melhores resultados da campanha em marcha; André, pelo contrário, que não tomava parte na guerra, e a deplorava secretamente, via tudo sob a mais negra perspectiva.
No dia 26 de Fevereiro de 1807 o velho príncipe partiu para uma inspecção. André, como em geral era seu costume, durante as ausências do pai, ficou em Lissia Gori. Havia já três dias que o pequeno Nicolau não passava bem de saúde. Os cocheiros que tinham conduzido o velho príncipe regressaram trazendo da cidade cartas e papéis para o príncipe André.
O criado de quarto, com as cartas, não o encontrando no gabinete, dirigiu-se aos aposentos da princesa Maria, onde também o não encontrou. Disseram-lhe que estava no quarto do filho.
— Com sua licença. Excelência, está ali o Petruchka, com uns papéis — disse uma das criadas ao príncipe André, que se havia sentado numa cadeirinha de criança e, de mãos trémulas e sobrancelhas carregadas, vertia o conteúdo de um frasco num copo meio de água.
— Que é? — perguntou, contrariado, e um seu movimento involuntário fez com que despejasse algumas gotas a mais. Lançando tudo fora, voltou a pedir água. Uma criada veio trazer-lha.
No quarto havia uma cama de criança, duas arcas, duas poltronas, uma mesinha, um guéridon e uma cadeira pequena, aquela precisamente em que o príncipe André se sentava. Os cortinados estavam repuxados e havia apenas uma vela acesa em cima da mesa, por detrás de um caderno de música, para que a luz não incidisse sobre a cama.
— Meu amigo — disse-lhe Maria, que estava ao pé do doentinho —, espera um bocado... é melhor assim.
— Ah, por amor de Deus, estás sempre a dizer disparates — replicou o príncipe André, em voz baixa, e em tom irritado, na, intenção evidente de ferir a irmã.
— Meu amigo, era melhor não o acordar, ele adormeceu — voltou ela, num tom insistente.
André ergueu-se e em bicos de pés aproximou-se do leito com a poção que deitara no copo.
— Achas realmente que o não devemos acordar? — interrogou ele, indeciso.
— Como tu quiseres — realmente.., eu supunha.., mas, como tu quiseres — acrescentou a princesa Maria, vergonhosa de ver que a sua opinião triunfava. Chamou-lhe a atenção para a criada, que continuava à espera.
Era a segunda noite que passavam à cabeceira da criança, que ardia em febre. Durante aquelas quarenta e oito horas, em que, muito pouco confiantes no médico da casa, haviam mandado chamar outro à cidade, tinham experimentado tudo. Moídos pela insónia e pela inquietação, atiçavam um contra o outro o seu mal-estar, dirigindo-se mutuamente censuras.
— Petruchka está ali com uns papéis que vêm da parte do pai de Vossa Excelência — disse a criada em voz baixa.
O príncipe André saiu.
— Ah!, chega em boa hora! — exclamou, e, depois de receber as instruções orais que o pai lhe transmitia pelo criado, bem como as cartas, voltou para junto do filho.
— E então? — perguntou.
— Na mesma. Espera, peço-te. Karl Ivanitch está sempre a dizer que o sono é o melhor dos remédios — murmurou Maria. André aproximou-se da cama e tomou o pulso da criança. A sua mãozinha escaldava,
— Que vão passear, tu e o teu Karl Ivanitch! — Foi em busca da poção e voltou para junto do leito.
— André, não faças isso! — implorou a irmã.
Franziu o sobrolho, colérico, e, como se olhar para ela o fizesse sofrer, debruçou-se para a criança com o copo na mão.
— Exijo-o — disse. — Vamos, dá-lhe tu o remédio.
Maria encolheu os ombros, mas, pegando, submissa, na poção, procurou ministrar-lha com a ajuda da criada. A criança chorava e engasgava-se. André, com as mãos na cabeça, saiu do quarto e foi sentar-se na sala contígua.
Continuava com as cartas fechadas na mão. Abriu-as, maquinalmente, e pôs-se a ler. O velho príncipe, em papel azul, no seu miúdo cursivo, aqui e ali recorrendo a uma abreviatura, escrevia-lhe nos seguintes termos:
Acabo de saber, por um correio, uma feliz nova, caso
não se trate de invenção. Bennigsen, segundo se diz, teria desbaratado Bonaparte em Eylau. Em Petersburgo o entusiasmo é geral e as recompensas chovem sobre o exército. Embora se trate de um alemão, felicito-o. Não sei
o que tem feito o comandante de Kortchevo, um tal Kandrikov; até à data ainda não conseguimos receber reforços nem víveres. Vai imediatamente procurá-lo e diz-lhe que lhe farei saltar os miolos se dentro de oito dias — não tiver em meu poder o que é preciso. Voltei a receber carta de Petienka, na qual me fala da batalha de Preussisch-Eylau; tomou parte nela, é tudo verdade. Quando as pessoas se não metem naquilo a que não são chamadas, até mesmo um alemão é capaz de bater Bonaparte. Diz-se que bateu em retirada em completa desordem. Não te esqueças: dirige-te sem delongas a Kortchevo e cumpre as minhas ordens!
Soltando um suspiro, o príncipe André abriu a segunda carta. Era de Bilibine: duas páginas numa caligrafia miúda. Voltou a dobrá-la sem a ler e recomeçou a carta do pai, que terminava: «dirige-te sem delongas a Kortchevo e cumpre as minhas ordens!»
«Não, queira desculpar, não irei enquanto o meu filho não estiver restabelecido», disse ele para consigo mesmo e encaminhou-se para a porta na intenção de ver o que se passava no quarto da criança.
Maria continuava junto da cama, embalando o pequeno com toda a suavidade.
«É isto mais uma notícia desagradável para mim», pensava, rememorando a carta do pai. «Sire, os nossos derrotaram Bonaparte agora, precisamente quando eu já não estou em armas. É verdade, é verdade, o destino está sempre a troçar de mim... Pois seja, faça-se a sua vontade!...» E pôs-se a ler a carta, escrita em francês, que lhe enviava Bilibine. Olhava para as linhas sem perceber metade do que lia e fazia-o apenas para, por momentos, deixar de pensar no que por demasiado tempo o havia exclusivamente atormentado.
[IX]
Bilibine encontrava-se nesse momento adido ao quartel-general, na condição de diplomata, e na sua carta, com seus gracejos e seus boleios à francesa, descrevia toda a campanha, usando uma franqueza bem russa, franqueza essa que não recuava nem diante dos juízos pessoais nem diante da própria zombaria. Dizia pesar-lhe a discrição diplomática e sentir-se feliz por ter alguém como André a quem escrever, pessoa com quem não se importava de se abrir, derramando toda a bílis acumulada desde que via o que se estava a passar no exército. A carta, de data já não muito recente, era anterior à batalha de Preussisch-Eylau,
Desde o nosso grande êxito de Austerlitz, como sabe,
meu caro príncipe, que não mais me separei dos quartéis-generais. Pelo que se vê, tomei gosto à guerra, e estou-lhe no papo. É inacreditável o que vi durante estes três meses.
Começo ab ovo. O inimigo do género humano, como
sabe, atara os Prussianos. Os Prussianos são aqueles nossos fiéis aliados que em três anos apenas nos enganaram três vezes. Damos por eles o corpo ao manifesto. Mas, ao que parece, o inimigo do género humano não quer saber dos nossos lindos discursos, e, com o seu modo impolido e selvagem, lança-se sobre os Prussianos sem lhes dar tempo de terminarem a parada e num abrir e fechar de olhos deixa-os a deitar a língua pela boca fora e trata de se instalar no Palácio de Potsdam.
«Desejo ardentemente», escreve o rei da Prússia a
Bonaparte, «que Vossa Majestade sela recebido e tratado no meu palácio da maneira que mais lhe agradar, e nessa intenção tomei todas as medidas que as circunstancias me permitem. Oxalá o tenha conseguido! Os generais prussianos primam em ser corteses para com os Franceses e depõem as armas à, primeira intimação.»
O comandante da guarnição de Glogau, com dez mil
homens sob o seu comando, pergunta ao rei da Prússia o que deve fazer caso seja intimado a render-se... Tudo isto são factos reais.
Numa palavra, esperando apenas impor-nos pela nossa
firme atitude militar, eis-nos em guerra a valer, e, o que é pior, em guerra nas nossas próprias fronteiras com e pelo rei da Prússia. Tudo está a postos, falta-nos apenas uma coisa sem importância — o general-chefe. Como se chegou à conclusão de que o êxito de Austerlitz teria sido mais decisivo se o general-chefe fosse menos jovem, passa-se revista aos octogenários, e, entre Prozorofski e Karrienski, escolhe-se o último. O general chega-nos em kibjk à moda de Suvorov, e é acolhido com manifestações no meio de aclamações de alegria e triunfo.
No dia 4 chega o primeiro correio de Petersburgo.
Transportam as malas para o gabinete do marechal, que gosta de fazer tudo pelas suas próprias mãos. Chamam-me para ajudar à distribuição das cartas e tornar conta das que nos são destinadas. O marechal segue o nosso trabalho e aguarda os despachos que lhe são dirigidos. Procuramos; nem um.
O marechal impacienta-se, ele próprio decide procurar
e encontra cartas do imperador para o conde T., para o príncipe V, e quejandos. Então, ai o ternos num dos seus ataques de fúria negra. Despede raios e coriscos contra toda a gente, apodera-se das cartas, abre-as, e lê as que o imperador endereça a outros. «Ah! É assim que se comporta para comigo? Não tem confiança em mim! Ah! Dá instruções para me espiarem. Fora daqui!» E ei-lo que redige a famosa ordem do dia para o general Bennigsen:
«Estou ferido, não vosso montar a cavalo e portanto
comandar o exército. O senhor levou o seu corpo de exército derrotado para Pultusk, onde este se encontra sem lenha e sem forragens e desprovido do necessário, por isso, como ainda ontem o disse ao conde Boekshevden, é preciso retirar para a nossa fronteira, o que tem de fazer-se hoje Mesmo.»
«As minhas expedições a cavalo», escreveu ao
imperador, <provocaram-me uma ferida proveniente do abuso da sela, o que, além de outros inconvenientes, me impede por completo de montar e comandar um exército da importância deste; eis porque confiei o comando ao general mais antigo, o conde Boeksheden, transmitindo -lhe todos os serviços, e aconselhei-o a que, no caso de lhe faltarem mantimentos, se retirasse para mais perto de nós, para o interior da Prússia, visto que não há pão para mais de vinte e quatro horas e nalguns regimentos já acabou de todo; foi isso, pelo menos, o que declararam os comandantes de divisão Ostermann e Siedmorietski, e nos lares dos camponeses tudo foi devorado. Quanto a mim, aguardando o meu restabelecimento, fico no hospital de Ostrolenko. Ao transmitir, com data de hoje, o presente relatório a Vossa Majestade, tenho a honra de lhe participar que, se o exército permanecer ainda quinze dias no seu actual acampamento, quando chegar a Primavera não restará um só soldado válido.
«Permita Vossa Majestade que um velho se retire para
o campo, levando consigo a vergonha de não ter podido cumprir o grande e glorioso destino para que fora escolhido. Aguardarei aqui, no hospital, a vossa muito augusta autorização, para que não venha a desempenhar no exército o papel de ‘escriba’ em vez do de chefe. A minha retirada do exército não produzirá a mais ligeira sensação — é um cego que se retira do exército, nada mais. Homens como eu encontram-se na Rússia aos pontapés.»
O marechal zangou-se com o imperador e castigou-nos a
todos; não é lógico?
E aqui tem o primeiro acto. No acto seguinte, o
interesse e o absurdo crescem, como é natural. Depois da partida do marechal, chegou-se à conclusão de que nós estávamos à vista do inimigo e era preciso travar batalha. Boekshevden é general-chefe por antiguidade, mas o
general Bennigsen não é dessa opinião, tanto mais que, estando com o seu corpo de exército diante do inimigo, quer aproveitar a ocasião para uma batalha «aus eigener Hand» (Por suas próprias mãos. (N, dos T.), como dizem os Alemães. E teve-a. Foi a batalha de Pultusk, que tem sido considerada uma grande vitória, mas que, na minha opinião, de vitória nada tem. Nós, civis, temos, como sabe, o mau hábito de decidir quando uma batalha é uma vitória ou uma derrota. O que se retira depois do combate é, em nossa opinião, aquele que a perdeu, e foi por isso que nós perdemos a batalha de Pultusk. Em resumo, retirámos no fim da batalha, mas enviámos um correio a Petersburgo com a notícia de uma vitória, e o general não cede o comando em chefe a Boekshevden na esperança de receber de Petersburgo, em reconhecimento da sua vitória, o título de general-chefe. Durante este interregno iniciámos um plano de manobras extremamente interessante e original. A nossa finalidade não consiste, como seria de esperar, em evitar o inimigo ou atacá-lo, mas unicamente em evitar o general Boekshevden, o qual, por direito de antiguidade, seria o nosso chefe. Visamos este objectivo com tanta energia que até mesmo quando atravessamos um rio não vadeável queimamos as pontes para cortarmos a ligação com o nosso inimigo, o qual, de momento, não é Bonaparte, mas Bockshevden. Este livrou-se de ser atacado e aprisionado por forças inimigas superiores graças a uma das nossas belas manobras, que nos livrava dele. Boekshevden persegue-nos, fugimos. Assim que ele atravessa para a margem do rio onde nós estamos, nós passamos para a margem contrária. Finalmente, o nosso inimigo Boekshevden apanha-nos e ataca-nos. Os dois generais zangam-se. Chega mesmo a haver um desafio para duelo da parte de Boekshevden e um ataque de epilepsia da parte de Bennigsen. Mas, no momento crítico, o correio
que leva a notícia da nossa vitória de Pultusk traz-nos de Petersburgo a nomeação do general-chefe, e o primeiro inimigo. Boekshevden, está liquidado: podemos pensar agora no segundo. Bonaparte. Mas então acontece que nesse momento se ergue diante de nós um terceiro inimigo, o exército ortodoxo, que pede, clamando, pão, carne, suchari, feno, que sei eu! Os armazéns estão vazios, os caminhos impraticáveis. O exército ortodoxo lança-se na pilhagem e de maneira tal que o que viu na última campanha lhe não pode dar a mais pequena ideia do que se está a passar. Metade dos regimentos forma tropas livres, as quais percorrem o país levando tudo a ferro e fogo. Os habitantes estão completamente arruinados, os hospitais transbordam de doentes e a fome grassa por toda a parte. O quartel-general já por duas vezes foi atacado por bandos de salteadores e o próprio general-chefe viu-se obrigado a pedir o auxílio de um batalhão para correr com eles. Aquando um desses ataques levaram-me a minha mala vazia e o meu roupão. O imperador quer conceder a todos os comandantes de divisão autorização para fuzilar os salteadores, mas tenho o meu receio de que esta medida venha a obrigar metade do exército a fuzilar a outra metade.
De princípio, o príncipe André limitara-se a deixar errar os olhos pela carta, mas, depois, sem dar por isso, e embora conhecesse o grau de veracidade que devia atribuir às asserções de Bilibine, sentiu-se cada vez mais interessado pela leitura. Ao chegar a este ponto amarfanhou a carta e deitou-a fora.
O que o irritava não era o que ela dizia, mas o sentir que o que estava a ocorrer no teatro da guerra, e que lhe era estranho, o podia emocionar àquele ponto. Fechou os olhos, passou a mão pela testa, como para afastar as preocupações que a sua leitura lhe despertara, e apurou o ouvido para o que estava a acontecer no quarto do filho. De súbito pareceu-lhe ouvir atrás da porta um ruído estranho. Invadiu-o uma onda de terror; teve medo de que o estado da criança se tivesse agravado enquanto estivera entretido na leitura. Aproximou-se da porta em bicos de pés e abriu-a.
Nesse momento viu que a velha criada, com ar apavorado, escondia qualquer coisa e que Maria já não estava junto da cama.
— Meu amigo — murmurou por detrás dele a voz da irmã, com um acento, assim se lhe afigurou, verdadeiramente desesperado.
Como acontece muitas vezes depois de uma longa insónia e de violentas inquietações, assenhoreou-se dele um terror irracional; convenceu-se de que o filho estava morto. Tudo quanto via e ouvia parecia confirmar o seu pavor.
«Acabou tudo», pensou, e um suor frio lhe cobriu a testa. Como louco, aproximou-se do pequeno leito, persuadido de que o ia encontrar vazio, de que a criada escondera a criança morta. Afastou os cortinados, e durante algum tempo os seus olhos nada puderam distinguir. Por fim viu a criança: as faces vermelhas, a cabeça mais baixa do que a almofada. Mamava em sonhos e respirava com toda a regularidade. Ao vê-la, o príncipe André, tanto mais alegre quanto era certo estar persuadido de que a tinha já perdido, debruçou-se, e, à semelhança do que vira fazer à irmã, chegou os lábios à fronte do filho para se certificar se ele teria febre. A tenra pele estava húmida; tacteou-a com a palma da mão, até os cabelos escorriam, tão abundante era a transpiração. Não só não estava morto, como era evidente ter o principezinho vencido a crise e que recuperara a saúde. André teria querido agarrar, estreitar contra o seu coração aquele serzinho delicado, mas não ousou. Ali ficou, de olhos fitos naquela cabecinha, naquelas mãozinhas, naquelas perninhas que se desenhavam debaixo das roupas. O sussurro de um vestido ouviu-se junto dele e uma sombra apareceu sob o cortinado da cama. André não se voltou, continuando, de olhos fitos na criança, a ouvir a sua respiração compassada. A sombra era da princesa Maria, que, em passos muito leves, se havia aproximado e soerguera o cortinado. O príncipe, sem voltar a cabeça, reconheceu-a e estendeu-lhe a mão, que ela apertou nas suas.
— Está a transpirar — disse ele.
— Era isso que eu te vinha dizer.
A criança, a dormir, agitou-se ligeiramente, sorriu e comprimiu a testazinha de encontro à almofada.
André olhou para a irmã. Os luminosos olhos de Maria, na penumbra dos cortinados, brilharam mais do que habitualmente, cheios de lágrimas felizes. Inclinou-se para o irmão e beijou-o, suspendendo-se ligeiramente nas sanefas do leito. Receosos de acordar o doentinho, assim ficaram, na meia luz dos cortinados, sem poderem apartar-se daquela intimidade em que os três formavam como que um mundo à parte de tudo o mais. Foi André quem primeiro se afastou, despenteando os cabelos na musselina dos cortinados.
«Sim, é tudo quanto me resta», murmurou ele para si mesmo, num suspiro.
[X]
Pouco depois da sua admissão na confraria maçónica. Pedro, munido de um memorial completo, propositadamente escrito para ele, de tudo quanto era necessário fazer-se nos seus domínios, foi-se de longada para, o distrito de Kiev, onde vivia a maior parte dos seus servos.
Chegado que foi, mandou convocar para a «contadoria» principal todos os seus intendentes, a quem expôs as suas intenções e os seus desígnios. Disse-lhes que deveriam tomar imediatamente medidas tendentes à emancipação completa dos seus camponeses, e que de então até essa data estes não deveriam ser sobrecarregados de trabalho, que as mulheres e as crianças seriam dispensadas de tarefas pesadas, que era necessário prestar-lhes auxílio, que os castigos corporais passariam a ser substituídos por repreensões orais e que em cada um dos seus domínios se organizariam hospitais, asilos e escolas. Alguns dos seus intendentes, e entre eles havia vários quase analfabetos, ouviam-no aterrorizados, interpretando as palavras do jovem conde como se elas quisessem dizer que ele não estava contente com a sua administração e não desconhecia os roubos de cada um; outros, depois de um momento de pânico, puseram-se a achar graça às intenções do amo e às palavras novas que nunca tinham ouvido; outros ainda escutavam-no com prazer, e outros finalmente, os mais inteligentes, a cujo número não pertencia o intendente-geral, perceberam, pelo que lhe ouviam, qual a atitude que teriam de tomar para com ele para melhor conseguirem os seus fins.
O intendente-geral disse da sua grande simpatia pelos projectos do amo, mas não sem deixar de lhe observar quão necessário lhe seria, à parte estas transformações, ocupar-se dos próprios bens, em vista do mau estado dos negócios.
Apesar do enorme património do conde Bezukov, depois que a herança lhe viera parar às mãos e com ela, segundo se dizia, os quinhentos mil rublos de rendimento, o certo é que ele se encontrava muito menos rico do que quando recebia os dez mil rublos de pensão que o pai lhe dava. Nas suas linhas gerais, o orçamento do novo conde Bezukov era este, pouco mais ou menos: pagava ao conselho pela totalidade dos seus domínios cerca de oitenta mil rublos; a manutenção da sua propriedade próxima de Moscovo, da sua casa da mesma cidade e os encargos com as dispendiosas mesadas às princesas orçavam por trinta mil rublos: as pensões elevavam-se a quinze mil e as obras de beneficência a mesma coisa, aproximadamente. Cento e cinquenta mil eram pagos à condessa para a sua manutenção. Pagava, de juros de dívidas contraídas, cerca de setenta mil rublos. A construção de uma igreja ainda em obras tinha-lhe absorvido nos dois últimos anos perto de dez mil rublos. E o restante, cerca de cem mil, era despendido nem ele sabia como, de tal sorte que todos os anos se via obrigado a contrair novas dívidas. Além disso, constantemente o intendente— geral lhe escrevia a dar-lhe parte de incêndios, de más colheitas, de reparações em armazéns e prédios. E eis que a primeira tarefa que se impunha a Pedro era aquela para que ele tinha menos aptidão e gosto: cuidar dos seus próprios interesses.
Todos os dias Pedro trabalhava com o seu intendente— geral. Mas cedo percebeu que não passava da cepa torta. Dava-se conta de que a actividade que desenvolvia era em pura perda, que os negócios lhe escapavam das mãos e que, por isso mesmo, não os via progredir. Por um lado, o intendente expunha-lhe as coisas sob a sua pior luz, mostrando-lhe a necessidade de pagar as dívidas e de empreender novos trabalhos com a ajuda dos servos, e nisso não queria Pedro ouvir falar. Por outro, exigia que se apressasse a emancipação, ao que o intendente opunha a necessidade de pagar antes a dívida ao conselho de tutela, o que tornava impossível a realização imediata dos projectos do amo.
O intendente não declarava ser completamente impossível a sua efectivação: para conseguir este objectivo propunha se vendessem as florestas do distrito de Kostroma, as terras do Baixo Volga e o domínio da Crimeia. Mas estas operações, na sua opinião, eram tão complicadas, implicavam tanta papelada, tantos embargos, tantas intimações, tantos éditos dos tribunais, tantas autorizações que Pedro perdia a cabeça e contentava-se em responder-lhe: «Bem, bem, anda para diante.»
Faltava a Pedro esse espírito prático e essa tenacidade que lhe teriam permitido tomar conta ele próprio de todos os seus negócios. Mas, como esse trabalho lhe repugnava, contentava-se em fingir, diante do intendente, estar interessadíssimo por ele. Quanto ao intendente, esse procurava dar-lhe a impressão, na sua presença, de considerar todos esses trabalhos da mais alta importância para ele, seu amo, enquanto que para si os considerava aborrecidíssimos.
Na grande cidade encontrou pessoas conhecidas. Os desconhecidos davam-se pressa em relacionar-se com ele e cumulavam de amabilidades esse ricaço da última hora, o mais importante proprietário do distrito. Aquilo que ele confessara ser a sua maior fraqueza aquando da admissão na loja maçónica tentou-o tão fortemente que lhe foi impossível resistir. Passou de novo dias, semanas, meses completamente absorvido pelas recepções, pelos almoços, pelos bailes, sem tempo de se refazer, tal qual como em Petersburgo. Em lugar da vida nova que esperava recaiu na antiga, só com a diferença de ser noutras condições.
Não tinha outro remédio senão reconhecer que de entre as três obrigações impostas pela franco-maçonaria não cumpria aquela segundo a qual cada mação deve ser um modelo no ponto de vista moral e que das sete virtudes requeridas não possuía duas: os bons costumes e o amor da morte. Ia-se consolando convencendo-se intimamente de que cumpria a outra obrigação, isto é, o interesse pela melhoria das condições de vida do género humano e que era detentor de outras virtudes: o amor do próximo e principalmente a generosidade.
Na Primavera de 1807 decidiu regressar a Petersburgo. Pensava percorrer durante a viagem todos os seus domínios e verificar pessoalmente em que pé se encontravam as ordens que dera e em que situação se achava nesse momento aquele povo que Deus lhe havia confiado e que ele se esforçava por cumular de benesses.
O intendente, a cujos olhos todos os projectos do moço conde não passavam de rematada loucura, ao mesmo tempo prejudicial para si, para o proprietário e para os camponeses, viu-se obrigado, no entanto, a fazer certas concessões. Embora persistisse em considerar impossível a emancipação dos servos, tomou medidas, em virtude da próxima visita do amo, no sentido de mandar construir em todos os domínios grandes barracões, que serviriam de escolas, hospitais e asilos. Por toda a parte preparou recepções de que eram excluídas a solenidade e a pompa, pois sabia que não agradavam a Pedro. Mas pensou que manifestações de carácter religioso, com acompanhamento de imagens e oferendas de pão e sal, prova do reconhecimento dos camponeses, essas deviam, na sua maneira de compreender o amo, influir sobre ele e impressioná-lo.
A Primavera naquelas paragens do Sul, uma viagem rápida e confortável na sua caleça vienense, a solidão da estrada — tudo isso foi de efeito feliz no animo de Pedro. Os domínios que ele ainda não tinha visitado eram todos muito pitorescos. Por toda a parte os camponeses pareciam prósperos e em extremo reconhecidos pelos benefícios recebidos de tal modo era acolhido por todos os seus servos. Conquanto essa recepção calorosa o enchesse de confusão, dava-lhe no fundo da sua alma uma grande alegria. Um certo lugar os camponeses apresentaram-lhe o pão e o sal com uma imagem de S. Pedro e S. Paulo, e pediram-lhe licença, em honra daqueles santos patronos e em testemunho de amor e reconhecimento pelos benefícios recebidos, para erguerem, a expensas suas, uma nova capela na igreja. Além disso, mães, com seus filhos de peito, vieram ao seu encontro agradecer-lhe tê-las poupado a trabalhos penosos. Ainda noutro lugar aguardava-o um padre, de cruz alçada, rodeado de um bando de crianças a quem, graças ao conde, ele ensinava catequese e a ler e escrever. Em todos os seus domínios Pedro pôde ver, com seus próprios olhos, dependências de alvenaria em construção, ou já concluídas, todas segundo uma planta única: hospitais, escolas, hospícios, que deveriam estar prontos num prazo relativamente curto. Por toda a parte lhe foi dado ver, graças aos relatórios dos feitores, que o trabalho fora diminuído e ouvia como— vedoras provas de reconhecimento da boca dos próprios camponeses que vinham ao seu encontro, em delegações, com seus cafetãs azuis na cabeça.
Ignorava porém que a aldeia onde lhe tinham apresentado o pão e o sal e onde se pretendia erguer uma capela a S. Pedro e S. Paulo era uma povoação mercantil com feira pelo S. Pedro e que aquela capela de há muito fora começada pelos ricaços locais, esses mesmos que se lhe haviam apresentado em delegação, quando o certo é que nove décimos dos camponeses se achavam na mais completa miséria,
Ignorava que desde que tinham deixado de mandar executar trabalhos pesados às mães com filhos de colo, essas mesmas mulheres se viam obrigadas a suportar, dentro de casa, um trabalho tanto ou mais penoso que o que faziam fora dela. Ignorava que o padre que o recebera de cruz alçada oprimia os paroquianos obrigando-os a pagar dízimos em espécie e que os alunos reunidos à sua volta lhe tinham sido confiados entre lágrimas, e que se seus pais os quisessem reaver teriam de pagar avultadas somas. Desconhecia que as construções de pedra, consoante os seus planos, haviam sido feitas pelos próprios camponeses, o que lhes agravara as tarefas, apenas suavizadas no papel. Ignorava que ali mesmo, onde o intendente lhe mostrara os foros reduzidos de um terço, consoante os seus desejos, a tarefa fora aumentada de metade. Eis porque Pedro se sentia encantado com a viagem através dos seus domínios e de novo possuído daquele entusiasmo filantrópico que se apoderara dele quando saíra de Petersburgo, e a tal ponto que escreveu cartas entusiastas a seu irmão instrutor, nome que dava ao grão-mestre.
«Que fácil é, quão pouco esforço é preciso para se conseguir tanto bem», dizia Pedro de si para consigo, «e que descuidados que nós somos!»
Sentia-se feliz com o reconhecimento que lhe testemunhavam, se bem que ao mesmo tempo experimentasse um certo mal-estar aceitando-o. Isso vinha lembrar-lhe estar na sua mão fazer muitíssimo mais por aquela gente simples e boa.
O seu intendente-geral, um celerado, assaz estúpido, de resto, que soubera levar o moço conde, inteligente mas ingénuo, e que fazia dele o que queria, como se ele fosse um brinquedo, ao ver o efeito que nele provocaram os processos de que lançara mo, logo tratou de extrair daí novos argumentos sobre a impossibilidade, e sobretudo sobre a inutilidade, da emancipação dos servos, os quais não precisavam de uma tal medida para se sentirem completamente felizes.
Pedro, no fundo do seu coração, estava de acordo com ele, pelo menos para reconhecer ser difícil conceber gente mais feliz e que só Deus sabia o que a liberdade lhes viria a dar. Mas, apesar de tudo, insistia na realização do que ele considerava uma causa justa. O intendente prometia-lhe fazer tudo quanto lhe fosse possível para dar cumprimento ao seu desejo, sabendo perfeitamente que ele nunca seria capaz de verificar se se tinham tomado medidas para a venda das florestas e dos bens, para o resgate ao conselho de tutela, e que, ainda por cima, nunca mais falaria no caso e não chegaria a saber que as dependências construídas permaneciam vazias e que os camponeses continuavam a dar em trabalho e em dinheiro o que sempre tinham dado por toda a parte, ou seja, tudo de quanto fossem capazes.
[XI]
No regresso da sua viagem ao Sul, na melhor das disposições de espírito. Pedro pôs em execução o seu muito antigo projecto de ir visitar o seu bom amigo Bolkonski, a quem não via há dois anos.
Bogutcharovo ficava numa região plana e razoavelmente feia, coberta de prados e florestas de pinheiros e bétulas, em parte dizimadas. A residência senhorial era na extremidade da aldeia, que se estendia em linha recta dos dois lados da estrada, na retaguarda de um tanque recentemente cavado, completamente cheio, cujas margens ainda não estavam guarnecidas de erva, no meio de um bosque novo onde se erguiam, aqui e ali, alguns pinheiros.
A residência compunha-se de um cerrado para os molhos de trigo, um grupo de construções que davam para o pátio, cavalariças e estufa, e de uma grande casa de pedra com um frontão semicircular, ainda não concluído. Em tomo da casa havia um parque recém-plantado. As paliçadas e o portal eram sólidos e novos. Sob um alpendre viam-se duas bombas de incêndio e um tonel pintado de verde. Os caminhos eram direitos, as pontes sobre os cursos de água resistentes e guarnecidas de parapeitos. Em tudo se via ordem e boa administração. Os criados que encontrou, aos quais perguntou onde habitava o príncipe, apontaram-lhe um pequeno pavilhão novo marginando o tanque.
O velho valido do príncipe André. António, ajudou Pedro a apear-se da sua caleça, disse-lhe que o príncipe estava em casa e conduziu-o a uma pequena antecâmara muito asseada.
Pedro sentiu-se impressionado com a modéstia daquela pequena casa limpa em comparação com o luxo brilhante de que vira cercado o seu amigo a última vez que com ele estivera em Petersburgo. Deu-se pressa em penetrar no pequeno salão, que cheirava a resina de pinheiro e ainda por rebocar. Quis ir mais longe, mas António precedeu-o em bicos de pés e bateu à porta.
— Que se passa? — disse uma voz rude e pouco amável.
— Uma visita — respondeu António.
— Diz-lhe que entre — e ouviu-se o ruído de uma cadeira que se afastava.
Pedro aproximou-se vivamente da porta e encontrou-se cara a cara com André, que vinha a sair, de aspecto pouco satisfeito e traços envelhecidos. Pedro abraçou-o e, depois de tirar as lunetas, beijou-o na cara e olhou-o de perto.
— Ora aqui está o que eu não esperava. óptimo! — exclamou André.
Pedro, silencioso, olhava, assombrado, o amigo, sem poder apartar os olhos dele, aturdido com a mudança que nele se operara. As suas palavras eram acolhedoras, tinha o sorriso nos lábios, mas aos olhos apagados, como mortos, por mais que fizesse não conseguia comunicar-lhes sombra de alegria. Não que tivesse emagrecido ou estivesse pálido, mas aquele seu olhar e aquela sua fronte sulcada de rugas, sinal de pensamentos concentrados, impressionavam Pedro e causavam-lhe como que uma sensação de repulsa, uma vez não habituado a vê-los no amigo.
Como sempre acontece depois de uma longa separação, não foi fácil encetarem desde logo uma boa conversa. As perguntas e as respostas eram breves, posto abordassem assuntos de que tanto um como outro estavam certos de ser dignos de mais larga explanação. Mas, por fim, voltaram a tratar dos assuntos a que apenas se haviam referido abreviadamente: o passado, os seus planos de futuro, a viagem de Pedro, as suas ocupações, a guerra, etc. A preocupação e o abatimento que Pedro notara no olhar do seu amigo reflectiam-se agora mais pronunciadamente no sorriso com que ele acolhia as tiradas de Pedro, especialmente quando o ouviu falar com jovial emoção do passado e do futuro. Apesar de toda a sua boa vontade. André não podia mostrar interesse por essas palavras, e Pedro acabou por compreender que, diante do seu amigo, não caíam bem nem o seu entusiasmo, nem os seus sonhos, nem as suas esperanças de felicidade e de virtude. Sentiu-se embaraçado ao expor todas as suas novas teorias maçónicas, especialmente aquelas que a sua última viagem lhe tinha permitido renovar e despertar em si. Refreava-se, receava parecer ingénuo, ao mesmo tempo que ansiava mostrar, quanto mais depressa melhor, já não ser a mesma pessoa, que era agora um Pedro bem melhor do que aquele que André conhecera em Petersburgo.
— Não posso dizer-lhe quanto me aconteceu nestes últimos tempos. Nem eu próprio me reconheço.
— Efectivamente mudaste muito, muito, de então para cá — disse André.
— E quanto a si, quais são os seus projectos?
— Os meus projectos? Os meus projectos? — repetiu André, surpreendido ele próprio com o sentido dessas palavras. — Como vês, dedico-me à construção, quero estar definitivamente instalado no ano que vem...
Pedro, em silêncio, ficou-se a contemplar firmemente o rosto envelhecido do seu amigo.
— Não é isso; estava a perguntar-lhe... — Mas André interrompeu-o:
— Para que havemos de falar de mim?... Conta-me, conta-me a tua viagem, tudo o que fizeste lá longe, nos teus domínios.
Pedro pôs-se a contar-lhe o que tinha feito, procurando dissimular o mais possível a sua própria participação nos melhoramentos realizados. Por mais de uma vez André antecipou-se a Pedro na conclusão das descrições por ele encetadas, como se para ele o que o amigo contava fossem coisas de há muito suas conhecidas e ele escutasse todas essas histórias não só sem interesse, mas até com algum enfado.
Pedro acabou por se sentir pouco à vontade na companhia do amigo. Calou-se.
— E, como vês, meu caro — disse André, que estava sentindo, era evidente, os mesmos embaraços e enfado que o seu amigo. — Estou aqui como num acampamento e vim apenas para passar os olhos por isto. Volto hoje mesmo para junto de minha irmã. Terei muito prazer em apresentar-te. Mas creio que tu a conheces.— Dir-se-ia que não procurava senão matar o tempo na companhia do seu hóspede, cujas ideias nada tinham já de comum com as suas próprias.— Abalamos depois do jantar. E agora queres visitar as minhas instalações?
Saíram, e até ao jantar deambularam pela propriedade, conversando acerca das coisas políticas e dos amigos comuns, como se fossem pessoas de pouca intimidade. O príncipe André falou-lhe com animação, e pondo nisso um certo interesse, das obras novas que estava a fazer, mas no meio da conversa, ainda sobre os próprios andaimes, no momento em que lhe descrevia a futura disposição dos aposentos, calou-se repentinamente: