Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 5 de 18 · parte 3/4

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Guerra e Paz

Segunda Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— De resto, nada disto tem o mais pequeno interesse. Vamos jantar e depois abalamos.

Durante o jantar veio a talho de foice falarem do casamento de Pedro.

— Fiquei muito surpreendido quando me disseram — disse André.

Pedro corou, como sempre acontecia em tal momento, e deu-se pressa em dizer:

— Hei-de contar-lhe um dia como tudo isso se passou. Mas, como sabe, acabou, e para sempre.

— Para sempre? Nada se faz para sempre.

— Mas então não sabe como isso acabou? Ouviu falar do duelo?

— E tiveste de chegar a esse ponto!

— A única coisa em que estou agradecido a Deus é de não ter matado esse homem — murmurou Pedro.

— E porquê? Não fica mal a ninguém matar um cão danado.

— Sim, mas matar um homem não está bem, não é justo...

— Não é justo porquê? — insistiu André. — Ao homem não compete decidir do que é justo ou do que o não é. O homem sempre errou e sempre há-de errar, e principalmente naquilo que ele considera justo ou injusto.

— É injusto o que prejudica o próximo — observou Pedro, que sentia prazer em verificar, pela primeira vez desde que chegara, que o amigo começava a animar-se e a tornar calor pela conversa, e pretendia, deste modo, dar a conhecer tudo que o levara ao estado em que actualmente se encontrava.

— E como sabes distinguir o que prejudica o próximo? — perguntou André.

— O mal! O mal! — exclamou Pedro. — Todos nós sabemos muito bem o que é mau para nós próprios.

— Sim, é verdade, sabemos, mas o que me faz mal pode não fazer mal a outro — redarguiu André, cada vez mais animado e desejoso de expor a Pedro o seu novo ponto de vista. E acrescentou em francês: «Na vida só conheço dois males bem reais: e remorso e a doença. Só a ausência destes dois males é que é o bem.» Viver para mim próprio e limitar-me a evitar estes dois males, eis, actualmente, em que consiste toda a minha sabedoria.

— E o amor do próximo, e a dedicação? — atalhou Pedro. — Não, não posso concordar consigo. Viver apenas para não fazer mal, para evitar o remorso. é pouco, muito pouco. Vivi assim, vivi só para mim e malogrei a minha vida. E só agora é que estou a viver, ou, pelo menos, a esforçar-me por viver — rectificou por modéstia — para os outros. Só agora é que compreendi a felicidade da existência. Não, não posso estar de acordo consigo, e estou convencido de que não pensa o que diz.

O príncipe André fitou Pedro sem dizer nada, com um sorriso zombeteiro nos lábios.

— Vais ver a minha irmã Maria. Estarão os dois de acordo – disse. — É possível que tenhas razão no que te diz respeito — acrescentou após alguns momentos de silêncio. — Cada um vive como melhor entende. Tu, tu viveste para ti e entendes que vivendo assim ias malogrando a tua vida e que não soubeste o que era felicidade senão no dia em que começaste a viver para os outros. Eu, por mim, fiz a experiência contrária. Vivi para a glória. E que é a glória? É também o amor do próximo, o anseio de fazer alguma coisa por ele, o desejo de merecer os seus louvores. Quer dizer que eu vivi para os outros e que não só estive em risco de comprometer a minha existência, como a malogrei, de facto, completamente. Eis porque, de então para cá, desde que não vivo senão para mim, passei a ter uma vida mais serena.

— Mas como é possível viver-se só para si? — interrogou Pedro, cada vez mais exaltado. — E seu filho, sua irmã, seu pai?

— Continuam a ser eu, não são os outros — replicou André. — Os outros, o próximo, como dizem, tu e a Maria, são a causa principal do erro e do mal. O próximo são esses camponeses de Kiev a quem tu queres fazer bem.

Olhou para Pedro com um olhar irónico e provocador. Era evidente que procurava desafiá-lo.

— Pelo que vejo, quer divertir-se — replicou Pedro, cada vez mais animado. — Onde é que pode haver erro e mal no desejo que há em mim de praticar o bem? E se eu não fizer quase nada, e mal, a minha boa intenção lá está sempre, e, seja como for, sempre fiz qualquer coisa. Que mal é que pode haver em ensinar aos desgraçados dos nossos camponeses, homens como nós, que vivem e morrem sem outra noção de Deus e da verdade que não sejam ritos vãos e orações sem qualquer significado para eles, que mal é que pode haver em ensinar-lhes a consoladora crença numa vida futura, numa recompensa proporcional aos seus actos, num alívio das suas dores? Que mal, que erro é que haverá em impedir que os homens morram de doença sem qualquer socorro, quando é tão fácil auxiliá-los materialmente, arranjando para eles remédios, hospitais e asilos onde acabem os seus tristes dias? E não será um bem palpável e incontestável que eu procure descanso e alívio no trabalho para o camponês e para a mulher que amamenta o seu filho, pobres deles que não sabem o que seja repouso nem de noite nem de dia?... — acrescentou Pedro com a sua gaguice atrabiliária. — E foi isso que fiz, mal, incompletamente, de acordo, mas a verdade é que o fiz em certa medida, e não só ninguém me dissuadirá de que não foi um bem o que eu pratiquei, como ninguém me convencerá de que o André não pensa da mesma maneira. E o mais importante — concluiu — e é isso que eu sei, e disso estou convencido, é que a única verdadeira felicidade da vida é a satisfação que se tira do bem que se faz.

— Sim, se se puser assim o problema, é outra coisa — disse o príncipe André. — Eu construo urna casa, planto um parque, tu fundas hospitais. Tanto o meu acto como o teu podem ser considerados mero passatempo. Mas, quanto ao que é justo, ao que é o bem, deixa Aquele que tudo sabe, e não a nós, o cuidado de o decidir. Contudo, se queres continuar a discussão, está bem, seja feita a tua vontade!

Levantaram-se da mesa e foram instalar-se na escada, que formava como que uma varanda.

— Bom, vamos à discussão — principiou André. — Tu dizes: escolas, instrução e tudo o mais — continuou, contando pelos dedos —, isso quer dizer que tu queres tirar aquele — apontou para um camponês que ia passando e os saudou — do seu estado animal e dar-lhe o sentido das necessidade morais. Pois eu penso que a sua única felicidade possível é a felicidade animal, e tu queres privá-lo disso. Invejo-o, e tu, tu queres torná-lo eu, sem lhe dares, aliás, todos os meus recursos. Em segundo lugar, tu dizes: aliviemo-lo do seu trabalho. Mas, na minha opinião, o trabalho físico, para ele, é uma necessidade, uma condição da sua existência, tal qual como para ti o trabalho intelectual. Tu, tu não podes deixar de pensar. Eu deito-me às três horas da manhã e tanta coisa me vem à cabeça que não posso conciliar o sono. Revolvo-me na cama, fico sem dormir até alta madrugada, apenas porque penso, e não posso deixar de pensar; da mesma maneira que ele não pode deixar de lavrar ou de ceifar. Sem isso iria para a taberna e ficaria doente. Assim como eu não poderia suportar o seu tremendo trabalho físico — bastavam oito horas para me matar —, ele não suportaria a minha ociosidade física, tanto engordaria que acabaria por morrer. Em terceiro lugar, que disseste tu, afinal? — André agarrava o seu terceiro dedo — Ah!, sim, os hospitais, os medicamentos. Suponhamos que ele tem uma apoplexia. Tu sangra-lo e ele cura-se. Ficará dez anos entrevado, um tropeço para toda a gente. Seria muito melhor e muito mais simples morrer. Outros virão a este mundo e há sempre gente de sobra. Se ao menos tu lamentasses perder um trabalhador encarando o problema como eu, mas tu queres tratá-lo por amor dele próprio. Ele não precisa disso. E, de resto, que ilusão a tua ao pensares que a medicina já curou alguém! Que tem morto muita gente é um facto! — acrescentou, de sobrancelhas carregadas e voltando a cara.

André expunha as suas ideias com tanta clareza e tanta nitidez que se depreendia facilmente não ser a primeira vez que analisava aqueles problemas, e ao falar fazia-o com tanto prazer e tão abundantemente que se via bem não se expandir há muito. Tanto maior era a animação do seu olhar quanto era certo serem pessimistas as conclusões a que chegara.

— Ah!, é terrível!, é terrível! — disse Pedro. — Não posso compreender que se viva com semelhantes ideias. Sim, confesso que tenha passado por fases semelhantes ainda não há muito tempo, em Moscovo e em viagem. Mas nessas alturas sinto-me de tal modo arrasado que é como se deixasse de viver; tudo me é odioso.., a começar por mim próprio. Então deixo de comer, deixo de me lavar... E a si. André, que lhe acontece?

— Porque hei-de eu desleixar-me? Isso não é próprio. Pelo contrário, acho que devemos procurar tornar a nossa existência o mais agradável possível. Estou vivo, e a culpa não é minha, por isso é bom que continue a viver o melhor que puder, sem incomodar ninguém, até à hora da morte.

— Mas que o leva a ter semelhantes ideias? Está disposto, então, a ficar assim, sem se mexer, sem qualquer iniciativa...

— A vida se encarrega de nunca nos deixar em repouso. Ficaria encantado se nada tivesse que fazer, mas deu-se o caso de a nobreza da região me ter dado a honra de me escolher para seu marechal: só eu sei quanto me custou ver-me livre dessa gente. Não havia meio de perceberem que eu era completamente destituído dos predicados necessários para o desempenho de tal cargo, que me faltava essa espécie de vulgaridade parrana e buliçosa, a qualidade mais apreciada nas pessoas nessa situação. E, ainda por cima, tenho esta casa, que foi preciso construir para ter umas telhas minhas que me cubram e onde eu possa viver em paz. E agora a milícia.

— E porque é que não voltou para a tropa?

— Depois de Austerlitz? — replicou ele, sorumbático. — Não, graças a Deus! Jurei a mim mesmo não voltar a servir no activo. E estou disposto a não o fazer. Ainda mesmo que Bonaparte aqui aparecesse, em Smolensko, ameaçando Lissia Gori, eu não voltaria a pegar em armas. Sim, como te dizia — prosseguiu ele, serenando,— agora estão a mobilizar a milícia, meu pai é o comandante — chefe da 3ª região e a única maneira que eu tenho de evitar o regresso ao meu posto é estar ao seu serviço.

— Quer dizer, portanto, que continua a prestar serviço.

— Sim, continuo.

Calou-se por alguns instantes.

— E quais são, em rigor, as suas funções?

— É simples. Meu pai é um dos homens mais notáveis da sua época. Mas está velho e, embora não possamos dizer que é uma pessoa dura, é facto que tem um carácter muito impetuoso. O hábito em que está de dispor de um poder sem limites torna-o terrível, principalmente agora, que depende, como chefe da milícia, directamente do imperador. Há uns quinze dias, se eu tenho chegado duas horas mais tarde, tinha mandado enforcar um escriba em Iuknov — acrescentou André com um ligeiro sorriso. — E então presto serviço porque ninguém a não ser eu tem influência sobre meu pai, e será esta a única maneira de evitar que ele cometa qualquer acto de que mais tarde viria a sentir remorsos.

— Então, como vê...

— Sim, mas não é como o senhor pensa! — prosseguiu André. — Não tinha nem tenho qualquer sentido de benemerência para com esse canalha desse escriba, que roubara uns pares de botas aos milicianos. Teria sentido mesmo um grande prazer em vê-lo enforcado, mas tive pena de meu pai, isto é, de mim próprio.

O príncipe André parecia cada, vez mais agitado. Os olhos brilhavam-lhe febrilmente no momento em que procurava convencer Pedro de que nos seus actos não existia o mais pequeno desejo de fazer bem ao próximo.

— Com que então, queres dar carta de alforria aos teus camponeses! óptimo! Mas não vejo que isso seja um bem, quer para ti, pois estou convencido de que nunca açoitaste fosse quem fosse nem nunca mandaste ninguém para a Sibéria, quer muito menos para os teus camponeses. De resto, quando acontece baterem-lhes, açoitarem-nos, deportarem-nos para a Sibéria, não creio que venham a sentir-se pior por isso. Na Sibéria continuam a mesma vida animal. E, quanto aos açoites, acabam por se curar das feridas e não ficam por isso mais infelizes do que anteriormente. Mas aqueles para quem eu julgo necessária a liberdade são os que moralmente estão perdidos, os carregados de remorsos, os que fazem tudo para calar a voz da consciência, os que se endurecem no abuso que cometem do seu direito de punir, justa ou injustamente. Eis os que lamento e no interesse de quem gostaria de ver libertar os servos. Tu, naturalmente, nunca conheceste qualquer, mas eu tenho tratado com criaturas muito dignas, educadas na tradição do poder sem limites, que, com o correr dos anos, se tornaram irritáveis, se fizeram duras e cruéis; conscientes disso, mas sem se poderem dominar, acumulam assim sobre si próprias desgraças sobre desgraças.

O príncipe André falava com tamanha convicção que Pedro, sem querer, dizia para consigo mesmo que tais reflexões haviam sido sugeridas ao amigo pelo estado moral de seu próprio pai. Não soube que responder-lhe.

— Sim, isto é que me inspira piedade: a dignidade do homem, a tranquilidade da consciência, a pureza da alma comprometida, e não as costas e as cabeças dos outros, pois, quer as açoitem, quer as tosquiem, nem por isso deixam de ser costas e cabeças (Tosquiar alguém é fazê-lo assentar praça. (N, dos T.)

— Seja como for, não, nunca serei da sua opinião — concluiu Pedro.

 

[XII]

À tardinha, o príncipe André e Pedro meteram-se numa caleça e partiram para Lissia Gori. André, que relanceava furtivos olhares a Pedro, de tempos a tempos interrompia o silêncio para dizer qualquer coisa em que se denunciava a sua excelente disposição.

Falava-lhe, apontando para os campos, nos aperfeiçoamentos agronómicos que tinha introduzido na lavoura.

Pedro, macambúzio, limitava-se a responder por monossílabos, parecendo mergulhado nos seus pensamentos.

De si para consigo ia dizendo que o amigo era infeliz, que estava em erro, que ignorava a verdadeira luz e que o seu papel era vir em seu auxílio, iluminá-lo e levantar-lhe o espírito. Mas, assim que se punha a congeminar o que lhe iria dizer e como o diria, compreendia que André, com uma simples palavra e um só argumento, arrasaria a sua argumentação, e tinha medo de principiar, tinha medo de expor a zombarias muito possíveis a arca santa das suas crenças.

— Ora vejamos: que é que o leva a pensar assim — principiou ele, de chofre, de cabeça baixa, como um touro que arremete —, que é que o leva a pensar assim? Não tem o direito de pensar assim.

— De pensar o quê? — interrompe André, surpreso. — Pensar assim a respeito da vida, do destino do homem. Isso não pode ser. Eu também pensei assim, e quer saber o que me salvou? A franco— maçonaria. Ah!, não se ria. Pode crer, a franco-maçonaria. Não é uma seita religiosa, cheia de ritos, como eu julgava, mas a melhor, a única expressão do que há de melhor, do que há de eterno no homem.

E pôs-se a expor-lhe em que consistia a franco-maçonaria e como ele a compreendia. Disse-lhe que era a doutrina cristã emancipada dos estorvos dos governos e das religiões, a doutrina da igualdade, da fraternidade e do amor.

— A nossa santa confraria é a única que possui o verdadeiro sentido da vida — continuou ele —, tudo o mais são fantasias. Creia, meu amigo, fora desta associação só há mentira e falsidade. E eu estou de acordo consigo e pronto a dizer que ao homem honesto e inteligente nada mais lhe resta que acabar por viver como o André vive, com a única preocupação de não incomodar os outros. Mas, se adoptar os nossos princípios fundamentais, se entrar na nossa confraria, se se nos entregar, se se deixar dirigir por nós, acabará por sentir, como eu próprio senti, que é um elo desta cadeia enorme e invisível cujo princípio se esconde nos Céus.

André ouvia falar Pedro sem dizer palavra, de olhos fixos diante dele. Como o ruído do carro o não deixava ouvir bem, por mais de uma vez lhe pediu que repetisse o que estava a dizer. O fulgor que brilhava nas pupilas de André e o seu silêncio garantiam a Pedro que as suas palavras não estavam a cair em cesto roto e que ele não pensava interrompê-lo nem zombar do que ele dizia.

Chegaram a um rio cujas águas haviam transbordado e o qual tiveram de atravessar de barco.

O príncipe André, encostado à amurada, contemplava, calado, a massa líquida a que os raios do sol-poente arrancavam labaredas.

— Então? Que é que pensa de tudo isto? — perguntou Pedro. — Porque é que não diz alguma coisa?

— Que é que eu penso? Mas estou a ouvir-te. Tudo isso está muito bem — replicou. — Tu dizes-me: entre na nossa confraria e nós lhe mostraremos o fim da vida, o destino do homem e as leis que governam o mundo. Mas quem somos nós? Homens! Como é que vocês sabem tudo isso? Porque será que só eu não vejo o que vocês vêem? Vocês vêem na terra o domínio do bem e da verdade, mas eu não o vejo.

Pedro interrompeu-o.

— Acredita numa vida futura? — perguntou.

— Numa vida futura? — Mas Pedro não o deixou prosseguir, e, tomando esta interrogação como uma negativa, tanto mais que de longa data sabia do ateísmo do seu amigo, de novo o interrompeu.

— Acha que lhe é impossível ver o reino do bem e da verdade sobre a terra. Também eu não acreditava em tal coisa e não é possível admiti-lo se se considerar a nossa vida como o fim de tudo. Sobre a terra, principalmente sobre a terra — dizia ele, apontando para os campos —, não há verdade: tudo é mentira e maldade. Mas no universo, no conjunto do universo é a verdade que reina. Nós somos por um momento filhos da terra, mas eternamente somos filhos do universo. Não sentirei eu, no fundo da minha alma, que sou uma parte deste todo, enorme e harmonioso? Não sentirei eu que nesta imensa e infinita quantidade de seres, através da qual se manifesta a divindade ou a suprema força, o que vem a dar no mesmo, eu sou um fuzil, um degrau da escada dos seres que vai do mais ínfimo ao mais elevado? Se eu vejo, se vejo claramente esta escada que vai da planta até ao homem, porque é que eu hei-de partir do princípio de que ela se detém precisamente em mim em vez de alcançar sempre mais longe, cada vez mais longe? Eu sinto em mim que, pela mesma razão de que nada se perde no universo, também eu não posso desaparecer e que continuarei a ser para todo o sempre como sempre tenho sido. Sinto que além de mim e para além de mim há espíritos vivos e que é nesse universo que reside a verdade.

— Sim, é a doutrina de Herder — interveio André. — Mas, meu caro, não é essa doutrina que me convence: a vida e a morte, sim. O que me convence é ver urna criatura a quem queremos muito, a quem muito estamos presos, para com quem nos sentimos culpados e de que esperamos remir o mal que lhe fizemos — e ao dizer estas palavras a sua voz tremia e desviava a vista — e que de um momento para o outro começa a sofrer, a padecer tremendas dores e deixa de existir... Porquê? É impossível que não haja uma resposta para isto! E eu estou convencido de que há... Bis o que me convence, eis o que me convenceu — concluiu ele.

— Claro, claro — repetiu Pedro. — Mas não é isso precisamente que eu estive a dizer?

— Não. O que eu quero dizer é que não são os raciocínios que me convencem da necessidade duma vida futura, mas este facto apenas: o de irmos pela vida fora de mão dada com um ser humano, e este ser, de repente, desaparecer além, no nada, e então determo-nos diante desse abismo e ficarmos a olhar. E eu, eu olhei...

— E então? Sabe que há um além, que há alguém. Além é a vida futura. Esse alguém é Deus.

O príncipe André permanecia calado. Havia muito já que a carruagem e os respectivos cavalos tinham atingido a outra, margem, que estes já estavam de novo atrelados, que o Sol já mal se via no horizonte e que a geada do crepúsculo começava a cobrir de estrelas de gelo o lamaçal do atracadouro, e ainda Pedro e. André, com grande espanto dos lacaios e dos barqueiros, continuavam no barco entretidos a falar.

— Se Deus existe, se há rima vida futura, a verdade existe, existe a virtude, e a suprema felicidade do homem consiste no esforço para as alcançar. É preciso viver, é preciso amar, é preciso crer — dizia Pedro —, pois não vivemos apenas nesta hora, sobre este pedaço de terra, mas sempre vivemos e eternamente havemos de viver, além, no Todo.— E apontava para o céu.

André continuava apoiado à borda do barco e ouvia Pedro sem deixar de fitar os reflexos vermelhos do sol-poente nas águas cada vez mais azuis. Pedro calou-se. A serenidade era completa. Há muito que o barco estava atracado e não se ouvia senão o ténue ondular da superfície líquida batendo de encontro ao fundo da embarcação. A André afigurou-se-lhe que aquele sussurro confirmava o que dizia Pedro: «É a verdade, acredita.»

Soltou um suspiro e envolveu num olhar de criança, luminoso e terno, o rosto de Pedro, muito corado e vitorioso, e como sempre intimidado diante da superioridade do amigo.

— Sim, se ao menos assim fosse! — exclamou. — Vamos, o carro espera-nos. — E, pondo os pés em terra, soergueu os olhos para o céu que Pedro lhe apontara e, pela primeira vez depois de Austerlitz, tomou a ver aquele céu profundo e eterno, o céu que havia contemplado estendido no campo de batalha, e sentimentos há muito nele adormecidos, melhores sentimentos, despertaram subitamente na sua alma, como numa ressurreição de alegria e juventude. Entregues aos hábitos quotidianos da vida, todas as suas tendência íntimas se haviam desvanecido pouco a pouco, mas, embora não tivesse sabido nutri-las, o certo é que continuava a senti-las vivas dentro de si. Desta sua conversa com Pedro passou a datar uma vida que, se exteriormente parecia a mesma, no seu foro íntimo passara a ser completamente nova.

[XIII]

 

Era noite quando André e Pedro se apearam diante da entrada principal de Lissia Gori. No momento em que chegavam. André chamou a atenção do amigo, todo sorridente, para a azáfama junto da escada de serviço. Uma velha, toda corcovada, de alforge às costas, e um homenzinho vestido de preto, de grande cabeleira, ao verem aproximar-se a caleça esconderam-se no alpendre. Duas mulheres correram atrás deles e os quatro, depois de haverem lançado um olhar espavorido à carruagem, desapareceram na pequena escada,

— São as almas de Deus da Macha — observou André. — Julgaram que era meu pai que chegava. Eis a única coisa em que ela se lhe não submete: ele deu ordem para Macha correr com estes peregrinos, mas continua a recebê-los.

— E que vêm a ser estas almas de Deus? — inquiriu Pedro.

O príncipe André não teve tempo de lhe responder. Os criados acorriam ao seu encontro. Perguntou-lhes pelo velho príncipe e se o esperavam breve,

Naquele momento ainda estava na cidade, e aguardavam-no de um momento para o outro.

André conduziu o amigo aos seus antigos aposentos, os quais, em casa de seu pai, estavam sempre preparados para o receber, e dirigiu-se ao quarto do filho.

— Vamos ver minha irmã — disse ele quando voltou para o levar consigo. — Ainda a não vi. Está escondida com as suas almas de Deus. É bem feito para ela. Vai ficar envergonhadíssima. Mas ficarás conhecendo essa gente. É curioso, palavra.

— Que vêm a ser estas almas de Deus?

— Já vais ver.

A princesa Maria ficou realmente muito envergonhada, e a cara cobriu-se-lhe de manchas escarlates ao vê-los entrar. No seu quarto confortável, com os seus oratórios de ícones diante dos quais ardiam lamparinas, sentado num divã, ao lado dela, tomando chá, estava um rapazola de nariz aquilino e cabelos compridos, vestido de frade.

Junto deles, numa poltrona, sentava-se urna velha descarnada e rugosa, de expressão cortês e infantil.

— André, porque me não preveniste? — disse ela com uma entoação de censura na voz suave e pondo-se diante dos seus peregrinos, como uma galinha diante dos seus pintainhos.

— Muito prazer em o ver. Estou muito contente por o ver — disse ela para Pedro, enquanto este lhe beijava a mão. Conhecera-o ainda muito criança, e agora a amizade que ele tinha por André, as suas infelicidades com a mulher, e sobretudo o seu bondoso feitio, a sua simplicidade, dispunham-na muito bem para com ele. Olhando-o com os seus lindos olhos luminosos parecia dizer-lhe: «Gosto muito de si, mas, por amor de Deus, não faça troça dos meus.»

Depois dos primeiros cumprimentos todos se sentaram.

— Ah! Com que então também cá está o Ivanuchka! — exclamou André, sorridente, dirigindo-se ao moço peregrino.

— André! — suplicou a irmã.

— É preciso que saibas que é uma mulher — André esclareceu Pedro.

— André, por amor de Deus! — insistiu Maria.

Via-se perfeitamente que os gracejos de André a propósito dos peregrinos e a baldada intervenção de Maria em seu favor eram hábito corrente entre os dois irmãos.

— Mas, minha boa amiga — prosseguiu André — deveria, pelo contrário, estar-me reconhecida por eu explicar a Pedro a sua intimidade com este jovem.

— Realmente? — disse Pedro, que, com uma expressão curiosa e cheia de seriedade, coisa por que Maria lhe estava particularmente reconhecida, observava, por detrás das lunetas, a figura de Ivanuchka. Este, percebendo que se lhe referiam, olhava para todos com o seu olhar astuto.

Não valia a pena que Maria se mostrasse tão incomodada por causa dos seus. Eles não mostravam o mais pequeno embaraço. A velha, de pálpebras descidas, mas relanceando furtivamente os olhos aos recém-chegados, pousara no pires a chávena de fundo para o ar, pusera de lado o torrão de açúcar já meio roído e quedara-se muito sossegada na sua poltrona, esperando que lhe oferecessem mais chá. Ivanuchka, enquanto bebia, em pequenos goles, pelo pires, a furto ia fitando os dois amigos, com os seus olhos maliciosos, muito femininos.

— Ouve lá, estiveste em Kiev? — perguntou André à velhinha.

— Estive, paizinho — replicou a velha, prolixamente. — Precisamente pela Natividade, tive a dita, junto dos santos padres, de participar nos santos mistérios do Céu. E agora vou a Koliazine, paizinho. Houve ali um grande milagre...

— E Ivanuchka vai contigo?

— Não, eu sigo o meu caminho, meu benfeitor — disse Ivanuchka, fazendo o possível por imprimir à voz um registo de baixo. — Foi em Iuknov que eu me encontrei com Pelagueiuchka.

Pelagueiuchka interrompeu a companheira. Morria por contar tudo quanto vira.

— Em Koliazine, paizinho, houve um grande milagre.

— E que foi que aconteceu? Novas relíquias? — perguntou André.

— Por amor de Deus. André — intercedeu Maria. — Pelagueiuchka, não contes nada.

— Que dizes tu, mãezinha, porque é que eu não lhe hei-de contar? Eu gosto muito dele. É bom, é enviado de Deus. É meu benfeitor; deu-me dez rublos, lembro-me muito bem. Quando eu estava em Kiev. Kiriuchka falou-me. É um inocente, uma verdadeira alma de Deus. Anda sempre descalço, tanto no Verão como no Inverno. «Porque é que tu não vais», disse-me ele, «aonde deves ir? Vai a Koliazine. Houve ali um milagre, a nossa Mãe, a Santíssima Maria Mãe de Deus, manifestou-se.» Ao ouvir estas palavras despedi-me dos santos padres e abalei.

Todos estavam calados. Só a peregrina falava, numa voz pausada, entrecortada de profundas inspirações.

— Quando lá cheguei, paizinho, a gente disse-me: «Um grande milagre aconteceu: os santos óleos escorrem das faces da nossa Mãe, a Santíssima Mãe de Deus»...

— Bem, bem, basta, depois contarás isso — disse a princesa Maria, corando.

— Deixa que eu lhe faça uma pergunta — interveio Pedro. — Viste isso com os teus próprios olhos?

— Pois vi, paizinho, tive essa felicidade. Na cara da santa havia uma claridade tal que parecia uma luz do Céu, e das suas faces aquilo escorria, escorria...

— Mas isso é uma fraude! — exclamou Pedro, ingenuamente, depois de ter prestado muita atenção às palavras da peregrina.

— Ah!, paizinho, que estás tu a dizer? — suspirou Pelagueiuchka, aterrorizada, e como se procurasse socorro junto de Maria.

— É assim que se engana o povo — prosseguiu ele.

— Oh! Jesus Cristo. Nosso Senhor! — exclamou de novo a peregrina, benzendo-se.— Oh!, não fales assim, paizinho. Havia um anaral (Queria dizer general. (N, dos T.) que não acreditava e dizia: «É uma artimanha dos frades.» E assim que abriu a boca cegaram-se-lhe os olhos. E então teve um sonho, viu a Nossa Mãe das Criptas, que caminhava para ele e lhe dizia: «Acredita em mim e eu te curarei.» E então ele clamou: «Levem-me, levem-me até junto d’Ela.» E tudo isto é a pura verdade, vi com os meus próprios olhos. Levaram logo dali o cego até ao pé da santa. Aproximou-se, prosternou-se diante dela: «Cura-me e eu te darei», disse ele, «tudo o que o czar me concedeu.» E eu vi, paizinho, eu vi a sua estrela posta na imagem. E que julga? Ele ficou a ver. É pecado falar assim. Deus te castigará — disse ela para Pedro num tom severo.

— Realmente a estrela apareceu na imagem? — perguntou Pedro.

— Naturalmente promoveram a Nossa Mãe a general — zombou André, sorrindo.

Pelagueiuchka empalideceu de repente estorcendo os braços de desespero.

— Paizinho, paizinho, que pecado, e tu tens um filho! — exclamou ela, de pálida tornando-se subitamente escarlate. — Paizinho, que estás tu a dizer, que Deus te perdoe! — benzeu-se. Senhor, perdoa-lhe! — Voltou a benzer-se. — Senhor perdoa-lhe! Ah!, mãezinha, o que é que... — prosseguiu ela, voltando-se para Maria. Levantou-se e, quase a chorar, pôs-se a preparar o alforge. Via-se claramente estar aterrorizada e também envergonhada de haver aceitado esmolas numa casa onde era possível pronunciarem-se coisas daquelas, ao mesmo tempo que denotava certa pena por dever renunciar a essas mesmas esmolas.

— Que prazer tiveram nisto? — interveio a princesa Maria. — Era bem melhor que não tivessem aparecido aqui...

— Eu estava a brincar. Pelagueiuchka — replicou Pedro. Princesa, palavra que não a quis ofender, disse isto sem querer. Não ligues importância, eu estava a brincar — voltou ele, sorrindo timidamente, e procurando fazer esquecer o que se passara. — E André também, ele também estava a brincar.

Pelagueiuchka, por momentos, pareceu incrédula, mas Pedro tinha uma expressão tão sincera ao confessar-se arrependido e André fitava com tanta doçura ora Pedro ora a peregrina que esta pouco a pouco acabou por se acalmar.

[XIV]

A peregrina, mais serena e entrando de novo na conversa, pôs-se a narrar longas histórias do tio Anfiloke, cuja vida era tão santa que das suas mãos se evolava cheiro a incenso. Depois contou como uns frades seus conhecidos, aquando da sua última viagem a Kiev, lhe haviam dado a chave das criptas e como, só com urna bolacha no estômago, ali passara quarenta e oito horas junto dos santos padres. «Rezava a um deles, lia as minhas orações, ia até ao pé do outro. Dormitava um bocadinho, voltava a tocar nos túmulos e, mãezinha, havia ali tanto sossego, sentia em mim tanta graça que me não apetecia voltar para a luz de Deus.»

Pedro ouvia-a muito atento e com a maior serenidade. O príncipe André saiu, e Maria, deixando as almas de Deus acabar o seu chá, conduziu Pedro até ao salão.

— Muito bom é o Pedro — disse-lhe ela.

— Ah!, realmente, eu não tinha a mais pequena intenção de a ofender, compreendo-a perfeitamente e aprecio muito os seus sentimentos.

A princesa Maria olhou para ele e sorriu com suavidade.

— Sim, há muito que o conheço e estimo-o como se fosse meu irmão — disse ela. — Como lhe pareceu o André? — apressou-se ela a perguntar-lhe, sem lhe dar tempo a responder às suas palavras amáveis. — Ando muito preocupada com ele. No Inverno passou melhor de saúde, mas na Primavera a ferida voltou a abrir e o médico disse-lhe que lhe convinha ir fazer uma cura no estrangeiro. E o seu moral também me atormenta muito. Os homens não são como nós, ele não pode dar largas à sua dor e chorar a sua mágoa. Traz tudo isso lá dentro de si. Hoje está alegre e animado, mas é a sua presença que lhe dá essa boa disposição. Muito raramente o vejo assim. Se fosse capaz de o convencer a ir até ao estrangeiro! Ele precisa de actividade, e esta vida calma e sempre igual acaba com ele. Os outros não dão por isso, mas eu vejo perfeitamente que é assim.

As dez horas, assim que ouviram os guizos da carruagem do velho príncipe, que chegava, os lacaios precipitaram-se para a escada principal. André e Pedro saíram também ao seu encontro.

— Quem é? — Perguntou o velho príncipe, ao apear-se, dando com os olhos em Pedro. — Ah! Muito prazer! Dá cá um beijo! — exclamou, assim que reconheceu o jovem.

Estava de óptima disposição e foi amabilíssimo com Pedro. Antes da ceia. André, de regresso ao gabinete do pai, encontrou os dois em calorosa discussão. Pedro queria provar que ainda chegaríamos a um tempo em que acabariam as guerras.

O príncipe, escarnecendo dele, mas sem se zangar, sustentava o ponto de vista contrário.

— A única maneira, de acabarem as guerras e sangrar os homens e porem-lhe água no lugar do sangue. Patetices de mulher, patetices de mulher — dizia ele, batendo amigavelmente no ombro de Pedro.

Em seguida aproximou-se da mesa junto da qual estava André, que visivelmente evitava tomar parte na discussão, folheando os papéis que o pai trouxera da cidade. Pôs-se a falar-lhe da milícia.

— O marechal da nobreza, conde de Rostov, não me pôde fornecer os homens que eram precisos. Pois não queres saber? Assim que aí chegou meteu-se-lhe na cabeça oferecer um grande jantar. Eu lhe darei os jantares... Olha, repara nisto... Pois é verdade, meu rapaz — continuou, dirigindo-se ao filho e batendo nas costas de Pedro —, é um belo rapaz o teu amigo. Gosto dele! Dá-me calor. Qualquer outro era capaz de se pôr para aí com discursos muito ajuizados e não tínhamos prazer algum em ouvi-lo. Mas este farta-se de dizer patetices e enche-me de energia, a um velho como eu! Bom, vão, vão! É muito natural que eu também apareça, que vá cear com vocês. Continuaremos a nossa discussão. Espero que gostes da minha pateta, da princesa Maria — gritou ele a Pedro já do limiar da porta.

Somente ali, durante aquela estada em Lissia Gori, é que Pedro pôde apreciar todo o ímpeto e todo o encanto da sua amizade por André. E esse encanto estava não tanto nas suas relações com o amigo, mas ainda mais no trato com os seus parentes e com toda a gente da casa. Tanto em relação ao velho príncipe, assaz rebarbativo, como à doce e tímida Maria, posto mal os conhecesse, foi como se de repente sentisse que sempre os estimara. Aliás toda a gente gostava dele. Maria, seduzida pelas suas maneiras delicadas para com os peregrinos, fitava-o com o mais luminoso dos seus olhares. Até o pequeno Nicolau, o príncipe de um ano, como lhe chamava o avô, tinha risadinhas para Pedro e ia aos seus braços sem chorar. Mikail Ivanovitch e Mademoiselle Bourienne presenteavam-no com os seus sorrisos mais afáveis, enquanto ele conversava com o velho príncipe. Este assistiu à ceia: fazia-o, evidentemente, em honra de Pedro. Durante os dois dias que este passou em Lissia Gori foi extremamente amável para com ele, convidando-o para conversar.

Quando Pedro partiu e toda a família voltou a encontrar-se reunida, cada um deu a sua opinião acerca dele, como é costume sempre que um convidado novo visita uma casa, e, coisa rara, ninguém teve que dizer dele senão bem.

 

[XV]

Desta feita, pela primeira vez desde que regressara de licença. Rostov percebeu até que ponto era afeiçoado a Denissov e a todo o seu regimento.

Ao chegar experimentou qualquer coisa de semelhante ao que sentira ao aproximar-se da casa da Rua Povarskaia. Ao deparar-se-lhe o primeiro hússar de uniforme desabotoado, ao ver o ruivo Dementiev e as parelhas de cavalos baios, ao ouvir Lavruchka gritar jovialmente para o seu amo: «Lá vem o conde!», ao descobrir Denissov, tal como estava deitado na sua barraca, correndo a abraçá-lo e aos oficiais agrupados à sua volta. Rostov sentiu a mesma impressão que experimentara quando a mãe, o pai e as irmãs o haviam acolhido entre carinhos, e lágrimas de alegria lhe subiram aos olhos, embargando-lhe a voz. O regimento ainda era para ele um lar, uma casa tão querida e agradável como a própria casa paterna.

Depois de apresentado ao comandante do regimento e de empossado, no mesmo esquadrão em que estivera incorporado antes, nas funções do serviço de abastecimento de forragens, ei-lo que, nos mil e um pormenores da vida de caserna, naquele sentir-se privado de liberdade e forçadamente cingido a um quadro estreito e invariável, experimentava a mesma sensação de sossego, de amparo, de estar em sua própria casa, no seu devido lugar, como quando se encontrava sob o tecto paterno. Ali nada se pare— cia com aquele tumulto da vida no mundo livre, onde não encontrava o seu lugar, onde não sabia viver, ali já não havia uma Sónia a quem fosse preciso dar ou não explicações. Acabavam-se as alternativas em que era obrigado a decidir se ia ou não a tal ou tal lugar. Não mais aqueles longos dias de vinte e quatro horas que é preciso preencher de maneiras tão diversas; não mais aquela multidão com quem se não tem a mais pequena intimidade e que ao mesmo tempo também nos não é completamente estranha; não mais problemas de dinheiro com o pai, nem sempre muito claros; não mais a lembrança dessa terrível perda ao jogo por causa de Dolokov! Ali, no regimento, tudo era preciso e simples. O universo estava dividido em duas partes desiguais: uma o seu regimento de Pavlogrado, a outra o resto do mundo. E esse «resto do mundo» era-lhe completamente indiferente. No regimento a todos conhecia. Sabia quem era o tenente, quem o capitão, quem era boa pessoa, quem má rês, mas, fosse como fosse, todos eram seus camaradas, e isso é que importava. O cantineiro fiava-lhe; pagar-se-lhe-ia de quatro em quatro meses. Nada a combinar, nenhuma escolha a fazer no regimento de Pavlogrado, mais irão havia do que abster-se cada um do que não era acertado, e, se alguém recebia, ordem de levar a cabo determinada missão, só urna coisa tinha a fazer: o prescrito e ordenado em termos claros e minuciosos. E tudo batia certo.

Ao retomar os seus hábitos regulares da caserna. Rostov sentia uma alegria, e um alívio muito parecidos com aqueles que experimenta um homem fatigado que descansa. Esta vida durante a campanha foi-lhe tanto mais agradável quanto, depois da perda ao jogo, coisa que, não obstante toda a indulgência dos pais, ele a si próprio não podia perdoar, tomara a resolução de fazer o seu serviço, não como antes, mas de molde a apagar a falta que cometera, fazendo-o bem feito, como camarada e oficial modelos, isto é, transformando-se num perfeito cavalheiro, o que lhe parecia mais difícil na alta sociedade do que rio regimento. Resolvera igualmente reembolsar os pais, no prazo de cinco anos, da dívida que contraíra por causa do jogo. Recebia uma pensão anual de dez mil rublos. Decidira contentar-se de então para o futuro com dois mil, consagrando o excedente à amortização desse débito.

Depois de múltiplos movimentos de retirada e de marchas avante, após as batalhas de Pultusk e de Preussisch-Eylau, o exército russo concentrara-se em Bartenstein. Aguardava-se a chegada do imperador para se recomeçar a campanha.

O regimento de Pavlogrado, que fazia parte daquela fracção do exército que participara na campanha de 1805, depois de completar os seus efectivos na Rússia, chegara demasiado tarde para as primeiras operações. Não estivera nem em Pultusk nem em Preussisch-Bylau, e para a segunda parte da campanha, urna vez reunido ao exército em pé de guerra, fora integrado no destacamento de Platov,

Este destacamento operava independentemente do, exército. Por várias vezes os hússares de Pavlogrado haviam tomado parte em escaramuças com o inimigo e feito prisioneiros. De uma das vezes destruíram mesmo as bagagens do marechal Oudinot. No mês de Abril tinham estado acantonados algumas semanas numa povoação alemã abandonada e completamente em ruínas, sem nunca de lá saírem.

O degelo principiava. Tudo era lama, fazia frio, os cursos de água descongelavam, os caminhos tornavam-se intransitáveis. Durante alguns dias não houve ração de forragem para as montadas nem rancho para os homens. Como os comboios de abastecimentos se não podiam deslocar, os soldados espalhavam-se pelas aldeias abandonadas e desertas à procura de batatas, que até essas eram cada vez mais raras.

Tudo fora devorado e quase todos os habitantes tinham desaparecido. Os poucos que ficaram viviam mais desgraçados que mendigos. Nada tinham para pilhar, e os soldados, inclusivamente, aliás pouco propensos à piedade, em vez de os privarem do pouco de que dispunham, repartiam com eles as suas migalhas.

Nas operações em que tomara parte, o regimento de Pavlogrado apenas tivera dois feridos, mas depois, mercê da fome e da doença, perdera quase metade dos seus efectivos. Era tão certa a morte nos hospitais que os soldados, consumidos pela febre e cobertos de pústulas, consequência da má alimentação, preferiam continuar nas fileiras, arrastando-se penosamente, a dar baixa por doença.

Com a chegada da Primavera descobriram uma planta, parecida com o espargo, à flor da terra, e a que chamaram, não se sabe porquê, «a doce raiz de Maria». Em busca desta «raiz doce», em verdade amarga, percorriam os prados e os campos, desenterravam-na com as pontas dos sabres e comiam-na, não obstante haver ordens terminantes para que o não fizessem. Uma doença se disseminou com a Primavera, que consistia no inchaço das mãos, dos pés e da cara, e que os médicos atribuíam à ingestão desta raiz. Apesar de todas as ordens em contrário, os solda.— dos do esquadrão de Denissov continuaram a comer a raiz desta planta, pois havia quinze dias já que os últimos biscoitos estavam racionados — cabia apenas meio arrátel a cada homem — e as batatas ultimamente recebidas chegaram greladas.

Havia igualmente quinze dias que as montadas comiam o colmo que cobria as casas: a sua magreza era esquelética e, como ainda não tinham sido tosqueadas, o pêlo de Inverno formava tufos empastados.

Não obstante todas estas desgraças, tanto soldados como oficiais mantinham a mesma vida. Pálidos, de caras inchadas, cobertos com uniformes em andrajos, os hússares continuavam a comparecer à chamada, a proceder à limpeza das suas montadas e ao polimento do correame: arrancavam o colmo das coberturas das casas para os cavalos, apresentavam-se ao rancho, donde voltavam esfomeados, e acabavam por zombar do mau passadio e da barriga vazia. Continuavam, como sempre, nos ócios do serviço, a atear grandes fogueiras, a aquecer-se ao fogo, a fumar, a andar pelos campos na colheita de batatas para cozer, embora já greladas e fermentadas, a contar histórias ou a ouvir o que se passara nas campanhas de Potemkine ou de Suvorov, ou ainda as aventuras de Aliocha, o espertalhão, ou de Milkolka, o artesão do pope.

Com os oficiais acontecia a mesma coisa, metidos aos dois e aos três em casas sem tectos nem paredes, parte em ruínas. Os oficiais de patente superior tratavam dos abastecimentos de forragem e de batatas e em geral da ração dos homens. Os suba]ternos, como sempre, jogavam as cartas, pois tinham dinheiro de sobra quando não havia que comer, ou quaisquer outros jogos inocentes, como a svaika ou a bola. Pouco se falava da marcha geral das operações, porque nada de positivo se sabia a tal respeito e porque confusamente se pressentia que as notícias não deviam ser por aí além.

Rostov, como anteriormente, habitava com Denissov, e a amizade entre ambos ainda era maior agora, depois da última licença. Denissov nunca lhe falava da família, mas a carinhosa afeição que o comandante testemunhava ao seu oficial dava a perceber a este que era ao seu desventurado amor por Natacha que devia aquele recrudescimento amistoso. Procurava Denissov expor Rostov o menos que podia a qualquer acção perigosa, fazendo o possível por conservá-lo em segurança, e grande era o seu contentamento sempre que o via regressar são e salvo de qualquer escaramuça. Durante uma dessas missões de reconhecimento o jovem oficial descobrira, numa povoação evacuada e deserta onde fora procurar abastecimentos, um velho polaco, bem como uma filha deste, com um filhinho de peito. Esfarrapados e mortos de fome, não podiam arrastar-se nem tinham meio, fosse qual fosse, que os levasse dali.

Rostov trouxe-os consigo para o acampamento, instalou-os na sua própria cabana, e enquanto o velho se não restabeleceu, isto durante algumas semanas, foi ele quem os sustentou. Um dos seus camaradas, ao falar-se de mulheres, pusera-se a zombar dele, dizendo que Rostov ainda era mais maroto que os marotos e que o que ele tinha a fazer era apresentar aos camaradas a linda polaca a quem salvara a vida. Rostov não gostou da zombaria, cobriu de injúrias o camarada, e só a muito custo Denissov conseguiu evitar que ambos se batessem em duelo. Depois do incidente. Denissov, que também ignorava qual o género de relações do amigo com a polaca, pôs-se a censurá-lo pela exaltação que mostrara, e Rostov explicou-lhe:

— Que queres tu?... Para mim é como se fosse minha irmã, e nem sei dizer-te porque me senti ferido.., pois a verdade é que.., o que ele disse...

Denissov bateu-lhe afectuosamente no ombro e principiou a passear de um lado para o outro sem olhar para ele, costume muito seu quando se sentia comovido.

— Sempre me saíram uns doidos, estes Rostov! — exclamou, e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.

 

[XVI]

Em Abril, com a notícia da chegada do imperador ao campo de batalha, as tropas reanimaram-se. Rostov não teve a sorte de assistir à parada de Bartenstein em que o soberano passou revista aos corpos de exército: os hússares de Pavlogrado estavam na primeira linha, muito longe daquelas paragens.

Tinham acampado. Denissov e Rostov instalaram-se numa barraca de terra, cavada pelas praças, coberta de ramadas de verdura. Este género de abrigos estava então em moda no exército e a sua construção era como segue: cavava-se uma trincheira de cerca de uma archina e meia de largura, duas de profundidade e três e meia de comprimento. Numa das extremidades talhavam-se alguns degraus, que serviam de escada de acesso. A trincheira era o quarto, o qual, para os felizardos, como, por exemplo, o comandante do esquadrão, dispunha, no lado oposto ao da saída, de uma prancha de madeira, assente sobre duas estacas, que fazia de mesa. Nas duas paredes da trincheira, a terra, cavada na extensão de duas archinas, ajeitava-se para camas e divãs. O tecto dispunha-se de maneira que na parte central se podia estar de pé: por cima das camas havia mesmo espaço suficiente para um homem se sentar, aproximando-se da mesa. Denissov, muito estimado pelos homens do seu esquadrão, vivia com um certo conforto. Podia orgulhar-se de dispor na frente da sua barraca de uma prancha de madeira com um vidro partido, mas consertado. Quando o frio apertava, vinham colocar-lhe nos degraus da escada, no «salão», como Denissov costumava dizer, uma lata coberta de brasas que iam buscar às fogueiras do acampamento. Então a temperatura tornava-se tão agradável que os oficiais, sempre numerosos na barraca dos dois amigos, se punham em mangas de camisa.

No mês de Abril Rostov estivera de guarda. Tendo regressado ao acampamento certo dia, às oito horas da manhã, depois de uma noite em claro, mandou que lhe trouxessem brasas vivas, pois estava encharcado. Depois de mudar de roupa, fez as suas orações, bebeu o, chá, aqueceu-se, arrumou as suas coisas no seu canto e em cima da mesa e estendeu-se de costas, em mangas de camisa, apoiando a cabeça nos braços cruzados na nuca, o rosto todo crestado pelas mordeduras do vento. Pensava na agradável perspectiva de vir a ser promovido por esses dias, em virtude do reconhecimento que ultimamente fizera, e ia aguardando a chegada de Denissov, que estava ausente. Muito desejava dar a língua com ele. Nas traseiras da barraca, entretanto, ressoou a voz furiosa de Denissov, que parecia fora de si. Rostov precipitou-se para a abertura, para ver com quem ralhava ele, e deparou-se-lhe o quartel-mestre Toptcheenko.

— Tinha-te dado ordens para que os não deixasses comer dessas tais raízes de Macha — vociferava Denissov. — Eu bem vi o Lazartchuk, que vinha do campo carregado.

— Eu dei ordens. Alta Nobreza, mas eles não me dão ouvidos — replicava o quartel-mestre.

Rostov voltou a deitar-se e disse para os seus botões: «Ele que se avenha; agora, cá por mim, acabei o meu serviço e estou a dormir, pois claro!» Do sítio em que estava distinguiu ainda, além da voz do quartel-mestre, a de Lavruchka, a esperta e astuciosa ordenança de Denissov. Falava de comboios, de biscoitos e de bois, coisas que ele lobrigara quando fora por mantimentos.

A voz de Denissov, porém, de novo ressoou, afastando-se e gritando: «Selar cavalos! Segundo pelotão!»

«Aonde irão eles?», perguntava Rostov a si mesmo.

Cinco minutos mais tarde Denissov entrava na barraca, subia para cima da cama com as botas enlameadas, remexia em todas as suas coisas, pegava no chicote e no sabre e saía. Como Rostov lhe perguntasse aonde ia, respondeu, vagamente e colérico, que tinha que fazer.

— Que Deus me julgue e o grande imperador! — exclamou, ao sair, e Rostov ouviu atrás da barraca ferraduras de cavalos patinhando na lama. Não se preocupou mais com, o destino do amigo. Bem quente no seu cantinho adormeceu e não voltou a sair senão ao fim da tarde. Denissov ainda não voltara. O tempo limpara. Em volta da barraca vizinha dois oficiais e um junker jogavam à svaika, enterrando, por graça, raízes na lama mole. Rostov associou-se-lhes. No meio do jogo viram aproximar-se umas carroças, atrás das quais quinze hússares trotavam, montados em pilecas. As carroças com a sua escolta aproximaram-se e logo foram rodeadas por uma multidão de hússares.

— E estava o Denissov a lamentar-se — disse Rostov — com os abastecimentos à vista.

— É verdade! — exclamaram os oficiais. — Vamos ter os homens contentes.

Um pouco mais atrás surgiu Denissov na companhia de dois oficiais de infantaria, com quem conversava.

Rostov foi ao seu encontro.

— Devo preveni-lo, capitão — dizia um deles, um oficial pequenino e franzino, que parecia furioso.

— Já lhe disse, não lhe entrego coisa alguma — repontava Denissov.

Continuar: parte 4 de 4