Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 8 de 18 · parte 2/4

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Guerra e Paz

Quinta Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Meu caro — disse Ana Mikailovna ao filho — sei de fonte segura que o príncipe Basílio mandou o filho a Moscovo para o fazer casar com Júlia. Gosto muito dela e tenho pena que isso aconteça. Que pensas tu?

A ideia de passar por tolo e de haver desbaratado inutilmente todo aquele mês de galã melancólico junto de Júlia, vendo cair nas mãos de outro todos os rendimentos de Penza e congéneres, aos quais, em imaginação, já dera bom destino, e principalmente o saber que esse outro era o imbecil do Anatole, fê-lo perder a cabeça. Acorreu a casa das Karaguine decidido a declarar-se. Júlia recebeu-o sorridente e com um ar distraído, contando-lhe, negligente, quanto se divertira no baile da véspera e depois perguntou-lhe quando tencionava partir. Bóris, que viera disposto a falar-lhe do seu amor e resolvido a mostrar-se carinhoso, não pôde deixar de lamentar, em tom acerbo, a inconstância das mulheres e a facilidade com que elas trocam a dor pela alegria, acrescentando que o seu estado de espírito só depende afinal daqueles que as cortejam. Júlia, ofendida, replicou-lhe que efectivamente tinha razão, que as mulheres apreciam a variedade e que nada é mais enfadonho para elas que a monotonia.

— Por isso mesmo aconselho-a... — principiou Bóris, procurando ferir Júlia. Nesse momento, contudo, lembrou-se da humilhação que seria para ele deixar Moscovo sem atingir o seu objectivo e perdidos todos os seus passos, coisa que jamais lhe acontecera.

Calou-se no meio da frase, baixando os olhos para não ver a expressão irritada e resoluta que se pintara no rosto dela e disse-lhe:

— Não foi para me zangar consigo que aqui vim. Pelo contrário...

Fitou-a, a ver se devia prosseguir. Toda a irritação lhe desaparecera do rosto e os seus olhos implorativos e inquietos pousavam-se nele numa febril ansiedade. «Hei-de arranjar maneira de vê-la o menos que puder», dizia Bóris de si para consigo. «Já que as coisas chegaram até aqui, é bom que tenham um fim.» Corou muito, ergueu os olhos para ela e murmurou:

— Bem sabe o que sinto por si

Não precisava de dizer mais. Júlia resplandecia de contentamento e triunfo. Mas obrigou Bóris a pronunciar as palavras que se dizem habitualmente em tais circunstâncias: que a amava e que nunca pensara noutra mulher com aquele entusiasmo... Júlia sentia, em nome dos seus domínios de Penza e das suas florestas de Nijni, que tinha o direito de o exigir, e obteve o que tanto desejava.

Os noivos, sem tornarem a falar das «árvores que os cobriam de trevas e melancolia», fizeram os seus projectos para se instalarem num luxuoso palácio em Petersburgo, visitaram as pessoas conhecidas e consagraram-se aos preparativos do brilhante enlace.

 

[VI]

O conde Ilia Andreitch, em fins de Janeiro, chegou a Moscovo na companhia de Sónia e Natacha. A condessa, sempre doente, não estava em condições de viajar e era impossível permanecer na aldeia até ao seu restabelecimento. O príncipe André era esperado de um dia para o outro; além disso havia que tratar do enxoval, vender a propriedade dos arredores de Moscovo e aproveitar a estada do velho príncipe na capital para lhe apresentar a futura nora. A residência dos Rostov não estava aquecida, a família demorava-se pouco e a condessa não o acompanhava — eis as razões que levaram Ilia Andreitch a instalar-se em casa de Dmitrievna Akrossimova, que tantas vezes lhe oferecera a sua hospitalidade.

Já pela noite adiante, as quatro carruagens que conduziam os Rostov penetraram no pátio de Maria Dmitrievna, na Rua das Velhas Cavalariças. Esta senhora vivia sozinha. Casara a filha e todos os seus filhos estavam no exército. Conservava-se tão direita como noutro tempo. Falava sem papas na língua, dizia o que pensava com toda a franqueza e em voz alta e parecia censurar aos outros com toda a sua pessoa as fraquezas e paixões que não admitia. Levantava-se muito cedo e apenas com um penteador pelos ombros consagrava-se aos trabalhos caseiros e depois da igreja às compras. Assistia todos os domingos à missa e ia visitar os cárceres, onde a levavam assuntos que a ninguém comunicava. Nos dias de semana, assim que se arranjava, recebia visitantes de condições diversas, que diariamente lhe acorriam a casa, e depois jantava. Das refeições, suculentas e abundantes, compartilhavam sempre três ou quatro convidados. Em seguida vinha a partida de boston. Ao serão tinha quem lhe lesse os jornais em voz alta e os livros novos enquanto tricotava. Raramente fazia visitas, e se se permitia qualquer excepção era apenas para ir a casa das pessoas mais importantes da cidade.

Ainda não estava deitada quando os Rostov chegaram. Ouviu ranger os gonzos da porta do vestíbulo, que se abrira para deixar entrar os viajantes e a sua gente e o frio que vinha lá de fora. De lunetas acavaladas no nariz, a cabeça repuxada para trás, lá estava, de pé, no limiar da porta da sua grande saia, olhando com o seu ar severo e furioso. Dir-se-ia irritada por vê-los chegar e pronta a correr com eles, mas a verdade é que dera logo ordens para instalarem os viajantes e as bagagens.

— São do conde? Trá-las para aqui — dizia ela, apontando para as malas, sem cumprimentar ninguém. — São das meninas? Para ali, pela direita. Que estão vocês para aí a fazer com tantas contumélias? — gritou para as criadas. — Tratem de acender o samovar! Engordaste, estás mais bonita! — exclamou, agarrando Natacha, muito vermelha do frio, pela ponta do capuz. — Oh, estás gelada! Trata de te despir imediatamente. Está gelada, palavra! — repetiu, ao ver O conde, que se dispunha a beijar-lhe a mão. — Dêem-lhe rum com o chá! Soniuchka, bom dia — disse, por fim, dirigindo-se a Sónia, pondo na saudação um matiz de à-vontade afectuoso, como era seu costume quando falava com ela.

Depois de mudarem de fato e de se haverem recomposto da fadiga da jornada, foram tomar chá, e Maria Dmitrievna a todos beijou, um por um.

— É com a maior alegria que vos vejo hóspedes da minha casa — disse ela. — Ah! Já não era sem tempo! — acrescentou, piscando o olho, significativamente, para Natacha. — O velho está em Moscovo e o filho é esperado de um momento para o outro. Sim, é preciso, é preciso que o conheças. Bom, temos tempo de falar nisso — prosseguiu ela, relanceando um olhar a Sónia que significava não desejar abordar o assunto diante dela. — E agora ouve — continuou, voltando-se para o conde. — Que pensas fazer amanhã? Quem vais mandar vir? Chinchine? — perguntou, contando pelos dedos. — A chorona de Ana Mikailvona? — E dobrou outro dedo. — Está aí com o filho. Já sabes? O filho vai casar! Quem mais? Bezukov? Também aí está com a mulher. Tinha-a posto com dono, mas ela tratou de lhe deitar a mão. Jantou aqui na terça-feira. E quanto a elas — apontou para as meninas — vão amanhã comigo a Iverskaia e depois a Madame Aubert-Chalmé (Senhora francesa que vendia artigos de perfumaria e vestuário, em Moscovo. (N, dos T.). Não é verdade que querem tudo novo? Não me vão imitar a mim. Agora as mangas usam-se assim... No outro dia a princesa Irene Vassilievna, a nova, veio visitar-me: era de meter medo! Parecia que tinha dois barris em cada braço. De resto, a esta hora já a moda é outra. Muda todos os dias. E tu, pessoalmente, que te traz por cá? — perguntou ela ao conde, reassumindo a sua expressão severa.

— Tudo se juntou ao mesmo tempo — replicou o conde. — É preciso tratar dos trapos e arranjar um comprador para a minha propriedade e para a casa de Moscovo. Se não fosse muita maçada, aproveitava para ir a Marinskoie e deixar-lhe-ia as minhas garotas.

— Pois sim. Na minha casa estarão seguras. Irão comigo aonde for preciso. Saberei ralhar com elas, mas também lhes saberei dar mimos — disse Maria Dmitrievna, acariciando com a sua manápula as facezinhas da afilhada e menina preferida que era Natacha.

Na manhã do dia seguinte. Maria Dmitrievna levou as meninas a Iverskaia e à loja de Madame Aubert-Chalmé. Esta tanto medo tinha dela que lhe cedia sempre os tecidos pelo preço mais baixo, na esperança de a ver pelas costas o mais depressa possível. Maria Dmitrievna encomendou-lhe a maior parte do enxoval. De regresso a casa despediu toda a gente menos Natacha, a quem mandou sentar numa poltrona a seu lado.

— Pois bem, agora vamos conversar um bocadinho. Dou-te os meus parabéns pelo noivo que arranjaste. Apanhaste um dos bons! Estou muito contente por ti. Conheci-o ainda ele era deste tamanho... — Pusera a mão espalmada a um archina do soalho. Natacha corara de satisfação. — Gosto muito dele e de toda a sua família. E agora, ouve. Como sabes, o velho príncipe Nicolau não gosta lá muito que o filho se case. Que velho casmurro! Está claro que o príncipe André não é uma criança e dispensará o consentimento do pai. No entanto, a verdade é esta: não é bom uma pessoa entrar numa família contra vontade do chefe. É bem melhor conseguir a paz, fazer com que gostem de nós. Não és tola, espero que te saibas sair bem. Procede com tacto e inteligência e tudo acabará pelo melhor.

Natacha conservava-se calada, por timidez, supunha Maria Dmitrievna; mas na realidade não estava contente que viessem imiscuir-se nos seus problemas sentimentais com o príncipe André. Eram tão diferentes de todos os demais problemas humanos, que ninguém, em sua opinião, poderia compreendê-los. Só o amava e conhecia a ele; ele também lhe queria e ia chegar de um momento para o outro e casar com ela. Nada mais era preciso.

— Sabes? Conheço-o há muitos anos, a ele e à Machenka, de quem gosto muito também. Cunhadas são unhadas, é verdade, mas esta não é capaz de fazer mal a uma mosca. Pediu-me que te levasse a sua casa. Irão lá amanhã, tu e teu pai; sê carinhosa com ela. És mais nova. Quando ele chegar já tu a conhecerás e terás visto o pai e assim todos estarão a gostar de ti. Não é verdade? Não achas muito melhor assim?

— Claro — respondeu Natacha, contrariada.

 

[VII]

No dia seguinte, de acordo com o conselho de Maria Dmitrievna, o conde Ilia Andreitch dirigiu-se com Natacha a casa do príncipe Nicolau Andreievitch. O conde não morria de amores por aquela visita: no fundo tinha medo da entrevista. Lembrava-se da última vez que vira o velho, na altura da formação da milícia, quando em resposta ao convite para jantar que lhe endereçara fora mimoseado com uma série de impropérios por não ter fornecido o número de homens suficiente. Natacha, com o seu mais lindo vestido, estava, pelo contrário, muito bem disposta. «É impossível que me não achem simpática5>, dizia de si para consigo. «Toda a gente gosta de mim. Estou disposta a fazer por eles tudo o que quiserem, a gostar do velho, que é seu pai, e dela, que é sua irmã. Não posso compreender porque não hão-de gostar de mim!»

Tinham chegado à velha e sombria casa de Voztlvijenka e entraram para o vestíbulo.

— Bom, que Deus nos abençoe! — exclamou o conde, meio sério meio a rir. Natacha notou a agitação do pai ao entrar e que fora em voz baixa e tom’ humilde que perguntara se o príncipe e a princesa estavam em casa.

Quando se soube quem eram os visitantes, houve grande rebuliço entre a criadagem. O lacaio que fora anunciá-los viu-se detido no salão por um dos seus camaradas e ambos se puseram a segredar qualquer coisa. Também apareceu uma criada de quarto que lhes disse, muito à pressa, algumas palavras sobre a ama. Finalmente surgiu um velho lacaio, de ar severo, que declarou aos Rostov que o príncipe não podia recebê-los, mas que a princesa Maria pedia o favor de entrarem para os seus aposentos.

Mademoiselle Bourienne foi a primeira a receber as visitas. Acompanhou-as com extrema cortesia, conduzindo-as junto da princesa. Esta, com o rosto transtornado e em pânico, as faces cobertas de placas vermelhas, veio ao encontro deles no seu andar pesado, tentando debalde aparentar expressão despreocupada e alegre. Natacha não lhe agradou logo ao primeiro golpe de vista. Pareceu-lhe demasiado elegante e de uma alegria frívola e vaidosa de mais. Não se dava conta de que antes de ter posto os olhos na sua futura cunhada já estava mal disposta para com ela graças à inveja involuntária que lhe despertavam a sua beleza, a sua mocidade, a sua felicidade e o amor que lhe tinha o irmão. Além disso, ainda estava perturbadíssima com o incidente que acabava de se dar. O pai, quando lhe anunciaram as visitas, pusera-se a gritar não estar disposto a recebê-las, que Maria o fizesse, se assim queria, mas que era escusado pensarem em conduzi-las à sua presença. A princesa decidira recebê-las, mas receava que, de um momento para o outro, o pai fizesse algum escândalo, tão excitado parecia.

— Pois bem, minha querida princesa, aqui lhe trago a minha cantora — disse o conde, numa mesura, enquanto olhava para a direita e para a esquerda, sempre à espera, cheio de medo, de ver surgir o velho príncipe. — Gosto tanto que se conheçam... Que pena, que pena o príncipe continuar adoentado. — Em seguida, após mais alguns lugares-comuns, levantou-se. — Se me dá licença, princesa, enquanto vou aqui ao lado, à Praça dos Cães, a casa de Ana Semionovna, deixo consigo a minha Natacha. É questão de um quarto de hora. Venho já buscá-la.

Ilia Andreitch inventara aquele estratagema diplomático, assim o confessou à filha depois, para que as futuras cunhadas falassem com toda a franqueza e também para evitar encontrar-se com o príncipe, a quem tanto receava. Isto não o disse ele a Natacha, mas esta percebeu o terror e a inquietação do pai e não pôde deixar de se sentir melindrada. Corou de vergonha por ele, e o ter corado ainda mais a irritou. O seu olhar ousado e provocante, que dizia não ter medo de pessoa alguma, fixou-se na princesa. Esta entretanto respondera ao conde ter o maior prazer e que só uma coisa lhe pedia, o demorar-se quanto mais melhor. E Ilia Andreitch desapareceu.

Mademoiselle Bourienne, apesar dos olhares impacientes com que Maria a dardejava, ansiosa por ficar só com Natacha, não saía da sala e continuava a falar das diversões e dos teatros de Moscovo. Natacha sentia-se magoada ao mesmo tempo pela confusão que presenciara no vestíbulo, pela apreensão do pai e pelo tom forçado da princesa, que dir-se-ia fazer um grande favor em recebê-la. Tudo isto lhe era muito desagradável. Não gostou da princesa Maria. Pareceu-lhe muito feia, afectada e seca. Sentiu de súbito crispar-se-lhe a alma e assumiu sem querer um ar de indiferença que ainda mais contribuiu para afastar de si a interlocutora. Cinco minutos depois de terem encetado uma conversa forçada e penosa ouviram-se os passos rápidos de um homem arrastando chinelos de quarto. A princesa Maria ficou lívida. A porta abriu-se e entrou o príncipe, de roupão e gorro branco.

— Oh!, menina – exclamou —, a senhora condessa.., a condessa Rostov, se não estou em erro... Queira desculpar. Mil perdões... Não sabia, menina. Juro por Deus que ignorava que nos tivesse dado a honra de visitar-nos. Era no quarto de minha filha que eu julgava entrar.., vestido desta maneira. Queira desculpar... Juro por Deus que não sabia — repetiu, num tom tão pouco natural, acentuando a palavra «Deus», e tão desagradável, que a princesa Maria permaneceu calada, de olhos baixos, sem ter coragem de olhar o pai nem Natacha.

Natacha, que se levantara, e depois voltara a sentar-se, também não sabia que fazer. Só Mademoiselle Bourienne continuava a sorrir.

— Queira desculpar, queira desculpar. Juro por Deus, não sabia — roncou o velho, que, depois de mirar Natacha dos pés à cabeça, abalou dali.

Mademoiselle Bourienne foi a primeira a recompor-se após esta aparição, pondo-se a falar da pouca saúde do príncipe. Natacha e Maria olhavam uma para a outra sem dizer palavra e à medida que este exame mútuo se prolongava, sem que qualquer delas quisesse exprimir o que sentia, dir-se-ia ir crescendo a antipatia que experimentavam uma pela outra.

Quando o conde voltou. Natacha nada fez para esconder a alegria que sentiu e logo se deu pressa de partir. Naquele momento quase odiava aquela princesa seca e envelhecida que a obrigava àquela situação desagradável, tornando possível passarem juntas meia hora sem dizer uma palavra acerca do príncipe André.

«Não podia ser eu a primeira a falar dele, e ainda por cima na presença desta francesa», dizia para si própria. A Maria atormentava-a o mesmo pensamento. Sabia o que devia ter dito a Natacha, mas não o pudera fazer, primeiro por sentir-se embaraçada com a presença de Mademoiselle Bourienne, e depois, sem que soubesse porquê, por lhe ser penoso falar daquele casamento. No momento em que o conde saía. Maria aproximou-se de Natacha e, pegando-lhe resolutamente na mão, disse-lhe num profundo suspiro:

— Espere, eu quereria...

Sem saber porquê Natacha olhou para ela com ar trocista.

— Querida Natália — disse Maria —, não quero deixar de lhe manifestar a alegria que sinto por meu irmão ter encontrado a felicidade...

Calou-se, sentindo não dizer a verdade. Natacha notou esta hesitação e adivinhou— ‘lhe a causa.

— Parece-me, princesa, que passou já o momento de falar no assunto — volveu Natacha com uma dignidade e uma frieza aparentes, sentindo a voz embargada pelos soluços.

«Que disse eu? Que disse eu?», pensou ao transpor a porta da sala.

Naquele dia esperaram muito tempo Natacha para jantar. Fechada no seu quarto, soluçava como urna criança, dolorosa— mente sentida. Sónia, de pé, junto dela, beijava-lhe os cabelos.

— Natacha, porque choras? — dizia-lhe ela. — Para que hás-de preocupar-te com eles? Tudo passará. Natacha.

— Ah, se tu soubesses o que custa... É como se eu...

— Não falemos mais nisso. Natacha. Não tens culpa. Então porque te preocupas? Dá cá um beijo, anda — murmurou Sónia.

Natacha ergueu a cabeça e beijou a amiga nos lábios, apertando contra o dela o seu rosto, banhado de lágrimas.

— Não sei, não sei. Ninguém é culpado — balbuciou Natacha. — Sou eu a culpada. Como tudo isto é horrível! Ai, porque não vem ele?...

Quando desceu para jantar tinha os olhos vermelhos. Maria Dmitrievna, que sabia como o príncipe recebera Rostov, fingiu não reparar na mágoa de Natacha, levando o repasto a dizer graças ao conde e aos seus hóspedes na sua voz grossa e potente.

 

[VIII]

Nessa noite, os Rostov foram à ópera, para onde Maria Dmitrievna lhes arranjara um camarote.

Natacha não queria ir, mas não pôde recusar esta amabilidade de Maria Dmitrievna, que os convidara precisamente por sua causa. Quando, já vestida, penetrou no salão, para aí aguardar o pai, depois de relancear a vista ao grande espelho e verificou estar bonita, e mesmo muito bonita, ainda mais triste se sentiu; à sua tristeza misturava-se uma espécie de amoroso desfalecimento.

«Meu Deus, se ele aqui estivesse, não seria como antigamente, não sentiria esta timidez estúpida, abraçar-me-ia a ele, apertar-me-ia contra ele, obrigá-lo-ia a olhar para mim com aquele lampejo de curiosidade interrogadora que tantas vezes lhe vi nos olhos. Depois fá-lo-ia rir como antigamente. Ah!, aqueles olhos, parece que os estou a ver!», murmurava Natacha para si mesma. F depois pensava: «E a mim que me importam o pai e a irmã? É dele de quem gosto, só dele, da sua cara, dos seus olhos, do seu sorriso ao mesmo tempo de homem e de criança... Ah!, o melhor é não pensar nisso, em nada pensar, esquecer, esquecer tudo, pelo menos por algum tempo. Esta ausência mata-me, não posso reter as lágrimas.» Afastou-se do espelho, num grande esforço para conter o pranto. «Como pode Sónia gostar de Nikolenka assim tão serena, tão tranquilamente, e esperar tanto tempo e com tanta paciência?», pensava ainda ao ver entrar a amiga, já vestida também, com o leque na mão. «Sónia é muito diferente de mim. Eu não posso! »

Naquele momento tamanha era a ternura refreada que Natacha sentia que lhe não bastava amar e saber-se amada: tomava-a um desejo imperioso de apertar nos seus braços, imediatamente, o homem amado e de lhe dizer e de colher de seus lábios as frases de amor que lhe transbordavam do peito. Durante o percurso, de carruagem, ao lado do pai, olhando, cismadora, perpassar pelos vidros embaciados das portinholas os relâmpagos furtivos dos revérberos, a sua alma ainda estava mais triste e amorosa, e esquecia tudo à sua volta. Tomando lugar na fileira das carruagens, o carro dos Rostov, que arranhava suavemente o, neve, chegou à entrada do teatro. Natacha e Sónia saltaram ligeiras para o chão, erguendo os vestidos. Depois apeou-se o conde, ajudado pelos lacaios, e de roldão com as senhoras e os cavalheiros que entravam e à mistura com os vendedores de programas dirigiram-se, todos três, para o corredor dos camarotes. Através das portas fechadas já se ouviam os acordes da orquestra.

— Natália, os teus cabelos... — murmurou Sónia.

O empregado, com uma pressurosa cortesia, deslizou por diante das senhoras e abriu a porta do camarote. Ouviu-se mais distintamente a orquestra e do outro lado surgiu a fila dos camarotes iluminados, cheios de senhoras decotadas, e a plateia resplandecente de uniformes de gala. Uma dama que penetrava num camarote vizinho observou Natacha com um olhar cheio de inveja. O pano ainda não subira e tocavam a abertura. Depois de compor o vestido. Natacha entrou com Sónia, sentou-se e pôs-se a olhar a fila dos camarotes do outro lado. De repente apoderou-se dela uma sensação não experimentada há muito: aquelas centenas de olhos fitos nos seus braços e no seu colo nus eram uma coisa ao mesmo tempo agradável e penosa, acordando nela enxames de recordações, de desejos, de inquietações. As duas raparigas, muito belas, acompanhadas do conde Ilia Andreitch, que há muito não era visto em Moscovo, chamaram imediatamente a atenção de toda a assistência. Além disso toda a gente ouvira falar do noivado de Natacha com o príncipe André, e também se sabia que desde então os Rostov viviam no campo. Aquela que ia casar com um dos melhores partidos de toda a Rússia a examinada com a maior curiosidade.

Natacha fizera-se mais bonita durante a temporada na aldeia. Essa a opinião de toda a gente, e nessa noite, precisamente, graças à emoção que experimentava, ainda estava mais linda. Impressionava a sua exuberância de vida, a plenitude das suas formas e também a indiferença por tudo quanto a rodeava. Seus olhos pretos erravam pela multidão sem procurar ninguém e tinha o braço delicado, nu até um pouco acima do cotovelo, pousado no parapeito de veludo do camarote. Maquinalmente abria e fechava a pequenina mão, como a marear o compasso da abertura, enquanto ia vincando o programa.

— Olha, as Alenina — dizia Sónia. — A filha e a mãe, parece-me.

— Santos Padres! Mikail Kirilitch! Está ainda mais gordo! — exclamava o velho conde.

— Olhe para a touca da nossa Ana Mikailovna!

— As Karaguine e o Bóris. Estão noivos ele e a Júlia. Vê-se logo. Já a teria pedido?

— Pediu, sim, acabam de mo dizer — disse Chinchine, que entrava no camarote dos Rostov.

Natacha olhou na direcção que tomavam os olhos do conde e viu Júlia, sentada ao pé da mãe, com um ar feliz; do seu grosso e vermelhusco pescoço, que ela sabia todo empoado, pendia um grosso colar de pérolas. Atrás delas, todo sorridente e debruçando-se para ouvir o que Júlia dizia. Bóris mostrava a linda cabeça muito penteada. Tendo olhado de relance para os Rostov, murmurou qualquer coisa ao ouvido da noiva.

«Estão a falar de nós, de mim!», dizia Natacha consigo mesma. «Naturalmente está a dizer-lhe que escusa de ter ciúmes de mim. Não vale a pena! Se soubessem como me são todos indiferentes!»

Ana Mikailovna, com a sua touca verde, sempre entregue a Deus e uma expressão de dias de festa, triunfante, sentara-se atrás deles. O camarote parecia banhado nessa atmosfera especial dos noivos que Natacha conhecera e lhe causava inveja. Virou-se e de repente veio-lhe à memória toda a humilhação por que passara durante a visita dessa manhã.

«Que direito tem ele de me não querer aceitar na família? Oh, é melhor não pensar nisso, pelo menos enquanto o príncipe André não vier!», disse de si para consigo, e pôs-se a percorrer, uma por uma, as caras conhecidas e desconhecidas da plateia. Na primeira fila, bem ao meio, de costas apoiadas à ribalta, estava Dolokov, com os seus espessos cabelos frisados penteados para diante. Vestia à persa. Pusera-se bem em evidência, sabendo que todo o teatro olhava para ele, e tão à vontade como se estivesse em sua própria casa. Toda a juventude elegante de Moscovo fazia roda em tomo dele e via-se perfeitamente ser ele o chefe.

O conde Ilia Andreitch acotovelou, rindo. Sónia, muito corada, para lhe mostrar o seu antigo admirador.

— Conheceste-o? — disse-lhe ele. — Donde veio ele? — perguntou o conde a Chinchine. — Desaparecera por completo.

— É verdade — replicou Chinchine. — Esteve no Cáucaso e desertou. Dizem que foi ministro de um príncipe persa é que matou o irmão do xá. Ora aí tem! Todas as mulheres de Moscovo estão doidas por ele. Dolochoff, o persa, e está tudo dito! Não se fala noutra coisa. Juram invocando o nome dele. E fazem-se convites para o ver, como se se tratasse de comer um esturjão. — E acrescentou: — Dolokov e Anatole Kuraguine deram volta ao miolo de todas as mulheres.

Nesse momento penetrou no camarote vizinho uma alta e bela mulher, exibindo uns ombros e um colo cheios e muito brancos, com um colar de duas voltas de grossas pérolas. Levou tempo a instalar-se, exibindo ruidosamente o amplo vestido de seda.

Natacha, involuntariamente, contemplou aquele colo, aqueles ombros, aquelas pérolas, aquele penteado, admirando tanto a beleza da mulher como o fulgor das jóias. Quando a observava pela segunda vez, ela voltou-se e, ao encontrar os olhos do conde Ilia Andreitch, fez-lhe um breve aceno de cabeça, sorrindo-lhe. Era a condessa Bezukov, a mulher de Pedro. O conde, que conhecia toda a gente, debruçou-se para ela e principiou a conversar.

— Já está aqui há muito tempo, condessa? — disse ele. — Irei sem falta fazer-lhe uma visita. Eu vim tratar de negócios e trouxe comigo as pequenas. Dizem que a Semionovna trabalha maravilhosamente. O conde Piotre Kirilovitch Bezukov não nos esqueceu, com certeza. Está aí?

— Sim, tinha intenção de vir — disse Helena, olhando atentamente Natacha.

O conde retomou o seu lugar.

— É bonita, não é? — perguntou em voz baixa à filha.

— Maravilhosa! — replicou Natacha. — Compreendo que os homens gostem dela!

Naquele momento ressoaram os últimos acordes da abertura e ouviram-se as três pancadas da batuta do maestro. Os cavalheiros retardatários deram-se pressa em ocupar os seus lugares e o pano subiu.

Fez-se então na sala um profundo silêncio. Tanto os velhos como os jovens, de fraque ou de uniforme, as senhoras decotadas e cobertas de jóias, todos, curiosos, voltaram os olhos para a cena. Natacha seguiu-lhes o exemplo.

 

[IX]

O centro do cenário era de tábuas uniformes; de cada um dos lados, cartões pintados fingindo árvores e no fundo um pano corrido. Raparigas de blusas vermelhas e saias brancas formavam um grupo ao meio do palco. Uma delas, corpulenta, de vestido de seda branca, estava sentada num banco muito baixo atrás do qual havia um cartão verde colado. Cantavam em coro. Quando acabaram, a vestida de branco deu alguns passos na direcção da caixa do ponto. Então aproximou-se dela um homem de calções de seda, que lhe cingiam as grossas pernas, chapéu emplumado e punhal à cinta, que se pôs a cantar com muitos gestos.

O homem dos calções justos cantou sozinho, depois cantou a rapariga de branco. Em seguida calaram-se ambos, ouviu-se a orquestra e o homem pegou na mão da companheira, como para lhe contar os dedos, aguardando o compasso para o dueto. Quando acabaram de cantar, o teatro em peso aplaudiu e os dois artistas que desempenhavam o papel de namorados sorriram, fazendo mesuras e agitando as mãos para um lado e para o outro da plateia.

Acabada de chegar da aldeia e na sua disposição de espírito não podia Natacha deixar de encarar o espectáculo como uma coisa grotesca e insólita. Era-lhe impossível acompanhar o desenvolvimento da acção, e nem sequer seguia a música; apenas via panos pintados, homens e mulheres vestidos de estranha maneira, mexendo-se, falando e cantando rodeados de luz intensa. Evidentemente que compreendia a significação do que a cena representava, mas tudo lhe parecia, no seu conjunto, tão convencional e falso, tão pouco natural, que ora tinha vergonha pelos actores ora lhe dava vontade de rir. Olhava em volta de si, procurando descobrir na fisionomia dos espectadores o mesmo estado de espírito, mas verificava que toda a gente seguia com atenção o que estava a passar-se no palco e nos seus rostos havia um entusiasmo que a ela se lhe afigurava falso. «Naturalmente, tem de ser assim», dizia de si para consigo. Tão depressa observava as filas das cabeças da plateia espelhantes de brilhantina como as senhoras decotadas dos camarotes, especialmente Helena, sua vizinha, que, seminua, olhava para o palco, com um sorriso doce e plácido, sem nunca desviar os olhos, toda ela exposta à luz violenta que se derramava na sala e à quente palpitação que emanava da plateia. Pouco a pouco Natacha sentiu-se tomada de uma espécie de embriaguez, disposição que há muito não sentia. Já não sabia o que fazia, onde estava, o que se passava diante dos seus olhos. Olhava sem ver, enquanto os pensamentos mais estranhos e incoerentes lhe atravessavam o cérebro. Ora lhe davam ganas de escalar o proscénio e de cantar a ária que a actriz garganteava, ora lhe vinham desejos de, com a ponta do leque, espevitar o velhinho sentado na plateia, não muito longe dela, ou ainda de se debruçar para Helena e de lhe fazer cócegas nas costas.

Numa dessas pausas da orquestra que antecedem os acordes de um novo andamento, a porta da plateia rangeu, lá para os lados do camarote dos Rostov, e ouviram-se passos de alguém que chegava atrasado. «Aí está o Kuraguine!», segredou Chinchine. A condessa Bezukov voltou-se, sorrindo, para quem entrava. Natacha seguiu-lhe o olhar e viu um ajudante-de-campo, de uma beleza extraordinária, dirigindo-se para o seu camarote com um ar ao mesmo tempo seguro de si e cheio de cortesia. Era Anatole Kuraguine, a quem não esquecera desde que o vira no baile de Petersburgo. Vestia o uniforme de gala de ajudante-de-campo, com dragonas e agulhetas. Mantendo em atitude arrogante a perfumada cabeça, avançava, num passo contido, que teria sido ridículo se no seu todo não exprimisse um contentamento tão cordial e tão boa disposição, e se ele próprio não fosse tão belo homem. Embora o espectáculo já tivesse principiado, não se dava pressa, caminhando ao longo da passadeira do corredor com as esporas e o sabre a tilintar ligeiramente. Depois de um olhar a Natacha, aproximou-se da irmã, apoiou a mão, moldada na luva, no parapeito do camarote, acenou-lhe com a cabeça e, debruçando-se para ela, perguntou-lhe qualquer coisa enquanto designava a vizinha.

— Mas é encantadora! — exclamou, falando evidentemente de Natacha, que o percebeu mais pelo movimento dos lábios que propriamente por ter ouvido o que diziam. Depois Kuraguine dirigiu-se para a primeira fila de poltronas e sentou-se ao lado de Dolokov, a quem acotovelou distraída e amistosamente, o Dolokov a quem todos os outros tratavam com tanta deferência. Sorriu-lhe, piscando-lhe, jovialmente, o olho, enquanto punha o pé sobre o varão metálico que os separava da ribalta.

— Muito se parecem os dois irmãos! — exclamou o conde. — E são ambos bem bonitos!

Chinchine, a meia voz, contou-lhe a história de uma aventura de Kuraguine em Moscovo, e Natacha ficou-se a ouvi-lo simplesmente porque ele dissera, referindo-se a ela, que a achava encantadora. O primeiro acto terminou. Toda a gente se levantou, uns saíram, outros começaram a passear de um lado para o outro no vestíbulo da plateia.

Bóris veio cumprimentar os Rostov ao seu camarote. Com a maior naturalidade aceitou as felicitações que lhe dirigiam e, depois de assumir um ar preocupado, com um sorriso distraído, convidou Natacha e Sónia, em nome da noiva, para o seu casamento. F saiu. Natacha felicitara aquele mesmo Bóris de quem outrora estivera enamorada, com um sorriso em que havia jovialidade e uma certa coquetterie. No estado de embriaguez em que estava tudo lhe parecia simples e natural.

Helena, seminua, sentada muito perto dela, dirigia a todos, indistintamente, o seu perpétuo sorriso, e assim Natacha, do mesmo modo, sorrira para Bóris.

Não tardou que o camarote de Helena estivesse cheio e ela rodeada de titulares e homens distintos, que pareciam querer mostrar a toda a gente serem das suas relações.

Kuraguine, durante o intervalo, ficou na plateia, ao lado de Dolokov, de olhos fitos no camarote dos Rostov.

Natacha, sabendo que ele falava dela, sentia-se lisonjeada. Colocou-se mesmo de maneira que ele a pudesse ver de perfil, posição que a favorecia, segundo pensava. Antes de principiar o segundo acto apareceu Pedro na plateia. Os Rostov ainda o não tinham visto desde que estavam em Moscovo. Parecia triste e ainda engordara mais desde a última vez que Natacha o vira. Caminhou para as primeiras filas da plateia sem olhar para ninguém. Anatole aproximou-se dele e disse-lhe qualquer coisa, enquanto lhe chamava a atenção para o camarote dos Rostov. Ao ver Natacha. Pedro animou-se e, passando apressadamente por entre as filas de cadeiras, aproximou-se do camarote do conde, que era rente à plateia. Apoiou os cotovelos no parapeito e ficou-se a conversar com ela. Enquanto o escutava. Natacha julgou ouvir uma voz de homem no camarote da condessa Bezukov e pensou que seria Kuraguine. Voltou-se e os seus olhos encontraram-se. Com um ligeiro sorriso, ele fitava-a, com um olhar ao mesmo tempo tão caloroso e acariciador que lhe pareceu estranho ver-se tão perto dele e olhá-lo assim tão segura de lhe ter agradado, embora o não conhecesse senão de vista.

O cenário do segundo acto representava uns monumentos funerários e tinha um buraco no pano de fundo a fingir a Lua. Haviam retirado o quebra-luz das gambiarras, as trombetas e os contrabaixos tocavam em surdina e da direita e da esquerda surgia muita gente de manto negro. Brandiam qualquer coisa, talvez punhais. Em seguida apareceram outras pessoas que impeliam na sua frente a rapariga que no primeiro acto estava vestida de branco e agora se vestia de azul. Não a levaram logo, mas cantaram muito tempo com ela antes de o fazerem, e então, por três vezes, ouviu-se nos bastidores um ruído metálico, e todos ajoelharam entoando uma oração. Tudo isto foi interrompido várias vezes pelos gritos entusiastas dos espectadores.

Durante o espectáculo, sempre que Natacha olhava para a plateia, via Anatole Kuraguine, com o braço passado por trás da poltrona, todo voltado, a olhar para ela. Sentia-se encantada ao vê-lo enamorado dela e não lhe passava pela cabeça que nisso houvesse qualquer mal.

Quando terminou o segundo acto, a condessa Bezukov levantou-se, voltando-se para o lado do camarote dos Rostov, que só então puderam ver que ela tinha os seios descobertos. Depois, chamando, com um sinalzinho da sua mão enluvada, o velho conde, sem prestar a mais pequena atenção às pessoas que entravam no seu camarote, pôs-se a conversar com ele, sorrindo graciosamente.

— Apresente-me às suas encantadoras filhas — disse-lhe ela. — Toda a gente fala delas em Moscovo e só eu as não conheço. Natacha levantou-se e fez uma reverência à esplêndida condessa. Lisonjeada pelo galanteio daquela beleza célebre, sentiu-se corar.

— Agora também quero tornar-me moscovita — prosseguiu Helena. — Não se envergonha de ter pérolas dessas escondidas na aldeia?

Merecia, realmente, a fama de feiticeira de que gozava. Tinha o dom de dizer o que não pensava e especialmente de manejar a arma da lisonja com a maior naturalidade.

— Querido conde, tem de consentir que eu me ocupe de suas filhas. Embora não vá demorar-me aqui muito tempo, como, de resto, todos nós, quero que elas se divirtam. Ouvi falar muito de si em Petersburgo e há muito que desejava conhecê-la — acrescentou, dirigindo-se a Natacha e dedicando-lhe o seu amável sorriso. — Falaram-me muito de si, em primeiro lugar o meu pajem. Drubetskoi — sabe que vai casar? — e depois o grande amigo de meu marido, o príncipe André Bolkonski. — Frisou particularmente este nome, para dar a entender não ignorar as relações que havia entre eles. Para melhor se relacionarem, pediu ao conde consentisse que uma das suas filhas viesse para o seu camarote. E Natacha passou para junto da condessa.

No terceiro acto, a cena representava um salão todo iluminado, com as paredes cobertas de retratos de cavaleiros barbados. No centro do palco estavam duas personagens, naturalmente o rei e a rainha. Aquele fez um gesto com a mão direita e, visivelmente intimidado, cantou uma ária bastante mal, indo depois sentar-se num tronco cor de amaranto. A rapariga que aparecera primeiro vestida de branco, depois de azul, agora nada mais tinha em cima de si além de uma camisa, e, de cabelos caídos, estava ao lado do trono. Pôs-se a cantar o seu desespero, dirigindo-se à rainha, mas o rei fez com a mão um gesto severo e, vindos dos lados, apareceram homens e mulheres, todos de fato de malha, que cantaram em coro. Em seguida os violinos tocaram uma ária ligeira e jovial. Uma das mulheres, com as suas planturosas coxas moldadas pela malha e uns braços magricelas, depois de se separar das companheiras, entrou nos bastidores, para arranjar o corpete, voltando para o meio do palco, onde desatou aos pulos enquanto batia com os pés um no outro, muito enérgica. Toda a plateia rompeu em aplausos, gritando: «Bravo!» Em seguida um homem foi colocar-se a um canto. Na orquestra os címbalos e as trompetas ressoaram mais alto e, sozinho, um homem de fato de malha pôs-se a dar saltos muito altos, batendo com os pés um no outro. Esse homem era Duport, o qual, só por fazer aqueles exercícios, ganhava sessenta mil rublos anuais. Todos os espectadores, tanto na plateia, como nos camarotes e no galinheiro, romperam em aplausos e a chamá-lo com toda a força dos pulmões, e o bailarino deteve-se e a sorrir veio agradecer, voltando-se para todos os lados do teatro. Outras pessoas vieram dançar também, homens e mulheres, e o rei, acompanhado pela orquestra, gritou umas palavras e todos, como uma só voz, entoaram um coro. De súbito desencadeou-se uma tempestade, a orquestra executou escalas cromáticas e acordes da sétima menor; todos acorreram, arrastando consigo, de novo, para os bastidores um dos artistas, depois do que caiu o pano. Os espectadores principiaram então a vociferar e todos gritavam com o maior entusiasmo: «Duport! Duport! Duport!»

Natacha já nada achava estranho. Olhava para o que ia à sua volta com satisfação e sorrindo.

— Não acha o Duport admirável? — perguntou-lhe Helena.

— Acho, sim — replicou Natacha.

 

[X]

Durante o intervalo abriu-se a porta e uma corrente de ar frio filtrou-se no camarote de Helena. Anatole entrou, inclinando-se, para não tropeçar em ninguém.

— Dá licença que lhe apresente meu irmão? — disse Helena, mirando ora um ora outro, um pouco preocupada.

Natacha voltou a sua linda cabeça para aquele belo moço e sorriu-lhe por cima do ombro nu. Anatole, que era bonito rapaz tanto de perto como de longe, sentou-se a seu lado, dizendo-lhe que havia muito desejava ser-lhe apresentado, desde que tivera o prazer, inesquecível para ele, de a ver no baile dos Narichkine. Kuraguine era muito mais simples e inteligente ao pé das mulheres do que com os homens. Falava resolutamente e com simplicidade e foi com prazer que Natacha verificou nada encontrar de assustador naquele homem de quem se dizia tanta coisa, e em quem, antes pelo contrário, via um sorriso simples, alegre e cordial.

Perguntou-lhe Anatole se gostara do espectáculo e contou-lhe que na representação antecedente Semionovna caíra em cena.

— Sabe, condessa — acrescentou, tratando-a, de chofre, como se ela fosse uma velha conhecida sua —, estamos a organizar um baile de máscaras. Não pode faltar. Vai ser muito divertido. Reunimo-nos em casa das Karaguine. Peço-lhe, não deixe de aparecer.

Enquanto falava não deixava de fitar, com os seus risonhos olhos, o rosto, o colo e os braços nus de Natacha. Agora ela tinha a certeza de que ele a admirava. E isto era-lhe agradável, embora, sem que soubesse porquê, a presença dele, ao mesmo tempo que a perturbava, lhe fosse penosa. Quando apartava dele a vista sentia nos ombros o peso dos seus olhares e inconscientemente desejaria poder interceptar esses olhares, para que ele a fitasse antes no rosto. Porém, quando o olhava de frente percebia não existirem já entre os dois essas barreiras que o pudor, naturalmente, costumava levantar entre ela e os outros homens. Sem se dar conta, em menos de cinco minutos, sentiu-se extremamente próxima daquele homem. Quando voltava a cara, receava vê-lo pegar-lhe na mão nua ou surpreendê-lo a beijar-lhe os ombros. Falavam das coisas mais insignificantes, mas Natacha, de si para consigo, dizia serem íntimos e haver entre eles uma familiaridade como nunca existira entre ela e qualquer outro homem. Interrogava Helena e o pai com os olhos, como se quisesse perguntar-lhes a significação de tudo aquilo, mas a condessa estava entretida a conversar com um general e não lhe respondeu e o pai dizia-lhe o mesmo de sempre: «Divertes-te? Ainda bem, gosto muito disso.»

Para romper um silêncio embaraçoso, em que Anatole a olhava, tranquila e obstinadamente, com os seus olhos à flor da pele. Natacha perguntou-lhe se gostava de Moscovo. Mal lhe fizera esta pergunta logo se sentiu corar: afigurava-se-lhe, a todo o momento, estar fazendo qualquer coisa de inconveniente quando falava com ele. Anatole sorriu como a encorajá-la.

— De princípio Moscovo não me entusiasmou por aí além,

O que faz uma cidade agradável são as mulheres bonitas, não é verdade? Mas agora agrada-me muito — acrescentou, fitando-a de maneira significativa. — Vai ao baile, condessa? Vá — E avançando a mão para as flores que Natacha trazia consigo, e baixando a voz: — Será a mais bonita. Prometa que vai, querida condessa, e para selar a promessa dê-me esta flor.

Natacha não pôde compreender por completo o sentido oculto que ele punha naquelas palavras, mas nem por isso deixou de sentir que eram inconvenientes. Sem saber que responder, desviou a cara, fingindo não ter ouvido. Mas nesse mesmo, instante a ideia de que ele estava ali, atrás dela, e tão perto, de novo a tomou.

«Que estará ele a fazer?», perguntava a si própria. «Terá ficado atrapalhado? Estará zangado comigo? É preciso arranjar as coisas!» E não resistiu: voltou a cabeça para trás. Os olhos dela foram pousar directamente nos dele e a sua presença tão próxima, a sua confiança, a sua simpática cordialidade conquistaram-na. Sorriu com ele, olhando-o bem de frente. E de novo pensou, assustada, que entre eles não havia barreiras.

O pano voltou a subir. Anatole saiu do camarote, feliz e sereno.

Natacha voltou para junto do pai, completamente subjugada pelo novo mundo que acabava de entrever. Tudo o que passava à sua roda se lhe afigurava agora o que havia de mais natural e nem por um instante sequer lhe vieram à mente as suas antigas preocupações com o noivo, com a princesa Maria, com a vida na aldeia: era como se tudo isso fizesse parte de um passado longínquo.

No quarto acto apareceu no palco, gesticulando, uma espécie de demónio, que se pôs a cantar até que um alçapão se entreabriu e ele desapareceu pelo chão abaixo. Eis tudo quanto Natacha viu. Sentia-se inquieta e perturbada, e Kuraguine, a quem ela não deixava de seguir com os olhos, mesmo sem querer, era o responsável daquela agitação. Ã saída aproximou-se, mandou avançar a sua própria carruagem e instalou-os a todos lá dentro.

Ao ajudar Natacha a subir para o carro apertou-lhe o braço um ponto acima do cotovelo. Muito corada e confusa, ela ergueu para ele as pupilas. Anatole fitou-a com seus olhos brilhantes e sorriu-se.

Só ao chegar a casa Natacha pôde medir com clareza o que se passara, e de súbito, ao lembrar-se do príncipe André, um grande medo a tomou, soltou um grito e saiu da sala onde todos tomavam chá, corada até às orelhas.

«Meu Deus! Estou perdida!», exclamou de si para consigo. «Como pude eu permitir-lhe?» Longo tempo assim ficou, o rosto, muito afogueado, escondido nas mãos, tentando dar-se conta exacta do que se passara no teatro, embora sem conseguir perceber nem o que sentira nem o que estava experimentando. Tudo lhe parecia obscuro, indistinto e terrível.

Lá, naquela sala toda iluminada, onde, sobre o palco, acompanhado pela orquestra. Duport dava pulos, de fato de malha e coberto de lantejoulas, e em que raparigas, velhos. Helena, toda decotada, sorrindo sempre serena e orgulhosa, gritavam entusiásticos bravos, ali, à sombra daquela Helena, tudo era claro e simples, mas agora, ao ver-se sozinha, entregue a si mesma, nada compreendia. «Que quer isto dizer? Que significam o terror que senti diante dele e estes remorsos que me esmagam?», murmurava.

Só na cama, à noite, à velha condessa teria podido confiar aqueles pensamentos. Sónia, por de mais o sabia, com os seus severos e rígidos princípios, ou nada teria percebido ou ter-se-ia sentido aterrada com tal confissão. Entregue a si própria, sozinha. Natacha procurava descobrir a causa das suas angústias.

«Estarei ou não perdida para o amor de André?», perguntava-se a si própria, e a si mesma respondia, trocista: «Que parva sou com estas perguntas! Que aconteceu? Nada. Nada fiz, não tenho culpa alguma do que sucedeu. Ninguém saberá nada e eu não o voltarei a ver.» E pensava ainda: «Está claro que nada se passou, que não tenho que me arrepender seja do que for. O príncipe André pode continuar a gostar de mim como sou. Mas que serei eu, realmente? Ah! Meu Deus, meu Deus! Porque não o tenho aqui a meu lado?»

Continuar: parte 3 de 4