Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 8 de 18 · parte 3/4

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Guerra e Paz

Quinta Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Natacha por instantes ficara sossegada, mas daí a pouco um instinto secreto lhe dizia de novo que, embora tudo aquilo fosse verdade e nada tivesse acontecido, a antiga pureza do seu amor por André fora-se de uma vez para sempre. E em imaginação ia recordando a conversa com Kuraguine e tornava a ver o rosto, os gestos, o terno sorriso daquele homem audacioso e belo no momento em que lhe apertara o braço.

[XI]

Anatole Kuraguine vivia em Moscovo porque o pai o mandara sair de Petersburgo, onde gastava mais de vinte mil rublos por ano e contraía dívidas de igual importância, que o príncipe se via obrigado a satisfazer.

O pai fizera compreender ao filho ser a última vez que lhe pagava metade das dívidas, mas com a condição de ele ir para Moscovo como ajudante-de-campo do general-chefe, cargo que ele próprio lhe conseguira, e de casar, finalmente, com uma rica herdeira. A princesa Maria e Júlia Karaguine eram as visadas.

Anatole acedeu e foi para Moscovo, hospedando-se em casa de Pedro. Este principiou por recebê-lo de má vontade, mas acabou por se habituar à sua presença. Às vezes participavam das mesmas orgias e a título de empréstimo adiantava-lhe dinheiro.

Anatole, como dizia acertadamente Chinchine, fizera perder a cabeça a todas as mulheres desde que chegara a Moscovo, precisamente porque não lhes ligava importância, desdenhando-as pelas belas ciganas e as francesas, especialmente por uma tal Mademoiselle Georges, com quem, segundo constava, mantinha relações íntimas. Não faltava a qualquer orgia em casa de Danilov e de outros boémios de Moscovo, bebia como uma esponja noites inteiras e assistia a todas as soirées e a todos os bailes da alta sociedade. Contavam-se dele vários escândalos com senhoras de Moscovo e nos bailes cortejava algumas delas. Mas com as raparigas nada queria, especialmente com as casadouras, as quais, pela maior parte, não tinham graça alguma, e pela excelente razão, que todos desconheciam, salvo os amigos íntimos, de estar casado havia já dois anos,

Dois anos antes, efectivamente, durante o tempo em que estivera com o regimento na Polónia, um fidalgo polaco, não muito rico, obrigara-o a casar com uma filha. Anatole abandonou a mulher, e a troco de dinheiro, que prometera enviar ao sogro, comprara o direito de passar por celibatário.

Anatole estava sempre contente com a vida, consigo e com os outros. Instintivamente, parecia convencido de que não podia viver de outra maneira e de que nunca procedera mal. Não era capaz de compreender que os seus actos podiam prejudicar as outras pessoas. Estava persuadido de que pela mesma razão que o pato fora feito para viver na água ele fora criado por Deus para viver com trinta mil rublos de rendimento e para ocupar um lugar preponderante na sociedade. E tão persuadido estava disso que os outros, ao vê-lo, igualmente se convenciam de que ele tinha razão, não lhe recusando nem a posição preponderante na sociedade nem o dinheiro que ele pedia emprestado ao primeiro que lhe aparecia, evidentemente sem a mais leve intenção de pagar.

Não jogava, ou, pelo menos, não jogava para ganhar. Não tinha amor-próprio. Era-lhe absolutamente indiferente o que os outros pensassem dele. Tão-pouco podia ser considerado ambicioso. Mais de uma vez fizera perder a cabeça ao pai comprometendo a sua própria carreira, e menosprezava todas as honrarias. Não era avaro e nunca negava o que lhe pediam. Acima de tudo amava o prazer e as mulheres, e, como em sua opinião não havia nisso qualquer sentimento vil, não lhe passava pela cabeça que pudesse prejudicar os outros a satisfação, que buscava, dos seus prazeres, considerando-se sinceramente irrepreensível, desprezando com a mesma sinceridade os patifes e os covardes, erguendo bem alto a cabeça, sinal de uma consciência tranquila.

Todos os estróinas, tanto os homens— Madalenas como as Madalenas — mulheres, vivem com a secreta e ingénua convicção de serem perfeitamente inocentes, persuadidos de que toda a gente está disposta a perdoar-lhes. «Muito lhe será perdoado pelo muito que amou; muito lhe será perdoado pelo muito que se divertiu.»

Dolokov, que reaparecera naquele ano em Moscovo depois do seu exílio e das suas aventuras na Pérsia, e que vivia ali no luxo e na devassidão, voltara a relacionar-se com Kuraguine, seu antigo camarada de Petersburgo, e dele se utilizava por interesse próprio.

Anatole apreciava sinceramente a inteligência e a coragem do amigo. Dolokov, que precisava do nome, da notoriedade e das relações de Anatole Kuraguine para atrair e depenar ao jogo os rapazes ricos, tirava partido dele, sem lho dar a entender, e com isso se divertia. Além dos seus cálculos interesseiros, o simples facto de dirigir a seu talante a vontade de outrem era para ele um hábito e uma necessidade.

Natacha impressionara vivamente Kuraguine. Durante a ceia, depois do espectáculo, descreveu pormenorizadamente, perito, que era, na presença de Dolokov, a beleza dos braços, dos ombros, dos minúsculos pés e dos cabelos da filha do conde Ilia Andreitch, confessando-se na disposição de lhe fazer uma corte sem tréguas. Quanto ao que daí podia resultar, pouco importava a Anatole, pela simples razão de que nunca o preocupavam as consequências de qualquer dos seus actos.

— Sim, é bonita, meu velho, mas não é para a nossa boca — volveu-lhe Dolokov.

— Vou dizer a minha irmã que a convide para jantar — tornou Anatole. — Que achas?

— É melhor esperares que esteja casada...

— Sabes? — declarou Anatole — Adoro as rapariguinhas: perdem logo a cabeça.

— Já uma vez foste apanhado por uma dessas rapariguinhas... — comentou Dolokov, que sabia da história do casamento. — Tem cuidado!

— Não se é apanhado duas vezes! Que achas? — replicou Anatole, numa gargalhada.

 

[XII]

No dia seguinte ao do espectáculo ninguém saiu em casa dos Rostov e nenhuma visita apareceu. Maria Dmitrievna, às escondidas de Natacha, teve uma conversa com o pai. Natacha percebeu que haviam falado do velho príncipe e que tinham combinado pôr em prática um projecto qualquer, o que a deixou inquieta e irritada. Aguardava de um momento para o outro o príncipe André e por duas vezes nesse dia mandou o porteiro a Vozdvijenka saber se ele teria realmente chegado. Mas o príncipe não viera. Sentia-se ainda mais acabrunhada do que nos primeiros dias após a sua chegada. Agora, à impaciência e ao desgosto por ele ocasionados vinham acrescentar-se a penosa lembrança do seu encontro com a princesa Maria e o velho príncipe e um terror e uma inquietação cuja causa não sabia explicar. Afigurava-se-lhe que ele nunca mais viria ou que antes da sua chegada qualquer coisa fatal para ela aconteceria. Era-lhe impossível agora pensar nele, como outrora, serena e amorosamente, a sós consigo mesma. Assim que se dava a pensar em André, vinha misturar-se aos seus pensamentos a lembrança do velho príncipe, da princesa Maria, da noite no teatro e de Kuraguine. E de novo surgia nela a pergunta que a si própria fazia: não seria culpada? Não teria atraiçoado a sua fidelidade ao príncipe André?, obrigando-se a recapitular, nos seus mínimos pormenores, cada palavra, cada gesto, cada expressão fisionómica daquele homem que soubera despertar nela um sentimento tanto mais para recear quanto era certo lhe ser incompreensível. Aos olhos das pessoas de família. Natacha parecia mais animada do que de costume, mas a verdade é que estava longe de se encontrar tão serena e feliz como antigamente.

No domingo, pela manhã. Maria Dmitrievna propôs aos seus hóspedes ouvirem missa na paróquia da Assunção de Moguilts.

— Não gosto das igrejas à moda — dissera, jactando-se da sua largueza de espírito. — Deus é o mesmo em toda a parte. Temos ali um pope muito bom, diz lindamente os ofícios e mesmo até com nobreza, e o diácono também. Não consigo perceber como os concertos no coro tornam mais santos os templos. Não gosto, são divertimentos como outros quaisquer. — Maria Dmitrievna apreciava muito os domingos e sabia festejá-los. No sábado era a casa cuidadosamente lavada e espanejada; ao domingo tanto ela como o seu pessoal se abstinham de trabalhos manuais, vestiam-se com trajos festivos e iam todos à missa.

O jantar dos amos era acrescentado com pratos suplementares e a criadagem tinha uma dose de vodka, pato assado ou leitão. Mas em nenhum outro rosto, por toda a casa, se espelhava mais festivo ar que na larga e severa cara de Maria Dmitrievna, que por essa altura assumia a expressão imutável dos dias solenes.

Quando, depois da missa, tomado já o café no salão, donde se haviam retirado as capas que cobriam os móveis, vieram anunciar a Maria Dmitrievna que a sua carruagem a esperava, ela, com o seu ar severo, embrulhada no seu xale de cerimónia, levantou-se e declarou que ia a casa do príncipe Nicolau Andreievitch Bolkonski, para com ele ter uma explicação a respeito de Natacha.

Assim que ela saiu, chegou uma costureira da parte de Madame Chalmet, e Natacha, a quem esta diversão muito agradava, fechou a porta do quarto contíguo ao salão e preparou-se para provar o seu novo fato. Vestia ela um corpinho apenas alinhavado e ainda sem mangas e de cabeça descaída para trás observava no espelho o seu cair nas costas quando ouviu no salão a voz animada do pai e de qualquer outra pessoa, o que a fez corar imediatamente. Era a voz de Helena. Ainda não tivera tempo de despir o corpinho que provara e já a porta se abria e a condessa Bezukov entrava, radiosa no seu bom e afectuoso sorriso, vestida de veludo lilás-carregado e gola alta.

— Ah, minha deliciosa pequena! — exclamou para Natacha, que corara muito. — Não, isto é impossível, meu querido conde — acrescentou, dirigindo-se a Ilia Andreitch, que a seguia. — Viver em Moscovo e não ir a parte alguma! Sim, já os não largo. Esta noite recebo em minha casa. Vamos ouvir Mademoiselle Georges recitar, haverá apenas algumas pessoas íntimas. Se não me traz as suas lindas filhas, que valem bem mais do que ela, corto relações convosco. O meu marido não está, foi para Tvier, caso contrário pedir-lhe-ia que as viesse buscar. Venham, sem falta, sem falta, às nove horas.

Saudou com um movimento de cabeça a costureira sua conhecida, que lhe fez uma respeitosa reverência, e sentou-se numa poltrona junto do toucador, ajeitando graciosamente as pregas do vestido de veludo. Num tom jovial e cheio de cordialidade, continuou a tagarelar, a cada momento extasiada perante a beleza de Natacha. Viu uma por urna as toilettes da jovem condessa, elogiou-as muito, pondo em relevo, igualmente, a sua própria, novinha, de gaze metálica, acabada de chegar de Paris, aconselhando Natacha a que mandasse fazer uma igual.

— De resto, a si, minha linda, tudo lhe fica bem — acrescentou.

O rosto de Natacha resplandecia de satisfação. Sentia-se feliz, e toda ela era vida ouvindo os elogios daquela amável condessa Bezukov, que de princípio se lhe afigurara tão altiva e inabordável e que a tratava agora com tanta simpatia. Contentíssima, ei-la pronta a adorar aquela mulher tão bela e tão boa. Helena, por seu lado, era sincera na admiração que mostrava por Natacha e no desejo que tinha de a distrair. Anatole pedira-lhe que os aproximasse e por essa razão viera a casa dos Rostov. A ideia de aproximar o irmão daquela jovem antolhava-se-lhe divertida.

Embora tivesse sentido outrora um certo despeito por Natacha lhe haver roubado. Bóris, já se não lembrava disso e queria-lhe bem, do coração, à sua maneira. Antes de retirar-se, chamou de parte a sua protegida.

— Ontem meu irmão jantou em minha casa, íamos morrendo a rir... Não come e passa a vida a suspirar por si, feiticeira! Está louco, mas louco de amor por si, minha querida.

Ao ouvir isto. Natacha ficou toda corada.

— Ai que corada, que corada, minha deliciosa pequena! Então não falte. Se ama alguém, minha deliciosa pequena, não é razão para fazer vida de monja. Até mesmo se estiver prometida, tenho a certeza de que o seu prometido preferiria sabê-la a fazer vida de sociedade do que a definhar de tédio.

«Então, ela sabe que eu estou comprometida; naturalmente falaram disso, ela e o marido, com Pedro, esse homem que é a rectidão em pessoa» dizia de si para consigo Natacha. «E riram-se desta aventura. Portanto, é coisa sem importância... » E subitamente, sob a influência de Helena, o que ainda há pouco lhe parecia horrível afigurou-se-lhe tudo que havia de mais simples e natural. «E ela, essa grande senhora, tão gentil, e que com certeza gosta muito de mim! Realmente, porque me não hei-de distrair?», concluía, pousando em Helena os seus grandes olhos inocentes muito abertos.

Maria Dmitrievna voltou para casa à hora do jantar. Pelo seu ar taciturno e pensativo via-se que sofrera uma decepção em casa do velho príncipe. Ainda estava demasiado impressionada para poder contar serenamente o que se passara. A pergunta do conde respondeu que tudo corria bem e que no dia seguinte falariam do caso. Ao saber da visita da condessa Bezukov e do seu convite, declarou:

— Não gosto da companhia de Madame Bezukov e não vos aconselho a que vão a sua casa, mas, se lhe prometeste, então vai. É uma distracção para ti — acrescentou dirigindo-se a Natacha.

 

[XIII]

O conde Ilia Andreich levou as meninas a casa da condessa Bezukov. Havia muita gente nos salões, mas quase todos os convidados eram desconhecidos de Natacha. O pai verificou, pouco satisfeito, que a maior parte eram homens e senhoras conhecidas pela sua liberdade de costumes. Mademoiselle Georges, rodeada de uma corte de rapazes, estava num dos recantos do salão. Havia alguns franceses, entre os quais Métivier, que se tornara íntimo da casa desde que Helena chegara. O conde Ilia Andreitch resolveu não jogar para não se afastar das filhas e retirar-se assim que a artista houvesse recitado.

Anatole estava à porta procurando não perder a chegada de Natacha. Depois de cumprimentar o conde, aproximou-se dela e seguiu-a de perto. Esta mal o vira logo sentira, como no teatro, esse estranho sentimento misto de vaidade, por perceber que lhe agradava, e de temor, por verificar que os não separavam quaisquer barreiras morais.

Helena acolheu alegremente Natacha e extasiou-se em voz alta elogiando-lhe a beleza e o vestido. Pouco depois. Mademoiselle Georges desaparecia do salão para mudar de toilette.

Principiaram a dispor as poltronas e a mandar sentar os convidados. Anatole trouxe uma cadeira a Natacha e quis sentar-se a seu lado, mas o conde, que não perdia a filha de vista, ocupou o lugar e Anatole sentou-se atrás dela.

Mademoiselle Georges, com os seus fortes braços desnudados, um xale encarnado atirado para o ombro, avançou pelo espaço livre reservado entre as cadeiras e ficou imóvel, numa atitude afectada. Pela sala perpassou um sussurro de admiração.

Depois de percorrer a assistência com um olhar profundo e sombrio. Mademoiselle Georges principiou a declamar uns versos franceses em que se falava da criminosa paixão de uma mulher pelo próprio filho. Em certos passos elevava a voz, noutros falava baixo, empertigando a cabeça soberbamente, e noutros ainda calava-se, suspirando e rolando as pupilas.

«Adorável, divino, delicioso!», ouvia-se dizer por todos os lados.

Natacha, de olhos fitos na planturosa Georges, nada percebia, nada via, nada compreendia do que se passava à sua roda. De novo e definitivamente se sentia arrastada para esse mundo louco e estranho, tão diferente daquele em que sempre vivera, um mundo onde se não podia distinguir o bem do mal, o razoável do insensato. Atrás dela estava Anatole e, sentindo-o tão próximo de si, esperava, numa angústia.

Findo que foi o monólogo todos se levantaram, rodeando Mademoiselle Georges, a quem manifestavam o seu entusiasmo.

— É tão bonita! — exclamou Natacha para o pai, que também se erguera e se dirigia para a actriz levado pela assistência.

— Não acho quando olho para si — murmurou Anatole, que a seguia, aproveitando uma oportunidade em que só ela o poderia ouvir. — É encantadora... Desde o momento em que a vi nunca mais deixei...

— Vamos, vamos. Natacha — disse o conde, voltando ao encontro da filha. — Que linda!

Natacha, sem dizer palavra, aproximou-se do pai, interrogando-o, assustada, com os olhos.

Depois de declamar ainda algumas cenas. Mademoiselle Georges retirou-se e a condessa Bezukov pediu aos seus convidados que passassem para a sala.

O conde dispôs-se a partir, mas Helena implorou-lhe que não lhe estragasse o prazer que tinha naquele baile improvisado. E os Rostov ficaram. Anatole convidou Natacha para dançar a valsa, e enquanto dançava com ela, apertando-lhe a cintura e as mãos, repetia-lhe que a achava encantadora e que a amava. Durante a escocesa, que também dançaram juntos, no momento em que ficaram sós. Anatole limitou-se a olhá-la sem lhe dirigir palavra. E Natacha perguntou-se então a si mesma se não teria ,sonhado com o que ele lhe dissera enquanto dançavam a valsa. No fim da primeira marca, de novo ele lhe apertou a mão. Natacha ergueu para ele uns olhos assustados, mas o olhar terno e o sorriso de Anatole tinham tanta segurança e doçura que ela não pôde deixar de lhe dizer o que entendia ser obrigação sua. Baixou as pálpebras.

— Não me diga essas coisas — pronunciou, rapidamente.— Estou noiva e amo outra pessoa.— E então olhou para ele. Anatole não parecia nem perturbado nem ofendido com o que ela dissera.

— Não me fale disso. Que me importa? Já lhe disse que estou louco, apaixonado loucamente por si. Que culpa tenho eu de que seja encantadora? Somos nós que temos de principiar.

Natacha, animada e inquieta, olhava sem ver com os olhos assustados, muito abertos, e parecia mais alegre do que de costume. Não dava pelo que se passava à sua volta. Dançaram a escocesa, e depois o grossvater (Espécie de cotilion. (N, dos T.). O pai quis levá-la, mas ela pediu-lhe que ficassem mais algum tempo. Onde quer que fosse, conversasse com quem conversasse, sentia sobre ela aquele olhar. Depois recordava-se de ter dito ao pai que ia ao toucador arranjar o vestido, e de que Helena a seguira, lhe falara, rindo, do amor do irmão e de que se encontrara com Anatole num pequeno gabinete e de que Helena desaparecera e de que os dois haviam ficado sós e de que Anatole, pegando-lhe nas mãos, lhe dissera numa voz cheia de ternura:

— Não posso visitá-la em sua casa, mas será possível que a não torne a ver? Amo-a loucamente. Será possível que nunca?... E, cortando-lhe o caminho, aproximou o seu do rosto dela.

Dois grandes olhos faiscantes estavam tão próximos dos dela que para Natacha tudo o mais deixou de existir.

— Natália! — murmurou a sua voz, e Natacha sentiu as suas mãos muito apertadas. — Natália!

«Nada sei, nada tenho que lhe dizer», parecia replicar o seu olhar atónito.

Uns lábios ardentes premiram os seus e no mesmo instante sentiu-se subitamente livre. Ouviu uns passos e o ruge-ruge do vestido de Helena. Natacha voltou-se, depois olhou para Anatole com uns olhos onde havia angústia e pavor e encaminhou-se para a porta.

— Uma palavra, uma palavra, por amor de Deus! — prosseguiu Anatole.

Natacha parou. Precisava de que ele pronunciasse a palavra que lhe explicaria o que acontecera, e a que ela responderia.

— Natália, uma palavra, uma palavra apenas — repetia ele, não sabendo, evidentemente, o que havia de dizer, e não deixou de pronunciar estas palavras enquanto Helena se aproximava deles.

Helena e Natacha regressaram ao salão. Os Rostov retiraram-se antes da ceia.

De regresso a casa. Natacha não dormiu. Não deixava de a atormentar um problema insolúvel: a quem amava ela, a Anatole ou ao príncipe André? Amava André, com certeza, não esquecera quão viva se mantinha a sua afeição por ele. Mas também gostava de Anatole, era incontestável. «Se assim não fosse, como poderia ter acontecido o que aconteceu?», dizia ela. «Se eu pude, depois, ao despedir-me, responder com um sorriso ao sorriso dele, se pude chegar até aí, não quererá isto dizer que desde o primeiro momento gostei dele? Não quererá dizer que ele é bom, nobre e excelente, e que era impossível não o amar?» E não achava resposta para estas angustiosas interrogações.

 

[XIV]

Chegou a manhã com as suas ocupações e os seus quefazeres quotidianos. Todos se levantaram, se agitaram, tagarelaram. De novo apareceram as modistas. Depois Maria Dmitrievna e todos se reuniram para tomar chá. Natacha, cujos olhos a insónia ainda tornara maiores, como se quisesse impedir que a olhassem fundo nas pupilas, mirava toda a gente com inquietação, esforçando-se por parecer igual à Natacha de todos os dias.

Depois do almoço. Maria Dmitrievna — e era esse o seu grande momento — sentou-se na sua poltrona e chamou para junto de si Natacha e o velho conde.

— Ora aqui têm, meus amigos: pensei muito em tudo isto, e o meu conselho é este — principiou ela. — Ontem, como sabeis, fui a casa do príncipe Nicolau. E falei com ele... Deu-lhe para gritar. E eu ainda gritei mais. Despejei ali todo o meu saco!

— E ele, que disse? — inquiriu o conde.

— Ele é doido.., nada quer ouvir. Para que serve tornar a falar no caso? Já atormentámos bastante esta pobre pequena. A minha opinião é esta: trate o conde de resolver as suas coisas e voltem para casa, para Otradnoie.., e esperem ali...

— Não! Não! — gritou Natacha.

— Sim, sim, é preciso voltar para casa — insistiu Maria Dmitrievna — e esperar lá. Se o noivo agora aqui aparecesse, era certa uma discussão; mas uma vez só com o velho, saberá levar a água ao seu moinho e depois lá irá ter convosco. — Ilia Andreitch aprovou a proposta de Maria Dmitrievna, assimilando imediatamente a prudência da medida. Se o velho se humanizasse, era sempre tempo de regressarem a Moscovo ou de o procurarem em Lissia Geri. Caso contrário, não seria possível casarem sem o seu consentimento senão em Otradnoie.

— Tem toda a razão — corroborou ele. — Sinto ter ido a sua casa e ter levado comigo minha filha.

— Não tem que se arrepender. Estando em Moscovo, não podia deixar de lhe dar essa prova de cortesia. Mas se ele não quer, que se avenha! — acrescentou Maria Dmitrievna, enquanto procurava fosse o que fosse na algibeira. — E, visto que o enxoval está pronto, não têm que esperar mais tempo. O que faltar eu me encarrego de o expedir. Tenho pena de que se vão embora, mas acho melhor. Ide e fazei boa viagem.

Tendo encontrado na algibeira o que procurava, entregou-o a Natacha. Era uma carta da princesa Maria.

— Escreveu-te. Muito sofre ela, coitada! Tem medo de que possas pensar que não gosta de ti.

— E é verdade, não gosta de mim — disse Natacha.

— Tolice, não digas isso— exclamou Maria Dmitrievna.

— Em nada acredito do que me digam; sei muito bem que ela não gosta de mim — insistiu Natacha com decisão, pegando na carta. No seu rosto pintava-se uma resolução fria e maldosa, que levou Maria Dmitrievna a fitá-la com atenção, franzindo o sobrolho.

— Não digas isso, minha santa — censurou ela. — O que te estou a dizer é a verdade. Deves responder-lhe.

Natacha, sem dar réplica, retirou-se para o seu quarto, disposta a ler a carta.

A princesa Maria dizia-lhe que o mal-entendido que se estabelecera a deixara num grande desespero. Fossem quais fossem os sentimentos do pai, pedia a Natacha que acreditasse não querer negar o seu afecto àquela que fora escolhida por seu irmão, e que estava pronta a tudo sacrificar pela felicidade dela.

«De resto», prosseguia, «não pense que meu pai tem qualquer má vontade para consigo. É um velho e um doente, a quem é preciso perdoar; mas no fundo é bom, magnânimo, e acabará por estimar aquela que fizer a felicidade do filho.» Maria pedia-lhe depois que lhe marcasse um dia para a tornar a ver.

Natacha, finda que foi a leitura da carta, sentou-se à mesa disposta a responder. «Querida princesa», escreveu, rápida e maquinalmente. Em seguida deteve-se. Que havia ela de dizer depois do que se passara na véspera? «Sim, sim, não é a mesma coisa, agora tudo é diferente», disse de si para consigo, diante da carta principiada. «É preciso acabar com isto. Mas será preciso? É horrível!...» E para fugir àquelas medonhas ideias foi ter com Sónia e ambas se puseram a ver riscos de bordados.

Depois do jantar. Natacha retirou-se para o quarto e continuou a carta. «Será possível que tudo tenha terminado já?», pensou. «Como é que tudo sucedeu tão depressa e tão depressa fez esquecer o passado?» Lembrou-se do seu amor pelo príncipe André então em plena força e percebeu ser Kuraguine a quem amava. Pôs-se a imaginar-se casada com André e a imaginação pintou-lhe diante dos olhos o quadro, tantas vezes evocado, da felicidade que a aguardava junto dele, mas no mesmo instante sentiu que toda a sua alma se incendiava à lembrança do encontro a sós, na véspera, com Anatole.

«Porque não poderei eu amar os dois ao mesmo tempo?», interrogava-se, por vezes, numa perfeita obnubilação de espírito. «Só então me sentiria completamente feliz; mas agora tenho de escolher, e privada de um deles nunca mais poderei ser feliz. Confessar a André o que se passou ou ocultar-lho é por igual impossível. Afinal nada aconteceu de irremediável. Serei eu obrigada a renunciar para sempre ao amor de André, esse amor que por tanto tempo foi toda a minha felicidade?»

— Menina — murmurou uma criada, em voz muito baixa e com um ar misterioso, entrando-lhe no quarto! — Olhe o que um homem me deu para lhe entregar. — E a moça passou-lhe uma carta para as mãos.— Mas, por Deus... — prosseguiu a criada.

Natacha, porém, sem lhe responder, arrancou maquinalmente o lacre e leu a carta. Não percebeu uma só palavra. Apenas sabia que aquela carta era dele, do homem a quem amava. Sim, amava-o. Se o não amasse, poder-se-ia dar o que estava a suceder? Poderia ela ter entre as suas mãos aquela carta apaixonada que ele lhe endereçara?

Nas suas mãos trémulas tinha Natacha a carta inflamada de paixão que Dolokov redigira para Anatole e, lendo-a, era como se encontrasse nela íntimas correspondências com os sentimentos que julgava transbordar-lhe do coração.

«Desde ontem à note que o meu destino está decidido: ou o seu amor ou a morte. Não tenho outro caminho!» Assim principiava a carta. Depois dizia saber que os pais dela nunca consentiriam em dar-lhe , sua mão, que para isso havia razões secretas que só a ela podia revelar, mas se em verdade ela o amava bastava dizer que sim e não havia forças humanas capazes de se oporem à sua felicidade. O amor vence todos os obstáculos. Raptá-la-ia para a levar consigo para o fim do mundo.

«Sim, sim, amo-o!», exclamava Natacha para si mesma, lendo pela vigésima vez aquela carta e deixando-se trespassar por cada uma das suas palavras, como se nelas houvesse um sentido profundo.

Nessa noite Maria Dmitrievna foi a casa dos Arkarov e propôs às meninas que a acompanhassem. Natacha, sob o pretexto de que lhe doía a cabeça, ficou em casa.

 

[XV]

Já tarde, ao regressar a casa. Sónia entrou no quarto de Natacha e com grande surpresa sua foi encontrá-la a dormir num canapé, toda vestida. Na mesa, a seu lado, estava a carta aberta de Anatole. Sónia pegou nela pôs-se a ler. Enquanto a lia ia olhando para Natacha adormecida, como que a procurar no seu rosto a explicação do que lia e sem conseguir encontrá-la. O rosto dela respirava serenidade, felicidade e doçura. Levando as mãos ao peito para não sufocar. Sónia, pálida e trémula de emoção e receio, deixou-se cair numa cadeira, rompendo em soluços.

«E eu não dei por coisa alguma. Como puderam as coisas chegar a este ponto? Teria ela deixado de gostar do príncipe André? E como pôde consentir isto a Kuraguine? Não há dúvida de que é um impostor e um miserável. Que dirá Nicolau, o nobre, o gentil Nicolau, quando vier a saber? Agora já compreendo o que queria dizer aquele rosto transtornado, decidido a tudo, nada natural, que ela tinha nestes últimos dias», dizia Sónia de si para consigo. «Mas não, não o pode amar. Naturalmente abriu a carta sem saber de quem vinha. É impossível que se não tivesse sentido ofendida. Não pode fazer uma coisa destas!»

Sónia enxugou as lágrimas e aproximou-se de Natacha, examinando-a mais uma vez.

— Natacha — chamou muito baixo.

Natacha acordou e viu Sónia.

— Já voltaste?

E, num destes acessos de ternura que se costumam ter ao acordar, lançou-se nos braços da amiga. Ao ver, porém, a emoção que se pintava no rosto de Sónia. Natacha perturbou-se também e mostrou-se desconfiada.

— Sónia, tu leste a carta? — perguntou ela.

— Li — murmurou Sónia.

Natacha sorriu vitoriosa.

— Oh! Sónia, não posso, não posso mais esconder-te... Sabes? Amamo-nos!... Sónia querida, escreve-me... Sónia... Sónia, como se não percebesse o que ouvia, olhou para ela com os olhos muito abertos.

— E Bolkonski? — interrogou.

— Oh!. Sónia, oh!, se tu pudesses saber como sou feliz! — exclamou Natacha. — Mas se tu não sabes o que é o amor...

— Mas, então, Natacha, tudo acabou com o outro?

Natacha olhava para ela, com os olhos muito abertos, como se não compreendesse.

— Então rompeste com o príncipe André?

— Oh!, nada percebes. Não digas tolices. Ouve... — respondeu Natacha, com impaciência.

— Não, não posso acreditar — repetiu Sónia. — Confesso que não compreendo. Quer dizer, tu, durante um ano inteiro, gostaste de um homem, e de repente... Um homem que tu mal viste por duas ou três vezes. Natacha, não acredito, tu estás a brincar. Em três dias esqueceres tudo e...

— Três dias... — exclamou Natacha. — Tenho a impressão de que o amo há cem anos. Parece-me que nunca amei alguém antes dele. Não podes compreender... Sónia, vem cá, senta-te ao pé de mim. — E estreitou-a nos braços, depondo-lho um beijo na cara. — Tinha ouvido dizer que estas — coisas acontecem, e com certeza também ouviste dizer o mesmo, mas só agora me foi dado sentir um amor assim. Oh!, é muito diferente do outro. Assim que o vi, senti ser aquele o meu senhor e eu a sua escrava, senti que não podia deixar de o amar. Sim, sou a sua escrava! Pode mandar o que quiser, que estou pronta a obedecer. Não podes compreender. Mas, diz-me, que posso eu fazer, que posso eu fazer. Sónia? — acrescentou com uma expressão de felicidade a que se misturava qualquer coisa de receoso.

— Pensa no que fazes — tornou Sónia. — Eu não posso deixar as coisas assim. Estas cartas recebidas a ocultas... Como pudeste consentir? — continuou com um horror e uma repulsa impossíveis de dissimular.

— Já te disse — replicou Natacha. — Deixei de ter vontade. Pois não compreendes? Amo-o!

— Não consentirei, vou contar tudo! — exclamou Sónia, rompendo em soluços.

— Oh, meu Deus!, que estás a dizer?... Se contares alguma coisa considero-te minha inimiga. É que me queres mal, é que queres que nos separem...

Ao ver o pânico de que Natacha fora tomada. Sónia chorou lágrimas de vergonha e compaixão pela amiga.

— Que houve então entre vocês? — perguntou. — Que te disse ele? Porque não vem ele a nossa casa?

Natacha não respondeu à pergunta.

— Por amor de Deus. Sónia, nada digas a ninguém, não me faças sofrer — implorou ela. — Lembra-te de que ninguém se deve meter nestas coisas. Confessei-te...

— Porquê todo esse mistério? Porque não vem ele a nossa casa? Porque não pede ele directamente a tua mão? Realmente, e príncipe André deu-te plena liberdade para decidires, caso esta oportunidade surgisse. Mas numa coisa eu não posso acreditar. Já pensaste. Natacha, no que podem ser essas «razões secretas»?

Natacha fitou em Sónia uns olhos assombrados. Era, evidentemente, a primeira vez que esta pergunta lhe vinha ao espírito, e na verdade não sabia responder-lhe.

— Não sei que razões serão essas. Mas devemos crer que as haja!

Sónia suspirou e abanou a cabeça com desconfiança.

— Se há razões... — principiou ela.

Natacha, adivinhando as dúvidas da amiga, interrompeu-a, assustada.

— Sónia, não devemos duvidar dele! Não devemos, não devemos, compreendes? — exclamou.

— Gosta de ti?

— Se gosta de mim? — redarguiu Natacha com um sorriso de comiseração. — Não leste a carta dele, não a leste?

— E se ele não fosse um homem digno?

— Ele? Um homem indigno? Se tu o conhecesses!

— Se é um homem digno — voltou Sónia com energia —, deve dizer quais as suas intenções ou então deixar de te ver. E se tu não lho quiseres dizer, eu me encarregarei disso. Escrever-lhe-ei e contarei tudo ao pai.

— Não posso viver sem ele! — exclamou Natacha.

— Natacha, não te compreendo. Que estás a dizer? Lembra-te de teu pai, do Nicolau.

— De ninguém preciso, não quero saber de mais ninguém senão dele. Atreves-te a dizer que ele não é um homem digno? Não sabes que o amo? Sónia, vai-te embora! Não me quero zangar contigo. Vai-te, vai-te, por amor de Deus! Vai-te! Não vês que me fazes sofrer! — Natacha falava com ira e numa voz cheia de desespero. Sónia, não podendo suster as lágrimas, retirou-se.

Natacha sentou-se à sua mesa e sem um momento de reflexão escreveu à princesa Maria a carta que não fora capaz de redigir durante a manhã inteira. Em poucas palavras dizia-lhe que o mal-entendido entre elas acabara, que o príncipe André, ao partir, lhe dera plena liberdade e que ela aproveitava a sua generosidade. Pedia-lhe esquecesse o que se passara e lhe perdoasse se em alguma coisa a magoara, declarando-lhe que não podia ser mulher de seu irmão. Naquele momento tudo lhe parecia fácil, simples e claro.

Na sexta-feira deviam os Rostov regressar à aldeia, e na quarta-feira o conde dirigiu-se à sua propriedade nas imediações de Moscovo na companhia de um comprador.

No dia da partida do conde. Sónia e Natacha estavam convidadas para um jantar em casa das Karaguine, e foi Maria Dmitrievna quem as acompanhou. Natacha voltou a encontrar-se com Anatole, e Sónia pôde ver que ela lhe falava de maneira a não ser ouvida por mais alguém e que durante o jantar ainda lhe pareceu mais agitada do que antes. No regresso a casa. Natacha foi a primeira a dar a explicação que Sónia esperava da amiga.

— Vês. Sónia, eu bem dizia que só tinhas dito tolices a respeito dele — principiou ela, nesse tom insinuante habitual nas crianças quando querem que as elogiem. — Tivemos uma explicação.

— E então? Que te disse ele? Ainda bem que não estás zangada comigo. Natacha. Conta-me toda a verdade. Que te disse? Natacha ficou um momento pensativa.

— Oh. Sónia, se tu o conhecesses como eu o conheço! Disse-me... Perguntou-me em que pé estava o meu noivado com Bolkonski. Ficou tão contente quando soube que de mim dependia acabar com tudo...

Sónia soltou um profundo suspiro.

— Mas não acabaste com o Bolkonski — disse ela.

— E se eu realmente tivesse acabado? Se, efectivamente, tudo tivesse acabado com ele? Porque pensas tu tão mal de mim?

— Não penso mal de ti. Mas não percebo...

— Espera. Sónia, já vais compreender tudo. Já vais ver como ele é. Não penses mal nem dele nem de mim.

— Não penso mal de ninguém. Gosto de toda a gente e tenho piedade de todos. Mas que hei-de eu fazer?

Sónia não se deixava levar pelas meigas palavras de Natacha. Quanto mais mimados e insinuantes os modos a amiga, mais sério e grave era o seu rosto.

— Natacha — disse ela —, pediste-me que te não falasse nisso, de nada te falei e és tu a primeira a referires-te ao caso. Natacha, eu não tenho confiança nele. Que significa este mistério?

— Outra vez! Outra vez!

— É que tenho medo por ti. Natacha.

— De que tens medo?

— Tenho medo de que te percas — disse Sónia, num tom enérgico, como se ela própria se sentisse assustada com o que estava a dizer.

O rosto de Natacha de novo assumiu uma expressão de ira.

— Pois bem, perder-me-ei, perder-me-ei, e quanto antes! Nada tens com isso. O mal será para mim e não para vós. Deixa-me. Deixa-me. Odeio-te!

— Natacha! — exclamou Sónia, assustada.

— Odeio-te! Odeio-te! És minha inimiga para sempre!

E Natacha saiu a correr do quarto.

Não voltou a falar mais com Sónia e evitou tornar a encontrá-la. Natacha vagueava pela casa com o seu ar perturbado e a sua expressão de pessoa culpada, ora fazendo isto, ora aquilo e sem acabar coisa alguma.

Embora isso lhe fosse penoso. Sónia não perdia de vista Natacha. Na véspera do dia em que o conde devia regressar notou que ela estivera toda a manhã à janela do salão como se aguardasse fosse o que fosse e viu-a fazer sinais a um militar que passava pela rua e lhe pareceu Anatole.

Então pôs-se a observá-la com mais atenção e reparou que durante o jantar e à noite Natacha tinha uma atitude estranha e pouco natural: respondia às perguntas a trouxe-mouxe, principiava frases que não acabava e ria a propósito de tudo.

Depois do chá viu uma criada muito atrapalhada esperando à porta do quarto de Natacha. Aguardou que ela entrasse, e, escutando à porta, veio a saber que uma nova carta chegara.

E de súbito Sónia compreendeu que Natacha ocultava um projecto inconfessável para aquela mesma noite. Bateu à porta, mas não a deixaram entrar.

«Vai fugir com ele», disse Sónia para si mesma. «Capaz disso é ela! Pareceu-me hoje especialmente triste, mas decidida. Ao despedir-se do pai chorou. Sim, estou convencida de que vai fugir com ele; que hei-de eu fazer?», interrogou-se a si própria, recordando todos os pormenores que podiam revelar o terrível projecto de Natacha. «O conde não está. Que hei-de fazer? Escrever uma carta a Kuraguine a pedir-lhe uma explicação? Quem o obrigaria a responder-me? Escrever ao Pedro, como me recomendou o príncipe André se viesse a dar-se alguma desgraça...? Mas não acabou ela com Bolkonski? Efectivamente, foi ontem à noite que ela respondeu à princesa Maria. E o meu tio não está em casa... » Dirigir-se a Maria Dmitrievna, que tinha tanta confiança em Natacha, parecia-lhe horrível. «Seja como for», dizia ela, de si para consigo, no corredor sombrio, «chegou agora o momento de mostrar que não esqueço o bem que eles me têm feito e que gosto de Nicolau. Ainda que tenha de passar três noites sem dormir, deste corredor é que eu não arredo pé, e hei-de evitar que ela saia daqui, nem que seja à força. Não consinto que tal vergonha cubra esta família!»

 

[XVI]

Ultimamente Anatole fora viver para casa de Dolokov. O plano de rapto de Mademoiselle Rostov fora combinado e preparado por este havia vários dias e devia ser posto em execução na noite em que Sónia, escutando atrás da porta de Natacha, decidira não a perder de vista. Natacha prometera ir ter com Kuraguine às dez horas da noite, saindo pela escada de serviço. Anatole metê-la-ia numa troika preparada de antemão e conduzi-la-ia a umas sessenta verstas de Moscovo, ao povoado de Kamenka, onde um pope interdito os devia consorciar. Em Kamenka estaria preparada uma muda, que os levaria para mais longe, pela estrada de Varsóvia, donde, na mala-posta, seguiriam para o estrangeiro.

Anatole arranjara um passaporte, um livre-trânsito, dez mil rublos, que a irmã lhe havia emprestado, e mais outros dez mil, que conseguira por intermédio de Dolokov.

As testemunhas. Kvostikov, um antigo amanuense que Dolokov utilizava nas suas operações de jogador, e Makarine, hússar na reserva, homem franco e ingénuo, de uma ilimitada dedicação por Kuraguine, estavam sentadas na sala de espera tomando chá.

No amplo gabinete de Dolokov, revestido de alto a baixo de tapetes persas, peles de urso e armas, o dono da casa, de bechemé de viagem e botas altas, estava sentado diante da secretária aberta, onde havia contas e maços de notas. Anatole, com o uniforme desabotoado, andava de um lado para o outro, entre a sala onde estavam as testemunhas, atravessando o gabinete e um quarto das traseiras, onde o seu criado francês, ajudado por outros, preparava as bagagens. Dolokov contava o dinheiro e anotava as somas.

— Bom, então é preciso dar dois mil rublos ao Kvostikov.

— Pois dá-lhos — replicava Anatole.

— Makarka — assim tratava Makarine — de nada precisa. Era capaz de se deitar a afogar por ti. Bom, as contas estão prontas — disse Dolokov, mostrando-lhe a nota. Está bem?

— Com certeza — replicou Anatole, que evidentemente nada ouvira e olhava vago na sua frente, sempre com o mesmo sorriso.

Dolokov fechou a secretária e dirigiu-se em tom zombeteiro a Anatole:

— Sabes o que te digo? Ainda estás a tempo, deixa-te disso!

— Imbecil! — exclamou Anatole. — Não digas tolices. Se soubesses... Só o Diabo sabe o que isto é!

— Falo sério; deixa-te disso — insistiu Dolokov. — Estou a falar-te a sério. Estarás convencido de que se trata de uma brincadeira?

— Lá estás tu outra vez. Vai para o diabo que te carregue! — exclamou Anatole, franzindo o sobrolho.— Palavra, não estou com disposição de te ouvir dizer tolices. — E fez menção de sair do gabinete.

Dolokov sorriu, ao mesmo tempo formalizado e condescendente.

— Escuta, peço-te pela última vez. Para que havia eu de estar a brincar contigo? Porventura te levantei algum obstáculo? Quem preparou tudo, te arranjou um pope, te obteve um passaporte, te conseguiu dinheiro? Eu.

— Pois bem, e estou-te agradecido. Julgas talvez que te não estou reconhecido? — E Anatole, suspirando, abraçou Dolokov.

— Ajudei-te, mas, no entanto, devo dizer-te a verdade: a aventura é perigosa, e, se nos pomos a pensar nela, é mesmo estúpida. Bom, tu rapta-la, está bem. Mas julgas que vão deixar as coisas assim? Hão-de acabar por saber que és casado. Serás chamado aos tribunais...

— Tolices, tolices — contraveio Anatole, contrariado. — Pois não te expliquei eu já, hem? — E Anatole, com a obstinação própria das pessoas pouco inteligentes sempre que tomam uma resolução, repetiu o raciocínio que lhe expusera já centos Ge vezes. — Já te expliquei. Aqui tens o que eu resolvi. — E, contando pelos dedos: — primeiro, se este casamento não é válido, não tenho qualquer responsabilidade; segundo, se é válido, estou-me nas tintas: ninguém saberá disso no estrangeiro. Não é assim? E nem mais uma palavra, nem mais uma palavra, nem mais uma palavra!

— Ouve o que te digo: deixa-te disso! Vais enterrar-te...

— Vai para o Diabo! — vociferou Anatole, e com as mãos na cabeça saiu do gabinete, para voltar em seguida a sentar-se, escarranchado numa poltrona, mesmo diante do amigo. — Só o Diabo sabe o que isto é! Olha, repara como — ele bate — pegou-lhe na mão e pousou-a sobre o coração — Ah, que pés, meu caro, que olhar! Uma deusa!

Dolokov, sorrindo friamente, olhava para ele com os seus belos olhos insolentes e brilhantes, divertido, evidentemente, à custa do amigo.

— Acaba-se o dinheiro, e depois?

— Depois? — repetiu Anatole, repentinamente embaraçado diante de tal perspectiva. — Depois? Sei lá! E depois, deixa-te de tolices. São horas! — acrescentou, consultando o relógio.

Entrou no quarto das traseiras.

— Então, esta pronto? Que estão para aí a fazer? — gritou para os criados.

Dolokov guardou o dinheiro, chamou um dos criados, para que ele lhes trouxesse qualquer coisa para comer antes da abalada, e entrou na sala onde estavam Kvostikov e Malcarine.

Anatole, estiraçado no divã do gabinete, sorria, pensativo, enquanto sua bela boca ia balbuciando palavras ternas.

— Vem comer qualquer coisa! — gritou-lhe Dolokov da outra sala.

— Não tenho fome — replicou Anatole, sem deixar de sorrir.

— Anda, já aí está o Bálaga.

Anatole levantou-se do divã e entrou na sala de jantar. Bálaga era um afamado postilhão de troika, que havia cinco ou seis anos servia os dois amigos; recorriam frequentes vezes aos seus serviços. Mais de uma vez, quando o regimento de Anatole estava em Tvier, o trouxera de noite daquela cidade: chegava a Moscovo de madrugada e voltava a levá-lo na noite no dia seguinte. Por várias vezes conseguira livrar Dolokov dos apuros que o perseguiam. Passeara os dois pela cidade na companhia de ciganos e «senhoritas», como costumava dizer. E até, ao bater as ruas com eles, atropelara pessoas e sempre aqueles «senhores», como ele dizia, o tinham livrado de complicações. Que de cavalos ele rebentara já ao seu serviço! Muitas vezes o tinham emborrachado, enfrascando-o de champanhe e madeira, o seu vinho predilecto, e a verdade era estar no segredo de aventuras que a outros, que não a eles, de há muito os teriam atirado para a Sibéria. Convidavam frequentes vezes Bálaga para as suas orgias, obrigavam-no a dançar e a beber em casa dos ciganos e já lhe tinham passado pelas mãos muitos milhares de rublos. Arriscava a vida e a pele mais de vinte vezes por ano para lhes ser agradável e já rebentara cavalos que o dinheiro que eles lho haviam dado, a ganhar não pagava de modo algum. Mas gostava deles à sua maneira; morria por aquelas corridas loucas, a dezoito verstas à hora, adorava fazer os cocheiros de praça virarem os pés por cima da cabeça e esmagar os peões nas ruas de Moscovo, lançando-se depois à desfilada. Gostava de ouvir vozes avinhadas gritar-lhe, frenéticas: «Mais depressa! Mais depressa!», quando já lhe não era possível ir mais veloz. O que ele gostava de chicotear a nuca dos camponeses que, mais mortos do que vivos, se não voltavam a tempo! «São uns senhores às direitas», dizia de si para consigo.

Por seu lado, tanto Dolokov como Anatole tinham Bálaga em alta conta, grande mão de rédea, que era, e em matéria de gosto afinavam uns pelos outros. Quando se tratava de outras pessoas, fazia os seus preços, pedia vinte e cinco rublos por uma corrida de duas horas, sendo raro também ser ele a conduzir quando eram outros os fregueses, e nesse caso mandava um dos seus moços. Com «aqueles senhores», porém, como costumava dizer, era ele quem aparecia em carne e osso e nunca pedia fosse o que fosse. Quando sabia pelos criados que eles tinham dinheiro, coisa que acontecia urna vez de dois em dois ou de três em três meses, aparecia pela manhã, sem ter bebido, e pedia-lhes que o livrassem de apuros. Então «aqueles senhores» mandavam-no sempre sentar.

«Acuda-me, meu paizinho Fiodor Ivanovitch», ou então: «Excelências, estou sem cavalos. Tenho de ir à feira: emprestem-me o dinheiro que puderem.»

Anatole e Dolokov, quando abonados, davam-lhe sempre mil ou dois mil rublos.

Continuar: parte 4 de 4