Guerra e Paz
Primeira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Durante a sua curta visita, numa pausa da conversação, Nicolau, como acontece onde há crianças, pôs-se a acariciar o filho do príncipe André e perguntou-lhe se ele não gostaria de vir a ser hússar também. Pegou-lhe ao colo, sentou-o nos joelhos e fê-lo pular enquanto olhava para a princesa Maria. Esta seguia os movimentos do sobrinho querido nos braços do homem a quem amava, olhando carinhosa, tímida e feliz. Este terno olhar não passou despercebido a Nicolau, que, ao compreender-lhe o sentido, corou de satisfação e beijou a criança efusivamente.
A princesa Maria não saía de casa por causa do luto e Nicolau não achava conveniente continuar a visitá-la. Nem por isso contudo a mulher, do governador desistiu da sua tarefa casamenteira e, repetindo a Nicolau o que Maria dissera de lisonjeiro a seu respeito ou vice-versa, insistia com ele para que se declarasse. E nessa intenção preparou uma entrevista entre os dois jovens, em casa do arcipreste, antes da missa.
Embora Rostov lhe tivesse dito que não tinha qualquer declaração a fazer à princesa Maria, prometeu não faltar à entre— vista.
Da mesma maneira que em Tilsitt não vacilara um momento em aceitar por bom o que lhe era recomendado como tal, assim agora, após breve luta, embora sincera, entre o desejo de organizar a sua vida consoante os seus próprios desejos e a inteira submissão às circunstâncias, escolheu o último partido, entregando-se ao destino para que se sentia irresistivelmente arrastado, Sabia muitíssimo bem que, depois das promessas que fizera a Sónia, declarar os seus sentimentos a Maria não era outra coisa senão cobardia. Mas, ao mesmo tempo, também sabia, e, mais, sentia isso mesmo no fundo da alma, que, confiando-se à influência do destino e das pessoas que o dirigiam, não só não procedia mal, como, pelo contrário, cumpria um acto da mais alta importância como nenhum outro da sua vida.
Após a sua entrevista com a princesa Maria, conquanto nada, na verdade, se tivesse modificado na sua existência, o certo é que todas as suas alegrias de outrora pareciam ter perdido o encanto e só um pensamento o ocupava — ela. Todavia os sentimentos que a princesa Maria lhe inspirava não só em nada se pareciam com os que havia sentido por outras raparigas que encontrara na sociedade como nada tinham de comum com o amor exaltado que outrora votara a Sónia. Como acontece a todo o mancebo de honestos sentimentos, sempre que pensava em tais raparigas era com a ideia de fazer delas esposas, representando-lhe a imaginação todas as cenas habituais da vida conjugal: uma mulherzinha, vestida de branco, sentada junto do samovar, a carruagem da senhora, as crianças que pronunciam pai e mãe, numa palavra, todas as banalidades quotidianas, e essas perspectivas de futuro, a seus olhos, não deixavam de se revestir de certo encanto. Contudo, ao pensar na princesa Maria, a quem o queriam dar por noivo, nada de semelhante lhe vinha ao espírito. Se porventura o tentava, as imagens que se lhe erguiam diante dos olhos apresentavam-se-lhe com qualquer coisa de falso e de malogrado. O único sentimento que lhe comunicavam era o sentimento de angústia.
[VII]
A terrível nova da batalha de Borodino, em que houve tantas baixas dos Russos, bem como a notícia de que Moscovo caíra nas mãos dos Franceses, apenas chegaram a Voroneje em meados de Setembro. A princesa Maria, que só pelos jornais fora informada de que o irmão estava ferido e que nada sabia afinal sobre o seu estado, resolveu ir ao seu encontro. Assim, pelo menos, constou a Nicolau, que nunca mais a tornara a ver. Os acontecimentos, se não despertaram em Rostov instintos de violência, cólera ou vingança ou quaisquer outros do mesmo género, pelo menos inspiraram-lhe súbito desgosto e contrariedade, determinando-o a não prolongar por mais tempo a sua permanência em Voroneje, onde se sentia molesto e pouco à vontade. Todas as conversas lhe soavam a falso. Não sabia que pensar dos acontecimentos e sentia que só depois de regressar ao seu regimento veria claro em tudo isso. Precipitou as suas últimas aquisições de cavalos e eram mais frequentes agora as suas irritações contra o criado e contra o sargento, mais frequentes e imotivadas.
Alguns dias antes da sua partida, celebrou-se um tedéu na catedral em acção de graças por uma vitória das tropas russas e Nicolau assistiu a ele. Ficou alguns metros atrás do governador e foi com dignidade oficial que acompanhou todos os passos da cerimónia religiosa enquanto ia pensando nos assuntos mais diversos. Assim que terminou o fedeu, a mulher do governador acenou-lhe com a cabeça, chamando-o para junto de si.
— Viste a princesa? — perguntou— lhe ela, indicando-lhe com a cabeça uma senhora toda vestida de preto que estava ao pé do coro. Nicolau reconheceu-a imediatamente, não tanto pelo perfil que se deixava adivinhar debaixo do chapéu como por esse sentimento de retenção, receio e piedade que se apoderou dele. A princesa Maria, absorta nos seus pensamentos, persignava-se antes de sair da igreja.
Nicolau fitou, assombrado, o seu rosto. Era, de facto, a mesma fisionomia em que se lia sempre o trabalho subtil do pensamento interior, mas a luz que a iluminava era completamente outra. Reflectia-se em seus traços uma tocante expressão de dor, de oração e de esperança. Não esperou, como, aliás, acontecera da primeira vez, que a mulher do governador lho consentisse, não se interrogou a si próprio, sequer, se era ou não razoável dar aquele passo em plena igreja; aproximou-se dela e disse-lhe que soubera do seu novo desgosto e que de todo o coração a acompanhava na sua dor, Assim que lhe reconheceu a voz, uma súbita luz lhe iluminou o rosto, derramando claridade sobre a sua mágoa e acordando nela a alegria.
— Apenas lhe queria dizer, princesa — murmurou Rostov —, que, se o príncipe André Nikolaievitch já não fosse do número dos vivos, os jornais tê-lo-iam dito, pois que é comandante de regimento.
A princesa olhou para ele sem apreender o sentido das suas palavras, mas satisfeita com a compaixão que lhe via no rosto.
— Na maior parte dos casos, os ferimentos provocados pelos estilhaços de granadas, quando não são logo mortais, não oferecem cuidados — acrescentou ele. — É de esperar que não seja coisa grave, estou convencido de que...
A princesa Maria interrompeu-o.
— Oh!, seria terrível... — principiou ela sem poder concluir a frase, de tão perturbada que estava, inclinando a cabeça, num movimento cheio de graciosidade, como acontecia a todos os seus gestos na presença dele. E, depois de um olhar de reconhecimento, saiu atrás da tia.
Naquela noite Nicolau não saiu, ficou em casa para fechar contas com os negociantes de cavalos. Quando acabou esse trabalho era demasiado tarde para ir a qualquer parte, embora relativamente cedo para se deitar, e assim ficou, sozinho, no seu quarto, a andar de um lado para o outro, cismando na vida, coisa que raramente lhe acontecia.
Já aquando do seu encontro perto de Smolensk a princesa Maria lhe causara uma viva impressão. Impressionara-o muito também o tê-la encontrado em circunstâncias tão excepcionais e o facto de a mãe lha ter recomendado como um rico partido.
O encontro em Voroneje ainda o impressionara mais. Desta vez notara sobretudo a beleza especial, toda de essência moral, que nela resplandecia. No entanto ia partir e não lhe ocorria a ideia de que teria pena de a não tornar a ver. O encontro na igreja, sentia-o claramente, ainda viera gravar nele a imagem da princesa Maria mais profundamente do que previra e mais funda— mente de que o exigia o seu sentimento de repouso. Aquele rosto fino, pálido e triste, aquele luminoso olhar, aqueles gestos harmoniosos e serenos, sobretudo aquela funda e comovida mágoa que por toda ela se espalhava, perturbavam-no e atraíam-no. Sobretudo nos homens, Nicolau não tolerava manifestações de uma vida espiritual superior e essa a razão por que não simpatizava com o príncipe André. Mas a princesa Maria, em virtude, precisamente, da expressão dolorosa em que se evidenciava toda a profundeza de um mundo espiritual que lhe era estranho, atraía-o de maneira irresistível.
«Que estranha mulher deve ser! É realmente um anjo!», dizia de si para consigo. Porque não hei-de eu ser livre? Porque me precipitei eu com a Sónia?» E involuntariamente ia-as comparando: à ausência, numa, e à abundância, noutra, dessa riqueza espiritual de que ele próprio era tão pouco provido e que por isso mesmo tanto estimava. Tentou imaginar o que aconteceria se porventura fosse livre: como pediria a sua mão e como viria ela a ser sua mulher? Mas não, não podia pensar em semelhante coisa. Sentiu-se pouco à vontade e diante dos seus olhos apenas se lhe vieram representar imagens confusas. Havia muito que traçara o quadro da sua existência futura com Sónia: era muito simples e muito claro, pois tudo aí estava previsto de antemão e ele nada ignorava, absolutamente nada, a respeito dela. Com a princesa Maria, contudo, não lhe era possível conceber qualquer futuro, uma vez que a não compreendia, que apenas se limitava a amá-la.
Pensar em Sónia era como penetrar num mundo de alegria e de graça. Pensar na princesa Maria trazia sempre consigo uma impressão de seriedade e até mesmo de temor.
«Como ela rezava!», dizia de si para consigo. «Era como se o fizesse com toda a sua alma. Sim, é aquilo a que se chama a fé que remove montanhas e tenho a certeza de que a sua oração será ouvida. Porque não poderei eu rezar assim para obter o que preciso? E de que preciso eu? De ser livre e desligar-me de Sónia. A mulher do governador tinha razão: o meu casamento com ela será uma fonte de desgostos, de dificuldades, uma grande mágoa para a mãe... e depois há a questão dos dinheiros... sim, de dificuldades... de grandíssimas dificuldades. Aliás, creio que a não amo de todo o coração. Não, não a amo como se deve amar. Meu Deus, salva-me desta situação sem recurso!», exclamou ele, de súbito, como se sentisse uma necessidade imperiosa de rezar. «Sim, as minhas orações removerão montanhas, mas o que é preciso é, ter fé e não rezarmos como o fazíamos quando éramos crianças, a Natacha e eu, quando pedíamos que a neve se transformasse em açúcar. Não, não são criancices desse género que eu tenho de pedir a Deus.»
E pousando o cachimbo algures, de mãos postas, ajoelhou diante dos ícones. Enternecido com a lembrança de Maria, pôs-se a rezar como o não fazia lia muito tempo. Tinha os olhos rasos de lágrimas e soluços na garganta quando Lavruchka apareceu à porta com uns papéis na mão.
— Idiota! Que vens aqui fazer, se não te chamei! — gritou-lhe, mudando, subitamente, de, atitude.
— É da parte do governador — disse Lavruchka, em voz sonolenta. — Chegou um correio com uma carta para si.
— Está bem, obrigado, podes retirar-te.
Havia duas cartas, uma da mãe e a outra de Sónia. Reconhecera a caligrafia de ambas elas e principiou por abrir a de Sónia. Mal lera as primeiras linhas empalideceu, abrindo muito os olhos cheios de espanto e alegria.
«Não, não é possível!», disse em voz alta.
Não pôde ficar imóvel e ao tempo que lia a carta pôs-se a andar no quarto de um lado para o outro, Começou por lê-la alto, depois leu-a uma, duas vezes e, por fim, encolhendo os ombros e gesticulando de boca aberta e olhos fixos, deteve-se no meio do quarto. A oração que acabava de dirigir a Deus fora ouvida. Tamanha era a sua estupefacção, tão extraordinário o que acontecia, tão longe estava de ver realizados os seus desejos, que aquilo lhe não parecia a consequência da intervenção divina, mas puro acaso.
O nó górdio que lhe encadeava a liberdade fora cortado pela carta de Sónia de maneira inesperada e que nada fazia prever. A carta dela dizia que em virtude das desgraças dos últimos tempos, da perda de quase todos os bens dos Rostov em Moscovo, do desejo da condessa, por várias vezes manifestado, de o ver a ele desposar a princesa Bolkonski, e ainda em consequência do seu silêncio persistente, da frieza que lhe mostrara ultimamente, por todos esses motivos juntos, estava resolvida a desobrigá-lo da sua promessa e a restituir-lhe a sua inteira liberdade.
Seria para mim muito penoso — dizia-lhe ela— pensar
que viria a ser causa de desgosto e desacordo numa família que tanto bem me tem feito. O único objectivo do meu amor é fazer a felicidade daqueles a quem amo. Por isso lhe peço, Nicolau, que retome a sua liberdade e que acredite que, apesar de tudo, ninguém lhe quer mais do que a sua Sónia.
As duas cartas eram datadas de Troitsa. A segunda era da condessa. Descrevia-lhe os últimos dias passados em Moscovo, a partida, o incêndio da cidade e a ruína de todos os seus bens. E entre outras coisas dizia-lhe que o príncipe André, ferido, viajava com eles. Estava em estado gravíssimo, mas o médico, de momento, alimentava algumas esperanças. Sónia e Natacha eram as suas enfermeiras.
Munido com esta carta, Nicolau apresentou-se no dia seguinte em casa da princesa Maria. Nem ele nem ela fizeram qualquer comentário sobre os cuidados que Natacha dedicava ao príncipe André, mas aquela carta aproximou-os e criou entre eles como que uma espécie de parentesco.
No dia seguinte, Rostov acompanhou a princesa Maria a Iaroslav e dias depois regressou ao seu regimento.
[VIII]
A carta de Sónia que dava satisfação aos desejos de Nicolau fora escrita em Troitsa. Eis os factos que a determinaram. De dia para dia se obstinava mais a velha condessa em casar seu filho com uma rica herdeira. Sónia, sabia-o ela muito bem, continuava a, ser o maior obstáculo à realização de tal projecto. E a vida desta durante os últimos tempos, sobretudo depois da carta, em que Nicolau falara do seu encontro em Bogutcharovo com a princesa Maria, tornara-se-lhe penosíssima. A condessa passava o tempo a feri-la com alusões cruéis e ofensivas.
Alguns dias antes da partida de Moscovo, a condessa, transtornada e inquieta com o que se estava a passar, mandou chamar Sónia e, entre lágrimas, reproches e súplicas, implorou-lhe que se sacrificasse desligando Nicolau dos seus compromissos e pagando-lhe a ela, condessa, deste modo, tudo que por ela tinha feito.
— Não sossegarei enquanto me não prometeres o que te peço.
Sónia chorou e respondeu entre soluços que faria tudo o que fosse possível, sem se comprometer, todavia, ao que lhe pediam. O certo era que o não podia fazer. Sacrificar-se-ia pela felicidade da família que a tinha recolhido e educado. A esse sacrifício estava habituada. A sua situação em casa dos Rostov era tal que para patentear os seus méritos só lhe restava a abnegação e por isso se habituara a sacrificar-se. Com alegria se dera conta até, aí de que todos os seus actos de abnegação a realçavam a seus olhos e, aos olhos dos outros, tornando-a mais digna de Nicolau, seu único e grande amor— Agora, porém, queriam que renunciasse, no fim de contas, aquilo mesmo que era a única recompensa do seu sacrifício e a única justificação da sua vida. E pela primeira vez se sentiu amargurada diante daquela gente que a recolhera e protegera para afinal a fazer sofrer ainda mais. E uma espécie de ódio a tomou contra essa Natacha que não só nunca passara por sofrimentos comparáveis aos seus, sem nunca se sacrificar por alguém, mas antes exigira o sacrifício dos outros e apesar disso de todos era querida e estimada. Pela primeira vez sentiu que o seu amor, até então inocente e tranquilo, se convertia numa violenta paixão capaz de a dominar e arrastar contra a religião e a virtude. Sob a influência de tal sentimento, Sónia, que a prática da dependência ensinara a ser dissimulada, respondera à condessa em termos vagos e gerais, evitando qualquer explicação mais demorada, decidida, entretanto, a esperar por Nicolau, não para lhe restituir a palavra, mas, pelo contrário, para mais fortemente e para sempre se unir a ele.
As preocupações e os terrores dos últimos dias passados em Moscovo tinham-na feito esquecer um pouco os tristes pensamentos que a atormentavam. E por isso se sentira como que aliviada no meio de todas essas preocupações materiais. Quando veio a saber, porém, que o príncipe André estava em casa dos condes, à sua sincera piedade por Natacha e pelo ferido veio associar-se o sentimento, entre supersticioso e agradecido, de que a Providência não queria separá-la de Nicolau. Sabia que Natacha só ao príncipe André amava verdadeiramente e só a ele amara em verdade. E sabia também que neste momento, outra vez reunidos e em tão trágicas circunstâncias, de novo se entregariam ao seu amor, impedindo Nicolau, graças ao casamento da irmã com o príncipe, de pensar em desposar a princesa Maria.
Por mais horríveis que fossem os acontecimentos a que assistia, grande era a sua satisfação ao pensar que a Providência lhe viera em auxílio.
Após a primeira etapa de sua jornada, os Rostov detiveram-se no mosteiro de Troitsa. No albergue do convento tinham-lhes reservado três quartos, um dos quais para o príncipe André. O ferido parecia muito melhor nesse dia. Natacha estava junto dele.
No quarto contíguo o conde e a condessa conversavam respeitosamente com o superior do convento em visita aos antigos conhecidos e protectores. Sónia, junto deles, atormentava-a a curiosidade: que estariam a dizer um ao outro André e Natacha?
Através da porta ouvia-lhes o sussurro das vozes. Em determinado momento a porta abriu-se e Natacha, muito comovida, penetrou na dependência sem reparar no frade, que se ergueu, apanhando as grandes mangas do hábito, quando a viu aproximar-se. Dirigindo-se a Sónia, travou-lhe do braço.
— Natacha, que foi? Vem cá — disse-lhe a mãe.
Natacha aproximou-se para receber a bênção do frade, que a aconselhou a implorar o auxílio de Deus e do seu santo protector.
Quando o superior do convento se retirou, Natacha deu o braço à amiga e levou-a consigo para o quarto contíguo, onde não estava ninguém.
— Sónia, será verdade? Achas que se salvará? — perguntou-lhe ela — Ah, Sónia, que feliz e que infeliz eu sou! Sónia, minha querida, está tudo como dantes. O que importa é que ele viva! Mas não pode... porque... porque... — E os soluços embargaram-lhe a voz.
— Eu sabia-o! Louvado seja Deus! — exclamou Sónia. — Há-de viver! — A sua emoção não era menor do que a de Natacha diante daquela desgraça, e às suas apreensões vinham misturar-se pensamentos secretos. Abraçou-se à amiga, chorando e procurando consolá-la. «O que importa é que ele viva!», repetia para si mesma. Depois de trocarem as suas confidências, enxugaram as lágrimas e ambas se aproximaram da porta. Natacha abriu-a cautelosamente e olhou para dentro. Sónia, a seu lado, conservava-se no limiar da porta entreaberta.
O príncipe André, deitado, tinha o busto soerguido por três almofadas. O seu rosto pálido estava tranquilo, tinha os olhos cerrados e respirava regularmente.
— Oh, Natacha! — exclamou Sónia, de súbito, agarrando-se ao braço da prima e recuando um passo.
— Que foi? Que foi? — inquiriu Natacha.
— É aquilo, é aquilo... — respondeu ela muito pálida, toda trémula.
Natacha fechou a porta cautelosamente e seguiu Sónia até ao vão da janela, sem compreender o que a amiga dizia.
— Lembras-te — disse Sónia, assumindo uma expressão ao mesmo tempo solene e aterrada. — Lembras-te de quando consultámos o oráculo do espelho... em Otradnoie, pelo Natal... lembras-te do que eu vi?...
— Lembro, lembro... — replicou Natacha, os olhos esbugalhados, recordando-se vagamente de que a prima lhe falara então do príncipe André, que vira deitado.
— Lembras-te? Vi-o e disse-o a todas, a ti e à Duniacha. Via-o estendido na sua cama. Tinha os olhos fechados, como neste momento, e, estendida sobre ele, uma coberta cor-de-rosa, e as mãos cruzadas. — Falava cada vez com maior animação, firmemente convencida de que todos os pormenores que acabava de ver não eram mais que a repetição exacta da visão de outrora.
Evidentemente que nada vira anteriormente e que apenas descrevera um fantasma produto da sua imaginação. No entanto essa ilusão afigurava-se-lhe agora uma recordação verdadeira. Dissera então que ele olhara para ela, lhe sorrira, que estava envolto em qualquer coisa vermelha, e agora recordava-se perfeitamente, tinha a certeza: a coberta da cama era cor-de-rosa, sim, efectivamente, cor-de-rosa, e ele tinha os olhos fechados.
— Sim, sim, é verdade, era uma coberta cor-de-rosa — confirmou Natacha, que se recordava agora também de que ela lhe falara nessa coberta, o que, a seus olhos, ganhava proporções de estranha e misteriosa previsão.
— Que quer isto dizer? — perguntou ela, pensativa.
— Ah!, não sei. É tudo tão extraordinário! — comentou Sónia, levando as mãos à cabeça.
Alguns minutos mais tarde André chamou, e Natacha foi para junto dele. Sónia, que nunca em sua vida sentira maior emoção ou estivera mais perturbada, deixou-se ficar junto da janela pensando naquelas estranhas coincidências.
Nesse mesmo dia houve oportunidade de utilizar um correio para o exército e a condessa escreveu ao filho.
— Sónia — chamou, erguendo a cabeça, quando a sobrinha passou junto dela — Sónia, não escreves ao Nikolenka? — E, ao dirigir-lhe esta pergunta, a sua voz tremeu ligeiramente.
Nos seus olhos fatigados que ;i olhavam atrás das lentes dos óculos. Sónia adivinhou o que a condessa lhe queria dizer. Nesse olhar havia suplica, receio de uma recusa, embaraço por ter de fazer semelhante pedido e inimizade pronta a manifestar-se caso ela não transigisse.
Sónia aproximou-se da condessa e, ajoelhando, beijou-lhe as mãos.
— Eu vou escrever-lhe, mãe — disse ela.
Sónia sentia-se comovida — perturbada e enternecida por ver cumprido aquele misterioso presságio de outrora. Agora, que concluíra que a reconciliação do príncipe André e Natacha tornaria impossível o casamento de Nicolau com a princesa Maria, sentia-se contente por voltar de novo ao espírito de sacrifício que era toda a sua vida. Com os olhos rasos de lágrimas e a satisfação ele cumprir um acto realmente heróico, pôs-se a escrever, interrompendo-se, várias vezes para enxugar as lágrimas que lhe queimavam as órbitas, a carta comovedora que tão profundamente iria surpreender Nicolau.
Ao chegar ao corpo da guarda onde Pedro fora conduzido, os oficiais e os soldados principiaram por tratá-lo severamente, embora com algum respeito. Ainda não sabiam de quem se tratava — talvez fosse uma personalidade importante —, mas a luta que recentemente travara, com eles não os predispunha à indulgência.
Na manhã do dia seguinte, porém, quando se procedeu ao render da guarda, a nova, guarnição deixou de ter razões para o tratar da mesma maneira. Com efeito, esse homem corpulento de cafetã de mujique já não era aos olhos, deles aquele que tivera a mão leve para o salteador e para os soldados da patrulha e falara em tom solene de uma criança salva das chamas. Para eles era apenas o décimo sétimo prisioneiro russo às ordens do alto comando. Só o que o distinguia dos outros era o seu porte altivo, o seu ar meditativo e o facto de falar francês com extraordinária felicidade. Mas nesse mesmo dia Pedro foi encarcerado à mistura com outros suspeitos, pois o quarto particular onde ele estivera fora requisitado para um oficial.
Todos os russos que tinham sido detidos aquando ele pertenciam à mais baixa condição. E, reconhecendo que Pedro era um senhor, todos eles o mantinham à margem, tanto mais que falava francês, Pedro percebeu com desgosto que troçavam dele.
Na noite do dia seguinte veio a saber que todos os prisioneiros, e ele também naturalmente, iam ser julgados sob a acusação de incendiários. No terceiro dia levaram-no com os outros à presença de um general de bigode branco, dois coronéis e outros franceses de braçadeiras claras. Interrogaram-nos com a nitidez e a precisão de quem se considera superior a todas as fraquezas humanas, atitude habitual nos interrogatórios de prisioneiros. Perguntaram-lhes quem eram, onde estavam e com que intenções...
Todas estas perguntas, que deixavam de lado, sistematicamente, a essência do caso e tornavam desde logo impossível o esclarecimento do que mais importava, como acontece a todas as perguntas que se formulam nos tribunais, não tinham por fim outra coisa senão orientar as respostas dos acusados no sentido requerido, isto é, da sua culpabilidade. Sempre que o prisioneiro queria dizer qualquer coisa de pouco favorável à acusação, tratavam logo de desviar as suas palavras para o ponto desejado. Além disso dava-se com Pedro o que se costuma dar com todos os acusados onde quer que estejam: ignorava o objectivo daqueles interrogatórios. Supunha que só por indulgência ou cortesia adoptavam semelhante procedimento para com ele. Compreendia estar nas mãos daquela gente, que só a força ali o levara e só a força os fazia exigir respostas às suas perguntas e que aquela assembleia apenas se reunia para o inculpar. Perante tal situação, dizia de si para consigo, era inútil usar de astúcia. Todas as respostas que desse apenas serviriam para o incriminar. Perguntaram-lhe o que fazia quando fora preso: respondeu, com entono trágico, que levava aos país uma criança que ele salvara das chamas. A pergunta: «Porque jogava à pancada com um soldado?» respondeu que «defendia uma mulher, e que todo o homem honesto tinha o dever de defender uma mulher atacada, que...» Assim que isto disse, porém, mandaram-no calar: que não tinha nada a ver com o assunto. Que fazia ele no pátio da casa incendiada, onde fora visto por testemunhas? Replicou que «tinha ido ver o que se passava na cidade». Interromperam— no de novo. Não lhe perguntavam onde ia, mas porque se encontrava no local do fogo. E repetiram-lhe a primeira pergunta acerca da sua identidade. à qual não quisera responder. Pela segunda vez replicou que não podia responder a essa pergunta.
— Escrivão, tome nota. O seu caso é grave, muito grave mesmo — disse em tom severo o general de bigode branco e rosto corado.
No quarto dia após a prisão de Pedro, os incêndios principiaram na muralha de Zubovo.
Conduziram-no com mais treze detidos a Krimski Brod e meteram-nos na cocheira de um comerciante. Ao atravessar as ruas sentiu-se sufocado pelo fumo, que parecia espalhar-se agora pela cidade inteira. Viam-se chamas por todos os lados. Ainda então não compreendia todo o significado do desastre e o espectáculo enchia-o de pavor.
Passou quatro dias nesse barracão, e pelo que diziam os soldados franceses soube que se aguardava de um momento para o outro a decisão do marechal sobre o destino dos detidos. Não lhe foi possível compreender todavia de que marechal se tratava.
Para aqueles soldados o nome de marechal representava o escalão supremo da autoridade.
Os dias que precederam 8 de Setembro, data em que os prisioneiros voltaram a ser interrogados, foram os mais penosos para Pedro.
[IX]
No dia 8 de Setembro, por conseguinte, um oficial superior, a avaliar pelas honras que a guarda lhe dispensou, veio visitar os prisioneiros. Este oficial, que pertencia sem dúvida ao estado-maior, procedeu, de lista em punho, à chamada dos russos, designando Pedro por aquele que não revela o seu nome». E depois de lhes lançar um olhar indiferente, ordenou ao oficial da escolta que os mandasse vestir convenientemente para se apresentarem diante do marechal. Uma hora mais tarde chegou a escolta, que conduziu Pedro e os companheiros ao campo Deviche. Depois da chuva que caíra, o dia estava claro e cheio de sol, e o ar extraordinariamente puro. O fumo não se conservava rente ao chão como no dia em que os haviam levado do corpo da guarda das muralhas de Zubovo; subia direito no ar sereno. Não se viam agora labaredas, mas de todos os lados se erguiam colunas de fumo, e Moscovo, de ponta a ponta, pelo menos quanto a Pedro era dado ver, estava reduzida a escombros.
Por toda a parte eram áreas devastadas, ruínas, muros enegrecidos no alto dos quais ainda se mantinham de pé as chaminés. Por mais que procurasse identificar essas ruínas, Pedro não conseguia descobrir o bairro em que estava. Aqui e ali havia igrejas intactas.
O Kremlin, que não fora atingido, alvejava, na distancia, com a suas torres e a igreja de Ivã, o Grande. Nas suas imediações brilhava a cúpula do Mosteiro Novodeviche, cujos sinos repicavam com particular sonoridade. Esses sinos fizeram lembrar a Pedro que era domingo e dia da Natividade da Virgem, mas parecia não haver ninguém para celebrar a festa. Tudo estava em ruínas. De vez em quando encontravam alguns russos esfarrapados e temerosos que se escondiam ao verem os franceses.
Era evidente que o ninho russo fora destruído e disperso, mas Pedro sentia inconscientemente que, destruída a ordem da vida russa, se estabelecera um regime muito diferente, particularmente severo, o regime francês. Disso se apercebia ao ver o aspecto alegre e marcial dos militares que o escoltavam, a ele e aos outros detidos, assim como o alto funcionário francês que caminhava ao encontro deles, numa carruagem tirada por dois cavalos e guiada por um soldado. E também se apercebia disso mesmo ao ouvir os alegres compassos de uma banda regimental que chegavam até ele vindos do lado esquerdo da esplanada. Compreendeu-o e sentiu-o sobretudo nessa mesma manhã quando o oficial veio fazer a chamada dos prisioneiros. Fora capturado por simples soldados, fora baldeado de um lado para o outro, de cambulhada com dezenas de outros indivíduos. Podia ter pensado que iam esquecê-lo, confundi-lo com os outros. Mas não: as suas respostas no interrogatório pegavam-se-lhe ao corpo, «aquele que não revela o seu nome». E sob essa designação, que o assustava agora, o levavam não sabia para onde, embora lesse na cara dos guardas saberem-no eles muitíssimo bem, eles que os conduziam onde era mister. Sentia-se como o grão de pó que cai na engrenagem de uma máquina desconhecida, mas que trabalha maravilhosamente.
Conduziram Pedro e os seus companheiros ao campo Deviche, não longe o mosteiro, a uma grande casa branca cercada de extensos jardins. Era a casa, do príncipe Chteherbatov, que Pedro costumava frequentar, e onde residia, veio a sabê-lo pelos soldados, o marechal príncipe de Eckmühl.
Foram levados até ao alpendre e introduziram-nos dentro de casa um por um. Pedro foi o sexto a entrar. Através da galeria envidraçada, do vestíbulo e da antecâmara, que Pedro conhecia muitíssimo bem, fizeram-nos entrar num longo gabinete de tecto baixo à porta do qual havia um ajudante-de-campo.
Davout estava sentado na extremidade da sala, os óculos acavalados no nariz. Pedro aproximou-se. De olhos pousados no papel que procurava decifrar. Davout, perguntou em voz baixa: Quem sois?
Pedro ficou calado, pois sentia-se incapaz de articular palavra. A seus olhos, Davout não era apenas um general francês, mas um homem de conhecida crueldade. Ao ver aquele rosto frio em que havia qualquer coisa da expressão de um pedagogo severo que condescende em esperar um instante pela resposta pedida. Pedro disse de si para consigo que cada segundo de hesitação que mostrasse lhe poderia custar a vida: e no entanto não sabia que dizer. Repetir o que dissera quando do primeiro interrogatório parecia-lhe inútil: revelar o seu nome e a sua situação não só seria perigoso mas vergonhoso. Ficou calado. Sem lhe dar tempo, porém, a que ele tomasse uma decisão, Davout ergueu a cabeça, puxou os óculos para a testa e piscou os olhos, fixando Pedro atentamente.
— Conheço este homem — disse ele, num tom frio e monótono, evidentemente para o assustar.
Pedro sentiu que uma tenaz lhe apertava a testa.
— Meu general, não me pode conhecer, eu nunca o vi...
— É um espião russo — interrompeu Davout, dirigindo-se a outro general que estava presente e Pedro não vira.
E Davout virou-lhe as costas. Pedro, subitamente, pôs-se a falar em voz trémula.
— Não, monsenhor — disse ele, lembrando-se, de repente, que Davout era príncipe. — Não, monsenhor, não me pode conhecer. Sou um oficial miliciano e nunca saí de Moscovo.
— Como se chama? — repetiu o marechal.
— Besouhoff.
— Que é que me prova que não está a mentir?
— Monsenhor! — exclamou Pedro, numa voz mais súplice que ofendida.
Davout ergueu os olhos e olhou-o fixamente. Assim estiveram a olhar-se um ao outro durante alguns instantes. Eis a salvação de Pedro. Aqueles olhares, que esqueciam a situação respectiva de dois inimigos, juiz e acusado, estabeleceram entre eles relações simplesmente humanas. Ambos, naquele instante, sentiram, confusamente, muitas coisas, compreendendo que tanto um como outro eram feitos da mesma humanidade, dois irmãos.
Na altura em que Davout ergueu a cabeça de cima da sua lista, onde os seres humanos e o seu destino não eram mais do que números, Pedro, para ele, era apenas um incidente sem importância.
Sem receio de sobrecarregar a sua consciência com qualquer má acção, tê-lo-ia mandado fuzilar. Agora, porém, via nele um homem. Ficou um breve instante a reflectir.
— Como me prova a verdade do que me está a dizer? — disse ele friamente.
Pedro lembrou-se de Ramballe e citou o regimento deste, o seu nome e a rua onde ele vivia.
— O senhor não é o que diz ser — repetiu Davout.
Pedro, numa voz trémula e entrecortada, apresentou as provas do que afirmava.
Nesta altura o ajudante-de-campo entrou na sala e comunicou qualquer coisa ao seu superior.
Este pareceu sentir-se muito contente com a notícia e pôs-se a abotoar o dólman para sair. Dir-se-ia ter esquecido Pedro por completo.
O ajudante-de-campo, contudo, lembrou-lhe o prisioneiro que ele interrogava. Davout franziu o sobrolho, acenou com a cabeça na sua direcção e deu ordem para o levarem dali. Mas para onde? Eis o que Pedro ignorava. Levá-lo-iam para o barracão ou para o local do suplício do campo Deviche, que lhe tinham mostrado?
Voltou a cabeça e viu o ajudante-de-campo que interrogava o marechal.
— Sim... sem dúvida! — replicou este. De que se tratava? Não sabia.
Não foi capaz de saber, mais tarde, por quanto tempo havia caminhado e para onde o tinham levado. Num estado de completa, inconsciência, sem se dar conta do que se passava à sua roda, caminhou, caminhou, detendo-se quando os outros se detinham. Um único pensamento o preocupava no fim de contas, quem o condenara à morte? Não, com certeza, aqueles que o haviam interrogado: nenhum deles o teria feito nem o desejaria fazer. Tão-pouco Davout, que o olhara com tanta humanidade. Um pouco mais e Davout teria reconhecido estarem enganados a seu respeito, A chegada do ajudante-de-campo o impedira disso. Naturalmente esse oficial não procedera de má-fé, mas teria sido preferível que não aparecesse. Quem pois o queria supliciar, acabar-lhe com a vida, a ele, Pedro, com todas as suas recordações, os seus desejos, as suas esperanças, os seus pensamentos? Quem? E concluía que afinal ninguém.
Se havia um culpado, era a ordem estabelecida, e essa ordem roubava-lhe a vida, aniquilava-o.
[X]
Da casa, do príncipe Chtcherbatov, os prisioneiros foram conduzidos directamente, através do campo Deviche. à esquerda do Mosteiro Dievitchi, e fizeram-nos entrar num pomar onde estava erguido um poste. Na retaguarda deste havia um grande fosso, ladeado de um monte de terra recentemente removida, e em volta dele, em semicírculo, grande multidão. Os russos eram poucos, e grande o número de soldados de Napoleão: alemães, italianos e franceses envergando os fardamentos mais variados. A direita e à esquerda do poste formava um destacamento de franceses, de arma ao ombro, capotes azuis, charlateiras vermelhas, polainas e barretinas.
Os condenados foram colocados em filas pela ordem em que figuravam na lista, na qual Pedro era o sexto, e conduziram-nos até junto do poste. De súbito ouviu-se o rufar de tambores em vários pontos. Ao ouvi-los, Pedro sentiu, por assim dizer, que a alma se lhe separava do corpo. Perdeu toda a capacidade de pensar e de se recordar. Apenas podia ver e ouvir. E só tinha um desejo: que aquela coisa horrível acabasse o mais depressa possível. Pousou os olhos nos seus companheiros.
Os dois da extremidade eram presidiários e tinham a cabeça rapada: um, grande e magricela, o outro, moreno, peludo, musculoso e de nariz achatado. O terceiro era um criado dos seus quarenta e cinco anos, de cabelo grisalho, corpulento e bem tratado. O quarto, um mujique, belo rapaz, de barba ruiva, em forma de leque, e olhos pretos, O quinto, um operário fabril, rapazola amarelento e delgado, dos seus dezoito anos, que vestia um guarda-pó.
Pedro ouviu os franceses discutir entre si se deviam fuzila-los individualmente ou dois a dois. «Dois a dois», respondeu, friamente, o oficial que comandava a força. Houve agitação nas fileiras dos soldados e todos se deram pressa. Não era a pressa de alguém que quer realizar uma tarefa de bom grado aceite por todos, mas a pressa em dar por findo um trabalho necessário, embora desagradável e repugnante.
Um funcionário francês, de braçadeira, aproximou-se pela direita das filas dos condenados e leu as sentenças em russo e francês. Em seguida, quatro soldados, dois a dois, a um sinal do oficial, tomaram conta dos penitenciários da extremidade. Estes marcharam direitos ao poste, pararam e, enquanto lhes preparavam os sacos para lhes enfiar na cabeça, olharam à sua volta em silêncio como a fera cercada pelos caçadores que a vão abater.
Um deles persignava-se e voltava a persignar-se, o outro coçava as costas, esboçando um movimento de lábios em que havia como que um sorriso. Os soldados, rapidamente, vendaram-lhes os olhos, enfiaram-lhes os sacos pela cabeça e amarraram-nos ao poste.
Doze atiradores saíram das fileiras, em passo firme e cadenciado, e alinharam a uns oito passos do poste. Pedro virou a cara para não ver o que ia passar-se. De súbito soaram as detonações, que lhe pareceram mais estrondosas que os mais medonhos trovões, e de novo voltou a cara. Havia fumo no ar, e os franceses, pálidos e de mãos trémulas, faziam fosse o que fosse em volta do fosso. Os dois condenados seguintes foram levados também. Exactamente como os primeiros, e com os mesmos olhos, fitaram o público, como se não compreendessem nem pudessem acreditar no que lhes estava a acontecer. Impossível. Só eles sabiam o preço que a existência tinha para eles e não podiam compreender nem acreditar que lhes tirassem a sua única vida.
Pedro, para não ver, voltou de novo a cara e uma nova e tremenda detonação lhe soou aos ouvidos. No mesmo instante subiu no ar o mesmo fumozinho, o sangue espalhou-se no chão, e os franceses, de rostos pálidos e assustados, agitaram-se em volta do poste, empurrando-se uns aos outros com mãos trémulas. Pedro, com um grande suspiro, olhou em roda de si, como se perguntasse o que significava tudo aquilo. E a mesma pergunta se lia em todos os olhos que os de Pedro interrogavam.
Em todos os rostos, dos russos, dos soldados franceses, dos oficiais, em todos, sem excepção, encontrava o mesmo pavor, o mesmo horror, e também os mesmos sinais da luta travada em seus corações: «Quem foi, realmente? Todos sofrem o que estou a sofrer. Quem? Quem?» E esses pensamentos perpassaram-lhe pelo espírito como um relâmpago.
«Atiradores do 36º, em frente!», gritou uma voz.
Levaram o quinto prisioneiro, só esse, aquele que estava ao lado de Pedro. Mas não compreendeu logo que estava salvo, que tanto ele como os outros apenas ali tinham sido levados para assistir à execução. Cada vez era maior nele o sentimento de horror. Não sentia nem alegria nem apaziguamento. O quinto condenado era o operário fabril de guarda-pó. Assim que lhe puseram as mãos em cima, deu um salto e agarrou-se a Pedro, que, estremecendo, horrorizado, procurou desembaraçar-se dele. Não era capaz de dar um passo. Arrastaram-no pelas axilas enquanto ele gritava, Ao chegar ao poste, calou-se subitamente. Só agora parecia compreender. Teria percebido ser inútil gritar ou pensaria não ser possível que o fossem matar? E ali estava diante do poste, de pé, aguardando que lhe vendassem os olhos, como aos outros, e, como eles, parecia o mesmo animal ferido olhando à, sua roda com olhos alucinados.
Pedro sentia não ser capaz de voltar de novo a cabeça e fechar os olhos. Atingira o auge da curiosidade e da emoção, como todos os presentes, perante aquele quinto fuzilamento. E também aquele condenado, como os demais, parecia finalmente calmo: embrulhava-se no guarda-pó enquanto esfregava um no outro os pés descalços.
Quando lhe vendaram os olhos, ele próprio ajeitou na, nuca o nó que o magoava e quando, em seguida, o amarraram ao poste ensanguentado, inclinou-se para trás, mas como essa posição tosse incómoda, voltou a endireitar-se e, de pés juntos, dócil, pôs-se no lugar conveniente. Pedro, de olhos fitos nele, seguia-lhe os mais pequenos movimentos,
Ouviu-se, naturalmente, a voz de fogo e os oito tiros soaram sem dúvida ao mesmo tempo. Mas, por mais que Pedro o tentasse recordar depois, não se lembrava de ter ouvido qualquer detonação Apenas viu o rapaz escorregar, de súbito desamparado, no meio das cordas que o prendiam. Sangue lhe apareceu em dois pontos, as cordas bambearam sob o peso do corpo e o fuzilado, a cabeça exageradamente pendida para diante, as pernas flectidas, sentou-se no chão. Pedro correu para ele. Ninguém o reteve. Em volta do cadáver moviam-se vultos pálidos e assustados. O queixo de um velho soldado de grandes bigodes que desatava as cordas estremecia convulsivamente. O corpo caiu. Os soldados, apressados, arrastaram-no para além do poste e jogaram-no na fossa.
Dir-se-ia que todos se sentiam criminosos e que só queriam fazer desaparecer o mais depressa possível os vestígios do seu crime.
Pedro olhou para o fundo do fosso e viu lá dentro o condenado, os joelhos ao pé da cabeça e um ombro mais alto do que e outro. Este ombro, em movimentos nervosos, baixava e subia regularmente. Mas as pazadas de terra principiavam já a cobrir o corpo. Um soldado, exasperado, gritou a Pedro que se afastasse. Este, sem perceber, continuou onde estava e ali ficou.
Assim que o fosso ficou coberto de terra, soou uma voz de comando. Pedro foi reconduzido ao seu lugar e o destacamento francês formado aos lados do poste fez meia volta e desfilou, marcando passo. Os vinte e quatro atiradores que tinham feito fogo iam-se incorporando nas fileiras à medida que o destacamento passava diante deles.
Pedro olhava agora sem ver os soldados que passavam diante dele dois a dois. Todos, menos um, reentraram nas suas companhias. Um soldado, muito novo, pálido como um morto, barretina atirada para a nuca, a espingarda voltada para o solo, continuava de pé diante do fosso no sítio onde fizera fogo. Cambaleando como um ébrio, dava um passo em frente, outro à retaguarda, para, se, manter de pé. Um velho sargento saiu das fileiras, pousou-lhe as mãos nos ombros e arrastou-o à força para o seu lugar, A multidão ia dispersando.
Todos caminhavam de cabeça baixa, sem dizer palavra.
— Isto os ensinará a deitar fogos! — exclamou um dos franceses.
Pedro olhou para o soldado que falara: era alguém que tentava desculpar o que se consumara. Sem concluir a frase, teve um gesto de indiferença e seguiu o seu caminho.
[XI]
Depois da execução separaram Pedro dos outros e deixaram-no só numa igrejinha saqueada e em ruínas.
Pela noite, o sargento da guarda penetrou na igreja acompanhado de dois soldados e comunicou-lhe que fora indultado e que transitaria dai para o futuro para o barracão dos prisioneiros de guerra, Sem perceber o que lhe diziam, levantou-se e seguiu os soldados. Conduziram-no à parte superior da esplanada, a uns barracões de pranchas e vigas queimadas e meteram-no num deles. Na obscuridade pode distinguir uns vinte homens. Olhou-os sem compreender quem eram e o que estavam ali a fazer. Percebia as palavras que diziam sem poder deduzir delas qualquer sentido. Nem sequer lhes compreendia o significado. Respondia as perguntas sem a mais pequena ideia de quem poderia ser que lhe falava e da maneira como compreenderia as respostas. Via diante de si figuras e corpos e tudo parecia não ter para ele o mais ligeiro significado.
Desde o momento em que assistira àquela terrível chacina executada por quem a levara a cabo sem vontade própria, dir-se-ia que na sua alma deixara de funcionar subitamente essa mola que tudo aguenta e dá vida ao conjunto. Tudo nele parecia desmoronado e um monte informe de ferro-velho. Nele, sem que se desse conta, extinguira-se a fé na harmonia do universo, na alma humana, na sua própria alma e até em Deus. Já passara por esse mesmo estado outrora, mas nunca sentira como agora os efeitos dessa crise. Até então, quando diante de uma dúvida, era ele próprio, por sua culpa, o causador dela, Então sen(ia, no fundo da sua alma, que a salvação lhe viria dos seus próprios excessos e das suas mesmas dúvidas, Agora dava-se conta de que, sem que ele tivesse culpa, o mundo se desmoronava diante dos seus olhos e que dele não restavam mais que absurdas ruínas. Sentia não estar nas suas mãos recuperar a fé na vida.
Distinguia, no meio da obscuridade, em volta de si, vultos que pareciam interessados na sua pessoa. Contavam-lhe coisas várias, faziam-lhe perguntas: depois levaram-no dali e encontrou-se num recanto do barracão, ao lado de indivíduos que se interpelavam mutuamente de várias direcções, rindo.
— Ora aí está ele, rapazes... esse príncipe «que» exclamou uma voz, no recanto oposto, pondo intenção particular na maneira como pronunciara aquele «que».
Calado e imóvel, Pedro, sentado na palha, encostado ao tapume, ora abria ora fechava os olhos. Quando os fechava, revia o rosto terrível do pobre operário fabril, cuja simplicidade o tornava ainda mais pavoroso, e revia também as caras, ainda mais terríveis no seu pavor, dos assassinos obrigados. Depois tornava a abri-los e olhava em volta de si, no meio da obscuridade, com um ar estúpido.
A seu lado, debruçado para ele, estava sentado um homenzinho cuja presença notara desde o primeiro instante graças ao cheiro a suor que dele se desprendia ao mais simples movimento.
Esse homem cuidava dos pés no meio das trevas, e embora Pedro lhe não visse a cara sentia-lhe os olhos pousados nele. Tentando ver através da obscuridade, percebeu que procurava descalçar-se. E a maneira como o fazia intrigava Pedro.
Depois de ter desatado os trapos que envolviam uma das pernas, imediatamente tratou da outra, sempre a olhar para Pedro. Enquanto com uma das mãos pendurava num prego os trapos, ia desfazendo os outros com a outra mão. Depois de se ter descalçado, também com toda a cautela, em movimentos regulares, pacientes, sem pressa, dependurou as botas numa escápula que lhe ficava por cima da cabeça, puxou de uma navalha, cortou qualquer coisa, voltou a fechá-la, e depois de se sentar mais comodamente abraçou os joelhos com as mãos e fitou Pedro com insistência. Uma agradável sensação de apaziguamento e de doçura se apoderava de Pedro observando os movimentos regulares daquele homem metódico ali no seu canto; até o cheiro que dele emanava lhe não era desagradável e ele próprio se pôs a olhá-lo também obstinada mente.
— Tem visto muita coisa na sua vida, cavalheiro? Hem? — exclamou, de súbito, o homenzinho.
Na voz cantante daquele homem havia tal inflexão de carinho e simplicidade que Pedro, ao querer responder-lhe, sentiu que lhe tremia o queixo e que as lágrimas lhe subiam aos olhos.