Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 12 de 18 · parte 3/3

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Guerra e Paz

Primeira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O homenzinho, sem lhe dar tempo a que se deixasse ganhar pela comoção, prosseguiu no mesmo tom:

— Não te aflijas, meu falcãozinho — disse nessa voz terna e acariciadora tão própria das velhas russas. — Não te aflijas, meu amigo; depois de uma hora de sofrimento, temos a vida inteira para viver, É o que te digo, meu amigo. E graças a Deus ainda estamos vivos e de boa saúde, Também eles são homens, uns bons e outros maus... — E, dizendo isto, inclinou-se para diante, num movimento ágil, levantou-se, tossindo, e afastou-se um pouco.

— Eh!, patife! Estás aí outra vez! — exclamou a mesma voz agradável na outra extremidade do barracão. — Estás aí outra patife! Lembras-te de mim? Bom, bom, basta.

Enxotando um cachorrinho que pulava à roda dele o soldado voltou para o seu lugar e sentou-se de novo. Trazia qualquer coisa embrulhada num trapo,

— Toma, come — disse, ele de novo em tom respeitoso. Tirou trapo batatas cozidas e ofereceu-as a Pedro. — Ao jantar houve sopa. Mas batatas, nem falar nisso!

Pedro não comera durante todo o dia e o cheiro das batatas pareceu-lhe agradável. Agradecendo ao soldado, pôs-se a comer.

— Assim, uma por uma — interveio este, sorrindo, pegando numa das batatas. — Assim é que é.

De novo puxou da navalha, cortou a batata, na palma da não, em duas partes iguais, salpicou-a de sal que tinha dentro do trapo e apresentou-a a Pedro.

— Batatas de primeira qualidade! — repetiu ele. — Come-as assim. — Dir-se-ia que, Pedro nunca em sua vida comera coisa tão boa.

Para mim tanto se me dá — murmurou Pedro. — Mas porque fuzilaram eles aqueles desgraçados? — O último ainda não tinha vinte anos.

— Chiu!... Chiu!... Não diga isso, não diga isso — deu-se pressa em responder o homenzinho, e, como se as palavras lhe viessem por si mesmas à boca e sem que ele desse por isso, continuou:

— Porque ficou o senhor em Moscovo?

— Não pensei que eles chegassem tão depressa. Foi por acaso E assim apanharam-no em casa?

— Não, saí para ver o fogo e foi então que eles me deitaram a mão e me julgaram como incendiário.

— Onde há justiça há injustiça — comentou o homenzinho.

— E tu, tu estás aqui há muito tempo? — interrogou Pedro, que acabara de comer a sua última batata.

— Eu? No domingo apanharam-me no hospital de Moscovo.

— És soldado?

— Do regimento de Apcheron. Estava a morrer de febre. Nada nos disseram. Éramos vinte ao todo. Nunca teríamos pensado.

— E aborreces-te aqui?

— Como não hei-de eu aborrecer-me, meu falcão? Cá por mim, chamo-me Platão e sou de Karataiev. — Acrescentou, para que a conversa corresse mais fácil para Pedro. — Na tropa chamavam-me Falcãozinho. Ah. Dois não me havia de aborrecer? Moscovo é a mãe das cidades. Pois não hei-de estar triste com tudo isto? Sim, mas a lagarta come a couve e morre também. Os velhos têm razão — continuou, mudando de assunto.

— Quê? Que disseste tu? — perguntou Pedro.

— Eu? Eu disse que homem põe e Deus dispõe — voltou, supondo repetir o provérbio que dissera antes. E prosseguiu: — E o senhor, o senhor, naturalmente, tem bens, tem casa? E a despensa sempre a abarrotar. E uma boa dona de casa? E os pais ainda vivos?

Embora Pedro, na obscuridade, não lhe pudesse ver a cara, sentia que os lábios do soldado, ao dizerem estas coisas carinhosas, esboçavam um sorriso cortês. E grande foi a sua aflição quando Pedro lhe disse que não tinha parentes, especialmente que não tinha mãe.

— A mulher, para dar conselhos; a sogra, para bem nos acolher, mas não que chegue à mãe. E tens filhos? — prosseguiu ele.

A resposta negativa de Pedro, condoeu-se igualmente e apressou-se a acrescentar:

— Ora, ora! Ainda és novo. Ainda podes ter filhos, graças a Deus! Desde que uma pessoa viva em paz...

— Oh, agora é-me indiferente! — disse Pedro, por dizer, sem dar por isso.

— Eh, meu homem! — replicou o soldado. — A miséria e à prisão todos irão.

Aninhou-se melhor, tossicou, dispondo-se, era bem de ver, para uma longa história.

— Sim, meu velho, também eu vivia na minha casa — principiou. — Vivíamos numa rica propriedade, tínhamos muita terra nossa, os camponeses viviam folgados e nós também, graças a Deus. A colheita rendia sete por uma. Vivíamos bem. Éramos tementes a Deus. E até que um dia...

E Platão Karataiev encetou uma história compridíssima: fora apanhar lenha à floresta vizinha, o guarda deitara-lhe a mão, fora vergastado, julgado e mandaram-no assentar praça.

— E que julgas, meu falcãozinho — prosseguiu, num tom em que se adivinhava o sorriso —, julgas que foi uma desgraça? Nada disso, tanto melhor assim! Se me não tivessem apanhado a mim, ao meu irmão competia assentar praça. E o meu irmão mais novo tinha cinco filhos à sua conta, enquanto que eu, eu, por mim, apenas deixei a mulher em casa. A filhinha que eu tive, Deus ma levou antes de assentar praça. Uma vez voltei a casa, de licença, é como te digo. Que vejo eu? Que todos viviam mais folgados do que antes: as capoeiras cheias de criação, as mulheres na lida da casa, os dois irmãos a ganhar a vida lá por fora. Só o Mikaila, o mais novo, estava em casa. E o pai volta-se para mim e diz-me: «Para mim, todos os filhos são iguais. Seja qual for o dedo que mordas, faz-te sempre doer. Se não te tivessem levado para a tropa a ti, Platão, tinham levado o Mikaila.» Chamou-nos a todos e mandou-nos pôr diante dos ícones. «Mikaila», disse ele, «chega-te aqui, roja-te aí no chão, e tu, mulher, faz o mesmo, e vocês, gente miúda, também. Perceberam?» E aqui tem, meu velho. O destino é que manda e nós passamos a vida a dar sentenças: não está certo, não é assim que deve ser. A nossa felicidade, meu amigo, é como a água nas redes do pescador. Se puxamos por elas, as redes incham, mas quando as tiramos de dentro da água já estão vazias. É assim mesmo.

E Platão enterrou-se na sua palha.

Após alguns instantes de silêncio, voltou a soerguer-se.

— Quer-me parecer que estás com vontade de dormir — disse ele, e pôs-se a benzer-se precipitadamente, murmurando:

— Senhor Jesus Cristo, Santos Nicolau, Frol e Laura! Senhor Jesus Cristo, Santos Nicolau, Frol e Laura! Senhor Jesus Cristo, tem piedade de nós e salva-nos! — Finda a sua oração, prosternou-se no chão, voltou a erguer-se, suspirou e sentou-se na palha. — Faz com que durmamos como uma pedra, o Deus, e que acordemos como um calatch — murmurou ainda. Depois deitou-se, cobrindo-se com o capote.

— Que oração é essa? — perguntou Pedro.

— Que dizes? — retrucou Platão, que estava quase a dormir.

— Que foi que eu rezei? Rezei a Deus. E tu, tu não rezas?

— Rezo, sim, também rezo — volveu Pedro. — Mas que é isso de Frol e de Laura?

— Hem? São os patronos dos cavalos — respondeu ele. — Também devemos ter piedade dos animais. Eh, patife! Enroscou-se todo. Está quentinha, a filha de uma cadela! — acrescentou, passando a mão pelo lombo da cadelita deitada em cima das suas pernas: depois voltou-se para o outro lado e adormeceu instantaneamente.

Lá fora, na distância, ouviam-se gritos e queixas e através das fendas das tábuas do barracão via-se luz. Lá dentro, porém, reinavam as trevas e a serenidade. Levou tempo antes que Pedro pudesse conciliar o sono e ali esteve estendido na palha, no meio das trevas, os olhos muito abertos, a ouvir o ressonar de Platão, deitado perto dele. Sentia que o mundo moral que se desmoronara na sua alma se ia reedificando, pouco a pouco, mais belo, e sobre alicerces novos e inalteráveis.

 

[XII]

No barracão onde estava Pedro, e onde passou quatro semanas, havia, entre os vinte e três prisioneiros, três oficiais e dois funcionários.

De toda essa gente apenas lhe ficou na memória uma pálida lembrança, mas a figura de Platão Karataiev gravou-se-lhe nela para sempre, como a recordação mais viva e mais querida, como a personificação do que há de melhor e de mais são no povo russo. Quando no dia seguinte de madrugada lhe foi dado ver o rosto do seu vizinho, a impressão que tivera dos seus gestos envolventes confirmou-se. Com efeito, no seu capote de soldado francês cingido por uma corda, com o seu barrete e os seus laptis, todo ele era reboludo. Tinha a cabeça redonda como uma bola; redondos eram também o seu dorso, o seu peito, os seus ombros e até os seus braços, que ele mantinha sempre numa postura envolvente, corao para acariciar alguém. E até o seu sorriso e os seus grandes olhos castanhos e ternos eram redondos.

Devia ter os seus cinquenta anos, a ajuizar pelas campanhas em que tomara parte jutrora como soldado. Mas ele próprio não saberia nem poderia uízer que idade tinha. Porém os seus dentes fortes, de uma brancuna esplendorosa, que mostrava, alinhados, quando ria, e ria a cada passo, eram sãos e intactos, Não havia um fio branco na sua barba e nos seus cabelos, e o seu corpo era elástico e sobretudo forte e resistente.

Apesar de algumas rugas, no seu rosto havia inocência e mocidade. Tinha uma voz agradável e cantante. Uma das suas particularidades quando falava era a espontaneidade e a precipitação. Parecia não pensar nem no que dizia nem no que ia dizer, e esta presteza, a verdade das suas entoaçIes, conferiam-lhe um penetrante dom de persuasão.

Tais eram a sua resistência física e a sua vivacidade nos primeiros tempos de cativeiro que a doença e a fadiga nada queriam com ele. Todos os dias, de manhã e à noite, dizia: «Faz com que durmamos como uma pedra. Senhor, e que nos levantemos como um calatch.» De manhã, ao erguer-se, tinha sempre o mesmo movimento de ombros e dizia: «Quando nos deitamos, pomo-nos redondos, quando nos levantamos, estenderno-nos.» E, realmente, assim que se deitava lá estava ele a dormir como uma pedra, e assim que se estendia, sem um minuto de hesitação, punha-se logo a fazer qualquer coisa, exactamente como as crianças, que mal se levantam correm para o pé dos seus brinquedos. Tudo sabia fazer, não com perfeição, mas ainda assim nada mal. Fazia o pão, cozinhava, cosia, aplainava madeira, remendava as botas, Estava sempre ocupado e só à noite se permitia conversar, coisa de que, aliás, muito gostava, e cantar. Não o fazia como os profissionais, que se sabem escutados, mas como as aves, pois lhe era tão necessário emitir sons como estender os membros ou caminhar, e o que cantava era sempre suave, terno, quase feminino e melancólico. Enquanto cantava estava sempre muito sério.

Desde que fora feito prisioneiro deixara crescer a barba e, abandonando por assim dizer tudo que nele era de empréstimo, estranho, soldadesco, ei-lo que volta a ser o que era, um mujique, um homem do povo.

«O soldado quando está de licença puxa a camisa para fora das calças» (Voltar a ser mujique, pois o muiique usa a camisa por fora das calças, presa com um cinto. (N. dos T.), costumava dizer.

Não era do seu agrado falar do seu tempo de serviço, embora não se queixasse dessa época e repetisse muitas vezes que nunca fora castigado. Preferia contar histórias dos seus antigos tempos de «cristão», como dizia, em lugar de dizer camponês. Os provérbios de que esmaltava a conversa nada tinham que ver geralmente com esses ditos jocosos e inconvenientes de que tanto gosta, a soldadesca. Eram maneiras de dizer populares que, empregadas isoladamente, não têm sentido, mas, quando ditas a propósito, trasbordam de profunda sabedoria.

Era frequente contradizer-se, embora fosse sempre acertado e que dizia. Gostava de falar, e falava bem, adornando a, sua palavra de diminutivos carinhosos ou adágios, de que ele proprio era autor, pensava Pedro. O maior encanto das suas histórias era o facto de os acontecimentos mais vulgares, que teriam passado completamente despercebidos, revestirem-se na sua boca de verdadeira grandeza, Gostava muito de ouvir as histórias, sempre as mesmas, que um soldado narrava ao serão, mas o que mais o interessava era o que se contava da vida real. Então todo ele era alegria, e metia a sua colherada, fazia a sua pergunta, procurando extrair a moral do que se dizia. Não tinha afectos nem amizades como Pedro as compreendia, mas vivia amistosamente com todos os que o rodeavam e não gostava mais deste ou daquele, em especial, mas em geral de todos na presença dos quais se encontrava. Queria ao seu cachorrinho, aos seus camaradas, aos franceses, gostava de Pedro, que era seu vizinho. Este, no entanto, percebia perfeitamente que, apesar de todas as atenções para com ele, homenagem involuntária do soldado às qualidades morais do seu companheiro, se ele partisse, não teria sofrido com a sua falta. E Pedro principiou a sentir por Karataicv os mesmos sentimentos.

Platão Karataiev, para todos os seus demais companheiros de cativeiro, era um soldado como outro qualquer chamavam— -lhe Falcãozinho ou Platocha, gracejavam com ele sem maldade, mandavam-no fazer isto e aquilo. Aos olhos de Pedro, contudo, ele era a imagem inacessível, etcrna, do espírito de simplicidade, de franqueza e de verdade, e assim como o vira na primeira noite ele lhe ficara gravado para sempre na memória.

Platão Karataiev nada sabia de cor além da sua oração. Quando principiava a falar dir-se-ia não saber como acabaria. Quando Pedro, por vezes, maravilhado com o sentido das suas palavras, lhe pedia que repetisse o que dissera, já não era capaz de se recordar do que acabara de dizer, e por isso mesmo lhe era impossível também repetir a letra da sua canção favorita. Falava-se aí no «meu querido álamo», dizia-se «estou triste», mas não se lhe podia perceber qualquer sentido coerente. Ele próprio não compreendia e ser-lhe-ia de todo impossível compreender o que significavam os termos isolados. Cada uma das suas palavras e cada um dos seus actos era a manifestação exterior de uma força inconsciente, a sua própria vida. E esta vida, tal qual ele a considerava, não tinha para ele qualquer sentido como vida em si mesma, só a compreendia como parte de um todo que ele a cada momento sentia presente. As suas palavras, os seus actos, emanavam dele tão regular, necessária e espontàneamente como o perfume emana de uma flor. Era-lhe impossível conhecer o preço e o valor dos seus actos e das suas palavras considerados isoladamente.

 

[XIII]

Ao saber por Nicolau que seu irmão estava em Iaroslav com w Rostov, a princesa Maria, apesar das recomendações da tia, resolveu partir imediatamente, levando consigo o sobrinho, Não quis saber se era difícil ou não, se era mesmo impossível. O seu dever não só consistia em estar junto do irmão, moribundo talvez, como fazer tudo o que estivesse nas suas mãos para lhe levar o filho. Por isso se dispôs a partir. Se o príncipe André lhe não tinha escrito, era, sem dúvida, por se encontrar em estado de fraqueza extrema, ou então porque considerava aquela longa jornada muito difícil e perigosa para ela e para o filho.

Em poucos dias se preparou para a viagem. A sua equipagem era formada pela grande berlinda do príncipe em que viera para Voroneje, e por algumas britchkas e galeras para as bagagens.

Acompanhavam-na Mademoiselle Bourienne, Nikoluchka e o seu preceptor, a velha ama, três criadas, Tikon, um criado moço e um heiduque que a tia lhe arranjara para a escolta.

Não se podia pensar em seguir a via ordinária para Moscovo. Assim, pois, tiveram de seguir por Lipetsk, Riazan, Vladimir, Chuia, muito mais longe, e caminho difícil, em virtude de se não encontrarem com facilidade estações de posta, e perigoso, mesmo, pois se dizia haver franceses já nas imediações de Riazan.

Durante todo o penoso percurso a princesa Maria foi o espanto de Mademoiselle Bourienne, de Dessales e de toda a criadagem, tão grandes a sua decisão e actividade. Era a última a deitar-se a primeira a levantar-se. Nenhuma dificuldade a fazia recuar. Graças a esta energia, grande estímulo para o moral de seus companheiros, puderam alcançar Iaroslav em duas semanas.

Os últimos dias da sua permanência em Voroneje tinham sido para a princesa Maria os mais felizes da sua vida. O seu amor por Rostov já lhe não causava tormento nem inquietação. Enchia-lhe toda a alma, era, por assim dizer, parte integrante sua e deixara de lutar. Sem que o tivesse confessado a si própria claramente, convencera-se entretanto de que era amada e de que amava. Disso tivera a certeza aquando da última entrevista com Nicolau, no dia em que ele lhe viera comunicar que o irmão estava junto dos Rostov. Nicolau não se referira à hipótese de qualquer reconciliação projectada entre Natacha e André no caso de este melhorar, mas lera-lhe no rosto que esta eventualidade o Preocupava. No entanto, a sua maneira de ser, discreta, terna e afectuosa, não se alterara; parecia, pelo contrário, sentir-se feliz que a aliança projectada lhe permitisse exprimir mais livremente , amizade que sentia por ela e que era já amor. Assim, pelo merios, raciocinara a princesa Maria. Era a primeira e a última vez na sua vida que ela própria amava e era amada, e nesta certeza se, sentia feliz e tranquila.

A felicidade que isto lhe dava irão a impedia de sentir uma grande mágoa por causa do estado do irmão. A própria traircluilidade moral de que, gozava favorecia nela os sentimentos de tristeza que dai lhe advinham. Tão inquieta se mostrara por isso mesmo durante os primeiros momentos, à partida de Voroneje, que as pessoas que a rodeavam, ao verem a sua expressão atormentada e o desespero que se lhe pintava no rosto, se convenceram de que ela ia adoecer durante a viagem. Felizmente as próprias dificuldades e preocupações da jornada, ocupação de todos os seus momentos, salvaram-na momentaneamente da dor em que se abismava e reanimaram-lhe a energia.

Como frequentemente acontece no decurso de uma viagem assim, absorvida pelas preocupações materiais do caminho, esquecera, por assim dizer, o seu objectivo. Mas ao aproxi m arem— se de Iaroslav, e quando pôde dar-se conta de que, não dentro de dias, mas de poucas horas, nessa mesma noite, as suas apreensões iam ser confirmadas, uma grande emoção tomou conta dela,

O heiduque, enviado para se informar do domicílio dos Roslov em Iaroslav e do estado do príncipe André, ao reencontrar as portas da cidade a grande berlinda, que acabava de chegar, e, vendo a palidez mortal da princesa, que espreitara pela portiijhola, sentiu-se aterrado.

— Informei-me de, tudo, Excelência — disse ele. — Os Rostov vivemn na praça, na casa do comerciante Bronikov. Não fica longe, mesmo na margem do Volga.

A princesa, ao verificar que ele não respondera à principal pergunta, a que dizia respeito ao estado de seu irmão, olhou para c, criado apavorada. Mademoiselle Bourienne foi quem o interrogou em vez da princesa.

— E o príncipe? — perguntou ela.

— Sua Exclência reside na mesma casa.

«Isso quer dizer que está vivo», disse de si para consigo a princesa, e perguntou em voz baixa:

— Como está ele?

— Os criados disseram-me que está sempre na mesma.

A princesa não perguntou o que queriam eles dizer com isso e relanceando os olhos ao pequeno Nicolau, a criança de sete anos sentada diante dela muito contente por chegar a uma cidade, baixou a vista e nessa atitude se manteve até que a pesada carruagein, rangendo, oscilando e combaleando, se deteve finalmente, os estribos foram apeados com fragor.

Abriam-se as portinholas. A esquerda estendia-se uma grande toalha de água: era o rio: à direita um alpendre. No alpendre aguardavam-na os criados e uma rapariguinha, rosada e fresca, com uma grande trança preta, que, assim o julgou a princesa Maria, lhe sorriu um pouco afectadamente: era Soma. A princesa precipitou-se na escada, e ela disse-lhe: «Por aqui, por aqui! » E viu-se, na antecâmara, na presença de uma senhora idosa de tipo oriental, que vinha ao seu encontro, muito comovida. Era a velha condessa. Tomando nos braços a princesa Maria, beijou-a na cara.

— Minha filha — exclamou ela. — Estimo-a muito e conheço-a há muito tempo.

Apesar da emoção que sentia, a princesa Maria compreendeu de quem se tratava e disse de si para consigo que era preciso corresponder àquela efusão. E, sem saber muito bem o que fazia, disse-lhe em francês algumas palavras corteses no tom em que a condessa o fizera para com ela, e perguntou-lhe:

— Ele como está?

— O médico diz que o perigo passou — respondeu a condessa, com um suspiro e os olhos no céu que pareciam desmentir as suas palavras.

— Onde está ele? Pode ver-se, pode? — perguntou a princesa. — Imediatamente, princesa, imediatamente, miniia amiga. É o filho dele? — acrescentou ao ver entrar Nikoluchka na companhia de Dessales. — Caberemos todos, a casa é grande. Oh!, que encantadora eriançal

A condessa introduziu a princesa no salão. Sónia falava com Mademoiselle Bourienne enquanto a condessa acariciava o pequeno.

O velho conde veio cumprimentar a princesa. Mudara muito desde que ela o vira pela última vez. Então era um velhinho folgazão, muito alegre, cheio de si: agora não passava de um pobre homem desorientado e digno de piedade. Enquanto falava à princesa ia olhando à sua roda, assustado, como se temesse não fazer o que devia. Arrancado aos seus hábitos pelo desastre de Moscovo e o da sua própria ruína, perdera todo o contacto com a realidade e sentia que já não tinha lugar nesta vida.

Embora a dominasse o desejo de se ver na presença do irmão um pouco desorientada por lhe tomarem tanto tempo com as delicadezas e os cumprimentos pouco sinceros de que era alvo o sobrinho, a princesa ia fazendo as suas observações sobre o que via e compreendia que era sua obrigação submeter-se, pelo menos provisoriamente, a maneiras de agir novas para ela. Isso era necessário, era-lhe penoso, mas aceitava as consequências.

— Esta é a minha sobrinha — disse o conde, apresentando Sónia —, ainda a não conhecia, não é verdade, princesa?

A princesa Maria voltou-se para onde ela estava e, procurando dominar os sentimentos de hostilidade que sentira por essa rapariga, beijou-a. O que lhe era mais penoso era o facto de sentir que o estado de espírito dos que a rodeavam não rimava com o que se passava no seu próprio coração.

— Onde está ele? — perguntou pela segunda vez, dirigindo-se a todos.

— Está lá em baixo. Natacha está junto dele — respondeu Sónia, corando. — Foram preveni-la. Mas deve estar cansada, princesa?

Lágrimas de despeito e e impaciência assomaram aos olhos dela. Desviou a cara e dispunha-se a perguntar à condessa por onde era o caminho para o quarto do irmão, quando uns passos leves, decididos, quase alegres, se ouviram à porta. A princesa voltou a cara e viu Natacha, que tanto lhe desagradara aquando da entrevista de Moscovo.

Mas, assim que os seus olhos pousaram nela, logo compreendeu estar ali a sua sincera companheira de sofrimento e por conseguinte a sua amiga. Precipitou-se ao seu encontro, abraçou-se a ela e rompeu em soluços encostada ao seu ombro.

Assim que Natacha, à cabeceira do príncipe André, soubera da chegada de Maria, saíra do quarto sem ruído, e no seu passo rápido, nesse seu passo de ritmo alegre que surpreendeu a visitante, correu ao encontro dela.

Ao entrar no salão, o seu rosto emocionado só exprimia um sentimento, o amor, um amor sem limites por ele, por tudo que dizia respeito ao homem a quem amava, uma compaixão imensa pelos outros e um desejo apaixonado de se sacrificar. Naquele instante no seu coração não havia o mais pequeno pensamento egoísta: uma possível união com ele não lhe passava pelo espírito.

O instinto delicado de Maria levou-a a ler tudo isso na cara dela e foi com uma alegria em que se misturava sofrimento que se deixou chorar sobre o ombro de Natacha.

— Vamos, vamos ter com ele, Maria — disse Natacha, levando-a consigo para outra sala.

A princesa levantou a cabeça, enxugou as lágrimas e quis interrogá-la. Sabia que Natacha lhe diria a verdade.

— Como... — disse ela, mas interrompeu-se imediatamente. Sentia que com palavras era incapaz de Interrogar e Natacha incapaz de responder, os seus olhos, a expressão do seu rosto falavam mais claramente.

Natacha olhou para ela, mas estava cheia de ansiedade e de incerteza, Devia dizer-lhe ou não tudo o que sabia? Confusamente, sentia que na presença daqueles olhos luminosos que a penetravam até ao fundo da alma não lhe seria possível não dizer tudo, toda a verdade, tal qual a sabia. Os lábios tremerem-lhe, um rieto se lhe esboçou em torno da boca e soluçou com a cabeça nas mãos.

A princesa Maria compreendeu tudo.

No entanto, ainda tinha alguma esperança e perguntou, sem que ela própria acreditasse no que dizia:

— E como está o seu ferimento? E o seu estado geral?

— Vai ver... vai ver — foi tudo quanto Natacha pôde articular.

Ficaram alguns momentos num quarto vizinho do do príncipe para que desaparecessem os vestígios das lágrimas e pudessem chegar junto dele com o rosto sereno.

— Como tem caminhado a doença? Há muito que está assim pior? Quando aconteceu «isso»? — perguntou Maria.

Natacha contou-lhe que nos primeiros tempos o seu estado febril e as dores lhe tinham posto a vida em perigo, mas que em Troitsa melhorara e o médico nada mais receava então senão a gangrena.

Esse perigo fora evitado: em Iaroslav, no entanto, veio a produzir-se uma supuração e o médico dissera que iria seguir, provavelmente, o seu curso regular. — Natacha estava perita em termos médicos. — A febre declarara -se-lhe de novo: mas o médico dizia que não tinha gravidade.

— Finalmerite, antes de ontem — continuou Natacha, reprimindo as lágrimas — «isso» apareceu bruscamente... Não sei como. Verá com os seus olhos o estado em que ele está.

— Está mais magro? Emagreceu? — perguntou a princesa.

— Não, não é isso, é pior. Verá. Ah! Maria. é bom de mais, não pode, não pode viver neste mundo, por isso...

 

[XIV]

Quando Natacha, com um movimento habitual, abriu a porta, deixando passar na sua frente a princesa Maria, esta sentiu que os soluços a sufocavam. Conquanto estivesse preparada para o encontro, e embora fizesse tudo para estar serena, sentia que não tinha coragem de o ver sem chorar.

Compreendera o que Natacha queria dizer com as suas palavras: «Isso aconteceu-lhe antes de ontm.» Percebera que aquilo queria dizer que ele se acalmara de repente e que essa acalmia, esse desprendimento, eram prenúncios de morte. Revia, naquele momento, o pequeno André que ela ccithecera na sua infância, esse rostozinho meigo, suave, humilde, essa expressão que ele tão poucas vezes tivera depois e que tão profundamente a comovia quando voltava a encontrar-lha no rosto. De antemão sabia que ele lhe iria dizer dessas palavras serenas e ternas como o pai lhe dissera antes de morrer e que não poderia suportar isso e que romperia a chorar. Mas, como mais tarde ou mais cedo tinha de Ícontecer, resolveu entrar. Estava quase sufocada pelos soluços quando, com os seus ohos míopes, distinguiu os contornos do corpo do irmão e reconheceu os seus traços: o rosto dele estava diante de si e os seus olhos vieram pousar-se nos dela.

Estendido num canapé, amparado por duas almofadas, tinha um roupão forrado de zibelina. Estava magro e pálido. Com uma das mãos, transparente e quase descarnada, pegava num lenço, enquanto com a outra, graças a imperceptíveis movimentos dos dedos, retorcia o fino bigode, que crescera muito. Os seus olhos pousaram-se na pessoa que entrava.

Ao ver aquela fisionomia e a expressão daquele olhar, Maria moderou o passo e sentiu que as lágrimas se lhe secavam rios olhos e os soluços se lhe retinham no peito. Aquela cara, aqueles olhos, intimidaram-na de súbito e sentiu-se como culpada.

«Culpada de quê?», perguntou-se a si própria. «De que tu vivas e que penses na vida, enquanto que eu...» respondeu-lhe aquele frio e severo olhar.

Quando dirigiu lentamente os olhos para a irmã e para Natacha, no seu olhar profundo, que não olhava para fora, mas antes parecia olhar para dentro, quase havia ódio.

O príncipe beijou a irmã, passando-lhe os braços em volta do pescoço, como era seu costume.

— Bons dias, Maria, chegaste por fim? — disse numa voz tão monótona e tão estranha como o seu olhar.

Se se tivesse posto a gritar desesperadamente, teria causado menos horror à irmã que o que lhe causara com o timbre daquela voz.

— Trouxeste contigo também o Nikoluchka? — perguntou com a mesma voz monótona e lenta, fazendo um grande esforço de memória.

— Como te sentes agora? — disse Maria, surpreendida de poder fazer semelhante pergunta.

— Minha querida amiga, isso deves perguntá-lo ao médico — replicou ele, e, num esforco ainda para se mostrar amável, acrescentou apenas dos lábios (via-se que não pensava no que dizia):

— Muito obrigada, querida amiga, por ter vindo.

A princesa Maria apertou-lhe a mão. Essa pressão fê-lo franzir as sobrancelhas imperceptivelmente. Calara-se e ela própria não sabia que dizer. E então compreendeu o que acontecera a André havia dois dias. Nas suas palavras, no tom da sua voz, sobretudo naquele frio olhar, quase hostil, adivinhava-se esse desprendimento de todas as coisas deste mundo tão terrível para quem está vivo. Parecia já nada compreender do inundo dos vivos, e não porque as suas capacidades intelectuais tivessem enfraquecido, mas porque o seu pensamento estava noutro lado, num mundo que não compreendem nem podem compreender os vivos e que por isso mesmo deles o afastava.

— Ah! Que estranho foi connosco o destino! — disse ele, rompendo o silêncio e apontando para Natacha: — Está a tratar-me, como vês.

A princesa Maria ouvia-o, mas sem compreender o que ele dizia. Como podia ele, esse André, tão delicado, tão terno, falar assim na presença daquela a quem amava e que o amava? Se ele tivesse pensado que poderia vir a curar-se não falaria com aquela frieza, aquele tom quase ofensivo. Se ele não soubesse que ia morrer, não teria tido piedade dela? Teria podido exprimir-se assim? A única explicação é que tudo se lhe tornara indiferente e que qualquer coisa se lhe revelara de muito mais importante.

A conversa, a cada momento interrompida, era fria e sem continuidade.

— Maria, passou por Riazan — disse Natacha.

André não sentiu qualquer surpresa ao ouvir chamar assim sua irmã, mas Natacha, que assim a chamara na presença dele, deu por isso pela primeira vez.

— E então? — inquiriu ele.

— Contaram-lhe que Moscovo ardeu, está completamente em ruínas: que, ao que parece...

Natacha calou-se: não podia continuar. Via-se que debalde ele tentava segui-la.

— Sim, Moscovo ardeu, dizem. Que coisa triste -pronunciou ele, de olhos fixos, repuxando maquinalmente as guias do bigode.

— Encontraste o conde Nicolau, Maria? — disse ele, de súbito, como se quisesse mostrar-se afectuoso. — Escreveu para cá a contar que tu lhe agradas muito — prosseguiu ele, num tom simples e calmo como se não pudesse compreender inteiramente a importância das suas palavras para a gente deste mundo. — Se ele te agrada também, é muito bom... casai-vos — concluiu, por fim, como se procurasse as palavras e tivesse acabado por encontrar a expressão desejada.

A princesa Maria, ao ouvir tais palavras, compreendeu quão longe o seu irmão estava já do mundo dos vivos.

— Porque falas tu de mim? — disse ela com calma, relanceando um olhar a Natacha.

Esta, sentindo pousar-se nela esse olhar, não ergueu os olhos.

O silêncio continuou.

— André, queres... queres ver o Nikoluchka? — exclamou Maria, de súbito, numa voz hesitante. — Está sempre a perguntar por ti.

O príncipe André sorriu imperceptivelmente pela primeira vez, mas a irmã, que conhecia muito bem o seu jogo fisionómico, descobriu, apavorada, que aquele sorriso não era de alegria ou de ternura por ouvir falar do filho, mas uma subtil zombaria para com ela, por tê-la visto empregar este último expediente na esperança de acordar nele qualquer sentimento.

— Pois sim, gostava muito de o tornar a ver. Está bom?

Quando lhe trouxeram o filho, que fitou o pai assustado, mas não chorou, pois ninguém chorava, o príncipe André abraçou-o sem saber que dizer-lhe.

Levaram de novo a criança, e a princesa Maria aproximou-se mais uma vez do irmão, beijou-o, e, sem poder reprimir as lágrimas por mais tempo, rompeu em soluços.

André olhou-a fixamente.

— Choras por Nikoluchka? — perguntou ele.

Maria respondeu com um aceno afirmativo de cabeça.

— Maria, tu conheces o Evange ... — E, de súbito, calou-se.

— Que queres tu dizer?

— Nada. Não deves chorar assim — disse ele, olhando-a com o mesmo frio olhar.

Quando a irmã principiou a chorar, André compreendeu que ela chorava porque o pequeno Nicolau ia ficar órfão. Fez então um grande esforço sobre si mesmo para retomar contacto com a vida e reaver o ponto de vista dos vivos.

«Sim, isso deve parecer-lhe triste», pensou ele, «e no entanto é tudo que há de mais simples!»

«As aves do céu não semeiam nem colhem, mas o nosso Pai celeste alimenta-as», pensou e veio-lhe à mente comunicar essa ideia à irmã, «Mas não, elas compreenderão isto à sua maneira ou antes não o compreenderão de todo! E o que elas não Podem compreender é que todos estes sentimentos que tão caros lhes são nos são puramente pessoais, que são inúteis estes pensamentos que tanto valor têm para nós. Não nos poderemos compreender mais!» E calou-se.

O filhinho do príncipe ia fazer sete anos. Mal sabia ler. Ainda nada aprendera. No decurso da sua vida veio a adquirir numerosos conhecimentos, experiência, o dom de observação. Mas ainda que dispusesse naquele momento de toda a ciência que adquiriu mais tarde, não teria apreendido melhor nem teria penetrado mais profundamente o sentido da cena que se desenrolou entre seu pai, a princesa Maria e Natacha. Compreendeu muito bem, saiu sem verter uma lágrima, aproximou-se de Natacha em silêncio, e, seguindo-a, olhou-a timidamente com os seus lindos olhos cismadores. Um movimento convulsivo lhe agitava o rosado lábio superior ligeiramente soerguido. Depois, escondendo a cabeça no colo de Natacha, rompeu a chorar.

Desse dia em diante evitou Dessales e esquivou-se às carícias da condessa. Ora se deixava estar sozinho, ora procurava a princesa Maria e Natacha, a qual parecia preferir à própria tia e que, suave e timidamente, o acariciava.

Maria, depois desta sua primeira visita ao irmão, compreendeu a expressão silenciosa do rosto de Natacha. Não mais lhe falou em esperanças de cura. Alternadamente com ela, assistia-lhe à cabeceira da cama. Não chorava, mas as orações prorrompiam-lhe dos lábios mudos, elevando-se a toda a hora para o Ser Eterno e Inacessível cuja presença tão vivamente se manifestava junto do moribundo.

 

[XV]

O príncipe André não só sabia que ia perecer como se sentia morrendo pouco a pouco, já estava meio morto. Tinha consciência plena do seu desprendimento de tudo que era terreno e sentia na alma uma estranha sensação de alegria e bem-estar. Aguardava sem pressa nem inquietação o inevitável. Essa coisa terrível, etcrna, desconhecída, longínqua, que ao longo de toda a sua vida ele sentira sempre a seu lado estava agora realmente ali, e graças àquele estranho bem-estar dir-se-ia quase compreensível, tangível.

Outrora receara a moi-te. Por duas vezes já sentira com verdadeira angústia a sua aproximação, o fim, e agora deixara de ter inedo. A primeira vez fora quando aquela granada rodopiara diante dele: olhando os prados, as árvores, o céu, sabia a morte a pairar sobre ele. Quando voltou a si, na ambulância, sentiu-se, de repente, como liberto da vida: na sua alma desabrochara essa flor do amor etcrno, livre, independente de todas as contingências, e de então para cá deixara de ter medo da morte e não mais pensara nela. Nas horas de dolorosa solidão e meio delírio após ter sido ferido, quanto mais se deixava absorver por esse mundo que se lhe revelara impregnado de amor etcrno tanto mais se desprendia, sem que desse por isso, da existência terrena.

Amar tudo e todos, sacrificar-se sempre por amor, era como não amar alguém, não viver vida terrelia. E à medida que inergulhava neste princípio de amor ia renunciando às coisas do mundo, ia vencendo a tremenda barreira que sem o amor se h-vanta entre a vida e a morte. E foi assim que durante este primeiro período da sua doença, sempre que pensava na morte próxima, para si mesmo dizia: «Pois bem, tanto melhor!»

Mas depois daquela noite em Mitichtchi, quando, no meio do seu delírio, lhe apareceu aquela que ele desejara tornar a ver, e, pegando-lhe na mão, a levou aos lábios, lágrimas de uma suave alegria lhe encheram os olhos e o amor da mulher, insensivelmente, de novo se insinuou no seu coração, prendendo-o outra vez à vida. Assaltaram-no pensamentos ao mesmo tempo alegres e inquietos, Lembrando-se de Kuraguine, na ambulâr.:ia, já não experimentava o sentimento de outrora. Agora atornienlava-o o desejo de saber se viveria e não ousava perguntá-lo os que o rodeavam.

A enfermidade seguia o seu curso natural, mas a modificação de que Natacha falara apenas se produzira dois dias antes da chegada da princesa Maria. Era únicaniente a luta derradeira entre a vida e a morte, luta em que esta sairia vencedora. Era o reconhecimento de que ainda estimava a vida, que lhe oferecia o amor de Natacha. Era a última revolta de todo o seu ser perante o desconhecido.

Anoitecia, o principe André, como era costume depois das re,feições, estava febril e os pensamentos circulavam-lhe no cérebro com toda a nitidez. Sónia sentava-se a seu lado, André dormitava. De súbito tornou-o um grande sentimento de felicidade. «Oh! Ei-la que chega!», exclamou.

Efectivamente, Natacha, que acabava de chegar sem ruído, tomava o lugar de Sónia.

Desde que ela o tratava que o príncipe André experimentava como que a sensação física da sua presença. Natacha ocupava uma poltrona voltada a três quartos para ele. Por detrás ardia uma vela num castiçal. Fazia meia. Aprendera a fazer meia no dia em que André lhe dissera que ninguém tratava melhor dos doentes que as velhas amas, a fazer meia, e que essa ocupação para ele era muito apaziguadora. Os seus delgados dedos manejavam ágilmente as agulhas, e ele via-lhe perfeitimente o perfil cismador da cabeca inclinada. O novelo escorregou-lhe, dos joelhos, Natacha moveu-se para o ipanhar. Estremeceu, relanceou-lhe um olhar, colocando a mão diante dos olhos, para protegê-los da luz, e, rápida, ligeira, cautelosa, debruçou-se, apanhou o novelo e retomou a posição primitiva.

O príncipe André olhou-a, sem se mexer, e viu que, graças ac movimento que ela acabava de fazer, teria precisado de respirai fundo, mas que o não ousava, respirando a custo.

No mosteiro de Troitsa tinham falado do passado, e ele dissera-lhe que, se se curasse, etcrnamente agradeceria a Deus aquele sofrimento que voltara a aproximá-los, A partir de então, porém, nunca mais entre eles voltou a falar-se do futuro,

«Será possível que assim seja?», interrogava-se a si próprio, contemplando Natacha, ao mesmo tempo que ouvia o subtil ruido das agulhas de aço. «Não nos terá o destino reunido de maneira tão estranha senão para eu morrer?... Não se me teria revelado a verdade da vida senão para eu voltar a viver na mentira? Amo-a acima de todas as coisas neste mundo. Ora, se a arno assim, que me resta fazer?» E de súbito um grande suspiro se lhe despren, deu do peito, hábito que lhe viera no meio dos muitos sofrimentos por que passara.

Natacha, ao ouví-lo suspirar, pousou o braço, inclinou-se para ele, e, vendo que os olhos lhe brilhavam, aproximou-se mais no seu passinho leve.

— Não está a dormir?

— Não, estou a olhá-la há muito tempo; senti-a entrar. Só a Natacha me dá este sossego tão benigno... esta claridade. Apetec.e-me chorar de felicidade,

Natacha aproximou-se ainda mais. No seu rosto havia uma inef ável alegria.

— Natacha, amo-a de mais, amo-a acima de todas as coisas neste mundo.

— E eu... — voltou-se, por instantes. — Ama-me de mais, porquê? -disse ela.

— De mais porquê?... Acha, sente no fundo do seu coração que poderei salvar-me? Acredita que sim?

— Tenho a certeza, tenho a certeza! — quase gritou Natacha, agarrando-lhe apaixonadamente as duas mãos.

O príncipe André ficou calado.

— Era bom de mais! — E, pegando-lhe na mão, beijou-lha.

Uma grande felicidade agitava Natacha, mas de súbito lembrou-se de que ele não devia excitar-se daquela maneira, que precisava de repouso.

— Mas não dormiu — disse ela, refreando a felicidade que a tomava. — Procure descansar... peço-lhe.

Depois de lhe apertar outra vez a mão, abandonou-a, e Natacha, voltando para o pé da luz, retomou a sua primitiva atitude. Por duas vezes se voltou e por duas vezes viu que os olhos dele brilhavam ao encontrarem os seus. Então fitou uma mancha de malha que tinha entre as mãos e para si mesmo resolveu não voltar a olhar para André enquanto não chegasse àquele ponto.

Efectivamente, pouco depois, André fechava os olhos e adormecia. Não dormiu por muito tempo. De repente acordou banhado de suores frios. A ideia da vida e da morte acompanhara-o no seu curto sono, especialmente a ideia da morte. Sentia-a cada vez mais próxima.

«O amor? Que é o amor?», pensava ele. «O amor é o inimigo da morte. O amor é a vida. Tudo, absolutamente tudo que me é dado compreender, graças ao amor eu o compreendo. Tudo que é, tudo que existe, pelo amor existe. O amor é Deus; morrer é regressar, eu, parcela desse amor, à fonte geral e etcrna.» Estas ideias pareceram-lhe consoladoras, mas eram apenas ideias. Qualquer coisa lhes faltava, havia nelas fosse o que fosse de demasiado subjectivo, de demasiado ininteligível. Faltava-lhe evidència. E de novo recaiu nas suas inquietações e incertezas. Acabou por adormecer outra vez.

Sonhou estar deitado no quarto em que realmente se encontrava, mas de perfeita saúde, sem estar ferido. Diante dele havia uma multidão de pessoas vulgares indiferentes, e ele falava com elas, conversava disto e daquilo. Essas pessoas iam retirar-se. André, sentindo, confusamente, que nada disso tinha importância e que outra coisa o preocupava, continua a trocar com essas pessoas, apesar da surpresa que o facto lhe causa, toda a espécie de ditos fúteis e graciosos. Pouco a pouco, contudo, as figuras desvanecem-se, e ele só tem uma preocupação: fechar a porta. Levanta-se, disposto a correr o fecho e a cerrá-la. Tudo agora depende de ser capaz de o conseguir. Dá-se pressa, as pernas não lhe obedecem, sabe que não chegará a tempo. Apodera-se dele uma tremenda angústia. Essa angústia é o medo da morte. A morte está ali, atrás da porta. E enquanto se extenua em esfor— ços impotentes, eis que do outro lado um ser terrífico a força. Esse ser, que nada tem de humano, e que é a morté, pretende arrombã-la, e é preciso impedi-lo. Agarra-se à porta, num apelo a todas as suas forças para que ao menos o ajudem a deter aquele espectro, já que não é capaz de a fechar. É fraco, não pode mais, e a porta cede um pouco impelida por essa criatura horrenda.

Tenta mais uma vez, mas a porta cede definitivamente. Esses seus últimos esforços, verdadeiramente sobre-humanos, são inúteis. Os batentes abrem-se sem ruído. «Aquilo» entra. É a morte. E o príncipe André sente-se morrer. Mas no instante, precisamente, em que a morte se apodera dele, lembra-se de que está a dormir, e, fazendo sobre si um grande esforço, acorda. «Sim, era a morte, não havia dúvida. Eu estava morto e acordei. Sim, a morte é um despertar.» De súbito uma grande claridade lhe ilumina a alma e a cortina que até então lhe escondia essa coisa desconhecida corre diante dele. Sentiu-se então como que liberto da força que até aí o encadeava e foi nessa altura que experimentou aquela estranha sensação de leveza que nunca mais o abandonou.

Tendo acordado banhado em suores frios, agitou-se no colchão, e Natacha perguntou-lhe o que tinha. André não lhe respondeu e, sem compreender o que ela dizia, fitou-a com uns olhos estranhos.

Eis o que acontecera na antevéspera da chegada da princesa Maria.

A partir desse momento, assim o médico o pôde verificar, a febre baixa que o consumia transformou-se em febre perniciosa. Mas Natacha não prestava a mais pequena atenção ao que o médico dizia. Para ela, mais assustador e mais certo ainda eram aqueles indícios morais do próximo fim.

A partir desse dia, André, como se acabasse de sair de un, sonho, principiou a abandonar a vida. E como é sempre moroso o despertar de um sonho, o mesmo aconteceu ao seu despertar da vida.

Este lento despertar não foi perturbado por qualquer incidente grave ou assustador.

Os seus últimos dias e as suas últimas horas decorreram penosamente, como de costume. A princesa Maria e Natacha, que nunca mais o abandonaram, puderam verificá-lo. Já não choravam, já não estavam inquietas, e nos últimos tempos elas próprias sentiam que não era a ele, príncipe André, que tratavam. Ele já ali não estava, deixara-as. Tratavam apenas a sua mais recente recordação, o seu despojo mortal, por assim dizer. Tão alto haviam subido os seus sentimentos que o espectáculo terrível da morte já não tinha poder sobre elas. Era inútil avivarem mais a dor que as pungia, Já não choravam nem na presença dele nem na sua ausência, e nunca dele falavam entre si.

Sentiam não poderem exprimir por palavras o que dentro delas se passava.

Sempre, e cada vez mais, o viam, lentamente, tranquilamente, abismar-se no desconhecido, e era como se soubessem que assim tinha de ser e só assim estava certo.

Confessou-se, recebeu a comunhão. Toda a gente veio despedir-se. Quando lhe trouxeram o filho, pousou os lábios no rosto da criança e voltou a cara, não para esconder a mágoa e a dor, mas, assim, pelo menos, o pensaram a princesa e Natacha, por supor que era aquilo que lhe exigiam. Quando lhe pediram que lhe lançasse a bênção assim o fez, e, olhando em roda, parecia perguntar se pretendiam ainda mais alguma coisa.

A princesa Maria e Natacha estavam junto dele quando soltou o derradeiro suspiro.

— Acabou! — disse a princesa Maria ao notar que o corpo, durante alguns instantes imóvel, começava a arrefecer, Natacha aproximou-se, viu-lhe os olhos sem vida e cerrou-lhes as pálpebras. Fechou-lhe os olhos, mas não os beijou: limitou-se a inclinar-se sobre o que era a sua mais recente memória. «Para onde foi ele? Onde estará agora?...»

Quando, vestido e lavado, estenderam o corpo no caixão em cima da mesa, todos se aproximaram, chorando.

Nikoluchka soluçava, o coração trespassado por uma perplexidade dolorosa. A condessa e Sónia choravam de compaixão por Natacha e por aquele que já não era deste mundo. O velho conde, aflito, chorava pensando que não vinha longe a sua hora. E também Natacha e a princesa Maria choravam, não de dor, mas em virtude da piedosa emoção que lhes enchia a alma perante o simples e solene mistério da morte que acabava de cumprir-se na sua presença.