Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 13 de 18 · parte 3/3

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Guerra e Paz

Segunda Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Para que serve discutir? — exclamou o major colérico. — Tanto faz que seja S. Nicolau como Vlass: é o mesmo. Como vêem, está tudo queimado e isso é um facto... Para que empurram? Não lhes chega o espaço que têm? — acrescentou, dirigido-se àquele que vinha atrás dele e que o não empurrava de lacto.

— Oh! Que terrível coisa fizeram! — exclamavam os prisioneiros, contemplando as ruínas. — E o Zamoskvorietche e Zubovo e o Kremlin... Olhem, não ficou nem metade. Eu bem lhes disse que tinha ardido todo o Zamoskvorietche, e é verdade. Aí têm.

— Bom, está bem, já sabem que ardeu a cidade inteira. De que lhes serve discutir? — resmungava o major.

Ao atravessarem Kamovniki, um dos poucos bairros intactos, ao pé da igreja, os prisioneiros correram de súbito todos para o mesmo lado, e ouviram-se exclamações de horror e repulsa.

— Oh! Que canalhas! Bem se vê que não são cristãos. Olhem, o morto, o morto... Borraram-lhe a cara.

Pedro também se aproximou da igreja para saber a causa daquelas exclamações, e viu então qualquer coisa encostada ao muro do templo. Pelos seus camaradas, que viam melhor do que ele, soube que era um cadáver de pé contra a grade e ao qual tinham besuntado a cara com sebo.

— Marchem, caramba... Marchem... trinta mil diabos! — vociferaram os soldados da escolta, e com renovada, ira puseram-se a destroçar a coronhada a multidão dos prisioneiros que ficara para trás olhando o cadáver.

 

[XIV]

Pelas ruelas de Kamovniki foram seguindo os prisioneiros com a sua escolta, mais as carroças e as galeras que vinham atrás deles, sem encontrar ninguém no caminho. Mas ao desembocarem junto dos armazéns de subsistências, deparou-se-lhes um grande comboio de artilharia que avançava, penosamente, entravado por um engarrafamento de viaturas particulares.

Ao chegarem à ponte, tiveram de estacar para darem tempo a que passassem os que iam na vanguarda. Passada a ponte, puderam ver que tanto na sua frente como na sua retaguarda tudo eram filas intermináveis de carros. À direita, no local em que a Calçada de Kaluga forma uma curva diante de Neskutchni, perdendo-se na distância, desfilavam filas imensas de soldados e de bagagens. Eram as tropas do corpo de Beauharmais, as primeiras a sair da cidade. Atrás, ao longo do cais e da ponte de Pedro, marchava, o corpo de exército de Ney, com as suas respectivas viaturas.

As tropas de Davout, de que os prisioneiros faziam parte, atravessaram o vau de Krimski e meteram por um troço da Rua de Kaluga. Mas a fila era tão longa que as últimas viaturas de Beauharmais ainda não tinham saído de Moscovo quando a vanguarda das tropas de Ney principiava a desembocar na Grande Ordinka.

Após terem atravessado o vau de Krimski, os prisioneiros, depois de darem alguns passos, pararam, para de novo se porem em marcha: de todos os lados se comprimiam contra eles cada vez mais homens e viaturas. Levaram mais de uma hora para Percorrer a escassa centena de passos que separa a ponte da Rua de Kaluga, e, ao chegarem à praça onde a Rua de Zamoskvorietche se encontra com a de Kaluga, pararam, comprimidos numa massa compacta, e ali ficaram algumas horas naquela encruzilhada. Por toda a parte se ouviam, num rindo semelhante ao do mar, e rolar das rodas, os passos dos soldados e gritos furiosos e intermináveis injúrias. Pedro, de pé, comprimido contra a parede de uma casa incendiada, ouvia aquele rumor que na sua imaginação se fundia com o rufar dos tambores.

Alguns oficiais prisioneiros, para verem melhor, treparam ao alto das paredes da casa junto à qual se encontrava Pedro.

— Tanta gente! Ah! Tanta gente!... Até há homens em cima dos canhões! Olhem para as peles’... Ah!, que crápulas! O que eles roubaram! Olha para aquele, o que ele leva no carro... Deve ter tirado aquilo a um ícone... São alemães. é mais que certo! Onde estão os nossos camponeses?... Canalhas!... Olha para o que aquele leva. Nem pode andar! E aqueles, aqueles apanharam uma carruagem de fidalgo! E aquele além! Sentado em cima dos baús! Ah! Santos Padres! Isto é que foi roubar!

— Sim, sim! Chega-lhe nas ventas! Sim, senhor, não salinos daqui antes da noite! Olha, olha... Se calhar é do Napoleão. Repara! Que belos cavalos! Um escudo e a coroa! Parece uma casa desmontável! Olha, aquele perdeu o saco e, não deu por isso. Quê, mais zaragatas? Uma mulher com o filho. Não é qualquer peste. Claro, assim, hão-de deixar-te passar, Olhem! Nunca mais acaba! Moças russas, palavra de honra! Sim, moças russas1 Aquilo é que elas se rebolam nos carros.

De novo um acesso de curiosidade, como junto da igreja de Kamovniki, precipitou os prisioneiros para diante, e Pedro, graças à sua estatura avantajada, pôde ver por cima das cabeças o que assim chamava a atenção. Em três carruagens. à mistura com os armões da artilharia, aglomeradas umas sobre as outras, viam-se umas mulheres muito pintadas, com vestidos ultragarridos, que gritavam em altos berros.

Desde o momento em que Pedro dera pela presença daquela força misteriosa e brutal que a certa altura se apodera dos homens, nada lhe parecia já estranho nem horrível: nem aquele cadáver borrado de sebo, nem aquelas mulheres empilhadas dentro de um carro, nem mesmo os escombros do incêndio. Já nada o comovia: dir-se-ia que a sua alma, preparando-se para uma luta difícil, repelia de si toda a emoção capaz de a debilitar.

O carro das mulheres passara. Atrás dele vinha uma grande fileira de carroças, de soldados, de galeras: depois, de novo soldados, furgões, veículos; e outra vez soldados, armes e mais soldados: de quando em quando algumas mulheres.

Pedro ninguém via individualmente, mas apenas massas de gente em movimento.

Toda aquela gente, todos aqueles cavalos, pareciam impulsionados por uma força invisível. Em todos eles, afluindo das diversas ruas, não havia senão um único e mesmo desejo: passar o mais depressa que pudessem. Empurravam-se, irritavam-se, agrediam-se, viam-se dentes ranger, franziam-se sobrancelhas, injuriavam-se uns aos outros, e todos os rostos reflectiam a mesma expressão resoluta, cruel, fria, a expressão que o impressionara logo pela manhã na máscara do cabo, quando principiara a rufar o tambor.

Para o fim da tarde, o comandante do comboio conseguiu agrupar o seu destacamento, que entre gritos e zaragatas acabou por unir-se aos demais comboios, e os prisioneiros, escoltados por todos os lados, entraram, a pé, na estrada de Kaluga.

A marcha foi rápida, sem interrupções, e apenas pararam ao pôr do Sol. As carroças alinharam umas atrás das outras e os homens prepararam-se para passar ali a noite. Toda a gente parecia irritada e descontente. Por muito tempo se ouviram, por todos os lados, injúrias, obscenidades, disputas. Uma carruagem que vinha atrás do comboio abalroou com uma carroça e meteu-lhe dentro os taipais com a lança dos cavalos. Acorreram vários soldados: uns fustigavam a cabeça das bestas atreladas à carruagem, para obrigá-las a recuar, outros agrediam-se entre si, e Pedro viu um alemão gravemente ferido na cabeça por uma espadeirada.

Aquela gente, ali parada em pleno campo, no meio das fria, trevas de uma noite de Outono, experimentava a desagradável sensação de quem desperta depois da confusão e da precipitação em que vivera à saída da capital. Todos pareciam compreender ser desconhecido o destino que levavam e que muitos tormentos e muitas dificuldades os aguardavam ainda.

Neste primeiro descanso, os soldados da escolta ainda trataram os prisioneiros com mais dureza que no momento da partida. Pela primeira vez receberam como ração carne de cavalo.

Desde os oficiais até ao mais humilde dos soldados, todos mostravam uma espécie de irritação particular para com os prisioneiros, contraste flagrante com o amistoso tratamento que até então tinham tido.

Essa irritação ainda mais se agravou quando, no momento de se fazer a chamada, verificaram que tinha fugido um soldado russo, que se queixara de uma indisposição de barriga. Pedro viu Um francês agredir um russo por se ter afastado da estrada e Ouviu o capitão seu amigo repreender severamente o sargento por causa do desaparecimento do prisioneiro, ameaçando-o com um conselho de guerra. Respondendo-lhe o sargento que o soldado estava, doente e não podia caminhar, o oficial replicou-lhe que havia ordens para fuzilar os retardatários. Pedro sentiu que aquela força fatal e bruta que pesara sobre ele na altura, da execução dos incendiários, aligeirando-se durante o período do cativeiro, voltava de novo a impor-se-lhe. Um grande terror se apoderou dele: mas ao mesmo tempo sentia que, enquanto esta força procurava esmagá-lo, outra, poderosa e independente dela, espécie de energia vital, crescia e lhe fortalecia a alma

Ceou papas de farinha e centeio e um pedaço de carne de cavalo e pôs-se a falar com os companheiros.

Nem Pedro nem qualquer dos outros aludiu ao que tinham, visto em Moscovo, nem tão-pouco à brutalidade dos Franceses nem à ordem de disparar sobre eles em caso de fuga. Como para contrabalançar a gravidade da situação que atravessavam, pareciam especialmente alegres e ruidosos. Lembravam recordações pessoais, cenas cómicas a que tinham assistido durante a campanha, e as histórias que contavam faziam-nos esquecer o momento que passava.

Há muito que, se havia posto o Sol. Estrelas brilhantes surgiam aqui e ali no alto céu, O globo da lua cheia, cor de fogo, espalhava o seu fulgor no horizonte, balouçando-se de maneira estranha no meio da bruma acinzentada. Era como se fosse dia claro. O crepúsculo ainda não acabara e a noite ainda não principiara. Pedro, afastando-se do grupo dos seus novos amigos, atravessou pelo meio das fogueiras do acampamento para o outro lado da estrada onde lhe haviam dito haver também prisioneiros, Desejava conversar com eles. Uma sentinela francesa mandou-o fazer alto, ordenando-lhe que voltasse para trás.

Pedro obedeceu-lhe, mas, em vez de voltar para o bivaque onde estavam os companheiros, encaminhou-se para uma carroça desatrelada em que ninguém havia. Sentou-se no chão, acocorado, e de cabeça baixa, sob a caixa da carroça, por muito tempo ali ficou imóvel, absorto nos seus pensamentos. Passou-se mais de uma hora, Ninguém se lembrava dele. De súbito rompeu uma gargalhada tão franca e estrepitosa que toda a gente se voltou para ver donde partia aquela estranha jovialidade.

«Ah!, ah!, ah!», gargalhava Pedro. E em voz alta ia dizendo para si mesmo: «O soldado não me deixou passar, apanharam-me, encarceraram— me, fizeram-me prisioneiro. Mas a quem? A mim. à minha alma imortal?

«Ah!, ah!, ah…» E de tanto rir enchiam-se-lhe os olhos de lágrimas.

Um dos prisioneiros levantou-se e aproximou-se para ver qual a causa da hilaridade daquele homem gordo e estranho, Pedro deixou de rir, levantou-se e, afastando-se do indiscreto, olhou em torno de si.

O acampamento, ainda há momentos animado pelo crepitar das fogueiras e das conversas ruidosas, serenara até onde a vista alcançava; as chamas vermelhas empalideciam e apagavam-se. A lua cheia estava agora lá no alto do firmamento inundado de luar, As florestas e os campos, até então invisíveis para além do acampamento, avultavam ao longe. E para além dessas florestas , desses campos, a distancia infinita iluminada pelo luar parecia mover-se e chamá-lo para si. Ergueu os olhos para o céu, para as profundezas onde se perdiam as estrelas cintilando. «E tudo isto me pertence, tudo isto está em mim e tudo isto sou eu!», exclamou. «E a tudo isto deitaram eles a mão e tudo isto enceraram numa barraca de madeira!» Sorriu e foi deitar-se junto dos companheiros.

 

[XV]

Nos primeiros dias de Outubro. Kutuzov voltara ainda a receber uma carta de Napoleão, com propostas de paz, que lhe fora confiada por um parlamentário, carta falsamente datada de Moscovo, pois o imperador já se encontrava para além do exército russo, na velha estrada de Kaluga. Kutuzov repetiu o que respondera à primeira que lhe fora apresentada por Lauriston: que não queria ouvir falar em paz.

Pouco tempo depois, o destacamento de guerrilheiros comandado por Dolokov, que operava à esquerda de Tarutino, comunicou que haviam desaparecido tropas francesas em Fominskoie, e que, essas tropas eram formadas pela divisão Broussier, a qual, isolada do resto do exército, facilmente podia ser dizimada. Soldados e oficiais exigiam, gritando, que os deixassem combater. Os generais do estado-maior, encorajados pela vitória fácil de Tarutino, insistiam com o generalíssimo para que a proposta de Dolokov fosse aceite. Kutuzov continuava a considerar inoportuna qualquer actividade. Foi então resolvido tomar uma medida intermédia: enviou-se um pequeno destacamento a Fominskoie com o propósito de atacar Broussier.

Por um estranho acaso, esta missão — a mais difícil e a mais importante de todas, como depois se verificou — foi confiada a Dokturov, esse pequeno e modesto Dokturov, que ninguém concebia a gizar planos de batalha, e lançar-se à frente dos seus regimentos, ou a espalhar cruzes às mãos-cheias peias baterias, esse homem que tinha fama de indeciso, e que, no entanto, em todas as operações contra os Franceses, de Austerlitz até 1813, estivera sempre na posição de comando onde a situação era mais difícil. Em Austerlitz fora o último a abandonar o dique de Augezd, reunindo os regimentos, salvando o que podia, quando todos debandavam ou tinham sido mortos e mais nenhum general havia na linha de fogo, Enfermo e cheio de febre, acorreu a Smolensk com vinte mil homens para defender a cidade contra o exército de Napoleão. Em Smolensk, num grande acesso febril, passa pelo sono na Porta de Malakov. O tiroteio desperta-o e a cidade aguenta-se todo o dia, Em Borodino, depois que Bagration foi morto e os Russos perderam, na sua ala esquerda, um por cada nove soldados, e quando toda a artilharia francesa despejava metralha sobre eles. é ainda este indeciso e imprevidente Dokturov quem vai substituir um general mal escolhido numa infeliz decisão de Kutuzov. E apresenta-se este miúdo, este modestíssimo Dokturov, e Borodino transforma-se numa das mais brilhantes glórias russas. No entanto, embora sejam muitos os heróis celebrados em prosa e verso, de Dokturov ninguém fala.

Foi ainda Dokturov o general enviado a Fominskoie e daí a Malii Iaroslavets, local em que se travou a última verdadeira batalha contra os Franceses, e onde, de facto, verdadeiramente, principiou a derrocada dos exércitos napoleónicos. E, embora sejam muitos os génios e os heróis glorificados desta campanha, de Dokturov ou não se fala ou apenas se lhe dedicam algumas palavras de elogio equívoco. O silêncio à volta deste homem é a mais evidente prova dos seus méritos.

É natural que um homem que não conhece o funcionamento de uma máquina atribua grande importância ao cisco que por acaso se introduziu nas suas engrenagens e a não deixa funcionar. Sem conhecer a sua construção, esse homem não pode compreender que o órgão essencial da máquina é a pequena roda que gira sem ruído.

No dia 10 de Outubro, dia em que Dokturov, tendo percorrido metade do caminho para atingir Fominskoie, se deteve na povoação de Aristovo, onde se dispunha a executar com toda a exactidão a ordem recebida, o exército francês, que, impelido por um movimento compulsivo, chegara até junto da posição ocupada por Murat para aí travar batalha, segundo parece, imediatamente e sem motivo algum virou para a esquerda, pela estrada nova de, Kaluga, e penetrou em Fominskoie, onde até essa data só se encontrava Broussier. Naquele momento. Dokturov apenas tinha sob o seu comando o destacamento de Dolokov e dois outros, menos importantes, o de Figner e o de Sesslavine.

Na noite de 11 de Outubro, Sesslavine chegou a Aristovo e apresentou-se na sede do comando com um soldado francês da Guarda que acabava de ser feito prisioneiro. Este disse que as tropas que nesse mesmo dia tinham entrado em Fominskoie constituíam a guarda-avançada de todo o exército, que Napoleão se encontrava junto delas e que havia quatro dias que tinham deixado Moscovo. Nessa mesma noite, um criado-servo que chegava de Borovska, contou que vira um importante corpo de exército penetrar na cidade. Cossacos do destacamento de Dolokov confirmaram que a guarda francesa marchava pela estrada de Borovska. De harmonia com todas estas informações, tornou-se evidente que naquele ponto, onde esperavam encontrar apenas uma divisão, se achava todo o exército francês, que deixara Moscovo, e o qual seguia direcção imprevista, a velha estrada de Kaluga. Dokturov, hesitante, não sabia que decisão tomar, pois não via agora com clareza o que tinha a fazer. Recebera ordem para atacar Fominskoie. Mas aí, onde anteriormente apenas se encontrava Broussier, estava agora todo o exército francês. Ermolov teria desejado agir a seu talante, mas Dokturov insistiu na necessidade de se recorrer à decisão do Sereníssimo. E foi resolvido enviar-se um relatório ao estado-maior.

Para essa missão escolheu-se Bolkovitinov, um oficial inteligente, o qual, além do relatório escrito, devia prestar completas explicações orais, A meia-noite, Bolkovitinov, depois de ter recebido o relatório e as respectivas ordens verbais, partiu a galope ao encontro do estado-maior, seguido de um cossaco e de cavalos de muda.

 

[XVI]

A noite de Outono estava escura e quente. Há três dias que chovia, Depois de mudar duas vezes de cavalos e de ter percorrido trinta verstas em hora e meia, por uma estrada lamacenta e escorregadia, Bolkovitinov chegou a Letachovka às duas da madrugada. Apeando-se diante de uma isbá em cuja porta havia um letreiro com a inscrição «Estado— Maior», penetrou no vestíbulo escuro.

— É urgente, o general de serviço! Extremamente urgente! — disse ele a um homem que se perfilou, sobressaltado, no meio das trevas.

— Está muito doente desde ontem, ha duas noites que não dorme — deu-se pressa em responder um impedido baixando a voz. — É melhor acordar primeiro o capitão.

— É muito importante. Da parte do general Dokturov — insistiu Bolkovitinov, entrando, às apalpadelas — pela porta dentro.

O impedido adiantou-se-lhe e fez menção de acordar alguém que estava a dormir.

— Excelência, Excelência, um correio.

— Hem? Quê? Da parte de quem? — inquiriu uma voz ensonada.

— Da parte de Dokturov, Alexis Petrovitch. Napoleão está em Fominskoie -— disse Bolkovitinov, que, na obscuridade, não conseguia ver a pessoa que falara, reconhecendo, no entanto, pela voz, que não era Konovnitsine.

O homem pôs-se a bocejar e a espreguiçar-se.

— Não estou com vontade de o acordar — disse ele, tacteando nas trevas. — Está muito doente e naturalmente isso são boatos.

— Aqui tem o relatório — volveu Bolkovitinov — Tenho ordem de o entregar imediatamente ao general de serviço.

— Espere, vou acender a luz. Onde a meteste, malvado? — disse para o impedido o militar que acordara e, era Chtcherbinine, o ajudante-de-campo de Konovnitsine. — Ah! Aqui está ela, aqui está ela.

O impedido riscou a pederneira enquanto o oficial procurava vela tacteando no escuro.

— Ah, malandros! — exclamou, arreliado.

A claridade das chispas, Bolkovitinov reconheceu a cara moça de Chtcherbinine, que tinha uma vela na mão, e a um canto, na sua frente, viu alguém que dormia. Era Konovnitsine.

Quando a chama da isca, primeiro azul, se tornou vermelha, Chtcherbinine acendeu a vela de sebo. As baratas que a devoravam fugiram e ele pôs-se a examinar o mensageiro. Bolkovitinov, coberto de lama, ao tentar enxugar-se com a manga da farda, mascarrou a cara.

— E quem prestou estas informações? — perguntou Chtcherbinine, pegando no sobrescrito.

— As informações são de confiança — replicou o correio. Prisioneiros, cossacos, espiões, são unânimes a dizer o mesmo.

— Não há outro remédio, tenho de o acordar — murmurou Chtcherbinine, erguendo-se e aproximando-se do homem que ressonava com a cabeça metida num barrete de dormir e o capote por cima. — Piotre Petrovitch! — chamou ele, Konovnitsine não se mexeu. — Ao estado-maior! — acrescentou, sorrindo, certo de que estas palavras chegariam para o acordar.

Com efeito, a cabeça com o barrete de dormir soergueu-se imediatamente. O belo e enérgico rosto de Konovnitsine, afogueado pela febre, permaneceu ainda por momentos numa espécie de entressonho, muito longe, por certo, da realidade. Depois teve um sobressalto e recuperou a sua expressão habitual cheia de serenidade e firmeza.

— De que se tratai? Da parte de quem? — perguntou imediatamente, mas sem grandes pressas, piscando os olhos em frente da luz da vela.

Enquanto ouvia o relatório oral do emissário abriu o sobrescrito e percorrer a mensagem com os olhos. Assim que terminou a leitura, pousou no sobrado os pés, onde enfiara meias de lã, e pôs-se a calçar as botas, Em seguida tirou o barrete de dormir, alisou o cabelo nas fontes e pôs a barretina.

— Vieste depressa! Vamos ao Sereníssinio.

Konovnitsine compreendera imediatamente a extrema importância das notícias trazidas pelo correio e, que não havia tempo a perder. Não sabia nem se perguntava a si mesmo se as notícias eram boas ou mas. Não pensava nisso nem estava disposto a interrogar-se sobre o assunto. Não o interessava. A guerra, para ele, não era nem questão de inteligência nem de raciocínio. Era qualquer coisa de muito diferente. Tinha a convicção profunda, e nunca expressa de que, evidentemente, tudo acabaria bem, mas que era preciso não acreditar em tal e muito menos não manifestar essa opinião. Havia apenas que cumprir a tarefa. E essa tarefa cumpria-a ele consagrando-lhe roda a sua energia.

Piotre Petrovitch Konovinitsine, assim como Dokturov, parece não terem sido incluídos na lista dos heróis de 1812 — os Barclay, os Raievski, os Ermolov, os Platov e os Miloradovitch — apenas por uma questão de pura formalidade. Tal como a de Dokturov, a sua reputação era a de um homem de min escassas capacidades, conhecimentos e, assim como o seu émulo, também ele nunca gizara planos de campanha, embora sempre viesse a encontrar-se nos pontos em que a situação era mais grave. Desde que fora nomeado general de serviço que dormia de porta aberta e dava ordens para que o chamassem à chegada de qualquer correio, Era sempre o primeiro na linha de fogo Kutuzov repreendia-o por tanto se expor, e hesitava mesmo em dar-lhe ordens. Eis porque, como Dokturov, era uma dessas engrenagens invisíveis que sem fazer qualquer ruído constituem um dos órgãos essenciais de qualquer máquina.

Ao ver-se exposto à humidade da escura noite, assim que saiu da isbá, Konovnitsine sentiu-se mal, eram muito fortes as suas dores de cabeça e a barafunda que aquelas notícias iam causar na esfera das graúdas engrenagens do estado-maior, principalmente em Bennigsen, que desde Tarutino andava a ferro e fogo com Kutuzov, impressionava— o. Que propostas surgiriam? E as discussões que ia haver! As mudanças! Era penosa a impressão que lhe causava pensar nisso, tanto mais quanto considerava inevitável o que ia acontecer.

E, com efeito, Toll, a cujos aposentos se dirigiu para dar-lhe parte do ocorrido, pôs-se imediatamente a expor as suas ideias ao general seu companheiro de casa, e Konovnitsine, que o ouvia sem dizer palavra, com um ar cansado, viu-se obrigado a lembrar-lhe a conveniência de apresentarem o caso ao Sereníssimo.

[XVII]

Kutuzov, como todos os velhos, pouco dormia de noite. De dia acontecia-lhe muitas vezes cabecear com sono; de noite estendia-se na cama sem se despir, e geralmente pensava, não dormia.

Era o que sucedia naquele momento. Estava estendido na cama, com a grande e pesada máscara, toda sulcada de cicatrizes, absorta em pensamentos e o único olho muito aberto na escuridão.

Desde que Bennigsen, que mantinha correspondência directa com o imperador e era preponderante no estado-maior, evitava Kutuzov, este sentia-se mais tranquilo, pois ninguém apertava com ele para lançar as tropas em aventurosas ofensivas.

A lição de Tarutino e do que se passara na véspera da batalha, lembrança que ainda o impressionava desagradavelmente, devia tê-los feito reflectir.

«Devem compreender que só temos a perder tomando a iniciativa de atacar», pensava, «A paciência e o tempo, eis os meus dois grandes heróis!» Estava certo de que se não devia arrancar a maçã da árvore enquanto ela estivesse verde. Quando amadurecer cairá por si; apanhar a maçã verde é estragar a fruta e a árvore. E a única coisa que podemos ganhar é os dentes botos. Caçador experimentado que era, estava seguro de que a fera fora atingida e ferida, sem dúvida, depois de sentir o peso do poderio russo. Se a ferida era mortal ou não, isso ainda o não sabia. Naquele momento, depois das diligências de Lauriston e de Berthier e das informações colhidas pelos guerrilheiros, estava quase certo de que seria mortal. Mas era preciso obter provas irrefutáveis esperar ainda,

«Estão sempre com vontade de ir ver se mataram a presa. Esperem, terão tempo de ver mais tarde», dizia ele de si para consigo. «Manobras e mais manobras, ataques e mais ataques. Para quê? Para se distinguirem! Como se fosse coisa muito agradável travar uma batalha! Parecem crianças. Não são capazes de contar como as coisas se passaram. O que eles querem é mostrar que se bateram bem. Mas não é disso que se trata neste momento.

«E que manobras são essas que eles me estão sempre a propor? Lá porque imaginaram dois ou três casos», acrescentou, pensando no general que lhe mandaram de Petersburgo, «julgara ter previsto todos os que podem surgir. As contingências são infinitas!»

Havia já um mês que Kutuzov perguntava a si mesmo ansiosamente se o ferimento de Borodino seria ou não mortal. É certo que os Franceses estavam na posse de Moscovo. Mas, por outro lado, sentia, com todas as fibras da sua alma, que o golpe terrível que lhe vibrara com todas as tropas russas tinha de ser mortal. Em todo o caso precisava de provas e havia um mês que as esperava. E quanto mais o tempo ia passando mais impaciente parecia.

Estendido na cama durante as longas insónias, fazia exacta— mente o mesmo que todos os seus jovens generais, aquilo mesmo por que os repreendia, Tal como eles, imaginava todos os casos possíveis. Só com uma diferença: que nada edificava sobre tais hipóteses e que não formulava apenas duas ou três, mas milhares. Quanto mais pensava maior era o número de circunstâncias que via. Representava-se a si mesmo toda a espécie de movimentos do grosso do exército napoleónico, em direcção a Petersburgo ou apenas de uma das suas partes, avançando sobre ele, graças a um envolvimento, E pensava, e era o que mais temia, na hipótese de Napoleão empregar para com ele as mesmas armas de que ele próprio se utilizava: no caso de ele ficar em Moscovo aguardando-o. Admitia mesmo que os Franceses fizessem um movimento de recuo sobre Medine e Iuknev, E, no entanto, a única coisa que não pudera prever fora precisamente o que veio a dar-se, a saber, esse vaivém de Napoleão, insensato, quase convulsivo, durante os onze dias após a evacuação de Moscovo, vaivém que tornou possível uma coisa em que Kutuzov não ousava ainda pensar: a destruição completa do exército francês. A informação de Dokturov sobre a divisão Broussier, as comunicações dos guerrilheiros sobre a desorientação que se sentia no exército napoleónico, o que constara acerca dos pormenores da partida de Moscovo, tudo confirmava a hipótese de que as tropas inimigas estavam perdidas e se dispunham a bater em retirada. No entanto, tudo isto eram suposições, talvez convincentes aos olhos de todos os jovens que o rodeavam, mas não aos seus. Com os seus sessenta anos de experiência, sabia a importância que devia atribuir-se aos boatos. E também sabia que quando se deseja muito qualquer coisa, pode uma pessoa acabar por preparar as notícias de sorte a que elas confirmem o que se deseja, tendo o cuidado de guardar silêncio sobre tudo que contradiga o que se pretende. Por isso, quanto mais desejava que fosse essa a solução, menos se permitia a si próprio acreditar nela. O problema do estado do exército francês absorvia todas as suas faculdades intelectuais: o mais, para ele, era acessório, o trem habitual da vida. Entre as suas ocupações quotidianas figuravam as conversas com o estado-maior, a correspondência com Madame de Staël, que punha em dia desde Tarutino, a leitura de romances, a distribuição de recompensas, as cartas que enviava para Petersburgo e outras coisas semelhantes, Porém, o seu único e mais ardente desejo era a derrota dos Franceses, derrota que ele, aliás, e só ele, previa.

Na noite de 11 de Outubro Kutuzov ali estava, pois, com a cabeça entre as mãos, absorto em seus pensamentos.

Um ruído se ouviu tio quarto contíguo: era Toll, Konovnitsine e Bolkovitinov que chegavam.

— Quem está aí? Entre, entrem. Que há de novo? — interrogou ele.

Enquanto o criado acendia uma vela, Toll pô-lo ao corrente das notícias acabadas de chegar.

— Quem as trouxe? — perguntou o generalíssimo com tinia expressão tão severa e fria que Toll se sentiu impressionado quando lhe pode ver o rosto.

— Bolkovitivov, Excelência. Não pode haver dúvidas.

— Diga-lhe que entre, que entre!

Kutuzov, sentado na cairia com uma das pernas pendentes, deixava descair a volumosa barriga sobre a outra perna encolhida. Piscando o único olho para melhor ver o emissário, procurava ler-lhe no rosto o que absorvia.

— Conta, vamos, conta meu amigo. — disse ele a Bolkovitinov, na sua tranquila voz de ancião, apertando contra o peito a camisa entreaberta. — Vem cá, aproxima-te. Que notícias me, trazes tu? Hem! Napoleão abandonou Moscovo? É verdade? Hem?

Bolkovitinov pôs-se primeiro a expor-lhe em pormenor as instruções orais que recebera.

— Fala, fala depressa, não me atormentes — interrompeu— o Kutuzov.

O emissário, ao acabar a sua comunicação, calou-se, aguardando ordens. Toll tentou dizer fosse o que fosse, mas o general-chefe interrompeu-o com um gesto. Quis pronunciar qualquer coisa, mas o rosto contraiu-se-lhe de súbito; virou-se para o outro lado, para o recanto da isbá onde estavam os ícones.

— Senhor, criador nosso! Ouviste a nossa oração... — exclamou em voz trémula, juntando as mãos.— A Rússia está salva! Obrigado, meu Deus! — E rompeu a chorar.

[XVIII]

A partir daquele momento e até ao fim da campanha, Kutuzov não teve outro objectivo senão o de impedir pela autoridade, pela astúcia ou pela súplica que as suas tropas se metessem em ofensivas ou executassem manobras que conduzissem a recontros estéreis com o inimigo, cuja perda desde esse momento era certa. É verdade que Dokturov se dirige para Maloiaroslavets, mas Kutuzov não se dá pressa em fazer que todas as tropas o sigam e ordena a evacuação de Kaluga, retirada que lhe parece perfeitamente possível.

Kutuzov recua por toda a parte, mas o inimigo, sem esperar que ele recue, foge em direcção oposta.

Os historiadores de Napoleão descrevem todas estas hábeis manobras em direcção a Tarutino e Maloiaroslavets e fazem prognósticos sobre o que teria acontecido se o imperador tivesse podido penetrar nas ricas províncias do Sul.

Mas a verdade é que, além de ninguém o impedir de penetrar nessas províncias, uma vez que o exército russo lhe abria o caminho para elas, esses historiadores esquecem-se de que nada podia já então salvar o exército napoleónico, visto ele transportar consigo inevitáveis germes de morte. Esse exército, que encontrara em Moscovo abundantes abastecimentos, e que, em vez de os conservar, os desperdiçara por completo, esse exército, que ao chegar a Smolensk, em lugar de repartir os mantimentos entre os seus homens, deixara que os pilhassem, estaria esse exército em condições de recuperar forças na província de Kaluga, cujos habitantes sentiam e pensavam como os de Moscovo e tinham, como eles, o fogo à sua disposição?

Tal exército irão tinha maneira de se refazer fosse onde, fosse. Depois de Borodino e do saque de Moscovo, havia nele elementos de decomposição por assim dizer químicos,

Os soldados deste, por assim dizer, ex-exército fugiam com os seus comandantes sem saber para onde, não desejando — tanto Napoleão como qualquer dos seus soldados — senão uma coisa: sair, pessoalmente, o mais breve possível, daquela situação sem apelo, de que todos se davam conta, embora confusamente.

Eis porque, em Maloiaroslavets, onde os generais, simulando um conselho de guerra, emitiram vários pareceres, o ultimo, o do cândido soldado que era Mouton, exprimindo o que estava no pensamento de todos, que o que havia a fazer era abalarem o mais depressa possível, tapou a boca a toda a gente e ninguém, nem o próprio Napoleão, ousou objectar fosse o que fosse a essa indiscutível verdade.

No entanto, por mais que reconhecessem que era preciso partir, tinham vergonha ainda de confessar a necessidade da fuga. Era preciso um impulso exterior para vencer essa relutância humana. E esse impulso veio a produzir-se no momento necessário. Foi o que os Franceses chamaram o «hurra do imperador».

No dia seguinte, após este conselho de guerra, Napoleão, de madrugada, com o pretexto de inspeccionar as tropas e o campo das batalhas passadas e futuras, aventurou-se com a sua escolta até às primeiras linhas. Alguns cossacos que andavam na pilhagem surpreenderam o imperador e por pouco não lhe deitaram a mão. Se desta vez o não apanharam, salvou-o, precisamente, o que fora a causa da derrota dos Franceses: o saque, que naquele caso, como antes, em Tarutino, levou os cossacos a não pensarem noutra coisa. Sem repararem em Napoleão, entregaram-se à pilhagem, e assim o imperador pode escapar-se-lhe das mãos.

Desde que os rapazes do Dom tinham a possibilidade de o apanhar no meio do seu próprio exército, era evidente não haver outra coisa a fazer senão fugir o mais depressa possível pela estrada mais curta. Napoleão, com os seus quarenta anos e a sua barriguinha, já se não sentia com a elasticidade e a audácia de outrora, e compreendeu a advertência. O medo que os cossacos lhe provocaram levou-o a aceitar imediatamente o parecer de Mouton. E deu ordem de retirar, assim o dizem os seus historiadores, pela estrada de Smolensk.

O facto de Bonaparte se ter mostrado de acordo com Moutou e a circunstância de o seu exército ter batido em retirada não provam de maneira alguma que a decisão haja partido dele, mas apenas que as forças ocultas, agindo sobre os seus homens, e impelindo-os a tomar a estrada de Mojaisk, também agiam sobre Napoleão.

[XIX]

Quando um homem se move, o seu movimento tem sempre uma finalidade. Para percorrer mil verstas é preciso, necessariamente, que o homem se figure que ao cabo dessas mil verstas há qualquer coisa de muito agradável à sua espera. Para se resolver a marchar tem de apetecer a terra prometida.

A terra prometida, para os Franceses, no momento em que invadiam a Rússia era Moscovo; na altura da retirada a terra prometida era a pátria. Mas a pátria estava muito longe, e o homem com mil verstas a percorrer tem, necessariamente, de principiar por se dizer a si próprio que fará hoje quarenta verstas, ao cabo das quais poderá descansar, dormir e olvidar o termo da jornada. O primeiro descanso fá-lo esquecer a meta a atingir e todos os seus desejos e todas as suas esperanças aí se concentram. E o que se verifica com o indivíduo isolado em mais alto grau se observa quando se trata da multidão.

Para os Franceses em retirada pela antiga estrada de Smolensk, a pátria estava ainda muito longe e por isso o termo mais próximo a que aspiravam todas as suas energias, mais ardentes ainda por se tratar de um exército inteiro, era Smolensk. Não que eles soubessem existir nessa cidade grandes reservas de mantimentos ou esperassem aí encontrar tropas francesas — ninguém lhes dissera uma coisa dessas, e não só os oficiais superiores como o próprio Napoleão sabiam perfeitamente serem escassos o mantimentos aí existentes. No entanto, essa perspectiva dava-lhes coragem para caminhar e para suportar as privações bem reais. E tanto os que sabiam como os que não sabiam, atraídos elo engodo, se precipitaram em, direcção a Smolensk como se caminhassem para uma terra da promissão.

Assim que atingiram a estrada real, os Franceses, com uma energia extraordinária, uma rapidez incrível, deram-se pressa de alcançar o fim almejado. Além das razões já apontadas, nova causa os compelia para diante em massa compacta: o seu grande número. Esta enorme massa, graças à própria lei da atracção, dos corpos, chamava a si os átomos individuais. Avançava num bloco de cem mil homens como se fosse um Estado inteiro em marcha.

Cada um de per si apenas desejava uma coisa: cair prisioneiro. Era a maneira de se livrar de todos aqueles horrores e de todo aquele sofrimento. Em primeiro lugar, no entanto, a força que os compelia para Smolensk arrastava-os a todos numa única e mesma direcção. E mais: não podia um corpo de exército inteiro entregar-se a uma simples companhia e conquanto os soldados aproveitassem todas as oportunidades para se separarem uns dos outros e se servissem do mais pequeno pretexto para se entregarem, as ocasiões eram raras. A circunstância de serem muitos e a rapidez da marcha que levavam tiravam-lhes a possibilidade de o conseguirem e tornava-se difícil, e por assim dizer impossível para os Russos, deter um movimento em que punham toda a sua energia. O desgarramento interior deste corpo não podia acelerar além de uma certa medida o processo de decomposição que o ameaçava.

É impossível derreter instantaneamente uma bola de neve. Tem de decorrer um certo lapso de tempo antes que o calor o consiga, por maior que seja. Pelo contrário, quanto maior é o calor mais a neve endurece.

Eis o que nenhum dos chefes russos compreendera, à excepção de Kutuzov. Desde que se teve a certeza de qual a direcção que tomara o exército francês em fuga pela estrada de Smolensk, principiou a realizar-se o que Konovnitsine previra na noite de 11 de Outubro. Os altos postos não pensaram noutra coisa senão em distinguir-se, cortando a retirada aos Franceses, cercando-os, fazendo-os prisioneiros, aniquilando-os: todos, à compita, exigiam lima ofensiva.

Kutuzov era o único a empregar todas as suas forças — e as forças do comandante-chefe são por vezes escassas em casos destes — para se opor aos desígnios dos altos postos.

Não lhe era possível argumentar com eles como agora pode argumentar-se. Para quê uma batalha? Para quê cortar-lhes as estradas, perder homens, chacinar desumanamente tantos desgraçados? Para quê tudo isto, quando é certo que entre Moscovo e Viazma a terça parte deste exército se derreteu sem uma única batalha em forma? Na sua sageza de velho apenas lhes dizia o que lhes era possível, a eles, compreenderem, falando-lhes na «ponte de ouro» (Kutuzov dissera para o inglês que acompanhava as operações como representante dos Aliados que preferia construir uma «ponte de ouro» par),; Franceses passarem que sacrificar os seus homens. (N. dos T.). E eles zombavam do velho, caluniavam-no, mostrando a sua bravura no lombo da fera morta.

Em Viazma, Ermolov, Miloradovitch. Platov, ao verem-se perto dos Franceses, não puderam refrear os seus ímpetos e aniquilaram dois corpos de exército inimigos. Para informarem Kutuzov da sua intenção enviaram ao Sereníssimo, dentro de um sobrescrito. à guisa de relatório, uma folha de papel em branco.

E, apesar dos esforços do general-chefe para os reter, os soldados russos atacaram no intuito de tolher o passo aos Franceses. Segundo se disse, regimentos de infantaria marcharam para a linha de fogo com bandas e tambores à frente, perdendo e matando milhares de homens. Mas quanto a tolherem-lhes o passo, não tolheram coisa alguma nem aniquilaram ninguém. E o exército francês, mais coeso graças ao perigo, prosseguiu na sua caminhada fatal em direcção a Smolensk, esgotando-se pouco a pouco.