Guerra e Paz
Segunda Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
E não só nada disto fez, mas serviu-se de todo o seu poder para escolher, de entre todas as medidas a tomar, a mais absurda e a mais nefasta; de tudo o que podia fazer — hibernar em Moscovo, marchar sobre Petersburgo ou sobre Nijni-Novgorod, ou retroceder, quer pelo norte, quer pelo sul, pela estrada que depois seguiu Kutuzov—, escolheu a mais absurda e mais perigosa: ficar em Moscovo até Outubro, deixando que os seus soldados saqueassem a cidade, e em seguida hesitar entre manter uma guarnição na capital, sair dela ao azar, aproximar-se de Kutuzov, não decidir travar batalha, passar pela direita, alcançar MaloIaroslavets sem correr o risco de um recontro; o não tomar a estrada que seguira Kutuzov, mas regressar a Mojaisk pela estrada escalavrada de Smolensk. Nada se pode imaginar de mais insensato nem de mais nefasto, como ficou amplamente provado pelas consequências. Admitindo que Napoleão tivesse como objectivo perder o seu exército, teria sido difícil aos mais hábeis estrategos imaginar plano de operações mais eficaz para a destruição completa desse exército, e isso independentemente de tudo quanto o próprio exército russo pudesse ter feito nesse sentido!
E no entanto foi isto mesmo que o genial Napoleão acabou por fazer. E, apesar de tudo, afirmar que este perdeu o seu exército porque quis ou porque não passava de um tolo seria tão errado como dizer que ele levara as suas tropas até Moscovo por ter sido esse o seu desejo e porque era uma inteligência e um génio. Quer num quer no outro caso, a sua acção pessoal, não mais influente que a do mais insignificante dos seus soldados, limitou-se a conformar-se com as leis que presidiam ao acontecimento.
Estão em erro os historiadores que nos apresentam Napoleão intelectualmente deprimido em Moscovo, simplesmente porque os resultados não justificam a sua acção. Nesse momento, como antes e depois, em 1813, Napoleão serviu-se de toda a sua força moral para agir o melhor possível no interesse próprio e no interesse do seu próprio exército. Então a sua actividade não foi menos surpreendente do que a que empregou no Egipto, na Itália, na Áustria e na Prússia. A verdade é que não sabemos com precisão até que ponto se revelou o seu génio no Egipto, onde quarenta séculos contemplaram a sua grandeza, visto os seus feitos nos terem sido relatados por franceses. É-nos impossível apreciar no seu justo valor o génio por ele demonstrado na Áustria e na Prússia, pois a verdade é que não podemos conhecer os seus actos senão através de fontes francesas e alemãs, e os Alemães não podem explicar a capitulação sem combate do seu corpo de exército e capitulação sem cercos em forma das suas fortalezas desde que não recorram ao reconhecimento do génio que Bonaparte exibiu na guerra da Alemanha. No que diz respeito aos Russos, esses, graças a Deus, não têm qualquer razão para se inclinarem perante essas qualidades excepcionais no intuito de esconderem a sua vergonha. Os Russos pagaram caro de mais o direito de julgar os seus actos com justeza e sem disfarces e não estão dispostos a abandonar o diieito que lhes assiste.
A actividade de Napoleão em Moscovo foi tão espantosa e tão inspirada pelo génio como em qualquer outra parte. Ordens e planos não cessaram de lhe emanar da cabeça desde que entrou em Moscovo até, que partiu da capital russa. Não o impressionam nem a ausência dos habitantes nem das deputações, como o não impressiona o próprio incêndio da cidade. Não perde de vista nem o bem-estar do seu exército nem os movimentos do inimigo, tão-pouco esquece o bem-estar das populacões russas, a administração dos negócios públicos de Paris e as considerações diplornáticas relativas às condições de paz.
[IX]
No ponto de vista militar, Napoleão, assim que entrou em Moscovo, deu ordens severas ao general Sebastiani para que seguisse exactamente os movimentos do exército russo e enviasse corpos de tropas em várias direcções, tendo prescrito a Murar que descobrisse o paradeiro de Kutuzov. Em seguida torna medidas severas para fortificar o Kremlin e estabelece um plano adinírável para a sua futura campanha na Rússia.
No ponto de vista diplomático convoca o capitão Iakovlev, irruinado e andrajoso, que não sabia como sair de Moscovo, para lhe expor detalhadamente a sua política, e a sua magnanimidade, e entrega-lhe uma carta para o imperador Alexandre, onde se, sente no dever de o pôr ao corrente do comportamento censurável de Rostoptchine, ordenando-lhe que a leve a Petersburgo. E expõe igualmente os seus magnânimos projectos a Tutolmina e manda também este ancião a Petersburgo como parlamentário.
No que diz respeito a assuntos judiciais, após os incêndios ordena que se procurem e punam os culpados. E o malfeitor do Rostoptchine é castigado, ordenando-se que lhe deitem fogo às próprias casas.
Em matéria administrativa, oferece a Moscovo uma constituição. Cria-se uma municipalidade e afixa-se a seguinte proelamação:
Habitantes de Moscovo!
São grandes as vossas desgraças, mas Sua Majestade o
Imperador e Rei quer pôr termo aos vossos sofrimentos. Terríveis exemplos vos mostraram já a maneira como ele castiga a desobediência e o crime. Severas medidas foram tomadas para acabar com as desordens e dar lugar a que se restabeleça a segurança de todos os indivíduos, Unta administração paternal, composta de homens escolhidos de entre vós, formará a vossa municipalidade. O corpo administrativo chamará a si cuidar de vós, das vossas necessidades, dos vossos interesses. Os membros desta municipalidade distinguir-se-ão por urra faixa vermelha a tiracolo.
O governador civil, além da faixa, tera uma cinta branca.
Fora das horas de serviço, porém, os membros da municipalidade apenas usarão hraçadeira vermelha no braço esquerdo. A polícia municipal é instituída de acordo com o antigo regulamento, e graças à vigilãneia por ela exercida a ordem na cidade já é outra. O Governo nomeou dois comissários-gerais, ou police-meister, e vinte comissários, ou tchastni pristavs, para todos os bairros da cidade. Conhecem-se pela braçadeira branca no braço esquerdo. Várias igrejas afectas a cultos diversos estão abertas e as solenidades religiosas realizam-se sem obstáculos. Os vossos concidadãos estão todos os dias a regressar aos seus lares e deram-se ínstruções para que lhes seja prestada ajuda e protecção, como é devido a quem sofre. Eis os meios pelos quais o Governo espera restabelecer a ordem e minorar as vossas privações. Mas para se chegar a este objectivo é preciso que junteis os vossos esforços aos desta gente, que esqueceis, e for possível, os sofrimentos por que acabais de passar, que tenhais esperanças num futuro menos cruel, que estejais convencidos de que a morte inevitável e infamante pesará sobre todos aqueles que atentem contra a vossa vida
ou contra a vossa propriedade, e sobretudo que não tenhais dúvidas de que os vossos bens serão respeitados, que tal é o desejo do maior e do mais justo de todos os monarcas, Soldados e habitantes, seja qual for a vossa nacionalidade! Restabelecei a confiança pública, essa fonte de felicidade de todos os governos, vivei em paz, ajudai-vos e protegei-vos uns aos outros, uni-vos para combater as tentativas dos criminosos; obedecei às autoridades militares e municipais e não tarda que deixem de correr lágrimas dos vossos olhos.
No que dizia respeito a subsistências, Napoleão ordenou às tropas que viessem à vez a Moscovo. à rapina, para assim arranjarem alimentos para que o exército pudesse fazer face ao futuro. No que tocava à religião, deu ordeni de trazerem os popes e de recomeçarem nas igrejas as cerimónias religiosas.
Mandou afixar por toda a parte a seguinte proclamação, relativa às transacções comerciais e ao fornecimento de subsis— tências ao exército:
Pacíficos habitantes de Moscovo, homens de artes e
ofícios que as desgraças afastaram da cidade, e também vós outros agricultores dispersos, escondidos pelos campos, aterrorizados sem qualquer fundamento, ouvi! A calma res — tabeleceu-se na capital e a ordem reina por toda a parte. Os vossos compatriotas abandonam sem medo os seus refúgios, pois sabem que serão respeitados. Qualquer acto de violência exercido contra eles ou em prejuízo dos seus bens é punido acto contínuo. Sua Majestade o Imperador e Rei protege-vos e só considera inimigos aqueles que de entre vós desobedecerem às suas ordens. É seu desejo pôr fim às vossas infelicidades e restituir-vos a vossos lares e a vossas famílias. Correspondei às suas benévolas medidas voltando a casa sem temor algum. Habitantes! Artesãos e trabalhadores laboriosos! Retomai as vossas actividades: os vossos lares, as vossas tendas, protegidas por patrulhas, esperam-vos, e o vosso trabalho
será recompensado. E vós, camponeses, abandonai as florestas onde vos refugiastes levados pelo medo, regressai às vossas isbás, certos de que vos saberemos proteger. Criaram-se nas cidades grandes armazéns onde os camponeses podenz colocar os produtos da lavoura que excedam as suas necessidades. Para garantir a livre circulação destes produtos, o Governo tomou as seguintes medidas: 1º De hoje em diante os camponeses, lavradores e demais habitantes dos arrabaldes de Moscovo, sem qualquer risco, podem trazer à capital os seus produtos e colocá-los em dois dos armazéns montados para esse fim, um na Rua Mokovaia e outro no Mercado Okotni. 2º Estes produtos serão adquiridos ao preço que se convencione entre o vendedor e o comprador; porém se aquele que vende não encontrar quem lhe pague preço justo tem o direito de tornar a levar a sua mercadoria, sem que ninguém o possa impedir. 3º Em vista disto, semanalmente, aos domingos e quartas-feiras, haverá feiras, e para esse efeito aos sábados e terças-feiras serão destacadas tropas em número sujiciente para protegerem os comboios ao longo de todas as estradas, até certa distância da capital. 4º Iguais medidas se adoptaram para proteger o regresso dos camponeses às suas aldeias. 5º Procurar-se-d restabelecer no prazo mais breve possível os mercados ordinários. Habitantes da cidade e das aldeias, e vós, artesãos, operários, qualquer que seja a vossa nacionalidade! Apelamos para vós, rogando-vos que vos conformeis com as paternais instruções de Sua Majestade o Imperador e Rei e que o ajudeis a contribuir para o bem-estar comum. Depositai a seus pés o respeito e a confiança e não vos demoreis a juntar-vos connosco!
No intuito de elevar o moral das tropas e do povo, havia frequentes paradas e distribuíam-se condecorações. O imperador percorria as ruas a cavalo, consolando os habitantes, e apesar das muitas preocupações que lhe causavam os negócios públicos aparecia nos espectáculos organizados segundo inspiração sua.
No que diz respeito a beneficência, a melhor virtude dos soberanos, Napoleão fez também tudo que dependia dele. Deu ordem para que se inscrevesse no frontão dos estabelecimentos de beneficênci,—: Casa de minha mãe, maneira de associar, assim, o terno afecto filial à magnanimidade do monarca. Visita o asilo das crianças abandonadas, dá a beijar a sua branca mão aos órfãos que salvou e conversa c ondescendentem ente com Tutolmine. Enfim, segundo o eloquente relato de Thiers, manda pagar o soldo dos seus soldados com o dinheiro russo por ele falsificada. «Relevando o emprego dos seus recursos por um acto digno de si e do exército francès, mandou distribuir socorros aos sinistrados. Mas como os víveres eram demasiado preciosos para serem dados a estrangeiros, a maior parte dos quais inimigos, Napoleão preferiu distribuir-lhes dinheiro para que eles se abastecessem fora da cidade, e mandou distríbuir-lhes rublos-papel.»
Enfim, no, desejo de manter a disciplina do exército, constantemente expede ordens severas para que sejam punidas as infracções ao regulamento e o saque.
[X]
Mas, coisa estranha, todas estas medidas, todas estas ordens e todos estes planos, em nada piores que os tomados em circunstâncias idênticas, não afectavam a essência da questão, como acontece aos ponteiros de um quadrante que, quando desligados do maquinismo, giram arbitrariamente e sem objectivo, alheios às engrenagens que os accionam.
No ponto de vista militar, este genial plano de campanha, a respeito do qual Thiers disse «que o seu génio nunca imaginara nada de mais profundo, de mais hábil e de mais admirável», e a propósito do qual., na sua polémica com M. Fain, se empenha em demonstrar ter sido redigido não a 4, mas a, 15 de Outubro, este plano nunca foi nem nunca poderia ter sido executado, pois a verdade é que em coisa alguma se aplicava às eircunstãneias de momento. A fortificação do KrernIin, que implicava a, demolição de a Mesquita, que assim chamava Napoleão à igreja de Basílio, o Bem— Aventurado, provou ser absolutamente inútil. As minas cavadas no subsolo do Kremlin apenas serviram para ajudar o imperador a por em prática o seu projecto de o fazer ir pelos ares aquando da sua partida de Moscovo, no mesmo espírito com que uma pessoa fustiga o soalho que fez cair uma criança.
A perseguição do exército russo, que tanto o preocupou, proporcionou aos observadores um espectáculo extraordinário. Os generais franceses perderam a pista de sessenta mil russos, e, segundo Thiers, só graças à habilidade, e talvez mesmo ao génio de Murat, foi possível encontrá-los, como se se tratasse de um simples alfinete perdido,
Na actividade diplomática, os argumentos que Napoleão desenrolou para demonstrar a sua generosidade e o seu espírito de justiça diante de Tutolmina e de IakovIev, o qual, entre parêntesis se diga, se preocupava sobretudo em arranjar um bom capote e uma carruagem, resultaram também inúteis, Alexandre I não recebeu esses embaixadores e não respondeu às cartas de que eram portadores. E no que diz respeito às suas medidas judiciárias? Apesar de ter sido executado grande número de falsos incendiários, o que restava de Moscovo acabou por arder.
E quanto às suas medidas administrativas? A constituição de uma municipalidade não só não deteve o saque, como só foi útil às pessoas que dela fizeram parte, as quais, a pretexto de manterem a ordem, se entregaram à pilhagem ou apenas se de— ram ao cuidado de proteger o que era seu contra a pilhagem alheia.
No que toca a matéria religiosa, as medidas postas em prática no Egipto, como as visitas às mesquitas, que aí deram tão bons resultados, em Moscovo não produziram efeito algum. Os dois ou três padres que estavam em Moscovo procuraram pôr em execução a vontade imperial, mas um deles foi esbofeteado por certo soldado francês durante o serviço divino e acerca de outro escreveu um funcionário de Napoleão o que se segue: «O padre que eu descobrira, e a quem convidara a celebrar missa, limpou e fechou a igreja. Nessa noite vieram de novo arrombar as portas, partir os cadeados, rasgar os livros e praticar outras desordens.»
No que se refere a assuntos comerciais, a proclamação aos artesãos e camponeses não encontrou o mais pequeno eco. Já não havia «trabalhadores laboriosos»: e, quanto aos camponeses, esses deitaram a mão aos comissários portadores das proclamações que se aventuraram longe de mais e mataram-nos.
Tão-pouco deram resultado os espectáculos destinados a divertír o público e as tropas. Os teatros organizados no Kremlin e em casa de Posniakov foram imediatamente fechados, pois actores e actrizes viram-se despojados de tudo quanto tinham.
Também a beneficência foi estéril. Moscovo viu-se inundada de papel-moeda, quer falso quer verdadeiro, que logo perdeu todo o seu valor, Os Franceses, só preocupados em encher as algibeiras, apenas queriam ouro. Não só carecia de valor a moeda falsa que Napoleão distribuía tão generosamente pelos desgraçados, como as próprias moedas de prata se trocavam por moedas de ouro muito abaixo do seu valor.
Mas o exemplo mais impressionante da ineficácia das medidas tornadas nas altas esferas revelou-se na inutilidade dos esforços do imperador para deter a pilhagem e restabelecei, a disciplina.
Eis aqui informações das autoridades militares:
«O saque continua na cidade, apesar das ordens dadas para que cessasse. A ordem, por enquanto, não está restabelecida e ainda não lia um único comerciante que pratique comércio legal. Apenas os cantineiros se arriscam a vender, mas objectos proveiiientes do saque.»
«A parte do meu bairro continua a ser saqueada pelos soldados do 3º corpo, os quais, não se contentando em arrancar aos desgraçados refugiados nos subterrúncos o pouco que lhes resta, se mostram tão ferozes que os ferem à sabrada, como eu próprio Pude observar.»
«Nada de novo, além de que os soldados continuam a roubar e a saquear, 9 de Outubro.»
«O roubo e o saque continuam. Há um bando de ladrões no nosso bairro que é preciso mandar prender por uma força poderosa. 11 de Outubro.»
«O imperador está muito descontente com o facto de, apesar das ordens severas dadas para se acabar com a pilhagem, só ver chegar ao Kremlini destacamentos de merodistas da guarda. Na velha guarda renovaram-se ontem e hoje com mais intensidade do que nunca os actos de pilhagem. O imperador tem o desgosto de verificar que soldados de escol, destinados a defender a sua própria segurança, e que deviam dar exemplo de acatar as ordens, levam tão longe a desobediência que saqueiam os próprios armazén’s e as lojas preparadas expressamente para o exército. Alguns tão baixo desceram que já não obedecem às sentinelas, antes as injuriam e as abatem a tiro.»
«O grande marechal do palácio queixa-se», escrevia o governador, «de que, apesar das reiteradas proibições, os soldados continuam a fazer as suas necessidades em todos os pátios e até mesmo debaixo das janelas do imperador.»
O exército francês, como um rebanho que pisasse aos pés o pasto destinado a salvá-lo da fome, dispersava-se e perecia, pouco a pouco, mercê daquela longa permanência em Moscovo. E a verdade é que se não movia.
Não se moveu até ao dia em que de súbito o assaltou um medo pânico, e isso veio a dar-se quando os soldados souberam que haviam sido capturados comboios na estrada de Smolensk e que se dera a batalha de Tarutino. A notícia desta batalha, inopinadamente levada ao conhecimento de Napoleão durante uma parada militar, despertou no imperador o desejo de castigar os Russos, como refere Thiers, e foi então que deu a ordem de marcha reclamada pelo exército inteiro.
Ao abalarem de Moscovo, os soldados levavam consigo tudo quanto tinham podido apanhar. O próprio Napoleão fugia com o seu tesouro. Perante os pesados carregamentos que o exército levava, segundo diz Thiers, Napoleão ganhou medo. Mas, com a sua experiência da guerra, não mandou queimar todas as bagagens supérfluas, como fizera com as carroças de um dos seus marechais, ao aproximar-se de Moscovo. Ao ver essas seges e essas carruagens apinhadas de soldados, achou que estavam bem e que esses carros podenam vir a ser utilizados mais tarde para transportar abastecimentos, doentes e feridos.
A situação do exército francês fazia lembrar a de uma fera atingida que sabe próximo o seu fim e já não atina com o que deve fazer. Estudar as hábeis manobras e os planos de campanha de Napoleão e do seu exército desde a entrada em Moscovo até à destruição deste é como estudar os pinchos e as convulsões de um animal ferido de morte. Acontece muitas vezes que esse animal, assustado Por um ruído qualquer, se atira para debaixo da espingarda do caçador, corre direito a ele, volta para trás, precipitando deste modo o seu próprio fim. Eis o que fez Napoleão sob a pressão do seu exército. A notícia da batalha de Tarutino encheu de medo o animal, que se atirou para debaixo da espingarda, chegou até junto do caçador, voltou para trás e, por fim, como sempre acontece, se precipitou no caminho mais desvantajoso e mais perigoso, pois os seus trilhos já lhe eram conhecidos.
Tal como aos olhos dos selvagens a figura esculpida à proa do barco se lhes afigura a força que o faz mover, Napoleão, que nos é apresentado como o dirigente de todo este movimento, na realidade, durante todo este período da sua vida, foi apenas a criança que, agarrada às correias do interior de um carro, julga estar a dirigi-lo.
[XI]
No dia 6 de Outubro, de manhã muito cedo, Pedro saiu da sua barraca, e, ao regressar a ela, deteve-se no limiar da porta a brincar com um cachorrito pardacento de pernas curtas e tortas que pulava à sua volta. Este animalzinho vivia na barraca e dormia com Karataiev. As vezes ousava sair à rua, mas voltava sempre para casa. A ninguém pertencia, naquele momento não era de quem quer que fosse e não dava por nome algum. Os Franceses chamavam-lhe Açor; um soldado apreciador de histórias, Femgalka; Karataiev e os outros, Sierii e às vezes Vislii (Nomes vulgarmente dados aos cães na Rússia (N. dos T.).
O pobre animal parecia não se preocupar com o facto de não ter dono, nem nome, nem raça bem definida, nem cor muito distinta. Trazia a empenachada cauda bem alçada, e as suas patitas tortas cumpriam tão bem ou tão mal a sua função que, por vezes, esquecendo-se de usar das quatro pernas, soerguia uma das da retaguarda, graciosamente, e nas outras três trotava agilmente. Para ele tudo era motivo de alegria: ora se esfregava no chão de barriga para o ar, ora se aquecia ao sol com modos pensativos e importantes, ou ainda brincava com um pedaço de Pau ou um bocado de palha.
Pedro, vestido com uma camisa suja esfarrapada, tudo quanto lhe restava dos seus antigos atavios, trazia pantalona de soldado amarradas nos artelhos, para andar mais quente, como o aconselhara Karataiev, um cafetã e um gorro de camponês. Mudara muito fisicamente. Não parecia tão gordo, embora mantivesse a mesma corpulência e a mesma força natural. Grande barba e farto bigode lhe revestiam os lábios e o mente. Por debaixo do gorro saíam-lhe umas farripas muito crescidas e emaranhadas inçadas de piolhos. Tinha no olhar Lima expressão decidida, serena e resoluta como nunca. O relaxamento que outrora se lhe lia nos olhos desaparecera para dar lugar a uma decisão e a uma energia prontas a agir e a lutar. Andava descalço.
Pedro ora mirava os campos, onde nessa manhã passavam comboios de carros e gente a cavalo, ora estendia a vista para além do rio, um pouco mais para longe, ora ainda punha os olhos no cachorrito que fingia mordê-lo, quando não rios seus próprios pés descalços, que se entretinha a mudar de posição, remexendo os sujos dedos polegares. De cada vez que fitava os pés descalços perpassava-lhe pelos lábios um sorriso de alegria e satisfação. Esse espectáculo trazia-lhe a mente tudo quanto sofrera o também o muito que aprendera nos últimos tempos e era-lhe agradável lembrar-se de tudo isso.
O tempo ultimamente estava calmo e límpido, apenas pela manhã havia ligeiras geadas brancas: era, então, o Estio das mulheres.
Ao ar livre, enquanto havia sol, estava quente, e este calor, após o fresco estimulante das geadas matinais, não deixava, de ter os seus encantos.
Todos os objectos, próximos ou distantes, pareciam mergulhar nessa claridade feérica e cristalina como só há nessa época do Outono. Na distância divisavam-se os montes Vorobi, com a sua povoação, a sua igreja e uma casa branca. E as árvores despidas, a areia, as pedras, os telhados, o cata-vento verde da igreja, os cunhais da casa branca, lá longe, tudo isto, com uma nitidez quase irreal, se desenhava em finíssimos cor)tornos atrás da atmosfera diáfana. Num plano mais perto perfilavam-se as ruínas dessa casa senhorial, meio lambida pelo fogo, ocupada pelos Franceses, com os canteiros de lilases que adornavam o jardim ainda vestidos da sua sombria verdura. E até dessa casa meio arruinada e suja, cuja fealdade era hostil em dias sombrios, agora, iluminada por essa luz imóvel e viva, emanava uma espécie de apaziguadora beleza.
Um cabo francês, que, para estar à vontade, desabotoara o dólman, de gorro de polícia e cachimbo nos dentes, saiu de um dos ângulos do abarracamento e, com uma amistosa piscadela de olhos, aproximou-se de Pedro.
— Que sol, hem?, Monsieur Kiril, — assim lhe chamavam todos os franceses. — Parece que estamos na Primavera.
Encostando-se à ombreira da porta, ofereceu-lhe uma cachimbada, coisa que Pedro sempre recusava.
— Se tivéssemos um tempo destes para caminhar — principiou ele.
Pedro perguntou-lhe o que havia sobre a próxima partida, e por ele soube que quase todas as tropas iam deixar Moscovo e que naquele mesmo dia deveria sair uma ordem determinando o destino dos prisioneiros. Na barraca de Pedro havia um soldado. Sokolov de, nome, que estava na agonia, e Pedro chamou a atenção do cabo para, a necessidade de se tomarem quaisquer medidas acerca dele. Foi-lhe respondido que podia estar sossegado, que existiam ambulâncias e hospitais permanentes, que os doentes seriam tratados e que aliás as autoridades já tinham sido prevenidas.
— E depois, Monsieur Kiril, basta que diga uma palavrinha ao capitão, bem sabe. Oh!, é um b.... que nunca se esquece de nada. Diga ao capitão, quando ele vier fazer a ronda, fará tudo por si...
Esse capitão tinha às vezes longas conversas com Pedro e mostrava por ele certa parcialidade.
— Estás a ver, Saint-Thomas, o que ele me dizia no outro dia: Kiril é, um homem instruído, que fala francês; é um fidalgo russo, que teve pouca sorte, mas e um homem. E ele lá se entende, o b... Se ele quer alguma coisa, que mo diga, não se lhe recusa nada. Quando uma pessoa tem estudos, gosta da instrução e das pessoas decentes. É por si que eu digo isto, Monsieur Kiril. No caso do outro dia, se não fosse o senhor, aquilo acabava mal.
Depois de dar à língua ainda algum tempo, foi-se o cabo.
O caso do «outro dia» a que ele se referira dizia respeito a uma altercação entre prisioneiros e franceses que Pedro conseguira harmonizar. Alguns dos presos que tinham ouvido a conversa entre o compatriota e o cabo francês perguntaram-lhe de que haviam falado. Como Pedro lhes dissesse que se falava numa próxima partida, um soldado francês, magro, amarelento e esfarrapado, aproximou-se deles. Enquanto levava dois dedos à pala da barretina, num gesto rápido e algo acanhado, à guisa de continência, perguntou-lhe se o soldado Platoche, a quem confiara a camisa para remendar, não estaria por ali.
Na semana anterior, os Franceses tinham recebido pano e cabedal para botas e haviam confiado aos prisioneiros o seu calçado e as suas camisas para remendar.
— Está pronta, está pronta, meu falcãozito — exclamou Karataiev, que aparecera à porta com a camisa dobrada,
Por causa do calor, e para estar mais à vontade, Karataiev estava apenas em ceroulas e vestia uma camisola negra como um tição. À maneira dos artesãos, amarrara os cabelos com pedaços de cânhamo, e a sua cara redonda ainda parecia mais redonda agradável do que habitualmente.
— Contratos são contratos. Se eu disse que estava pronta sexta-feira, está pronta sexta-feira — rematou Platão, sorrindo enquanto desdobrava a camisa.
O francês olhou inquieto à sua roda e, dominando a indecisão que o tomava, despiu rapidamente o uniforme e enfiou a camisa. Sobre o desnudo corpo delgado e amarelento trazia, a servir de camisa, um folgado colete de seda floreado, muito sebento, que mal lhe cobria a pele. Receando, sem dúvida, que os prisioneiros se rissem dele, deu-se pressa em meter a cabeça pelo decote da camisa. Mas ninguém disse fosse o que fosse.
— Fica-te bem — observou Platão, puxando-lhe pela camisa. Quando conseguiu meter a cabeça e os braços dentro da camisa, o francês, sem erguer os olhos, pôs-se a examinar as costuras.
— Que queres tu, falcãozito, isto aqui não é uma oficina de costura, faltam-me as ferramentas necessárias. É bem verdade o que se costuma dizer: sem ter com quê, nem a pulga um homem pode matar. — E todo ele, toda a redondeza da sua cara, era riso, satisfeitíssimo com o seu trabalho.
— Está bem, está bem, obrigado; mas tu deves ter pano de sobra — disse o francês.
— E ainda te ficará melhor depois de se te ajeitar ao corpo — comentou Karataiev, que continuava a admirar a sua obra. — Vais-te sentir bem e à vontade.
— Obrigado, obrigado, meu velho, o resto... — voltou o francês, sorrindo e metendo uma nota na mão de Karataiev. — Mas o resto...
Pedro percebeu que Platão não tinha grande empenho em compreender o que dizia o seu cliente, e olhava para ambos sem abrir a boca. Karataiev agradecia o que lhe davam e continuava a admirar a sua obra. O francês teimava em que ele lhe desse o resto do pano, e acabou por pedir a Pedro que lhe servisse de intérprete.
— E para que quer ele as sobras? — perguntou Karataiev. — Para nós podiam servir para fazermos umas ricas polainas para as pernas. Mas já que ele as quer...
E, de súbito, numa expressão triste, tirou de dentro da camisa um embrulhito com umas sobras de pano e entregou-lho sem olhar para ele.
— Que pena! — exclamou, voltando-lhe as costas. O francês pôs-se a examinar os bocados de pano, pareceu indeciso, interrogou Pedro com os olhos e como se este lhe tivesse dito alguma coisa:
— Platoche, ouve lá, Platoche — gritou, corando. — Guarda-as para ti. — E, estendendo-lhe o embrulho com as sobras do pano, deu meia volta e afastou-se.
— É como vês — comentou Karataiev, abanando a cabeça. — Dizem que não são cristãos. Mas sempre têm alma. Os velhos têm razão. Mão suada é dadivosa, mão enxuta é avara. Está nu e assim mesmo dá-me as sobras.
Karataiev ficou pensativo, calado, de olhos fitos nos bocados de pano.
— É o que te digo, amigo, vou fazer daqui umas ricas polainas — comentou, voltando a entrar na barraca.
[XII]
Quatro semanas tinham decorrido desde que Pedro caíra prisioneiro. Embora os Franceses o tivessem querido transferir da barraca dos soldados para a dos oficiais, continuara sempre naquela onde o tinham metido no primeiro dia.
Em Moscovo, arruinada e incendiada, Pedro chegara quase ao limite extremo das privações que um homem pode suportar, porém a sua forte constituição e a sua saúde até então nunca experimentadas, e sobretudo o facto de essas privações se terem verificado pouco a pouco, fizeram que ele as suportasse não só com facilidade, mas até com alegria. Precisamente naquela altura atingia ele aquela serenidade e aquela satisfação de si próprio a que debalde aspirara outrora. Por muito tempo, no decorrer da sua vida, procurara, de vários modos e em várias direcções, aquela tranquilidade, aquele acordo consigo próprio, que tão profundamente o impressionara nos soldados durante a batalha de Borodino. Procurara-os na filantropia, na franco-maçonaria, nas distracções da vida mundana, no vinho, na heróica abnegação, no romanesco amor por Natacha; procurara-os pelas vias do puro pensamento e sempre e em toda a parte só encontrara decepções. Mas agora, espontaneamente, sem pensar nisso, ei-lo que achara essa serenidade nos horrores passados diante da morte, nas privações, aceitando e compreendendo a alma de Karataiev.
Os horríveis momentos que vivera durante a execução dos incendiários pareciam ter-lhe varrido para sempre do espírito e da memória os pensamentos e os sentimentos que o inquietavam até então e que tão importantes se lhe afiguravam. Já não pensava na Rússia, nem na guerra, nem na política, nem em Napoleão. Era evidente que nada disso lhe dizia respeito, que lhe não pertencia apreciar essas coisas e mesmo que o quisesse não podia. «A Rússia e o Verão não se casarão», costumava dizer, repetindo certo dito de Karataiev, e estas palavras tão simples davam-lhe uma serenidade estranha. Agora encarava como incompreensível e até ridículo o seu projecto de matar Bonaparte e bem assim as suas lucubrações à volta do algarismo cabalístico e da Besta do Apocalipse. A ira que a mulher lhe despertara e o receio de que o seu nome tivesse sido desonrado pareciam-lhe agora não só coisas vãs mas até ridículas.
Que lhe importava a ele que essa mulher levasse a vida que queria? Que lhe importava a ele principalmente que soubessem ou não que aquele prisioneiro era o conde Bezukov?
Pensava muitas vezes na conversa que tivera com o príncipe André e dava-lhe inteira razão, embora lhe interpretasse o pensamento de maneira um pouco diferente. O príncipe André pensava e dizia que a felicidade apenas tinha carácter negativo, e isto não sem que o dissesse e pensasse com um misto de amargura e ironia. Pensando assim, parecia querer dizer que todas as aspirações do homem à felicidade positiva lhe não tinham sido dadas senão para o atormentar, insatisfeitas que sempre eram. Sem qualquer pensamento reservado, Pedro adoptara esta maneira de pensar. A ausência da dor, a satisfação de todas as necessidades, e, como consequência, a liberdade da escolha das suas próprias ocupações, isto é, do género de vida que mais lhe quadrava, afiguravam-se-lhe, a Pedro, incontestavelmente, o ideal da felicidade humana. Mas agora compreendera pela primeira vez o prazer de comer quando se tem fome, de beber quando se tem sede, de dormir quando se tem sono, de se aquecer quando se tem frio, de falar quando apetece ouvir uma voz humana. A satisfação das necessidades, uma boa alimentação, o asseio, a liberdade, agora, que estava privado de tudo isso, apareciam-lhe como o supra-sumo da felicidade, e a liberdade da escolha das suas ocupações, isto é., a própria vida, agora, que tão limitada lhe estava essa escolha, parecia-lhe coisa tão fácil que esquecia que o próprio excesso das comodidades da existência destrói toda a felicidade que resulta da satisfação das necessidades e que uma perfeita liberdade de acção, essa liberdade que lhe proporcionara a instrução, a fortuna, a posição na sociedade, torna a escolha das ocupações excessivamente difícil e por isso mesmo destrói a necessidade e o desejo de acção.
Todos os pensamentos de Pedro se reportavam agora ao momento em que o restituíssem à liberdade. E, no entanto, depois, e até ao fim dos seus dias, alegremente recordaria aquele mês de prisão e com entusiasmo falaria das fortes e inapagáveis alegrias que experimentara então e sobretudo da serenidade moral perfeita, da completa liberdade interior que só nessa quadra da sua existência profundamente conhecera.
No primeiro dia de cativeiro, quando, depois de se levantar muito cedo, viu, ao sair da barraca, as cúpulas e as cruzes sombrias do Mosteiro Novodievitchii, o orvalho gelado sobre a erva poeirenta, os cumes dos montes Vorobi e as orlas cobertas de arvoredo do no que serpeava perdendo-se na distância violácea; quando sentiu a brisa fresca soprar-lhe na cara e ouviu o grasnido das gralhas que debandavam de Moscovo através dos campos, quando, de súbito, a luz surgiu do Oriente, o Sol se ergueu, solene, por cima das nuvens, e as cúpulas, as cruzes, o orvalho, a distância, o rio, tudo resplandeceu no meio dessa alegre claridade, uma felicidade nova, uma alegria nunca experimentada o tomou, enchendo-o de desconhecido júbilo.
Este sentimento nunca o abandonara enquanto estivera prisioneiro. Pelo contrário, fora crescendo à medida que se agravavam as dificuldades da sua situação.
Nesta disposição de espírito e na aceitação de tudo que lhe acontecia e ainda no revigoramento das suas forças morais muito o ajudou a elevada opinião que dele tiveram sempre os seus companheiros de cativeiro desde que chegara ali. O saber vários idiomas, o respeito que lhe testemunhavam os Franceses, a sua simplicidade, a maneira que tinha de dar tudo quanto lhe pediam, particularmente os três rublos que semanalmente recebia como pré de oficial, a sua robustez física, que maravilhara os soldados ao verem-no enterrar com as mãos alguns cravos na parede da barraca, a sua humildade no trato com os camaradas, as suas maneiras, para eles incompreensíveis, ao quedar-se horas imóvel e sem fazer nada, cismando, tudo isto junto lhe dera, aos olhos deles, ares de criatura misteriosa. Estas qualidades, que até ali, na sociedade em que vivera, apenas lhe tinham sido prejudiciais e embaraçosas, a sua força, o seu desprezo pelas comodidades da vida, o seu ar distraído, a sua simplicidade, ali, entre aquela gente, quase faziam dele um herói. E Pedro sentia que esta opinião a seu respeito lhe criava obrigações.
[XIII]
Durante a noite de 6 para 7 de Outubro começou a retirada dos Franceses. Demoliram-se as cozinhas e as barracas, carregaram-se as galeras, e soldados e bagagens puseram-se em marcha.
As sete da manhã um pelotão de franceses com uniforme de campanha, barretinas, arma ao ombro, mochila às costas e grandes bornais a abarrotar, alinhou diante dos abarracamentos e foi um nunca acabar de gritos e graçolas ao longo das fileiras.
No interior das barracas todos estavam a postos, vestidos, calçados, aguardando ordem de marcha. Só Sokolov, o soldado doente, pálido e magro, não estava nem equipado nem calçado, Sentado no seu canto, os olhos fora das órbitas, de grandes olheiras, castigado pelo sofrimento, interrogava em silêncio os seus companheiros indiferentes, gemendo de vez em quando. O que lhe ditava aquela queixa era menos a desinteria que o prostrava que o terror e a tristeza que lhe causavam a ideia de ficar só para ali.
Pedro, com umas botifarras que Karataiev lhe fizera de um pedaço de couro que um francês lhe trouxera para ele lhe pôr meias solas numas botas, à cinta uma corda que lhe cingia os rins, aproximou-se do enfermo e agachou-se junto dele.
— Escuta, Sokolov, eles não se vão embora de vez. Têm aqui um hospital. Naturalmente ainda vais ficar melhor do que nós — disse-lhe ele.
— Ai, meu Deus! Vou morrer! Ai, meu Deus! — gemia o desgraçado.
— Eu vou falar com eles — animou-o Pedro, dirigindo-se para a porta da barraca.
Nesse momento vinha entrando, acompanhado de dois soldados, o cabo que na véspera oferecera uma cachimbada a Pedro. Todos envergavam uniforme de campanha, com barretinas e bornais e o francalete por debaixo do queixo, o que lhes dava outro aspecto.
O cabo recebera ordem para conservar a porta fechada. Antes da partida, tinha de proceder à chamada dos prisioneiros.
— Cabo, que vais tu fazer do doente?... — perguntou Pedro.
E enquanto isto lhe dizia. Pedro perguntava a si próprio se realmente estaria falando com o cabo seu conhecido ou com outro homem, pois a verdade é que não parecia o mesmo.
O cabo, ao ouvir as palavras de Pedro, franziu o sobrolho e fechou a porta ruidosamente, soltando uma grosseria. A barraca ficou imersa numa semi-obscuridade. O rufar de tambores que de repente se ouviu dos dois lados da barraca abafava as queixas do doente.
«Ah! Aí está outra vez... », pensou Pedro, e um calafrio lhe percorreu a espinha. Voltara a encontrar na fisionomia transfigurada do cabo, no tom da sua voz, no rufar ensurdecedor dos tambores que tocavam a reunir, aquela força misteriosa e impassível que levava os homens a matarem-se uns aos outros mesmo sem quererem, essa força cujos efeitos vira aquando das execuções. Ter medo, procurar evitar esta força, suplicar ou admoestar aqueles que se lhe rendiam, era absolutamente inútil. Eis o que Pedro compreendia agora.
Era preciso esperar e ter paciência. Não voltou ao pé do doente e não lhe disse qualquer outra palavra de consolo. Ali ficou, de pé, junto da porta da barraca, mudo, as sobrancelhas franzidas.
Quando as portas voltaram a abrir-se e os prisioneiros, como um rebanho de carneiros, empurrando-se uns aos outros, se amontoaram à saída, Pedro abriu caminho pelo meio deles e avançou até junto do capitão que, no dizer do cabo, estava disposto a tudo fazer por ele. Também este capitão envergava fardamento de campanha e no seu frio rosto reflectia-se essa mesma coisa terrível traduzida nas palavras do cabo e no rufar dos tambores.
— Toca a andar, toca a andar! — gritava ele, olhando severamente os prisioneiros que se comprimiam uns contra os outros na sua frente.
Pedro, embora certo de que seria inútil o que ia tentar, aproximou-se dele.
— Então, que é que há? — exclamou o oficial, relanceando-lhe um frio olhar, como se o não conhecesse.
Pedro lembrou-lhe o doente.
— Que diabo, ele pode caminhar! — replicou o capitão, e sem olhar para Pedro: — Toca a andar, toca a andar! — prosseguiu.
— Não pode, está a morrer — insistiu Pedro.
— Fazem favor!... — gritou o capitão iracundo.
Tan, rataplã, continuavam os tambores. E Pedro compreendeu que aqueles homens estavam completamente dominados pelo poder da força misteriosa que ele sentia ali presente e que era inútil dizer fosse o que fosse.
Separaram os soldados dos oficiais prisioneiros e, deram-lhes ordem de marchar na vanguarda. Com Pedro, eram trinta — os soldados eram trezentos.
Pedro não conhecia os oficiais das outras barracas, que se apresentavam muito melhor. Olharam, desconfiados e hostis, Para ele e para as botas que tinha nos pés.
Bastante perto dele marchava um gordo major, que parecia respeitado por todos os demais: vestia um roupão tártaro de Kazan, cingido por uma toalha, a sua cara, opada e amarelenta, tinha qualquer coisa de iracundo. Uma das mãos, que segurava a bolsa do tabaco, apoiava-se na abertura da camisa e a no chibuque (Cachimbo turco (N. dos T.) . Resfolegando e soprando, resmoneava, zangado com toda a gente, dizendo que o empurravam, que todos estavam com pressa sem razão alguma, que não havia motivo para surpresas. Outro, pequenino e magricela, ia interrogando toda a gente, perguntando para onde os levavam o que percurso teriam de fazer naquele dia. Um funcionário, de uniforme de comissário e botas de feltro, corria daqui para ali, observando Moscovo e fazendo comentários em volta sobre este e aquele bairro ainda fumegantes. Outro ainda, um polaco, a avaliar pelo sotaque, discutia com o funcionário, pretendendo mostrar-lhe que se enganava a respeito dos bairros que ia designando.