Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 14 de 18 · parte 2/3

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Guerra e Paz

Terceira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O oficial que Denissov expedira veio ao seu encontro, no meio do caminho, com a notícia de que Dolokov ia chegar de um momento para o outro e que da sua parte tudo caminhava bem.

De súbito Denissov recuperou a, sua boa disposição e, chamando Pétia, pôs-se a conversar com ele:

— Vamos, conta-me o que tens feito.

 

[VII]

Pétia, ao sair de Moscovo e depois de se ter separado dos pais, juntara-se ao seu regimento, sendo daí a pouco colocado como oficial de ordenança de um general que comandava um importante destacamento. Desde que fora promovido a oficial, e sobretudo desde que ingressara no exército activo, tomando parte na batalha de Viazma, estava sempre num estado de espírito alegre e excitado, pois se sentia um homem e não queria perder a ocasião de se comportar como herói. Tudo quanto vira e experimentara no exército o encantava, embora tivesse a impressão de que onde ele não estava é que se praticavam os mais belos actos de bravura. Assim vivia no desejo de estar onde não estava.

No dia 21 de Outubro, quando o general falou em designar alguém para delegado junto do destacamento de Denissov, tais foram os pedidos que ele lhe fez que este lhe não pôde recusar autorização de partir. Lembrando-se, porém, da loucura que Pétia cometera em Viazma, pois, em vez de seguir por onde o tinham mandado, se pusera a galopar para as linhas inimigas debaixo do fogo dos Franceses, disparando a pistola, proibiu-o, formal— mente, de tomar parte fosse em que operação fosse sob o comando de Denissov. Eis porque Pétia corara e se sentira embaraçado quando Denissov lhe perguntou se podia ficar junto dele. Antes de chegar à orla da floresta, dissera de si para consigo que ia voltar imediatamente, mas assim que viu os Franceses e Tikon e que soube que nessa mesma noite, naturalmente, haveria um ataque, graças a mobilidade de ideias a que os jovens são sujeitos, resolveu que o seu general, a quem até ai respeitara, não valia grande coisa, pois era alemão, e que Denissov, esse, era um herói e que o capitão de cossacos também e que Tikon ia pelo mesmo caminho, e que seria uma vergonha abandoná-los naquela difícil emergência.

Já era noite quando os três chegaram à casa do guarda. Na semi-obscuridade lobrigavam-se cavalos selados, cossacos, hússares, que armavam tendas na clareira ou acendiam fogueiras no fundo de um barranco para que os Franceses não vissem fumo. No vestíbulo da pequena isbá, um cossaco, de mangas arregaçadas, trinchava um cordeiro e, na sala viam-se três oficiais do destacamento de Denissov que preparavam uma mesa servindo-se de uma porta. Para se enxugar, Pétia despiu o uniforme molhado e pôs-se imediatamente a ajudar os oficiais a dispor a mesa para a ceia. Passados dez minutos, estava pronta a mesa com a sua toalha e os seus guardanapos. Havia vodka, um frasquito de rum, pão branco, sal e cordeiro assado.

Abancado à mesa na companhia dos oficiais, Pétia partia à mão o cordeiro suculento e oloroso, cuja gordura lhe escorria pelos dedos, expandindo-se numa ternura infantil por toda a gente, certo de que todos sentiam o mesmo por ele.

— Que acha, Vassili Fedorovitch? — perguntou a Denissov. — Acha que não faz mal que eu aqui fique até amanhã? — E, sem esperar resposta, ele próprio respondeu: — Sim, deram-me ordens para me informar, e é o que estou a fazer... Mas só lhes peço uma coisa, que me deixem ir ao ponto principal... Não preciso de recompensas... Mas gostaria...

De dentes cerrados, lançou um olhar cheio de altivez à sua roda, erguendo a cabeça e fazendo um gesto ameaçador.

— Sim, onde a batalha for mais acesa — confirmou Denissov, sorrindo.

— Sim, por favor, dêem-me um comando qualquer, por mais insignificante que seja, que eu comande, pelo menos. Sim, que lhes custa? Ah! Quer a minha navalha? — continuou, dirigindo-se a um dos oficiais que se preparava para trinchar a carne. E puxou da navalha. O oficial achou-a muito bonita.

— Fique com ela, faça favor. Tenho muitas iguais... — disse Pétia corando. — Ah! Santos Padres! Tinha-me esquecido completamente — exclamou, de súbito. — Tenho ali umas passas magníficas, sem grainhas, sabe. Temos um cantineiro novo. Que coisas óptimas ele tem! Comprei-lhe dez libras de passas. Estou habituado as guloseimas. Querem?... — E precipitou-se para o vestíbulo, à procura do seu cossaco, voltando daí a pouco com uma alcofa com umas cinco libras de passas. — Toca a comer, meus senhores, fazem favor de se servir. Não precisarão de uma cafeteira? — continuou, dirigindo-se ao capitão de cossacos — Comprei uma de primeira ordem ao meu cantineiro! Tem coisas tão bonitas! E é um homem sério. E isso é o mais importante. Vou mandar-vo-lo. Talvez as vossas pederneiras estejam gastas, isso acontece. Tenho algumas comigo. Ali, naquele saco, umas cem. Comprei-as baratíssimas. Façam favor, tirem as que quiserem, todas, se for preciso...

De súbito calou-se, muito enleado, corando, como se se perguntasse se não estaria dizendo muita tolice.

E relembrou tudo o que se passara horas atrás, procurando inteirar-se se não teria cometido outras tolices, A figura do tamborzito veio-lhe à memória. «Nós, aqui, que bem que estamos, mas ele, que será feito dele? Onde o teriam metido? Ter-lhe-iam dado de comer? Não lhe teriam feito mal?» Ao lembrar-se, porém, de que mentira a propósito das pederneiras, nada ousou perguntar a respeito dele.

«Se eu lhes perguntasse, seriam capazes de dizer que era um garoto a perguntar por outro garoto!», disse com os seus botões. «Mas amanhã eu lhes direi se sou um garoto! Que vergonha haveria em perguntar por ele? Ora, tanto faz!» E, de súbito, corando muito e olhando bem para os oficiais, como para ver se eles não troçariam dele, acrescentou:

— Dão-me licença que eu mande chamar o rapazito prisioneiro? Não lhe poderíamos dar qualquer coisa a comer?...

Claro, pobre pequeno — contraveio Denissov, que nada tinha a censurar à ideia do moço oficial. — Chama-o. Chama-se Vincent Bosse. Chama-o.

— Vou buscá-lo — disse Pétia.

— Muito bem, muito bem, vai, anda. Coitado do pequeno! — repetiu Denissov.

Pétia já ia a caminho da porta, porém voltou para trás, aproximou-se de novo dos oficiais e chegou-se a Denissov.

— Consinta que o beije, meu amigo — exclamou. — Ah! Assim, sim, como é bonito da sua parte!

E, depois de o beijar, saiu correndo.

— Bosse! Vincent! — gritou no limiar da porta.

— Quem chama, meu oficial? — respondeu uma voz na obscuridade.

Pétia explicou que chamava o rapazito que fora feito prisioneiro nesse dia.

— Ah! Vessionii! — exclamou o cossaco.

Os cossacos de Vincent já o tinham feito nada menos que Vessionii enquanto os camponeses e os soldados lhe chamavam Vissénia. Em qualquer dos casos, a alusão à «Primavera» assentava como uma luva, na juventude do tamborzito (Vesna quer dizer «a Primavera», vessionú «primaveril». (N. dos T)

.— Está a aquecer-se lá em baixo no acampamento. Eh! Vissénia! Vissénia! Vessionii! — gritavam vozes na obscuridade à mistura com a sua gargalhada. — Ah!, o garoto é manhoso! — exclamou um cossaco ao lado de Pétia. — Ainda agora lhe deram de comer, Aquilo é que era uma fome!

Ouviram-se passos nas trevas, pés descalços que chapinhavam na lama e o tambor apareceu à porta da isbá.

— Ah!, sois vós! — disse-lhe Pétia. — Quer comer? Não tenha medo, ninguém lhe faz mal. — E, timidamente, carinhosamente, pousou-lhe a mão no braço. — Entre, entre.

— Obrigado, senhor — murmurou o garoto, numa voz hesitante e quase infantil, limpando os pés cheios de lama no limiar da porta.

Pétia tinha vontade de lhe dizer muita coisa, mas não ousava. Ali, estava de pé, ao lado dele, no vestíbulo, sem saber o que havia de fazer. Por fim, pegou-lhe na mão e apertou-a entre as suas.

— Entre, entre — repetia, em voz baixa e com todo o carinho.

«Ah! Que poderei eu fazer por ele?», disse de si para consigo, ao abrir a porta e deixando que ele passasse adiante. Assim que o garoto entrou na sala, Pétia conservou-se afastado dele, pensando que naturalmente lhe não ficaria bem dar-lhe importância de mais. Limitou-se a apertar, na algibeira, o dinheiro que trazia consigo, pensando se não lhe ficaria mal passar-lho para as mãos.

 

[VIII]

Denissov mandou que dessem ao tamborzito vodka e um pedaço de cordeiro e que lhe vestissem um cafetã russo, para que ele se não confundisse com os demais prisioneiros, no intuito de o conservar no seu destacamento. Mas a atenção de Pétia em breve se desviou do pobre pequeno graças à chegada de Dolokov. Ouvira falar muito da extraordinária bravura deste homem e da sua crueldade para, com os Franceses. Assim que ele entrou, nunca mais Pétia o perdeu de vista, procurando assumir ares importantes, de cabeça muito erguida, para não parecer indigno da companhia, O aspecto exterior de Dolokov impressionou o jovem oficial pela sua extrema correcção.

Denissov envergava o tchekmene (Cafetã curto. (N. dos T.), usava a barba crescida e trazia ao peito uma imagem de Nicolau, o Taumaturgo. Tanto na sua maneira de falar como nos seus modos, procurava dar a entender que não pertencia ao exército regular. Pelo contrário, Dolokov, que outrora, em Moscovo, dava nas vistas com o seu trajo persa, apresentava-se agora como o mais elegante dos oficiais da Guarda. Escrupulosamente barbeado, vestia a túnica almofadada do seu regimento, com a cruz de S. Jorge na botoeira, e na cabeça trazia um gorro pequeno muito simples. Depois de despir o capote todo molhado, sem cumprimentar ninguém, aproximou-se de Denissov e imediatamente se pôs a falar do ataque. Este explicou-lhe quais as intenções dos grandes destacamentos quanto à captura do comboio, falou-lhe da missão de Pétia e da resposta que dera aos dois generais. Por fim, pô-lo ao corrente de tudo quanto sabia acerca do destacamento francês.

— Está bem, Mas é preciso saber que tropas são estas e de quantos homens dispõem — observou Dolokov. — É preciso ir ver. Não nos devemos meter nisto sem sabermos ao certo quantos homens temos pela frente, Gosto de fazer as coisas com limpeza. Não haverá aqui alguém, entre os senhores oficiais, que esteja disposto a acompanhar-me ao acampamento inimigo? Tenho um uniforme francês a mais.

— Eu, eu, eu acompanho-o! — exclamou Pétia,

— Não é, preciso — atalhou Denissov — E, quanto a ti, não te deixarei sair daqui por nada deste mundo.

— Que história é esta? — volveu Pétia — Porque não posso eu ir?

— Porque é inútil.

— Perdão, porque... porque... vou mesmo, e é que vou! Leva-me? — inquiriu, dirigindo-se a Dolokov.

— E porque não?... — replicou este, distraidamente, pois estava a observar o tambor francês — Há muito que tens contigo este garoto? — perguntou a Denissov.

— Aprisionaram-no hoje, mas nada sabe e resolvi conservá-lo ao pé de mim.

— Ah! E os outros, onde os guardas? — inquiriu Dolokov.

— Onde os guardo? Expeço-os contra recibo — volveu Denissov, muito corado. — E posso dizer que nenhuma morte me pesa na consciência. Pois não será mais simples evacuar trinta ou trezentos homens para a cidade, com uma boa escolta, a manchar a nossa honra de soldado?

— Ora aí está uma dessas gentilezas que ficariam bem na boca deste condezito de dezasseis anos — volveu Dolokov, com um frio sorriso. — Mas tu há muito que te devias ter deixado disso.

— Eu nada digo, insisto apenas em ir consigo.

— Quanto a nós, amigo, já é tempo de pormos de lado todas estas lindas coisas — prosseguiu Dolokov, como se sentisse prazer especial em falar de um assunto que exasperava Denissov. — Vamos a ver porque ficaste com este? Naturalmente porque tiveste perna dele. E depois a gente sabe muitíssimo bem o valor que eles dão aos tais recibos. Remetes-lhes cem, e ao destino chegam apenas trinta. Ou morrem de fome ou matam-nos pelo caminho. Pois não dará o mesmo resultado deixarmo-nos de fazer prisioneiros?

O capitão de cossacos, que piscava os olhos claros, aprovou com um aceno de cabeça.

— Não discuto se o resultado é ou não o mesmo. Seja como for o que não quero é tomar essa responsabilidade. Achas tu que eles morrem da mesma maneira? É possível, mas não nas minhas mãos.

Dolokov soltou uma gargalhada.

— Julgas que não terão recebido mais de vinte vezes ordem para me apanharem? E o certo é que se nos apanhassem, a mim ou a ti, apesar de todos os teus sentimentos cavalheirescos, íamos acabar igualmente enforcados. — E após alguns momentos de silêncio: — E não ficamos por aqui. Precisamos de falar a sério. O meu cossaco que me traga a minha bagagem. Tenho dois uniformes franceses. Bom!

— Vens então comigo, não é verdade? — perguntou a Pétia.

— Vou, vou, está decidido — exclamou o rapaz, que fitara Denissov, corando muito.

Durante a discussão dos dois oficiais acerca da maneira de tratar os prisioneiros, Pétia sentira-se embaraçado, embora não tivesse percebido muito bem o que eles pensavam, realmente, a respeito desses homens. «Se as pessoas de idade e experimentadas pensam assim. é que assim tem de ser, com toda a certeza», dizia ele com os seus botões. «Assim é que está certo. Mas é preciso que Denissov se não convença de que eu estou disposto a obedecer-lhe em tudo, que me pode dar ordens. Seja como for, hei-de acompanhar Dolokov ao acampamento francês. Se ele o pode fazer, porque não hei-de eu fazê-lo também?»

A todas as admoestações de Denissov, Pétia replicou que também ele estava habituado a fazer as coisas como era mister, e não à maluca, e que de resto nunca pensava no perigo.

— E a verdade, tem de o confessar. é que se não soubermos precisamente quantos soldados eles têm... arriscamo-nos a expor a vida de centenas de homens, e nós, nós somos apenas dois. Enfim, quero tanto ir que vou seja como for. E não procure impedir-me — acrescentou — porque então ainda seria pior.

 

[IX]

Depois de enfiarem os capotes franceses e de se cobrirem com as barretinas do exército napoleónico, Pétia e Dolokov dirigiram-se à clareira donde Denissov examinara o acampamento do inimigo, Assim que saíram da floresta, protegidos pelas trevas cerradas da noite, desceram até ao fundo do barranco. Ao chegarem aí, Dolokov disse aos cossacos que o acompanhavam que esperassem por ele ali, e a trote meteu pela estrada em direcção à ponte. Pétia, emocionadíssimo, cavalgava a seu lado.

— Se eles nos atacarem, vivo é que me não apanham. Tenho a minha pistola — disse em voz baixa.

— Não fales russo — ripostou Dolokov em voz baixa também. Nesse instante, nas trevas, soou o grito: «Qui vive?», ao mesmo tempo que se ouvia o engatilhar de uma espingarda.

Pétia sentiu que o sangue lhe subia à cara e levou a mão à pistola.

— Lanceiros do 6º —gritou Dolokov, sem travar a marcha do seu cavalo.

A negra figura da sentinela destacava-se na ponte.

— A senha.

Dolokov refreou o cavalo e continuou a passo.

— Diga-me cá, o coronel Gérard está aí? — perguntou.

— A senha — repetiu a sentinela, sem responder e atravessando-se no caminho.

— Quando um oficial faz a ronda, as sentinelas não pedem a senha... — exclamou Dolokov fora de si, arrojando o cavalo sobre a sentinela. — Pergunto-te se está cá o coronel.

E sem esperar resposta da sentinela, que se afastara, indiferente, pôs-se a subir a ladeira a passo.

Ao divisar a silhueta de um homem que atravessava a estrada, mandou-o parar para lhe perguntar onde estavam o comandante do regimento e os respectivos oficiais. O soldado, que levava um saco às costas, parou, aproximou-se do cavalo de Dolokov, passou-lhe a mão pelo lombo e contou, com a maior simplicidade e no tom mais amistoso deste mundo, que os oficiais estavam um pouco mais acima, na rampa, à direita, no pátio de uma quinta, que assim designou a casa senhorial.

Dolokov prosseguiu estrada além. Dos dois lados, nos acampamentos, ouviam-se conversas em francês. Entrou no pátio da casa senhorial. Junto do portão desmontou, aproximou-se de uma grande fogueira em volta da qual um grupo de homens conversava em voz alta. Numa marmita, sobre as chamas, fumegava o rancho de um soldado, o qual, de quépi e capote azul, todo banhado pela luz da fogueira, remexia a panela com uma vareta de espingarda.

— Oh!, é duro de roer — dizia um dos oficiais na sombra, do outro lado.

— Este lhes dará o arroz, cambada — respondeu outro, rindo. Ambos se calaram ao ouvirem, no meio das trevas, os passos de Dolokov e de Pétia, que se aproximavam com os cavalos pela arreata.

— Bom dia, meus senhores! — saudou Dolokov em voz clara e vibrante.

Os oficiais agitaram-se no escuro e um deles, um alto, de pescoço esgalgado, deu a volta à fogueira para se aproximar.

— É você, Clément? — exclamou ele. — Donde diabo...? — Mas não concluiu a frase, reconhecendo o engano em que caíra. Franziu as sobrancelhas e saudou Dolokov como desconhecido, que era, perguntando-lhe que desejava.

Dolokov contou-lhe que ele e o seu camarada procuravam reunir-se ao seu regimento, e em seguida, dirigindo-se ao grupo, perguntou se eles não saberiam, porventura, onde se encontrava o 6.o de lanceiros. Ninguém sabia, e Pétia percebeu que os estavam examinando com hostilidade e desconfiança. Toda a gente se calou por momentos.

— Se conta com a sopa da noite, chega tarde — disse, junto da fogueira, a voz de alguém que continha o riso.

Dolokov respondeu que já haviam comido e que tinham de prosseguir no seu caminho aquela mesma noite.

Entregou as rédeas do cavalo ao soldado que mexia o rancho e pôs-se de cócoras diante das chamas, ao lado do oficial do pescoço esgalgado. Este, mirando Dolokov com obstinação, perguntou-lhe mais uma vez a que regimento pertencia. Dolokov fingiu não ouvir e pôs-se a fumar por um cachimbo curto, francês, que retirara da algibeira enquanto perguntava aos oficiais se as estradas estavam em segurança, pois dizia-se que os cossacos andavam pelos campos.

— Esses bandidos estão em toda a parte — replicou o oficial que estava perto da fogueira.

Dolokov sustentou que os cossacos não eram perigosos senão para os retardatários como ele e o seu companheiro, mas que não seriam capazes de atacar os grandes destacamentos. Ninguém respondeu.

«É agora que ele se vai embora», dizia Pétia com os seus botões, de pé diante da fogueira, escutando a conversa. Dolokov rompeu o silêncio para perguntar quantos homens tinham eles no batalha, quantos batalhões havia e quantos eram os prisioneiros. A propósito destes, observou:

— Que raio de ideia trazer esses cadáveres a reboque. Era melhor fuzilar essa canalha. — E ao dizer isto, soltou uma gargalhada tão estranha que. Pétia, pensando que os franceses iam descobrir o embuste, deu um passo à retaguarda.

Ninguém respondeu fosse o que fosse à gargalhada de Dolokov, e um dos oficiais na sombra, enrolado no capote estendido no chão, soergueu-se, e murmurou qualquer coisa ao ouvido de, um camarada. Dolokov ergueu-se então e chamou o soldado que segurava os cavalos.

«Teremos cavalos ou não?», murmurou Pétia de si para consigo, aproximando-se de Dolokov.

Os cavalos apareceram.

— Bom dia, meus senhores — disse Dolokov.

Pétia teria gostado de pronunciar «boa noite», mas foi-lhe impossível articular a palavra. Os oficiais sussurraram qualquer coisa entre si. Dolokov levou tempo a montar, porque o cavalo não havia maneira de estar quieto. Depois saiu a passo pelo portão do pátio. Pétia acompanhava-o, desejoso de se voltar para ver se não eram perseguidos, mas não ousava fazê-lo. Ao atingir a estrada, Dolokov, em vez de se meter pelos campos, seguiu ao longo da povoação. A determinada altura parou para escutar. «Estás a ouvir?», murmurou. Pétia reconheceu que se falava russo ali, e junto das fogueiras viu as silhuetas negras dos prisioneiros. Depois de terem descido até à ponte, cruzaram a sentinela que continuava de guarda, e nada lhes disse, alcançando em seguida o barranco onde os esperavam os cossacos.

— Bom, agora adeus. Diz ao Denissov que lá o espero de madrugada, ao primeiro tiro — observou Dolokov, afastando-se. Pétia, porém, agarrou-o, por um braço.

— Ah! É um herói! Ah! Que bem! Magnífico! Muito gosto de si!

— Bom, bom — replicou Dolokov.

Pétia, porém, não o largava, e Dolokov viu, no meio das trevas, que o rapaz se debruçava para ele, querendo beijá-lo. Dolokov beijou-o, rindo, e dando meia volta desapareceu no meio da noite.

 

[X]

No regresso à casa do guarda, Pétia encontrou Denissov no vestíbulo. Agitado, inquieto, furioso consigo próprio por tê-lo deixado partir, estava à espera dele.

— Louvado seja Deus! Sim, louvado seja Deus! — repetia enquanto ia ouvindo o relato entusiasta de Pétia. — Diabos te levem, tiraste-me o sono! Graças a Deus, agora vai deitar-te. Ainda podemos dormir um bocado até de madrugada.

— Não, não — discordou Pétia. — Não tenho sono. E se adormeço, já sei, não acordo mais. De resto, não costumo dormir antes das batalhas.

Pétia permaneceu, pois, ainda algum tempo na isbá, recordando os pormenores da expedição e pensando no que iria suceder no dia seguinte. Depois, vendo que Denissov adormecera, levantou-se e saiu.

Cá fora as trevas eram cerradas. A chuva deixara de cair, mas as folhas das árvores gotejavam. Ali perto via-se o vulto negro das tendas dos cossacos e dos cavalos atados uns aos outros. Lá para trás desenhava-se o perfil de dois carroções rodeados de cavalos e na ravina as fogueiras apagavam-se. Nem todos os cossacos e hússares estavam a dormir: aqui e ali. à mistura com o ruído das gotas de água que caíam e do mastigar dos cavalos que roíam a sua aveia, ouviam-se vozes murmurar.

Pétia saiu do vestíbulo, perscrutou a obscuridade e aproximou-se dos carroções. Estendido sobre um deles um homem ressonava, enquanto à sua volta cavalos selados comiam aveia. Nas trevas reconheceu o seu cavalo, o Karabak, e aproximou-se dele.

— Eh, Karabak, amanhã temos que fazer — disse-lhe, beijando-lhe o focinho.

— Ainda está acordado? — murmurou o cossaco estendido em cima do carroção.

— Estou, mas escuta... Chamas-te Likatchov, não é? Acabo de chegar. Fomos visitar os Franceses.

E Pétia contou ao cossaco, por miúdo, não só a expedição em que tomara parte, mas porque participara nela e como era preferível arriscar a vida a deixar que os outros fossem às cegas para o combate.

— Sim, sim, mas era melhor que dormisse — observou o cossaco.

— Não, estou habituado — replicou ele. — As pederneiras da tua pistola não estão gastas? Se quiseres algumas, tenho aqui. Se precisas, toma lá.

O cossaco ergueu a cabeça e espreitou cá para fora, para melhor examinar o que se passava.

— Gosto de fazer as coisas com todo o cuidado — continuou Pétia. — Há alguns que não tomam precauções e depois é tarde. Não gosto disso.

— Tem razão — volveu o cossaco.

— E olha, espera lá, rapaz, afia-me o sabre, se queres. Está rombo... — Mas, para não mentir, calou-se. Nunca mandara afiar o sabre. — Posso contar contigo?

— Claro, porque não?

Likatchov levantou-se, remexeu no fundo da carroça, e daí a pouco Pétia ouvia o ruído bem marcial do aço contra a pedra de afiar. Trepou para cima do carroção e sentou-se. O cossaco continuava a sua tarefa.

— E os rapazes, estão todos a dormir? — perguntou Pétia.

— Uns dormem, outros não.

— E o garoto, que está ele a fazer?

— Vessionii? Está lá adiante, deitado no vestíbulo. Depois de tanto medo que teve, adormeceu. Que contente ele estava!

Pétia ficou depois calado por muito tempo, sempre de ouvido à escuta. Ouviram-se passos na escuridão e um vulto apareceu.

— Que estas tu a afiar? — perguntou o recém-chegado, aproximando-se.

— O sabre deste senhor.

— Muito bem — replicou o homem que Pétia supôs ser um hússar. — Não haverá por aqui uma tigela?

— Há, sim, ali, ao pé da roda.

O hússar pegou na tigela.

— Não falta muito para amanhecer — disse ele, bocejando, enquanto se afastava.

Pétia sabia que estava no meio da floresta, entre os soldados de Denissov, a uma versta da estrada real. Sabia que estava sentado em cima de uma carroça apanhada aos Franceses, à volta da qual havia cavalos amarrados, sabia que ali ao pé estava o cossaco Likatchov tratando de lhe afiar o sabre, sabia que aquela mancha negra lá adiante era a casa do guarda e que a mancha vermelho-clara em baixo era a fogueira do bivaque que se apagava, sabia que o homem que viera buscar a tigela era um hússar com sede, Sabia tudo isto, e era como se de nada quisesse saber. Flutuava num reino encantado onde nada se parecia com a realidade. Talvez que aquela mancha preta fosse, de facto, a casa do guarda, mas também podia ser uma caverna que se abria até às entranhas da Terra. E talvez que efectivamente aquela mancha encarnada fosse, realmente, lume, mas também podia ser o olho de um monstro enorme. Bem podia ser estar sentado numa carroça, mas talvez aquilo não fosse uma carroça, mas uma torre altíssima, do alto da qual, se porventura lhe acontecesse vir a cair, voaria na direcção da terra durante um dia, durante um mês, sem nunca mais poder chegar ao chão. Era possível que ao pé da carroça apenas estivesse o cossaco Likatchov, mas também podia acontecer que esse homem fosse o homem melhor, mais valente, mais extraordinário, maior, que existisse no mundo, um homem que ninguém conhecesse. E também podia ser que houvesse por ali um hússar procurando água no barranco, mas também podia acontecer que se tivesse desvanecido e desaparecido e ninguém o tivesse visto.

Nada o surpreendia mais do que o que os seus olhos viam. Ei-lo num mundo encantado onde tudo era possível.

Ergueu os olhos ao céu. E o céu, tal qual como a terra, era um sítio encantado. Iluminava-se e no topo das árvores corriam nuvens rápidas que pareciam descobrir as estrelas, As vezes parecia que o firmamento se limpava por inteiro e via-se então aparecer um céu negro e puro. Ora aquelas manchas escuras lhe pareciam nuvens, ora a abóbada celeste se lhe afigurava muito alto por cima da sua cabeça, ora descer de tal sorte que lhe seria possível tocar-lhe com a ponta dos dedos.

Pétia fechou os olhos e sentiu que a cabeça lhe andava à roda Ouviam-se as gotas de água que continuavam a cair, as conversas sussurradas, os cavalos a escarvar o chão e a agitar-se, algures o ressonar de alguém.

Zig, zig, zig.... fazia o aço do sabre que o cossaco afiava e de súbito Pétia ouviu uma orquestra harmoniosíssima, que tocava um hino qualquer desconhecido e de uma solene suavidade. Como Natacha, e ainda mais que Nicolau, também ele gostava muito de música, mas nunca pensara aprender a tocar, por isso os motivos que espontaneamente lhe chegaram ao ouvido lhe pareciam tão novos. E a música era cada vez mais vibrante. A melodia ampliava-se como se de um instrumento fosse passando a outro. Era uma fuga, mas Pétia não fazia a mais pequena ideia disso. Cada um dos instrumentos, ora como se fossem violinos, ora como se fossem trombetas, embora de som muito mais fino e muito mais puro, tocava o seu motivo próprio, que, sem chegar ao fim da sua modelação, se fundia noutro, que principiava por assim dizer o mesmo motivo, e depois ainda com outro e com outro ainda, confundindo-se todos, por fim, para se separarem e voltarem a confundir-se num cântico religioso e solene ou numa ária triunfal clara e brilhante.

«Ah!, mas estou a sonhar», dizia Pétia de si para consigo, perdendo por assim dizer o equilíbrio. «São os meus ouvidos que ressoam. Ou talvez seja a minha orquestra própria a tocar. Então, mais uma vez. Vamos, minha orquestra! Vamos!..»

Fechou os olhos. E de todos os lados, como se viessem de muito longe, vibravam acordes em uníssono ou se dissipavam, para de novo se fundirem, e outra vez o hino recomeçava, solene e cheio de suavidade. «Ah! Que maravilha! E pelo tempo que quero e como quero!», dizia de si para consigo. E tentava reger aquela imensa orquestra.

«Mais piano, agora mais piano, até deixar de se ouvir.» E os sons obedeciam-lhe. «Vá, agora mais alto, mais alegre. Mais, mais, mais alegre.» E de desconhecidas profundezas irradiavam acordes largos e magníficos. «E agora, vós, as vozes!», comandava ele. E vozes de homem chegavam da distância, e em seguida vozes de mulher, e essas vozes iam crescendo, pouco a pouco, até atingirem tinia imponente vibração. Pétia sentia-se ao mesmo tempo temeroso e fascinado com aquela surpreendente beleza.

O canto alargava, transformando-se numa solene marcha Triunfal, enquanto as árvores continuavam a gotejar, o aço a ranger e os cavalos a relinchar e a escarvar o chão, sem que nada perturbasse o coro, mas como se fizesse parte nele.

Pétia não saberia dizer o tempo que isto teria durado. Sentia um infinito prazer, estava como que deslumbrado e só lamentava não poder partilhar com outro tudo quanto experimentava. Foi a voz afável de Likatchov que o acordou.

— Aqui o tem, Excelência. Pode rachar um francês ao meio.

Pétia despertou do seu torpor.

— Já é manhã, já é dia! — exclamou ele.

Agora já se viam os cavalos, até então invisíveis. Através dos ramos despidos de folhas transparecia uma claridade húmida. Pétia espreguiçou-se, saltou do alto da carroça, puxou de um rublo da algibeira e deu-o a Likatchov. Depois brandiu o sabre, para o experimentar, e enfiou-o a seguir na bainha. Os cossacos, entre— tanto, selavam os cavalos.

— Aí vem o comandante — exclamou Likatchov.

Denissov, que saía da isbá, chamou Pétia e deu-lhe ordem de se preparar para partir.

 

[XI]

Rapidamente, na semi-obscuridade, cada um lançou mão do seu cavalo, ajustou o selim e ocupou o seu lugar. Denissov, de pé junto da casa do guarda, dava as suas ordens. A infantaria, patinhando na lama, foi a primeira a partir, desaparecendo daí a pouco, por entre as árvores, no meio da neblina matinal. O capitão de cossacos deu as instruções aos seus homens. Pétia, com o cavalo pela arreata, aguardava, impaciente, o momento de montar. Embora tivesse mergulhado a cara em água fria, sentia no rosto, e especialmente nos olhos, um ardor febril. Já não tinha arrepios ao longo da espinha, mas todo o seu corpo se agitava em movimentos nervosos.

— Está tudo pronto? — interrogou Denissov. — Venham os cavalos!

Os cavalos apareceram. Denissov repreendeu o seu cossaco porque a sela estava mal afivelada, depois saltou para a, garupa do ginete. Pétia meteu o pé no estribo. Como de costume, o cavalo procurou mordisca-lo na perna, mas ele, leve como uma pluma, saltou-lhe para cima e lançando um golpe de vista aos hússares que principiavam a mover-se na sua retaguarda aproximou-se de Denissov.

— Vassili Federovitch, não se esquece de me dar um comando, não é verdade? Peço-lhe — disse ele.

Dir-se-ia que Denissov se esquecera da existência de Pétia. Relanceou-lhe um olhar.

— Só te peço uma coisa — disse-lhe com severidade — que me obedeças e que não metas o nariz onde não és chamado. Durante o resto do percurso, Denissov não voltou a trocar palavra com ele, cavalgando em silêncio. Principiava a clarear por sobre os campos quando chegaram à orla da floresta. Denissov disse qualquer coisa em voz baixa ao capitão de cossacos e os seus homens desfilaram diante deles. Depois de eles passarem, Denissov pôs-se a descer a encosta atrás da coluna, Escorregando e retesando as patas, atingiram os cavalos o fundo do barranco. Pétia ia ao lado de Denissov. Cada vez tremia mais. O dia ia raiando e a neblina apenas envolvia agora os objectos muito distantes. Ao chegar ao fundo, Denissov, voltando-se, fez um aceno de cabeça ao cossaco mais perto dele.

— O sinal! — ordenou.

O cossaco ergueu a mão e um tiro ressoou. No mesmo instante, os cavalos despediram a galope, enquanto se ouviam gritos de todos os lados e novos tiros ressoavam.

No mesmo momento, igualmente, Pétia esporeou o cavalo e soltou-lhe as rédeas, e sem ouvir Denissov, que o chamava, aos gritos, debandou a galope. Afigurara-se-lhe, de súbito, no momento em que ressoou o primeiro tiro, que tudo ficara claro como se fosse dia alto. Alcançou a ponte. Os cossacos galopavam diante dele. Em cima da ponte esbarrou com um retardatário e continuou galopando. Por diante dele, alguns homens, franceses, naturalmente, passavam, assodados, do lado direito da estrada para e, lado esquerdo. Um deles estatelou-se na lama mesmo debaixo das patas do seu cavalo.

A porta de uma casa um grupo de cossacos fazia fosse o que fosse. Um grito terrível saiu do grupo. Pétia, que passava nesse instante a galope, a primeira coisa que viu foi o rosto pálido e convulsionado de um francês que sustinha a vara de uma lança apontada ao peito.

«Hurra!... Rapazes!...», gritou Pétia. E esporeando o cavalo, excitado pela corrida, meteu pela rua da povoação. Diante dele ressoaram tiros. Cossacos, hússares e prisioneiros russos esfarrapados corriam pelos dois lados da rua, soltando gritos estridentes e ininteligíveis. Um francês, de cabeça descoberta, o rosto vermelho e crispado, de capote azul, defendia-se dos hússares com a baioneta. Quando Pétia chegou junto dele, já estava prostrado no chão. «Outra vez tarde de mais», disse de si para consigo o moço oficial, num relâmpago, e dirigiu-se para o ponto onde a fuzilaria era mais nutrida. No pátio da casa senhorial em que estivera nessa mesma noite com Dolokov o tiroteio crepitava. Os Franceses, entrincheirados atrás da espessa sebe do jardim, visavam os cossacos amontoados junto da porta principal. Assim que chegou ali, Pétia viu logo, através da fumarada. Dolokov, o rosto pálido e esverdeado, que gritava aos seus homens:

— Cerquem-nos pelo outro lado! Esperem a infantaria!

— Quê? Esperar?... Hurra! — exclamou Pétia e, sem mais detenças, avançou para o local onde o tiroteio e a fumarada eram maiores.

Uma salva se ouviu, balas perdidas assobiaram e vieram cravar-se aqui e ali. Dolokov e os cossacos enfiaram, atrás de Pétia, pelo portão do pátio. Os Franceses, no meio de uma densa fumarada, atiravam fora as armas e saíam da sebe para se precipitar em na direcção dos cossacos, enquanto outros galgavam a encosta em direcção ao tanque. Pétia continuava a galopar pelo pátio dentro, mas abandonara as rédeas, os braços gesticulavam-lhe de maneira estranha e ia tombando cada vez mais para cima da sela. O cavalo, que pousara as patas sobre os carvões ardentes de uma fogueira visível graças à claridade da manhã, parou bruscamente e o cavaleiro foi precipitado no chão, Os cossacos ainda viram agitar-se os braços e as pernas de Pétia enquanto a cabeça lhe descaía sem vida. Uma bala atravessara-lhe o crânio.

Depois de trocar algumas palavras com o comandante do destacamento francês que saíra do edifício com um lenço amarrado à ponta da espada, em sinal de rendição, Dolokov desmontou e aproximou-se de Pétia, estendido no chão, imóvel, com os braços em cruz.

— Este já tem a sua conta — disse, franzindo o sobrecenho. E foi ao encontro de Denissov, que nessa altura aparecia à porta do pátio.

— Morto? — exclamou, ao ver o corpo de Pétia estendido no chão e evidentemente sem vida.

— Já tem a sua conta — repetiu Dolokov, como se sentisse prazer em empregar essa expressão, e seguiu na direcção dos prisioneiros que os cossacos cercavam. — Nada de prisioneiros! gritou ele para Denissov.

Denissov não respondeu. Aproximou-se de Pétia, desmontou, e de mãos trémulas voltou para si o rosto do moço, empapado em sangue e lama, já de uma palidez cadavérica.

«Estou habituado às guloseimas, óptimas passas, tomem-nas todas... » Lembrava-se das palavras dele Os cossacos olhavam-no estupefactos: soluços em que havia fosse o que fosse dos uivos de um cão lhe saíam do peito, enquanto desviava a cabeça e, cambaleante, se aproximava da sebe para se segurar de pé.

Entre os prisioneiros russos libertos por Denissov e Dolokov encontrava-se Pedro Bezukov.

 

[XII]

As autoridades francesas não tinham tomado novas disposições para o transporte do destacamento de prisioneiros de que fazia parte Pedro durante a retirada. No dia 22 de Outubro já não se encontrava com as tropas com que saíra de Moscovo. Metade do comboio de biscoitos que os seguira durante as primeiras jornadas fora pilhada pelos cossacos e a outra metade seguira adiante. Dos cavaleiros que abriam a marcha, nem falar: todos tinham desaparecido, A artilharia, que nos primeiros dias constituíra a guarda avançada, fora substituída pelas imensas bagagens do marechal Junot, que eram escoltadas pelos westfalianos. Atrás dos prisioneiros vinham as bagagens da cavalaria.

A partir de Viazma, as tropas, que até aí marchavam em três colunas, transformaram-se num verdadeiro rebanho. Os indícios de desorganização que Pedro observara já durante a primeira jornada eram agora evidentes.

A estrada, de um lado e outro, estava juncada de cadáveres de cavalos; soldados esfarrapados, retardatários de diversas armas, que se sucediam continuamente, ora se reuniam à coluna em marcha, ora ficavam de novo para trás.

Por várias vezes, durante a marcha, houvera rebates falsos. Os soldados da escolta pegavam nas armas, disparavam ao acaso, fugiam a mais não poderem, esbarrando uns nos outros, e depois tornavam a formar, acusando-se mutuamente dos seus loucos terrores. O depósito da cavalaria, os prisioneiros e as bagagens de Junot, que compunham a coluna, formavam ainda uma espécie de todo, mas esse mesmo todo ia-se desfazendo rapidamente. O depósito, que de princípio era formado por cento e vinte viaturas, estava reduzido a sessenta no máximo: todas as outras tinham sido pilhadas ou abandonadas. Algumas das viaturas das bagagens de Junot também se haviam perdido. Três, pelo menos, tinham sido assaltadas por retardatários do corpo de exército de Davout. Pedro percebera, pelas conversas dos alemães, que esse comboio era guardado com mais cuidado que o dos prisioneiros e que um soldado que fazia parte da escolta, um alemão, fora fuzilado por ordem do marechal, por lhe terem encontrado uma colher de prata com as suas insígnias.

Mas o grupo mais reduzido era o dos prisioneiros. Dos trezentos e trinta homens que o formavam à partida de Moscovo, restavam agora menos de cem. E causavam maior embaraço às tropas que os escoltavam que o depósito de cavalaria ou as bagagens de Junot. Esses soldados compreendiam muito bem que as selas de cavalaria ou as colheres do Sr. Marechal podiam tentar este ou aquele, mas para que estarem de sentinela, eles, cheios de fome e de frio, a esses russos, esfomeados e transidos como eles, que iam ficando pelo caminho ou enregelavam nos acampamentos e contra os quais havia ordem de fuzilamento? Eis o que não podiam compreender e os descoroçoava. Eles, tia mesma penosa condição, tinham medo de se deixar comover diante desses desgraçados, agravando a sua própria situação, e esse o motivo por que os tratavam cada vez mais severamente.

Em Dorogobuje, enquanto os soldados da escolta, depois de fecharem os prisioneiros numa cavalariça, foram pilhar as lojas, alguns dos cativos abriram um buraco na parede e fugiram. Apanhados daí a pouco, eram passados pelas armas.

O regime fixado na altura da saída de Moscovo, segundo o qual os oficiais deviam estar separados dos soldados, há muito fora abolido. Todos os que podiam caminhar seguiam juntos, e Pedro, após a terceira jornada, voltara a encontrar-se com Karataiev e o seu cãozito arruivado, de pernas tortas, que o adoptara como dono.

Dois dias após a partida de Moscovo, Karataiev fora de novo acometido p(,.Ias febres que o tinham levado ao hospital e à medida que piorava Pedro afastava-se dele instintivamente. Não dava muito por isso, mas o certo é que devia fazer um grande esforço sobre si mesmo para se aproximar dele, os gemidos do desgraçado quando se deitava no fim da jornada e o cheiro acre que exalava afastavam Pedro e tornavam menos íntimas as suas relações. Enquanto estivera fechado no abarracamento, Pedro adquirira a convicção, não racional, mas graças ao sentimento íntimo de todo o seu ser, de que o homem nascera para a felicidade, de que a felicidade estava nele, homem, na satisfação das suas tendências naturais, e de que todas as desgraças eram antes consequência de excessos que propriamente de privações. Mas depois daquelas três últimas semanas de marcha, nova e consoladora verdade se lhe revelara, a saber, que neste mundo nada há de verdadeiramente terrível. Assim como o homem nunca consegue ser perfeitamente feliz e livre, também não há situação alguma em que seja completamente infeliz e escravo, Assim como há limite para o sofrimento, também há limite para a liberdade, e esses limites tocam-se mutuamente. Agora sabia que o homem que sofre porque, deitado em cama de rosas, o magoa uma ruga das suas pétalas, era tão infeliz como ele próprio, dormindo na terra húmida e nua, com frio por um lado e calor pelo outro. Lembrava-se de que quando, outrora, enfiava nos pés uns escarpins de baile muito apertados sofria tanto ou mais que actualmente, que caminhava descalço, pois as botas há muito as não podia calçar e tinha os pés cobertos de pústulas. Sabia que na altura do seu casamento, na aparência perfeitamente livre, não era mais livre que neste momento, que passava a noite fechado numa cavalariça. De todos os sofrimentos de que mais tarde se lembrava, e então o deixavam quase insensível, o pior fora o ver os pés cheios de feridas e crostas.

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