Guerra e Paz
Terceira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A carne de cavalo agradava-lhe e era nutritiva; essa espécie de sabor a pólvora do sal de nitro empregado em vez do sal propriamente dito era mesmo agradável; o frio não era muito intenso: de dia tinham sempre calor durante as marchas e à noite acendiam fogueiras; os piolhos que o devoravam aqueciam-no. Só uma coisa o fizera sofrer realmente nos primeiros tempos: os pés.
Na segunda jornada, ao examinar as feridas ao clarão das fogueiras, dissera de si para consigo que não poderia dar mais um passo; mas quando os companheiros se puseram a caminho lá os foi seguindo, embora coxeando, e assim que os pés lhe aqueceram não mais os sentiu, embora ficasse aterrado quando à noite tornou a olhar para eles. E decidiu não lhes pôr mais a vista em cima e pensar noutra coisa.
Só agora, realmente, sabia até que ponto o homem pode resistir e quanto valia o poder de distracção que lhe foi dado, espécie de válvula de segurança das caldeiras a vapor para quando a pressão ultrapassa a normal.
Não queria ver nem ouvir fuzilar prisioneiros retardatários, embora para cima de cem já lá ficassem para trás. Já não pensava em Karataiev, que, de dia para dia mais fraco, não tardaria, evidentemente, a ter o destino dos demais. E nele próprio ainda pensava menos. Quando mais difícil se tornava a situação, quando mais sombrio se lhe antolhava o futuro, mais ele se desprendia de tudo o que o cercava e mais suaves e consoladores eram os seus pensamentos, as suas recordações e os seus devaneios de imaginação.
[XIII]
A 22, por volta do meio-dia, subia Pedro uma ladeira coberta de lama escorregadia, atento às irregularidades do terreno e aos sítios em que punha os pés. De quando em quando erguia os olhos para o grupo dos companheiros e de novo voltava a pousá-los no chão. Não assistia a um espectáculo novo. Sierii, o cachorrito das pernas tortas, pulava pela berma da estrada, e de vez em quando, para mostrar ligeireza e contentamento, erguia uma das patas traseiras e trotava nas outras três, voltando daí a pouco ., trotar nas quatro para ladrar aos corvos que pousavam em cima dos cadáveres. Sierii sentia-se ali muito mais feliz e contente que em Moscovo. Por toda a parte havia cadáveres de cavalos e de homens, em variado estado de decomposição, em que ele podia saciar-se à vontade, e o trânsito contínuo das tropas, mantendo os lobos a distância, permitia-lhe refastelar-se.
Desde manhã que chovia, e não havia esperança de deixar de chover, pois, mesmo quando o céu clareava, era para chover ainda mais, após uma breve pausa. A estrada, alagada, não podia absorver mais água e as valetas eram verdadeiros rios.
Pedro, de olhos no chão, à medida que caminhava, contava pelos dedos, de três em três passos. Para si mesmo, pensando na chuva, dizia: «Vamos, vamos, mais, mais, continua.»
Dir-se-ia já não ter em que pensar, mas na realidade a sua alma cada vez mergulhava mais fundo em pensamentos graves e consoladores. Eis a subtil lição que extraía da conversa da véspera com Karataiev.
Na véspera, durante o descanso da noite, transido de frio junto de uma fogueira apagada, Pedro levantara-se e aproximara-se da fogueira vizinha, que ardia melhor. Junto dela, Platão, envolto na sua capa, como um padre na sua casula, contava aos soldados, na sua voz de enfermo, cheia e agradável, mas fraca, uma história que Pedro já conhecia. Passava da meia-noite. Era , hora em que lhe descia o febrão e o deixava habitualmente mais animado. Assim que Pedro se aproximou da fogueira, ouviu a voz débil do pobre homem e lhe viu o lastimoso rosto vivamente iluminado, sentiu confranger-se-lhe o coração. Quis afastar-se, tanto o afligia o estado do desgraçado, mas, como não havia outra fogueira acesa, acocorou-se ali mesmo, procurando não olhar para ele.
— E então, como vai essa saúde? — perguntou-lhe Pedro.
— A saúde? Chorarmos a nossa saúde não impede que Deus nos dê a morte — respondeu Karataiev, que logo continuou a sua história.
— E aqui tens, meu amiguinho — prosseguiu, com um sorriso que lhe iluminava o pálido e magro rosto e os olhos brilhantes. — Aqui tens, meu amiguinho...
Há muito que Pedro conhecia aquela história. Karataiev contara-lha cinco ou seis vezes, sempre com grande satisfação. Mas, embora a conhecesse muito bem, dir-se-ia ouvi-la pela primeira vez. A animação contida do narrador comunicava-se-lhe a ele, Era a história de um velho mercador que vivia no meio dos seus, honestamente e no temor de Deus. Certo dia, com um dos seus camaradas, dirigiu-se à, feira de Makarié.
Pernoitaram numa estalagem, e no dia seguinte o seu companheiro foi encontrado morto e roubado. Debaixo da almofada do honesto mercador encontraram uma faca cheia de sangue. Julgaram-no, flagelaram-no, arrancaram-lhe as narinas «como era de justiça e de acordo com as leis estabelecidas», acrescentava, Karataiev, e por fim foi enviado para as galés.
-...E aqui tens, meu amiguinho. — Nesta altura da história que Pedro apareceu. — Passaram dez ou mais anos, E o velho nas galés, obediente a tudo, sem fazer mal a ninguém. Só pedia a Deus que o levasse. Pois bem! — Uma noite os condenados reuniram-se, como nós neste momento. O velhinho estava com eles. E puseram-se a contar uns aos outros porque tinham sido condenados e porque eram culpados perante Deus. ’rodos contaram a sua história: um deles matara um homem, outro, dois; este era incendiário, aquele, servo fugitivo. Interrogaram o velho: «E tu, avô, porque padeces?» «Eu, meus irmãos», disse ele, «eu sofro pelos meus pecados e pelos pecados dos outros, E a verdade é que não matei nem furtei o que era de outros, muito pelo contrário, costumava dar aos pobres. Eu, meus irmãos, era mercador e tinha o meu pé-de-meia.» Eis, palavra por palavra, o que ele lhes disse. E contou-lhes, por miúdo, tudo o que se passara, «Por mim», disse-lhes ele, «não me queixo. Isto só quer dizer que Deus me escolheu. Só tenho pena de uma coisa, da minha velha e dos meus filhos.» E então pôs-se a chorar. E eis que por acaso, no meio deles, está o homem que matara o mercador. «Onde foi isso, avó?», inquiriu ele. «Há quanto tempo? Em que mês?» — E o velho deu conta de tudo. O coração do outro confrange-se-lhe. Eis que se aproxima do velho e, zás, ajoelha-se-lhe aos pés. «É por minha causa», diz ele, «é por minha causa, velho, que aqui estás. Podem crer, rapazes, este homem está inocente. Fui eu», confessou, «que matei o homem e escondi a faca debaixo da almofada enquanto ele dormia. Perdoa-me, avô, perdoa-me em nome de Cristo!»
Karataiev calou-se, os olhos fitos na chama, sorrindo docemente. Depois ajeitou as achas.
— E o velho disse: «Deus te perdoará: de resto, todos somos pecadores diante de Deus. É pelos meus pecados que sofro.» E ele próprio se pós a chorar amargamente. E que pensas tu, meu falcãozinho — acrescentou Karataiev, cujo rosto se iluminava por uma espécie de sorriso de triunfo, como se, no que tinha a dizer agora, estivesse todo o encanto e todo o valor da sua história. — Que te parece? o verdadeiro assassino foi confessar-se às autoridades. «Matei», disse ele, «matei seis almas humanas» — era um grande malfeitor — «mas a que me mete mais dó é a deste pobre velho. Não quero que ele chore por minha causa.» Escreveram tudo num papel e mandaram esse papel para a justiça, Era muito longe, foi preciso muito tempo para que o tribunal resolvesse, para que escrevessem todos os papéis que eram precisos, como as autoridades costumam fazer, claro está. A questão foi até à presença do czar. Por fim veio o ucasse do imperador: «Ponha-se o mercador em liberdade e dê-se-lhe uma recompensa, de acordo com o que foi resolvido.» Chegou o papel. Puseram-se à procura do velho. Onde está esse velho condenado inocentemente? Chegou o papel do czar. Procuram. — Aqui o queixo de Karataiev teve um tremor convulsivo. — Deus já lhe tinha perdoado. Morrera. Pois é o que te digo, meu falcãozinho — concluiu ele; por muito tempo, calado, sorrindo, ficou a olhar o espaço diante dele. Não era a história em si, mas o seu misterioso significado e aquela serena exaltação que iluminava o rosto de Karataiev enquanto ele falava, o misterioso significado dessa exaltação, era tudo isso que enchia agora a alma de Pedro de uma felicidade indefinível.
[XIV]
— A postos! — gritou, de, súbito, uma voz. Uma alegre agitação se produziu entre os prisioneiros e os soldados da escolta, na esperança de um acontecimento importante e feliz. Por todos os lados se ouviram vozes de comando, e à esquerda da coluna apareceram, galopando, cavaleiros bem vestidos, montados em bons cavalos. Todos os rostos exprimiram a tensão que em geral se produz aquando da chegada de grandes personalidades. Os prisioneiros amontoaram-se a um lado para deixar a estrada desimpedida. Os soldados da escolta alinharam:
— O imperador! O imperador! O marechal! O duque!
Mal acabara de desfilar a escolta, chegava uma carruagem tirada por cavalos cinzentos, no meio de grande fragor. Pedro viu, à passagem, uma figura de rosto sereno, cheio e branco, com um bicorne na cabeça. Era um dos marechais. O seu olhar deteve-se na alta estatura de Pedro que sobressaía no meio da multidão, e, pela maneira como franziu as sobrancelhas e virou a cara, a prisioneiro julgou perceber que procurava ocultar um sentimento de piedade.
O general comandante do depósito, muito corado e cara de susto, esporeou o cavalo para seguir a carruagem. Alguns oficiais formaram grupo e os soldados juntaram-se em torno deles. Todos pareciam perturbados e inquietos.
— Que é que há? Que disse ele? — repetiam.
Enquanto o marechal passava, como os prisioneiros se tinham aglomerado, Pedro viu Karataiev, em quem ainda não pusera os olhos nessa manhã. Embrulhado no capote, estava sentado, encostado a um álamo. No seu rosto, com a mesma expressão de enternecida suavidade que tinha na véspera ao contar a sua história, havia agora um calmo sorriso.
Fitava Pedro com os seus bondosos olhos redondos velados de lágrimas, e via-se que o chamava, como se lhe quisesse falar. Mas Pedro tinha medo de si mesmo. Fingiu não ver esse olhar e desviou a cara apressadamente.
Quando a coluna retomou a marcha, Pedro olhou para trás. Karataiev continuava sentado à beira da estrada, encostado ao álamo; dois franceses, apontando-o, diziam qualquer coisa entre si. Não mais se voltou e subiu a ladeira a coxear. Lá para trás, para o sítio onde estava Karataiev, um tiro soou. Ouviu-o nitidamente, mas nesse mesmo instante lembrou-se de que quando o marechal aparecera calculava ele o número de jornadas que ainda teriam até Smolensk. Voltou aos seus cálculos. Dois soldados franceses, um dos quais com a espingarda ainda fumegante, passaram por ele a correr. Muito pálidos, enquanto um deles o olhava com timidez, Pedro descobriu-lhe no rosto a mesma expressão que vira estampada na cara do soldado aquando da execução dos incendiários. E Pedro reconheceu-o: era o mesmo que na antevéspera queimara a camisa estando a enxugá-la na fogueira do bivaque e que fora troçado pelos camaradas.
Lá para trás, para onde ficara Karataiev, um cão uivou. «Porque está aquele imbecil a uivar?», disse Pedro com os seus botões. Os soldados prisioneiros que marchavam a seu lado não voltaram a cabeça, como ele, para onde soara o tiro e depois o uivo do cão. Uma expressão sinistra se lhes pintava na cara.
[XV]
O depósito de cavalaria, os prisioneiros e as bagagens do marechal fizeram alto na aldeia de Chamchevo. Toda a gente se juntou em volta dos bivaques. Pedro aproximou-se de uma das fogueiras, comeu um pedaço de carne de cavalo, deitou-se, de costas para a fogueira, e adormeceu imediatamente. Mergulhou num sono tão pesado como em Mojaisk, depois da batalha de Borodino.
Tal como então, também agora os acontecimentos reais se confundiram com visões imaginárias, e uma voz, a sua própria voz ou a de qualquer outra pessoa, repetiu-lhe as mesmas frases que ouvira nessa altura.
— A vida é tudo. A vida é Deus. Tudo vai e vem, tudo se move, e esse movimento é Deus. E enquanto há vida, há a satisfação de reconhecermos a divindade. Amar a vida é amar a Deus. O mais difícil e meritório é amar a vida nas suas dores, nos seus sofrimentos imerecidos.
«Karataiev!» Esse nome surgiu-lhe de súbito no pensamento, e de súbito viu, como se estivesse vivo, um velho mestre, de que há muito se esquecera, que na Suíça lhe ensinara geografia. «Espera», dizia-lhe o velho, mostrando-lhe o globo terrestre. Esse globo era uma esfera viva, oscilando e sem contornos definidos. Toda a sua superfície era formada por gotas de água muito uni— das umas às outras, e essas gotas de água evoluíam, deslocavam-se, ora unindo-se numa gota mais grossa, ora dividindo-se de novo. Cada gota procurava dilatar-se, ocupar o maior espaço possível, mas, como as outras faziam o mesmo, apertavam-na, obrigando-a a desaparecer, por momentos, e misturando-se com ela outras vezes.
«Eis a imagem da vida», dizia-lhe, o velho.
«Como é simples e claro», pensava Pedro. «Com o não compreendi eu há mais tempo?»
Deus está no centro e cada uma das gotas tenta alargar-se, na esperança de O reflectir na sua maior extensão. E cresce, alarga-se, comprime-se e desaparece da superfície, mergulha e volta depois a sobrenadar. Por exemplo, Karataiev dilatou-se e desapareceu. «Compreende, meu filho?», dizia-lhe o mestre.
— Compreendeu. Caramba! — gritava uma voz, e Pedro acordou.
Endireitou-se, ficando sentado no chão. Ao clarão da fogueira, sentado de cócoras, um francês, que acabava de empurrar um soldado russo, assava um pedaço de carne na ponta da vareta de uma espingarda. As suas mãos vermelhas e peludas, de dedos curtos e musculosos, manejavam a vareta com perícia. O seu rosto, de cor terrosa e sobrecenho franzido, recebia em cheio o clarão das brasas.
— Isso é-lhe indiferente — resmungou, dirigindo-se a um soldado de pé atrás dele. — Bandido! Ala!
O soldado que manuseava a vareta da espingarda relanceou um soturno olhar para o lado onde estava Pedro. Este voltou-se e pôs-se a fitar o escuro. Um dos prisioneiros, esse mesmo que o francês empurrara, estava sentado junto da fogueira e parecia acariciar com a mão fosse o que fosse. Pedro olhou mais atentamente e viu o cachorrito arruivado abanando a cauda, ao pé do soldado.
— Ah!, voltou? — disse Pedro. — Eh! Pla. Mas não pode concluir.
De súbito, na imaginação, misturaram-se-lhe ao mesmo tempo e olhar que lhe lançara Platão sentado de encontro à árvore, o tiro que ressoara para esses lados, os uivos o cão e a expressão comprometida dos dois franceses passando a correr diante dele, com a espingarda ainda fumegante. E juntando a isso o desaparecimento de Karataiev só então pareceu compreender que o desgraçado fora abatido. No mesmo instante, porém, sem saber como, passou-lhe por diante dos olhos a varanda da sua casa de Kiev, onde passara uma noite de Verão com uma linda polaca, Sem relacionar estas lembranças com as impressões de momento, e sem nada concluir, Pedro fechou os olhos, e o quadro que evocara — a noite de Estio —, trazendo-lhe à ideia um banho refrescante e a esfera líquida em movimento, fê-lo sentir-se afundar numa massa de água onde todo ele desaparecia.
Antes do nascer do Sol acordou com um vivo tiroteio e uma grande algazarra. Os franceses corriam como loucos.
— Os cossacos — gritava um deles e instantes depois Pedro estava rodeado de caras russas.
Levou tempo a compreender o que se passava. Ouviam-se por todos os lados exclamações entusiastas dos seus compatriotas.
— Meus irmãos! Meus amigos! Meus queridos camaradas! — gritavam, com as lágrimas nos olhos, velhos soldados, apertando nos braços cossacos e hússares.
Estes cercavam os prisioneiros e ofereciam-lhes, à discrição, pão, roupas, botas. Pedro, no meio deles, soluçava, incapaz de articular palavra. Porém, tomando nos braços o primeiro soldado que lhe apareceu, beijou-o, chorando.
Dolokov estava de pé diante do portão da casa em ruínas assistindo ao desfile das tropas francesas desarmadas. Estas, desorientadas com o que acontecera, falavam entre si em alta voz, mas, ao passarem diante de Dolokov, que fustigava as botas com a chibata, fitando-as com olhos frios e vidrados, onde nada de bom se lia, calavam-se. Ao lado dele, o cossaco contava os prisioneiros, marcando a giz, na porta, centena por centena.
— Quantos? — perguntou-lhe Dolokov.
— É a segunda centena — respondeu-lhe ele.
— Toca a andar, toca a andar! — dizia Dolokov, que aprendera com os franceses esta expressão. E o seu olhar, quando se encontrava com o dos prisioneiros, despedia centelhas de crueldade.
Denissov, de ar triste e cabeça descoberta, seguia atrás dos, cossacos que transportavam o corpo de Pétia Rostov, que ia a enterrar num fosso aberto no jardim.
[XVI]
A partir de 28 de Outubro, data em que principiaram os frios, a retirada francesa assumiu um aspecto trágico. Alguns homens morriam gelados, outros tentavam aquecer-se junto de fogueiras; outros ainda, embrulhados em quentes peliças, continuavam a fuga, levando nas seges os bens do imperador, dos reis e dos duques. No conjunto, porém, nada mudara no estado de decomposição do exército em retirada.
De Moscovo a Viazma, os seiscentos e treze mil homens de que se compunha o exército francês ficaram reduzidos a pouco mais de trinta e seis mil, sem contar a Guarda, a qual, durante toda a campanha, outra coisa não fizera que pilhar. Dos seus trinta e seis mil homens, no máximo não apareceram no campo de batalha mais de cinco mil. Eis o primeiro termo da proporção que pode determinar exactamente o que veio a ocorrer depois. O exército francês liquefez-se e desapareceu, na mesma proporção, de Moscovo a Viazma, de Smolensk ao Beresina, do Beresina a Vilna, independentemente do frio mais ou menos intenso, em consequência da perseguição que lhe moviam os Russos, dos obstáculos que encontravam no caminho ou de todas as outras circunstâncias isoladamente. Berthier escrevia ao amo nos termos seguintes, e toda a gente sabe quanto se afastam da verdade os chefes que descrevem a situação do seu exercito:
Creio dever levar ao conhecimento de Vossa Majestade
o estado das suas tropas nos vários corpos de exército, o qual pude verificar em diferentes pontos de há dois ou três
dias para cá. Estão por assim dizer em debandada. Os soldados que seguem as bandeiras são apenas a quarta parte dos efectivos em todos os regimentos; os demais marcham isoladamente, em diversas direcções, e por conta própria, na esperança de encontrarem que comer e para se verem livres da disciplina. Em geral consideram Smolensk o ponto onde se reorganizarão. Nestes últimos dias, numerosos soldados deitaram fora as armas e os cartuchos. Perante tal estado de coisas, o serviço de Vossa Majestade exige, sejam, quais forem os objectivos ulteriores, que as tropas se reorganizem em Smolensk, principiando por desembaraçá-las dos não combatentes, ou seja, dos homens a pé, das bagagens inúteis e do material de artilharia, em desproporção com as forças actuais. Além de dias de descanso são necessários mantimentos para os soldados extenuados pela fome e pela fadiga; nos últimos dias morreram muitos nas estradas e nos bivaques. Este estado de coisas vai de mal a pior e faz-nos recear, caso se lhe não dê pronto remédio, não termos mão nas tropas para as obrigar a combater.
9 de Novembro, a trinta verstas de Smolensk.
Ao atingirem Smolensk, para os soldados uma espécie de terra de promissão, matam-se uns aos outros pelo pão para a boca, assaltam os seus próprios armazéns e quando tudo se acaba continuam a sua rota.
Todos caminhavam sem saber porque avançavam nem onde iam e ainda menos do que ninguém o sabia o próprio Napoleão, esse génio, ele que não recebia ordens de quem quer que fosse. Mas nem por isso deixavam de seguir os velhos hábitos, ele e os seus generais; lá continuavam, como sempre, a expedir instruções, mensagens, relatórios, ordens do dia, e a dizer uns para os outros: «Sire, meu primo, príncipe de Eckmühl, rei de Nápoles.» No entanto, todas estas ordens, todos estes relatórios, não passavam do papel. Já nada se executava, porque nada podia ser executado, e, apesar de todos os pomposos títulos que se davam uns aos outros, sentiam que não passavam de pobres e miseráveis criaturas, que muito mal haviam feito, e agora tinham de prestar contas. E, embora se fingissem interessados pelo destino do exército, só numa coisa pensavam, lá no seu íntimo: fugirem o mais depressa que pudessem e salvarem-se, se ainda fossem a tempo.
[XVII]
Os movimentos das tropas russas e francesas durante a retirada de Moscovo ao Niémen fazem lembrar o jogo da cabra-cega. E como se vendassem os olhos dos jogadores, e um deles, de tempos a tempos, tocasse numa sineta a desafiar o outro. De princípio, toca destemido, mas, quando se vê em posição desvantajosa, trata de fugir do parceiro em silêncio; e, no entanto, cai-lhe amiúde nas mãos.
Nos primeiros tempos, os exércitos de Napoleão assinalavam a sua presença: foi isso no início da retirada pela estrada de Kaluga. Mais tarde, quando meteram pela de Smolensk, fugiram, com o badalo da sineta bem seguro, e por mais de uma vez, pensando que escapavam, foram cair no papo dos Russos.
Graças à rapidez da fuga dos Franceses perseguidos pelos Russos, e à fadiga dos cavalos que daí resultava, a melhor maneira de conhecerem, aproximadamente, a posição do inimigo, isto é, os reconhecimentos de cavalaria, era coisa que não existia. Além disso, resultado das mudanças rápidas na situação recíproca dos dois exércitos, as informações, quaisquer que fossem, não chegavam a tempo. Se no dia 2 do mês vinham a saber que e exército inimigo se encontrava no dia 1 em tal sítio, no dia 3, data em que era possível empreender qualquer acção, o dito exército já fizera duas jornadas de marcha e ocupava outra posição,
Um dos exércitos fugia, o outro perseguia-o. A partir de Smolensk, várias eram as estradas que se ofereciam aos Franceses. Era de supor que após quatro dias de permanência ali lhes fosse possível saber com exactidão onde estava o inimigo, permitindo-lhes traçar um plano favorável e tentar nova campanha. Mas, passados esses quatro dias, os bandos escaparam-se pela direita e pela esquerda, sem um movimento definitivo ou um percurso previsto, tomando a antiga estrada, a mais perigosa, a estrada por Krasnoie e Orcha, via já por eles percorrida.
Supondo terem o inimigo na retaguarda, e não na vanguarda, fugiram, deixando entre eles intervalos de mais de vinte e quatro horas de marcha. A frente vinha o imperador, depois os reis e os duques. O exército russo, persuadido de que Napoleão ia meter pela direita e atravessar o Dniepre, aliás a única estrada razoável, seguiu esta direcção, desembocando na estrada real para Krasnoie. E foi ali, como se jogassem a cabra-cega, que os Franceses encontraram a vanguarda russa. Tomados de pânico perante a inesperada aparição, pararam, mas depressa se puseram em fuga, abandonando os que vinham atrás deles. Eis (,orno, durante três dias, passaram corpos separados uns atrás dos outros através da torrente das forças russas, primeiro o do vice-rei, depois o de Davout, em seguida o de Ney, Abandonaram-se mutuamente à sua infeliz sorte, perdendo as bagagens, a artilharia, metade dos homens, fugindo, com um único pensamento: contornarem os Russos pela direita a coberto da noite..
Ney, que, apesar da infeliz situação das tropas , talvez precisamente por essa circunstância, ficara para trás ocupado a fazer saltar as muralhas de Smolensk, que a ninguém incomodavam, só para castigo da terra que determinara a sua perda, era o último a marchar com o seu corpo de dez mil homens. Reunira-se a Napoleão em Orcha, reduzido a mil homens, depois de ter espalhado o resto, bem como os canhões, em marchas nocturnas através dos bosques para alcançar o Dniepre.
De Orcha prosseguiram a sua rota para Vilna, sempre a jogar à cabra-cega com o exército que os perseguia. No Beresina, nova confusão: muitos afogaram-se, outros renderam-se: mas os que conseguiram atravessar o no lá continuaram. Entretanto o seu grande chefe enfiava uma peliça, sentava-se num trenó e fugia sozinho, abandonando os companheiros. Os que puderam fizeram o mesmo, os que não puderam deixaram-se apanhar ou morreram.
[XVIII]
Dir-se-ia que perante esta fuga doida dos Franceses, quando eles faziam tudo para se perderem a si mesmos, quando todos os seus movimentos, desde o desvio pela estrada de Kaluga até à fuga atrás do chefe do exército, eram desprovidos de qualquer bom senso, dir-se-ia que, ao menos, para este primeiro período da campanha, os historiadores, que atribuem a acção das massas à vontade de um só homem, confessassem o erro das suas teorias ao descreverem esta retirada. Montanhas de livros se escreveram sobre esta campanha e em toda a parte se encontram exaltadas as disposições tomadas por Napoleão, a argúcia dos seus planos e das suas manobras e o génio dos seus marechais.
Explicam-nos, por uma série de profundos raciocínios, o motivo da retirada dos Franceses de Maloiaroslovets por uma estrada devastada quando se lhes deixava a passagem livre por uma região rica em abastecimentos e se lhes oferecia o caminho paralelo que seguiu posteriormente Kutuzov para os perseguir. Também se nos explica assim a retirada de Smolensk para Orcha. Em seguida traçam-nos um quadro do comportamento heróico de Napoleão em Krasnoie, onde, ao que parece, teve intenção de travar batalha e pôr-se à frente das suas tropas. E mostram-no-lo de um lado para o outro, com uma vara de olmo na mão, dizendo
— Já estou farto de fazer de imperador, é tempo de fazer de general. — O que o não impediu, pouco depois, de prosseguir na fuga, abandonando à sua triste sorte todos os corpos de exército dispersos que o seguiam.
Descrevem-nos igualmente a bravura dos marechais, particularmente a de Ney, bravura que se limitou a operar um desvio pela floresta a fim de atravessar o Dniepre de noite e fugir na direcção de Orcha, depois de perder as bandeiras, a artilharia e nove décimos dos efectivos.
Enfim, o abandono pelo grande imperador do seu heróico exército é-nos apresentado como uma grande acção e um rasgo de génio. Até mesmo o empreendimento final da sua fuga, que em qualquer língua só pode ter um nome, a última das cobardias, acto que envergonharia uma criança, até mesmo isso encontra a sua justificação na pena dos historiadores.
Quando já lhes não é possível estenderem mais o fio elástico dos raciocínios, quando o acto é realmente contrário ao que os homens chamam o bem e a justiça, recorrem. à míngua de argumentos. à noção de grandeza. A grandeza parece excluir a possibilidade de apreciar o bem e o mal. O mal não existe para o que é grande. Quem é grande nunca poderá ser acusado de uma atrocidade.
«É grande!», dizem os historiadores, e então deixa de existir o bem e o mal, para só haver o que é grande e o que não é grande. O que é grande é o bem, o que não é grande é, o mal. O grande é, segundo eles, privilégio de indivíduos especiais que recebem a classificação de heróis. Napoleão, muito bem embrulhado numa peliça, volta para casa, deixando morrer não só companheiros, mas pessoas que, assim ele o confessou, arrastara atrás de si. Para si mesmo diz: sou o grande, e a alma tranquiliza-se-lhe.
«Do sublime ao ridículo vai apenas um passo», dizia Napoleão, e o sublime era ele próprio. E de há cinquenta anos para cá o universo inteiro repete: «Sublime! Grande! Napoleão, o Grande! Do sublime ao ridículo vai apenas um passo!»
E a ninguém ocorre que confessar que a grandeza está para além do bem e do mal é como reconhecer ao mesmo tempo a sua inferioridade e a sua infinita pequenez. Para nós, que recebemos de Cristo a medida do bem e do mal, nada existe fora dessa medida. Não há autêntica grandeza sem espontaneidade, bondade e verdade.
[XIX]
Haverá algum russo que ao ler as descrições do último período da campanha de 1812 não tenha experimentado um penoso sentimento de despeito, descontentamento e inquietação? Quem não terá perguntado a si próprio: porque não fizeram prisioneiros, porque não exterminaram todos os franceses, tendo três exércitos muito superiores em número a cercá-los, e eles, em debandada, morrendo de fome e de frio, se entregavam em massa, e sabendo nós, assim no-lo diz a história, que o objectivo dos Russos era precisamente deter, cortar a retirada e capturar todos os franceses?
Como se explica que o exército russo, menos numeroso que o francês, tenha travado a batalha de Borodino e não haja atingido o seu objectivo quando cercava o inimigo por três lados e a sua intenção era aniquilá-lo? Tinham então os Franceses tão grande superioridade sobre nós que os não podíamos bater mesmo cercados por forças esmagadoras? Como pôde acontecer uma coisa destas?
A história, pelo menos a que se vangloria de tal nome, responde que a culpa foi de Kutuzov, Tormassov, Tchitchagov, deste e daquele, que não fizeram estes ou aqueles movimentos.
Mas porque não fizeram eles esses movimentos? Partindo do princípio de que eram culpados de não terem sabido atingir o objectivo previsto, porque não foram eles submetidos a conselho de guerra e devidamente castigados? E, se se admite que Kutuzov, Tchitchagov e os outros são culpados de tais reveses, não se compreende, mesmo nas condições em que se encontravam as tropas russas em Krasnoie e no Beresina — e em ambos os casos a sua superioridade era esmagadora —, não se compreende porque o exército francês não foi capturado com os seus marechais, os seus reis e o seu imperador, uma vez que essa era a finalidade dos Russos.
A explicação deste facto estranho, dada pelos historiadores russos, qual seja que Kutuzov se teria oposto ao ataque, cai pela base, pois toda a gente sabe que a vontade do general-chefe não evitara o ataque em Viazma e em Tarutino.
Porque é que este exército russo, que, com forças inferiores, em Borodino, alcançou uma vitória sobre um inimigo em pleno vigor, veio a ser vencido por bandos desorganizados de franceses em Krasnoie e no Beresina, quando dispunha, então, de superioridade esmagadora?
Se o objectivo dos Russos era cortar a retirada ao exército francês e aprisionar o imperador e os seus marechais, o certo é que esse objectivo não só não foi alcançado, como todos os esforços no sentido de o conseguir foram malogrados de maneira lamentável, de tal modo que o último período da campanha se apresenta, com justa razão, como uma série de vitórias dos Franceses e que os historiadores russos se enganam redondamente ao considerá-lo vitorioso.
Os historiadores russos, forçados a admitir a lógica, chegam fatalmente a esta conclusão, e a verdade é que, não obstante as suas pomposas frases sobre a coragem e a dedicação, se vêem obrigados a admitir que a retirada de Moscovo é assinalada por uma série de vitórias de Napoleão e de derrotas de Kutuzov.
No entanto, pondo de parte todas as questões de amor-próprio nacional, sente-se que esta conclusão encerra em si uma contradição, pois essa série de vitórias levou os Franceses ao aniquilamento total, enquanto as derrotas dos Russos os levaram ao esmagamento do inimigo e à libertação da Pátria.
A razão desta contradição está no facto seguinte: que os historiadores, que estudam os acontecimentos de harmonia com a correspondência dos imperadores e dos generais e segundo relatórios, relações ou planos, pressupõem um objectivo errado, que nunca existiu no período final da guerra de 1812, o qual era cortar a retirada aos exércitos franceses e capturar Napoleão com os seus marechais. Nunca existiu semelhante objectivo, nem podia existir, visto não ter o mais pequeno sentido e ser absolutamente impossível de alcançar.
Semelhante finalidade não tinha o mais pequeno sentido, primeiro porque o exército derrotado de Napoleão fugia da Rússia o mais depressa que podia, isto é, procedia exactamente de acordo com os desejos dos Russos.
Para quê operações contra os Franceses, quando eram eles próprios quem retirava a toda a pressa?
Em segundo lugar, era absurdo cortar a retirada a quem se empenhava em fugir com toda a força.
Em terceiro lugar, era estúpido sacrificar as próprias forças para esmagar os exércitos franceses, os quais, sem causas exteriores, desapareciam numa proporção tal que, sem que se opusesse qualquer obstáculo à sua fuga, se lhes tornava mesmo assim impossível transpor a fronteira (como o vieram a conseguir em Dezembro) senão reduzidos à centésima parte dos seus efectivos.
Em último lugar, o projecto para aprisionar o imperador, os reis e os duques era ridículo, pois a captura de tais personalidades só teria servido para prejudicar a política russa, como o reconheceram os melhores diplomatas da época. Joseph de Maistre e outros. E ainda era mais insensato quererem os Russos apoderar-se dos corpos franceses quando as tropas russas estavam reduzidas a metade antes de Krasnoie e seria precisa uma divisão de escolta para guardar os prisioneiros, quando era certo que os soldados russos nem sempre tinham a sua ração completa e que os franceses já capturados morriam de fome.
Esta profunda concepção segundo a qual se deveria cortar a retirada aos exércitos franceses e aprisionar Napoleão faz lembrar a atitude de um hortelão que para enxotar o gado que lhe espezinha a horta corre à porta da quinta e se põe a bater na cabeça dos animais. Só um excesso de ira justificaria semelhante atitude. Mas nem isto era de invocar para justificação dos autores do projecto, pois a verdade é que não tinham tido sequer o horto espezinhado.
Aliás, cortar a retirada a Napoleão e ao seu exército era uma operação não só absurda, mas impossível.
Impossível, primeiro, porque, se é verdade que a experiência ensina que um movimento executado a cinco verstas de um campo de batalha nunca se harmoniza com o plano primitivo, era tão inverosímil que Tchitchagov, Kutuzov e Wittgenstein chegassem a tempo ao local determinado que pode dizer-se impossível. Tal a opinião de Kutuzov ao saber da existência do plano, dizendo que uma diversão a grandes distâncias não pode dar o resultado esperado.
Em segundo lugar, impossível porque, para se conseguir paralisar a força da inércia que fazia recuar o exército francês, era preciso dispor de tropas a incomparavelmente superiores àquelas que os Russos tinham.
Em terceiro lugar, ainda impossível porque a expressão militar de «cortar a retirada» a um exército não tem sentido. Pode cortar-se um bocado de pão, mas um exército, de maneira nenhuma. Cortar a retirada a um exército, isto é, cortar-lhe o caminho, não é coisa que se possa fazer, pois há sempre maneira de contornar o obstáculo, e há a noite, durante a qual todo e qualquer movimento se torna desapercebido, coisa de que os especialistas militares Puderam persuadir-se graças a Krasnoie e ao Beresina. É absolutamente impossível aprisionar seja quem for, a menos que o aprisionado consinta, pela mesma razão de que então é possível apanhar uma andorinha, a não ser que ela venha pousar na nossa mão. Capturam-se aqueles que se entregam, como os Alemães, segundo as regras da estratégia e da táctica. Mas os Franceses não viam nisso vantagem alguma, pois em fuga ou capturados só a fome e o frio os esperavam.
Em quarto lugar, sobretudo, deve considerar-se que desde que o mundo é mundo nunca houve guerra em condições tão terríveis como a de 1812, e que os exércitos russos, para perseguirem os Franceses, haviam posto em jogo todas as suas forças e não podiam fazer mais sem se aniquilarem a si próprios.
Durante a sua marcha de Tarutino para Krasnoie, os Russos Perderam cinquenta mil doentes e retardatários, quer dizer, um número de homens igual à população de uma importante cidade de província. Metade do exército perdeu-se, sem combate.
A propósito deste período da campanha em que as tropas, sem botas e sem agasalhos, com abastecimentos insuficientíssimos, sem vodka, tiveram de passar as suas noites, durante meses, no meio da neve, com temperaturas de quinze graus negativos em que os dias apenas tinham sete ou oito horas de luz solar e as noites eram sem fim, o que tornava impossível toda a disciplina eficaz: em que os homens, não como numa batalha, onde não vêem a morte diante dos olhos senão durante algumas horas, Passavam meses inteiros receando, a cada instante, morrer de fome e de frio; em que, no decurso de um mês, metade do exército soçobrou, a este propósito vêm os historiadores contar-nos tranquilamente como Miloradovitch se viu obrigado a fazer uma marcha de flanco em tal sítio, Tormassov em tal outro e Tchitchagov se viu forçado a deslocar-se para determinado ponto, deslocação levada a cabo com neve para cima dos joelhos dos homens, e como fulano caiu em cima do inimigo e lhe cortou a retirada, etc.
Os Russos, reduzidos, por morte, a metade dos seus efectivos, fizeram tudo o que puderam e deviam fazer para atingir um objectivo digno e a culpa não é sua se outros russos houve que, fechados em quartos confortáveis, gizaram planos que se não podiam pôr em prática.
Esta contradição estranha, que se não compreende nos nossos dias, entre os factos e as descrições dos historiadores resulta apenas de estes terem querido fazer a história dos belos discursos de certos generais em vez de contarem os acontecimentos.
Interessante para eles são as palavras de Miloradovitch, as condecorações recebidas por este ou por aquele general, os planos propostos. Os cinquenta mil desgraçados que ficaram nos hospitais ou caíram por terra não lhes interessam, porque não dizem respeito aos seus estudos.
E, no entanto, basta voltarmos as costas ao exame dos relatórios e dos planos para vermos remexer essas centenas de milhares de homens que tomaram parte directa e imediata nos acontecimentos e tudo o que anteriormente nos parecia insolúvel se nos apresentar desde logo como a solução mais fácil e mais simples.
O intento de cortar a retirada a Napoleão e ao seu exército apenas existiu na imaginação de meia dúzia de indivíduos. Era irrealizável, por absurdo e impossível.
O povo só queria uma coisa: libertar o solo pátrio da invasão. Esse objectivo alcançou-se, primeiro sem a intervenção fosse de quem fosse, visto que os Franceses fugiam e bastava deixá-los fugir; em segundo lugar, graças à guerra patriótica que exterminava os Franceses; e por fim porque um poderoso exército russo seguia de perto o inimigo, pronto a utilizar a força caso os Franceses parassem no caminho.
O exército russo devia agir como o chicote no dorso do animal que foge. E os pastores hábeis sabem que a melhor maneira de conduzir o gado é segurar o chicote ameaçador no ar sem fustigar a cabeça dos animais.