Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 16 de 18 · parte 3/3

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Guerra e Paz

Epílogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

As mulheres de idade, além de estarem muito satisfeitas com as lembranças que ele lhes trouxera, sentiam-se felizes por ver Natacha retomar a sua boa disposição.

Pedro dava por todas estas diferenças no acolhimento que recebia de toda aquela gente e procurava contentá-la.

Pedro, o homem mais distraído e esquecido que existia, comprara, de acordo com um rol feito pela mulher, tudo o que era necessário, sem esquecer as encomendas da mãe e do irmão, nem o tecido para o vestido de Madame Bielova, nem os brinquedos para os sobrinhos. Nos primeiros tempos do seu casamento, esta exigência da mulher nada esquecer do que era preciso comprar— parecera-lhe estranha e surpreendeu-se muito ao vê-la zangada e muito vermelha quando, da primeira vez que se ausentara, se esquecera, efectivamente, de tudo. Mas depois habituou-se.

Sabendo que Natacha nada lhe pedia para ela própria e que só o encarregava de trazer coisas para os outros quando ele se oferecia. Pedro experimentava agora um prazer infantil, que estava longe de imaginar, em encarregar-se de comprar todas estas lembranças e nunca se esquecia de ninguém. Se porventura ,acontecia a mulher repreendê-lo era apenas porque adquiria coisas em excesso e demasiadamente caras. A todos os seus restantes defeitos, na opinião da maior parte das pessoas, como desleixo no vestir, qualidade aos olhos de Pedro, juntava agora Natacha o ser também avarenta.

Desde que vivia em família, e família que obrigava a grandes despesas. Pedro notara, com grande surpresa, que despendia duas vezes menos que anteriormente e que a sua fortuna, afectada nos últimos tempos, sobretudo por causa das dívidas da sua primeira mulher, principiava a restabelecer-se.

As suas despesas tinham diminuído porque levava uma vida mais regular. Vira-se livre do luxo a que o obrigava a mudança constante de trem de vida e o certo é que de maneira nenhuma desejaria voltar atrás. Costumava dizer de si para consigo que daí em diante e até ao fim dos seus dias tudo seria imutável m sua vida, que não estava nas suas mãos mudar fosse o que fosse nos seus hábitos, e era isso que diminuía muito as suas

Radiante. Pedro ia abrindo os seus embrulhos.

— É bonito, não é? — exclamava, desdobrando um corte de tecido como um mercador que elogia a mercadoria.

Natacha, sentada diante dele, com a filha mais velha rios joelhos, ia olhando, com os olhos muito vivos, ora o marido ora o que ele mostrava.

— Este é para Madame Bielova? Muito bem. — E apalpava o tecido para apreciar a qualidade. — Foi a um rublo a archina, não é verdade?

Pedro disse o preço.

— É caro — observou Natacha.— Muito vão gostar as crianças, e a mãe também. Mas fizeste mal em comprares-me isso — acrescentou, mirando, sorridente, uma travessa de ouro, cravejada de pérolas, como então se usava.

— Foi Madame Adèle quem insistiu para que eu a comprasse — explicou ele. — «Compre, compre», disse-me ela.

— Quando terei ocasião de a pôr? — murmurou Natacha, pondo-a na cabeça. — Será para a Machenka quando for senhora. Talvez ainda então estejam na moda. Bom, agora vamos.

Depois de juntarem as prendas, dirigiram-se em primeiro lugar ao quarto das crianças, depois aos aposentos da condessa. Esta, como de costume, na companhia de Madame Bielova, entregava-se à tarefa de fazer paciências, quando Pedro e Natacha entraram no salão com os embrulhos debaixo dos braços.

Já fizera sessenta anos a condessa. Tinha os cabelos todos brancos e sobre eles usava uma touca cuja fita lhe passava por debaixo do queixo. Muito cheia de rugas, tinha o lábio superior metido para dentro e os olhos nublados.

Depois da morte do filho e do marido, sucessivamente e num curto espaço de tempo, vivia sob a impressão de estar esquecida neste mundo, já sem finalidade e sem razão de ser. Comia, bebia, dormia, velava, mas realmente não vivia. A vida já lhe não dava qualquer sensação, boa ou má. Só dela esperava descanso, e esse descanso apenas o podia encontrar na morte. Mas como a morte ainda não chegara, não tinha remédio senão ir vivendo enquanto esperava ou pelo menos ir-se servindo do que lhe restava de vida. Nela se notava em alto grau o que sempre pode observar-se nas crianças de tenra idade ou nas pessoas muito idosas. Dir-se-ia não ter qualquer objectivo exterior à sua própria vida, mas apenas a necessidade de pôr em acção as suas diversas inclinações e aptidões. Precisava de comer, de dormir, de reflectir, de conversar, de chorar, de fazer pequenos trabalhos, de se encolerizar, somente porque tinha estômago, cérebro, músculos, nervos ou fígado. Todos estes actos os realizava ela sem a isso ser provocada por qualquer coisa de exterior, ao contrário das pessoas na força da vida, que desenvolvem actividade na medida em que podem alcançar o objectivo que visaram. Não falava, por exemplo, senão por necessidade física de utilizar os pulmões e a língua. Como uma criança, chorava pela necessidade que tinha de se assoar. O que para os outros era um fim, para ela era mero pretexto.

Eis porque, pela manhã, quando se dava o caso de ter comido na véspera qualquer coisa pesada, sentia a necessidade de se encolerizar e então servia-se do primeiro pretexto que lhe aparecia, como a surdez de Madame Bielova.

Da outra extremidade da sala, dizia-lhe, por exemplo, em voz baixa:

— Quer-me parecer que hoje está mais calor, minha querida.

E Madame Bielova respondia-lhe:

— É verdade, chegaram!

Então ela resmungava, num assomo de ira:

— Meu Deus, que surda e que estúpida!

Outro pretexto para se encolerizar era o rapé, que ora lhe parecia demasiadamente seco ora demasiadamente húmido ou mal raspado. Estes acessos de ira faziam-lhe afluir a bílis ao rosto e as criadas tinham assim indícios certos de quando voltaria Madame Bielova a estar surda e húmido o rapé. Assim como tinha necessidade de fazer circular a bílis, também precisava, de tempos a tempos, de exercitar o que ainda lhe restava de inteligência, e para isso recorria às paciências. Se precisava de chorar, tinha à sua disposição o falecido conde. Se precisava de preocupações, tinha Natacha e a saúde dela. Se porventura carecia de dizer coisas desagradáveis, ali estava a condessa Maria. Se precisava de pôr à prova os seus órgãos vocais, o que em geral acontecia, depois da sesta, no quarto penumbroso, o pretexto era contar sempre as mesmas histórias ao mesmo auditório.

Toda a gente compreendia o estado da velha condessa, embora ninguém falasse disso, e todos procuravam esforçar-se por lhe satisfazer os desejos. Apenas certos olhares ou alguns tristes sorrisos trocados entre Nicolau, Pedro, Natacha ou Maria davam a perceber que compreendiam a situação.

Estes olhares ainda queriam dizer outra coisa. Diziam que ela chegara ao fim da sua tarefa nesta vida, que nem sempre fora o que era agora, que todos nós chegaremos um dia a ser como ela, e que deviam dar graças a Deus por aturar-lhe os caprichos, suportando essa criatura outrora tão querida, outrora tão cheia de vida como eles e agora digna de piedade. Com essa troca de olhares queriam apenas dizer, memento morí.

E em casa só as pessoas más ou pouco inteligentes, ou então as crianças, não compreendiam isso e troçavam da condessa.

 

[XIII]

Quando Pedro e a mulher chegaram ao salão, a condessa, como de costume, estava ocupada, a exercer as suas faculdades intelectuais numa grande paciência, Embora tivesse por hábito repetir, sempre que Pedro ou o filho voltavam de fora, invariavelmente, as mesmas palavras: «Já era tempo, meu filho: muito temos esperado. Enfim! Louvado seja Deus!», ou então, quando lhe entregavam uma lembrança: «Não é pelo presente, meu filho... Obrigado por teres pensado numa velha como eu...», desta vez era notório que o regresso de Pedro lhe não dava satisfação alguma, pois a obrigava a interromper a paciência. Dando-a por finda, dedicou então a sua atenção aos presentes, Estes eram um lindo estojo com um baralho de cartas, uma chávena de porcelana de Sèvres, azul-claro, em cujo pires havia um friso de pastorinhas, e uma tabaqueira de ouro com o retrato do conde, que Pedro encomendara a um miniaturista de Petersburgo, objecto que a condessa há muito ambicionava. Como não queria chorar naquela altura, deixou de lado o retrato e interessou-se, principalmente, pelo estojo,

— Obrigada, meu amigo, deste-me muita satisfação — disse-lhe ela, repetindo o que dizia sempre. — Mas o melhor de tudo foi teres voltado. Não calculas o que por cá vai quando tu não estás. Tens de ralhar com a tua mulher. Que significa, isto? Sem ti anda como doida. Nada vê, de nada se lembra. Olha para isto, Ana Timofeievna — acrescentou —, que ]indo estojo o nosso filho nos trouxe.

Madame Bielova elogiou os lindos presentes e admirou a sua riqueza.

Pedro, Natacha, Nicolau, a condessa Maria, Denissov, todos tinham muita coisa a dizer mas não diante da velha condessa, não para esconderem dela qualquer coisa, mas porque a pobre senhora estava sempre tão longe da maior parte dos assuntos que eles viam-se obrigados a responder a mil e uma perguntas. Às vezes nada oportunas, e a repetir o mesmo muitas vezes, explicando-lhe que este morrera, aqueloutro casara, coisas que ela não havia maneira de compreender. Apesar disso, todos se reuniram, como de costume, no salão, em volta do samovar, e Pedro viu-se obrigado a responder a várias perguntas supérfluas, que a ninguém interessavam e que a condessa lhe fez, inquirindo se o príncipe Vassili estava mais velho, se a condessa Maria Aleksieevna se lembrava dela e se lhe mandara cumprimentos, etc.

Esta conversa, para todos enfadonha, mas obrigatória, ocorreu durante o chá. Em volta da mesa redonda do samovar, presidida por Sónia, reuniam-se, todos os adultos. As crianças, as preceptoras e os preceptores já tinham tomado chá e tagarelavam na sala vizinha. Cada um dos presentes ocupava o seu lugar habitual. Nicolau estava junto do fogão, diante da mesinha onde era servido, Deitada junto dele, numa poltrona, via-se a velha cadela Milka, filha da primeira Milka, com o focinho todo branco, onde avultavam uns grandes olhos negros. Denissov, de cabelos frisados, bigodes e suíças grisalhos, estava ao pé da condessa Maria, o dólman de general desabotoado. Pedro sentava-se entre a mulher e a condessa velha. Contava-lhes coisas que, pensava ele, talvez pudessem interessar à pobre senhora e que ela seria capaz de compreender. Referia-lhe toda a sorte de acontecimentos mundanos, a respeito de pessoas que outrora tinham pertencido ao seu meio, meio então cheio de vida e actividade, mas que, actualmente, quase todas dispersas pelo mundo, findavam os seus dias como ela, colhendo as últimas sementes da rica sementeira da mocidade. O certo é que estes contemporâneos da velha condessa, a seus olhos, eram a única gente séria que em verdade ainda existia no mundo. Pela expressão animada do marido, Natacha podia depreender quão interessante fora a sua viagem, e que muitas coisas teria a contar se tivesse ousado fazê-lo diante da condessa. Denissov, que não era da família e que por conseguinte não podia acompanhar a descrição de Pedro, interessava-se muito, homem descontente que era, pelo que se passava em Petersburgo, instigando Bezukov, constantemente, a que lhe fornecesse pormenores quer sobre a história recente do regimento Semionovski, quer sobre Araktcheiev, quer sobre a sociedade bíblica, Pedro, uma vez por outra, deixava-se conduzir e principiava a contar, mas Nicolau e Natacha lã estavam que logo o forçavam a repetir o que havia sobre a saúde do príncipe Ivan ou da condessa Maria Antonovna.

— E que vêm a ser todas essas loucuras de um tal Gossner e da Tatarinovna? — perguntava Denissov, — Isso continua?

— Se continua? — exclamou Pedro. — Evidentemente. A sociedade bíblica, mas é o governo em peso!

— Que queres dizer, meu caro amigo? — interrompeu a condessa, que, tendo acabado de tomar o seu chá, procurava agora um pretexto para zangar-se. — Que estás tu para aí a dizer do governo? Não percebo nada.

— Sim, mãe, a mãe sabe — interveio Nicolau, ciente de como deviam traduzir-se aquelas novidades na língua da velha condessa. — Foi o príncipe A. N. Galitsine quem organizou uma sociedade; e dizem que muito poderosa.

— Araktcheiev e Galitsine — explicou Pedro, imprudentemente. — O governo agora são eles. E que governo! Vêem conspirações por todo o lado, têm medo de tudo.

— Quê? O príncipe Alexandre Nikolaievitch, de que o acusam? É um homem às direitas. Conheci-o, noutros tempos, em casa de Maria Antonovna — replicou a condessa, mortificada. E ofendida porque todos se calavam, continuou:— Não é bonita essa maneira de acusar toda a gente. Que mal pode haver numa sociedade evangélica?— E levantou-se, no que todos a imitaram, afastando-se, com uma expressão severa, para sentar-se diante de uma mesa na sala contígua.

Houve um silêncio embaraçoso, de repente interrompido por vozes e gargalhadas das crianças na sala ao lado, Era evidente que alguma coisa de invulgar acontecera entre a criançada.

— Pronto! Pronto! — gritava a pequenina Natacha mais alto que todas as outras crianças,

Pedro relanceou um olhar à condessa Maria e a Nicolau — entretanto não perdia de vista Natacha — e sorriu de contentamento.

— Que linda música! — exclamou.

— Foi a Ana Makarovna quem acabou as meias — disse a condessa Maria.

— Vamos ver! — propôs Pedro, levantando-se de um salto. Sabes porque gosto tanto desta música? — acrescentou, detendo-se à porta. — São eles os primeiros a anunciar-me que tudo corre bem. Hoje, quando cheguei, à medida que me aproximava de casa, crescia o receio em mim. Mas mal entrei no vestíbulo, que ouço eu? Andriucha na às gargalhadas e pensei: «Então tudo corre bem...»

— Sim, tens razão, já sei o que é — confirmou Nicolau. — Não preciso de lá ir. As meias são uma surpresa para mim. Pedro entrou na sala das crianças; os gritos e os risos cresceram.

— Então? Ana Makarovna! — dizia a voz de Pedro — Chega-te aqui para o meio da sala. Sou eu quem manda. Quando eu disser: um, dois, três, põe-te aqui neste lugar e mostra as tuas mãos. Bom, comecemos — e depois de uma curta pausa: — um, dois, três!...

— Duas! Duas! — gritaram as crianças entusiasmadas. Tratava-se das duas meias que Ana Makarovna, graças a um segredo só dela, sabia fazer ao mesmo tempo. No fim, terminado o trabalho, retirava uma das meias de dentro da outra, solenemente, na presença das crianças.

 

[XIV]

Pouco depois, as crianças entraram no salão para dar as boas-noites. Beijaram toda a gente; preceptores e preceptoras, com uma vénia, saíram. Apenas ficou Dessales com o seu aluno. Dessales, em voz baixa, disse entretanto a Nikolenka, ainda no salão, que se retirasse.

— Não, Monsieur Dessales, vou pedir à minha tia para me deixar ficar — replicou Nikolenka, em voz baixa também.

E dirigindo-se à tia:

— Tia, consente que eu fique?

Havia uma expressão de súplica no rosto emocionado da criança. A condessa Maria, ao vê-lo tão agitado, não pôde deixar de dizer a Pedro:

— Quando o Pedro aqui está, não pode separar-se de si.

— Eu já lho levo, Monsieur Dessales; boa noite — disse Pedro, apertando a mão do preceptor suíço: depois, sorrindo, dirigiu-se à criança: — Efectivamente ainda não nos tínhamos visto. Oh, Maria, que parecido ele está... — acrescentou.

— Com meu pai? — inquiriu o rapazinho, que corou muito, enquanto olhava Pedro dos pés à cabeça, com olhos brilhantes e cheios de entusiasmo.

Pedro respondeu com um aceno de cabeça afirmativo e prosseguiu a conversa interrompida. A condessa Maria trabalhava ao bastidor; Natacha seguia o marido com os olhos. Nicolau e Denissov levantaram-se, pediram os respectivos cachimbos, acenderam-nos, enquanto Sónia, triste e obstinadamente sentada ao lado do samovar, lhes servia chá. Interrogavam Pedro sobre a viagem. Nikolenka, com o seu ar enfermiço, o cabelo encaracolado e os olhos brilhantes, permanecia sentado a um canto, sem que ninguém desse por ele. De quando em quando voltava para Pedro a cabeça encaracolada e o pescoço delgado, que emergia do colarinho revirado da camisa, e estremecia, murmurando fosse o que fosse para si mesmo, como se experimentasse um sentimento violento e novo.

A conversa girava em torno das intrigas das altas esferas administrativas, onde em geral se concentra todo o interesse da política interna de um pais. Denissov, descontente com o governo por causa dos seus fracassos no serviço, saboreava com prazer todos os disparates que, segundo ele, se estavam a praticar em Petersburgo, comentando o que dizia Pedro em termos enérgicos e duros.

— Antigamente era preciso que uma pessoa fosse alemã, agora é necessário dançar com a Tatarinova e Madame de Küdner, ler... Eckartsliausen e quejandos. Ah! Não aparecer ai outra vez o nosso valente Bonaparte. Acabava-lhes com a parvoíce. Parece impossível, confiarem a um alemão o regimento Semionovski! — vociferava ele.

Embora Nicolau não tendesse, como Denissov, a achar tudo reprovável, o certo é que também considerava coisa importante e digna de atenção criticar o governo a propósito da nomeação de Fulano para ministro ou de Sicrano para governador de tal província, ou o que dissera o imperador ou certo ministro. Graças à intervenção destes dois interlocutores, a conversa ficou-se pela intriga habitual dos meios administrativos.

Natacha, que conhecia os mínimos gestos e pensamentos do marido, adivinhou que ele teria desejado conduzir a conversa noutro sentido e abordar o objecto da sua preocupação íntima — o assunto que o levara a Petersburgo para se aconselhar com o seu novo amigo, o príncipe Fedor— e, perguntando-lhe em que situação estavam as coisas, conseguiu o que ele desejava.

— De que se trata? — perguntou Nicolau,

— Da mesma coisa de sempre — respondeu Pedro olhando em torno de si. — Toda a gente reconhece que as coisas vão mal, que isto não pode durar e que o dever de todo o homem de bem é reagir na medida das suas forças.

— E que podem fazer os homens de bem? — interrogou Nicolau, franzindo ligeiramente as sobrancelhas.— Que é possível fazer?

— Aí está...

— Vamos para o meu gabinete — disse Nicolau.

Natacha, sempre à espera que a chamassem para dar de ma— mar ao bebé, ao ouvir a voz da criada dirigiu-se para o quarto das crianças. A condessa Maria acompanhou-a— Os homens encaminharam-se para o gabinete e Nikolenka Bolkonski, sem o tio dar por isso, seguiu atrás deles, sentando-se, no escuro, perto da janela, junto da secretária do tio,

— Bom, que propões tu? — perguntou Denissov.

— Sempre as mesmas quimeras! — comentou Nicolau.

— Bom, trata-se do seguinte — principiou Pedro, sem se sentar, caminhando de um lado para o outro, ou detendo-se bruscamente, com silvos na voz e gestos bruscos. — Trata-se da situação em Petersburgo. O imperador já de nada quer saber. Está inteiramente entregue ao misticismo. (Pedro, por então, não perdoava a ninguém tendências místicas.) Só pensa no sossego próprio e esse sossego só o pode conseguir graças a essas criaturas sem, eira nem beira, que perseguem e oprimem toda a gente, os Magnitski, os Araktcheiev e tutti quanti — Tens de concordar que se te não ocupasses pessoalmente das tuas terras e apenas quisesses viver sossegado, quanto mais cruel fosse o teu administrador tanto mais facilmente conseguirias o que desejavas, não é verdade? — disse Pedro, dirigindo-se a Nicolau.

— Sim, claro, isto é — — balbuciou este.

— Por conseguinte, tudo vai por terra. Nos tribunais prevarica-se; no exército reina a violência: o passo de parada, as colónias militares. O povo vive tiranizado; toda a cultura está asfixiad2. Tudo que é novo, tudo que é honesto, é perseguido. Todos compreendem que isto não pode durar muito. Está muito esticada a corda e terá de acabar por partir-se. — Pedro falava como ,s fala sempre que se julgam os actos de qualquer governo desde que no mundo há governos. — E aqui têm o que eu lhes disse em Petersburgo.

— A quem? — perguntou Denissov.

— Sabes bem a quem me refiro — replicou Pedro, olhando-o com um olhar significativo —: ao príncipe Fedor e a todos os outros. Fomentar a instrução é excelente, bem entendido, É um belo programa, e pronto. Mas nas circunstâncias presentes é precisa outra coisa.

Nesta altura Nicolau deu conta de que o sobrinho os acompanhara. Afivelando uma expressão sombria, aproximou-se dele.

— Que fazes tu aqui?

— Deixa-o! — interveio Pedro, e travando-lhe do braço continuou. — Não basta — disse-lhes eu —, agora é precisa outra coisa. Visto estarem todos para ai, sem bulir um dedo, à espera que a corda se parta, e visto que todos são de opinião de que vai dar-se uma inevitável catástrofe, e preciso que o maior número possível de homens se encontre reunido e de mãos dadas para resistir à convulsão geral. Toda a juventude, toda a forca e sente para ali atraída, e ali se corrompe, A este são as mulheres que o perdem: àquele o favoritismo àqueloutro a vaidade e o dinheiro, e assim passam para o outro campo. Pessoas independentes e livres como vocês e eu já não existem. Disse-lhes: ampliai a vossa esfera de acção, que a vossa palavra de ordem não ,c.a apenas a virtude, mas a independência e a actividade.

Nicolau que esquecera completamente o sobrinho, puxou duma cadeira, num gesto brusco, sentou-se e, enquanto ouvia Pedro, o seu descontentamento acentuava-se, tossindo e franzindo cada vez mais as sobrancelhas.

— E qual o objectivo dessa actividade? — exclamou. — Quais serão as vossas relações com o governo?

— As nossas relações? As de verdadeiros colaboradores. Se o governo reconhecer a nossa sociedade, não precisa de ser secreta. Não só lhe não será hostil, como será formada de autênticos conservadores. Será uma associação de cavalheiros em toda a acepção da palavra. Estaremos presentes para impedir que um Pugatchov acabe por estrangular os teus filhos e os meus e que um Araktcheiev me mande para uma colónia militar, Para isso mesmo nos uniremos, com esse objectivo único: o bem e a segurança de todos.

— Sim, mas será uma sociedade secreta, e por conseguinte hostil ao governo e prejudicial portanto. Só poderá vir a fazer mal.

— Porquê? A Tugendbund, que salvou a Europa — ainda então ninguém ousava dizer que fora a Rússia que a salvara —, fez algum mal? A Tugendbund, pelo contrário, é a linha da virtude, é o amor, a assistência mútua, o que Cristo pregou na cruz...

Natacha, que entrara no meio da discussão, contemplava o marido, desvanecida. No eram as suas palavras que a comoviam. Nem sequer lhe interessavam. Era tão simples o que ele dizia! De há tanto conhecia as suas ideias! De resto, sabia sempre de antemão o que emanava da sua alma. Se estava desvanecida, era apenas em virtude da animação e do entusiasmo que lhe via no rosto.

Esquecido por todos, Nikolenka contemplava Pedro com uma expressão de alegria e entusiasmo ainda mais viva do que a de Natacha. As palavras de Pedro inflamavam-lhe o coração. Enquanto ouvia ia quebrando, num gesto maquinal, a cera e as penas que estavam em cima do tampo da secretária do tio.

— Não se trata, de resto, exactamente do que tu pensas: eis o que era a Tugendbund alemã e aquilo que eu proponho.

— Sim, sim, filho, isso é bom para os devoradores de salsichas, essa tal Tugendbund. Cá, por mim, não a compreendo, nem a admito — exclamou Denissov, numa voz forte e enérgica. Tudo vai de mal a pior, concordo; mas, quanto a essa Tugendbund, nada percebo. Mas, em compensação, o bund (Jogo de palavras com o vocábulo Bund, que em alemão quer dizer «união» e em russo significa «Sublevação». (N. dos T.) é outra coisa. Eu sou o homem que lhes convém ! (Liga secreta russa. N. dos T.)

Pedro sorriu, e Natacha também, mas Nicolau franziu ainda mais as sobrancelhas, descontente, tentando provar a Pedro não haver que recear qualquer convulsão e que o perigo de que ele falava só existia na sua cabeça. Pedro demonstrou-lhe o contrário e, como sabia melhor e mais habilmente defender a sua tese, não tardou que Nicolau se visse derrotado. Então perdeu a cabeça, e com tanto mais energia quanto era certo lá no fundo, graças a uma intuição mais poderosa que toda a sorte de raciocínios, saber que incontestavelmente tinha razão.

— Pois eu dir-te-ei — exclamou ele, erguendo-se e atirando fora o cachimbo, num gesto brusco — Não posso apresentar-te provas. Entendes que tudo vai mal e que haverá uma revolução, pois eu não vejo as coisas dessa maneira. Dizes que o juramento é coisa convencional. Eis o que te responderia. Tu bem sabes que és o meu melhor amigo. Pois bem: se tu constituísses uma sociedade secreta, se te pusesses a fazer uma política de oposição ao governo, fosse ela qual fosse, o meu dever seria colocar-me ao lado deste. E, supondo que Araktcheiev me dava ordens nessa altura para eu marchar contra vocês à frente de um esquadrão e de vos passar a fio de espada, não hesitaria um segundo. E depois disto podes dizer o que quiseres.

Após estas palavras reinou no gabinete um silêncio embaraçoso. Natacha foi a primeira a falar para defender o marido e atacar o irmão. A sua defesa, posto débil e inábil, atingiu o alvo. A conversa prosseguiu, mas já não naquele tom hostil e irritado que Nicolau lhe imprimira.

Quando se levantaram para cear, Nikolenka Bolkonski aproximou-se de Pedro, muito pálido, os olhos luminosos e cintilantes.

— Tio Pedro... Tu... Não... Se meu pai fosse vivo... seria da sua opinião? — perguntou— lhe.

Pedro compreendeu imediatamente a que complicado, estranho e intenso trabalho se dera, durante a discussão o cérebro do rapazinho. E, recordando-se do que dissera, lamentou que ele o tivesse ouvido. No entanto era preciso responder-lhe.

— Acho que sim — disse, um pouco embaraçado, afastando-se.

O jovem Nicolau baixou a cabeça e foi então que reparou nos estragos que fizera na secretária. Corou e disse para o tio, mostrando-lhe os restos da cera e das penas partidas:

— Desculpe-me, tio, foi sem querer.

— Está bem, está bem — tornou-lhe Nicolau, ainda agitado pela ira, sacudindo tudo aquilo de cima da secretária.

Dominando, a custo, a irritação, acrescentou, enquanto se retirava:

— Nada tinhas que fazer aqui.

[XV]

Durante a ceia não mais se falou de política nem de sociedades secretas. A conversa abordou, com grande satisfação ele Nicolau, as recordações de 1812, que Denissov evocara, e Pedro mostrou-se particularmente bem disposto e inspirado. Quando se separaram, estavam de novo os melhores amigos deste mundo Depois da ceia, Nicolau despiu-se no gabinete, deu ordens ao seu administrador e em seguida, de roupão, dirigiu-se ao quarto de cama onde a mulher ainda estava sentada à secretária a escrever.

— Que estas a escrever. Maria? — perguntou.

A condessa Maria corou. Teve receio de que o marido não aprovasse o que ela escrevia.

Efectivamente desejava esconder-se dele, embora lhe desse satisfação ter sido por ele surpreendida e sentir-se obrigada a desvendar-lhe o seu segredo.

— É o meu diário. — disse ela, mostrando-lhe um caderninho azul, enegrecido pela sua caligrafia miúda e firme.

— Um diário? — exclamou Nicolau, com certa zombaria, pegando no caderno.

Eis o que estava ali escrito em francês:

4 de Dezembro. Hoje, Andriucha, o meu filho mais velho,

ao acordar, não quis vestir-se, e Louise mandou-me chamar.

Tivera um capricho e estava birrento. Tentei repreendê-

lo, mas ainda ficou mais irritado. Então resolvi deixá-lo ficar, levei comigo os outros, com a criada, e disse-lhe que já não gostava dele. Ficou muito tempo calado, surpreendido com o que eu dissera, e depois abraçou-se a mim a chorar, de tal maneira que me custou consolá-lo. Via-se que o que mais o penalizava era eu estar zangada. À noite, quando lhe entreguei o boletim do dia, pôs-se de novo a chorar, abraçado a mim. Com ternura tudo se pode conseguir dele.

— Que vem a ser isto do boletim do dia? — inquiriu Nicolau. Dou agora, todas as noites, aos mais velhos, notas pelo seu comportamento.

Nicolau fitou os olhos radiantes da condessa Maria pousados nele, e continuou a folhear o caderno. No diário da condessa estava anotado tudo que a mãe julgava digno de registo na vida de seus filhos, com observações sobre o carácter de cada um e ideias gerais acerca dos métodos educativos.

Na maior parte não passavam de pormenores insignificantes, embora o não parecessem aos olhos da mãe e até do pai quando pela primeira vez veio a tomar conhecimento deles.

Com data de 5 de Dezembro, lia-se o seguinte:

Mítia fez travessuras à mesa. O pai deu ordem para lhe

não servirem a sobremesa, e assim fizeram. Mas que ar lastimoso e ávido o seu enquanto olhava para os irmãos comendo o doce! E concluí que castigá-lo daquela forma, privando-o de guloseimas, apenas servirá para lhe espicaçar a gula. Hei-de falar nisto a Nicolau.

Nicolau pousou o caderno e pôs-se a olhar a mulher, os luminosos olhos da condessa, fitos nele, pareciam perguntar se ele aprovava ou reprovava o diário. Não havia dúvida de que aprovava e que todo ele era admiração pela mulher.

«Naturalmente, não valia a pena descer a tantos pormenores, nem mesmo seria preciso semelhante diário», pensava Nicolau, mas aquela permanente e continuada contenção de espírito da mulher, exclusivamente concentrada nos filhos, não podia deixar de lhe causar admiração. Se Nicolau tivesse podido analisar os seus próprios sentimentos, compreenderia que no fundo do grande e dedicado amor que a mulher lhe inspirava havia uma profunda admiração pelo seu estofo moral, por esse mundo superior em que ela naturalmente vivia e lhe era quase inacessível a ele.

Orgulhava-se de a ver tão inteligente e tão boa, confessava ser-lhe muito inferior no ponto de vista da elevação dos sentimentos e era grande a satisfação que sentia ao pensar que uma alma assim não só lhe pertencia como era parte de si mesmo.

— Aprovo-te completamente, inteiramente, minha querida — disse-lhe compenetrado, e após uma pequena pausa continuou: — Hoje portei-me mal. Tu não estavas presente nessa altura. Tivemos uma discussão, o Pedro e eu, e perdi a cabeça. Mas não podia deixar de ser. É uma verdadeira criança. As vezes pergunto a mini próprio que seria dele se Natacha o não trouxesse tão aperreado.

— Queres saber o que ele foi fazer a Petersburgo?... Organizaram lá...

— Sim, bem sei — atalhou Maria. — Natacha contou-me.

— Pois calcula — continuou Nicolau, exaltando-se à lembrança da discussão que tivera —, quer fazer-me acreditar que o dever de todo o homem de bem é conspirar contra o governo, quando o juramento e o dever... Tenho pena de que não estivesses presente. Caíram-me todos em cima, inclusivamente o Denissov e a Natacha... Natacha tem muita graça. Embora o tenha debaixo do tacão do sapato, quando há qualquer discussão, nada sabe dizer; repete o que ele diz,— Enquanto falava, Nicolau, sem querer, recaía numa tendência natural: criticar as pessoas que mais caras lhe eram e a quem mais estimava.

Esquecia, no entanto, que o que afirmava de Natacha se lhe aplicava a ele e à mulher, ponto por ponto.

— Sim, já tinha notado — corroborou Maria.

— Quando lhe disse que o dever e o juramento prestado estavam acima de tudo, respondeu-me não sei como. Tenho pena de que não estivesses presente. Que lhe terias respondido?

— Por mim acho que tens toda a razão. E foi o que disse à Natacha. Pedro acha que a miséria e o sofrimento são gerais hoje em dia, que a imoralidade triunfa por toda a parte, e que é nosso dever ajudar o próximo. Claro que tem razão, mas esquece que temos outras obrigações mais instantes que Deus nos impôs, e que, se é justo que nos arrisquemos, não devemos arriscar os nossos filhos.

— Pois. Foi isso mesmo que eu lhe disse — continuou Nicolau, que, realmente, julgava ter pronunciado precisamente aquelas palavras. — Mas eles teimaram nas suas ideias do amor do próximo e do cristianismo. E tudo isto diante de Nikolenka, que se meteu no escritório — me pôs tudo de pernas para o ar.

— Ah! Muito me preocupa o Nikolenka. É uma criança tão fora do vulgar! Tenho medo de que os cuidados com os nossos filhos me obriguem a esquecê-lo um pouco. Todos nós temos os nossos filhos, a nossa família, mas ele, ele não tem ninguém. Está sempre só com os seus pensamentos.

— Então, não acho que tenhas razão para te censurares, Tens sido para ele uma verdadeira mãe, a mais carinhosa das mães. E, podes crer, estou muito contente com isso. É um rapaz encantador, um óptimo rapaz. Dir-se-ia em êxtase, hoje, a ouvir o Pedro. E calcula, no momento em que nos levantámos para cear, reparei que partira tudo que estava em cima da minha secretária. Aliás, foi ele o primeiro a acusar-se. Nunca o apanhei a dizer uma mentira. Sim, é uma criança encantadora, um óptimo rapaz! — repetiu Nicolau, que, bem no fundo, não gostava muito do sobrinho, aproveitando, no entanto, todas as oportunidades para o elogiar.

— Mas nada há que chegue a uma mãe — replicou a condessa Maria. — É bem verdade e isso é que me atormenta. É uma criança maravilhosa: mas preocupa-me muito. Não lhe faz bem viver isolado.

— Evidentemente, e não será por muito tempo. Este Verão levo-o a Petersburgo — disse Nicolau— Não há dúvida, o Pedro sempre foi e será sempre um lunático — prosseguiu, voltando ao assunto da discussão, que parecia tê-lo impressionado muito. E a mim que me importa o que está a passar-se para esses lados e que Araktcheiev seja má rês? Em que me poderia isso ter interessado, por exemplo, quando me casei? Estava tão cheio de dívidas que por pouco não me metiam na cadeia e minha mãe nada podia ver nem compreender? Depois vieste tu, os filhos, a nossa vida. Julgas que me agrada trabalhar de manhã até à noite? Mas esta é a verdade, eu sei que tenho de trabalhar para garantir a tranquilidade da mãe, pagar o que te devo e não deixar que os meus filhos fiquem tão pobres como eu.

Maria teria gostado de lhe observar que os homens não vi— vem só de pão, que ele atribuía demasiada importância ao que chamava os seus negócios, mas para si mesma dizia que não devia falar assim e que se o fizesse seria inútil. Contentou-se em pegar-lhe na mão e beijá-la. Nicolau interpretou este gesto da mulher como uma aprovação e a confirmação do que ele acabava de dizer, e depois de ter permanecido algum tempo calado, a pensar, continuou, em voz alta, o curso dos seus pensamentos.

— Sabes, Maria — prosseguiu —, chegou hoje o Ilia Mitrofanovitch (era o administrador). Vem da aldeia de Tambov e disse-me que ofereceram oitenta mil rublos pela floresta.

E pôs-se a contar-lhe, muito animado, que dentro de muito pouco lhe seria possível voltar a comprar Otradnoie:

— Dentro de dez anos posso deixar os nossos filhos numa excelente situação.

A condessa Maria ouvia o marido sem perder o mais pequeno pormenor do que ele dizia. Quando sucedia Nicolau principiar a pensar assim em voz alta, às vezes interrogava-se sobre o que dissera e quando percebia que ela estivera a pensar noutra coisa, ficava furioso. Eis porque ela se via obrigada a um grande esforço, uma vez nada daquilo lhe interessar por aí além. Olhava-o, e, se não pensava noutra coisa, pelo menos os seus sentimentos estavam muito longe. Sentiu um amor submisso e terno por esse homem cuja inteligência não conseguia chegar por vezes ao seu nível e nem por isso o amava menos, antes mais e com apaixonada ternura. Além deste amor que a absorvia por completo e a impedia de compreender todos os pormenores dos projectos do marido, outros pensamentos lhe vinham à cabeça perfeitamente estranhos ao assunto da conversa. Pensava no sobrinho. O que o marido dissera acerca da comoção que ele sentira escutando Pedro impressionara-a muito: recordava certos aspectos do seu carácter delicado e sensível, e ao mesmo tempo pensava nos filhos. Não fazia distinção entre uns e o outro, mas, ao comparar os seus sentimentos, notava, com tristeza, faltar qualquer coisa no seu afecto por Nikolenka.

As vezes queria parecer-lhe que esta diferença era o resultado da idade, mas no fundo sentia-se culpada para com ele e no seu foro íntimo prometia corrigir-se e fazer o impossível, isto é, querer, neste mundo, ao marido, aos filhos, a Nikolenka e ao próximo em geral como Cristo à humanidade. Na sua alma havia sempre uma aspiração ao infinito, ao eterno e à perfeição, por isso nunca podia ter sossego. No seu rosto havia severos vestígios dos profundos tormentos secretos de uma alma oprimida pelo corpo. Nicolau contemplava-a nesse momento.

«Meu Deus!», pensava, «que seria de nós se ela nos faltasse? Eis o que me pergunto sempre que a vejo com esta expressão!» E de pé, diante do ícone, pôs-se a rezar as orações da noite.

 

[XVI]

Quando ficaram sós, Natacha e o marido principiaram a conversar como apenas o sabem fazer os casados, isto é, trocando entre si breves pensamentos, compreendendo-se por meias palavras, sem lógica, graças a qualquer coisa de muito especial. Tão habituada estava Natacha a falar com o marido desta maneira que lhe bastava ouvi-lo pôr uma certa sequência nas ideias para compreender que não estavam perfeitamente de acordo. Quando ele principiava a argumentar, falando muito devagar, e ela também, era certo e sabido que acabariam zangados.

Mal ficaram sós, Natacha, os olhos muito abertos, repassados de alegria, aproximou-se de Pedro e, pegando-lhe bruscamente na cabeça, apertou-a contra o coração, exclamando: — Ah, agora és meu e só meu! Já não te deixarei mais! — E então travou-se entre eles uma dessas conversas alheias à lógica. E o certo é que a multiplicidade dos assuntos abordados, em vez de prejudicar a clareza do que diziam, apenas significava que se entendiam perfeitamente.

Assim como no sonho tudo é inverosímil e absurdo menos o sentimento que o conduz, também naquela troca de ideias, contraria a toda a lógica, apenas era claro e compreensível o sentimento que animava o que diziam.

Natacha contava a Pedro a maneira de viver do irmão, o que ela própria sofria quando ele. Pedro, não estava em casa e o muito que gostava de Maria, cada vez mais, a quem considerava muito melhor do que ela própria. E ao dizer que confessava, sinceramente, reconhecer a superioridade de Maria, exigia, ao mesmo tempo, que ele, Pedro, a preferisse a ela. Natacha, a preferisse a Maria e a todas as demais mulheres e que lho provasse, agora sobretudo, depois de ter estado em Petersburgo, onde vira tantas outras mulheres.

Pedro contou-lhe então que lhe tinham parecido insuportáveis todas essas reuniões e todos esses jantares com as senhoras da alta sociedade.

— Perdi o costume de falar com senhoras — disse ele. Nada há mais enfadonho, De resto tinha muito que fazer. — Natacha olhou-o fixamente e continuou:

— Maria é encantadora! E como ela compreende as crianças! Parece que lhes lê na alma. Ontem, por exemplo, o Mitenka leve um ligeiro capricho...

— Parece-se tanto com o pai! — atalhou Pedro.

Natacha percebeu porque fizera Pedro aquela observação; a lembrança da discussão com o cunhado era-lhe penosa e queria saber o que pensava disso Natacha.

— Tens razão. Nicolau tem a fraqueza de só admitir o que todos reconhecem. Por mim compreendo perfeitamente que tu não aches isso bom senão enquanto serve para encetar uma carreira — disse ela, repetindo o que lhe ouvira a ele um dia.

— É verdade — continuou Pedro. — Para Nicolau as ideias e os raciocínios são um divertimento, uma espécie de passatempo. Está a formar uma biblioteca e impôs a si mesmo que não comprará qualquer novo livro enquanto não tiver lido o que comprou antes, seja ele de Sismondi, de Rousseau ou de Montesquieu — acrescentou, sorrindo. — De resto, sabes tão bem como eu... — Com estas palavras quis deitar um pouco de água na fervura, mas Natacha, para dar-lhe a perceber que era inútil, interrompeu-o.

— Dizes tu, então, que para ele as ideias não passam de divertimento...

— Para mim, pelo contrário, só o que não são ideias e divertimento. Durante a minha estada em Petersburgo via-os a todos como num sonho. Quando uma ideia me preocupa, tudo o mais, para mim, é apenas um espectáculo divertido.

— Que pena tenho de não ter assistido ao teu encontro com os pequenos! — exclamou Natacha. — Qual se mostrou mais alegre? Lisa, naturalmente?

— Sim — replicou Pedro, retomando o curso das suas preocupações. — Nicolau entende que não temos necessidade de pensar. Aí esta uma coisa impossível para mim. Em Petersburgo posso dizer-to, tinha a impressão de que, sem mim, tudo iria por água abaixo, cada um puxava a brasa à sua sardinha. Consegui reuni-los a todos e então a minha ideia tornou-se simples e clara. Não digo que nos devamos opor a este ou àquele. Podemos enganar-nos. O que digo é o seguinte: caminhemos de mãos dadas com todos os que amam a justiça e tenhamos todos uma só bandeira, a bandeira da virtude militante. Sim, esse príncipe Sérgio é homem inteligente e bela pessoa.

Natacha não tinha dúvidas quanto ao valor da ideia de Pedro, mas uma coisa a perturbava: Pedro era seu marido. «Poderá um homem tão importante e tão útil à sociedade ser ao mesmo tempo meu marido? Como foi possível?» E apetecia-lhe dizer isso mesmo. «Quem são as pessoas competentes para julgar se realmente ele é superior a todos os outros?», perguntava ela a si mesma enquanto fazia perpassar pela mente todas as pessoas a quem Pedro tinha em alta estima. Pelo que ele lhe dissera, nenhuma lhe merecia o respeito de Platão Karataiev.

— Sabes em quem estou a pensar? — perguntou-lhe ela. — Em Platão Karataiev! Que faria ele? Aprovar-te-ia neste momento? Pedro não se surpreendeu com a pergunta. Apreendera o pensamento íntimo da mulher.

— Platão Karataiev? — repetiu ele, e ficou pensativo, procurando, sinceramente, fazer uma ideia do que pensaria esse homem dos seus projectos.— Não compreenderia, e, quem sabe?, talvez no fim de contas os aprovasse.

— Quero-te muito! — exclamou, de súbito. Natacha. — Muito

— Não, não os aprovaria — acrescentou Pedro, depois de curta reflexão. — A nossa vida conjugal, sim, essa aprová-la-ia. Tanto desejava encontrar por toda a parte a felicidade, a beleza, a tranquilidade! Teria orgulho -m que ele nos pudesse ver. Estás sempre a queixar-te da separação. Mas não podes calcular a plenitude de sentimentos que inspiras depois de uma separação...

— Era o que faltava a — principiou Natacha.

— Mas não. Nunca deixo de te querer muito. E não se pode gostar mais, mas sobretudo... — Não terminou a frase, e os seus olhares, que se encontraram, concluíram o seu pensamento.

— Que tolice — exclamou Natacha, subitamente. — Fala-se muito costuma dizer-se que é nos primeiros da lua-de-mel e tempos de casadas que as pessoas são mais felizes. Não, pelo contrário. é depois, o melhor tempo é agora. Se ao menos não tivesses de te ausentar... Recordas-te do que discutíamos? E a culpa era sempre minha, era eu sempre a culpada. E agora nem sequer me lembro porque discutíamos.

— Era sempre a mesma coisa — disse Pedro, sorrindo-se. — O ciúme.

— Não digas isso, não me faças sofrer! — exclamou Natacha, enquanto nos seus olhos brilhava uma chama fria e maldosa. — Viste-a? — acrescentou, depois de um breve silêncio.

— Não e mesmo se a visse não a reconheceria.

Calaram-se ambos.

— Queres saber? Quando estavas a falar no gabinete de Nicolau, eu olhava para ti — voltou ela, tentando dissipar a nuvem que se erguera— Parecem-se como duas gotas de água, tu e o pequeno — referia-se ao filho. — Ah!, tenho de ir vê-lo... São horas... E tenho pena de me ir embora.

Calaram-se de novo por momentos. Depois, repentinamente, voltaram-se ao mesmo tempo um para o outro e puseram-se a conversar. Pedro retomou a conversa, animado e cheio de convicção, Natacha sorrindo, meigamente, com um ar feliz. Calavam-se, alternadamente , para que o outro falasse.

— Que queres dizer? Fala, anda, fala tu primeiro.

— Fala tu; eu nada tenho para dizer — replicou Natacha.

Pedro continuou a falar do assunto que abordara. Expunha com satisfação o tema do êxito das negociações de Petersburgo. Estava convencido, de facto, naquele momento, de que fora chamado a imprimir uma direcção nova à sociedade russa e ao mundo inteiro.

— Queria apenas dizer que as ideias com grande projecção são sempre muito simples. No fundo a minha ideia é que se os criminosos estão unidos entre si, e são uma força, o mesmo devem fazer as pessoas de bem. É muito simples!

— É

— E tu, que querias dizer?

— Nada, tolices.

— Mas, seja como for, fala...

— Nada, é o que te digo, tolices — insistiu Natacha, radiante, com um sorriso nos lábios, cada vez mais resplandecente. — Queria apenas falar-te do Pétia, Hoje a criada veio buscá-lo quando eu o tinha ao colo. Pôs-se a rir, fechou os olhos e agarrou-se a mim. Pensava ele que escondendo-se o não viam. Que engraçado! Lá está ele a chorar. Adeus! — E Natacha desapareceu.

Entretanto, no andar inferior, no quarto de dormir de Nikolenka Bolkonski, estava acesa, como sempre, uma lamparina, pois a criança tinha um medo irreprimível da escuridão, Dessales dormia, as costas apoiadas em quatro almofadas, e o seu perfil grego desenhava-se na penumbra, enquanto ressonava calmamente. Nikolenka acabara de acordar, repassado de suores frios, os olhos muito abertos, e, sentado na cama, olhava, fixamente diante dele. Acordara no meio de um tremendo pesadelo. Sonhara que ele e Pedro estavam de capacete como numa das estampas do seu Plutarco. Iam os dois à frente de um grande exército. Esse exército eram linhas brancas oblíquas que enchiam o espaço como essas teias de aranha que se vêem, em pleno Outono, flutuar nos ares e a que Dessales chamava os fios da Virgem. Diante deles estava a glória, representada por aqueles fios aéreos, apenas um pouco mais consistentes. Ambos se deixavam levar, alegres e ligeiros, aproximando-se cada vez mais do objectivo. De súbito, os fios que os faziam avançar principiam a enfraquecer e a misturar-se, e um grande peso não os deixa caminhar. Nicolau Ilitch, o tio, para diante deles numa atitude severa e, ameaçadora. «Foram vocês quem fez isto», diz-lhe, apontando os pedaços da pena e da cera. «Sou vosso amigo, mas Araktcheiev ordenou e eu vou matar o primeiro de vós que der mais um passo.» Nikolenka relanceou um olhar a Pedro: mas Pedro desaparecera. Quem o substituía era o pai, o príncipe André. Não tinha forma nem contornos definidos, mas era ele, com certeza. Ao vê-lo, Nikolenka sente que o amor o enfraquece: sente que não tem força, que se transformou em qualquer coisa mole, quase fluida. O pai acaricia-o e consola-o. Mas eis que o tio Nicolau Ilitch continua a caminhar para eles. Cheia de terror, a criança acorda. «Vi meu pai, que me acariciou», disse para si mesmo. Apesar de haver em casa dois retratos do príncipe André, muito parecidos. Nikolenka nunca o vira representado sob forma humana. «Sim, era meu pai que ainda há Pouco estava comigo e me acariciava. Aprovava a minha conduta e a do tio Pedro. Diga-me o que disser, obedecer— lhe— ei. Mucius Scevola queimou a mão. Pois não terei oportunidade de fazer o mesmo na minha vida? Eles querem, bem sei, que me instrua. Serei sábio. E quando acabar a minha instrução, então agirei. Só peço a Deus que venha um dia a encontrar-me na situação dos grandes homens de Plutarco, Farei o que eles fizerem. Farei mesmo melhor. Toda a gente o saberá, todos gostarão de mim, elogiar-me-ão.» De repente sentiu que os soluços lhe estrangulavam a garganta e principiou a chorar.

— Está mal disposto? — perguntou Dessales.

— Não — respondeu Nikolenka, voltando a deitar-se.

«É bom, e eu gosto dele. é um homem excelente», murmurou pensando em Dessales. «E o tio Pedro? Oh!, que maravilha, E meti pai? Meu pai! Sim, farei tudo para que ele se orgulhe de mim..»