Guerra e Paz
Epílogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Não se permitia sobrecarregar de trabalho ou castigar qualquer camponês a seu bel-prazer, nem tão-pouco recompensá-lo para sua satisfação pessoal. Não lhe seria fácil dizer em que código se baseava para fazer isto ou não fazer aquilo, mas o certo é que tinha a lei gravada no fundo da alma, firme e inalterável.
Por vezes, perante um fracasso ou uma desordem, falava com despeito do «novo povo russo», com quem não queria tratar, e estava persuadido de que detestava o mujique.
A verdade, porém. é que lhe queria muito, ao «novo povo russo», e à sua maneira de viver, e essa era a razão por que compreendera tão bem e tão bem assimilara o único método que dava bom resultado na exploração das terras.
A condessa Maria tinha ciúmes do amor do marido pelo povo e lamentava não poder compartilhar dele, mas era-lhe impossível compreender as alegrias e as preocupações que Nicolau encontrava junto de um mundo tão afastado e tão diferente do seu. Não podia compreender porque tinha ele modos tão animados e satisfeitos quando, a pé desde alta madrugada, e depois de passar toda a manhã no campo ou na eira, voltava a casa para tomar chá, depois das sementeiras, da monda ou da colheita. Não compreendia donde lhe vinha o entusiasmo ao contar-lhe a ela como o abastado camponês Matvei Ermichíne e sua família passara a noite inteira a recolher as sementes quando os demais ainda não tinham principiado a colheita e ele já levantara medo nas suas terras. Não compreendia a alegria que ele mostrava quando, ao passar pela varanda, sorria piscando-lhe o olho se via cair sobre os ressequidos campos de aveia uma chuvinha tépida ou se, em dias de monda ou de colheita, quando o vento afastava as nuvens tempestuosas, chegava, muito corado, coberto de suor, vindo da eira, com o cabelo a cheirar a artemisa e hortelã-pimenta, e dizia, esfregando as mãos: «Bom, bom, mais um dia e estará concluída a nossa colheita e a dos mujiques.»
A princesa Maria ainda mais surpreendida ficava quando, ao transmitir a Nicolau — tão bom coração e sempre pronto a fazer-lhe todas as vontades— o pedido de algum camponês ou de alguma mulher, que lhe rogavam intercedesse para que os isentassem do trabalho, o via recusar obstinadamente, zangando-se muito e aconselhando-a a que não voltasse a interferir no que não lhe dizia respeito. Compreendia então que ele vivia num mundo à parte, um mundo a que apaixonadamente se votara, e que se regia por leis muito acima do seu entendimento.
Às vezes, quando procurava entendê-lo e lhe falava do mérito que ele tinha ao promover o bem-estar dos seus camponeses, Nicolau, enfadado, repontava. «Não é nada disso. Nunca tal coisa me passou pela cabeça. Nada faço a pensar neles. O bem-estar do próximo não passa de romantismo e sentimentalidade, histórias de mulheres. O que é preciso é que os nossos filhos não venham a cair na miséria. Tenho de consolidar a nossa fortuna enquanto estou vivo, e nada mais. E para isso convém que as coisas estejam cada uma no seu lugar. Preciso de disciplina... Só isso e nada mais!», acrescentava cerrando os punhos com vigor. «E depois é justo que assim seja, pois se o camponês andar nu, tiver fome e não possuir senão um cavalo, não poderá trabalhar nem para mim nem para ele.»
A verdade é que, naturalmente porque Nicolau não pensava fazer fosse o que fosse pelos outros, levado por qualquer noção de virtude, tudo em que se metia resultava próspero. Os seus bens aumentavam a olhos vistos; os camponeses das vizinhanças acorriam a pedir-lhe que os comprasse, e por muito tempo, depois da sua morte permaneceu entre aqueles povos a memória do seu bom governo: «Era um patrão às direitas... Em primeiro lugar estava o interesse do camponês e depois o dele. É certo que nos não poupava. Mas a verdade é que era um verdadeiro patrão!»
[VIII]
A única coisa que às vezes atormentava Nicolau nas suas relações com os servos era o seu carácter impulsivo, agravado por velhos costumes de hússar que o levava a ter a mão leve. Ao princípio nada via nisso de repreensível, mas, no segundo ano de casado, as suas ideias sobre a matéria sofreram modificação.
Um dia, em pleno Estio, convocara ele o estaroste de Bogutcharovo, o sucessor do falecido Drone. Acusavam-no de vários roubos e negligências. Viera ao encontro do homem até ao alpendre e às primeiras respostas que ele lhe deu no vestíbulo ressoaram gritos e pancadas. Ao regressar a casa para almoçar procurou a condessa, que estava a trabalhar, de cabeça baixa, no bastidor, e contou-lhe, conforme seu hábito, o que fizera nessa manhã e especialmente a história do estaroste. A condessa Maria, ora muito corada ora pálida, escutava-o, imóvel, sem levantar a cabeça, e nada disse em resposta às palavras do marido.
— Canalhas! — exclamava ele, exaltando-se só de pensar na cena que houvera. — Ainda se ele me tem dito que era por estar bêbedo, mas nem isso... Que tens tu, Maria? — perguntou, de súbito.
A mulher ergueu a cabeça, quis dizer fosse o que fosse, mas de novo se inclinou, cerrando os lábios.
— Que tens? Que tens tu, minha querida?
A condessa Maria, que estava longe de ser uma beldade, ficava sempre bonita quando chorava. Nunca a dor física ou o despeito a faziam chorar, mas apenas a mágoa e a piedade. E então os seus olhos luminosos transpareciam de um inexprimível encanto.
Nicolau pegara-lhe na mão, e ela, incapaz de se conter, rompeu a chorar.
— Nicolau, eu vi tudo... Sim, é culpado, mas tu, porque é que tu... Nicolau. — E tapou a cara com as mãos.
Nicolau não disse palavra, corou muito e, afastando-se, pôs-se a andar de um lado para o outro na sala. Compreendera o que provocara as lágrimas da mulher, mas não lhe era possível, assim, de repente, reconhecer que ela tinha razão, que o que ele estava habituado a ver desde criança, o que ele considerava a mais trivial das coisas, podia ser digno de censura. «São esquisitices, delicadezas, coisas de mulheres. E daí quem sabe se ela terá razão?», perguntava-se a si próprio. Sem considerar o caso arrumado, voltou a olhar para aquele rosto em que se misturavam o amor e a mágoa e compreendeu então que ela tinha razão e que ele próprio se sentia culpado aos seus próprios olhos havia muito tempo já.
— Maria — disse-lhe ele, em voz baixa, aproximando-se dela — Isto não voltará a acontecer, dou-te a minha palavra de honra, Nunca mais — repetiu em voz trémula, como uma criança que pede perdão.
As lágrimas da condessa correram mais ainda. Pegou-lhe na mão e beijou-a.
— Nicolau, quando quebraste o teu camafeu? — disse ela, para mudar de conversa, fitando a mão onde ele usava um anel com a cabeça de Laocoonte.
— Foi hoje. Ainda por causa disso. Oh, Maria, não me tornes a falar em tal — exclamou, corando. — Dou-te a minha palavra de honra que isto não tornará a acontecer. E que este anel sirva para eu me lembrar pelo tempo for — acrescentou, mostrando o camafeu partido.
Desde então, sempre que tinha qualquer explicação com os estarostes ou com os feitores e sentia o sangue afluir-lhe à cabeça e crisparem-se-lhe os punhos, fazia girar o anel no dedo e baixava os olhos diante daquele que era causa do seu exaspero. No entanto, por duas vezes no mesmo ano perdeu a cabeça e das duas vezes tratou de se confessar à mulher renovando-lhe a promessa de ser aquela a última vez.
— Maria, deves desprezar-me, com certeza — dizia-lhe ele. — É o que eu mereço.
— Se sentes que não és capaz de te dominar, afasta-te, afasta-te quanto antes — respondia a condessa, contristada, para o consolar.
Entre os nobres da província, Nicolau gozava de consideração, mas era pouco querido. Os interesses da nobreza não lhe davam cuidado. Por isso uns o consideravam orgulhoso e outros pouco inteligente. Todo o seu tempo, das sementeiras da Primavera até às colheitas, o dedicava aos cuidados das suas terras. No Outono, com o mesmo interesse com que cuidava os campos, ia à caça, demorando-se às vezes a caçar um mês ou dois. No Inverno ia de visita às povoações afastadas ou então entretinha-se a ler. Gostava, sobretudo, de livros de história: e todos os anos destinava determinada verba para esse fim. E assim ia organizando uma biblioteca séria, como costumava dizer, impondo-se a si mesmo a obrigação de ler, de fio a pavio, os livros que comprava. Quando se instalava para ler no seu gabinete assumia uns ares especiais: a ocupação que de princípio a si próprio impusera como uma disciplina tornara-se-lhe depois familiar, proporcionando-lhe uma satisfação de certa espécie, como a que se costuma sentir quando se faz uma tarefa muito séria. Excepto quando tinha de sair por causa da sua vida de lavrador, passava a maior parte do tempo, durante o Inverno, na intimidade dos seus, preocupando-se, nos mínimos pormenores, com a vida dos filhos e da mãe. A sua união com a mulher era cada vez mais completa e de dia para dia descobria nela novos tesouros de bondade.
Sónia vivia com eles desde o casamento de Nicolau. Algum tempo antes da boda, este, censurando a conduta que tivera e louvando a da jovem, contou à futura mulher tudo que entre eles se passara. Pedira-lhe que fosse afectuosa e boa para a prima. Maria deu-se bem conta de quanto o marido era culpado e ela própria se sentira responsável para com Sónia. Concluiu que fora a sua situação financeira que decidira a escolha de Nicolau e que nada tinha que censurar à rapariga, procurando estimá-la quanto pudesse, Mas a verdade é que não só o não conseguia, como dava, frequentemente, porque ele não queria bem, não podendo evitar que assim fosse.
Um dia abriu-se com Natacha, acusando-se de se sentir injusta.
— Sabes? — disse-lhe Natacha. — Lembras-te, com certeza, do Evangelho. Pois há lá um passo que diz respeito exactamente à situação de Sónia.
— Qual? — perguntou Maria, surpreendida.
— «Porque a qualquer que tiver será dado e terá em abundância: mas o que não tiver, até o que tem será tirado.» (S. Mateus, XXV, 29) Lembras-te? É ela quem não possui. Porquê? Não sei. Não creio que haja nela a mais pequena sombra de egoísmo: e no entanto tiram-lhe tudo, tudo lhe tiraram, Por vezes sinto por ela uma piedade imensa. Muito desejei outrora vê-la casada com Nicolau mas tive sempre o pressentimento de que isso nunca aconteceria. Sónia é a «flor estéril». Sabes? Como aquela que cresce junto dos morangueiros. Por vezes tenho pena dela, mas outras chego a pensar que ela não sente estas coisas como nos as sentiríamos.
E apesar de Maria ter explicado a Natacha que as palavras do Evangelho tinham uma significação diferente daquela que ela lhes dava, não podia impedir-se, sempre que via Sónia, de dizer que Natacha tinha razão. Com efeito, dir-se-ia que Sónia não era muito afectada pela situação e que se resignara ao fado de «flor estéril!». Parecia gostar menos das pessoas, individualmente, que da família no seu conjunto. Era como o gato, que se prende mal, à casa que aos habitantes dela. Cuidava da velha condessa, acarinhava e enchia de mimos as crianças, estava sempre pronta a prestar pequenos serviços de que era capaz, e toda a gente aceitava os seus cuidados, a verdade diga-se, com bem fraco reconhecimento por ela...
A quinta de Lissia Gori fora restaurada, mas nunca mais mantida no pé em que estivera no tempo do falecido príncipe.
As construções, levadas a cabo no tempo em que havia dificuldades, eram muito modestas. A grande casa, com os seus antigos alicerces de alvenaria, era de madeira, argamassada apenas no interior. Os grandes quartos, de soalho de madeira, por pintar, tinham divãs muito duros e muito simples, poltronas, mesas e cadeiras de abeto, cortado na própria quinta, e feitas pelos marceneiros servos. A casa era espaçosa, com dependência para a criadagem, e quartos particulares para hóspedes. Os parentes dos Rostov e dos Bolkonski vinham muitas vezes a Lissia Gori com toda a sua família, e ali ficavam meses inteiros, chegando a trazer consigo dezasseis cavalos e dezenas de criados. Além disso, quatro vezes por ano, por altura do aniversário e dos santos dos nomes dos donos da casa, chegavam a apresentar-se ali quase cem convidados de uma só vez, que ficavam um ou dois dias. No resto do tempo a vida dos Rostov decorria regularmente no meio das suas ocupações habituais, os seus chás, os seus jantares, as suas ceias, em geral preparados com os produtos da quinta.
[IX]
Era o dia 5 de Dezembro de 1820, véspera de S. Nicolau. Nesse ano, Natacha, marido e filhos desde o Outono se encontravam em casa do irmão. Pedro partira para Petersburgo, onde fora por assuntos particulares e, segundo dissera, por umas três semanas. Mas já lá iam mais de seis e ele ainda não voltara. Era esperado de um momento para o outro.
Além dos Bezukov, era hóspede dos Rostov, nesse dia 5 de Dezembro, um velho amigo de Nicolau, o general reformado Vassili Fedorovitch Denissov.
Nicolau sabia que no dia 6, em que se celebrava a sua festa e os hóspedes afluíam, tinha de despir o bechmé (Jaqueta comprida, bordada. (N. dos T.), enfiar o redingote, calçar botas finas e, dirigindo-se à nova igreja que ele próprio mandara construir, receber as felicitações, oferecer refrescos, falar das eleições da nobreza e das colheitas. Julgava-se, porém, no direito de passar a véspera desse dia como habitualmente. Antes de jantar, verificou as contas do bormistra de uma aldeia de Riazan, na propriedade do sobrinho da mulher, escreveu duas ou três cartas de negócios e deu uma volta pela eira, o curral e a cavalariça. Depois de tomar medidas preventivas contra a bebedeira geral prevista para o dia seguinte, dia da festa da paróquia, entrou na sala de jantar e, sem ter tempo sequer de trocar duas palavras a sós com a mulher, foi sentar-se à longa mesa de vinte talheres onde estava toda a gente da casa. Sentados estavam a mãe, a velha Madame Bielova, dama de companhia da condessa, a mulher, os seus três filhos, a preceptora, Sónia, Denissov, Natacha, os três filhos desta, a respectiva preceptora e o velho arquitecto do príncipe Mikail Ivanitch, que vivia os seus últimos dias em Lissia Gori.
A condessa Maria sentava-se na outra cabeceira da mesa. Mal o marido se instalara no seu lugar, logo ela concluiu, pela maneira como desdobrou o guardanapo e afastou, com um gesto brusco, os copos que tinha diante, que ele não estava bem disposto, coisa que, aliás, lhe acontecia algumas vezes, sobretudo antes da sopa e quando sucedia sentar-se à mesa vindo directamente das terras. Maria conhecia muito bem os seus hábitos e quando ela própria estava de maré aguardava, tranquilamente, que ele ingerisse a sopa para principiar a conversar com ele, obrigando-o a reconhecer não ter razão para estar de mau humor. Mas naquele dia esquecera-se completamente de o observar; entristecia-a o facto de estar zangado com ela sem razão e sentia-se muito infeliz. Perguntou-lhe onde estivera. Nicolau respondeu muito secamente. Inquiriu ainda se as coisas corriam bem na propriedade. O tom um pouco afectado que ela tomara ao fazer-lhe essa pergunta levou-o a franzir o sobrolho. E respondeu com duas palavras.
«Não me enganei», pensou Maria, «mas o que o teria irritado contra mim?» A maneira como ele respondera dava-lhe claramente a entender ser ela a causa da sua má disposição e que era com ela que não queria falar. Embora compreendendo não se lhe dirigir em tom natural, a condessa Maria não pôde impedir-se a si própria de lhe fazer algumas perguntas.
Entretanto a conversa, graças a Denissov, tornou-se mais geral e animada, e a condessa Maria não voltou a dirigir directamente a palavra ao marido. Quando se levantaram da mesa e todos foram cumprimentar a condessa velha, Maria pegou na mão de Nicolau, beijou-a e perguntou porque estava ele zangado.
— Sempre tens cada ideia! Nunca me passou pela cabeça estar zangado — respondeu ele.
Maria, porém, pela maneira como Nicolau acentuou a palavra «sempre», percebeu que ele queria dizer: «Efectivamente estou zangado, mas não direi porquê.»
Entendiam-se tão bem os dois que a própria Sónia e a velha condessa, que, por ciúme, teriam desejado que eles se não entendessem, nada lhes podiam assacar a tal respeito. Mas a verdade é que tinham os seus momentos de mau humor. Por vezes após uma quadra de «bom tempo fixo», sentiam, de súbito, um contra o outro, uma espécie de hostilidade; isso dava-se geralmente durante os períodos de gravidez da condessa: eis o que acontecia naquela altura.
— Senhores e senhoras, tenho a dizer-lhes que estou a pé desde as seis horas da manhã — exclamou Nicolau, em voz alta, num tom brincalhão, que a condessa julgou adrede para a irritar. — Amanhã tenho de continuar. Por isso me vou deitar.
E sem nada mais dizer à condessa Maria retirou-se para o gabinete, onde se estendeu num divã.
«É sempre assim», disse Maria consigo mesma. «Dirige a palavra a toda a gente excepto a mim. Sim, bem vejo que lhe inspiro repugnância. Sobretudo quando estou neste estado.» Relanceou um olhar ao ventre soerguido e no espelho viu o rosto afilado, amarelento e pálido e os seus olhos ainda maiores.
Tudo lhe deixou uma impressão penosa: os gritos e as risadas de Denissov, a conversa de Natacha e sobretudo o olhar que lhe deitou Sónia.
Sónia era para ela motivo de perpétua irritação.
Depois de ter estado algum tempo com os convidados, sem nada compreender, de resto, do que eles diziam, saiu em bicos de pés e dirigiu-se para o quarto das crianças.
Os pequenos, com cadeiras, brincavam às viagens a Moscovo e convidaram a mãe a acompanhá-los. Pôs-se a brincar com eles, mas sempre atormentada com a ideia do marido e do mau humor que ele mostrara. Levantou-se e encaminhou-se, na ponta dos pés, pesadamente, para o gabinete do divã.
«Talvez ele não esteja a dormir: podemos ter uma troca de palavras», dizia ela consigo mesma. Andriucha, o filho mais velho, viera atrás dela, caminhando igualmente nas pontas dos pês. A mãe não dera por ele.
— Querida amiga, parece-me que ele está a dormir; está fatigado — disse Sónia, que estava no salão. — Cuidado, não o acorde o Andriucha.
Maria tinha a impressão de que encontrava Sónia a todo o momento no seu caminho.
Voltando a cabeça, a condessa viu atrás dela o pequeno, c, reconhecendo que Sónia tinha razão, e, precisamente por isso. ,o muito a custo não pronunciou uma palavra dura, Nada disse, e, para fingir que lhe não dava ouvidos, deixou que Andriucha a acompanhasse: depois de levar o dedo ao nariz, a recomendar silêncio, aproximou-se da porta. Sónia saiu por outra. Do quarto em que, Nicolau dormia vinha a sua respiração pausada da qual ela conhecia, os mais ténues matizes. Ouvi-la era quanto bastava para que Maria visionasse a sua bela e grande testa, os seus bigodes, o conjunto desse rosto que, no silêncio da noite, tantas vezes contemplara enquanto ele dormia. Nicolau, de súbito, agitou-se e tossiu. E na mesma altura, atrás da porta. Andriucha pôs-se a gritar: «Pai, olhe a mãezinha.» Maria, empalideceu, fez sinal ao filho para que se calasse. Este não tornou a abrir a boca e houve uns segundos de penoso silêncio. Ela sabia que o marido não gostava que o acordassem. Ouviu-se atrás da porta outro tossicar e a voz enfadada de Nicolau que dizia:
— Não posso descansar um minuto que seja. Maria, és tu? Para que o trouxeste contigo?
— Foi apenas de passagem. Não sabia... Desculpa...
Nicolau tossicou ainda e depois calou-se. Maria afastou-se levando o pequeno para o quarto das crianças. Cinco minutos depois. Natacha, menina dos seus três anos, de lindos olhos pretos, a preferida do pai, ao saber que este estava a dormir que a mãe se encontrava no salão, correu para junto dele sem mãe dar por isso. Fez ranger a porta, empurrando-a com decisão e, em passinhos apressados, aproximou-se do divã, erguendo-se em bicos de pés para beijar a mão do pai, que estava deitado, de costas para ela, com a cabeça apoiada num dos braços. Nicolau voltou-se: no seu rosto havia um sorriso de enternecimento.
— Natacha! Natacha! — murmurou a condessa Maria, em voz abafada, atrás da porta. — O paizinho quer dormir, Anda!
— Não, mãezinha, ele não quer dormir — replicou Natacha com decisão. — Está a rir-se.
Nicolau pousou os pés no chão, levantou-se e tomou a nos braços.
— Entra. Macha — disse para a mulher. Esta entrou e sentou-se ao pé do marido.
— Não sabia que ele vinha atrás de mim – explicou timidamente. — Vim sem pensar.
Nicolau, com a filha nos braços, ergueu os olhos para ela ao ver o embaraço que se lhe pintava no rosto, enlaçou-a com o outro braço e beijou-lhe os cabelos.
— Dás licença que eu dê, um beijo à mãezinha? — perguntou à pequena.
Esta, risonha e, travessa, apontou-lhe para o sítio onde ele beijara a mãe:
— Outra vez — exclamou.
— Não sei onde foste descobrir que eu estava mal disposto. — disse Nicolau, respondendo deste modo à pergunta que lia nos lábios da mulher.
— Não podes calcular como me sinto infeliz quando está assim.. Penso sempre...
— Maria, então, não digas tolices. Não tens vergonha? — exclamou Nicolau, jovial.
— Julgo sempre que não podes gostar de mim, que sou feia... e sobretudo... agora, neste...
— Oh, que tola me saíste! Não é belo o que é belo, mas sim o que agrada. Só das Malvinas (Romance muito popular na Rússia de que as Malvinas eram as conhecidas protagonistas. (N. dos T.) se gosta por serem belas; mas gosto eu da minha mulher da mesma maneira? Não. Gosto dela de outro modo, como não sei dizer. Quando não estás ao pé de mim ou entre nós se levanta qualquer arrufo. é como se me sentisse perdido: para mais nada sirvo. E que diabo, amo eu os meus dedos? Não. E no entanto que experimentem cortar-me algum.
— Sim, bem sei, compreendo. Então não me queres mal? — Tremendamente! — exclamou ele, sorrindo. Depois levantou-se, e, passando a mão pelos cabelos, principiou a andar no quarto de um lado para o outro.
— Sabes, Maria, de que me lembrei? — principiou, agora que reinava a paz entre os dois e como se pensasse em voz alta. Nem sequer se perguntava a si próprio se ela estaria disposta a ouvi-lo: isso pouco lhe importava. Desde que pensava em qualquer coisa, também ela o devia acompanhar. E falou-lhe no desejo que tinha de persuadir Pedro a ficar com eles até à Primavera.
Maria ouviu-o sem o interrogar proferiu, depois, as suas observações e por sua vez pôs-se a pensar também.
Os seus pensamentos tinham por objecto os filhos.
— Já tem maneiras de mulher — disse em francês, apontando para a pequenita Natacha— Vocês acusam-nos de não termos lógica. Se eu lhe digo: «O pai quer dormir», ela responde-me: «Não, está a rir-se.» E tem razão — acrescentou, sorrindo com um ar feliz.
— É verdade! É verdade!
E Nicolau, tomando-a nos braços vigorosos, ergueu-a ao ar, empoleirou-a nos ombros, segurou-a pelas pernas e pôs-se a andar de um lado para o outro. Pai e filha estavam no céu.
— Fazes mal, não é justo — murmurou Maria, muito baixo, em francês. — Estragá-la.
— Que queres que eu faça?... Procuro não o dar a entender...
Neste momento, no vestíbulo e na antecâmara ouviu-se como que o ruído de um objecto levantado com esforço e passos que pareciam de alguém que entrava.
— Chegou alguém.
— Deve ser o Pedro. Vou ver — disse Maria, saindo,
Durante a ausência da mulher, Nicolau entregou-se a um galope, à volta do quarto, com a filha às cavaleiras. Quando estava sem fôlego, tirou-a dos ombros e apertou-a contra o peito. Os passos que acabara de dar lembravam-lhe passos de baile e ao contemplar aquele rostozinho redondo e resplandecente de alegria pensou no que ela viria a ser mais tarde, quando ele, já velho, a levasse pela primeira vez ao baile. E isso recordou-lhe o falecido pai a dançar com a filha do Danilo Cooper.
— É ele, é ele. Nicolau — exclamou daí a pouco a condessa Maria, entrando no quarto. — Ah!, agora a nossa Natacha já volta à vida. É ver como ela está animada e como acaba de o receber, por ele vir atrasado. Vamos, depressa, corramos. Deixa-a agora em paz — acrescentou, sorrindo para a pequenita, que se estreitava contra o pai.
Nicolau saiu levando a filha pela mão. Maria ficou só por momentos.
«Ah! Nunca, nunca na minha vida pensei que alguém pudesse ser tão feliz!», murmurou ela. Um sorriso lhe iluminou o rosto. Mas no mesmo momento teve um suspiro e no seu olhar profundo uma suave tristeza se reflectiu. Além da felicidade que ela sentia naquele momento existia outra, inacessível nesta vida, e naquele instante foi nessa felicidade que pensou.
[X]
Natacha casara-se nos primeiros dias da Primavera de 1813: em 1820 já tinha três filhas e um filho, o benjamim, que ela tanto desejara e criava ao peito. Engordara, e era difícil reconhecer nesta mãe nova e vigorosa a frágil e inquieta Natacha de outrora. Tinham-se-lhe acentuado os traços fisionómicos e na sua doçura um pouco flácida havia qualquer coisa de nítido. Já não tinha aquela animação fogosa que era o seu grande encanto de outros tempos. Agora só transparecia nela a exuberância da vida física, a alma não se lhe via. Era uma formosa fêmea, possante e fecunda. Raramente se acendia nela a chama de outrora. Só em circunstâncias como a daquele dia, quando o marido voltava a casa depois de uma longa ausência, quando qualquer dos filhos principiava a convalescer após um período de doença ou quando recordava, junto da condessa Maria, o príncipe André, pois nunca falava dele diante do marido — para lhe não despertar ciúmes, muito raramente ainda quando, em condições verdadeiramente excepcionais, era levada a cantar, prenda que abandonara desde que se casara. Mas nos raros momentos em que esta antiga chama e reanimava, a encantadora mulher ressurgia ainda mais sedutora,
Desde que se casara vivera com o marido em Moscovo, em Petersburgo, nas propriedades dele nos arredores daquela cidade, e junto da mãe, isto é, em casa de Nicolau. A jovem condessa Bezukov frequentava pouco a sociedade e aqueles que a tinham conhecido não simpatizavam muito com ela. Não era nem muito graciosa nem muito amável. Não é que gostasse da solidão, não sabia se gostava ou não de estar só e pendia a crer até que não, mas, por assim dizer grávida todo o tempo ou a criar os filhos, ocupada com os mil pormenores da vida do marido, não podia entregar-se a tudo isso senão renunciando à vida da sociedade. Todos os que a tinham conhecido em solteira se surpreendiam com a transformação que nela se operara, como se isso fosse realmente qualquer coisa de extraordinário. Só a velha condessa compreendera, com o seu instinto maternal, que os arrebatamentos da jovem Natacha apenas se traduziam, no fundo no desejo de encontrar um marido e de fundar uma família, como, aliás, ela própria o proclamara certo dia em Otradnoie, por brincadeira, embora mais a sério do que pensava. E grande era o espanto da condessa perante a surpresa das pessoas que não compreendiam a sua Natacha, repetindo-lhes que ela sempre disse que viria a ser esposa e mulher modelos.
— Exagera tanto o seu amor pelo marido e pelos filhos — acrescentava — que chega a parecer absurdo.
Natacha não seguia a regra ideal que certos homens superiores aconselham, principalmente franceses, segundo a qual uma mulher depois de casada não deve desleixar-se, pondo de lado todos os recursos da valorização dos seus encantos: pelo contrario, deve cuidar ainda mais de si que antes do casamento e procurar seduzir o marido como o tentara fazer antes de casada, Natacha abandonara de vez todos os cuidados com os seus atractivos e entre eles o mais poderoso: o talento de cantora. Renunciara ao canto precisamente por ser esse o maior dos seus encantos. Não se preocupava agora em ter boas maneiras, em falar com elegância, em assumir diante do marido as atitudes que mais a valorizassem, nem em vestir lindos vestidos, ou ter exigências que o poderiam vir a importunar. Procedia de maneira inteiramente oposta aos conselhos que é costume dar-se a uma rapariga. Sentia que os atractivos que o instinto outrora lhe (—,usinara a utilizar seriam agora simplesmente ridículos aos olhos do marido, a quem ela se entregara, desde o primeiro minuto, completamente, com toda a sua alma, sem nada lhe ocultar dos seus sentimentos mais íntimos. Compreendia que o vínculo que os uma nada tinha que ver com toda essa poesia que o atraíra para ela: era feito de coisas indefiníveis e bem mais sólidas, muito parecidas com os laços que prendem a alma ao corpo.
Fazer caracóis, usar anquinhas, cantar romanzas na intenção de prender o marido, parecia-lhe coisa tão despropositada como adornar-se para agrado de si mesma. Arranjar-se para agradar aos outros talvez lhe desse satisfação, nem ela sabia: mas a verdade é que não tinha tempo para isso. A principal razão que a levava a menosprezar ao mesmo tempo o canto, a maneira de vestir e a distinção na linguagem era apenas esta: não ter tempo para nada.
É sabido que o homem tem a faculdade de se deixar absorver completamente por um único objecto, por mais insignificante que seja. E também é sabido que não há objectos insignificantes em si mesmos que se não tornem de uma importância extraordinária desde que a atenção se concentre neles.
O absorvia Natacha por completo era a família, isto é, o marido, que havia mister manter de portas adentro, para que lhe pertencesse a ela e a mais ninguém, e as crianças, que era preciso dar à luz depois criá-las e educá-las.
E depois ela dava-se, não apenas em espírito, mas com toda a alma, com todo o ser, às suas ocupações, e quanto mais estas ganhavam importância a seus olhos menos se sentia capaz de se entregar a qualquer outra ocupação: concentrava sobre o mesmo objectivo toda a sua actividade e não tinha tempo sequer de lazer o que lhe parecia necessário.
As discussões e os argumentos acerca dos direitos da mulher, c12s relações entre cônjuges, das liberdades e direitos que a cada um deles competem, embora não constituíssem, como hoje, «problemas», já então existiam, mas tais questões eram-lhe completamente alheias e nem sequer as entendia.
Esses problemas, então, como aliás hoje em dia, só existiam para as pessoas que encaravam o casamento apenas pela satisfação que os esposos eram capazes de proporcionar um ao outro, Isto é, por um dos seus aspectos, e não pelo seu verdadeiro fim, que é a família.
Se àqueles que entendem que a finalidade das refeições é a alimentação dos indivíduos não se pode perguntar se este ou aquele manjar lhes proporciona prazer, o mesmo acontece com os que só vêem no casamento uma maneira de constituir família.
Se a finalidade de uma refeição é alimentar o corpo, aquele, que ingira sucessivamente duas refeições obterá, talvez, grande satisfação, mas não o fim proposto, pois a verdade é que o estômago não poderá digerir essas duas refeições.
Se a finalidade do casamento é a família, aquele ou aquela que queira ter várias mulheres ou vários homens, talvez venha a tirar daí grande prazer, mas o que não terá, em caso algum, é uma família.
Dado que a finalidade do comer é alimentar-se o homem e a do casamento constituir família, o problema resume-se a não se comer mais do que o estômago pode digerir e a não se ter mais mulheres ou mais maridos do que os necessários para a família, isto é, a não se ter mais do que uma mulher ou mais do que um marido. A Natacha era necessário um marido. Tinha um. Esse marido dava-lhe uma família. E assim não só não sentia necessidade de ter um marido melhor, mas também, como as suas energias morais só a compeliam a consagrar-se a esse marido e à sua família, não via qualquer interesse em pensar no que poderia acontecer caso as coisas se passassem de outra maneira.
Em geral, a sociedade não lhe agradava; preferia muito mais o convívio dos parentes, da condessa Maria, do irmão, da mãe, de Sónia. Esta sociedade agradava-lhe porque lhe permitia, sem estar penteada, sem estar arranjada, em trajes matinais, sair precipitadamente do quarto das crianças, a alegria no rosto, mostrando as fraldas raiadas de amarelo em vez de verde e poder dizer que o seu filho estava agora muito melhor.
A tal ponto Natacha se mostrava descuidada no seu porte, que o penteado, as palavras que lhe saíam pela boca fora, os ciúmes que sentia de Sónia, da preceptora, de todas as mulheres, fossem belas ou feias, era assunto habitual das zombarias daqueles que a rodeavam. A opinião geral era que Pedro estava sob o tacão da bota da mulher, e em verdade assim parecia.
Desde os primeiros dias do seu casamento que Natacha lhe fizera saber quais as suas exigências. Pedro surpreendeu-se muito com a atitude da mulher — nova para ele —, segundo a qual todos os minutos da sua vida, dele, marido, dali para diante, deviam pertencer-lhe a ela e à família. E se estas exigências o surpreendiam, ao mesmo tempo, lisonjeado, ia-se submetendo a elas.
A submissão de Pedro era tal que não só, claro está, se não atrevia a fazer a corte ou mesmo a falar um pouco mais amavelmente a outra mulher, como não ousava ir jantar mais ao seu clube, sem outra intenção apenas que matar o tempo, ou fazer qualquer despesa supérflua ou empreender qualquer longa viagem, a menos que fosse para tratar de negócios, incluindo no número destes as suas ocupações intelectuais, inacessíveis à inteligência dela, mas a que no entanto atribuía alta importância, Em compensação, Pedro em casa tinha plenos direitos para dispor não só de si mesmo, mas de toda a família. Natacha, na intimidade do lar, era escrava do marido; em casa, tinham de andar em bicos de pés quando Pedro lia ou escrevia fechado no gabinete. Qualquer fantasia que ele tivesse imediatamente a via realizada. E bastava que exprimisse um desejo para Natacha se precipitar a satisfazê-lo.
Toda a casa se movia sob as pseudo-ordens de Pedro, isto é, de harmonia com os seus gostos, que a mulher tudo fazia por adivinhar.
O seu modo de vida, o ponto onde deviam residir, os conhecimentos, as amizades, as ocupações de Natacha, a educação das crianças, tudo obedecia à vontade de Pedro, tratando ela de lhe adivinhar os mais pequenos desejos. E na verdade conseguia surpreender os mínimos pensamentos do marido, e desde que se julgava na posse deles com firmeza sustentava o que julgava ter previsto. Se o próprio Pedro mudava então de parecer, era ela a primeira a combatê-lo com as próprias armas.
Foi o que aconteceu, por exemplo, durante a época difícil, memorável para Pedro, em que Natacha, depois do nascimento do seu primeiro filho, assaz débil, se viu obrigada a tomar, sucessivamente, três amas, caindo doente, tanto a incomodou este percalço, e ele lhe expôs, um dia, as ideias de Rousseau, com as quais estava inteiramente de acordo, acerca dos perigos da amamentação antinatural pelas amas. Aquando do segundo parto, e apesar da oposição da mãe, dos médicos e do próprio marido, que todos se opunham a que ela amamentasse a criança, alegando ser coisa então inaudita e até funesta, teimou em fazê-lo e a partir de então foi ela quem deu de mamar aos filhos.
Acontecia frequentemente, em momentos de má disposição, questionarem os dois esposos, mas passado tempo, com grande surpresa e não menor alegria, Pedro vinha a verificar, tanto nas palavras como nos actos da mulher, a influência das ideias causa da disputa. E não só verificara que eram as suas próprias que ela punha em prática como se apercebia de que essas ideias estavam agora despojadas dos exageros a que o conduzira a paixão no momento em que as sustentara.
Depois de sete anos de casado, Pedro adquiria, com grande satisfação, a consciência de que não era má pessoa, sobretudo pelo facto de se ver reflectido na mulher. Sentia que nele o bom e o mau se misturavam, neutralizando-se mutuamente. Na mulher, porém, apenas se reflectia o que nele era verdadeiramente bom: tudo o que não tinha essa qualidade via-se posto de parte. E não era a lógica que intervinha nesta penetração das inteligências, mas uma força misteriosa e imediata.
[XI]
Dois, meses antes, Pedro, já em casa dos Rostov, recebera un carta do príncipe Fedor chamando-o a Petersburgo para discutir importantes assuntos que iriam ser debatidos pelos membros de uma sociedade de que ele era um dos principais fundadores.
Ao ler esta carta, Natacha, que lia toda a correspondência do marido, embora muito lhe custasse separar-se de Pedro, logo aí o entusiasmou a ir a Petersburgo. Atribuía grande importância às actividades intelectuais e abstractas do marido, embora as não compreendesse, e receava ser, a este respeito, um empecilho na sua vida. Pedro, depois de ler a carta, e de lhe ter perguntado, com um tímido olhar, que pensava ela do caso, ouviu-a dizer que partisse, embora fixando-lhe desde logo o dia em que deveria voltar. E foi assim que ele teve uma folga de quatro semanas.
Havia já quinze dias que o prazo findara e Natacha passava a vida receosa, triste e irritada.
Denissov, que aparecera em Lissia Gori por aqueles dias, descontente como estava, velho militar que era, com o facto de se ver na situação de general reformado, encarava com desapontamento, e também uma certa tristeza, a Natacha que em nada se parecia com aquela criatura a quem quisera outrora.
Tudo quanto via e ouvia agora na feiticeira de tempos idos eram olhares repassados de tristeza e enfado, respostas incoerentes ou tagarelices sobre as crianças.
Durante todo aquele tempo mostrara-se sempre macambúzia e irritada, sobretudo quando a mãe, o irmão, Sónia ou a, condessa Maria, para a consolar, procuravam desculpar Pedro e aventar hipóteses sobre os motivos do seu atraso.
— Sempre essas tolices, essas burrices, essas dissertações que para nada servem e essa absurda sociedade — dizia Natacha, sem reparar que falava de coisas a que atribuía a mais alta importância.
E lá ia para o quarto das crianças, dar de mamar a Pétia, o seu filhinho. Ninguém era capaz de lhe dizer nada mais razoável e, consolador que esse ser de três meses, suspenso do seu seio, quando lhe sentia o remexer da boca e o bafo do narizito.
Aquele ser minúsculo dizia-lhe: «Estás irritada, estás cheia de ciúmes, desejarias vingar-te dele, estás com medo, mas eu sou ele. Eu sou ele. E a isto nada havia a responder. Era a pura verdade.
Natacha durante, aqueles quinze dias de inquietação muitas vezes procurou consolar-se junto da criança, e tantos cuidados lhe deu que a aleitou de mais e ela caiu doente. Se, por um lado, isso a atormentou muito, pelo outro era o que lhe convinha de momento. Os cuidados que teve de ter com a criança fizeram-na suportar mais facilmente a ausência do marido. Dava de mamar ao filho quando a carruagem de Pedro se ouviu junto do alpendre e a criada velha, que sabia quanto isso poderia alegrar a ama, apareceu subitamente, e sem dizer nada, à, porta do quarto, o rosto banhado de alegria.
— Chegou? — inquiriu Natacha, vivamente, num sussurro, sem fazer o mais pequeno movimento, não fossa acordar o filho.
— Chegou, sim, minha ama — disse a criada em voz baixa.
O sangue, subiu-lhe à cara e involuntariamente fez menção de se erguer, mus era-lhe impossível correr ao encontro do marido. A criança abriu os olhos: «Estás aí, parecia dizer, e preguiçosamente pôs-se a remexer os lábios à procura do peito.
Natacha retirou-lhe, suavemente o seio, embalou-o, entregou-o à criada e, apressada, dirigiu-se para a saída. Ao pé da porta deteve-se, como que movida por um sentimento de remorso, pois tão grande era a sua alegria que ia deixar o filho antes do tempo, e voltou-se. A criada, com o cotovelo erguido, deitava a criança no berço.
— Vá vá. Minha senhora, vá descansada murmurou ela, sorrindo, com a familiaridade que habitualmente havia entre ambas.
E Natacha, em passos rápidos, dirigiu-se para o vestíbulo.
Denissov, que vinha a sair do gabinete, de cachimbo na boca, para se dirigir ao salão, viu nela, imediatamente, a antiga Natacha. Do seu rosto, como que transfigurado, emanava uma luz clara e radiante,.
— Chegou! — exclamou ela, ao passar, correndo, e Denissov sentiu que o regresso de Pedro, de quem ele não gostava, aliás, o encantava afinal. Quando chegou ao vestíbulo, Natacha viu um homem de alta estatura, com uma peliça, que desatava o nó da manta do pescoço, «É ele! É verdade. Ele aí está», dizia ela para si mesma. E, correndo para ele, enlaçou-o, apertou-o ele, encontro ao peito, depois, afastando-se, fitou o rosto vermelho e feliz de Pedro, coberto de geada. «Sim, é ele, feliz, contente...»
E de súbito vieram-lhe à lembrança as inquietações que a tinham atormentado naqueles últimos quinze dias. A alegria que lhe inundava o rosto desvaneceu-se; franziu as sobrancelhas e lançou sobre Pedro uma torrente de reproches e de palavras pouco amáveis.
— Sim, sentes-te feliz, estás muito contente, fartaste-te de te divertir... E eu, durante todo este tempo?... Ao menos que te lembrasses das crianças. Estou a amamentar, o leite estragou-se... Pétia esteve a morrer. E tu, todo este tempo, sentias-te alegre. Olhem que alegre ele está...
Pedro sabia que não era culpado, pois lhe fora impossível voltar mais cedo; sabia que aquele destempero da mulher era despropositado e que, aliás, estaria sanado dentro de dois ou três minutos; sabia, sobretudo, que ele próprio estava muito bem disposto. Teria gostado de sorrir, mas não ousou sequer pensar nisso. Com uma expressão assustada e lastimosa, baixava a cabeça.
— Não me foi possível. Juro-te por Deus! E o Pétia, como está ele?
— Agora já está bom. Vamos vê-lo. Não tens vergonha! Se visses o estado em que me encontro quando tu não estás, o que me atormentei...
— Não estás doente?
— Vamos, anda — continuou ela, sem lhe largar o braço.
E entraram nos aposentos que ocupavam.
Quando Nicolau e a mulher se puseram à procura de Pedro, estava ele no quarto dos filhos e tinha na sua enorme mão direita o bebé, que acabara de acordar. Fazia-lhe festas e a redonda carinha da criança, de boca desdentada, muito aberta, iluminava-se com um sorriso feliz. A borrasca passara e agora um sol alegre iluminava o rosto de Natacha, que contemplava enternecidamente o marido e o filho.
— E sempre falaste com o príncipe Fedor? — perguntou ela.
— Sim, falei.
— Vês como ele a segura bem? — Natacha referia-se à cabeça da criança. — Ah!, o medo que eu tive!... Viste a princesa, a nossa prima? É verdade estar enamorada desse...
— Imagina, sim...
Nesse momento entraram Nicolau e a condessa Maria. Pedro, sempre com o filho ao colo, debruçou-se e beijou os dois, enquanto ia respondendo às perguntas que lhe faziam, Mas, de facto, apesar do interesse que a conversa podia ter, o que absorvia por completo a atenção do pai era o bebé, com a sua touquinha e a sua cabeça pouco segura.
— Que lindo! — dizia a condessa Maria, mirando o pequeno e fazendo-lhe festas. — O que não compreendo — prosseguiu ela, voltando-se para o marido — é que tu não aprecies o encanto destes maravilhosos pedacinhos de carne.
— É verdade, não posso — volveu Nicolau, olhando para o petiz friamente — Esse pedaço de carne. Anda daí, Pedro. — Isso não o impede de ser um pai carinhoso – acrescentou ela, como para desculpar o marido —, mas só quando os filhos têm mais de um ano, ou então...
— O Pedro, esse, sabe muito bem servir de ama-seca — exclamou Natacha. — Diz que a mão é precisamente do tamanho do rabinho dele, Olhem.
— Sim, sim, mas para isto não — protestou Pedro, rindo, e, pegando na criança, entregou-a à criada.
[XII]
Como sempre acontece em todas as famílias, em Lissia Gori formavam-se vários mundos distintos, os quais, conservando embora as suas particularidades, graças a mútuas concessões, se fundiam num todo harmonioso. O mais pequeno incidente que se verificasse em casa, alegre ou triste para um grupo, era importante para todos; no entanto, cada um deles tinha motivos particulares para se sentir contente ou para se afligir com este ou aquele incidente.
Assim, a chegada de Pedro foi considerada acontecimento alegre e importante para todos.
Os criados, os juizes mais fiéis dos seus amos, pois os julgam não por conversas ou manifestações exteriores, mas pelos seus actos e conduta, estavam satisfeitos com o regresso do marido de Natacha. Sabiam que enquanto ele ali estivesse o conde não iria todos os dias percorrer as propriedades e seria mais alegre e mais indulgente, e, além disso, porque nos dias de festa todos receberiam bons presentes.
As crianças e as suas preceptoras também estavam contentes, porque ninguém havia como ele para animar as pessoas. Só Pedro sabia executar no cravo a «escocesa» — a única peça que tocava —, capaz de servir, dizia ele, para acompanhar todas as danças deste mundo, e de resto também lhos teria trazido presentes.
Nikolenka, que então andava pelos quinze anos, rapazinho de cabelos louros encaracolados e lindos olhos, de expressão inteligente, embora doente e delicado, não podia conter a sua alegria, pois o tio Pedro, como ele lhe chamava, era objecto de toda a sua admiração e do seu entusiasmo. Ninguém particularmente o ensinara, contudo, a gostar de Pedro, a quem só via de longe em longe. A condessa Maria, que o educara, servira-se de toda a sua influência para que o sobrinho gostasse do tio Nicolau como ela própria gostava: Nikolenka, gostava, realmente, dela, mas na sua afeição havia uma certa dose de reserva. Pelo contrário, adorava o tio Pedro. Não aspirava a ser nem hússar, nem a ter a cruz de S. Jorge como Nicolau: queria ser instruído, inteligente e bom como Pedro. Na presença deste, o rosto do pequeno iluminava-se, e quando ele lhe dirigia a palavra, corando de satisfação, a comoção embargava-lhe a voz. Escutava com avidez tudo quanto ele dizia, e depois, com Dessales ou sozinho consigo mesmo, lembrava-se do que ouvira e comentava as suas palavras.
O passado do tio, as suas desditas antes da guerra de 1812, de que ele, pelo que sabia, pudera engendrar uma confusa e poética imagem, as suas aventuras em Moscovo, o seu cativeiro, Platão Karataiev, de que Pedro lhe falara, o seu amor por Natacha, a quem ele também amava à sua maneira, sobretudo a amizade pelo pai, de quem ele se não recordava, tudo isto o revestia a seus olhos de qualquer coisa de sagrado e lhe dava o prestígio de um herói.
As palavras que lhe ouvira referentes ao pai e a Natacha, a emoção de Pedro sempre que falava do defunto, o enternecimento contido e piedoso quando se aludia ao seu nome, deixavam adivinhar a esse rapazinto, em quem o amor despontava, que o amara aquela senhora e a confiara, ao morrer, ao seu amigo. E esse pai, de quero ele não podia lembrar sequer os traços, era para ele como que uma divindade, de que ninguém podia aproximar-se e em quem não podia pensar sem o coração apertado e os olhos cheios de lágrimas de orgulho Por isso foi grande a sua alegria ao ver chegar Pedro.
Os convidados também se sentiam felizes por tornar a vê-lo estava sempre animado e servia de agente de ligação entre todos os membros da sociedade.
Os adultos da casa, sem contar a mulher, mostravam-se contentes com um amigo que punha toda a gente à vontade e a ninguém maçava.